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Delito de Opinião

Sentido Obrigatório

jpt, 10.12.25

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Neste meu afã de ser moderno, acabo de organizar uma edição em livro electrónico (e-book na vigente língua de trapos) do meu "Sentido Obrigatório: Acerca de Moçambique" - no qual juntei 30 textos sobre Moçambique e também sobre como em Portugal se vai vendo aquele país.
 
Para quem se possa interessar - mas queira evitar os portes de correio e/ou tenha as estantes domésticas já atafulhadas - aqui deixo a ligação ao livro: basta "clicar" neste "Sentido Obrigatório".
 
Para quem prefira o livro em papel encontra-o nesta ligação.

Sentido Obrigatório

jpt, 01.10.25

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Há alguns dias o meu amigo fotógrafo Pedro Sá da Bandeira inaugurou no Camões (Lisboa) a sua exposição "Senda Índica" (aqui deixei o que Graça Gonçalves Pereira escreveu para a "folha de sala" e o que eu naquele momento disse sobre este seu trabalho).

Nessa mesma sessão apresentei o meu livro "Sentido Obrigatório", (que pode ser comprado através da ligação colocada no título), o qual é uma colecção de 30 textos dedicados a Moçambique.

Neste postal coloquei a gravação de uma entrevista televisiva ao programa Mar de Letras, meia hora de conversa dedicada às vivências que conduziram aos meus livros "Torna-Viagem" e "Sentido Obrigatório". E juntei-lhe o "improviso escrito" que fiz para a sessão de apresentação deste novo livro.

Fica a referência para quem se queira interessar.

"Senda Índica" de Pedro Sá da Bandeira no Camões

jpt, 29.09.25

No passado 18 de Setembro apresentei o meu livro Sentido Obrigatório, acoplado à inauguração da exposição fotográfica Senda Índica que o Pedro Sá da Bandeira dedica a Moçambique, e a qual é visitável até ao próximo dia 2 de Outubro na galeria da sede do Camões, sita exactamente no Marquês de Pombal (anunciara-a aqui).

Para a sessão fiz um “improviso escrito” - como sempre dizia o meu saudoso amigo Aventino Teixeira, que nisso exercia o seu constante sarcasmo -, onde ambicionava legitimar o meu livro. Mas no momento da apresentação - algo inebriado pela, até inesperada, enorme (!, enorme mesmo!) quantidade de amigos que ali afluíram - esqueci-me das minhas coisas e pus-me a falar das fotografias do Pedro, e até a apontá-las…

 

Do que me lembro desse verdadeiro improviso que ali perorei - e do que mais gostaria de ter dito - componho-o agora assim:

Improviso verdadeiro”,
 

Tenho de salientar a minha gratidão para com o Pedro Sá da Bandeira. Pois ao ter decidido associar a inauguração da sua exposição fotográfica sobre Moçambique, esta bela Senda Índica, não só comigo ombreia como reboca a apresentação deste meu livro Sentido Obrigatório.

Refiro esse rebocar não apenas por reforçar a visibilidade desta sessão, nesta nossa congregação de amigos que hoje acontece. Mas pelo percurso que vamos tendo juntos, mesmo que amiúde apartados pelas geografias. O Pedro é meu amigo. Mas mais ainda significativo é o facto de comungarmos sensibilidades intelectuais. As quais aqui abordo, sem com isso me atrever a pretensões de crítico fotográfico.

O Pedro viveu três entusiasmados e trabalhosos anos em Moçambique, tornando-se ali exemplo de inserção profissional e pessoal. Eu dezoito. E por essa diferença de tempo de imersão tanto me surpreendeu a tal nossa similitude de olhares - porventura isso será vantagem do seu instrumento, a máquina fotográfica, que o afasta dos tormentosos labirintos teóricos que a nós, os das “ciências sociais”, tanto nos atrapalham. E, decerto, por seguir ele totalmente desprovido da ambição de ascender aos púlpitos, essa que tanto (nos) envenena. E deturpa.

Ele é um fotorrepórter, não procura a dita “estética” - a paisagística, natural ou humana - muito menos a tão habitual (e até mesmo malvada) “estética da pobreza”, afastando-se do mero “belo”, grandiloquente que este minta ser ou até mesmo apetitoso às paredes de galerias.

Especializou-se na recolecção (ou seja, na verdadeira construção) do momento, do episódio, esse que denota o conjunto de processos envolvidos, a vida. Para quem o queira e/ou possa interpretar. Mas - e é esse o arcaboiço “teórico” da sua máquina - muito mais do que isso, pois o que o Pedro capta assume, tantas vezes, um cariz profético. Dado que ele, nesses vislumbres, mostra - através da tal construção, feita não através de intrusão encenadora mas por observação empática - o futuro que impregna este esquivo presente.

Aponto-o aqui, a esse sadabandeirístico teor profético, para o sublinhar aos amigos lisboetas, menos ou nada conhecedores do Moçambique que ele enuncia nas suas fotografias, assim menos capazes de a estas interpretarem, àqueles augúrios reconhecerem.

Dou meros exemplos, sem ser exaustivo para não enfadar: o ar mesmo maroto do transportador da imagem apeada do presidente Guebuza; o “China em África” que ele logo detectou à chegada numa vulgar carruagem de comboio - bem antes dos ensaios e proclamações políticas sobre tal assunto…

Ou o delicioso tríptico com pastor e crentes “ma”ziones, exemplo - que ele captou também logo à chegada ao país (2006) - da enorme expansão social do pentecostalismo e correlato evangelismo, fenómeno que tanto admirou (e atrapalhou) muitos intelectuais neste último ano político… Ou o magistral quase bíblico “César e Deus”, com o sacerdote (que tantos insistem em reduzir a “curandeiro”) invocando o(s) Deus(es) sob a tutela de César (Chissano), enquanto nessa mescla o seu (induzido?) movimento pedonal anuncia o único rumo possível de futuro (o bebé).

