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Mortais, como todos nós

por Pedro Correia, em 13.04.19

Quando eu era miúdo, o festival RTP da canção fazia parar o País. As pessoas vibravam tanto ou mais com as cantigas do que com o futebol durante aquelas semanas que rodeavam o sarau musical, antes e depois de ter ocorrido.

Assim sucedeu durante muitos anos. Eram outros tempos, era outro país. Embora a belíssima canção de Luísa Sobral que o irmão Salvador tão bem interpretou em 2017, cativando a Europa ao ponto de ter posto milhões de pessoas a cantar em português, com o inédito triunfo na Eurovisão, tenha reaproximado as gerações mais jovens deste concurso. Mas a xaropada que apresentámos há um ano, na estreia de Lisboa como palco do eurofestival, indiciou que Amar Pelos Dois fora algo tão imprevisto como irrepetível.

É justo salientar que nos tempos anteriores, ainda com a RTP a preto e branco, nasceram neste mesmo certame belíssimas canções que deixaram de ser exclusivo dos seus intérpretes originais para se integrarem no património musical português. Canções como Sol de Inverno, Flor Sem Tempo, Cavalo à Solta, No Teu Poema, só para anotar as primeiras que recordo. Além de outras, que por algum motivo guardei numa gaveta grata da memória mais remota, como O Barquinho da Esperança, escrita por Pedro Ayres Magalhães e Miguel Esteves Cardoso para as inesquecíveis Doce - só agora voltei a ouvi-la, 35 anos depois, e não resisto a trazê-la aqui, lembrando sempre com ternura a Fátima Padinha, que conheci em adolescente. O pai dela, Joaquim Padinha, foi um dos maiores amigos do meu pai.

 

 

Quando eu era miúdo, por algum motivo, acreditava que os vencedores do festival RTP estavam tocados pelo dom da imortalidade. E fiz-me adulto com esta mesma convicção enraizada - resquício do imaginário infantil que só terminou de vez no dia em que, estando eu a fechar a primeira página de um jornal em Macau, onde então vivia, lá inseri a notícia da morte de Carlos Paião, um desses vencedores. O primeiro a ficar pelo caminho.

Lembrei-me de tudo isto ontem, ao saber da morte de Dina, também galardoada do festival, falecida após longo combate contra uma implacável doença. No ano passado tinham desaparecido duas outras ex-triunfadoras do festival: Madalena Iglésias e Maria Guinot.

Simples mortais, afinal - da mesma condição que tu e eu. Como cantava a Fá, com aquela bela voz que ainda me emociona, «por cada gota que cai no mar / há uma outra que sobe ao céu».

Um actor imortalizado pelo Youtube

por João Pedro Pimenta, em 17.02.19

Morreu Bruno Ganz, actor suíço com larga filmografia, que incluiu passagens por Portugal (protagonizou A Cidade Branca, de Alain Tanner) e pelo cinema americano, e sobretudo com alguns dos maiores cineastas alemães, como Werner Herzog e sobretudo Wim Wenders. Curiosamente, os seus dois papéis mais memoráveis tinham a sua acção em Berlim. Num era um anjo apaixonado (As Asas do Desejo, de Wenders); noutro, um "demónio" tresloucado (Das Untergang - A Queda). E é sem dúvida mais por este último que será recordado, pela cena que se tornou num fenómeno do Youtube: um ditador acossado, enraivecido e ignorando a sua real situação, cujas reacções dão para todo o tipo de legendas. Aqui está um bom exemplo, com Sócrates e as principais figuras políticas portuguesas à mistura.

E no entanto, Ganz merece ser recordado por bem mais coisas. Como o anjo que vela sobre os telhados de Berlim, e que revela sentimentos mais próprios dos mortais.

 

Até já

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.12.17

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 (créditos: Raquel Wise)

 

Um após outro. Este ano tem sido assim. Vendo-os partir.

Foi assim com o Rui, com o Luís, com o Pedro, agora com o Zé Pedro, que não sendo meu amigo era amigo do Paulo e por isso também meu amigo.

