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Delito de Opinião

Blogue da semana

jpt, 07.07.24

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Nesta rubrica "blogue da semana" fujo à (saudável) regra e recomendo esta Kambaku - Notícias do Mundo Natural, uma belíssima página digital que (muito bem) corresponde ao seu título. Trata-se de uma plataforma noticiosa dedicada à informação e análise de conservação da biodiversidade, centrada em Moçambique mas bastante atenta a essas questões em África e, até, alhures.

O seu nome Kambaku (também usualmente grafado Cambaco) é o termo em língua changana para o velho e solitário elefante, irritável sempre dele se disse. E cheguei a esta tão interessante página através de uma chamada de atenção do Afonso Vaz Pinto, também veterano confrade bloguista no seu Mar me quer, e que desta Kambaku é um dos artífices.  

O seu conteúdo é muito consistente, textos escorreitos, diria até "cirúrgicos". Mas isto sem minimamente se encerrar num "discurso especializado", pois ela funciona muito bem como divulgação para nós, vulgares amadores e amantes interessados, mesmo nos exaltando, devolvendo-nos esperanças, se se quiser. Tem uma secção de notícias sobre conservação e biodiversidade, outra sobre ciência e investigação - entusiasmante para um leigo como eu -, um outra, preciosa, dedicada à sustentabilidade, ou seja às dinâmicas da economia ecológica, e uma outra ainda sobre inovação tecnológica ligada à biodiversidade

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E como exemplo de notícias que vão para além de Moçambique, e também alertando para o seu suporte audiovisual, deixo estas recentes abordagens à magnífica reintrodução de rinocerontes brancos no Kruger ou da corrente maior migração mundial de mamíferos terrestres no Sul do Sudão.

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E tem também - como não podia deixar de ser - uma secção fotográfica, como exemplifica esta deliciosa imagem do regresso do xaréu gigante às águas moçambicanas:

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Finalmente tem uma secção de entrevistas radiofónicas (hoje em dia chamadas podcast), conversas com cerca de uma hora tidas com verdadeiros especialistas da matéria em Moçambique. Ou seja, verdadeiramente preciosas para quem queira aperceber-se do "estado da arte" desta tão relevante matéria. Chamo a atenção para as que ouvi, uma com o justificadamente célebre escritor (e biólogo, veterano destas questões ambientais) Mia Couto. Uma outra com Pedro Muagura, reconhecido administrador do Parque Nacional da Gorongosa. E ainda uma com Alexandra Jorge, administradora da Biofund, organização não lucrativa que actua em cerca de 30 parques naturais no país.

Em suma, Kambaku é um local que muito merece ser visitado. E, também, divulgado. Que outros o possam fazer, se assim o entenderem.

O jornalismo "de referência"

jpt, 10.04.24

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No decadente contexto da imprensa portuguesa o "Público" continua a receber o estatuto de "jornal de referência". Como seu antigo leitor dele tenho uma experiência que me leva ao sorriso. Durante as duas décadas que vivi em Moçambique no jornal fui vendo vasto rol de dislates sobre o país - muitos deles produzidos durante e após reportagens longas. Não se tratava apenas do efeito de um olhar enviesado (a patetice "lusófona", o paternalismo bacoco, o "póscolonial" de algibeira, o "exotismo" de pacotilha, etc...), mas também de apatetados erros factuais. Sobre algumas dessas asneiras fui escrevendo em blog. Entretanto, desde há largos anos que no jornal se sedimentou uma "célula" de "activistas" "decoloniais", que sobre África - a pouca "África" a que alude -, e a "afrodescendência", vai vertendo um "jornalismo" demagógico, para isso cooptando "colaboradores" entre os "activistas académicos", mais frenéticos das causas identitaristas, e ecoando os desbragados rugidos dos políticos esquerdistas que se alimentam dessa retórica. E recordo, como ilustração deste rumo, o desvelo com que no jornal foi tratada a deputada Moreira do partido LIVRE.

Mas para além desse viés ideológico continuam os mais simples e rasos disparates e desatenções. Ainda há pouco tempo o "Público" se "esqueceu" de noticiar o assassinato do jornalista moçambicano João Chamusse - e eu permito-me aventar o barulho que aquela redacção teria feito se um jornalista negro tivesse sido assassinado num qualquer país europeu ou um "pardo" no Brasil... E não só se esqueceu de o fazer como se atreveu a permitir que o seu "provedor de leitores", José Alberto Lemos, tivesse o desplante de vir mentir aos seus leitores - como aqui referi - fundamentando essa "falha" na ausência de informação proveniente da LUSA (uma falsidade, agredindo colegas de profissão) e no facto de apenas um jornalista do "Público" escrever sobre temas africanos, o reconhecimento da indigência vigente.

Mas nada disto obsta a que o jornal continue a receber o benevolente estatuto "de referência". Decerto porque mantém um leque de doutores, ali elevados a colunistas ou consentidos como meros colaboradores avulsos, que escrevem as suas "opiniões", ou seja, ali "produzem opinião pública" em função de agendas políticas. 

Cada vez que eu resmungo sobre mais um disparate profundo, um rumo mais demagógico, um olhar mais vácuo, seja sobre Moçambique ou sobre África em geral, logo alguém - usualmente jornalista, ex-jornalista, ou boa alma - socorre aquela indigência, fundamentando-a no estafado estado da imprensa escrita, carregada de profissionais subremunerados, estagiários sobreexplorados e de remanescentes veteranos supraexauridos. E assim assoma a piedade, esta feita factor de manutenção do tal epíteto "de referência" e, como tal, também da credibilidade dos disparates "decoloniais" do "Público".

Enfim, hoje de madrugada um amigo de Maputo envia-me por Whatsapp esta foto, reproduzindo um artigo de página inteira dedicado à actualidade política moçambicana, país no qual se debate sobre as personalidades que concorrerão à liderança dos grandes partidos e às eleições presidenciais deste ano.

O artigo estrutura-se sobre a ascensão dos filhos dos antigos presidentes da Frelimo à liderança dos dois grandes partidos moçambicanos - indiciando esse factor como situação denotativa. Por um lado Samora Machel Jr. (dito Samito), aventado como futuro presidente do Frelimo, filho de Samora Machel, primeiro presidente do país.

Por outro lado, Venâncio Mondlane, um já veterano político, deputado, antigo candidato ao conselho municipal (a nossa câmara) de Maputo. E no artigo publicado no jornal "de referência" dito filho de Eduardo Mondlane, primeiro presidente da então Frelimo. 

Acontece que Pedro Nuno Santos não é filho de Almeida Santos, Sérgio Sousa Pinto não é filho de Mota Pinto, Jerónimo de Sousa não é irmão de Marcelo Rebelo de Sousa, nem Pedro Passos Coelho sobrinho de Jorge Coelho. Tal como Venâncio Mondlane não é filho de Eduardo Mondlane, e até nasceu 5 anos depois da morte deste... E não há piedade suficiente para aturar disparates destes. Principalmente num jornal "de referência" que depois nos quer "ensinar" a urgência de um olhar "póscolonial" sobre África. E sobre nós-mesmos. E se não há piedade suficiente para isto também não há paciência para os tontos que continuam a fazer as mesuras ao tal "jornal de referência".

Bayete Catamo

jpt, 07.04.24

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Em finais de 2021 eu - como se comprova, sendo um muito competente "olheiro" (os patetas ignorantes agora falam de "scouting") - saudava a chegada do jovem moçambicano Catamo ao plantel do Sporting, augurando-lhe grande futuro. E ao assunto voltei no início desta época, exigindo também no Delito de Opinião a sua manutenção no plantel.
 