E esta quase críptica “Fátima” - imagem aparentemente “lisa” mas que tanto condensa. É Caia, local onde por batelão se atravessava o Zambeze, rio assim por décadas mantido fronteira natural no país, pois este ainda desprovido de ligação rodoviária directa entre os simbólicos rios do Norte (Rovuma) e do Sul (Maputo). E onde se construía então, e finalmente, a ponte - essa que veio a ser nomeada Armando Emílio Guebuza mas à qual o povo (esse “que tudo sabe”) logo denominou Ponte da Unidade Nacional.

Ao ver a fotografia perguntei-lhe, sem pudor, “encenaste-a?”. Ao que me disse, no seu típico sorriso perspicaz: “não, encontrei assim…”. A “Fátima”, comerciante (talvez de si-mesma, avento), esperando clientela naquele local de tantas e longas pernoitas, transeuntes aguardando lugares na azáfama do batelão diurno. A seu lado, até quase esconso, um vasilhame já histórico, de esvaziado: uma garrafa da Manica (a cerveja da Beira), outra garrafa de 2M (a cerveja de Maputo). A Unidade Nacional…

E sobre todas as outras poderíamos conversar, deliciando-nos nos seus múltiplos sentidos. Por tudo isso muito gostaria eu - pois sei-o absolutamente pertinente - que esta Senda Índica viajasse. Itinerasse, pelo menos, por Moçambique. E nisso logo me lembro dos centros culturais sobre os quais tive responsabilidade (em Maputo e na Beira), mas também por outras paragens - por exemplo em Quelimane, onde recentemente se fundou a Biblioteca e Centro de Documentação José Capela, esse que foi mítico conselheiro cultural português no país e seu fundamental historiador. Mais que não fosse para mostrar, reafirmar, por lá que por cá há gente que olha… Alguns!

(E também fico à espera de que tu, Pedro, nos apresentes a vasta exposição andina que já tens. Haja… Lisboa para isso)

(O texto completo, junto à folha de sala, escrita por Graça Gonçalves Pereira, está aqui)

Uma Exposição Fotográfica, um Livro, uma Entrevista Televisiva

jpt, 18.09.25

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Hoje mesmo, 18 de Setembro, ao fim da tarde no (Instituto) Camões, sito exactamente no Marquês de Pombal, eu junto-me ao Pedro Sá da Bandeira, ele inaugura a sua exposição "Senda Índica" - que ficará até 2 de Outubro -, eu apresento o meu "Sentido Obrigatório", 30 textos de opinião sobre Moçambique (e algo de Portugal). Fica aqui o convite para quem quiser comparecer...

Quem tiver paciência para me ver a tentar divulgar este "Sentido Obrigatório" (e o anterior "Torna-Viagem"), aqui deixo ligação para a minha entrevista no "Mar de Letras", transmitida ontem, meia hora de conversa sobre Moçambique. Os livros podem ser adquiridos através desta ligação.

A imprensa portuguesa e Venâncio Mondlane em Lisboa

jpt, 15.07.25

Exposição Muungano... na SNBA

jpt, 15.07.25

(Mudaulane)

Até 19 de Julho de 2025 estará aberta a “Muungano (1975-2025): 50 Anos de História, Arte e Cultura de Moçambique Independente” na Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa. A exposição celebra, como é óbvio, o cinquentenário da independência do país - e decerto que por isso vem o seu nome, “Muungano”, que traduzo não literalmente por “fraternidade”.

 

25 de Junho, 50 anos de Moçambique

jpt, 25.06.25

(Postal no meu "O Pimentel")

Neste 25 de Junho Moçambique comemora meio século. Eu devia - e tinha isso planeado - hoje aqui publicar um texto analítico, ensaístico. Mas adio. Pois ponho-me…

Em 1990, quando acabei a tropa - que então era obrigatória, e saíra-me “em sortes” -, através do na época fulgurante “Expresso Emprego” logo encontrei um trabalho: feito “director”, com belíssimo ordenado (os tempos eram assim), o usufruto de um carro e também de um apartamento fronteiro ao mar, em São Pedro de Moel. Numa empresa de roupas! E todos poderão perceber o que passou na cabeça daquele pós-mancebo, assim feito bem-posto, alcandorado num ambiente obviamente pejado do então celebrado “mulherio”.

 

 

CPLP?

jpt, 10.03.25

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(Massinga, Inhambane, Moçambique)

1. A CPLP é um eixo fundamental da política externa portuguesa - ou, pelo menos, assim é referida.

2. Moçambique é o terceiro país mais populoso da CPLP.

3. Moçambique está numa situação política complexa, após (mais) umas eleições que colheram a suspeição quanto à sua fiabilidade. As quais conduziram a um novo presidente e um novo governo. Que continuam a ser contestados pela oposição real.

4. Em Moçambique o actual governo/poder expurgou-se de ligações com o anterior governo, por alguns considerado criticável. Afiançou-o no seu programa televisivo, saudando um "novo ciclo", o administrador de empresa Paulo Portas - antigo jornalista, antigo político, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.

5. Há poucos dias em Maputo uma manifestação pacífica (e festiva) do real líder da oposição Venâncio Mondlane foi violentamente reprimida pela polícia. Houve mortos e feridos, inclusive de uma pessoa que ia na viatura desse candidato, e algumas crianças. As imagens foram transmitidas em directo, não deixando dúvidas sobre o acontecido. Nem sobre a intenção assassina que suportava a acção policial.

