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Delito de Opinião

Os barbudos que odeiam as mulheres

Pedro Correia, 25.09.22

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Teocracia islâmica oprime o Irão há 43 anos

 

O Irão está em pé de guerra. Não contra outro país, mas contra si próprio. Ou antes: o Estado teocrático dos aiatolás declarou guerra ao povo iraniano. Sobretudo às mulheres. Pelo simples facto de serem mulheres. 

Há estados totalitários onde impera o ódio de classe ou o ódio racial. No Irão sob a bota dos clérigos barbudos impera o ódio sexual. Os aiatolás - alvos de tanta tolerância e "compreensão" em círculos bem-pensantes do Ocidente - odeiam as mulheres. E agem em conformidade, exercendo sobre elas uma repressão permanente, que agora suscita um gigantesco levantamento popular neste país sujeito há 43 anos a uma das mais ferozes ditaduras do planeta.

 

Tudo começou no dia 16 com a morte de uma jovem iraniana curda, detida e agredida pela imoral "Polícia da Moralidade" por mostrar parte do cabelo na via pública, algo interdito neste Estado que em 1979 mergulhou nas trevas medievais.

Mahsa Amini, de apenas 22 anos, sucumbiu à violência policial. As suas imagens, já agonizante, indignaram milhões de jovens de ambos os sexos que agora arriscam a vida nas ruas. Revoltam-se contra a brutalidade do totalitarismo islâmico neste país onde nascer mulher é sofrer dupla indignidade.

 

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Mahsa Amini, assassinada aos 22 anos no Irão por «mostrar o cabelo»

 

Os clérigos, assustados com a revolta popular em todas as províncias do país, fizeram aquilo em que mais se especializaram: ordenaram aos esbirros do poder que atirassem a matar. Pelo menos 50 pessoas já tombaram sob as balas assassinas. A tropa está a ser mobilizada para esmagar a rebelião civil, entre apelos públicos da ala mais extremista do regime à execução sumária dos jovens que se atrevem a desafiar o Governo.

Mas a rebelião cívica continua: mulheres sem véu exibem com orgulho o cabelo na via pública, jovens registam imagens que divulgam nas redes sociais apesar de o Governo ter imposto sérias restrições à internet. Nas ruas, a palavra mais escutada é «liberdade».

 

A nova vaga de protestos pode ser afogada em sangue, como aconteceu em 1999 e 2009, às ordens de um regime repugnante, que apenas subsiste pelo aparelho repressivo montado ao longo destas quatro décadas. Detenções ilegais de opositores e a prática de tortura nas prisões tornaram-se banais no Irão, como tem denunciado a Amnistia Internacional.

Estes barbudos que odeiam as mulheres são hoje fortes aliados de Vladimir Putin e da sua corte de oligarcas, algo que faz todo o sentido. Estão bem uns para os outros.

Eterno Feminino

Maria Dulce Fernandes, 19.07.22

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Dei comigo para ali nua... pois se nua não estava, para que serviriam os panos que me cobriam a nudez, se pelas pregas resvalavam carne e pele em abundância suficiente para encher a ânfora maior repousada à sombra seca duma árvore de folha perene, que resistia debaixo dum calor insuportável.
Por todo o lado, belas e musculadas mulheres, morenas e sorridentes, seminuas naqueles panos parcos e finos, se exercitavam debaixo dum abrasador sol de fogo, fazendo alongamentos ou envolvidas num abraço de força e destreza, dentro dum círculo desenhado no chão, com a pele gotejada de suor que lhes conferia um brilho adamantino, atraente e formidável.
"Anda, bacante, é a tua vez." Percebi que se dirigiam a mim e atrevi-me a perguntar: "Bacante Porquê?"
"Ora mulher, branca e gorda é certo e seguro que não pertences ao culto de Artémis. Crês tu porventura conseguir finalizar a Heraia?" Riram todas. Afinal era mesmo engraçado que alguém sem preparação física visível se imaginasse sequer nos primeiros pés da Heraia... Se se obrigasse a atingir um estádio poderia até ter fim idêntico ao do valoroso Feidípedes, que engrossa agora o panteão dos glorificados pela morte magnífica. 

Afinal estávamos em Marathónas, caramba!

Embalada pelo conhecimento adquirido em muitas horas de conversa/estudo com a filha historiadora, atrevi-me a contrapor que de onde eu vinha as mulheres eram fortes e resistentes e não corriam só a Heraia, corriam todos os seis sextos, corriam a Maratona como os homens, taco a taco, lado a lado, com a mesma vontade, o mesmo vigor e muitas vezes melhor classificação no podium.
Fizeram-me calar logo, não fosse homem de atalaia ouvir tamanho sacrilégio e condenarem-me sem apelo nem agravo ao monte Taigeto. "Mas isso do Taigeto não é só para deficientes?", perguntei. Há olhares que valem mil palavras. Os delas disseram tudo.
Ripostei: "Se eu vivesse numa terra onde os homens brutalizam as mulheres, que se calam por respeito e medo e os da religião fossem feios, porcos e maus, permitissem incestos, violações e consanguinidades, fugiria a sete pés ou torna-me-ia eremita!!" Parei de imediato para pensar na ironia das palavras que proferira, que transbordavam falsidade por todas as entrelinhas... eu, a apregoar sobre o meu mundo de telhados de vidro... 
Sorri tristemente, encolhi os ombros e dei o braço à top-model que estava a meu lado:
"Vá, vamos beber qualquer coisa fresca, que eu ensino-vos sobre lingerie sensual, dores de cabeça e de como fazer os homens pensar que são os donos da vontade."
O sol pôs-se, caiu a noite, surgiram fogueiras mil, rimos, bebemos e adormecemos abraçadas como irmãs, filhas dum sangue antigo, espesso e tão poderoso que perdurará pela eternidade.

