Sentido Obrigatório

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Há alguns dias o meu amigo fotógrafo Pedro Sá da Bandeira inaugurou no Camões (Lisboa) a sua exposição "Senda Índica" (aqui deixei o que Graça Gonçalves Pereira escreveu para a "folha de sala" e o que eu naquele momento disse sobre este seu trabalho).

Nessa mesma sessão apresentei o meu livro "Sentido Obrigatório", (que pode ser comprado através da ligação colocada no título), o qual é uma colecção de 30 textos dedicados a Moçambique.
Neste postal coloquei a gravação de uma entrevista televisiva ao programa Mar de Letras, meia hora de conversa dedicada às vivências que conduziram aos meus livros "Torna-Viagem" e "Sentido Obrigatório". E juntei-lhe o "improviso escrito" que fiz para a sessão de apresentação deste novo livro.
Fica a referência para quem se queira interessar.

No passado 18 de Setembro apresentei o meu livro Sentido Obrigatório, acoplado à inauguração da exposição fotográfica Senda Índica que o Pedro Sá da Bandeira dedica a Moçambique, e a qual é visitável até ao próximo dia 2 de Outubro na galeria da sede do Camões, sita exactamente no Marquês de Pombal (anunciara-a aqui).
Para a sessão fiz um “improviso escrito” - como sempre dizia o meu saudoso amigo Aventino Teixeira, que nisso exercia o seu constante sarcasmo -, onde ambicionava legitimar o meu livro. Mas no momento da apresentação - algo inebriado pela, até inesperada, enorme (!, enorme mesmo!) quantidade de amigos que ali afluíram - esqueci-me das minhas coisas e pus-me a falar das fotografias do Pedro, e até a apontá-las…

Do que me lembro desse verdadeiro improviso que ali perorei - e do que mais gostaria de ter dito - componho-o agora assim:
Tenho de salientar a minha gratidão para com o Pedro Sá da Bandeira. Pois ao ter decidido associar a inauguração da sua exposição fotográfica sobre Moçambique, esta bela Senda Índica, não só comigo ombreia como reboca a apresentação deste meu livro Sentido Obrigatório.
Refiro esse rebocar não apenas por reforçar a visibilidade desta sessão, nesta nossa congregação de amigos que hoje acontece. Mas pelo percurso que vamos tendo juntos, mesmo que amiúde apartados pelas geografias. O Pedro é meu amigo. Mas mais ainda significativo é o facto de comungarmos sensibilidades intelectuais. As quais aqui abordo, sem com isso me atrever a pretensões de crítico fotográfico.
O Pedro viveu três entusiasmados e trabalhosos anos em Moçambique, tornando-se ali exemplo de inserção profissional e pessoal. Eu dezoito. E por essa diferença de tempo de imersão tanto me surpreendeu a tal nossa similitude de olhares - porventura isso será vantagem do seu instrumento, a máquina fotográfica, que o afasta dos tormentosos labirintos teóricos que a nós, os das “ciências sociais”, tanto nos atrapalham. E, decerto, por seguir ele totalmente desprovido da ambição de ascender aos púlpitos, essa que tanto (nos) envenena. E deturpa.