6. Neste fim-de-semana Daniel Guambe e Rafael Sitoe, dois reconhecidos militantes do movimento oposicionista foram assassinados em Massinga, na província de Inhambane. Tinham 28 e 21 anos, respectivamente.

7. Ontem, domingo, no programa televisivo semanal do antigo político, antigo jornalista, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e actual administrador de empresa, Paulo Portas, não houve qualquer referência a Moçambique, o tal segundo país mais populoso da CPLP.

8. Antes da intervenção televisiva do administrador de empresa Paulo Portas, incluída no telejornal da TVI, foram emitidas declarações de Voltaren, Continente, McDonalds, Intermarché, Worten, Volkswagen, Easy Jet, Vodafone, Audi, Mercedes, Cetelem, Pizza Hut, Multiopticas, Bleu de Chanel, Sensodyne, Rhinomer, Hyunday, Mickey 17, Pantene, Nissan, Wells, KitKat, Nivea, Securitas, Pingo Doce, Renault, Parodontax, The Fork, Burger King, Radio Popular, Colgate, Lilly, Corega. Decerto que solidárias com o conteúdo do transmitido.

"Zé, então e como está aquilo em Moçambique?..." (2): um novo ciclo

jpt, 25.02.25

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(A fotografia retrata uma exposição da Magma Fotografia, na estação dos CFM de Maputo, em 2009. A fotografia exposta será de Solange dos Santos ou de Dominique Andereggen, não tenho a referência completa)

"Zé / Zezé, então e como é que está aquilo em Moçambique?...", perguntam-me diariamente amigos, agora que "as coisas" de lá se afastaram um pouco dos "escaparates" da imprensa. - escrevia eu há um mês. Agora perguntam-me menos, as notícias por cá escasseiam e outras questões prementes convocam o interesse: as nossas inúmeras trapalhadas do CHEGA, às quais se seguiram as previsíveis de Montenegro. Lá fora mantém-se a desgraça de Gaza, acoplada ao patético/pateta anseio de uma Riviera ali medrada. E, agora mesmo, a ascensão final da Criatura TrumPutinEsta tanto animando essa execrável mescla, vigente desde a invasão da Ucrânia, fez ontem três anos (!), dos nossos comunistas - das versões III e IV Internacionais - e fascistas - entre estes em especial os que estiveram estas décadas travestidos de "sociais-democratas" pêessedistas ou "demo-cristãos". Os quais andam agora, eufóricos pois "saídos do armário", quais "bichas loucas" em histriónica "parata fascista".

Enfim, olhando a História, percebemos que a revivemos. Pois a oriente temos hordas de guerreiros norte-coreanos rumo a Viena, os boiardos russos vão sendo defenestrados em massa, o pretendente Navalny foi morto há um ano (cumpriu-se há pouco). Entretanto, a oeste Drake vagueia pelas nossas costas, reforçado por frota de mercenários vikings, convertidos ao calvinismo africano. E há dias, arrogante, mandou-nos como emissário um puritano de Salem, para exigir "tributo". E esta nossa gentalha rejubila. Porquê? Por não gostar que "Roma" imponha alguns limites às superstições locais... São uns labregos, já o referi.

Neste ambiente como atentar nas coisas de Moçambique? Mesmo assim ainda há quem me pergunte novidades sobre o país. Faço então um curto resumo, para não cansar os (um pouco) interessados. O candidato presidencial Venâncio Mondlane, autoproclamado "presidente do povo", continua as suas sortidas, colhendo impressionantes e espontâneos banhos de multidão: agora em Vilanculos, há dias em zonas populares de Maputo e em localidades da sulista província de Gaza (a Gaza moçambicana, não a mediterrânica, como julgou o ex-viking Musk). Alguns dos seus seguidores mais próximos continuam a sofrer tentativas de assassinato, ditos como praticadas pelos consabidos "esquadrões da morte". A isso reage a população, destruindo algumas instalações estatais e do partido do poder, fenómenos mais correntes no Sul do país, algo relevante pois em zonas de tradicional adesão maioritária ao Frelimo. E continuam a grassar bloqueios rodoviários e em torno de zonas comerciais, sinalizando a imprevisibilidade do rumo nacional e a atrapalhação da "ordem pública". Como detalhe, verdadeira minudência, lembro que algumas rádios de Nampula viram-se impedidas de transmitir, tendo regressado algum tempo depois, decerto que tendo tomado em conta o "aviso à navegação" recebido. Bastante preocupantes são as notícias da disseminação de grupos amotinados (agora ditos "namparamas", num uso inovador do termo, que vem substituir os anteriores "bandidos armados" ou "insurgentes"), os quais alastram, principalmente nos distritos da Zambézia. E diante dessa epidemia de "jacqueries" temo que se venha a tornar em pandemia.

Entretanto há dias houve a ansiada reunião do Comité Central do Frelimo, sobre a qual muitos diziam ser o momento da passagem do testemunho, efectivando uma maior autonomia política do actual presidente Chapo, abrindo assim o "novo ciclo" de poder - este por cá já há tempos "anunciado na tv" pelos comentadores lóbistas Paulo Portas e Miguel Relvas -, e concomitantes novas práticas de exercício governativo. 