Eunice

Pedro Correia, 15.04.22

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Nunca entrevistei a Eunice - e tenho pena. Era assim que os portugueses a conheciam: Eunice. Representou durante mais de sete décadas, até há poucos meses. A bem dizer, até ao fim. Só lhe faltou morrer em palco para avolumar o mito. Mas teve uma carreira artística plena e foi consagrada pelo maior dos títulos: a ovação contínua dos espectadores. Que foram mudando, só ela se manteve.

Parecia eterna, como parece o grande Rui de Carvalho, agora o último sobrevivente daqueles gigantes portugueses da arte de representar nascidos há cerca de cem anos, na década de 20 do século passado. A Carmen Dolores, o Raul Solnado, a Milu, o José Viana, a Glicínia Quartin, o Armando Cortez. A enorme Amália. 

Vi-a no cinema desde miúdo (em filmes como Camões e Ribatejo), lembro-me dela desde sempre na televisão (por exemplo n'O Jogo da Verdade, primeira série dramática produzida pela RTP, e A Banqueira do Povo, talvez a melhor telenovela portuguesa já realizada) e aplaudi-a no teatro (em peças como Gin GameA Casa do Lago). Como se costuma dizer, era muito lá de casa. Das casas de todos nós.

Era de outro tempo, tinha contracenado com figuras quase lendárias, parecia transportar consigo toda a memória do palco. De uma irrepreensível qualidade em vários registos, do drama à comédia. Não se ajustava aos tradicionais cânones da beleza mas era daquelas raras figuras que bastavam irromper em cena para deslumbrar a plateia com o fulgor do seu magnetismo pessoal.

Ao contrário de tantas outras neste país ingrato, Eunice Muñoz foi repetidamente e justamente louvada em vida. Até na sua Amareleja natal, contrariando o aforismo bíblico de que ninguém é profeta na sua terra. E mereceu também o apreço unânime dos colegas de profissão, nada fácil de alcançar. 

Entra em definitivo na imortalidade após uma vida longa, cheia e realizada. Inclino-me em sua memória, numa vénia sentida e grata.

A Mulher

Pedro Correia, 08.03.22

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Elena Ossipova tem 80 anos. Nasceu em Leninegrado quando a segunda maior cidade russa se encontrava cercada por forças da Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial. Conhece desde o berço a violência dos conflitos bélicos.

Chocada com a agressão do seu próprio país à Ucrânia, esta pintora e activista decidiu ostentar dois rudimentares cartazes de protesto - um a favor da paz, outro contra a utilização de armas nucleares. Onde se liam frases como estas, escritas em russo: «Filho, não vás para esta guerra! Soldado! Larga as armas e torna-te um verdadeiro herói! Não dispares!»

Discurso interdito na Rússia totalitária de Vladimir Putin onde a palavra guerra está banida do léxico público e uma mãe que chore um filho soldado morto na Ucrânia arrisca pesada pena de prisão por traição à pátria. 

Mesmo assim Elena saiu à rua, em Sampetersburgo. Exibindo as mensagens que redigiu naqueles cartazes considerados subversivos pelos esbirros do ditador. Fisicamente alquebrada mas com notável desassombro cívico - equivalente ao dos sete mil cientistas e académicos russos que se atreveram a escrever uma corajosa carta aberta ao déspota do Kremlin, pedindo-lhe que ponha fim à guerra. É quanto basta para poderem penar nos calabouços.

Durou poucos minutos, o protesto de Elena na passada quarta-feira. Oito polícias antidistúrbios, munidos de capacetes e coletes antibalas, não tardaram a comparecer no local, detiveram-na e transportaram-na para local incerto. Tal como já aconteceu a mais de dez mil pessoas indiciadas desde 24 de Fevereiro em várias cidades russas por delito de opinião. Ninguém escapa à senha persecutória dos lacaios fardados. Que também já detiveram crianças pelo «crime» de pretenderem pôr flores à porta da embaixada ucraniana em Moscovo.

Esta senhora com idade para ser avó daqueles que a prenderam deu ao mundo uma inequívoca lição de dignidade moral. Mostrando ter enorme robustez interior apesar da aparência frágil. Confirmando que é imperioso não confundir Putin com o povo russo, que sofre hoje quase tanto como os vizinhos ucranianos.

Não concebo imagem com maior força simbólica neste Dia Internacional da Mulher.

Eu também

Cristina Torrão, 17.05.21

«Quando tinha 12 anos fui assediada por um vizinho. Um homem com idade para ser meu avô dirigiu-me palavras obscenas, propostas porcas. Sem que me tivesse apercebido, a mulher desse homem também ouviu o seu assédio e confrontou-me dias depois, acusou-me de lhe provocar o marido, dirigiu-me palavras que uma mulher não deve ter para com uma menina. Dele tive medo, mas ela fez-me sentir culpada, suja. Uma mulher com idade para ser minha avó preferiu atacar-me, a mim, uma menina que nem era ainda uma mulher, que enfrentar a realidade de estar casada com um pedófilo, um predador».

«Tinha treze anos quando comecei a ser assediada e nada me preparou para o choque. Na escola todos os rapazes apalpavam as maminhas e os rabos e os genitais de todas as raparigas e levantavam-lhes a saia. Os professores e auxiliares que viam isto - e isto acontecia mais ou menos em todos os intervalos - nunca fizeram nada. Hoje em dia surpreende-me a rapidez com que todos, raparigas e rapazes, aceitámos que este assédio era “normal”».