Ele é um fotorrepórter, não procura a dita “estética” - a paisagística, natural ou humana - muito menos a tão habitual (e até mesmo malvada) “estética da pobreza”, afastando-se do mero “belo”, grandiloquente que este minta ser ou até mesmo apetitoso às paredes de galerias.
Especializou-se na recolecção (ou seja, na verdadeira construção) do momento, do episódio, esse que denota o conjunto de processos envolvidos, a vida. Para quem o queira e/ou possa interpretar. Mas - e é esse o arcaboiço “teórico” da sua máquina - muito mais do que isso, pois o que o Pedro capta assume, tantas vezes, um cariz profético. Dado que ele, nesses vislumbres, mostra - através da tal construção, feita não através de intrusão encenadora mas por observação empática - o futuro que impregna este esquivo presente.
Aponto-o aqui, a esse sadabandeirístico teor profético, para o sublinhar aos amigos lisboetas, menos ou nada conhecedores do Moçambique que ele enuncia nas suas fotografias, assim menos capazes de a estas interpretarem, àqueles augúrios reconhecerem.
Dou meros exemplos, sem ser exaustivo para não enfadar: o ar mesmo maroto do transportador da imagem apeada do presidente Guebuza; o “China em África” que ele logo detectou à chegada numa vulgar carruagem de comboio - bem antes dos ensaios e proclamações políticas sobre tal assunto…
Ou o delicioso tríptico com pastor e crentes “ma”ziones, exemplo - que ele captou também logo à chegada ao país (2006) - da enorme expansão social do pentecostalismo e correlato evangelismo, fenómeno que tanto admirou (e atrapalhou) muitos intelectuais neste último ano político… Ou o magistral quase bíblico “César e Deus”, com o sacerdote (que tantos insistem em reduzir a “curandeiro”) invocando o(s) Deus(es) sob a tutela de César (Chissano), enquanto nessa mescla o seu (induzido?) movimento pedonal anuncia o único rumo possível de futuro (o bebé).

E esta quase críptica “Fátima” - imagem aparentemente “lisa” mas que tanto condensa. É Caia, local onde por batelão se atravessava o Zambeze, rio assim por décadas mantido fronteira natural no país, pois este ainda desprovido de ligação rodoviária directa entre os simbólicos rios do Norte (Rovuma) e do Sul (Maputo). E onde se construía então, e finalmente, a ponte - essa que veio a ser nomeada Armando Emílio Guebuza mas à qual o povo (esse “que tudo sabe”) logo denominou Ponte da Unidade Nacional.
Ao ver a fotografia perguntei-lhe, sem pudor, “encenaste-a?”. Ao que me disse, no seu típico sorriso perspicaz: “não, encontrei assim…”. A “Fátima”, comerciante (talvez de si-mesma, avento), esperando clientela naquele local de tantas e longas pernoitas, transeuntes aguardando lugares na azáfama do batelão diurno. A seu lado, até quase esconso, um vasilhame já histórico, de esvaziado: uma garrafa da Manica (a cerveja da Beira), outra garrafa de 2M (a cerveja de Maputo). A Unidade Nacional…
E sobre todas as outras poderíamos conversar, deliciando-nos nos seus múltiplos sentidos. Por tudo isso muito gostaria eu - pois sei-o absolutamente pertinente - que esta Senda Índica viajasse. Itinerasse, pelo menos, por Moçambique. E nisso logo me lembro dos centros culturais sobre os quais tive responsabilidade (em Maputo e na Beira), mas também por outras paragens - por exemplo em Quelimane, onde recentemente se fundou a Biblioteca e Centro de Documentação José Capela, esse que foi mítico conselheiro cultural português no país e seu fundamental historiador. Mais que não fosse para mostrar, reafirmar, por lá que por cá há gente que olha… Alguns!
(E também fico à espera de que tu, Pedro, nos apresentes a vasta exposição andina que já tens. Haja… Lisboa para isso)
(O texto completo, junto à folha de sala, escrita por Graça Gonçalves Pereira, está aqui)

Hoje mesmo, 18 de Setembro, ao fim da tarde no (Instituto) Camões, sito exactamente no Marquês de Pombal, eu junto-me ao Pedro Sá da Bandeira, ele inaugura a sua exposição "Senda Índica" - que ficará até 2 de Outubro -, eu apresento o meu "Sentido Obrigatório", 30 textos de opinião sobre Moçambique (e algo de Portugal). Fica aqui o convite para quem quiser comparecer...
Quem tiver paciência para me ver a tentar divulgar este "Sentido Obrigatório" (e o anterior "Torna-Viagem"), aqui deixo ligação para a minha entrevista no "Mar de Letras", transmitida ontem, meia hora de conversa sobre Moçambique. Os livros podem ser adquiridos através desta ligação.

