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Este é o actual estado da Capela da Nossa Senhora do Baluarte na Ilha de Moçambique, devastada pelo ciclone que assolou a região no final de Abril. A capela é mais do que simbólica: está na extremidade da Ilha, é a primeira igreja cristã no Índico austral (construída cerca de 1522), é o único edifício manuelino em toda a região (e presumo que em toda a África austral).

Não creio que o Estado moçambicano possa, na actualidade, repará-la. Muitos (portugueses e até moçambicanos) dirão que por incúria. Não me parece: as urgências e as emergências são gigantescas e os recursos muito escassos. Muitos (portugueses) dirão que é abandono de agora. Falso: a história da Ilha, pelo menos de XVIII para a frente, é a das constantes reclamações do estado arruinado das edificações - crises económicas, abalos na administração, guerras. E, acima de tudo, as intempéries. Pois ali a manutenção dos edifícios é trabalhosa e custosa, tanto devido às razões climáticas como ao particular material utilizado nas construções - de facto, na Ilha a ideia de arquitectura perene tem que ser bem relativizada. Lembro os opinadores apressados que em finais de 1960s se procedia à "reabilitação da Ilha", dado o estado deficitário em que já se integrava, piorado com a crise económica devido à abertura do porto de Nacala na década anterior.

Em 1996/1997 esta capela estava em muito mau estado, tal como toda a "cidade de pedra-e-cal". A Ilha havia sido proclamada Património Mundial pela UNESCO e houve alguma atenção sobre os edifícios. Em Portugal, a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses - então comissariada por António Manuel Hespanha, um grande intelectual e que fez um belíssimo trabalho, na sequência do que havia feito Vasco Graça Moura, ainda que com um perfil algo diferente de intervenção - promoveu a reabilitação desta capela, devido ao seu estatuto histórico e ao seu simbolismo. A intervenção não foi muito cara (o edifício é pequeno e, julgo, não particularmente complexo) e correu muito bem, sob direcção do arquitecto José Forjaz e com utilização suficiente de mão-de-obra local.

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Eu sei que os tempos são diferentes, que há menos disponibilidades financeiras no Estado português. E que nas instituições culturais não abundam homens da densidade de Graça Moura ou António Hespanha (ou, noutro plano, Lucas Pires ou Carrilho), que possam sensibilizar-se, de imediato, para os efeitos efectivamente culturais, e como tal socioeconómicos, de uma intervenção num edifício destes. Mas ainda assim espero que haja nas autoridades portuguesas pessoas com a suficiente atenção para Moçambique e para a questão do património cultural tangível para disponibilizar a ajuda necessária para uma intervenção nesta capela, de importância única. E que o Estado moçambicano possa e queira acolher esse contributo.

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Moçambique: a ajuda portuguesa

por jpt, em 21.03.19

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Vejo agora um filme da BBC com declarações de Graça Machel de há dois dias. Ex-ministra, e celebrizada por ser viúva de Machel e de Mandela, é uma figura muito relevante na sociedade moçambicana. Há dois dias afirmava, com clarividência, que a "calamidade" (o termo corrente em Moçambique para este tipo de situações) é vasta demais para ser enfrentada por um único país, sublinhava que Zimbabwé e Malawi estão assolados pela mesma situação, que é um problema regional. Disse ainda ter solicitado ao secretário-geral adjunto da ONU o envio de uma força altamente especializada para fazer o diagnóstico da situação, que é totalmente deficitária, desesperante até. Isto é o que quem conhece o que está (e não está) no terreno sabe.

Dado que ontem botei breve postal sobre o assunto junto algumas considerações. No dia seguinte a estas declarações públicas o governo português envia o secretário de estado das Comunidades Portuguesas para fazer um diagnóstico. Isto nota o vazio luso. Mas há mais: só quem nunca assistiu ou ouviu falar de uma delegação deste tipo não percebe que vai atrapalhar mais do que ajudar. É um grupo de amadores, sempre. Um político de terceira linha, com alguns assessores apparatchiki, e normalmente sem experiência deste tipo de terrenos e situações, muito preocupados com algo que lhes é sempre o fundamental: a comunicação social portuguesa. Porventura (sublinho o porventura) irá um ou outro profissional, oficial superior (major, tenente-coronel, coisa assim), sem ser especializado nestas situações. Convocarão uma articulação no terreno - seja das autoridades moçambicanas, alagadas de trabalho que estarão, seja dos funcionários portugueses ali estacionados, que seriam mais úteis se numa articulação directa com os oficiais moçambicanos. Visitas destas, costumeiras, são quase sempre inúteis. Muito mais o são em momentos destes. São até uma falta de respeito por quem está a trabalhar. Portugal tem embaixada, consulados. Se precisa de informações o pessoal diplomático ou associado que as recolha, ou então mande quem as saiba recolher, não uma "delegação" destas. É totalmente descabido. 

Acabo de ler que seguiu hoje uma força de intervenção rápida, sob tutela do ministro da Defesa. E o qual anuncia que só irá a Moçambique se necessário. Ainda bem. É outra coisa. Podemos dizer que é algo tardio (um dia de atraso é surpreendente nestas situações). Mas é um eixo de actividade curial, necessário. E pelos vistos gerido com inteligência.

E a tutela é diferente: goste-se ou não do governo, goste-se ou não do ministro, Cravinho é alguém de gabarito intelectual, para além de que conhece o país (doutorou-se sobre o processo moçambicano, foi presidente do Instituto da Cooperação, foi secretário de estado da Cooperação, e foi-o com distinção). E o tipo de articulação que Portugal poderá ter com esta gigantesca operação terá que ser ao nível da Defesa e dos Negócios Estrangeiros - entenda-se, o secretário de estado dos negócios estrangeiros e das comunidades portuguesas é sempre alguém diminuído, politica e culturalmente, é uma tradição portuguesa que é imensamente significante do que o poder pensa da emigração. Como tal não faz parte do núcleo que pode pensar esta situação e a intervenção portuguesa. Será bem-vindo aos futuros jantares da Academia do Bacalhau, se levar algum subsídio para acções de assistência. De resto é (sempre) inútil.

Ou seja, é boa esta inflexão do governo, e já que critiquei antes, saúdo agora. A acção de ajuda de emergência entregue a verdadeiros especialistas, profissionais de gabarito (militares ou para-militares) que têm cadeias de comando, as quais costumam funcionar (tão ao invés da trapalhada civil). A tutela política entregue a um político de peso, que muito provavelmente será o MNE do próximo governo, e que não se apresta a ir visitar o local, em busca de um directo na TV. E que poderá servir - pela sua experiência política, gabarito intelectual, conhecimento de terreno e, muito em particular, pelos especialistas que tutela - para pensar as formas de integrar os recursos portugueses numa necessária acção internacional conjunta.

Estou a exagerar nos elogios, dirão alguns? Não. O meu ponto de partida, que é dogma, é simples: ninguém que tenha feito parte de um governo de Sócrates deverá estar num governo ou numa administração de empresa pública. Mas este não é o momento para se discutir o futuro português. Nem o presente.

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A ajuda ao Moçambique submerso

por jpt, em 20.03.19

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(Sofala, área inundada)

Razões minhas, e fastio também, levaram a que há mais de três meses tivesse fechado a minha conta FB (fiquei a blogar). Reabro-a hoje, para juntar o meu teclado aos que pedem ajuda para Moçambique (o qual é, se os mais "anti-tuga" de lá me permitirem dizê-lo, também "minha" terra, pois onde está a terra vermelha na qual preferirei morrer, na estação das chuvas se possível).

Reabrir a conta FB faz-me regressar às opiniões alheias aí no rincão português, partilhadas por parte substancial do rol das minhas ligações. E isso não é bom, não me faz bem. João Pedro Simões Marques Eduardo Cintra Torres continuam a sua tarefa iluminista, partilhando um magnífico texto de Luis Filipe Thomaz, um dos grandes intelectuais portugueses, sobre Fernão de Magalhães e, assim, afrontando os obscurantistas dominantes. O resto opinativo? É tétrico.