«Quando comecei a sair regularmente à noite, acho que nunca me senti tão insistentemente tocada, agarrada, ignorada quando dizia que não, que não queria conversar, que não queria dançar, que não queria um copo, etc. Era como se os homens, muitos homens, achassem que tinham o direito de dispor do meu tempo, do meu corpo, de mim. E na mesma medida em que achavam que tinham esse direito, achavam que eu não tinha o direito de lhes dizer não».

«Na verdade, foi com a chegada das minhas filhas à adolescência que percebi a violência das situações por que passei. Reagi sempre com desprezo ou distância, soube defender-me, pelo que nunca me vi como uma vítima. Mas fui assediada várias vezes em contexto laboral. E não quero que as minhas filhas, ou qualquer mulher, ou qualquer homem, continuem a encarar essa situação como uma fatalidade».

«O café está vazio. Sou o único cliente. Atrás do balcão, um empregado, jovem, aproxima-se da colega que arruma as chávenas sobre a máquina do café e passa as costas da mão devagar pelo braço nu da empregada. Ela sobressalta-se, olha-o com medo e foge para o outro extremo do balcão sem dizer uma palavra. Ele vai atrás dela, a rir, divertido, com uma mão agarra-a pelo pulso e força a outra mão através das mãos da rapariga para lhe acariciar de novo o braço. A empregada treme de confusão, de medo e de raiva e sacode as mãos, impotente, com lágrimas nos olhos mas sem querer gritar para não fazer escândalo. Levanto-me da mesa e aproximo-me do balcão. O empregado sorri-me cúmplice, entre homens, sem largar a rapariga, pensando que eu quero apreciar mais de perto o espectáculo e continua a deslizar a mão pelo braço da rapariga. Quando lhe digo para parar, hesita, considera a hipótese de me confrontar e acaba por largar a colega murmurando qualquer coisa do género “Era uma brincadeira… Não estava a fazer nada…”».

«Entrei num café com um amigo de família, bastante mais velho. Senti que tinha uma pedra no sapato a magoar-me. Parei. Apoiei-me na porta. Sacudi o pé algumas vezes. Comecei a ouvir os risos dos muitos homens que estavam lá dentro, frases de uns para outros, senti o calor a subir-me à cara antes sequer de perceber porquê. Até que ouvi, voz gritada, para garantir que chegava a mim e a todos: «Esta aqui quando crescer vai dar uma bela égua. Quero ver é quem a consegue montar.» Gargalhadas. Eu tinha oito anos».

«Tinha doze anos, vinha das aulas. Eram cerca das 18h 15m, mas era Inverno e já estava escuro. Abri a porta do prédio onde morava, uma porta de madeira, sem qualquer vidro. Portas destas eram mais ou menos comuns, nos anos 1970. Entrei e, quando já estava quase a fechar a porta, alguém a travou, do lado de fora. Pensei ser alguém a querer entrar no prédio por boas razões, deixei a porta aberta e dirigi-me às escadas. De repente, fui agarrada pelas costas. Totalmente confusa, dei conta de que estava a ser toda apalpada. Quis gritar e não consegui, assim como não consegui libertar-me. Senti um medo de morte, estava a entrar em pânico, quando fui largada. Senti a pessoa a afastar-se e olhei instintivamente para trás. Vi um rapaz com o sexo erecto fora das calças. Quando me viu a olhar para ele, apontou para o sexo. Subi as escadas a tremer (não havia elevador) e com o coração aos saltos, apesar de ele ter desaparecido. Não contei a ninguém, tive vergonha. E muito medo de que me culpassem - porque não fechaste a porta? Porque não gritaste? Porque não lhe deste um murro? etc., etc. Mas como pode uma miúda de doze anos estar preparada para um ataque destes?».

«Tinha 11 anos. Um velho vizinho do prédio "amigo" do meu pai, ouvia-me a entrar no elevador e como morava no andar de baixo, entrava lá dentro. Apalpava-me, um dia voltei-me e apertou-me o pescoço e ameaçou fazer mal aos meus pais».

Estes são relatos partilhados num grupo do Facebook. Um dos relatos é meu. As mulheres sentem-se encorajadas ao constatar que outras o fazem, surgem cada vez mais a dizerem «eu também». Há igualmente relatos de homens que assistiram a cenas de assédio e se revoltaram (como mostra o exemplo) e são muito bem-vindos. Os ataques, assédios e abusos acontecem em qualquer idade, mas escolhi propositadamente meninas, na sua maioria, para que todos se dêem conta, quão cedo nos mostram que são livres de nos intimidarem e usarem o nosso corpo. E com que impunidade o fazem.

Todas as mulheres já foram molestadas e assediadas, independentemente da maneira como se vestem, ou como se maquilham (ou não maquilham). Muitos homens até preferem as discretas e tímidas por serem mais susceptíveis de não reagir. As que dizem que não se importam, por ser “normal”, apenas recalcam o mal-estar e contribuem para a impunidade dos agressores. A maior falácia, na educação das meninas, é dizerem-lhes que nada de mal lhes acontece, se não usarem roupas provocantes e não derem nas vistas. Não digam isso às vossas filhas e netas! É mentira!

Muitas vezes me dizem estar a cumprir «agenda de esquerda», com textos deste tipo. Mas esta não é uma luta de esquerda, é uma luta de todos os lados. Pela mudança de mentalidades.