Nós sabemos que ela anda por aí, que está sempre presente, mesmo nas manhãs mais cristalinas quando os primeiros raios cortam o azul penetrante do céu. Rondando como uma repugnante e irritante varejeira que, por vezes, atordoada pelo jornal se esconde para logo de seguida reaparecer e nos irritar. Ou entrando pé ante pé, como se fosse uma fada, sem que nada nem ninguém se aperceba da sua presença, impondo-se de repente, sem aviso prévio, destroçando sonhos, corações, vidas. Muitas.

Ultimamente tem-se feito sentir com mais intensidade e cada vez mais perto de mim. Todas as esperanças depositadas num brinde de ano novo vão-se esvaindo com o correr dos meses, à medida que o ciclo se fecha e, impotente, vejo este carrossel que sem parar, em cada volta que dá, vai ficando mais vazio, até ficar quase sem ninguém, mas continuando a rodar, rodando, embalado por aquela música monótona e repetitiva que não pára e pelas luzes que não se apagam depois de todos partirem.

O mais estranho de tudo isto é que tudo se passa cada vez mais perto de mim. Com quem de um modo ou de outro me acompanhou ao longo de décadas, e que ao seu jeito ajudou a moldar a minha forma de ver o mundo. Mas também com quem fazendo parte de nós à distância foi comigo comunicando até ao fim, deixando aquele rastilho que me acaricia todas as manhãs e me faz sentir que vale a pena, que vale sempre a pena ser um homem livre. 

Uma palavra, um gesto, um sorriso, sempre um estímulo e uma dignidade imensa na forma como iam acomodando os dias à sua dor, no seu combate, na sua liberdade, sem esmorecer, sublinhando aquilo que de mais belo existe na simplicidade de um olhar, na cumplicidade de um cumprimento, na ternura de um aceno.

E, é claro, com aquele "pouco de fé" que nunca fez mal a ninguém e se torna imenso quando o dia chega ao fim e se sabe que há mais uma noite esquinada para dobrar. Ainda que não raro saibamos que não somos únicos porque somos todos feitos da mesma massa e da mesma matéria, e que de cada vez que olhamos o céu e vemos os sonhos partirem irremediáveis a nossa raiva é igual, e se despeja sabendo que o sol voltará a brilhar.

Quem faz a estrada acaba sempre por conhecer o caminho. E sabe que é por ali que se deve seguir, com energia, com convicção, com carácter, sem olhar para trás, mantendo a constância e o ritmo. Com ternura, sem pieguices. Porque tudo valeu a pena. E nunca foi de mais.

A morte

por Helena Sacadura Cabral, em 24.11.17
 

Morreu hoje o Pedro Rolo Duarte. Era uma morte anunciada para quem, como eu, viveu há cinco anos, exactamente a sua história. 
Talvez por isso, o meu primeiro pensamento vá para a sua mãe, a quem a vida acaba de roubar o bem mais precioso e, só depois, para o filho. Para este, haverá sempre uma lógica temporal, que não existe no caso da sua avó. Nenhuma mãe deveria, alguma vez, passar por isto.
Finalmente, o meu pensamento vai para os amigos que sempre lhe serviram de esteio e jamais o abandonaram. E eram muitos. Muitos, mesmo!
Conheci o PRD há muitos anos quando, com o Miguel Esteves Cardoso, o meu saudoso MEC, faziam aquela inesquecível revista chamada KAPA. E era eu quem lhes tinha sempre de cortar os orçamentos. Não foi, assim, um primeiro encontro fácil dado que era olhada como aquela que lhes cerceava os sonhos. Havíamos de, aos poucos, ir resolvendo esses problemas já que, com o lançamento da minha FORTUNA, passei a ter mais projectos para gerir. Mas ele e eu  havíamos de nos cruzar noutros aventuras.
Depois, amigos comuns juntaram-nos na GRUPA, esse conjunto de gente de quem eu podia quase ser a "avozinha", mas que me tem dado muito bons momentos. Aí conheci um outro Pedro, que o tempo havia transformado e enriquecido. 
Era um homem livre, que dizia o que pensava, uma cabeça que não parava, um comunicador excelente, uma verdadeira força da natureza. Não conseguiu vencer essa besta que é o cancro. Mas julgo poder dizer que na batalha da vida, ela a dominou e terá sido um homem com muitos momentos felizes!

Todas as horas de um homem

por Pedro Correia, em 14.04.17

«Morrer por uma religião é mais simples do que vivê-la com plenitude; lutar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um acto é menos que todas as horas de um homem.»