E alguns dias após essa reunião magna houve pronunciamentos dos próceres moçambicanos, delineando o conteúdo desse "novo ciclo". O antigo presidente Guebuza deu uma conferência na semana passada, explicitando que "o colono trouxe a ideia que o africano é corrupto". Entenda-se, que a premente acusação de corrupção generalizada do regime se deve ... à maldade exploratória dos colonialistas. Para os alheados das questões moçambicanas (e africanas) esta formulação tem de ser esmiuçada, pois não é apenas uma diatribe. As elites políticas que ascenderam ao poder após as independências sempre se legitimaram pelo seu papel anticolonial. E o Frelimo sempre insistiu nesse tópico. Agora, 50 anos depois da independência, com o país naquele estado, face a uma população cuja esmagadora maioria tem menos de 35 anos - netos e bisnetos dos colonizados -, tentar insistir neste tópico (certeiro ou errado, pouco importa) é evidência de que a elite política (na qual Guebuza é importantíssimo) não compreende o real, não reflecte sobre ele. E assim nunca assumirá um qualquer "novo ciclo" (apesar do que por cá dizem os comentadores televisivos Miguel Relvas e Paulo Portas...).

Logo de seguida o novo presidente Chapo foi mais longe no sistematizar do conteúdo desse "novo ciclo": primeiro que a luta contra as "manifestações é a continuidade da guerra dos 16 anos". A expressão é um programa político: por um lado, o epíteto "guerra dos 16 anos" é um lema dos frelimistas (ladeado por outro "título", o de "conflito armado"), que nega a referência a uma "guerra civil", forma de então - e ainda agora - negar a realidade social da Renamo, reduzindo-a a marioneta de agressão estrangeira. E, por arrasto, afixando essa "inexistência" ao que se passa agora. Por outro lado, Chapo - mais novo que Guebuza - ao afirmar isto não só procura reduzir os manifestantes a agressores (externos) como busca a legitimação do poder na invocação da pacificação de uma guerra terminada há... 30 anos. E um discurso autolegitimador que, como o anterior, não colhe diante desta pirâmide etária. Ou seja, tanto pela negação sociológica como pela retórica autolegitimadora, a via do actual presidente sublinha que a elite política - e nesta caso a das fracções vigentes - não compreende o real, não reflecte sobre ele. E assim, repito, nunca assumirá um qualquer "novo ciclo"...

Depois, e para que não restem dúvidas sobre as suas intenções e as do poder instituído, foi a Pemba discursar e anunciou ontem que "Vamos derramar sangue para combater as manifestações", enfatizando ainda que "vamos fazer jorrar sangue"...

Enfim, "Zé/Zezé, então e como está aquilo em Moçambique?...", perguntam-me os amigos, diante da imperial do fim da tarde. "Não sei", respondo, entristecido. 

Preservativos para Gaza

jpt, 11.02.25

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Esta é a melhor do dia. Elon Musk contestou o envio de preservativos para Gaza - juntando-lhe, na sua rede X, uma veemente crítica questionando a razão de serem todos "Magnum" os preservativos atribuídos aos palestianos (ao Hamas, dir-se-á).
 
Mas, afinal, o envio era para Gaza, Moçambique....
 
(Neste filme o homem, ladeando o presidente Trump, explica o seu erro. Convém ver. Principalmente os que simpatizam com o novo governo dos EUA, para melhor entenderem os modos como aquilo está a decorrer... Surreais modos.)

Moçambique e a Internacional Socialista

jpt, 09.02.25

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Tenho amigos que me dizem reagir eu demasiado ao PS. Eu contesto-os. Apenas tenho memória, e nisso recordo esse colectivo de energúmenos, vis. Das passeatas em Moçambique pós-Cahora Bassa do agora proto-candidato António Vitorino, do ombrear do presidente da AR Jaime Gama e do grão-mestre maçónico Vera Jardim com o consabido Momade Bachir Sulemane, a este publicamente louvando (apesar da nossa embaixada lhes ter, aos tais socialistas, encarecidamente pedido para nos poupassem a isso)!!!.... Desse Sócrates, o de "em Paris", abandonado no "Zambi" de Maputo ("Teixeira", telefonaram-me, "o teu ex-PM está sozinho a jantar, vai acompanhá-lo"), em evidente lóbi afinal já desprezado. E lembro os de cá, desde a zambeziana Leitão Marques ao seu marido (o ilustre lente de Coimbra) cabecilha de Sócrates. E tantos outros, mais rebotalhos, do "padrinho" César dos Açores à corja propagandista de Câncios, Galambas, Adão e Silva e Vale de Almeida (a este conheço, um pateta: "sou feminista" e a isso correlacionando que "gosto muito de levar no cu"), do pequeno lixo autárquico nos meus Olivais ao neto da Maria Antónia Palla ("todos seriam melhores PM do que o anterior", dizia a prestigiada jornalista logo após Passos Coelho quando o evidente Sócrates estava detido em Évora, boa mostra da mundividência familiar ali reinante) eleito por uma "urna negra" resvés Campo de Ourique. E este Medina, que para aí vem (quando PNS esboroar de vez) a denunciar compatriotas (e estrangeiros) aos serviços de informação israelistas e russos. Já para não falar de Vitalino Canas - e nisso raspo o tacho - a querer-se juiz do Tribunal Constitucional, com o conúbio de António Costa, quando este ainda não era "minoria étnica"... Etc., um imenso etc., pois um tipo da minha geração, algo informado e minimamente vivido, poderá continuar páginas afora neste rol de despudorados. Um tipo chega aos 60 anos e sabe que já de nada serve protestar, foram eles que viveram, mandam e fruem, devastaram-nos o futuro do país, e são eles, e os seus, que continuarão a mandar até que o cancro ou AVC me leve.
 