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Uma parte muito relevante da sociedade, talvez a maior parte, ainda não consegue compreender o que se passa verdadeiramente quando uma mulher se sente assediada ou à beira de um assédio num contexto laboral. Essa circunstância desrespeita o mais profundo da sua dignidade, põe em causa direitos fundamentais básicos e inibe o seu pleno desenvolvimento como pessoa.

 

Não se trata de direitos das mulheres, não são coisas do “mulherio”.

Trata-se de Direitos Humanos!

Três em um

Pedro Correia, 15.09.20

1

Foi impressão minha ou nesta Feira do Livro que anteontem terminou em Lisboa as jovens que atendiam nos pavilhões das editoras foram escolhidas pela beleza ocular? Nunca vi tantos olhos azuis e verdes, ainda mais em evidência devido à máscara obrigatória que todos ali usávamos, vendedores e clientes. Pode ser coincidência, claro. Mas há muito que deixei de acreditar em coincidências.

 

2

Reparo num número crescente de mulheres, ainda jovens, exibindo cabelos brancos sem constrangimentos nem complexos. Efeitos do confinamento, do teletrabalho, das longas semanas com salões de cabeleireiro encerrados. Fazem muito bem. É tempo de todos descobrirmos (a começar por elas) que os cabelos brancos nada afectam a sensualidade feminina. E podem até acentuá-la. 

 

3

Comprei já não sei o quê, numa loja em Lagos, e reparei na jovem que me passava o troco: sorria com os olhos. Felicitei-a por isso: cada vez menos gente partilha sorrisos - e, nesta circunstância, ter a capacidade de sorrir com os olhos é um dom precioso. Um dom que devíamos desenvolver nestes dias de rostos ocultos pela uniforme expansão das máscaras. Custa menos do que parece.

Penso rápido (96)

Pedro Correia, 27.02.20

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A última mulher que figurou na posição dominante da hierarquia do Estado português foi a Rainha D. Maria II, falecida em 1853.

Mais de cem anos de república, com a sua retórica igualitária, revelaram-se incapazes de gerar o que já havia ocorrido na nossa monarquia setecentista e oitocentista: uma mulher no principal plano de representação simbólica e no principal posto de responsabilidade política.

Ex ore parvulorum veritas

Ana Cláudia Vicente, 11.01.20

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Sofonisba Anguissola (1527-1623), A Partida de Xadrez, 1555.

 

- Professora, aqui nesta parte do manual não aparecem mulheres. Só posso escolher um homem? Eu gostava de estudar uma mulher.

Não me tinha apercebido. Em retrospectiva é evidente, mas não me tinha apercebido. Em miúda não me teria ocorrido pôr a questão em aula de uma forma tão imediata e objectiva. Ora ali, no momento em que introduzi o projecto biográfico proposto - chamado Poliedro - pedia factualidade histórica e criatividade na análise e apresentação da vida de uma figura do Renascimento. Poderia ser artista, cientista, mecenas. O ponto de partida era o manual, a que se seguiriam outras fontes; nomes que aí não constavam já os tinha de retaguarda, para evitar repetições de trabalhos sobre as figuras mais evidentes e populares, como Michelangelo ou Da Vinci. Folha de instruções, plano de tarefa, calendarização, e no entanto não tinha antecipado esta questão que agora me punham: e mulheres? Mesmo que, dado o contexto de época, as figuras masculinas fossem a regra, por que não me ocorreram logo nomes de excepções femininas?

Em trabalhos sobre épocas posteriores tenho esse reflexo, mas porque não aqui? De improviso só me ocorreu o nome da infanta Isabel, filha de Manuel I de Portugal. Na aula seguinte, dedicada à definição das escolhas e execução do trabalho, suplementei a selecta inicial com algumas pintoras e mecenas relevantes; voltei, então, a olhar com admiração um nome difícil de pronunciar, mas cujas obras são facilmente reconhecíveis: Sofonisba Anguissola.

[Sofonisba Anguissola, Auto-Retrato, c.1560][Sofonisba Anguissola, Auto-Retrato, c.1560]

A Cremonesa, autora do notável retrato colectivo acima reproduzido onde figuram as suas irmãs Lucia, Minerva e Europa, integraria quatro anos mais tarde a corte de Filipe II de Espanha, onde foi estimada como retratista e professora de jovens talentos. Obteve reconhecimento em vida, sendo admirada pelos seus pares.

Captura de ecrã 2020-01-11, às 21.56.13.png[Sofonisba Anguissola, Retrato de Filipe II, 1565-1573]

Um dos aspectos mais felizes de ensinar História a gente nova é este: quem está aprender sobre o percurso da humanidade a partir de hoje não vive, não vê e não experimenta exactamente esse conhecimento como quem teve a mesma idade há vinte, cinquenta ou cem anos. E as suas perguntas não só nos levam a rever o que sabemos, como tiram do esquecimento saberes há muito havidos.

Da falta de memória

Pedro Correia, 26.10.19

Leio hoje no Expresso, em peça muito destacada, que há a partir de agora três mulheres à frente de bancadas parlamentares -- «são as sucessoras de Manuela Ferreira Leite, a única mulher até agora líder de um grupo parlamentar, entre 2001 e 2002».

Erro factual grave. A primeira mulher que liderou um grupo parlamentar foi Maria José Nogueira Pinto, à frente da bancada do CDS entre 1997 e 1999.

Um erro que é consequência directa da galopante falta de memória nas redacções dos órgãos de informação. Ao contrário do que muitos imaginam, o mundo não começou anteontem.

Abril no feminino?