Mas percebo também que muitos se insurgem contra as delongas do socorro português a Moçambique. Sorrio, triste. Recordo um texto meu (inacessível no jornal) publicado no Público a 9 de Março de 2000. Sobre o atraso da ajuda enviada para as cheias de então. "Um timor e meio debaixo de água", chamei-lhe, pois naquela época a "cooperação" portuguesa se centrava naquele país. Resmunguei, clamando: "Um Timor e meio levado pelas águas e tanto tardamos a acordar. (...) Com efeito o Infulene, o Maputo, o Inkomati, transbordaram há já um mês. Há quanto tempo publicou o “Público” o triste lamento do Nelson Saúte? (...) Claro que os governos reagem às televisões. Horrível? E se elas não existissem, que fariam os governos? Talvez nada. O estranho é que a RTP-África acompanhou o desaguar. (...) Tarde chegou a ajuda de emergência!" (ao texto guardei-o aqui, página 137). E a isso junto-lhe agora: tanto clamou a embaixada por uma ajuda urgente! Tínhamos então um excepcional embaixador, a pessoa mais sagaz, capaz e decente que encontrei, e uma bela equipa de diplomatas (três dos quais actuais embaixadores) e de quadros diplomáticos, gente atenta e activa. Tínhamos jornalistas no país. A ajuda demorou porque "Lisboa" (o governo) quis congregar a actuação com a UE, para "fazer figura". E não me venham dizer que não é verdade.

Foi há 20 anos. A modorra, a incapacidade de actuação, do solidário fervilhar mantém-se. As pessoas mudam mas mantém-se a concepção do que é o lucro político, a "moeda política". E a incultura dos políticos. E dos cidadãos (facebuqueiros tantos deles). Leio que o Secretário de Estado das Comunidades se desloca para o país para aquilatar da situação. Nem valeria a pena referir a monumental mediocridade intelectual e política que esse simples facto revela. Vale pois para tantos dos meus compatriotas isso é normal. Ou melhor dizendo, para tanto dos meus "compatriotas". Porque, de facto, a minha "pátria" não é a dos vis boçais que julgam, que continuam a julgar, que isto é algo da tutela de um secundário mono, aquilo das Comunidades Portuguesas. E é este emigrante que o diz.

Enfim, as coisas são como são. Que cada um dê o que pode. Eu dei pouco, mais do que posso, pois nada posso.

E um dia, mais tarde, não agora que é apenas momento de ajudar, se vos for possível lavai as remelas. E abri a pestana.

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As águas em Moçambique

por jpt, em 20.03.19

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Não tenho quaisquer informações especiais sobre Moçambique. Recebo imensas mensagens de amigos de Portugal, que bem me sabem na Bélgica, formas solidárias percebo-o, perguntando-me se os "meus" por lá estão bem. Conheço pouca gente na Beira, os tais "meus" estão a sul e a norte. Esses estão a salvo, felizmente. 

Quando há notícias em Portugal sobre Moçambique sempre as relativizo, aprendi isso durante 20 anos, da tendência para o exagero. E da incapacidade para se compreender as enormes distâncias.

Mas esse relativizar não conta quando o assunto são as águas do país. Vivemos as cheias de 2000 em Maputo, quando a cidade foi sitiada pelas águas. Lembro-me do ar abismado da minha mulher, quando regressou do Limpopo alagado, inserida numa missão de ajuda. E de, semanas depois, termos passado Xai-Xai, onde as marcas da água eram visíveis nos prédios, tão distantes e tão elevados face ao longínquo leito do rio. Como fora possível tamanha cheia? Depois, em 2001, vivi as cheias da bacia do Zambeze (deixei no meu blog uma crónica que não quis escatológica ou demasiadamente realista) . E em 2007 trabalhei nos campos de refugiados de outras cheias do Zambeze (do meu relatório fez-se um livrito).

E nunca tive palavras para descrever o abissal daquelas cheias. Tenho, sim, uma certeza. É que se as palavras são insuficientes para transmitir a imensidão das desgraças provocadas, também o são as imagens, fotográficas ou em movimento. As cheias e as desgraças que causam têm ali dimensões indizíveis e "trans-visíveis", se me faço compreender. 

Do que sei agora é que tudo se associa: um ciclone terrível, a bater a belíssima Beira, essa que um dia foi construída, por óbvio erro, abaixo da linha de água. Enormes chuvas a montante, a tumultuar um feixe de rios. A maré equinocial, cujo cume será hoje, ao que me dizem. E a prevista abertura das barragens nos países vizinhos, que estão nos limites. Não consigo prever pior cenário (a não ser uma ruptura de barragens, longe vá o agoiro).

Nos últimos dias aconteceu um desastre terrível no centro de Moçambique. Mas temo que nos próximos dias ainda venha a piorar. Eu sou ateu, não rezo. Nunca. Apenas vou à varanda e fumo. E espero que o futuro imediato não seja tão mau como ameaça. E comovo-me, num renitente pessimismo. E blogo.

É necessário acudir. E será necessário reconstruir. "Cuidar dos vivos e (talvez, pois tantos deles desaparecidos) enterrar os mortos". Tudo isso em condições tétricas. E num país que é paupérrimo. Se puderem, por favor, ajudem. Por pouco que seja, uma mera pequena transferência para uma qualquer instituição. Não evitará o inimaginável. Mas sarará um pouco. Os efeitos do verdadeiro horror.

Adenda: aqui, no portal da SAPO, encontram-se informações sobre instituições envolvidas na ajuda de emergência, e formas de contribuir.

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A China e o país inibido

por jpt, em 05.12.18

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Em 2005 o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao visitou Portugal. José Socrates, então recente primeiro-ministro, incentivou o visitante a usar Portugal como intermediário nas crescentes relações sino-"palop". Na época eu trabalhava na área da "cooperação" (ajuda pública ao desenvolvimento) e muito me chocaram aquelas declarações do ainda relativamente desconhecido Sócrates (não se perspectivava tamanho descalabro),  por razões subjectivas e objectivas.

 

As subjectivas eram algo óbvias. Qualquer pessoa da minha geração se poderá lembrar o que foi o governo de Macau nos últimos quinze anos de tutela portuguesa. A coabitação entre os governos de Cavaco Silva e as presidências de Soares e Sampaio - sendo a presidência da república a responsável por aquela região - significaram que Macau foi administrado, num período de grande crescimento infraestrutural, pelos quadros socialistas. E foi público que se o PSD (e não só) se conspurcou na gestão da inserção europeia, o PS saiu profundamente lesionado da "coisa macaense", no afã da "árvore das patacas". Infecção que levou para os governos de Guterres e que este, criticável político mas homem honrado, deixou transparecer com o rebuço retórico do "pântano" quando se demitiu. Por isso, quando em 2005 Sócrates ofereceu os préstimos do país, e da sua administração, para facilitar a extroversão africana da China tudo indiciava que o PS não fizera qualquer "julgamento ético" (como Augusto Santos Silva reduz agora a avaliação da política) do seu percurso recente. Como se veio a comprovar, tanto pelas más-práticas dos governantes como pelo apoio cúmplice da generalidade dos profissionais da palavra pública, jornalistas e académicos, durante o consulado socratista. E hoje.

 

Mas as razões objectivas eram ainda mais óbvias. Num breve texto de Dezembro de 2007 eu resmungava isso, ecoando várias conversas em Maputo. Desde finais de XX que a China hiper-desenvolvera as suas relações comerciais e políticas com os países africanos. Com propósitos e estratégias bem diversos dos da União Europeia, e de Portugal nas suas relações soluçantes com as antigas colónias. O evidente falhanço dos desenvolvimentos africanos (já elencado nos 1960s pelo nada pró-colonial René Dumont) conduzira, desde os 80s, a alterações nas formas de "cooperação" entre a UE (e de países aliados, como EUA, Canadá, Suíça ou Noruega) e África. Grosso modo subordinando doacções, ajuda técnica e empréstimos bonificados a uma "condicionalidade política". Ou seja, à aceitação de boas práticas estatais, de uma democratização assente na "boa governança" (tétrico jargão), do incremento e autonomização da "sociedade civil", da descentralização avessa à opacidade dos poderes, da protecção ecológica, no fundo ao chamado "desenvolvimento sustentável", crente que a democracia é desenvolvimento, uma ideia consagrada no Nobel da Economia então atribuído a Amartya Sen. Muitos criticam este paradigma, dizendo-o neoliberal, exportação do modelo "ocidental" e neo-colonial. Poderá também ser tudo isso, e com toda a certeza contém a defesa dos interesses dos países doadores ("ocidentais"), que é esse o princípio das relações internacionais. Mas também não era só isso, pois fruto de transformações demográficas, socioeconómicas e ideológicas nos países europeus, que haviam promovido genuínas preocupações ideológicas e técnicas de promover algo melhor do que vinha acontecendo no desenvolvimento africano, combater o malvado "afro-pessimismo" (o aggiornamento do racismo), e procurar a defesa do meio ambiente, triturado alhures.