Mas - e os jovens nem acreditam nisso - já tive 30 anos e esperanças. Vivi no distrito de Montepuez, meses a fio, no "mato" como lá se diz ("pai, então?sou eu...", no aeroporto da Portela regressando após seis meses, ele António e a minha (então ex-)namorada Inês à minha procura e eu diante deles, com menos 28 quilos. E se as mulheres nos esquecem, é o destino, que o meu pai não me reconhecesse chocou-me...). Anos depois chorei - mesmo - de pesar com a notícia de que mais de 100 camponeses ali tinham morrido, asfixiados numa cela da esquadra de Montepuez, por se terem manifestado contra o governo. E ainda mais - de raiva - porque nessa mesma altura se fazia em Maputo o congresso da Internacional Socialista, então presidida por Guterres (o do "pântano", mas também o do cunhado dos lóbis), no qual se fez ascender Chissano a vice-presidente (eram 70 e tal, mas ainda assim a promoção do PR moçambicano serviu para propaganda interna). E nessa altura - tal como depois - nem uma palavra disse a tal Internacional Socialista (esse coito de Craxi, Papandréou, Guerra, Sócrates e inúmeros quejandos) sobre o assunto. Foi em 2000.
 
25 anos depois, o Paulo Dentinho, meu amigo - e homem livre, "indomável" como se queixavam os "senadores" e "administradores não executivos" do PS quando tanto o queriam "ao serviço" - refere certeiramente a continuidade do silêncio da multinacional patrimonialista "Socialista" sobre a situação em Moçambique. Um abraço, pá! Já vamos tarde. Eles continuam e continuarão a dispôr. Pois há gente, imensa, que os aprecia. E, desgraça, até neles vota.
 
Cito-o, transcrevendo o que escreveu no seu mural do Facebook: 
 
Moçambique e a Internacional Socialista.
 
A Internacional Socialista, da qual fazem parte mais de uma centena de partidos que se reclamam da social-democracia e do socialismo democrático - incluindo entre eles a Frelimo - proclama nos seus princípios a defesa da democracia, da justiça social e dos direitos humanos. No entanto, as eleições gerais de outubro de 2024 em Moçambique, marcadas por alegações de fraude e manipulação de resultados, expõe uma enorme contradição entre a realidade e os tais princípios.
 
Apesar das promessas de transparência e pluralismo, os observadores internacionais, incluindo os da União Europeia, denunciaram irregularidades várias no processo eleitoral. O candidato da oposição, Venâncio Mondlane, contestou os resultados. A resposta foi a repressão e o silenciamento das vozes críticas. A Internacional Socialista manteve-se em silêncio.
 
A situação agrava-se quando olhamos para a governação. A corrupção continua a minar as instituições moçambicanas, como demonstram os milhares de casos, de que o escândalo das dívidas ocultas é o mais trágico exemplo, pois continua sem responsáveis políticos de topo efetivamente punidos... em Moçambique. Se a Internacional Socialista leva a sério o seu compromisso com a justiça social e o combate à corrupção, deveria pelo menos questionar-se sobre o assunto.
 
A verdade é que Moçambique está num caminho perigoso. A repressão da oposição, a fragilidade da democracia e a instrumentalização do sistema judicial são sinais claros.
 
O silêncio é cúmplice, e se não se agir os princípios não passam de uma farsa conveniente. O que é válido para as organizações internacionais e… para cada um de nós.

Os comentadores e Moçambique (2)

jpt, 08.02.25

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Location of Xai Xai -  Capital of Gaza Province

Aos meus compatriotas que se interessam por Moçambique: o mapa indica onde é Xai-Xai, capital da província de Gaza - desde a independência o mais extremado reduto eleitoral do Frelimo. Que eu saiba Xai-Xai não é uma das duas cidades referidas pelo comentador televisivo (remunerado?) "senhor embaixador" Martins da Cruz como as únicas tendo "problemas" políticos. Nem será alvo dos aventados interesses económicos do comentador televisivo (remunerado?) "doutor" Miguel Relvas. Nem objecto de análise detalhada do comentador televisivo (decerto que remunerado) administrador "Paulo" Portas. Ainda assim Xai-Xai existe... E vários amigos acabam de me enviar ligações para a transmissão em directo (via FB) da visita que Mondlane - o "populista" "imprevisível" para o "Público", o mero "bolsonarista" para os acomodados cleptófilos - está a fazer à cidade. Um incrível, gigantesco, banho de multidão!
 
Será um facto politicamente impressionante? Talvez. Esperemos pelos telejornais e painéis deste fim-de-semana... pois neles o "senhor embaixador" Martins da Cruz, o "doutor" Relvas ou o (administrador) "Paulo" Portas nos virão esclarecer. Remunerados? Quiçá... E até mesmo que algum "jornal de referência" possa atentar nisto.
 
E até poderá ser que alguns dos nossos actuais ministros "abram a pestana". Trata-se de insistir, apesar da pouca esperança a ter com esta gente.

Os comentadores televisivos e Moçambique

jpt, 07.02.25

Chibuto_District_map.svg.png

Aos meus compatriotas que se interessam por Moçambique: o mapa indica onde é Chibuto, na província de Gaza - desde a independência o mais extremado reduto eleitoral do Frelimo. Que eu saiba Chibuto não é uma das duas cidades referidas pelo comentador televisivo (remunerado?) "senhor embaixador" Martins da Cruz como as únicas tendo "problemas" políticos. Nem será alvo dos aventados interesses económicos do comentador televisivo (remunerado?) "doutor" Miguel Relvas. Nem objecto de análise detalhada do comentador televisivo (decerto que remunerado) administrador "Paulo" Portas. Ainda assim Chibuto existe... E vários amigos acabam de me enviar ligações para a transmissão em directo (via FB) da visita que Mondlane está a fazer à pequena cidade. Um incrível, gigantesco, banho de multidão!
 