Cristina Torrão, 24.04.19

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Imagem: Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra

Lisboa, Calçada de Carriche; mural do PCP

 

Estava eu sem inspiração nenhuma para escrever sobre o 25 de Abril, quando deparei com um post da jornalista Helena Ferro de Gouveia no Facebook:

«Mulheres de Abril

A história da Revolução ainda é contada no masculino deixando na sombra aquelas que foram chamadas de “companheiras na sombra”. Seja Maria Barroso, a retaguarda familiar de Soares, sejam as mulheres no partido comunista, sejam escritoras, artistas, professoras, sejam as mulheres de alguns movimentos católicos, sejam as mulheres-mães-noivas-namoradas dos que combateram na guerra colonial ou dos que pensaram o derrube do regime.

Mesmo após o fim da ditadura, no período quente, elas não viveram tempos fáceis. A escritora Maria Teresa Horta recorda que ajudou a organizar uma manifestação de luta pelos direitos das mulheres. Nessa manifestação previa-se a queima de símbolos da opressão feminina: vassouras, grinaldas de noiva… Porém, centenas de homens juntaram-se em redor das mulheres e começaram a bater-lhes. "Eram murros, despiam as mulheres, tentavam violá-las", conta a escritora.

Quarenta e cinco anos depois de Abril muito mudou para as mulheres em matéria de direitos e liberdades, há ainda um longo caminho a percorrer para mudar mentalidades e falta cumprir a igualdade. E foi também para isso que se fez Abril.»

 

Interessa-me o papel da mulher nos vários momentos da História e comecei a ler Mulheres da Clandestinidade, de Vanessa de Almeida. O que mais me surpreendeu, até agora, foi a forma de como as mulheres comunistas eram discriminadas no próprio partido, um partido que, já durante o salazarismo, fazia da igualdade uma das suas bandeiras.

Porém, os nossos comunistas não são caso único. Vi, há tempos, um documentário na TV alemã sobre as mulheres do Kremlin e fiquei igualmente abismada como elas eram usadas, mas “escondidas”, a fim de dar protagonismo aos homens. Muito poucos saberão o nome das mulheres que estiveram ao lado de personalidades como Lenine ou Estaline, por exemplo. Ainda hoje, a Rússia não lida bem com a figura da “primeira dama” (para não falar de uma mulher à frente dos destinos da nação). Nesse programa, dizia-se que Raíssa Gorbachev foi muito criticada por constantemente surgir ao lado do marido. Putin surge sempre sozinho. É verdade que se separou da mulher, mas, mesmo quando ainda eram casados, a sua actuação era idêntica. Ou alguém se lembra da mulher de Putin?

Regressando à nossa Revolução: é sabido que o 25 de Abril abalou os costumes, porquanto o vendaval causado pelos chaimites de Salgueiro Maia coincidiu com a revisão da Concordata, por parte do Vaticano, permitindo o divórcio civil para casais unidos pela Igreja. Mesmo sendo criança (entre os oito e os doze anos, se englobarmos o Verão Quente e o período que se lhe seguiu), não fiquei indiferente à confusão de certos adultos, perante tanta liberdade. Há uns anos, escrevi as minhas memórias do 25 de Abril, que acabei por misturar com comentários da adulta que hoje sou. Ainda não consegui publicá-las em livro, mas não resisto a transcrever um pequeno excerto:

«Muitos pais de família romperam com as amarras que os haviam levado ao casamento apenas para terem sexo à disposição. Partiram à procura das Emanuelles* e das gargantas fundas*, o que aliás está longe de implicar que as tenham encontrado. Sá Carneiro acabou por personalizar esta nova ordem, ao divorciar-se para se juntar a outra mulher. É curioso constatar que foi um homem de direita, que muitos apelidavam ainda de fascista, que acabou por se tornar na personificação da nova ordem.

Porém, o desaparecer de muitas convenções sociais e de outras fachadas foi, em parte, aparente. À semelhança de outros momentos da História, as liberdades a nível individual eram pensadas sobretudo para os homens. Naqueles anos imediatos ao 25 de Abril, ainda não se aceitava bem a ideia de que a esposa, a mãe divorciada, que ficava com os filhos a seu cargo, fosse à procura de novo parceiro. Ela própria se escusava a tal comportamento. A sua atitude de protesto passava, paradoxalmente, pela defesa dos valores tradicionais».

 

* Expressões baseadas em títulos de filmes mais ou menos pornográficos que, na altura, se mantiveram meses (talvez até anos) em exibição nos cinemas e se transformaram em verdadeiros símbolos da nova era.

Igreja, Mulheres e Ecologia

Cristina Torrão, 18.04.19

No meu post sobre a Igreja Católica em crise, houve comentários para todos os gostos (aliás, nunca imaginei que a minha estreia aqui corresse tão bem, obrigada a todos). Como sempre, as opiniões divergiram, numa grande variedade de temas tratados, mas há dois que me merecem mais atenção.

Fiquei muito surpreendida por o comentador JAB duvidar da ordenação de mulheres na Igreja Evangélica Luterana: Mulheres ordenadas na Igreja Luterana? Não sabia... E penso que não é bem verdade (...) O facto de haver mulheres que pregam a Palavra (...) não significa que sejam ordenadas (...) encontro a designação de "esposa" colaboradora do Pastor luterano, mas não o de "pastora" nem muito menos sacerdotiza... e muito menos bispa.