 

A chegada dos interesses chineses tudo alterou. Neles inexiste qualquer intuito democratizador ou sensibilidade ecológica, ou objectivo desenvolvimentista - há uma preocupação na construção de infraestruturas viárias que promovam o comércio de matérias-primas (e a seu tempo de produtos industriais imensamente sub-remunerados) para a China, algo que as burguesias africanas vêm considerando "desenvolvimento". Estas enormes construções infraestruturais são entendidas localmente como "ofertas" (basta conversar em Maputo com a burguesia letrada para ouvir isso), quando são obras basto sobre-orçamentadas e sob empréstimos chineses, para além de muitas vezes serem de duvidosa urgência (caso exemplar é a recente ponte de Maputo, uma verdadeira excentricidade se sopesadas as necessidades infraestruturais do país, e uma total aberração se considerado o preço astronómico e sobredimensionado da obra). Ou seja, a China financia directamente a sua indústria, construindo em África através de empréstimos contraídos pelos poderes africanos; e indirectamente, através do estabelecimento das infraestruturas de aquisição de matérias-primas baratas.

 

Questões como o desenvolvimento tecnológico ou empresarial africano (a transferência de saberes) é de nula relevância, o desenvolvimento social é inconsiderado - e nesta área será importante discernir quais as concepções dominantes na China sobre "África" e os "africanos", principalmente se pensarmos no rolo auto-crítico que os europeus fazem sobre o "paternalismo" e o "racismo" com que as suas sociedades interagem com África e seus habitantes. O resultado destes últimos anos é tétrico: países africanos imensamente endividados, ainda que com diferentes conteúdos (países como a África do Sul - mas que outros? - têm alguma maior capacidade de resistência). Dívidas que têm penhores, os recursos naturais, que assim vão passando explicitamente para o manuseio chinês. A razia ecológica, em particular a desflorestação é quase incomensurável. E a corrupção das elites exponenciou-se, num verdadeiro sublinhar da velha definição marxista de "burguesia compradora". É um neo-colonialismo radical, um neo-colonialismo selvagem, para glosar a expressão "capitalismo selvagem". (Abaixo deixo um programa da Al-Jazeera, que não é a "Voz da América" nem qualquer "Canal de Bruxelas" sobre o assunto, para quem tiver interesse).  

 

Para qualquer tipo que tivesse dois dedos de testa e uns centímetros de conhecimento esta via era já óbvia em 2005. O poder português, o PS de Sócrates, preferiu a obtenção de migalhas - no seio do que agora se sabe serem interesses esconsos das articulações político-económicas: por exemplo, em 2006 noticiava o Público que o Espírito Santo ajudara a entrada chinesa no petróleo angolano (alguma ideia sobre a situação actual?, é a pergunta sarcástica necessária). Ou seja, refutando a nossa inserção nas políticas desenvolvimentistas europeias (os célebres acordos de Lomé e Cotonou) e toda a retórica que acompanhara o estabelecimento da CPLP na década anterior. Nada disto importou, apenas a miragem de alguns ganhos como intermediário da entrada triunfal da política económica chinesa em África. E, ainda mais ridículo, com promessas de abertura do enorme mercado chinês aos produtos portugueses, pomposamente anunciada na imprensa aquando da visita do PM chinês em 2005: 13 anos passados seria interessante ver os dados reais dessa abertura, e o impacto na economia portuguesa. 

 

Alguns dirão que nada havia a fazer, que a dinâmica africana da China foi tão possante que uma pequena economia como Portugal nada poderia fazer em contrário, clamando assim a subordinação à "razão de Estado" e à obtenção de ganhos para o país. É uma paupérrima concepção de Estado e de mundo, bem como da política africana portuguesa. Mas mesmo que nesse registo rasteiro, de avaliação política sob estritos critérios de contabilidade nacional, será importante questionar: que ganhos económicos teve o país na sua extroversão para a China? E qual a situação das relações económicas com África, em particular com as duas grandes ex-colónias? E as relações políticas (catalépticas as com Moçambique, apesar da retórica do nosso PR, gélidas as com Angola, apesar do fogareiro agora aceso pelo PR angolano)? Outros, com mais memória, dirão que o governo de Sócrates teve o sucesso de conseguir realizar a cimeira Europa-África, em plena crise diplomática devido à oposição Reino Unido - Zimbabwe. Foi um facto, mas isso ter-se-á devido aos méritos da equipa do MNE da altura, Amado e Cravinho (este agora em rota para MNE do próximo governo). E deixa a pergunta fundamental: quais os benefícios reais obtidos, tanto para África como para Portugal, e já nem falo da política desenvolvimentista da UE? Ou seja, a sinofilia do governo português mostrou bem o quão de cabotagem era o seu rumo. Em termos internacionais. E em termos nacionais. Foi anunciado, de modo evidente, em 2005. Tornou-se evidente nos anos subsequentes.

 

Quinze anos depois se a situação das relações africanas com África é esta, também o é a relação de Portugal e de alguns países europeus. A influência chinesa está a crescer na Europa austral, de modo avassalador. Aqui não há matérias-primas, das quais a indústria chinesa necessita. O objectivo são os mercados, o "mercado europeu", necessários à indústria e à finança daquele país. Mas o tipo de abordagem predatória será o mesmo. As sociedades europeias amortecerão o impacto socioeconómico de maneira mais protegida, mas o impacto desdemocratizador talvez venha a ser mais sentido (não se está já a sentir?). Não se trata de ser sinófobo, ou de clamar "Vêm aí os Chineses". Mas de perceber, passado este tempo e sendo explícito o que já era óbvio, que quando se vê um governante português como a actual Secretária de Estado do Turismo choramingar a um grupo económico chinês "…por favor, usem-nos, como porta de entrada, como cobaias, para testar a forma de entrarem na Europa" estamos no "grau zero" da política. E que as nossas elites políticas nada aprendem com a história recente. Os socialistas (e o bloco central por definição) na sua cabotagem, na busca de restos disponíveis. Os comunistas presos a uma patética solidariedade com um poder que de "comunista" tem o nome e a foice e o martelo - lembram-se as pessoas da sabujice do parlamento português ao recusar receber o Dalai Lama em 2001, por pressões chinesas, e do texto do velho dirigente comunista Aboim Inglez, esse que fora em tempos de conflito sino-soviético muito adversário da China, a esse respeito? Rezava assim: "Tivemos entre nós, uma semana, o sr. Kenzin Gyatso, mais conhecido pelo título do 14º Dalai Lama, numa das suas constantes itinerâncias pelo mundo, na condição de cabecilha do que resta da clique reaccionária e retrógrada tibetana, conluiada com o imperialismo para atacar a China pela via da mentira e do separatismo". À direita os liberais, cegos e sonâmbulos, a quererem crer que isto é o "mercado" - quando "isto" é o capitalismo de Estado, de que se falava sobre o bloco soviético, mas agora super-competente. E o BE sempre relativamente simpático com quaisquer laivos de "alterglobalização" (entenda-se, antiamericanismo) que surja no horizonte. 

 

Nenhum destes partidos,  nenhuma das fracções desta "burguesia compradora" portuguesa, se opõe ao verdadeiro imperialismo chinês, voraz que é. E os governantes pedem "por favor" para que os interesses chineses sejam mais céleres e intensivos na sua intervenção. É a mesma mediocridade, ininteligente, cleptocrática e anti-patriótica que reconhecemos em tantos dos poderes africanos. Sem qualquer projecto de país, plano ou estratégia de desenvolvimento. E depois, sabe-se lá porquê, dizem-se, ufanos, de "esquerda", símbolo do progressismo e desenvolvimentismo. 

 

E um povo que a apoia. Nessa confluência um país inibido de o ser. Nada mais do que isso.

 

(Então aqui fica o programa a que aludi, vinte minutos sobre o presente de África. E o futuro de Portugal).

 

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(Postal daqui)

 

O meu amigo João Xavier acaba de publicar estas suas fotografias, de um prédio novo na centralíssima avenida Eduardo Mondlane, em Maputo. Não valerá a pena dizer muito, são mais do que explícitas da era que se vive, em Moçambique na África global. Ao vê-las foi-me imediata a recordação da célebre foto do Ricardo Rangel, tornada ícone da denúncia do racismo colonial (esse que tantos de nós, portugueses, estuporadamente continuamos a negar):

 

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Ao olhar estas novas imagens, não surpreendentes pela realidade que gritam, que essa é óbvia, mas sim pela desfaçatez que demonstram, estanco naquela tão bela expressão moçambicana, o “estou a chorar”.  Como é isto possível?, como decorreu o processo nacional para que se aceitem as aleivosias desta nova interacção de XXI?