Jorge Luis Borges, O Aleph

O trágico destino dos escritores

por Pedro Correia, em 13.04.17

Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão.
Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Essenin, Vladimir Maiakovski. E Stefan Zweig, Primo Levi, Emilio Salgari, Yasunari Kawabata, Arthur Koestler, Paul Nizan, Yukio Mishima, Sándor Márai, Reinaldo Arenas, David Foster Wallace – acrescento eu.
No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca, Miguel Rovisco.
Outros houve, outros há.
 
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
 
Texto reeditado e ampliado

Toda as mortes são prematuras

por Pedro Correia, em 26.12.16

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 Montgomery Clift e Marilyn Monroe em 'The Misfits'

 

Há frases que fixamos para sempre. Lembro-me de, em miúdo, ter ouvido o meu avô materno dizer que todas as mortes antes dos 75 anos eram "prematuras". Tomei nota da palavra, que não esqueci. E daquela espécie de desejo implícito contido naquela frase. Desejo cumprido, pois o meu avô morreu com 76 anos.

Muito mais tarde, Jorge de Sena ensinou-me, seu modesto leitor, que "todas as mortes são prematuras". O ser humano é vocacionado para a vida eterna - e saber de antemão que não cumprirá este anseio do seu corpo e este desígnio do seu espírito constitui a chave para sempre indecifrável de todo o pensamento filosófico, que procura responder às mais simples e mais complexas questões.

Quem sou? Que faço aqui? Em que medida se cumpre um destino humano?

 

Por estes dias em que Mário Soares trava uma luta tenaz contra a morte ouço dizer que teve "uma vida bem vivida". Face ao critério do meu avô, há muito que o ex-Presidente superou a perspectiva de uma morte prematura. Mas deverei dizer que os seus 92 anos foram "bem vividos" se no mesmo dia em que ele se encontra em estado muito crítico num hospital me cruzo num dos estabelecimentos comerciais mais conhecidos de Lisboa com a actriz Carmen Dolores - igualmente com 92 anos, mas nascida sete meses antes de Soares - caminhando com sacos de compras, elegante, grácil, quase etérea, sem sequer o apoio de uma bengala?

Filmou com António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros e Jorge Brum do Canto, contracenou com António Silva, Vasco Santana, Ribeirinho, João Villaret, figuras há muito inscritas no panteão do nosso teatro e do nosso cinema, e ei-la aqui, tal como nós, na idade do skype e do instagram. Teve um admirável percurso artístico, iniciado na remota década de 40. Mas por mais anos que permaneça connosco serão sempre escassos.

 

"Todos, homens e mulheres, estamos a morrer a cada momento que passa", dizia Marilyn Monroe no apogeu do seu talento e da sua beleza, interpretando-se de algum modo a si própria na última longa-metragem que acabou por rodar: The Misfits. Filme trágico e triste e assombrosamente belo, um dos filmes da minha vida

Cada existência é irrepetível e nuclear. Cada vida é um micrograma na poeira cósmica. Um sobressalto na nossa fisiologia, frágil como espiga ao vento, basta para sepultar toneladas de "certezas inabaláveis" que nos iludem na fatal transição entre os dois pontos extremos da nossa biografia - sempre imperfeita e fugaz, sempre situada aquém da insaciável espiral de todos os sonhos.

Em todo o caso, a verdade é esta

por Rui Rocha, em 26.12.16

Em 2016 morreram muitos dos ícones da nossa adolescência. Mas isso é natural. À medida que envelhecemos, a probabilidade de as nossas referências desaparecerem vai aumentando. Podemos não querer encarar a realidade, "culpando" 2016. Mas se 2016 foi mau, 2017 e os seguintes serão piores. A vida é assim.

Cohen, a paz antes da partida

por José António Abreu, em 11.11.16

 

In his chair, Cohen waved away any sense of what might follow death. That was beyond understanding and language: “I don’t ask for information that I probably wouldn’t be able to process even if it were granted to me.” Persistence, living to the last, loose ends, work—that was the thing. A song from four years ago, “Going Home,” made clear his sense of limits: “He will speak these words of wisdom / Like a sage, a man of vision / Though he knows he’s really nothing / But the brief elaboration of a tube.”