(Fotografia de Pedro Sá da Bandeira)
Anteontem na Faculdade de Direito da “Clássica” de Lisboa houve uma sessão anunciada como encontro de Venâncio Mondlane com moçambicanos cá residentes.
Fui até lá acompanhado por um amigo, o Pedro Sá da Bandeira, fotorrepórter que reside no estrangeiro e por cá agora veraneia. Pois a curiosidade impôs-se-nos! Ambos vivemos anos em Moçambique, e muito gostámos. O Pedro prepara agora a exposição “Veredas Austrais” - fotografias feitas naquele país -, que apresentará em Lisboa, no próximo Setembro. Eu de vez em quando falo sobre aquele processo político. Escrevi um texto longo sobre o assunto - a primeira parte está aqui, à conclusão colocá-la-ei esta semana. No fim do Verão publicarei um livro com textos de opinião sobre Moçambique, o “Sentido Obrigatório”. Ou seja, ambos muito gostamos de Moçambique e nele estamos interessados - de modo desinteresseiro. Talvez eu esteja demasiado enviesado nisso, assim porventura sobrevalorizando a relevância daquelas realidades para o ambiente português… Não tanto o Pedro, pois mergulhado na imensa e apaixonante Colômbia que o acolhe.

(Mudaulane)
Até 19 de Julho de 2025 estará aberta a “Muungano (1975-2025): 50 Anos de História, Arte e Cultura de Moçambique Independente” na Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa. A exposição celebra, como é óbvio, o cinquentenário da independência do país - e decerto que por isso vem o seu nome, “Muungano”, que traduzo não literalmente por “fraternidade”.

(Postal no meu "O Pimentel")
Neste 25 de Junho Moçambique comemora meio século. Eu devia - e tinha isso planeado - hoje aqui publicar um texto analítico, ensaístico. Mas adio. Pois ponho-me…
Em 1990, quando acabei a tropa - que então era obrigatória, e saíra-me “em sortes” -, através do na época fulgurante “Expresso Emprego” logo encontrei um trabalho: feito “director”, com belíssimo ordenado (os tempos eram assim), o usufruto de um carro e também de um apartamento fronteiro ao mar, em São Pedro de Moel. Numa empresa de roupas! E todos poderão perceber o que passou na cabeça daquele pós-mancebo, assim feito bem-posto, alcandorado num ambiente obviamente pejado do então celebrado “mulherio”.

(Massinga, Inhambane, Moçambique)
1. A CPLP é um eixo fundamental da política externa portuguesa - ou, pelo menos, assim é referida.
2. Moçambique é o terceiro país mais populoso da CPLP.
3. Moçambique está numa situação política complexa, após (mais) umas eleições que colheram a suspeição quanto à sua fiabilidade. As quais conduziram a um novo presidente e um novo governo. Que continuam a ser contestados pela oposição real.
4. Em Moçambique o actual governo/poder expurgou-se de ligações com o anterior governo, por alguns considerado criticável. Afiançou-o no seu programa televisivo, saudando um "novo ciclo", o administrador de empresa Paulo Portas - antigo jornalista, antigo político, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.
5. Há poucos dias em Maputo uma manifestação pacífica (e festiva) do real líder da oposição Venâncio Mondlane foi violentamente reprimida pela polícia. Houve mortos e feridos, inclusive de uma pessoa que ia na viatura desse candidato, e algumas crianças. As imagens foram transmitidas em directo, não deixando dúvidas sobre o acontecido. Nem sobre a intenção assassina que suportava a acção policial.
6. Neste fim-de-semana Daniel Guambe e Rafael Sitoe, dois reconhecidos militantes do movimento oposicionista foram assassinados em Massinga, na província de Inhambane. Tinham 28 e 21 anos, respectivamente.
7. Ontem, domingo, no programa televisivo semanal do antigo político, antigo jornalista, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e actual administrador de empresa, Paulo Portas, não houve qualquer referência a Moçambique, o tal segundo país mais populoso da CPLP.
8. Antes da intervenção televisiva do administrador de empresa Paulo Portas, incluída no telejornal da TVI, foram emitidas declarações de Voltaren, Continente, McDonalds, Intermarché, Worten, Volkswagen, Easy Jet, Vodafone, Audi, Mercedes, Cetelem, Pizza Hut, Multiopticas, Bleu de Chanel, Sensodyne, Rhinomer, Hyunday, Mickey 17, Pantene, Nissan, Wells, KitKat, Nivea, Securitas, Pingo Doce, Renault, Parodontax, The Fork, Burger King, Radio Popular, Colgate, Lilly, Corega. Decerto que solidárias com o conteúdo do transmitido.