Quando nós, portugueses ou europeus em geral, resmungamos com as modalidades, absolutamente predatórias da articulação chinesa com África, e com Moçambique em particular, a reacção local é imediata, aventando que isso é fruto da “nostalgia colonial”, dos tempos em que “nós” mandávamos. Mas é tão óbvio que não é isso. É certo que as relações entre Moçambique (e África) e a Europa (ou o “mundo pan-europeu”, como Wallerstein muito bem especificou) não têm sido absolutamente virtuosas, nem isentas de mecanismos de apropriação, nem decorrem simétricas. Mas é notório que, muito pelos processos de independência africanos mas não só, se geraram nas sociedades “pan-europeias” constatações e conflitualidades, preocupações ecológicas, derivas desenvolvimentistas, ideologias democratizadoras (sistematizadas na “condicionalidade política” que vigorou de facto durante breve período de tempo), e até uma feroz auto-crítica societal quanto às relações com o dantes chamado “Terceiro Mundo”, etc.

Este é um processo histórico, com corolários culturais e ideológicos, que a China desconheceu. E a abordagem que a sociedade chinesa, seu poder e suas empresas, tão articulados, faz a África é tipo “tábua rasa”. Com os preconceitos gritados (e não sussurrados como os de outros), com o descuido da issolidariedade óbvia, numa vertigem de apropriação de desrespeito. E nisto seria interessante perceber, o que exigiria um conhecimento profundo da sociedade chinesa actual, que estratos socioculturais chineses se envolvem na relação com África, e Moçambique, tanto na própria China como nos fluxos de migração sazonal (ou mesmo de assentamento).

E tudo isto é aceite. A troco de quê? De umas pontes, de umas estradas (tudo isso que virá a ser pago, entenda-se, e caro …)? Honestamente esta cena de tamanho profundo racismo, que mais audível (e assim visível) seria se percebendo mandarim, expressa neste apartar de “apartamentos” no centro da capital da cidade, é o grau zero da soberania. Convoca-me a dor d’alma, e nisso a demagogia, assumida: como é que no país de Mabote, de Machel, de Magaia, de Marcelino, de Mondlane, é permitida a situação que a isto conduziu?

(Ok, desabafo feito, podem vir apupar-me de “xi-colono”, saudoso do tempo em que “eu” é que mandava).

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A floresta arrasada em Moçambique

por jpt, em 02.08.18

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(imagem colhida aqui)

 

Em finais de 2017 após 3 anos de ausência fui a Moçambique. Vi, nessa altura, um mapa da involução florestal moçambicana. E vejo agora este partilhado por várias pessoas no Facebook. Durante essa minha viagem todos por lá me perguntavam o que achava que tinha mudado nessa minha ausência. Para quê responder, diante daquela desgraça e da radical inconsciência dos cidadãos e residentes? Quando voltei a Portugal botei um postal sobre as mudanças - para quê falar?, elidi tudo, completamente desiludido. Ainda por cima porque quando um português fala do assunto logo vem a conversa de que somos colonos. Brancos. Que queremos imiscuir-nos, que temos inveja dos chineses, que esse sim fazem, dão, cooperam. A permissividade à rapina externa é gigantesca. E ao boçalismo interno também. Sem rebuço (sem burka, como adoram os multiculturalistas), a capacidade crítica no país é pequeníssima. A devastação ecológica é dramática. A hipoteca do futuro é abissal.


Olhe-se para a desgraça que acontece. A ecológica. E o que significa para o futuro do país. É uma dor de alma. Sim, a minha cor de pele é branca, sou cidadão português. Não sou "dono da terra". Mas, raisparta, que "donos da terra", coitada da terra. Da fauna, da flora. E do futuro de tudo aquilo.

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Mabata Bata, de Sol de Carvalho

por jpt, em 05.05.18

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Hoje, às 21.45 (raiospartam o horário, em dia de decisivo Sporting-Benfica, enfim, "é a vida ..." como dizia o secretário-geral da ONU), é a apresentação do novo filme do realizador moçambicano Sol de Carvalho. No cinema São Jorge (av. da Liberdade), durante o INDIE LISBOA.

Eu já vi um bom naco, mais do que recomendo. Aqueles que estiverem em Lisboa e se quiserem eximir ao império do futebol terão ali uma bela opção.

E, já agora, para os cultores do escritor, é de referir que se trata da adaptação de um conto de Mia Couto.

 

MABATA BATA - TRAILER from bandoaparte on Vimeo.

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Na morte do embondeiro Dhlakama

por jpt, em 03.05.18

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 (Embondeiro junto ao lago Niassa, distrito Cobué, 2010)

 

Principalmente para os que trabalharam com as populações que cruzaram a guerra civil moçambicana - sim, eu não digo "conflito armado", a terminologia ainda habitual entre os cultores do idioma frelimista, que assim quer expressar a redução do partido Renamo a uma invenção estrangeira, rodesiana e sul-africana, algo que efectivamente foi mas do qual foi evoluindo -, delas ouvindo as suas horríveis memórias da guerra de Terror, praticada durante os 16 anos de ofensiva contra o Estado, pode custar a compreender o quão Afonso Dhlakama foi um dos líderes do seu povo. Não só entre o eixo shona (ndau e sena, para facilitar) que povoa o centro, aquelas Manica e Sofala a sul do Zambeze, zona de onde ele foi originário, pois, ao longo das últimas três décadas e  meia, progressivamente absorvendo o estatuto de porta-voz das aspirações da população entre o (rio) Rovuma e o (rio) Maputo. 

 

Talvez porque, obnubilados pela nossa própria história, e pela sua moralização em que nos obrigam a crer, nestes tempos de correctismo, sejamos incapazes de compreender a violência, mesmo a mais radical, como constitutiva da sociedade. Não, não falo da violência da "selva" africana, aquilo da simplificação do "Horror" conradiano (ou coppoliano, no franchising "Apocalypse Now"), mas da violência do verdadeiro "Horror" de Conrad, a universal. Será isso que nos pode impedir de compreender como a monumental "des-graça" da guerra entre 1976 e 1992, daquelas milhões de desgraças humanas, dos inúmeros episódios que a "população" nos conta, aquelas coisas que assim nos ficam para assolar, avassalar os sonhos e as vigílias - Dhlakama morreu hoje e só me lembro da primeira rapariga raptada pela tropa Renamo que tive o desplante de entrevistar, em 1994, lá no Cabo Delgado, ela completamente tolhida de tudo -, se pode transmutar numa forma de construção da democracia, da liberdade. Essas que prezamos. Mas que custam, de forma não instrumental, diga-se, pois não absolutamente necessária, mas que ainda assim custam, tudo isso.

 

Outros, historiadores ou grandes repórteres, poderão fazer o rescaldo do percurso do guerreiro-político Dhlakama, dirigente máximo da Renamo desde 1979, após a morte de André Matsangaíssa (em combate individual com Sebastião Mabote, foi a primeira versão popular que ouvi, magistral explicitação da dimensão de heroicidade, assim semi-divindade, que o povo atribui a estas grandes personagens da história moderna moçambicana). Mas quero frisar o quanto foi ele fundamental para o caminho em busca de uma democracia. Disso de haver vários locutores que reclamam o direito às várias opiniões sobre os caminhos a seguir, os vários modos de redistribuir os (parcos) recursos existentes. E a de, nisso, apelarem ao apoio dos conterrâneos, sem se submeterem a "verdades", comprovadas por "inteligentes", "sábios" (orgânicos ou expatriados) ou por uma qualquer "justiça", histórica ou moral.

 

Nesse caminho ganhou umas eleições presidenciais, em 1999. Sim estou disso convicto - e não me venham chamar renamista, que já botei as vezes suficientes que, em Moçambique, sou um "chissanista". E apesar do então acontecido não seguiu a via do regresso à guerra. Talvez por inexistência de contexto, interno e externo, para isso. Mas com toda a certeza que também por decisão própria.

 

E foi um homem (relativamente) despojado. Em particular nesta sua opção de regressar nestes seus últimos anos, como instrumento político mas não só, à sua zona natal, tão menos luxuosa, burguesa, sumptuária do que os refúgios, activos ou não, de tantos dos líderes políticos por esse mundo fora. A lembrar-me agora, na sua morte, Savimbi. Sendo personagens muito diferentes, em processos nacionais muitos distintos, e com lados escuros próximos (a guerra de terror nisso a muito contar). Aquele acossado até pelos velhos aliados, abatido em combate, e Dhlakama morto, ao que consta, por doença (diabetes, controlável se no remanso urbano). Mas ambos com esse ponto final, significativo, morrendo no mato, despojados do que tantos querem do poder. E do que tantos mais só querem do poder.