The new record opens with the title track, “You Want It Darker,” and in the chorus, the singer declares:

Hineni Hineni

I’m ready my Lord.

Hineni is Hebrew for “Here I am,” Abraham’s answer to the summons of God to sacrifice his son Isaac; the song is clearly an announcement of readiness, a man at the end preparing for his service and devotion. Cohen asked Gideon Zelermyer, the cantor at Shaar Hashomayim, the synagogue of his youth in Montreal, to sing the backing vocals. And yet the man sitting in his medical chair was anything but haunted or defeated.

“I know there’s a spiritual aspect to everybody’s life, whether they want to cop to it or not,” Cohen said. “It’s there, you can feel it in people—there’s some recognition that there is a reality that they cannot penetrate but which influences their mood and activity. So that’s operating. That activity at certain points of your day or night insists on a certain kind of response. Sometimes it’s just like: ‘You are losing too much weight, Leonard. You’re dying, but you don’t have to coöperate enthusiastically with the process.’ Force yourself to have a sandwich.

“What I mean to say is that you hear the Bat Kol.” The divine voice. “You hear this other deep reality singing to you all the time, and much of the time you can’t decipher it. Even when I was healthy, I was sensitive to the process. At this stage of the game, I hear it saying, ‘Leonard, just get on with the things you have to do.’ It’s very compassionate at this stage. More than at any time of my life, I no longer have that voice that says, ‘You’re fucking up.’ That’s a tremendous blessing, really.” 

 

O final de um excelente perfil de Leonard Cohen, surgido na The New Yorker de 17 de Outubro. A juventude, Marianne, outras mulheres, Dylan, a enganadora simplicidade da música, os concertos ao vivo, as drogas, a transcendência, a ideia da morte. E, a propósito desta, faz-me uma certa impressão - fica sempre a ideia do vatícinio (sorry, IsabelPS) - ter referido há exactamente duas semanas que ele se declarara pronto para morrer.

David Bowie, até já

por Patrícia Reis, em 11.01.16

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 (montagem Carlos Ramos)

Velório

por Francisca Prieto, em 15.12.15

Vestida de anjo. Fato de baptizado onde não faltava uma primorosa touca alva a contrastar com a tez mulata. Deitada. Imóvel porque morrera na véspera. Uma boneca de porcelana que hesitávamos tocar pelo medo de admitir que de uma criança se tratava.

Pai e mãe angolanos, retornados, imigrados, sei lá. Conformados na inconformidade de ter tido uma filha que primeiro foi deficiente e que depois ficou doente. Felizes por ela ter existido, inconsoláveis por ter partido.

Perguntaram-me, da Associação de Trissomia 21, se podia dar um salto ao velório. Que os pais, que sabiam qual seria o desfecho da leucemia da filha, só precisavam de a sentir honrada.

Não sabia que podia fazer com que alguém que não conhecia se sentisse honrado mas, na dúvida, corri à margem sul para dar um abraço a esta família.

Apresentei-me e, mesmo sem me conhecerem, ficaram desconcertantemente gratos pela presença.

Saí eu a sentir-me honrada, depois de testemunhar aquilo que já sabia: que o desgosto da morte de um filho é o desgosto da morte de um filho. A ninguém importa se era considerado deficiente.

O que parte dos que nos ficam

por Ana Cláudia Vicente, em 01.11.15

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 [Wassily Kandinsky, Toussaint, 1911]

Há qualquer coisa valiosa nisto de nos importarmos fundamentalmente com o mesmo de modos tão diferentes. Pensei-o ao ler o post sentido da Isabel. E apeteceu-me falar do outro viver a morte que ela enuncia. Eu vivo desse outro modo os que nos ficam depois de partirem. Presto culto aos mortos. Esses ritos, mais velhos que a nossa própria espécie, gestos agora feitos da limpeza de uma pedra, da deposição de uma flor, de uma oração, a mim fazem-me sentir ligada ao que é ancestralmente humano.

É um sentimento bastante primário, e de certa forma comunitário: lembro os meus e os que conheci não só por estes dias, mas nestes de outra maneira; lembro também os que pelos mesmos dias ou nas mesmas horas viveram noutro tempo coisa semelhante. E sim, há algo escuro e perturbador nessa religação. Também o há na meditação física e metafísica que ela oferece. Olhar o que parte dos que nos ficam pode ser isso - uma outra maneira de os deixar viver em nós.