Estava à espera que se discordasse, mas não de que se duvidasse. Como é óbvio, ouço as palavras "pastora" e "bispa" muitas vezes (em alemão), mas, como a minha palavra não chega, fui pesquisar. Primeiro, no Duden, o mais conceituado dicionário da língua alemã. Na Alemanha, quando se tem dúvida se alguma palavra existe, vai-se ao Duden:

Bischöfin
Substantiv, feminin - oberste geistliche Würdenträgerin einer evangelischen Landeskirche

Tradução: "Bispa" - substantivo feminino - o mais alto grau clerical numa secção da Igreja evangélica.

A palavra "pastora" é um pouco mais complicada, porque, na definição, aparece "Pfarrerin", que é o masculino de "Pfarrer", que por sua vez é o "padre" português:

Pastorin
Substantiv, feminin - a. Pfarrerin; b. Ehefrau eines Pastors

Tradução: "Pastora" - substantivo feminino - a. "Pfarrerin" (o tal padre feminino); b. Esposa do Pastor (como o nosso comentador referiu; JAB, porém, não sabia que a palavra pode ter dois significados).

O acaso acabou por me ajudar, aliás, ligado a uma notícia triste. O acidente do autocarro com turistas alemães, na Madeira, fez-me saber que uma mulher, Ilse Everlien Berardo, pastora luterana, lidera há mais de 30 anos a Igreja Evangélica Alemã na Madeira.

Não satisfeita, fui procurar as bispas alemãs. A Igreja Luterana não está dividida em bispados, mas em secções, ou regiões. As autoridades clericais que as regem nem sempre são apelidadas de "Bispos", também há as designações "Presidente" e "Intendente". Duas dessas regiões são regidas por mulheres: a Igreja Evangélica do Centro (com sede em Magdeburgo) é regida pela Bispa Ilse Junkermann e a Igreja Evangélica da cidade de Bremen pela Presidente Brigitte Boehme.

Passo agora ao segundo tema que causou polémica: a Ecologia tornar-se uma causa da Igreja Católica. Por acaso, a jovem sueca Greta Thunberg encontrou-se recentemente com o Papa Francisco. E hoje deparei com uma notícia alemã, informando que muitos bispos católicos alemães apoiam Greta Thunberg e os protestos "Fridays For Future". E também fiquei muito satisfeita ao ler que o Bispo Heiner Wilmer, que preside ao bispado de Hildesheim, a que pertenço (e do qual eu falei no meu post anterior) declarou, à agência dpa: «Sou de opinião de que a Igreja deve funcionar como advogada do movimento "Fridays For Future"».

Aqui vai o original em alemão, com o link: „Ich bin der Ansicht, die Kirche muß Anwalt der ‘Fridays for Future’-Bewegung sein“, sagte der Hildesheimer Bischof Heiner Wilmer der Nachrichtenagentur dpa.

Ainda há esperança para a Igreja Católica!

 

Nota: Quem não souber alemão, terá de confiar na minha tradução, o que poderá não ser fácil para alguns dos leitores deste blogue...