 

Foi um embondeiro moçambicano, como se costuma dizer na retórica das eulogias no país. E será bom para o apaziguamento do país que essa consideração não seja campo para as recriminações mútuas. Que o país o possa celebrar, na sua complexidade. Moldando-se assim, continuadamente, paz.

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Há alguns dias deixei aqui um postal aludindo à incoerência, sinal de incompetência e submissão ao casuístico, do parlamento português, o qual votou, de modo unânime, um pesar pelo assassinato de uma vereadora do Rio de Janeiro e que havia, recentemente, ignorado o asssassinato do presidente de Nampula. Aquele que me pareceu ser um texto liso ("flat") foi comentado de forma que me surpreendeu (concedo que cada vez mais tenho dificuldades em dialogar em comentários nos blogs, pois o tom parece-me bem menos profundo, num apenas provocatório, do que o que acontece no FB, mesmo que ali sendo abrasivos, o que se prende, decerto, com o efectivo anonimato de grande parte dos comentários bloguísticos). Assim ser contraposto naquele meu texto por considerações que julgam normal ("natural") que o parlamento siga a agenda mediática é difícil de contra-argumentar. Pior ainda deparar-me com comentários reduzindo, de forma altaneira, o que havia escrito a um "disparate" ou a "misoginia". Não é um lamento o que agora escrevo, é mesmo um cansaço. Explico-o, agora, através de dois pontos:

 

1. Não reclamei o interesse para um qualquer contexto longínquo. A Assembleia da República não é o governo. Como tal é normal, até desejável, que funcione um pouco segundo as comoções e pressões do eleitorado, da opinião pública. E que os interesses e focos de atenção das forças sociais que apoiam os partidos sejam mais ecoados através dos deputados. Assim sendo, é normal que o que tem mais peso mediático (o Rio é mais sonante do que Nampula, claro) induza mais reacções. Não é um defeito, é uma característica do parlamento. Ou seja, se a AR está vinculada à "razão de estado" vive esse vínculo de forma menos radical, em termos de imagem e discursos públicos, do que o governo, particularmente em questões de política externa. Sendo mais sensível a ecoar as correntes de pensamento internas, muitas vezes potenciadas pelas emoções colectivas e pela agenda mediática, esta salutar em democracia. 

Dizer isso não implica que a AR não tenha também uma dimensão "estadista". Nela está gente que se dedica à política externa e, mais em particular, à ajuda pública ao desenvolvimento, vulgo "cooperação" (terá comissões, grupos de trabalho; terá profissionais disso eleitos; terá políticos que já ocuparam postos na área; representa interesses económicos envolvidos; tem deputados da emigração; etc.). Assim, em questões estrangeiras não está, nem pode estar, limitada às solidariedades dos partidos representados, às comunhões ideológicas. Nem às parangonas das televisões e jornais. Poder-se-á discutir a pertinência formal de um parlamento votar um pesar sobre o assassinato de um vereador municipal (talvez que a reacção das instâncias políticas nacionais devesse incorrer sob o âmbito da Assembleia dos Municípios Portugueses, e das assembleias municipais - em particular a das grandes cidades portuguesas geminadas com o Rio; isso daria uma homologia). Mas pode-se ter querido incrementar o peso simbólico da reacção (duvido que tenha havido sequer essa consideração, mas enfim ... dou de barato). Mas isso implica uma questão - deve a AR debruçar-se sobre qualquer assassinato de agentes políticos estrangeiros? Deverá ter uma atenção abrangente? E se sim sobre que universo se dedicará, e segundo que critérios? Só os do Rio? Só os Brasil? Só os da CPLP? Também os da UE? Ou por aí adiante até englobar os da ONU? Ou vota-se apenas segundo as proximidades ideológicas com alguns partidos da nossa AR, mais diligentes nas propostas?

Talvez que a AR não deva apenas depender da mera agenda  mediática e das solidariedades internacionais dos seus partidos.  Moçambique é o 2º país mais populoso da CPLP. Esta é um vector fundamental da política externa portuguesa (pelo menos ao nível discursivo). Portugal tem interesses no país (variados, desde os "morais" aos "económicos", etc.). Tem tido papel na mediação de conflitos (inclusivamente nas negociações do recente conflito militar entre o Estado e o partido Renamo). Nampula é a segunda cidade do país. É a capital administrativa e económica da zona linguística macua - e há mais falantes de macua como primeira língua do que portugueses em Portugal, o que também dará para reflectir quando o discurso estatal e social aqui se centra na noção da "lusofonia" (ainda recentemente recuperada pelo nosso ministro da cultura, com reacção inexistente e debate nulo por parte das outras forças políticas nacionais). O presidente da câmara de Nampula (não um mero vereador) pertencia ao terceiro partido moçambicano, instaurado como o mais importante partido autárquico do país. E estava, dizia-se, de saída para fundar um quarto partido. Era um católico num contexto regional de esmagadora maioria muçulmana. Moçambique tem vivido conflitos militares nos últimos anos (houve uma pacificação nos últimos meses), e tem havido assassinatos de membros importantes do partido Renamo.

Nada disto explica o seu assassinato, sobre o qual não há informações. Mas tudo isto dá um contexto, óbvio, em que seria normal que a AR portuguesa, se entende expressar "pesar" pelo assassinato de autarcas estrangeiros, entendesse ter uma opinião política, de valor simbólico. Mas não teve, esqueceu-se: muito provavelmente apenas porque não há no seu seio um partido que se considere "companheiro de estrada" do falecido presidente. Ou, se calhar, porque nem sequer se lembraram do assunto. A mim parece-me simples, é um reflexo sobre as (in)competências da nossa AR em termos de reflexão sobre a política externa. Não é reclamar atenção para Nampula ou menosprezar a indignidade do lamentável assassinato da autarca carioca.  Mas é dizer que a AR não é apenas o fruto das primeiras páginas dos jornais (ainda que neles deva atentar) nem o rescaldo dos guias turísticos - que obviamente valorizam a "cidade maravilhosa" em detrimento da "cidade da chuva".

Mas se aludir a tudo isto é sinal de misoginia e a continuidade de um costumeiro disparatar então não haja dúvida: sou eu, apesar de mim-mesmo, um disparatado misógino;

 

2. Ericino de Salema, jurista e jornalista moçambicano, comentador político na televisão, foi anteontem raptado e violentamente agredido, tendo, felizmente, o seu sequestro sido interrompido pela chegada de um grupo de crianças ao local para onde tinha sido levado e onde o espancavam com barras de ferro tentando partir-lhe os membros. Na sequência do acontecido o jornal Verdade elenca os 12 crimes políticos dos últimos 3 anos, incluindo vários assassinatos, desde o do constitucionalista Gilles Cistac, bem como o sequestro de Jaime Macuane, também comentador televisivo, levado de casa e baleado com cinco tiros nas pernas, ambos apartidários e meus colegas na Universidade Eduardo Mondlane. Este é um traço do processo político no, como acima refiro, 2º país mais populoso da CPLP, essa que é uma dimensão importante da política externa portuguesa, num país que a retórica estatal (e parlamentar) nacional afirma como bastante próximo - recordo, como símbolo, que Rebelo de Sousa convidou apenas três países para a sua tomada de posse: Espanha, Brasil, .... Moçambique. Referir que será expectável uma particular atenção, e concomitantes actos simbólicos, sobre este processo e seus epifenómenos, por parte do parlamento (e de outras instâncias políticas) será, no entender daqueles que entendem a política como um feixe de solidariedades sobre as causas identitárias (o género, a raça, a etnia, a ... religião) que dominam o pós-marxismo actual, uma misoginia, falocrata, e um disparate, reaccionário.

Eu penso que não. E continuarei a pensar. Apesar dos comentários.

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Sopesar os pesares

por jpt, em 20.03.18

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Um voto de pesar da Assembleia da República convoca-me a pesquisar se um análogo terá sido feito há alguns meses. No "dia da Paz" em Moçambique, data da assinatura do tratado de Roma em 1992, que estipulou o final da guerra civil, foi no ano transacto assassinado o presidente do conselho municipal (o equivalente à câmara municipal) de Nampula. Eu cheguei à cidade uns dias depois, percebendo o trauma generalizado que vigorava. Para mais, foi-me descrito o assassinato por um amigo meu que o acompanhava naquele preciso momento. Nestes últimos dias aconteceram as eleições autárquicas, com vista a substitui-lo.  