O que nos fica dos que partem

por Isabel Mouzinho, em 01.11.15

Não tenho de todo o culto dos mortos e não gosto de visitar cemitérios em circunstância alguma, e menos ainda nestes dias em que vai toda a gente. Respeito muito, no entanto, quem o faz.

E, contrariamente aos que conseguem encontrar beleza e paz nestes espaços, só vejo neles soturnidade, assim como, para mim, há em todos os rituais associados ao fim da vida terrena qualquer coisa de lúgubre que me impressiona e incomoda. 

Não sinto, por isso, necessidade ou desejo de levar flores aos mortos, porque é em vida que gosto de homenagear e mimar as pessoas a quem quero bem; nem é no cemitério que me sinto mais perto dos que já cá não estão, porque não os associo a tristeza nem a desconforto.

Dos que partiram ficam-me as recordações, as ideias, as acções, os ensinamentos e tudo o que de bom e mau fomos vivendo ao longo do tempo, que é a marca indelével que deixaram em mim. É com ela que vivo. É ela que, passada a surpresa inicial do momento da partida - a morte surpreende-nos sempre - a dor da perda, o momento do luto, no-los traz de volta, em lampejos fugazes que nos chegam através de um lugar, de um objecto, de uma palavra, de uma canção. E lembrá-los assim é a mais bonita e singela forma de os voltar a ter próximos, no pensamento e no coração.

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Outra dimensão

por Isabel Mouzinho, em 22.03.15

É difícil imaginar o que sentem e pensam os que amamos quando passam a viver num universo de silêncio, feito de mãos que apertam outras mãos e de gestos a que apenas metade do corpo responde. E tentamos em vão adivinhar o que nos dizem os olhos que, mais transparentes que nunca, ora se fixam em nós, ora vagueiam distraídos do mundo, ou a que correspondem as tentativas mais ou menos aflitas e inquietas de comunicar o que não chega às palavras, e se limita a incompreensíveis sons, que não podem decifrar-se.

A longevidade, que é uma conquista do nosso tempo, traz consigo perplexidades e contradições, e esta será talvez a mais dolorosa e martirizante de todas: o prolongamento da existência em lenta agonia, que é apenas um sopro de vida e às vezes nos parece não ser já coisa nenhuma.

E perguntamo-nos com frequência qual o sentido de tudo ser assim, que dimensão é esta a meio caminho entre cá e lá, enquanto tentamos aceitar e adaptarmo-nos à nova realidade e a outra lógica, e nos dói a casa agora vazia de vozes e risos, onde pouco mais resta que memórias de dias felizes e objectos sem alma.

Então lembramos o que foi o maior e o melhor de todos os colos, e em nome de tantas lições de alegria e boa-disposição que recebemos, vamos aceitando tudo, vamos tentando ser amparo e aconchego na fragilidade do fim que se aproxima, e escutamos vagamente Brel, lá longe, pungente e certeiro: les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux (...) les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit...

Instituições

por José António Abreu, em 06.02.15

Ele pedia a Deus que os ateus estivessem certos. Porque a existir uma vida para além da morte seria institucional porque alguém teria de a gerir e ele não conseguia passar por aquilo outra vez. E a única coisa pior seria a reencarnação e o regresso ao oceano de instituições humanas.

Norman Rush, Mortals. Edição Jonathan Cape. Tradução minha.

A morte é para se ver

por Teresa Ribeiro, em 08.12.14

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Em todos os funerais e velórios em que estive presente, nunca vi uma criança, facto que registei sem surpresa. Eu própria fui poupada a esses rituais durante toda a minha infância e até às notícias sobre o falecimento de pessoas a que me uniam laços de sangue. O assunto da morte era tabu, muito mais que o sexo, pois se o sexo embaraçava, a morte pertencia a outro patamar, inominável.

Não sei o que aconteceu com as pessoas a quem foi escondida a morte durante a infância. Este proteccionismo em mim resultou numa relação complicada com a senhora da foice. Primeiro virei-lhe as costas, recusando-me durante a adolescência a pôr os pés num cemitério ou numa casa mortuária. Depois, já adulta, quando a passagem do tempo começou a deixar marcas indisfarçáveis nas pessoas que mais amava, decidi que era tempo de me preparar para uma doença que sabia ser incurável e que um dia, se não morresse primeiro, me iria matar de desgosto, uma e outra vez, com a cadência dos grandes ritos.