Será um facto politicamente impressionante? Talvez. Esperemos pelos telejornais... pois neles o "senhor embaixador" Martins da Cruz, o "doutor" Relvas ou o (administrador) "Paulo" Portas nos virão esclarecer. Remunerados? Quiçá...

Cena nada bíblica na Zambézia

jpt, 03.02.25

Judith_Beheading_Holofernes-Caravaggio_(c.1598-9).

Caravaggio pintou assim a bíblica decapitação de Holofernes, um fundamentalista religioso (diríamo-lo assim, hoje), um brutal iconoclasta ou idólatra, consoante os pontos de tomada de vista.
 
Após um belo fim-de-semana - que aqui narrei com detalhe -, leio a habitual enxurrada de mensagens vindas de Moçambique. Entre as quais continuo a receber filmes da recente visita do novo Presidente Chapo à Zambézia. São denotativas. Pois o partido Frelimo, para além do seu próprio aparelho, sempre usou a administração pública para mobilizar a população no acolhimento às autoridades nacionais - feriados, convocatórias aos funcionários, distribuição de benesses (roupa, comida...). Ainda assim agora - e na recepção a um novo presidente!!! - ninguém aparece. As imagens são explícitas: planos fechados, centrados em Chapo e em pequeníssimos grupos folclóricos arregimentados, grupos de militantes que não ultrapassam a dúzia de membros. É absolutamente inédito. E, simultaneamente, continuam a circular vários filmes com os monstruosos banhos de multidão que Mondlane obteve na digressão da semana passada. Tudo isto cria a sensação de uma irrealidade, quase como se peça dramatúrgica debruçada sobre uma medieval dissolução do poder, obrigatoriamente terminada em tragédia.
 
Mas não há qualquer irrealidade. Há uma real aproximação ao abismo. Isso é não só ilustrado como também gritado por uma série de filmes que recebo, mostrando detalhadamente um episódio deste último sábado. Em Morrumbala (capital distrital na Zambézia que Chapo visitou), em plena vila, a população decapitou um polícia ou miliciano, dito como autor de vários assassinatos políticos. O corpo jaz no meio da rua, a cabeça foi levada para um entroncamento central para que todos vejam. Consta que a polícia debandou.
 
As imagens mostram uma violência extrema. "Bíblica", se se quiser invocar o Antigo Testamento. Mas "contemporânea" se se quiser olhar para o mundo circundante. E será importante que estes novos políticos, que tanto parecem rezar, percebam que as rezas em excesso e a razão em falta tem sempre o mesmo resultado.

"Zé, então e como está aquilo em Moçambique?..."

jpt, 30.01.25

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(Venâncio Mondlane em Tete, julgo que ontem)

"Zé / Zezé, então e como é que está aquilo em Moçambique?...", perguntam-me diariamente amigos, agora que "as coisas" de lá se afastaram um pouco dos "escaparates" da imprensa. Substituídas por questões prementes, como a do deputado ladrão de malas - repararam como o Ventura, após o seu estupor inicial, agora aparece a reclamar-se "primeiro denunciante"?; as inanerráveis malfeitorias laborais dos bloquistas - face às quais o prévio vereador Robles surge como um simpático agente prenhe de empreendedorismo; a relativa inflexão de PNS sobre imigrantes - que põe os seus camaradas a clamar contra qualquer esforço alheio de adaptação às mundividências nacionais (a "cultura portuguesa", para se falar de modo simples) e o colunista-Expresso Raposo dispara(ta)ndo um lusotropicalismo actualizado: "para semos um V Império, que é um império-cais, onde o mundo pode atracar...", sim o homem escreveu isto; mais as demissões no núcleo governamental devido a trapalhadas privadas, recentes e actuais - mas quem escolhe estes tipos?; e, acima de tudo, o drama da "linguagem de rua" do treinador Lage. Já para não falar das minudências que ocupam os espaços mortos dos telejornais e comentários, o frenesim trumpiano, aquela maçada de Gaza, e a cansativa exigência de Putin em defender o "espaço vital" da sua Mãe Rússia, para se falar como a intelectual Mortágua...

Enfim, com tudo isto a gente distraiu-se de Moçambique. Eles também já estavam a abusar da nossa paciência, é certo... Por isso as perguntas dos meus amigos, essa repetida "Zé / Zezé, então e como é que está aquilo em Moçambique?...", até porque interrompi a saraivada de postais sobre o assunto (os quais sublinho pela sua divulgação telefónica, para aborrecimento de alguns deles, presumo). Costumo responder que talvez seja melhor ouvirem o que dizem sobre o assunto os nossos antigos ministros, reciclados em facilitadores de negócios e até administradores das grandes empresas - "não lhes escrevas os nomes", "não te metas com esses gajos", "não ganhas nada com isso", avisam-me amigos, não tão juniores assim...

Então, e para responder a esses amigos que se foram interessando pelos destinos daquela minha Não-Pátria, resumo o que sei: o candidato Venâncio Mondlane regressou ao país e anunciou três meses sem manifestações  (deu os consuetudinários "100 dias de estado de graça" ao novo governo). O partido Frelimo nomeou um novo executivo, com tantos membros oriundos do anterior poder que aparenta ser de continuidade ("uma evolução na continuidade", como diria Marcello, o original). A mortandade entre os militantes oposicionistas nas localidades - incluindo jornalistas - terá amansado, mas não abundam as investigações sobre a responsabilidade dos desmandos sanguinários dos últimos meses. Ainda assim, de quando em vez a polícia usa de violência seguindo-se represálias populares, algo significativo em especial aquando no Sul de país, antiga zona monopólio de implantação frelimista.