Procuro agora no Google se a Assembleia da República se pronunciou sobre aquele atentado. Nada encontro, após várias buscas. Presumo pois que o facto tenha passado ao lado das preocupações e das agendas parlamentares portuguesas. Dos pesares dos senhores deputados e respectivas direcções partidárias. Se assim é (se o Google não estiver a esconder alguma referência ao assunto ...) isto demonstra bem a mundividência de centenas de parlamentares e de alguns milhares de influentes luso-opinantes.

Ou sej, uma vereadora do município do Rio de Janeiro, segunda cidade do Brasil, país da CPLP, é assassinada ("brutalmente assassinada" é uma redundância, e isso poderia ser ensinado aos deputados), e a AR vota o seu pesar. O presidente do município de Nampula, segunda cidade de Moçambique, país da CPLP, foi assassinado e a AR ignora o facto, não expressa o "pesar". Se não o votou porque será? Porque é em África, lá onde os gajos se matam uns aos outros, a necessitarem de umas "campanhas de pacificação"? Ou porque não pertencia ao partido feminista? Ou porque era homem? Ou porque, raisparta, o homem era negro, não uma mestiça (mulata/parda), bom material para os estes racistas subscritores do ideário "one-drop" a afirmarem "negra" ("preta", no português brasileiro)?

O recente assassinato é lamentável e indicia um ambiente político tétrico no Brasil. Mas a minha questão, antipática, é a dualidade de critérios analíticos da totalidade da elite política portuguesa, expressa na reacção a estes dois casos. No afã demagógico de seguir o agit-prop de agora, a abjecta filiação ao "correctismo", mostra-se bem a hierarquia de significados, importâncias e solidariedades. E transpira, de facto, bem lá no âmago, o fedorento racismo colonialista. Por mais tralhas intelectuais, a coberto da patetice dita "lusofonia", que regurgitem.

Agora vão lá agitar as caudas no Can-Can gauchiste.

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Guerrilha islâmica em Moçambique

por jpt, em 29.01.18

Guerrilheiros islâmicos em Moçambique. Partilhar isto - ainda para mais não conhecendo a origem das imagens, o que deixa em aberto a hipótese da sua encenação - é também um acto de divulgação e, como tal, um acto algo irresponsável. Assumo-o. Tirando esses meus pruridos: isto é o mais plausível. E o há muito temido, pois qualquer pessoa que conheça o país espera, e há já muito, a emergência de algo assim.

Em relação às grelhas analíticas dois princípios a afirmar já: 1) tenho visto os habituais negacionistas, a afirmar que isto nada tem a ver com o Islão. Mentem, por ingenuidade ou estratégia. Pois a história das religiões proselitistas (como o cristianismo e o islamismo) sempre se fez com a Palavra e a Arma (assim, com maiúsculas, para enfatizar a santidade da coisa). E a história do islamismo, logo após Maomé, sempre se fez com guerra (na nossa cristã história safou-nos Poitiers) - por mais que os sábios demagogos do nosso pérfido "ocidente" queiram resumir tudo à maldade das "Cruzadas" as "Crescentadas" foram uma constante. E a história das guerras entre facções intra-religiosas também (como as nossas guerras religiosas europeias tanto o demonstraram). Ou seja, "isto" também é o Islão.

2) Agitam-se os do "sociologês": atribuindo a responsabilidade (de facto, dizem-na "culpa") disto às malevolências do Estado ("a corrupção da Frelimo", agitam-se os do antigamente), à exclusão social, às assimetrias regionais, ao falhanço do modelo de desenvolvimento, etc. É o mesmo tipo de discurso que aponta a culpa dos estados europeus no terrorismo interno. De facto, esse sociologês vale nada: são "explicações" que tudo explicam (todos os fenómenos podem ser atribuídos a essas causas) e, como tal, em nada contribuem para a compreensão. E, em última análise, retiram a intencionalidade (o livre-arbítrio, os objectivos próprios, a racionalidade estratégica e utilitária) aos participantes. Pois, no afã de inculpar a perfídia ocidental (branca), o seu poder capitalista, e as suas sequelas pós-coloniais (em tempos ditas "burguesias compradoras"), são incapazes de verdadeiramente se libertarem do "eurocentrismo" que aparentam abominar mas que é o único eixo de pensamento que perseguem. Por isso menorizam as práticas e seus agentes. Infatilizam-nos. Barbarizam-nos. Dizendo que estes são o que são, perseguem o que perseguem, apenas porque desprovidos dos recursos económicos que desejam - "análises" que são apenas fruto um materialismo rasteiro, básico. Desvalorizador. E cego.

Em suma. Moçambique enfrenta guerrilheiros. Islâmicos, convictos, estrategas. Causados e com causas. A ver iremos no que isto dará. Lamentavelmente.

 

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A guerra no norte de Moçambique

por jpt, em 17.01.18

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Cada vez mais habituais as notícias de ataques e assassinatos no extremo litoral norte de Moçambique. Por vias mais pessoais chegam-me notícias de ataques, imagens privadas (ontem mesmo filmagens em telemóvel de população na estrada falando sobre a situação e os ataques). E muitas especulações: a imorredoira cartilha marxista-leninista atribui aos "interesses americanos" a responsabilidade pelos acontecimentos, os radicais críticos do Frelimo aludem à responsabilidade estatal, como se esta criando uma "cortina de fumo" distraindo de outras questões, alguns mais estupefactos aventam "será a Renamo?", outros querem reduzir a uma bandidagem, mas a esta não dando o tom elevado de "social banditry". E há quem creia no anunciado movimento (oficial ou oficioso) "Al-shabaab". Não sei do que se trata, não encontro iluminação no que tenho lido, tenho a minha mera crença - que nunca será a do "mínimo denominador comum" entre as várias versões. E que se alimenta de anos na perspectiva de que isto emergisse, vendo no norte e em Maputo as nuvens que o presumiam. Quem me dera poder ir comprová-la no terreno, inquirindo. Esperançado em provar-me errado. Porque há uma coisa, terrível, e inovadora no país, nesse presumível inimigo: não negoceia. Pois quer tudo - que é uma forma do "nada", do vazio político. E se for esse ele não está encerrado no norte extremo, mas pujante e afirmando-se pelo país, como é visível a qualquer olhar interessado. A sociedade moçambicana, a modorra dos seus poderes, chocou a mamba? Parece-me que sim. Só espero estar errado ...

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Vivi 18 anos em Moçambique, que assim me ficou avunculátria. Há meses regressei ao país após 3 anos de ausência, uma estada de cinco deliciosas semanas. O rescaldo desta, pessoal e profissional, é matéria a partilhar com os meus próximos mas ficou-me algo mais público, o esgarçar da  minha mania blogal. Pois os tantos sinais que antes me fariam um feixe de postais foram ficando para trás, submersos por outro(s) compromisso(s). Mas pensei num postal mais abrangente, respondendo ao que nessas semanas tantos (talvez mesmo todos) por lá me perguntavam: "então?, o que achas que mudou no país durante estes três anos?". É uma pergunta normal, sem malevolências epistemológicas, mas a transpirar a crença nas virtudes da empiria, aquilo de que a experiência veterana nos dá laivos de omnisciência. E também de alguma metafísica, nisso de esperar que o recuo, o assumir de um diferente ponto de tomada de vista, nos permite uma agudeza mental, mais elevada e iluminada (se telúrica demoníaca se celeste angélica, venha o diabo e escolha). 

 

Morreu 17 e já veio 18. E fiquei-me no silêncio. Credor de mim mesmo, da exprimir essa opinião, como se diagnóstico. E não só, pois ciente que se por cá, na minha pátria, a minha opinião sobre o "estado da arte" é irrelevante, que ninguém ma requere por mais que eu a esbraceje, por lá (a tal avunculátria) ainda há quem se dê ao trabalho de me questionar. O que também me desperta conclusões pessoais, a tais íntimas exo-blogais. Por isso aqui deixo o meu testemunho sobre o Moçambique que encontrei após os tais três (vácuos) anos de ausência, esperando que isso seja produtivo para quem se interessa pelo país, quem o procura interpretar. 

 

Fui à Ilha de Moçambique, para aí pela 25ª ou 30ª vez nestes últimos 20 anos. Antes como turista, funcionário diplomático, consultor, investigador, amigo. Agora fui para proferir uma conferência a convite da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas local, esse grande feito que a Universidade do Lúrio cometeu em 17. Fiquei uns dias, durante os quais revi os queridos amigos por lá. Um deles contou-me este episódio, sabendo de antemão que eu o apreciaria. Marcara ele um encontro com um conterrâneo, se nahara (local) ou macua ("viente", como lá se diz) não explicitou, nem é relevante. Combinou-o para a pequena praça onde está a estátua (pavorosa, já agora) de Luís de Camões, monumento tardo-colonial. O interlocutor não o percebeu, àquilo da "estátua do Camões". Ele explicou de novo. Sem se fazer entender. Insistiu, finalmente conseguindo o entendimento: "Ah!, a estátua do monstro que está a pedir dinheiro?!". 