Assim sendo, creio que vos será possível imaginar o sorriso gigantesco com que ontem me deitei. Um cúmulo: estivera desde o fim da tarde no recomendável Roda Viva, restaurante moçambicano em Alfama. Ali organizara o "lançamento" do meu livro "Torna-Viagem" - que é louvado mas não tanto comprado... Apareceu um largo punhado de amigos - alguns vindos de bem longe, outros vindos de eras muito recuadas... E até família - a minha irmã, comparecida para evitar que eu dissesse palavrões, e cunhados, a apoiá-la na nobre e pedagógica missão.
 
Encheram-se as duas salas e a viela, enquanto se comiam as prometidas (e devidas) badjias e chamuças. Depois do cerimonial livresco - no qual falou o Fernando Florêncio e perorei eu - e do animado convívio avulso, umas quatro dezenas de presentes decidiram jantar ali mesmo, tendo tecido loas ao repasto. Enquanto eu cirandava de mesa em mesa foram-me informando da evolução do resultado. Houve júbilo no final do jogo, ali em Alfama.
 
Pela 1 da madrugada recolhi a casa, tão contente que quase feliz. E vi a gravação do jogo. Só então percebi que fora a noite de glória do Catamo! Neste meu dia não podia ter sido melhor!!! Bayete Catamo!!!,* disse ali no seu segundo golo, mesmo no final - na sequência de um inenarrável roubo do árbitro, a querer levar o Benfica ao título, uma escandaleira.
 
Ao acordar leio uma mensagem, amigo moçambicano desde Maputo, dizendo-me que ao ver o jogo do Geny se tinha lembrado daquele meu já antigo postal sobre o rapaz. Profético, profético... Enfim, apenas posso dizer, modesto: "sublinhem as minhas palavras!".
 
* Bayete - saudação destinada a um Chefe relevante no universo linguístico tsonga.

Slava Ukraini!

jpt, 24.02.24

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Há alguns anos (muitos, já, cada vez mais, raisparta) fui mais uma vez à Ilha de Moçambique. À porta da Fortaleza, então sob qualquer intervenção, estava isto. Resmunguei, decerto (eu conheço-me, ainda que mal), a um "portão" barrando o acesso ao agora sacrossanto "Património Cultural" ungido pela UNESCO, pintado com as cores das duas empresas de telefones (Vodacom, MCEL) que invadiam todos os recantos do país com as suas publicidades... Só muitos anos depois alguém me soprou que talvez isto fosse obra, "como quem não quer a coisa", de algum imigrante (quiçá ex-"coooperante") ucraniano, ali resguardado em coisas da construção civil... Talvez. E que belo argumento para um conto seria...

Lembro a fotografia hoje, dois anos após a invasão russa da Ucrânia. Para além dos russófilos actuais (essa mescla nada-excêntrica de bafientos fascistas e comunistas) vejo críticas à Ucrânia e aos seus aliados ("ocidentais") porque a derrota militar se apercebe como provável, exaurido o país. Não deixo de achar uma triste piada ao ver a rapaziada que se imagina de "esquerda", no afã do seu nojo pela democracia liberal dita "ocidental", a filiar-se assim no ideário do "sucesso", do "empreendedorismo" bem realizado, essa ideia de que a fraqueza relativa (a tal derrota militar contra um inimigo superior) significa a fraqueza absoluta, como se uma injusteza ôntica.

E também encontro nenhuma piada aos que vêm "denunciar" a propaganda pró-ucraniana, que para eles conduziu a isto. Ou seja, implicitam que se devia ter apoiado/exigido a rendição imediata. Como esse "eterno comentador" (e mau escritor, já agora) Sousa Tavares que do palanque televisivo veio perorar essa tralha. E tem lugar cativo como "fazedor de opiniões". Por falar de propaganda e estar a botar uma fotografia da Ilha lembro a abjecta consideração do escritor Agualusa, logo no início da guerra, botando no Globo brasileiro o seu lamento de estar na distante Ilha enquanto os "nazis" defendiam a Ucrânia, regurgitando a energúmena propaganda russa, forma canhestra de ser "Sul". Típica, aliás.

De tudo isto me lembrei há horas, ao ver no telejornal as comemorações (fogo-de-artifício e tudo) em Moscovo dos dois anos de guerra. Dezenas ou centenas de milhares de mortos sofridos, idem de baixas alheias causadas, por um regime que se propunha derrotar em três dias (!!!) um poder de "drogados", "nazis", e até "judeus". E comemora.... E estes escritores sofríveis, e intelectuais de merda, e seus enlevados leitores? Dizem o quê?

Slava Ukraini! Especialmente se vier a sua derrota.

Na venda de uma escultura de Shikhani

jpt, 06.01.24

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Nenhuma descrição de foto disponível.

Shikani, Sem Título, Dimensões - 76 x 28 x 15 cm (ligação para o leilão desta obra na Cabral Moncada)

Não me venho armar em parvo... apenas partilho a constatação, própria mas também alheia, de que se na vida algo aprendi uma das temáticas em que isso aconteceu foi a arte moçambicana. É normal, durante alguns anos fui responsável por centros culturais, organizei imensas exposições, olhei catálogos - e muito mais folhas de sala ou desdobráveis. Falei com os veteranos da matéria. Conheci inúmeros artistas, com alguns fiz amizade. Participei em vários júris de selecção e premiação. E, mais divertido, organizei várias (e tão saudosas) passeatas - nas quais grupos de admiradores percorriam ateliers no grande Maputo, vendo e (muito) comprando.

Também escrevi, um pouco, sem ademanes. Lembro os textos mais "sonantes", entre outros, quando os "mais-novos" (da minha geração, entenda-se) que introduziram a Arte Contemporânea no país fizeram Bienal Internacional e me convocaram para escrever no catálogo ("Conversar o MUVART"). E depois me fizeram curador de uma outra dessas bienais. Mais, como memória muito, imensamente, honrosa guardo que - mesmo sendo eu estrangeiro - quando morreu o ícone da moçambicanidade que o grande Malangatana foi, o FUNDAC (de facto, o organismo actuante do Ministério da Cultura) me encarregou de escrever a sua proclamação fúnebre: "Malangatana". E participando eu - e, repito, sendo estrangeiro - no júri de selecção para o prémio de "Consagração" (qua Figura Artística Nacional) que o atribuiu à também tão simbólica escultora Reinata Sadimba, fui incumbido do texto justificativo: "Reinata Sadimba, prémio FUNDAC".

Nesse cadinho de opiniões, explícitas e implícitas, nunca escondi as minhas preferências entre os artistas nacionais. Ídasse, meu enorme amigo, verdadeiro mano. Sobre o qual escrevi, breve, quando aconteceram "Os 60 anos de Ídasse", já eu dele longe, aqui na minha "Pátria Amada". Ele, Ídasse, que foi o único que deixei que me pagasse comissões - pois mano mesmo - sobre o fruto das caravanas de endinheirados que lhe levava a casa, pois lembro de umas moelas no bairro de Benfica, e algumas 2Ms nas barracas ali ao seu Jardim.

E, ainda acima, o grande Mestre Shikhani. Sobre este apenas deixei o meu lamento fúnebre "Neste Ano Após-Shikhani". Onde deixei a razão do meu encanto pelo meu artista moçambicano preferido. Nada extrovertido, mergulhado na sua arte e nos seus, Shikhani foi (e é) muito menos (re)conhecido do que o mereceu. Também por isso me lembro do meu espanto quando, de visita a Lisboa, vi um cartaz da ARCO de Madrid (talvez em 2002, não sei) em que a imagem era uma obra do mais-velho Shikhani... Isso também a demonstrar que alguém nele atentara e o retirara do estereótipo de "arte africana" e quejandos...