(A fotografia retrata uma exposição da Magma Fotografia, na estação dos CFM de Maputo, em 2009. A fotografia exposta será de Solange dos Santos ou de Dominique Andereggen, não tenho a referência completa)
"Zé / Zezé, então e como é que está aquilo em Moçambique?...", perguntam-me diariamente amigos, agora que "as coisas" de lá se afastaram um pouco dos "escaparates" da imprensa. - escrevia eu há um mês. Agora perguntam-me menos, as notícias por cá escasseiam e outras questões prementes convocam o interesse: as nossas inúmeras trapalhadas do CHEGA, às quais se seguiram as previsíveis de Montenegro. Lá fora mantém-se a desgraça de Gaza, acoplada ao patético/pateta anseio de uma Riviera ali medrada. E, agora mesmo, a ascensão final da Criatura TrumPutin. Esta tanto animando essa execrável mescla, vigente desde a invasão da Ucrânia, fez ontem três anos (!), dos nossos comunistas - das versões III e IV Internacionais - e fascistas - entre estes em especial os que estiveram estas décadas travestidos de "sociais-democratas" pêessedistas ou "demo-cristãos". Os quais andam agora, eufóricos pois "saídos do armário", quais "bichas loucas" em histriónica "parata fascista".
Enfim, olhando a História, percebemos que a revivemos. Pois a oriente temos hordas de guerreiros norte-coreanos rumo a Viena, os boiardos russos vão sendo defenestrados em massa, o pretendente Navalny foi morto há um ano (cumpriu-se há pouco). Entretanto, a oeste Drake vagueia pelas nossas costas, reforçado por frota de mercenários vikings, convertidos ao calvinismo africano. E há dias, arrogante, mandou-nos como emissário um puritano de Salem, para exigir "tributo". E esta nossa gentalha rejubila. Porquê? Por não gostar que "Roma" imponha alguns limites às superstições locais... São uns labregos, já o referi.
Neste ambiente como atentar nas coisas de Moçambique? Mesmo assim ainda há quem me pergunte novidades sobre o país. Faço então um curto resumo, para não cansar os (um pouco) interessados. O candidato presidencial Venâncio Mondlane, autoproclamado "presidente do povo", continua as suas sortidas, colhendo impressionantes e espontâneos banhos de multidão: agora em Vilanculos, há dias em zonas populares de Maputo e em localidades da sulista província de Gaza (a Gaza moçambicana, não a mediterrânica, como julgou o ex-viking Musk). Alguns dos seus seguidores mais próximos continuam a sofrer tentativas de assassinato, ditos como praticadas pelos consabidos "esquadrões da morte". A isso reage a população, destruindo algumas instalações estatais e do partido do poder, fenómenos mais correntes no Sul do país, algo relevante pois em zonas de tradicional adesão maioritária ao Frelimo. E continuam a grassar bloqueios rodoviários e em torno de zonas comerciais, sinalizando a imprevisibilidade do rumo nacional e a atrapalhação da "ordem pública". Como detalhe, verdadeira minudência, lembro que algumas rádios de Nampula viram-se impedidas de transmitir, tendo regressado algum tempo depois, decerto que tendo tomado em conta o "aviso à navegação" recebido. Bastante preocupantes são as notícias da disseminação de grupos amotinados (agora ditos "namparamas", num uso inovador do termo, que vem substituir os anteriores "bandidos armados" ou "insurgentes"), os quais alastram, principalmente nos distritos da Zambézia. E diante dessa epidemia de "jacqueries" temo que se venha a tornar em pandemia.