 

Sei que isto pouca inteligibilidade dará aos meus patrícios veiculadores das virtudes lusófonas (grosso modo o rebanho de clientes financiados pelo Estado-PS) e aos moçambicanos letrados avessos àquilo dos "camponeses", todos crentes (e menosprezadores) de um certo "atraso" africano. Ou "das nossas limitações", como se diz em Maputo, a "Nação". Mas talvez aos outros, às pessoas livres, este corolário, vindo deste velho já meio rebentado, possa servir para entender alguma coisa. Espero bem que sim, até porque mais não tenho para dizer. Nem o sei dizer de outro modo.

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Zena Bacar morreu

por jpt, em 24.12.17

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Morreu a voz canónica do norte de Moçambique, a diva da Ilha (de Moçambique) se se quiser, ainda que nunca assim dita, pois muito mais a diva vinda da Ilha, a sempre voz dos Eyuphuro, o maior dos agrupamentos musicais macua. È assim um muito, enorme, do norte de Moçambique que enrouquece. Últimos tempos de vida difíceis, paupérrima, lia-se na imprensa. Escassez de registos musicais, o que ainda mais se nota nos raros filmes disponíveis na internet. Quase nenhuns textos dedicados. Fica a voz e o estar. Que foram enormes. Vindos daqueles "anos de chumbo". Que continuam a ser, os nossos.

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Moçambique, de José Cabral

por jpt, em 21.12.17

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Hoje é a apresentação de "Moçambique", o livro do fotógrafo moçambicano José Cabral, uma edição conjunta XYZ Books (Lisboa) / Associação Kulungwana (Maputo). Cerca de 150 fotografias, a maioria, como é costume no Cabral, no preto-e-branco mas também com uma incursão nas coloridas. O livro tem dois textos, enquadrando a "coisa", um de Alexandre Pomar, que organizou a publicação, e outro de Drew Thompson, americano especialista na história da fotografia moçambicana. Hoje, dia da festa por causa do livro, o preço será de 20 euros, uma verdadeira pechincha para uma peça destas. A tal festa acontecerá no "Irreal", Rua do Poço dos Negros, 59, em Lisboa, naquela hora das 19.

O Zé Cabral é um entroncamento na fotografia de Moçambique. Quem desta conhece algo sempre refere os mais-velhos, icónicos, pelas fotos e por eles próprios, tipos sui generis (passe a aparente contradição), ambos "maiores do que a vida", Ricardo Rangel e Kok Nam, grandes fotorepórteres, que narraram e construíram a história do país, e que marcaram as gerações seguintes dos fotógrafos por lá. O Cabral vem a seguir, porque é mais novo, entenda-se, sui generis também, pois "mais complexo do que a vida", e escapou-se à reportagem, pouco ou nada atreito à disciplina da imagem correcta para ilustrar o discurso correcto, requerido por quem a podia requerer. E assim se pôs a construir o seu mundo, num carinho sulfuroso. Foram estes seus passos que mostraram no país outra forma de falar com a câmara, essa que veio a impregnar os fotógrafos mais novos, que se têm agora tornado conhecidos: Felix Mula, Mauro Pinto, Mário Macilau, Filipe Branquinho.

Há alguns anos Alexandre Pomar escreveu o texto para o catálogo da exposição "Anjos Urbanos" e apanhou bem o Cabral. 

Até logo?

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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1234).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

Para além desse trabalho historiográfico, pioneiro, e de referência, Soares Martins foi um excelso diplomata, durante 19 anos adido cultural português em Maputo, com obra de monta. Para além das sábias articulações que induziu e reproduziu, em época de grandes cesuras entre ambas as sociedades, constituiu, em condições muito difíceis, políticas e económicas, os então ditos “serviços culturais da embaixada de Portugal”, funcionando desde 1983 e que vieram a dar origem ao centro cultural português, inaugurado em 1997 (e não em 1996, como incorrectamente anuncia a literatura oficial). Nessas décadas iniciais foi muito relevante a constituição da biblioteca desses “serviços culturais”, obra de Soares Martins. Num Maputo bem diferente do que é hoje, a ausência de material bibliográfico era enorme, e lendárias eram as filas na rua de jovens leitores aguardando a sua vez para estudarem. Em finais de 1990s pude constatar que havia mais de 1000 visitantes diários.  Antes, na Beira dos anos 1950 e 1960, Soares Martins, sobrinho do célebre bispo Sebastião Soares de Resende, tinha tido grande papel na dinamização de uma imprensa que, ainda que coarctada pela censura do Estado Novo e pela oposição da sociedade colonial, entreabria a denúncia das tétricas condições que esta reproduzia.  Claro que os seus contemporâneos na Beira e em Maputo muito mais poderão adiantar sobre essa personagem extraordinária que foi José Soares Martins. Como intelectual, como diplomata. Como democrata.

Em 1997 Jorge Sampaio visitou Moçambique. Soares Martins reformara-se no ano anterior, e regressara a Portugal. Mas ali se deslocou para essa ocasião. Foi condecorado, com a comenda do Infante D. Henrique. E Sampaio, conjuntamente com Joaquim Chissano, descerrou esta (aparentemente) modesta placa – em madeira, propositadamente, para evocar o tradicional trabalho artesão moçambicano; de autoria do célebre carpinteiro português Silva, para significar as possíveis simbioses – que serve para nomear, e de modo tão justificado, a sala de leitura do centro cultural português (o Camões) de Maputo. Sua, antes de todos os outros, obra.

Agora, após 3 anos de ausência do país, fui a Maputo. E fui ao centro, apenas para me curvar diante desta placa. É muito bonito que ela esteja ainda – sabemos da tradicional amnésia das instituições estatais, e da vertigem dos funcionários em remodelar e pensar que antes deles era o Caos, que “a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo” e que deles, só deles, brota o Verbo Iluminador. E é muito bonito constatar que há sítios, locais, e pessoas, que sabem que não é assim, e que os antepassados respeitáveis, e iluminadores, são homenageados, lembrados (e seguidos, nas diferenças de cada era) no quotidiano. Fico contente.

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Ponta Gea

por jpt, em 03.11.17

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(lendo o "Ponta Gea" na Ilha de Moçambique)

 

João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, Caminho, 2017

 

Tornámos a vida num bazar de opiniões, frenético, feito do tropel dos nossos egos, tonitruantes, como se nós, assim gritados, algo fossemos verdadeiramente. Nisso se vão esgarçando os adjectivos, nesta nossa escalada de superlativos, sinónimos ou antónimos, que nos valham para sermos ouvidos, numa dança vã do exigir atenção, um patético xigubo de vaidades, digo-o já que em Moçambique.

Veio-me isto a propósito deste “Ponta Gea”, de João Paulo Borges Coelho, o seu 12º livro em registo ficcional, seu percurso começado em 2003 com o, para mim, deslumbrante “As Duas Sombras do Rio”. O qual fora antecedido pelas três bandas desenhadas publicadas na década de 1980. Pois agora, diante deste último livro, ficou-me a dúvida, esta de como o definir, adjectivar? Pois é óptimo e, de facto, opinião mais sonora é impossível, e este termo deveria ser o suficiente para convocar a atenção. E, como tal, assim fico: “Ponta Gea” é um livro óptimo.

O formato do livro é o de memórias, entre o rapazinho virgem de mangal que nele se aventura, descobrindo-o e a si próprio, e o finalista liceal, aprestando-se a partir para sempre daquele local que lhe foi infância e que lhe virá a ser o país estrangeiro e para sempre inatingível, esse que sempre é o passado.

Ponta Gea é um “bairro”, até mítico, da Beira colonial, e é do ambiente dessa cidade que emanam os quinze episódios, entrelaçados entre eles e com tantos outros que neles se invocam, do que consiste o livro. Neles ressurge a Beira – e um pouco do meridiano entre Sofala e Manica, até aquela Gondola – do ocaso colonial, entre 50s e o início de 70s, mas sem grama do tão recorrente saudosismo ou exotismo que polui a Africana, essa espécie “literária” muito em voga. O que “Ponta Gea” traz é uma Beira cosmopolita, coito de misteriosas personagens, uma vasta galeria de dançarinas eróticas e artistas circenses transoceânicos, pugilistas advindos do longínquo hinterland, prostitutas sem rumo, mágicos e sábios de vão de escada, assassinos e dementes, ladrões célebres e aristocratas ou seus avatares asiáticos. O que nele se desvenda é ter sido aquela Beira centro e cerne de enigmas até insondáveis, dos anónimos falecimentos no mangal às causas do assassinato do primeiro-ministro sul-africano, culminando na eterna questão do navio “Angoche”, abandonado no alto mar por uma tripulação para sempre desaparecida, do canal de Moçambique fazendo vedadeiro “triângulo das Bermudas”.