Shikhani era único. Neste meu breve texto lembro uma das vezes que entrei sua casa adentro. E ele depois de nos mostrar inúmeras pinturas foi buscar algumas das suas últimas esculturas - e raras, pois deixara de esculpir ("já não tenho força", disse naquela sua voz cava terna). Fiquei absorto, de encantado. Comprei uma, pelo preço que pediu - claro, nunca regateei com artistas e muito menos o faria diante de alguém daquela dimensão. 1000 dólares, nada demais pois naquela época eu podia e o mais-velho merecia muito mais.

A vida decorreu. Agora, 25 anos já passados, vendo algumas obras, entre as quais esta minha escultura de Shikhani. Porquê, se tanto a gaba?, perguntarão. "Vão-se os anéis e ficam os dedos", diz o sábio povo, esse que tudo sabe. Que se vão os dedos e fiquem os cotos, acrescento eu, agora. Vendo esta minha escultura de Shikhani. Sei que se o fizesse em Moçambique, até pelo seu valor identitário, nacional, isso seria fácil, e bem paga - porventura seria ela suficiente para resolver o problema que me assombra.

Mas, enfim, estou na minha "Pátria Amada", o apelo por este artista é diferente, reduzido mesmo. Entreguei a obra (e outras) a uma leiloeira. Avaliou-a pelo preço facial que eu paguei há 25 anos... E colocou-a agora à venda, apenas durante a primeira semana do ano (que me parece um infausto momento para vender arte...). 


Shikhani não foi "típico", nem fez "arte tribal" - aquela que os "cultos" europeus ainda julgam exsudar algo de "genuíno". Nem deixou "sunsets" ou casuarinas recortando o horizonte. Ou a denúncia de algo explícito... Foi Shikhani. Deixou Shikhani!

Enfim, se alguém se puder e quiser interessar, ainda tem três dias para comprar esta peça que eu digo um... mundo. Ou, pelo menos, poderá avisar outrem que conheça que se possa interessar. (E para isso bastará partilhar/reenviar este meu postal, o que eu agradecerei).

Assassinato de jornalista moçambicano

jpt, 14.12.23

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Foi esta noite assassinado na sua casa, sita na Catembe (a "Outra Banda" de Maputo), o jornalista moçambicano João Chamusse, durante muitos anos editor do jornal "Canal de Moçambique" - jornal no qual escrevi durante anos, e que há três anos viu as suas instalações destruídas por uma atentado bombista  - e agora editor do "Ponto por Ponto". Também comentador televisivo, Chamusse foi uma voz muito crítica do status quo político daquele país. Junta-se agora a um rol de corajosas figuras que, expressando opiniões livres e desassombradas e actividades políticas avessas ao poder vigente, foram alvo de atentados de violência extrema. Como o exemplificam os assassinatos do autarca nampulense Mahumudo Amurane, do académico constitucionalista Gilles Cistac, ou do activista Anastácio Matavele, bem como o frustrado assassinato do jornalista Ericino Salema, ou do violento atentado ao académico Jaime José Macuane - o qual terá sido informado pelos esbirros de que esses tinham ordens para "não o matar", sendo "apenas" baleado nas pernas.... Entre outros, refiro apenas os que conheci pessoalmente, à excepção do presidente Amurane.

Entretanto, há dias houve algumas eleições locais em Moçambique - em municípios cujos recursos aos resultados anunciados nas eleições nacionais em Outubro passado foram considerados procedentes, e sobre as quais aqui falei (123). Agora, em alguns sítios a polícia carregou sobre votantes e sobre festejos de vitória da oposição. Houve mortos. Recebi algumas imagens violentas via o agora omnipresente Whatsapp. Num curto filme um jovem assassinado pela polícia no Gurué, jazendo sobre um charco do sangue próprio.

Desde há muito que me interrogo sobre as causas do silêncio português sobre a deriva autoritária (que considero suicidária) do poder moçambicano. Silêncio dos órgãos de soberania, da imprensa, das instâncias da sociedade civil. E até mesmo da mole de "cidadãos digitais", sempre lestos a "indignaram-se" com fenómenos alhures, sobre tantos dos quais pouca ou nenhuma informação contextualizada os tais "teclistas activistas" têm. Para exemplo, fi-lo face ao silêncio parlamentar português aquando do assassinato do presidente de Nampula, dado ter então a nossa Assembleia expressado pesar pelo assassinato de uma secundária autarca brasileira. Ou diante do espavento da imprensa portuguesa diante de um assassinato policial nos EUA em contraposição com um assassinato com as mesmas características (raciais) acontecidas em Moçambique. E nos últimos dias aqui deixei implícito que o regime político português considera ser possível opinar sobre o desgraçado estado da pequena Guiné-Bissau mas se encolhe diante do colosso (com pés de matope) Moçambique.

E confesso que não percebo a razão, se a esta se entender como algo lógico, deste silêncio diante do acumular de malfeitorias evidentemente promovidas pela deriva do poder de Maputo. E como português - nunca neo-colono - muito lamento isto. Nem tanto o silêncio dos políticos, sempre protegidos pelo mito do "interesse nacional", da "realpolitik". Mas até mais os dos jornalistas, sempre tão lestos em proposições sobre o "dever-ser" mundial. E, ainda mais, o dos "cidadãos digitais".

E que este vil assassinato de Chamusse, um pérfido atentado à liberdade de imprensa, possa comover o tal sentido de "cidadania global". Envergonhando os silenciosos.

Os silêncios sobre as eleições confiscadas em Moçambique

jpt, 30.10.23

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(Votação nas eleições municipais, Montepuez, 2003)


Já em postal anterior referi o que vem acontecendo em Moçambique desde as recentes eleições municipais de 11 de Outubro. E voltei ao tema lamentando o silêncio do governo português. Mas regresso ao tema: sumarizo a situação - nisso repetindo alguma informação - e aduzo mais razões para lamentar a posição do nosso poder político.

1. O estabelecimento de conselhos municipais tem sido gradual, acompanhando o acréscimo da população urbanizada – a qual em 2019 era já 34% do total –, pois os distritos rurais têm outro enquadramento administrativo. Em 1998, aquando das primeiras eleições locais, estipularam-se 33 municípios, em 2008 o seu número subiu para 43, e desde 2013 passaram a ser 53. Nas últimas autárquicas, em 2018, o partido RENAMO conquistou 8 - entre os quais as relevantes capitais provinciais Nampula e Quelimane -, o MDM susteve o seu bastião Beira, tendo os restantes 44 sido ganhos pelo partido FRELIMO. E para 2023 o reordenamento administrativo implicou o aumento para 65 municípios.

 

 

Moçambique na nossa Assembleia da República

jpt, 25.10.23

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A boa política externa não se faz de modo tonitruante. E a boa diplomacia, dela instrumento, faz-se em surdina. Isto é axiomático. Em especial nas interacções entre países com relações históricas complexas, as quais podem potenciar interpretações ambivalentes dos discursos e acções das contrapartes. E mais ainda na interlocução entre antigos colonizadores e suas ex-colónias - com a escassa excepção dos três gigantes económicos americanos.

Por um lado, porque, respectivamente, numas dessas sociedades subsistem algumas tendências (até inconscientes, pois frutos de mundividências herdadas) "tutelares", e em outras vigoram tendências "reactivas", postulando ingerências ou mesmo ainda "colonialismo" em factos ou posições curiais, mesmo normais.