À medida que fui perdendo as pessoas de que sou feita, percebi que esta relação complicada que na nossa cultura temos com os velhos é consequência directa da deficiente assimilação do fenómeno da morte nas nossas vidas. Apartar as crianças dos rituais fúnebres é ensiná-las a erguer uma barreira entre o mundo delas e o mundo em que se morre. O desespero que a velhice nos inspira - a nossa e a dos que amamos -  tem a ver com a desconstrução desse modelo de conforto em que nos instalaram em pequenos e de onde, por mais maduros que nos achemos, não queremos sair.

Mandela

por Patrícia Reis, em 05.12.13

 

Nelson Mandela. 27 anos numa prisão com direito a uma visita por ano. Considerado um terrorista por Thatcher e Reagan. Mandela um nome que equivale a liberdade.

A cabra morreu

por jpt, em 27.08.13

Abro o facebook e leio "The bitch is dead", frase colocado por uma amiga, verdadeira e bem antiga, nem sei quem morreu, mas vejo logo uma fila de comentários entusiastas, festivos, depois percebo, e é aqui que tomo conhecimento que Thatcher acaba de morrer. Choco-me, imenso, não pela notícia da morte da antiga primeira-ministra, que sempre me faz lembrar o velho Dylan alive em "Maggie's Farm", a qual vi há tempos (há quanto tempo?) na TV já muito idosa e doente, li que com essa demência que tanto amesquinha os ocasos dos nossos mais velhos, tanto que sempre me custa sabê-la em alguém enquanto vou agradecendo que os meus mais velhos, pais e sogros, se venham escapando desse martírio. O que me choca agora, o que me desagrega, é o brusco fim da memória dessa minha amiga daquele antes, ali vizinha mais nova, tão bonita, que conheci como namorada de bom amigo, e pela qual vim depois a ter aquilo a que os meus pais chamariam um "béguin", muito pela sua doçura, até adolescente, aquele fresco que agora já velho ainda lembro nas raparigas do meu tempo, e uns olhos mar que me faziam sonhar marinheiro. Nos últimos 25 anos vi-a duas ou três vezes, breves acasos de Lisboa, e agora reencontrei-a no FB, o tempo foi-nos passando mas mantém (ou mantinha, quando a vi) aquele sorriso e, presumo, o encanto nos olhos. Espanto-me, que se passou com esta miúda, de esquerda sim, que já o era, mas caminhando na normal vida lisboeta, ali para as faculdades, que eu saiba nunca tendo vivido em Inglaterra, para assim festejar a morte da velha líder, para acoitar aqueles comentários d'amigos, celebrando o momento, vociferando fel? Hesito. E depois preservo-me, e às résteas daquele velho encanto ou só a memória dele. Clico e "desamigo-me", fico com ela sem isto.


Passa pouco e volto ao FB. Noto que outra amiga desses antes, outro reencontro aqui na "rede", anuncia mais uma morte. Vem concisa, seca, sarcástica, também ela colhendo ecos dos seus amigos, invectivas ao "assassino", "criminoso", saudando-lhe o fim, e falam de António Borges, um apenas economista, parcial político, caído do maldito cancro que a todos nos assusta nesta nossa meia-idade, esses calvários que amputam. Lembro-a "nos tempos", bela bela, complexa e, muito, apetitosa, raisparta. Lembro-a, jovem, em desatino. E em carinho. E tenho saudades. Hesito, mas não me desamigo. Fico, ficarei, mais um bocadinho.


Que aconteceu às miúdas do meu tempo durante este tempo? Que azedume é este?

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Desassombro da morte

por João André, em 27.08.13

Quem me lê compreende certamente que eu não tinha qualquer simpatia para com António Borges (isto para ser diplomático). Não é no entanto para falar dele que eu escrevo. Aquilo que me pergunto é se farão sentido as declarações politicamente correctas que costumam aparecer que nem cogumelos depois de uma chuvada assim que determinadas figuras públicas morrem.