Entretanto há dias houve a ansiada reunião do Comité Central do Frelimo, sobre a qual muitos diziam ser o momento da passagem do testemunho, efectivando uma maior autonomia política do actual presidente Chapo, abrindo assim o "novo ciclo" de poder - este por cá já há tempos "anunciado na tv" pelos comentadores lóbistas Paulo Portas e Miguel Relvas -, e concomitantes novas práticas de exercício governativo.
E alguns dias após essa reunião magna houve pronunciamentos dos próceres moçambicanos, delineando o conteúdo desse "novo ciclo". O antigo presidente Guebuza deu uma conferência na semana passada, explicitando que "o colono trouxe a ideia que o africano é corrupto". Entenda-se, que a premente acusação de corrupção generalizada do regime se deve ... à maldade exploratória dos colonialistas. Para os alheados das questões moçambicanas (e africanas) esta formulação tem de ser esmiuçada, pois não é apenas uma diatribe. As elites políticas que ascenderam ao poder após as independências sempre se legitimaram pelo seu papel anticolonial. E o Frelimo sempre insistiu nesse tópico. Agora, 50 anos depois da independência, com o país naquele estado, face a uma população cuja esmagadora maioria tem menos de 35 anos - netos e bisnetos dos colonizados -, tentar insistir neste tópico (certeiro ou errado, pouco importa) é evidência de que a elite política (na qual Guebuza é importantíssimo) não compreende o real, não reflecte sobre ele. E assim nunca assumirá um qualquer "novo ciclo" (apesar do que por cá dizem os comentadores televisivos Miguel Relvas e Paulo Portas...).
Logo de seguida o novo presidente Chapo foi mais longe no sistematizar do conteúdo desse "novo ciclo": primeiro que a luta contra as "manifestações é a continuidade da guerra dos 16 anos". A expressão é um programa político: por um lado, o epíteto "guerra dos 16 anos" é um lema dos frelimistas (ladeado por outro "título", o de "conflito armado"), que nega a referência a uma "guerra civil", forma de então - e ainda agora - negar a realidade social da Renamo, reduzindo-a a marioneta de agressão estrangeira. E, por arrasto, afixando essa "inexistência" ao que se passa agora. Por outro lado, Chapo - mais novo que Guebuza - ao afirmar isto não só procura reduzir os manifestantes a agressores (externos) como busca a legitimação do poder na invocação da pacificação de uma guerra terminada há... 30 anos. E um discurso autolegitimador que, como o anterior, não colhe diante desta pirâmide etária. Ou seja, tanto pela negação sociológica como pela retórica autolegitimadora, a via do actual presidente sublinha que a elite política - e nesta caso a das fracções vigentes - não compreende o real, não reflecte sobre ele. E assim, repito, nunca assumirá um qualquer "novo ciclo"...
Depois, e para que não restem dúvidas sobre as suas intenções e as do poder instituído, foi a Pemba discursar e anunciou ontem que "Vamos derramar sangue para combater as manifestações", enfatizando ainda que "vamos fazer jorrar sangue"...
Enfim, "Zé/Zezé, então e como está aquilo em Moçambique?...", perguntam-me os amigos, diante da imperial do fim da tarde. "Não sei", respondo, entristecido.