Mas, por outro lado, subsistem nos Estados ex-colonizadores concepções e dinâmicas emanadas do velho imperialismo, na demanda da preservação de "áreas de influência" geoestratégica e privilégio económico, sob evidente formato "neocolonial" - ainda que este não se restrinja a estas articulações.

Neste âmbito tem de se realçar que na sociedade portuguesa inexistem efectivas dinâmicas neocoloniais. Há alguma retórica política - em particular a do inepto mote "lusofonia" -, há tiques comportamentais, recorrentes em funcionários estatais de médio porte e agentes empresariais emanados do "tecido das PMEs" - evidentes frutos da fraca formação escolares desses núcleos profissionais. 

Mas tanto a CPLP - por mais que tenha sido idealizada como dínamo da relevância portuguesa -, como as nossas relações bilaterais com as ex-colónias, não têm sido vividas como instrumentos de ingerência e de imposição de privilégios. Esta inexistência não é apenas fruto de incapacidade económica, mas sim efeito de um percurso de recentramento pátrio numa Europa desenvolvimentista, e nisso reconfigurando a própria "identidade nacional". Assim esta inexistência neocolonial não é um defeito, é uma qualidade, não é uma fragilidade, é força. 

Isto é algo que pode ser intuído face á relevância de Portugal nas instâncias internacionais. Se éramos pais pária em 1974, rapidamente Portugal se tornou importante agente nas multilaterais, muito extravasando a nossa dimensão económica e geográfica. A reboque de algumas personalidades (Soares, principalmente), e assente na real e continuada excelência da nossa corporação diplomática - vítima de estereótipos negativos mas, de facto, núcleo peculiar da nosso funcionalismo. Mas, acima de tudo, pelo generalizado reconhecimento da platitude da política internacional da nossa democracia, nisso avessa ao tal imperialismo serôdio.

Preâmbulo longo para reflectir sobre uma votação ontem acontecida na Assembleia da República sobre Moçambique. Julgo necessário lembrar que Portugal e Moçambique não são "países irmãos" - como repete a incompetente retórica vigente. São "países aliados", algo formalizado na pertença desde o início na CPLP,  que em ambos coexiste com outras pertenças, e vivido através de vários vectores de robustas interacções. Ou seja, não nos une qualquer metafórica "consanguinidade"  de teor moral, mas sim uma "aliança", baseada em interesses estratégicos parcialmente confluentes. E parte fundamental dessa aliança presente é a comum adesão ao modelo democrático desenvolvimentista, vivido segundo as idiossincrasias de cada Estado soberano. 

Vive agora Moçambique uma crise política devida a um estrondoso derrame eleitoral. Na nossa AR a Iniciativa Liberal requereu ao governo um esclarecimento das suas considerações sobre esta matéria - a decorrer na devida e diplomática "porta fechada". É evidente o teor da proposta, uma forma moderada e assisada do nosso parlamento sinalizar à sociedade moçambicana, e ao seu Estado, a preocupação pela deriva naquele país. E de também de a fazer ecoar entre os congéneres, capitalizando o estatuto internacional a que acima aludi. Enquanto convoca o próprio governo a actuar, no devido tom recatado adequado à política externa.

Mas o requerimento foi liminarmente recusado pelos dois partidos de poder. O PSD considerou não ser curial que a AR se pronuncie sobre processos eleitorais alhures. Julgo que a incoerência em política é muitas vezes necessária e até sábia. Mas tem limites - recordo que o PSD, decerto que entre outras ocasiões, propôs há poucos anos um voto parlamentar sobre repressão policial e eleições na Venezuela. Friso, não comparo os dois países, noto a incompetente incoerência do PSD. E o PS refutou o pedido argumentando estar o caso eleitoral moçambicano entregue aos tribunais nacionais, elidindo a questão política que aquele país enfrenta.

Sem rebuço, a democraticidade moçambicana não é um processo ascendente. Desde há anos que há uma deriva autoritária. Eximo-me a elencar exemplos, que foram sendo noticiados. A democracia, "sempre corrompivel, sempre perfectível", como disse o liberal (de esquerda) Norberto Bobbio ali descamba em deslize acentuado. Não aponto nenhuma "virtude" nos partidos oposicionistas nem qualquer mácula ôntica ao partido do poder. Apenas noto a antecâmara do descalabro - tal como algumas figuras do próprio poder temem.

E nesse âmbito esteve muito bem a jovem IL ao querer sinalizar à sociedade moçambicana, e ao seu Estado, a nossa preocupação com o destino do entre o Maputo ao Rovuma, numa verdadeira afirmação do "estamos juntos". E demonstraram-se exauridos o PS e o PSD, exaustos na sua filiação a uma "real politik"... irrealista, abdicando de um verdadeiro papel de aliado. E, crede, condenando-nos através dessa aparente real politik a uma crescente irrelevância do Zumbo às águas do Índico. 

O Estoicismo Moçambicano

jpt, 19.10.23

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(Mutarara, 2007: composição iconográfica que julguei exemplar do processo moçambicano)

O "Observador" publicou ontem este meu texto

O Estoicismo Moçambicano

As eleições autárquicas em Moçambique da passada semana logo se tornaram um cúmulo de desconchavo. No processo de municipalização do país, 65 dos seus 154 distritos são já municípios – há um quarto de século eram apenas 33. E é nesses órgãos eleitos que tem vigorado a efectiva partilha de poder - a realidade democrática -, dada a gradual conquista de vários conselhos municipais pelos partidos da oposição.

 

 

A RTP-África

jpt, 13.10.23

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Quando há mais de um quarto de século fui viver para Moçambique a RTP-África emitia há pouco tempo. Durante os primeiros anos várias vezes falei - até profissionalmente - sobre o seu conteúdo. Não sobre a dimensão dos seus recursos e a forma como eram patentes no conteúdo, nem sobre a competência dos seus quadros. A questão sempre me foi a pertinência do olhar, da programação. Pois então sempre me pareceu uma RTP-I - esta vocacionada para os emigrantes (como então se chamava à agora dita "diáspora") portugueses, polvilhada com alguns núcleos "para africano ver"... Ou seja, não uma questão de falta de recursos mas sim de alguma preguiça conceptual. Os anos passaram, deixei de ver. Depois voltei a Portugal, nem atentei ao seu estado.

Anteontem houve eleições municipais em Moçambique. Não tenho acompanhado a política do país, não atentei neste processo eleitoral. Mas ontem - numa rápida incursão no FB - li notícias e opiniões que algo me surpreenderam. Os partidos da oposição - que eu julgava em crise - clamam vitória em algumas das grandes cidades do Centro e do Norte, em várias das quais já tinham o poder autárquico (Beira, Nampula, Quelimane), o que não é surpreendente - mas muito o é a notícia da detenção do presidente de Quelimane, entretanto já libertado, algo que faz temer desatinos pós-eleitorais. Tal como não será de estranhar a vitória do Frelimo no Chimoio, ao que consta ancorado na excelência do seu candidato, presidente em exercício. Mas o verdadeiramente surpreendente é que o Renamo reclama vitórias, até expressivas, no Maputo e na Matola. O que, a acontecer, seria uma tremor de terra político.

Assim sendo, a curiosidade venceu-me. Ao levantar-me vim procurar notícias. A imprensa portuguesa privada, dita de "referência" (dn, publico, expresso, observador) nada diz sobre a matéria - apesar de todos esses de quando em vez albergarem uns doutores, proto-Milhazes africanistas, a perorarem sobre a grandeza da lusofonia, as "valências" da CPLP, as relações privilegiadas, etc...