Do urgente empoderamento das mulheres no sector vital da malandragem

Rui Rocha, 01.03.19

Se olharmos para trás, o país evoluiu muito em termos de igualdade de género. Mas, se quisermos ser sérios, há ainda muito a fazer, nomeadamente em contexto profissional. Quer dizer que não há mulheres competentes a chegar a posições de destaque nas mais variadas áreas das empresas, do Estado e da vida pública? Há, seguramente. Todavia, a igualdade não passa apenas, nem passa principalmente, por mulheres capazes terem direito ao espaço que lhes cabe em função dessa capacidade. Era só o que faltava que não tivessem. A igualdade passa por mulheres incapazes tomarem espaços para os quais não são capazes. Porque o país está cheio de homens incapazes que ocupam esses espaços apesar da sua incapacidade. Igualdade tem de ser, portanto, o empoderamento (lá está...) de mulheres incapazes para as colocar em circunstâncias semelhantes às dos homens incapazes que têm sido promovidos às mais altas responsabilidades apesar da sua profunda incompetência. O governo de António Costa, é justo reconhecer, tem liderado pelo exemplo nesta matéria. A ministra Graça Fonseca (a da cultura ou lá como se chama aquela pasta que distribui dinheiro dos contribuintes por “agentes” que se dedicam a “performances” variadas que os contribuintes nunca pagariam para ver, ouvir ou comprar) parece até mais incompetente do que o ministro homem (não me recordo agora do nome, mas é aquele que é poeta e tinha cara assim de patarata) que a precedeu. E a ministra Marta Temido, da Saúde, honra lhe seja feita, também tem mostrado potencial para ser tão ou mais incompetente que o ministro Adalberto, sendo que, com este, a fasquia já estava situada a um nível de incompetência bastante exigente. Mas se no que diz respeito ao elenco governativo estão a ser dados passos seguros no sentido de dar palco a mulheres com níveis de incompetência apreciáveis (veremos em todo o caso se será possível encontrar um dia uma líder do executivo tão incompetente como o próprio António Costa), este não é um movimento que esteja a acontecer com a mesma velocidade noutras áreas. Veja-se o sector vital da Malandragem no qual se atingiu, em Portugal, um nível de proficiência que nos coloca entre os trinta melhores do mundo nos indicadores globais de corrupção e que é responsável pela criação de emprego e de assinalável acumulação de riqueza. Quem tivemos no país que se tenha destacado no sector da Malandragem? Um Alves dos Reis, no passado? Era, tanto quanto se sabe, gajo. Normal, numa sociedade que era profundamente heteropatriarcal. Mas as coisas mudaram entretanto? Muito pouco. Quem tivemos então com acusações de trafulhice em julgado ou na praça pública nos últimos anos? Um Sócrates? Ao que se sabe, apesar da voz esganiçada, é gajo. Ricardo Salgado? Gajo, ao que tudo indica. Bava, Dias Loureiro, Vara, Carlos Santos Silva, José Paulo Pinto de Sousa, Isaltino, Valentim Loureiro, Granadeiro, os do futebol? Tudo gajos, até prova em contrário. A sub-representação feminina em todos estes casos é deprimente. Repare-se que estes expoentes do sector da Malandragem são todos eles razoavelmente incompetentes uma vez que acabaram por ser apanhados (condenados é outra coisa) com a boca na botija. Pois nem assim há uma mulher que se destaque em algum dos grandes casos de corrupção que abanaram o país. Fernanda Câncio, por exemplo, intrépida lutadora da igualdade de género, apesar da sua intimidade com Sócrates, nem sequer conseguiu ser arguida no Processo Marquês. Bárbara Vara, de vistas curtas, contentou-se com um empréstimo mixuruca de duzentos mil euros da Caixa Geral de Depósitos de Vinhais (naquelas condições não era logo de pedir cinco ou seis milhões?) e nunca suspeitou (muito menos participou, claro) das trampolinices do patriarca Vara. A mulher de Ricardo Salgado? Uma senhora, hã!!! Uma senhora! Incapaz de partir uma unha no intervalo das missas, quanto mais de colocar o pé em ramo verde. Do ponto de vista do empoderamento feminino no sector da Malandragem é tudo uma miséria, convenhamos. Tão mais grave quanto é certo que a economia paralela e subterrânea representa para aí 25% da riqueza do país. Se as mulheres competentes, mas sobretudo as incompetentes, forem sistematicamente afastadas de posições de liderança no sector da Malandragem isso significa que estão desde logo privadas de aceder a uma parte muito relevante do PIB. A verdade é que para encontrarmos uma mulher com algum destaque na gatunice temos de recuar a D. Branca na década de 80 do século passado (um esquema de Ponzi razoavelmente bem esgalhado mas ainda assim longe da performance de João Rendeiro uns anos depois) ou a Fátima Felgueiras (um desempenho promissor que incluiu fuga rocambolesca, fixação de residência em país sem acordo de extradição e remodelação estética, mas que acabou numa aparente cedência ao sector formal da economia e ao recato da vida autárquica numa parvónia do norte-interior). Há mais? Quem? A da Raríssimas? O Bataglia dos submarinos e do Monte Branco riu-se. Note-se que até no caso da troca de lâmpadas e casquilhos na Câmara de Loures é o genro do Jerónimo, não a filha, que leva a massa para casa. A verdade é esta: em Portugal, em pleno século XXI, ao lado de um grande homem envolvido em trambiqueirice há, na melhor das hipóteses, uma grande mulher que não viu nada. É muito pouco e é óbvio que temos de dar a volta a isto.

 

* publicado na edição de Fevereiro do Dia 15.

No pasa nada

Teresa Ribeiro, 06.02.19

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Falta cerca de um mês para o Dia Internacional da Mulher, o dia em que todos os jornais falam dos problemas da condição feminina, desde a discriminação no trabalho à violência doméstica e no entanto quando passei de manhã pela banca dos jornais (ainda gosto de consultar as primeiras páginas assim, ao vivo e a cores), que vi eu? 

Manchete do i - "Já morreram mais mulheres, proporcionalmente, em Portugal do que no Brasil"

Manchete do JN: "Só num ano Estado apoiou 18 órfãos de violência doméstica (maioria dos casos são de crianças que viram a mãe morta pelo pai)

Manchete do Público: "Violência doméstica - 85% dos casos não resultam em acusação (no caso do duplo homicídio do Seixal, MP abriu inquérito apenas por coacção e ameaça)

Pois, houve mais um crime, particularmente chocante, daí esta concertação noticiosa. O Correio da Manhã, no seu estilo inconfundível, publica: "Monstro estrangula filha com as mãos (violência doméstica levou mãe da bebé a pedir ajuda à PSP)

Leio estas manchetes e penso nas negacionistas do "Not Me" (nome que eu agora inventei por oposição ao #MeToo), que tomam a sua experiência pessoal pelo todo afirmando que não se passa nada. Bem sei que a discussão há um ano acendeu-se por causa de uma situação muito menos dramática, a do assédio. Mas faz sentido separar os dois fenómenos? No país onde se mata mulheres que se farta o assédio não existe? E já agora, juntando outro tema que também é caro às negacionistas: a discriminação no trabalho, também é falácia?

A sério?

 

Vergonha

Pedro Correia, 07.01.19

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Por sete milhões de euros, ou de petrodólares, os responsáveis máximos do futebol italiano acederam em deslocar do seu país para a Arábia Saudita o jogo da Supertaça que vai disputar-se entre as equipas da Juventus (onde pontifica Cristiano Ronaldo) e do AC Milan. O desafio decorrerá no próximo dia 16, no estádio Cidade Desportiva Rei Abdullah.

Tudo bem? Não: tudo mal. Assim preparam-se para caucionar a chocante discriminação existente nos estádios sauditas, onde as mulheres só em 2018 foram autorizadas a assistir pela primeira vez a jogos de futebol, mas sem se misturarem com homens, permanecendo confinadas aos lugares mais recuados das bancadas. Assim acontecerá novamente nesta Supertaça. Tapadinhas, caladinhas - e lá para trás.