 

António Borges é uma caso desses: deverei eu temperar a minha antipatia por ele ter morrido? Não terá António Borges suficientes admiradores, fãs, amigos ou outros que lhe defendam a vida ou o trabalho? Ou, para usar um oposto, deveriam os adversários de Álvaro Cunhal, que sempre se opuseram ao seu estilo e às suas ideias, passar a enaltecer a sua intelectualidade e firmeza para evitar ofender aqueles para quem ele era um exemplo?

 

Há obviamente casos de pessoas cuja morte nos deixará satisfeitos. Duvido que haja poucos que não tenham ficado satisfeitos com a morte de Bin Laden (poderemos questionar muita coisa, mas o mundo está melhor sem ele). Mas, fora a tragédia pessoal que será sempre uma morte (para família e amigos, para começar), teremos mesmo que procurar razões para lamentar a morte de alguém cujo trabalho em vida nós detestámos?

 

Penso que uma das melhores formas de enfrentar a morte (que chegará a todos) é o desassombro. Se elogiámos, elogiemos ainda. se criticámos, continuemos a criticar. E lembremo-nos sempre que, apesar dos outros morrerem, há sempre outros para os seguir.

 

PS - muitas pessoas que não gostavam de António Borges lembram agora esta "entrevista". Uma única nota: isto é (na minha opinião) exemplo de mau jornalismo, de um conceito de entrevista feito para o espectáculo, onde os entrevistados têm que ir sofrer. Subscrevo um conceito de entrevista que uma vez ouvi (não me lembro a quem): o entrevistador deve colocar as perguntas, sempre pertinentes (e não necessariamente difíceis) mas a esmagadora maioria do tempo da entrevista deve ser preenchida com o que o entrevistado diz. Até tenho simpatia para com as posições do entrevistador (na entrevista), mas nenhuma para com o estilo.

da imensa estupidez da morte

por Patrícia Reis, em 23.07.13

A morte chegou com anúncio e pompa, assim como o filho de Kate e William. Acho que é simpático chamar-lhes assim, não é? Não tem qualquer interesse o número de nomes que a criança terá, nasceu no dia em que morreu uma mulher, uma mãe, uma avó, uma irmã, uma cunhada.

Uma pessoa é muita coisa ao mesmo tempo.

A família reune-se para as coisas da morte, para as outras nem por isso, mas na morte lá estamos. E, se o caixão calha a estar aberto, alguém grita a dor e um adolescente ampara, a comoção é a de ver o gesto, ver tudo como alguém que paira, que observa.

A morte faz de mim cigana. Ando aqui. Dou de comer ali. Abraço aquele e o outro. Ligo telefones, desligo telefones, marco coisas, desmarco coisas, levanto o corpo para se colocar um último adorno. Brinco e faço um esforço a ver o esforço de todos. As lágrimas não me existem, não estão em mim. Há o momento e, como deduzo que exista num palácio, qual upstairs, downstairs, faço de Hudson, sou um mordomo que assiste às coisas da morte.

Depois, mais tarde, já sem o barulho das coisas estranhas de uma casa mortuária que adormeceu num céu cor de rosa e laranja, escrevo para me resolver e não tenho a mais pequena paciência para as merdas que me aparecem à frente: não há papel higiénico suficiente, há um amigo que decide pontificar num mural do facebook à conta de uma coisa qualquer que, em teoria, eu escrevi e ele achou que merecia resposta, esqueci-me de levantar dinheiro para as senhoras da limpeza, a comida do cão está com um cheiro esquisito, o mais novo odeia desenhar, o mais velho nem quer saber, entrou hoje na faculdade, já tem número de acesso e eu paguei 800 e tal euros. Não tenho paciência para o barulho das gavetas do quarto do meu filho. Para o novo disco da Eliane Elias, dedicado a Chet Baker, belíssimo, mas que só me lembra coisas que não tenho, já não tenho, nunca terei. A seguir volto àquele corpo na caixa, como numa caixa de chocolates, com todos a dizerem que parece que está a sorrir e eu cansada de saber que é uma toalha que se enfia na boca, ainda há pouco tempo o fiz para o meu avô. Mas não, que estupidez.

A mulher que é filha, mãe, avó, irmã e cunhada, sentada na nuvem, já tem o seu cabelo de volta e um sorriso para quem deixou cá em baixo. Eu é que não vejo. São as lágrimas.

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