Entretanto, a predisposição para entabular conversações com o oposicionista Mondlane, que fora enunciada pelo novo presidente, ainda não se concretizou, e segue o poder Frelimo na sua muito habitual postura esfíngica - "índica", como muitos referem, em particular os dirigentes socialistas portugueses quando em "visitas de Estado" e que agora se arrepiam ao ouvir falar de algumas características comuns às mundividências e práticas portuguesas (mais depressa se apanha um mariola do que um paraplégico, como é consabido...). Os velhos partidos oposicionistas, Renamo e MDM, que se haviam recusado a integrar o novo parlamento estão já a arranjar as micas, dossiers e as pastas de executivo para assumirem lugares.

Nisto Venâncio Mondlane, que se autoproclamara "presidente do povo", encetou uma digressão, uma ronda de "presidências abertas", por assim dizer... Recebo imagens de uma curta visita ao Hospital Central de Maputo, causando um enorme júbilo entre os ali situados. E de gigantescos banhos de multidão em Bobole - perto de Maputo - e em Tete, a Norte. Situações que muito denotam com quem está o povo, a quem o povo apoia. Por mais que custe aos "empreendedores" lusos. E a alguns outros.

Adenda: no sábado (dia 1 de Fevereiro, às 16 horas) estarei na biblioteca municipal de Setúbal, instituição que teve a gentileza de me convidar para falar sobre o meu livro "Torna-Viagem". E, quem sabe, pois dependendo do interesse dos que comparecerem, depois de tentar impingir a colecção de crónicas (2/3 das quais decorrem naquele país) poder-se-á falar um pouco sobre "como está aquilo em Moçambique". Se algum dos leitores do Delito de Opinião estiver nas cercanias será um prazer vê-lo por lá.

Portas e Moçambique

jpt, 20.01.25

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Desde há já bastante tempo que vou vendo, não sempre mas habitualmente, a coluna dominical de Paulo Portas no telejornal da TVI. Portas fala bem, prepara-se, e está informado sobre as coisas do mundo - sai do rame-rame da politicazinha portuguesa, das cercanias dos "Passos Perdidos", e aborda com consistência (apesar da brevidade do programa) temas excêntricos às ladainhas dominantes no abundante "clube de comentadores". Para além de que pessoa que me é muito querida ter sido recentemente sua aluna e me ter confidenciado que o homem é um excelente professor, o que me reforçou a atenção. Ainda para mais porque este ofício de "comentador generalista" é a actual sequela, por paupérrima que seja, da velha figura do "intelectual público", pelo que convém ir sabendo o que os seus oficiais - os poucos melhores e os muitos piores - impingem aos incautos... Enfim, adiante,
 
ontem vi a sua apresentação. E desatei-me a rir, sozinho, ao ouvi-lo falar de Moçambique, país que o ex-ministro bem conhece. Pois na sua apologia ao poder agora empossado, Portas anunciou-nos que o novo governo nada tem a ver com o poder anterior... Eu não sou politólogo, daqueles que têm conhecimentos "etnográficos" sobre os "campos políticos" locais, sabedores enciclopédicos do "quem é quem", verdadeiros "coleccionadores de borboletas" e especialistas em previsões de teias urdidas e rompidas. Sou apenas um tipo que usa a rede "Whatsapp", que tem o telefone carregado de mensagens a darem conta das imensas continuidades, pessoais e colectivas, políticas entenda-se, normais que sejam, entre o governo moçambicano anterior e o actual.
 
E interrogo-me, mero telefone na mão, sobre a razão que leva Portas a fazer tal apologia. Tal como a faz Miguel Relvas. Ou Martins da Cruz (outro comentador, ao qual os locutores não tratam pelo primeiro nome - como agora é hábito pateta - mas sempre com as mesuras sacralizadoras do "Senhor Embaixador"...). Porque farão estes tipos, e alguns outros, tais apologias ao status quo de Moçambique. É que muitos resmungam diante da cumplicidade (arteriosclerosada) do PCP e do silêncio camarada do PS (no qual ainda há quem pense enviar António Vitorino para Belém..). E há até quem proteste com a atrapalhação de Rangel ou a diletante pressa de Montenegro diante de Moçambique. Mas ninguém se pergunta da razão que leva estes "intelectuais públicos" de "direita" a opinar deste modo sobre o país nosso aliado...
 
Faço uma proposta àqueles que são sensíveis às argumentações destes ex-ministros sobre Moçambique - até por sua simpatia para com discursos oriundos deste sector direitista da opinião política. Jaime Nogueira Pinto é uma homem da "direita profunda". E é, nas suas características próprias e respectiva mundividência, um verdadeiro "intelectual público". E conhece muito bem - muitíssimo, diria eu - Moçambique e os seus intervenientes políticos. E acaba de publicar sobre aquele país este artigo: "Moçambique: no limite do desespero".
 
Ou seja, bem desejo que os meus compatriotas que se querem informar sobre Moçambique, e que tendem para o lado destro, leiam este Nogueira Pinto. E mudem de canal televisivo quando os outros começarem a perorar, seguindo eles razões que a (boa) razão desconhece...