«O desporto precisa de plateias globais para crescer», alega o dono da bola italiana. Está profundamente equivocado: destas plateias não precisa mesmo. Até porque são a antítese do espírito desportivo. Como fervoroso adepto de futebol, sinto vergonha destes dirigentes desportivos europeus que se põem de cócoras e chegam mesmo a rastejar mal atravessam o Mar Vermelho, convivendo alegremente com as mais inaceitáveis segregações em terras de Maomé.

Clube do Bolinha na cozinha

Pedro Correia, 27.11.18

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A todo o momento se debate, nos mais diversos espaços de opinião, a necessidade de combater assimetrias e desigualdades entre cidadãs e cidadãos. Justíssima causa, ainda com muitos passos a trilhar, e a que dou todo o meu apoio - da igualdade de oportunidades no acesso às carreiras profissionais à urgência em equiparar salários, sem discriminações de género.

Há que reconhecer os progressos registados, nesta matéria, em quase todos os domínios da sociedade portuguesa - incluindo aqueles que outrora permaneciam vedados à participação feminina, como a magistratura, a diplomacia, as corporações policiais e as forças armadas. Se há meio século, por exemplo, era residual o número de mulheres nos cursos de Direito, hoje elas estão ali em esmagadora maioria e já predominam em todos os níveis da magistratura excepto nos tribunais superiores.

Para espanto de alguns, até o futebol feminino está em franca expansão entre nós, com um número crescente de praticantes federadas. Havendo até já jogos que congregam cerca de dez mil adeptos nas bancadas, como aconteceu num recente Sporting-Braga.

 

Mas há um domínio que lhes permanece escandalosamente interdito sem uma palavra de reprovação das figuras bem-pensantes. Refiro-me aos chefes de cozinha, onde parece prevalecer o lema do Clube do Bolinha: "Menina não entra."

Ainda agora registaram-se unânimes coros de júbilo a propósito da atribuição de quatro novas "estrelas Michelin" a chefes de cozinha portugueses. Todos homens. E ninguém parece reclamar por isso, o que muito me admira.

Consulto a lista integral dos chefes galardoados com as referidas estrelas em Portugal: António Loureiro, Vítor Matos, Louis Anjos, Rui Paula, Joachim Koerper, João Rodrigues, Miguel Rocha Vieira, Óscar Geadas, Heinz Beck, Henrique Leis, Sergi Arola, Miguel Laffan, Tiago Bonito, Alexandre Silva, Pedro Almeida, Pedro Lemos, Leonel Pereira, João Oliveira, Luís Pestana, Willie Wurger, Henrique Sá Pessoa, José Avillez, Benoît Sinthon, Hans Neuner, Ricardo Costa e Dieter Koschina.

Caramba, não se vislumbra uma cozinheira num sector tão emblemático e com tanta projecção mediática. Elas só servirão para lavar os tachos?

 

É algo que me indigna. Quase tanto como o silêncio cúmplice das feministas que passam ao lado deste tema. Algumas, se calhar, até frequentam sem sobressaltos de consciência os restaurantes desta tribo que goza de tão boa imprensa e se mantém irredutível como reduto da desigualdade.

Uma coutada do "macho ibérico"

Pedro Correia, 20.06.18

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Curioso: em todos os órgãos de informação deparamos diariamente com copiosas e exaustivas prelecções sobre a necessidade de estabelecer mecanismos de paridade que assegurem o aumento da participação feminina na sociedade portuguesa, mas são raríssimos os media que asseguram essa participação dentro de portas.

Eis um caso evidente daquele velho princípio do São Tomás: faz o que ele diz, não faças o que ele faz.

 

Comecemos pelas televisões. Todas dirigidas por homens.

Ricardo Costa, na SIC. Sérgio Figueiredo, na TVI. Paulo Dentinho, na RTP. Octávio Ribeiro, na CMTV.

 

Nos jornais diários, vemos o mesmo Octávio Ribeiro à frente do Correio da ManhãFerreira Fernandes recém-nomeado director do Diário de NotíciasDavid Dinis encabeçando o Público,  Afonso Camões na liderança do Jornal de NotíciasMário Ramires dirigindo o i, André Veríssimo conduzindo o Jornal de Negócios.

Nos desportivos, Vítor Serpa dirige A Bola; António Magalhães, o Record; José Manuel Ribeiro, O Jogo.

Homens, apenas homens.

 

Tal como na agência Lusa, dirigida por Pedro Camacho.

 

Domínio absoluto masculino igualmente ao nível dos jornais digitais.

José Manuel Fernandes dirige o ObservadorAntónio Costa lidera o Eco, Mário Rodrigues está à frente do Notícias ao Minuto.

 

E nos semanários?

Pedro Santos Guerreiro dirige o ExpressoMário Ramires dirige o SolEduardo Dâmaso dirige a SábadoFilipe Alves dirige o Jornal EconómicoJoão Peixoto de Sousa dirige a Vida Económica.

Mas aqui encontramos a primeira excepção feminina num reduto quase apenas reservado a homens: Mafalda Anjos, directora da revista Visão.

 

Finalmente, as rádios de expansão nacional.

Quem lidera a informação radiofónica? João Paulo Baltazar na Antena 1, Arsénio Reis na TSF, Graça Franco na Rádio Renascença.

A emissora católica é assim a segunda - e última - excepção ao domínio quase absoluto do "macho ibérico" no jornalismo português.

Em 26 títulos, 24 são dirigidos por homens. Noventa e dois por cento.

 

Mas tenho a certeza de que continuaremos a ler, ver e ouvir excelentes peças em todos estes órgãos de informação denunciando inadmissíveis "discriminações de género" na sociedade portuguesa.