A escrita-ritmo do João Paulo Borges Coelho é aqui gloriosa: e se é deslumbrante o como narra a descoberta infantil do mangal é até comovente a página e meia dedicada à aprendizagem da degustação de sadza (xima, uchua, como se preferir), a massa de milho, com camarão frito, lição de mundo e disso do ser homem, não só mas também muito através do palato e da aceitação do protocolo alheio. Assim lição de cultura, acto de formação, no nada simples molhar os dedos na massa, misturando-a, de modo até voraz, com o camarãozinho.

Os ramos deste “Ponta Gea” são muitos, e mostram diálogos. Lendo-o é impossível não lembrar Sebald, e não só pelo meneio desta “assemblage” literária d’agora, na utilização de imagens alusivas – algo que jpbc já havia feito, mas restrito a imagens escritas, no seu “O Olho de Hertzog”. Mas não é só isso que nos avisa do tempero sebaldista. Pois a este notamo-lo naquilo que é já usual no autor, e que, de facto, lhe foi sempre projecto, a híbrida mistura das memórias próprias, da memória social do país, da vontade ficcional, da historiografia – de que é ele próprio profissional -, da autobiografia. É esta mescla, entre ficção até onírica e “memórias”, cerzindo os factos com a ficção, que aqui surge acima do que já havia feito nos livros anteriores. E é assim que o autor prossegue o que sempre persegue, aquilo do inventar a História que realmente foi, que aprendemos a cultivar com Borges.

Mas estas histórias vistas pelo rapazinho, ágil, sonhador curioso, até atrevido, cruzando as misteriosas vielas beirenses, atento aos seus esconsos habitantes, e até deles inquiridor, aparecem como um “romance de formação”, qual primeira parte do grande bildungsroman que talvez o autor nunca venha a completar. Pois tarefa porventura demasiado dolorosa, na apneia moral que exigiria, no desinteresse que a exagerada vizinhança, não coada pelo passar das décadas, implicará. O que não é defeito, nem em nada apouca este “Ponta Gea”. Pois, bem lá no fundo, o que ele mostra é um Tom Sawyer renascido (um Tom Sawyer, não um Huck Finn), encantado, cuja prodigiosa imaginação disseca o que aconteceu e o estabelece como foi, tal e qual.

Repito-me, “Ponta Gea” é um livro óptimo. Desde há muito que me surpreende como é que João Paulo Borges Coelho não é um escritor muito mais lido, cá em Moçambique e em Portugal, onde também é publicado. Durante anos lamentei-o. Já não. Egoísta até me apraz que não sejamos muitos os que lhe amamos os livros. Pois assim percorremos a “Beira”, suas vielas, arrabaldes e até avenidas e, cuidadosos, trocamos entre nós, só entre nós, seus leitores apaixonados, os nossos sinais de iniciados. E os outros, ileitores, seguem no seu mundo. Algo mais pobres do que nós … E tão mais sós.

 

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A travessa

por jpt, em 03.11.17

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Nas ruas de Maputo encontro a travessa que evoca o meu português preferido, e nisso o meu escritor português preferido - e sem nunca me ter preocupado se Mentes se Mendes ... Uma mera travessa, noto-o, a isso da pouca monta que lhe deu o poder de Lourenço Marques. Olho e fotografo. A vizinha vê-me assim e pergunta-me se (lhe) estou a fotografar a grade da casa. Afianço-lhe que não, que levo só o nome da rua. "É seu conhecido?", pergunta-me, verídica. Sou forte, e evito o riso, em carinho. Do nomeado digo-lhe quem foi, e quando. Sorri, num aqui tão típico "afinal!?" ...

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Maputo cidade-fantasma?

por jpt, em 07.11.13

 

São oito e um quarto (vinte e quinze, como aqui se diz), noite já cerrada, acaba a aula do pós-laboral, saio do "campus" para casa. O meu velho Ssangyong não anda, descontinuada a produção não encontro as peças para os travões, coisa já de há meses, e falta-me taco para comprar outro carro, mas tenho mesmo que comprar um novo, um pequenito, desses japoneses recondicionados que inundaram Maputo (para desespero dos puritanos da esquerda europeia, que compram carros novos a crédito e protestam com a automobilização dos corruptos africanos, a estes dizendo-os traidores às revoluções que vão sonhando lá no sofá e escalfeta do Estado-Providência), a ver se poupo uns 5 mil dólares para isso. Bem, neste lamento estou-me a afastar da "coisa", dizia eu que já são vinte e quinze (oito e um quarto, como se diz aí) e acabei a aula, vou do "campus" para casa. Ou chamo um txopela, que me custa um maço de Peter ou chateio a Inês, exausta a esta hora, para me vir buscar, ou vou a pé, quinze minutos a calcorrear que não me fazem nada mal, coisa que tenho vindo a fazer, necessidade oblige

 

Então lá vou eu, "campus" acima, cruzo a rua de França,  a quase viela a esta hora apinhada de carros e peões universitários, passo o "Macuti" animado como sempre, mas hoje não vou às 2M e moelas, desço a Zimbabwe, estou no Restelo cá do sítio, cruzo as putas de todos os dias, aos já habituais "olá fofo" "vamos dar uma volta" sempre respondo afável (é o meu momento diário de afabilidade) uns "boas noites", "bom serviço", que naquele entre ali me darão um ar de vovô tonto e inofensivo, passo para a Kaunda, carro acima e carro abaixo, sigo pelo Hospital Militar, desço à clínica de Sommerschield, zonas residenciais mais calmas na hora da novela e os cafés já fechados, entro na Kim-Il-Sung, carro à esquerda, carro à direita, e continuo no Restelo cá do sítio, venho falando sozinho, resmungando aulas, compondo argumentos da história empresarial que me ocupa, e que tanto me está a fascinar, mas também hipóteses de postais in-blog e tácticas para o jogo na Luz, amiúde saudando "boa noite, obrigado" aos guardas residentes e a vários transeuntes, alguns tardios do footing outros atrasados ao resting. Acabo em casa, exalando, transpirando ou suando, conforme quem me leia.

 

Depois, já banhado, jantado e dormido, leio que "Maputo é uma cidade-fantasma", pois aqui "o pânico instalou-se", são as teclas de Ana Dias Cordeiro ecoadas no jornal Público (e a esta hora já replicadas por 500 e tal faceboqueiros, nisto do "sharo logo existo" dos dias de hoje). Venho então escrever este postal. Para dizer que é tanga. Não é apenas o habitual desajuste do jornalismo português sobre o país (então o Público tem uma longa tradição, burlesca até, de asneirar sobre Moçambique). Não é apenas isso, repito. Deixemo-nos de coisas, deixemo-nos de merdas, não é só mediocridade, não é só restringir o olhar a uma pequena meia dúzia de compatriotas e botar apressadamente o que julga conveniente botar. É mesmo tanga, mentir para aumentar tráfego no "sítio" do jornal, para vender papel, para mostrar anúncios.

 

Estão os moçambicanos preocupados? Estão, com as escaramuças no centro e norte, com o que se passará nas próximas semanas até às autárquicas, com o preparar do ciclo eleitoral de 2014, com a criminalidade, constante nos bairros urbanos populares, agora re-irrompendo no centro burguês (na "classe média" como balbuciam os "leitores" da sociologia actual, "classe média" de quê?, porram outros). Estão os estrangeiros residentes (os imigrantes e os expatriados) preocupados, até alarmados? Estão, bastante. Está este jpt, bloguista, ainda por cima residente apeado, angustiado, de cenho (des)armado? Está, estou.

 

Mas não há pânico nestes 2 milhões e tal de pessoas. Nem são elas, somos nós, almas penadas numa cidade-fantasma. Nem de dia. Nem de noite, ainda que a esta faltando a miríade de neons que iluminam a crise despesista da "classe média" (classe média de quê?, porra!) que lê o Público.

 

Adenda: há uns dias disse que me blogo-calava, que isto não estava para isto. Mas, pensando melhor, não me apetece.

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