Avancei então para um café diante da televisão. Desiludo-me ao perceber que o moçambicano STV desapareceu do meu painel de canais. E vou até ao serviço estatal, a RTP-África,. Entre as 7 e as 10 horas daqui - a alvorada nos diferentes fusos horários em África, a hora em que as pessoas ouvem notícias, a rádiotelevisão - a RTP-África emite o programa "Bom Dia, Portugal". Ouço notícias sobre um documentário sobre Messi, outra sobre Emerson Fittipaldi, e uns incêndios em Portugal. Recuo a emissão e o teor é similar.

Enfim, quase 30 anos de emissões dedicadas aos... países africanos de língua oficial portuguesa. E a RTP-África continua isto, uma desadequação. Modorrenta, descalibrada. Às custas do dinheiro dos impostos, não esquecer.

Bebo o café, volto ao computador. E vou ao privado Facebook, do magnata capitalista Zuckerberg, tão menos virtuoso do que o Estado português. E avanço para as páginas de informação moçambicanas que lá estão alojadas.

E é isto a RTP-África.

O "Kuxuva", restaurante goês em Maputo

jpt, 22.09.23

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Sou mesmo avesso ao tétrico "saudosismo", aquilo do "antes é que foi bom", no fundo nada mais do que um "ó tempo, volta para trás". Que é inibidor, acima de tudo porque embrutecedor, pois sendo a memória selectiva sempre ela nos conduz a pensar e sentir o passado depurado das pústulas dolorosas que teve, enquanto maximizamos as leves actuais cicatrizes que delas nos sobraram. Sim, claro que se preferiria ser mais-novo do que este agora mais-velho, mas isso é outra coisa, tem a ver com as cáries, o desentumescimento, artrites e radiculites, o desmemoriar, a mouquidão, etc. E, acima de tudo, a inadjectivável morte, a alheia e até a nossa próxima, cada vez mais próxima.
 
Já a "saudade" é outra coisa. Falo da real, não a metafórica "do futuro", que isso sempre me pareceu trinado de poetice. É legítima essa "saudade" por alguns dos nossos que tão bem nos fizeram sentir, entusiasmando-nos, e já não nos estão próximos: aquela antiga e bela namorada agora decerto que já vetusta hárpia, o querido amigo depois desavindo, afinal um traste que é melhor nem encontrar, os ídolos que nos constituíram gente, a beleza de Vítor Damas e Rui Manuel Trindadade Jordão no verdadeiro José de Alvalade, Bernstein a ensinar música na televisão, o cego Borges a cirandar pelo mundo... E, mais do que tudo, pelos nossos ascendentes, naturalmente já findados, a argúcia culta da minha avó materna, conjugada com a boa mesa (ou assim me sabia) que comandava, o Senhor meu tio, homem verdadeiramente marcante. E, claro, os pais: o que não daria eu para me sentar aos 59 anos a falar com eles nos seus 60? Agora, "saudade" do passado tal qual ele foi, como seria bom voltar? Nada disso, por demasiado lânguido, que um tipo saudoso fica um odalisco.
 
O que louvo é a "saudadezita". Isso do inesperado, o de súbito ser assomado, nisso mimado, por excertos do passado, laivos do vivido, breves odores, sumarentas risadas, vislumbres, aquela carícia afinal indelével, acordes, sabores, estes até indiscerníveis... Sim, "saudadezita" que não diminutiva, bem pelo contrário, engrandecedora, pois resquícios alentando-nos no refrescar do necessário "avante".
 
Essa "saudadezita" que me invadiu ao ler este artigo. Pois durante quase duas décadas fui cliente regular do "Petisco", o célebre restaurante "goês" de Maputo, casa modesta, pois sem ademanes, cozinha familiar assente em legado de gerações, ambiente gentilíssimo, comida deliciosa - e decentemente barata. Lá fui inúmeras vezes, em família, junto a amigos, mesmo em momentos da vigorosa indústria de seminários, e até a festas de aniversário da petizada, naquela minha era de pai algo recente. E quantas vezes a ir buscar comida, o "take-away" obrigatório, nisso sempre me abastecendo da magnífica panóplia de achares e chutneys, e de piripiri. E, como é óbvio, filiando-me nas suas chamuças, ali âncoras da minha adesão à ideologia chamucista. O "Petisco" foi-me paisagem vivida, calcorreada. Sentida.
 
Há algum tempo soube que fechara, devido a razões várias - entre as quais o embate sofrido com a pandemia Covid. Muito o lamentei. Mas sei agora que a industriosa família se reorganizou, apesar da dolorosa perda entretanto sofrida. E que agora abriu um novo restaurante, nas imediações do anterior (na Mártires da Machava), mantendo-se fiel ao reconhecido perfil gastronómico: a cuidadosa continuidade da tradição goesa, já de si uma mescla de séculos, mas ali completando-se na harmonia com os saberes circundantes.
 
É o "Kuxuva" - "saudade" em changana ("mas "saudade" não há só em português?", clamarão os das versalhadas avulsas). E a esta "Saudade" eu prezo, pratico-a. E nesta madrugada deixo-me pensar, não nostálgico mas viçoso, que se chegar a Mavalane "te" direi "leva-me directo à Mártires da Machava", "ao Kuxuva". E alambazar-me-ei.
 
(Postal para o Nenhures)

O Café da Gorongosa

jpt, 03.08.23

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Durante este Julho que agora finda volante amigo transportou-me até ao Porto, para que pudesse eu visitar um casal amigo, vindo de Maputo a férias. Foram gentilíssimos, acolheram durante um longo serão este mais-velho entre a sua família, aceitaram-me palavroso, nisso da excitação fruto da saudade. À minha saída ("até que enfim", terão depois dito, aliviados) deram-me as prendas que me haviam trazido da (sua) terra.
 
E assim sendo estou há dias movido por este café "Serra da Gorongosa". É robusto, literalmente falando, tanto que ando desperto - até leio e escrevo... E é tão saboroso! (Bem mais do que o nespresso e afins, podeis crer...).

Eduardo Pitta

jpt, 26.07.23

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Morreu ontem Eduardo Pitta, poeta, ficcionista, crítico literário. E também bloguista. Encetado em 2005 o seu Da Literatura era um dos blogs relevantes na época vibrante da "blogosfera" e Pitta manteve-o activo até recentemente - infelizmente retirou dos arquivos a primeira década do blog. Nele compôs uma mescla de atenção a factos culturais com uma intervenção política. Nascido em 1949 na então Lourenço Marques, Pitta tinha interesse pelos processos moçambicanos. Foi isso que o fez conhecer o meu ma-schamba, que fora o primeiro blog em português escrito no país e que quando ele começou a blogar era ainda um dos poucos ali existentes. Foi afável comigo, num companheirismo bloguístico então comum, e estabeleceu até uma correspondência - lembro que teve a gentileza de me enviar por via postal o seu ensaio "Fractura : a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea". E explicou-me também as razões, mais do que curiais e sem qualquer acinte, que o haviam conduzido a recusar a proposta feita por intelectuais moçambicanos para o inserir no cânone do historial da literatura daquele país - não estou a ser indiscreto, desvendando correspondência privada, pois lembro-me de ter lido declarações suas sobre o assunto. Era essa, apesar do prazer havido com a atenção recebida, uma opção que fundava em termos de identidade pessoal e não de postura político-ideológica.