(Reporter asks Musk about misleading condoms claim)






(Venâncio Mondlane em Tete, julgo que ontem)
"Zé / Zezé, então e como é que está aquilo em Moçambique?...", perguntam-me diariamente amigos, agora que "as coisas" de lá se afastaram um pouco dos "escaparates" da imprensa. Substituídas por questões prementes, como a do deputado ladrão de malas - repararam como o Ventura, após o seu estupor inicial, agora aparece a reclamar-se "primeiro denunciante"?; as inanerráveis malfeitorias laborais dos bloquistas - face às quais o prévio vereador Robles surge como um simpático agente prenhe de empreendedorismo; a relativa inflexão de PNS sobre imigrantes - que põe os seus camaradas a clamar contra qualquer esforço alheio de adaptação às mundividências nacionais (a "cultura portuguesa", para se falar de modo simples) e o colunista-Expresso Raposo dispara(ta)ndo um lusotropicalismo actualizado: "para semos um V Império, que é um império-cais, onde o mundo pode atracar...", sim o homem escreveu isto; mais as demissões no núcleo governamental devido a trapalhadas privadas, recentes e actuais - mas quem escolhe estes tipos?; e, acima de tudo, o drama da "linguagem de rua" do treinador Lage. Já para não falar das minudências que ocupam os espaços mortos dos telejornais e comentários, o frenesim trumpiano, aquela maçada de Gaza, e a cansativa exigência de Putin em defender o "espaço vital" da sua Mãe Rússia, para se falar como a intelectual Mortágua...
Enfim, com tudo isto a gente distraiu-se de Moçambique. Eles também já estavam a abusar da nossa paciência, é certo... Por isso as perguntas dos meus amigos, essa repetida "Zé / Zezé, então e como é que está aquilo em Moçambique?...", até porque interrompi a saraivada de postais sobre o assunto (os quais sublinho pela sua divulgação telefónica, para aborrecimento de alguns deles, presumo). Costumo responder que talvez seja melhor ouvirem o que dizem sobre o assunto os nossos antigos ministros, reciclados em facilitadores de negócios e até administradores das grandes empresas - "não lhes escrevas os nomes", "não te metas com esses gajos", "não ganhas nada com isso", avisam-me amigos, não tão juniores assim...
Então, e para responder a esses amigos que se foram interessando pelos destinos daquela minha Não-Pátria, resumo o que sei: o candidato Venâncio Mondlane regressou ao país e anunciou três meses sem manifestações (deu os consuetudinários "100 dias de estado de graça" ao novo governo). O partido Frelimo nomeou um novo executivo, com tantos membros oriundos do anterior poder que aparenta ser de continuidade ("uma evolução na continuidade", como diria Marcello, o original). A mortandade entre os militantes oposicionistas nas localidades - incluindo jornalistas - terá amansado, mas não abundam as investigações sobre a responsabilidade dos desmandos sanguinários dos últimos meses. Ainda assim, de quando em vez a polícia usa de violência seguindo-se represálias populares, algo significativo em especial aquando no Sul de país, antiga zona monopólio de implantação frelimista.
Entretanto, a predisposição para entabular conversações com o oposicionista Mondlane, que fora enunciada pelo novo presidente, ainda não se concretizou, e segue o poder Frelimo na sua muito habitual postura esfíngica - "índica", como muitos referem, em particular os dirigentes socialistas portugueses quando em "visitas de Estado" e que agora se arrepiam ao ouvir falar de algumas características comuns às mundividências e práticas portuguesas (mais depressa se apanha um mariola do que um paraplégico, como é consabido...). Os velhos partidos oposicionistas, Renamo e MDM, que se haviam recusado a integrar o novo parlamento estão já a arranjar as micas, dossiers e as pastas de executivo para assumirem lugares.
Nisto Venâncio Mondlane, que se autoproclamara "presidente do povo", encetou uma digressão, uma ronda de "presidências abertas", por assim dizer... Recebo imagens de uma curta visita ao Hospital Central de Maputo, causando um enorme júbilo entre os ali situados. E de gigantescos banhos de multidão em Bobole - perto de Maputo - e em Tete, a Norte. Situações que muito denotam com quem está o povo, a quem o povo apoia. Por mais que custe aos "empreendedores" lusos. E a alguns outros.
Adenda: no sábado (dia 1 de Fevereiro, às 16 horas) estarei na biblioteca municipal de Setúbal, instituição que teve a gentileza de me convidar para falar sobre o meu livro "Torna-Viagem". E, quem sabe, pois dependendo do interesse dos que comparecerem, depois de tentar impingir a colecção de crónicas (2/3 das quais decorrem naquele país) poder-se-á falar um pouco sobre "como está aquilo em Moçambique". Se algum dos leitores do Delito de Opinião estiver nas cercanias será um prazer vê-lo por lá.