Depois vieram os anos da crescente degenerescência socratista. No seu blog Pitta foi um dos muitos que manteve não só o proselitismo socialista como a defesa arreigada do então primeiro-ministro. O Da Literatura continuava interessante, elegante e informativo - principalmente para quem estava fora do país. Mas, exasperado com o "estado da nação" e com a cumplicidade de um largo sector da intelectualidade portuguesa com aqueles desmandos antidesenvolvimentistas - a qual raiava o absurdo na "blogosfera" -, deixei de acompanhar a sua actividade. Como a de vários outros desse eixo político, habitualmente bem menos interessantes. 

As notícias de ontem e hoje sobre a morte de Pitta sublinham a sua importância no âmbito de uma literatura homossexual portuguesa - estatuto que ele próprio acarinhava, explicitando a necessidade de afirmação literária dessa temática. Eu sou pouco sensível a essa catalogação. E insisto naquilo que lhe disse e escrevi em pequeno postal, em texto que julgo lhe terá agradado, ainda que seja uma leitura arredia dessa peculiar atenção identitária que lhe dão: o seu breve "Persona" é o grande texto literário português sobre o final do regime colonial em Moçambique - e se calhar até mais do que isso (o  meu texto sobre o "Persona" está aqui). E, mais uma vez, proponho a leitura desse belo livro.

A Revolução de Capim

jpt, 18.03.23

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Há cerca de uma década suicidou-se Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante tunisino desesperado com o saque que os fiscais estatais lhe faziam. Foi um inesperado rastilho de um gigantesco movimento internacional, encetado por uma ampla movimentação das juventudes e que conduziu à queda na África do Norte de uma série de regimes ditatoriais, alguns com décadas de vigência. Foi a dita "Primavera Árabe" tantas vezes dita "Revolução de Jasmim".

Em Moçambique alguns auguravam que esses movimentos populares irradiariam para Sul. Visão que eu, avesso a revoluções populares - lobas europeias e leoas africanas que devoram as suas crias -, rilhava como algo escatológica e que resumia, glosando o célebre ditado africano, como anseio de uma "Revolução do Capim", este sempre esmagado quando lutam os elefantes.

Mas também eu desejei que aquele imenso momento fosse alerta dos poderes fácticos, no país e noutros vizinhos, assim motor de uma crescente democratização - e esta é, por definição, redistributiva. Avessa a monopólios de poder político e económico.

Hoje em Maputo, ali ao Alto Maé, em torno da estátua do fundacional Eduardo Chivambo Mondlane, uma previamente autorizada marcha pacífica de jovens admiradores do recém-morto músico Azagaia foi recebida pela repressão policial - dispersada através de gás lacrimógeneo, com prisões, espancamentos e feridos.

Actuar assim na própria capital, desde sempre um reduto do partido governamental ainda por cima, não é nada típico, julgo que será inédito. Via "redes sociais" e comunicação social digital vejo dezenas de filmes e fotografias do que acontece - pois já não é época de esconder estes actos, face ao "ciberactivismo" ou cibercidadania vigente.

E fico transido com esta boçalidade poderosa - não lhes passa pela cabeça a hipótese da tal "Primavera de Capim"? Mesmo que desprezem as oposições, as juventudes nacionais, não aprendem nada com a História? Ainda por cima esta tão recente?

Constituições do Mundo (2)

Moçambique: Constituição de 2004

Pedro Correia, 02.02.23

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«A República de Moçambique é um Estado independente, soberano, democrático e de justiça social.»

 

«1. A soberania reside no povo.
2. O povo moçambicano exerce a soberania segundo as formas fixadas na Constituição.
3. O Estado subordina-se à Constituição e funda-se na legalidade.
4. As normas constitucionais prevalecem sobre todas as restantes normas do ordenamento jurídico.»

 

Artigos 1.º e 2.º da Constituição da República de Moçambique

O Podcast Mudo (3): adenda a Malangatana

jpt, 08.01.23

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Reincido sobre o mais-velho Malangatana pois tendo eu botado uma memória que dele retenho logo ontem uma minha amiga-FB teve a gentileza de me narrar o seu episódio com o Mestre. Breve história mas tão dele denotativa. E também sintomática de outros tempos (felizmente) passados:

Naquele 1971 (sim, 1971...) a minha correspondente embarcara na Portela de Sacavém no avião da TAP que faria a ligação Lisboa-Lourenço Marques. Ainda imobilizados na placa foi sondada em surdina pela hospedeira: uma qualquer passageira - "senhora" dir-se-ia naquele tempo mas não agora - reclamara-se incomodada por seguir ao lado daqueloutro viajante, cujas características somáticas lhe desagradavam. E por isso lhe perguntava se se importaria ela de uma discreta troca de lugares, assim ombreando ao longo do voo com o tal indivíduo, algo a que ela se aprestou sem delongas - e nisto não posso deixar de presumir que a hospedeira tenha exercido o seu experimentado olhar clínico sobre a mole de passageiros, em busca de alguém menos rústico. "Sorte a minha" diz-me ela agora, pois durante o longo trajecto aéreo - presumo que naquela época ainda com escalas - o homem se apresentou, disse do que vinha e nisso se gerou convívio. Era o Malangatana, claro, regressando a casa após a estada em Lisboa financiada pela Gulbenkian - apesar de já ter passado anos na temível prisão da Machava (padecimento que veio a ilustrar) e de nesse mesmo ano ter sido outra vez preso. Ao fim daquela continuada conversa, já em Mavalane, a jovem recebeu este presente - um gesto que nós podemos adivinhar inscrito no continuado "charme" que Malangatana exalava mas também, é evidente, como um carinho à jovem pelo seu acto de ali ombrear, mostrando-se avessa à pestífera arrogância que ainda grassava entre tantos dos seus compatriotas. Deixou-lhe assim este agrado, o "sim meu irmão porque a voz difusa [da] criança é uma flor na boca do nosso dia a dia, 24.9. 71", que seria emoldurado logo que chegado a casa.

Décadas passaram e o então já consagrado Malangatana veio expôr ao Casino Estoril. "Morava perto e fui vê-la. Discretamente meti na sacola o quadrinho. Diante dele, discretamente mostrei-lho. Que alegria!, dizendo-me "Mas tu guardaste isto quando eu ainda não era conhecido?"..., sua tão típica reacção que se pode imaginar, até ver e escutar. 

Sorrio com o pequeno episódio e peço autorização para o divulgar, ao que Nené Barbosa logo tem a amabilidade de aceder. Escrevo o postal e deito-me, ainda cedo. Acordo, insone num qual breu mas estremunhado para ler as coisas demasiado densas que me rodeiam. Assim agarro na tabuleta e revejo o episódio sobre Wiriyamu (e não só) da excelente série "A Guerra" que Joaquim Furtado realizou há uma década, algo que vinha adiando há alguns meses. E venho a ter o prazer de rever o bom do padre Zé Luzia - que há anos raspei em Lisboa mas com o qual não privo desde a sua estada em Angoche... - ali entrevistado. E também Malangatana, num breve aparição neste episódio, centrado nas sevícias prisionais sofridas.  E acalenta-me esta "dose dupla" dele...

Depois, na alvorada, café e cigarro(s) havidos regresso à "primeira forma", volto a resmungar. Com este centramento actual em Wiriyamu, o massacre, a alusão a alguns outros massacres, as "desculpas" apresentadas ou a apresentar. Sem rodeios, este tipo de discursos sobre os "massacres" (que trazem implícita mas indita a definição quantitativa e qualitativa do que é um "massacre"), é apenas eco das nossas sensibilidades actuais, prontas a horropilarem-se com desmandos havidos. 

Não sou pacifista, julgo que há guerras justas e/ou necessárias, sendo defensivas ou  mesmo preventivas (e esta última é uma tese complicada de defender). E muitas das guerras são justificáveis no seu a posteriori - vamos encerrar-nos na avaliação da pertinência moral das Guerras Púnicas, da conquista da Gália?  E nisso temos a tendência para contextualizar o passado longínquo, isentando-o do crivo moralista, mas de julgarmos o passado recente. Ora as guerras têm um contexto histórico e a sua justificação passa muito pela sua adequação às ideias vigentes, por serem contemporâneas de si mesmas. E, de facto, as guerras coloniais portuguesas - as três guerras de independência africanas - não têm essa justificação. Eram, foram, anacrónicas. Injustas por isso. E ao dedicarmo-nos às desculpas por "excessos" militares ou policiais, aos "desmandos", às específicas violações dos "direitos humanos" ou da "convenção de Genebra", poderemos aliviar as consciências, as tais sensibilidades horripiladas. Mas ao centrarmo-nos nesses episódios estamos, de facto, a caucionar o geral da guerra, aquilo que seguia segundo os compêndios. Ora o que é de "lamentar" (o que não é "pedir desculpa") são as três guerras. E não os massacres.

Mas isso é muito mais difícil. Pois muito mais radical. E também não dá para grandes slogans... Até porque, honestamente, já passou meio século. É tempo de ombrearmos, nos aviões e alhures.

O Podcast Mudo (2): Malangatana

jpt, 05.01.23

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Leio, em postal de um seu familiar, que passam hoje 12 anos desde que Malangatana morreu. E estanco, recordando-o. E fico a sorrir, cálido. Presumo, sei, que quem não o tenha conhecido, ou só o conheça pela arte, não apreenda isto, o de que ele foi um homem espantoso, Enorme, multifacetado, vulcânico, delicioso, inebriante... Também algo contraditório, como o são os Homens que o são. Acima de tudo uma energia criativa de dadivosa que parecia inesgotável. Tornada uma alegria de viver, mas sumamente consciente.
 
No cadinho de memórias que sobre ele logo me surgem recupero agora algumas. Esta, a de um divertido jantar lá em casa (ainda na Engels), em que após um dia muito cansativo o mais-velho levou com o meu pedido, "mestre, ponha lá um autógrafo", que ficou este que reproduzo, no livro que a Caminho/Ndjira lhe dedicara - numa pequena colecção de álbuns que o atento Zeferino Coelho dedicou à arte em Moçambique -, que fora organizado pelo bom do Júlio Navarro, seu tão companheiro, homem peculiar, dito irascível mas que era, de facto, a bondade e a gentileza personalizadas em formato rude de carinhoso.
 
Eu e a Inês tínhamos casado (em Lisboa) pouco antes e no regresso a Maputo fizemos uma festa porreira na Costa do Sol, lá numa casa muito precária do Fernando Veloso, a celebrar isso. O mais-velho, com um sorriso do tamanho do amor, disse-me "vou-vos dar um quadro, tens de lá ir buscar". E eu, depois quantas vezes ido lá a casa no "Aeroporto" e à de Matalana, nunca tive a "lata", o atrevimento, de lhe pedir o tal quadro, sempre me deixando maravilhado diante da desarrumada colecção de obras e mergulhado nas conversas infindas...
 
Já cá, há 2 ou 3 anos a minha filha foi a uma festa a casa de um amigo e enviou-me um SMS dizendo-me, entusiasmada, "o pai dele tem um Malangatana" e eu respondi-lhe com uma fotografia, ela sorridente aos 3/4 anos ao colo do mais-velho em Matalana, ladeando o meu mano Ídasse e sua filha Noma, estava ele a fazer um mural em casa-própria. A legenda foi qualquer coisa como "este é o nosso Malangatana". E é. O alento da memória...
 
Quando morreu o Mestre, figura-mor da pátria moçambicana, o FUNDAC, organismo estatal da cultura, pediu-me/encarregou-me de escrever o breve texto alusivo ao momento. Atrapalhado botei o que pude, coisa pouca para tão necessária homenagem (Malangatana). Mas percebendo, estrangeiro, que foi aquele o momento mais honroso que tive em Moçambique. Digo-o, ainda hoje disso vaidoso. E imensamente saudoso. Pois que grande Malangatana foi Malangatana.

O Podcast Mudo (1): reveillon na Ilha de Moçambique

jpt, 01.01.23

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(Começo assim a emitir o meu podcast - intitulado "O Podcast Mudo" -, o qual terá uma periodicidade algo irregular mas que espero frequente, e será constituído por episódios de cerca de 3 minutos. Espero que possais gostar do timbre da minha voz e da prosódia da minha fala.)

Coisas destas "memórias" do FB, isto de me lembrar que há 16 (!!!) anos cruzei para o 2007 na Ilha de Moçambique. Todos os palermas a quem aconteceu algo (e a quem é que não acontece?) proclamam "a minha vida dava um romance" - e alguns escrevem-no, raios os partam. E eu posso dizer que naqueles tempos vivia um pedaço de guião de filme, "francês", de "autor", se se quiser..., que aqui esquiço, sem entrar num registo intimista, que esse ficará para o tal "romance"..., que nunca escreverei, claro.

Alguns meses antes tinha regressado a Maputo, vindo de um trabalho de terreno, num estado que aparentava calamidade natural, tamanhas eram as hemorragias que me acometiam. E logo cometi o erro, de verdadeiro incauto, de me recolher ao convívio com o Google indagando sobre o que comigo se passava, e nisso percebi que deveria ter um cancro do cólon - o que me incomodou deveras, pois ainda recém-quarentão e pai de uma filha com 4 anos. E com os pais vivos.

Enfim, face ao horizonte tétrico segredei a situação a uma querida amiga - "não dizes nada à Inês?", logo me convocou, "é melhor não, por enquanto, para quê provocar angústias alheias?", "ó Zé!", franziu ela o belo cenho -, a qual logo me remeteu para um médico afamado em JHB (de facto, em Centurion). Acabrunhado, macambúzio, lá fui ao diagnóstico.

O médico logo me sedou e vasculhou. Depois avançou para mim, eu ainda estremunhado, café de filtro na mão, uma mixórdia inútil, e nisso muito atrapalhado com o gutural inglês do africander, esperando o pior, e disparou ele: "você lá em Moçambique come muito piripiri?" "hââ", respondi... "bebe álcool?" "hââ.." gemi até esganiçado, "e no "mato" bebe as águas", "pois, vou bebendo, acaba por ter de ser" (mais no gelo do uísque, mais isso não lho disse). "Pois, você não tem nada no cólon", "o que você tem é hemorróidas" - [sim, eu sei que é assunto tabu para homens, que a rapaziada da minha geração mais depressa reconhece a sua disfunção eréctil do que isto dos borbotos no recto, mas saiba-se, é coisa perfeitamente natural...]. "Tome lá esta pomada", rematou, e em adenda culminou "e tenha cuidado com o que bebe e come"...

Voltei a Maputo. Na época estava num abanão conjugal, separado. Passado pouco tempo chegou o Natal, a família veio à pátria amada. Eu fiquei, estando entre o desconforto da solteirice e o enorme alívio da afinal saúde. Na véspera do Natal meti-me no meu saudoso Ssangyong Musso e decidi ir até ao Rovuma, pois nunca ultrapassara para além do Messalo. Passei a consoada em Inhambane, com amigos, um excelentíssimo casal. Depois - e porque ainda era o tempo do batelão de Caia -, Inhassoro, Quelimane e Ilha.

À Ilha já tinha ido várias vezes, conhecia gente, um punhado de deliciosos amigos até. Decidi ficar uns dias, que ia cansado de tanta estrada sozinho... À chegada bati à porta do já falecido Kamusse, ali sempre meu intérprete. E comecei em andanças. Fiquei 5 semanas!, e só parti porque as aulas iriam começar... O Rovuma?, afinal adiei-o para um qualquer futuro. Que nunca chegou.

Já agora, a cidade estava pejada destes grafitis..., grupos de jovens a louvarem clubes de futebol europeus, J. Bus - o Bush mesmo, que então se embaraçara no também islâmico Iraque - , e universos similares, naquela mescla de macua nahara pejado de portuguesismos amansados com a pronúncia local. Por ali andei, deliciado, alinhavando o que poderia ter sido um texto "anti-póscolonial" (falo das tralhas "teóricas", não do pós-colonial com hífen, das independências).. Que acabei por não fazer, talvez, decerto, demasiado embrenhado naquelas "águas do Índico". Mas ficou-me - e mais uma vez - a ideia e o sentir: o encanto da Ilha de Moçambique não é a pedra-e-cal. Nem os artefactos folclorizados, os "mussiros" e as "missangas". É quem lá vive. Entenda-se, o macuti...

A ver se ainda lá passarei. Que tenho saudades da minha leveza desse tempo. De "viente" deliciado, nisso enérgico. Mas não "encantado".

 

Rui Knopfli - I'm really the underground

jpt, 23.12.22

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Em geral convém ser moderado nos elogios, pois em não o sendo quando apregoamos um qualquer apreço pouco impacto isso terá, resumido pelo fastio alheio num "lá está este...". Mas ainda que assim seja apregoo agora que este documentário "Rui Knopfli - I'm really the underground" (realização de Ricardo Clara Couto, argumento de Nuno Costa Santos) - que acabo de ver na RTP2 - é muito bom, mesmo muito bom. Excelente! E não só pelo tom e encenação, apuradíssimos - e com protagonismo cénico dado a um rádio igual ao que herdei da minha avó materna e que vim a fazer transitar para um dos seus bisnetos, pormenor que me deliciou mas que é bem secundário neste meu encanto... Pois este vem, repito-me, da excelência e pertinência do documentário.
 
Eu gosto muito da poesia de Knopfli, talvez pelo seu classicismo (como ali resume Francisco José Viegas - um dos entrevistados, junto à filha e à neta do poeta, e a Pedro Mexia, Eugénio Lisboa, Vasco Rosa, João Francisco Vilhena e ao já mais-velho Luís Carlos Patraquim, todos com deveras interessantes contributos), nisso sem lânguidos meneios oitocentistas nem poses crípticas de formalismos (pós-)modernos, bem ritmada ("jazzística" dela diz Eugénio Lisboa) e sem a deriva das metacitações, onanismo poético que me é insuportável.. E porque, poeta de Moçambique, isento dos sempre habituais tons "curio", essas "cores" ocres, esses linguajares "apoetizados" de "indigenismos" e, pior do que tudo, os malvados sentimentos "profundos" e "humanitários" tão ditos como "líricos", que fazem as delícias dos leitores africanófilos e dos "tops" de literatura "lite" premiável... E, ainda por cima, sem se conspurcar por gota que seja de "causas".
 
E gosto, adoro, a inteligente pertinência que teve ("atropelado pela História", muito bem dele diz Mexia), rara no seu mundo. Um dia usei-lhe um poema como epígrafe de um texto meu: "Feita de lavras / em pousio e esperança adiada / pertencemos todos a esta áfrica lusitana / que pelas outras se expandiria. Por estas / andámos perdidos, ignorando então / que a passagem obrigava ao regresso.", poema em fim de vida - mas dolorosa presciência já presente no seu inaugural "O País dos Outros" de 1959 - em apenas seis versos explicando o XX português, esse dos "portugueses em transição" (como diz Lisboa) num "paraíso a prazo" (Patraquim) que tão poucos dos seu contemporâneos pressentiram, sentiram e compreenderam e que ainda alguns, não tão poucos assim, insistem em incompreender. E no dia em que me fiz vir embora de Moçambique, irremediável passo mal dado, exigindo-me sozinho no rumo para o aeroporto deixei dito, lembrando-o, "Não sou o Knopfli, o Kok já morreu ["Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me obliquamente nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não"], escreveu o poeta narrando-se em Mavalane à saída," quando indo-se da independência] - ele então expulso, partindo para um exílio perpétuo. E, como se viu e o sentiu ele, desabrigado, apesar do amparo pragmático que recebeu do país e do Estado.
 
Hoje à noite ao ver o belo documentário lembrei-me de quando Knopfli ressurgiu, no ano em que viria a morrer, com o terminal "O Monhé das Cobras", naquela década em que tinha visitado Moçambique, sendo surpreendido pelo acolhimento de escritores e leitores - na época muito dinamizado pelos seus admiradores Nelson Saúte e Francisco Noa, já então intelectuais centrais no país. O regresso em livro do "velho" poeta era marcante - e porque me deu para isso encomendei algumas dezenas (5? 10?) de exemplares, que era o que podia, para distribuir pelas bibliotecas e leitores do país. Decerto que terão sido lidos, justifico-me... E lembro também a excitação tida, coisa de um ano depois, aquando da publicação por António Sopa da pequena pérola bífida, a colecção de crónicas de José Craveirinha e Rui Knopfli chamada ""Contacto e outras Crónicas" (Craveirinha) + "A Seca e outros textos" (Knopfli), textos ditos "menores" mas riquíssimos...
 
Mas isso são memórias minhas, o relevante agora é ver o documentário. E o melhor é perceber que este não se fica (como temi) no Knopfli de Inhambane a Lourenço Marques, como é costume nas (ainda assim algo raras) invocações do poeta. Pois se ele veio a dizer que "daí nunca mais saí" o filme percorre um pouco do seu "exílio" londrino, o seu descabimento alhures. Ficou apenas por remexer aquele "Ilha de Próspero", sempre incensado mas que é, de facto, a grande fronteira do poeta, apesar de tudo homem do seu tempo - pois o macuti, a "Ilha" mesmo, onde vive quem de lá é e quem para lá vai, era-lhe externo, foi-lhe impenetrável, e é isso coisa que os dos estudos "culturais" e "literários" nunca conseguem perceber... Mas não seja por isso, pois o filme é mesmo (bi-repito-o) muito bom. E porque termina com este seu magnífico "Cântico Negro" - ensinem-no aos jovens, nas escolas e universidades, desempreguem os sacristãos de pacotilha que para aqui andam:
 
Cago na juventude e na contestação
e também me cago em Jean-Luc Godard.
Minha alma é um gabinete secreto
e murado à prova de som
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes
nem uma só gravura de Lichtenstein
ou Warhol. Nas prateleiras
entre livros bafientos e descoloridos
não encontrareis decerto os nomes
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos
volumes de qualquer filósofo
maldito, vários poetas graves
e solenes, recrutados entre chineses
do período T´ang, isabelinos,
arcaicos, renascentistas, protonotários
– esses abundam. De pop apenas
o saltar da rolha na garrafa
de verdasco. Porque eu teimo,
recuso e não alinho. Sou só.
Não parcialmente, mas rigorosamente
Só, anomalia desértica em plena leiva.
Não entro na forma, não acerto o passo,
não submeto a dureza agreste do que escrevo
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.
De alguns. De poucos. De um só se necessário
for. Tenho esperança porém; um dia
compreendereis o significado profundo da minha
originalidade: I am really the Underground.