Na Tomada de Posse de Chapo

jpt, 15.01.25

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1. Quando vivia em Moçambique escrevia no blog ma-schamba. Ali não falávamos de política nacional - era um colectivo de estrangeiros. Mas às vezes resmungava com os dislates da imprensa portuguesa sobre o país. Voltando a Portugal, de vez em quando vou escrevendo sobre o país e seus rumos - principalmente no mais lido Delito De Opinião. Porque gosto de Moçambique; porque julgo que pouco dele se fala na imprensa (e na academia); porque muito me irritam alguns disparates que, ainda assim, vão saindo sobre o passado e o presente (sim, estou a pensar no "Público" mas não só. Por exemplo, agora será um "caso de estudo" o que se passa - e porquê - na SIC Notícias). Decerto que por isso neste - tardio - acordar da imprensa sobre a situação (estrutural) de Moçambique, dois ou três jornalistas amigos "sopraram" o meu nome às redacções para que apareça eu a "comentar". E lá fui eu, algumas vezes. Ora se o escrever me é normal, já o "aparecer" é coisa excêntrica. Face a isto os amigos próximos riem-se, com algum piedoso carinho: pois me sabem mais dado ao culto da rusticidade, e este meu rumo de mimalho narcísico desilude-os um pouco. Por isso sinto necessidade de me justificar diante deles, lembrando-lhes a minha condição de já sexagenário. Assim alquebrado.
 
2. Nesse rumo fui gentilmente convidado para hoje comentar na RTP3 o discurso de empossamento de Daniel Chapo. Logo após recebi uma simpática mensagem de uma amiga distante de Maputo - a qual, pelo que dela conheço, presumo não seja uma venancista. Enviou-me a foto com uma legenda, a qual sumarizo nos meus mais deselegantes termos por um "não borregaste". O que me alivia pois não quero ali tomar "partidos" - mas sim partido, por um melhor país!
 
O que disse é simples de resumir: há hipóteses de diálogo, e Chapo vem dando indícios de ter essa capaz disponibilidade. E que o discurso foi bom, apaziguador, e apresentando um ror de intuitos desenvolvimentistas (ainda que nós saibamos que "de boas intenções estão os Panteões Nacionais cheios").
 
Logo vários amigos me "mensajaram" a sua descrença na hipótese de diálogo Chapo/Frelimo-Mondlane. Então explico-me: para além da obrigatoriedade pragmática desse apaziguamento dialogante há outros dois factores. Por um lado, o discurso de Chapo (que ainda não li apesar de o ter recebido no momento exacto do seu término) tem grande similitude com o programa de Mondlane. Ou seja, coincidem no diagnóstico da situação do país ("dialogam" sobre isso, se assim se quiser). Poderão discordar das formas executivas tendentes às reformas, mas isso é a jusante.
 
Por outro lado, há algo que só depois vi. Quando Mondlane se rebelou contra (mais) esta fraude eleitoral, vários intelectuais alcochoados com a cleptocracia vigente se insurgiram contra o evangelismo público (e propagandeado) do candidato. Ora acabo de ver um filme oficial da candidatura de Chapo, no qual surge ele imediatamente antes do empossamento, ajoelhado em profunda oração, acompanhado da sua mulher, e invocando a iluminação divina para os seus actos. Ou seja, os dois políticos partilham este cristianismo político, um liame dialogante com toda a certeza, mesmo que pertençam a congregações evangélicas diferentes.
 
E isto, a ascensão de um presidente do Frelimo que explicita a sua devoção pela iluminação do deus cristão, significará algo muito relevante. A velha Frelimo, o partido vanguarda Frelimo, de inspiração m-l e com laivos maoístas - que ainda habita nas saudosas memórias da "velha guarda" marxista e de alguns desses intelectuais - já desapareceu há muito, é consabido. E talvez surja agora como uma "democracia-cristã", ecuménica no seu trans-catolicismo e abertura coabitante ao islamismo. Acompanhando dinâmicas no continente. E por mais que isso me seja distante, ateu e adepto da laicidade (algo que muito ultrapassa a mera religião), também o prefiro aos guevarismos folclóricos e aos tétricos brejnevismos.
 
3. A população, em particular a apoiante de Mondlane, exige melhores condições de vida, menos corrupção, mais desenvolvimento e maior democratização. Esta última implica que os políticos - os que estão no poder e os que a isso aspiram - são não só criticáveis como são (devem ser) criticados. Mondlane ontem atacou o MNE português de forma desabrida. Causou a Rangel um enorme rombo no seu capital político pessoal - ele terá de deitar borda fora todo o seu lastro para se manter à tona de água. Pois deixou que a relação com um importante interveniente de um aliado fundamental chegasse a um ponto destes, descurou-se.
 
Mas Mondlane esteve péssimo. Rangel não fez campanha em Moçambique, não urdia conspirações contra a oposição, não financiou o partido oponente, não fez qualquer ingerência. Terá tido ritmos e tons menos felizes sobre a situação moçambicana. Mas se Mondlane disso discorda então contesta o governo português, critica-o, em público se considerar necessário. Mas se tem apenas problemas com o nosso ministro, fala com o nosso embaixador, pede para que ele transmita o seu desconforto, desagrado, ao ministro em causa, ao seu PM, até mesmo ao PR. Agora um ataque pessoal, uma critica ao seu desempenho político, em tom desabrido, em público? Foi completamente descalibrado. Foi uma agressão ao governo português, até mesmo a este Estado aliado. Mondlane quer ser estadista? Seja-o, já. E nunca assim.
 
Muitos não concordarão comigo. Considerando "Venâncio" intocável. Apodando-me de "xicolono". Mas é mesmo isto o que eu penso: Rangel esteve muito mal neste processo, o seu SENEC é inexistente, o que é péssimo. Mas isso são problemas nossos, portugueses. E Mondlane esteve muito pior. Mas isso é um problema deles, moçambicanos.
 
4. Enfim, presumo que terminada a minha tournée televisiva pois quero crer / desejo que amainada esteja a situação moçambicana, lembro os amigos que hoje irei - já não em registo narcísico mas apenas conversacional - à Radio Observador, ao programa Convidado Extra. Irei falar do meu livro "Torna-Viagem", e andanças concomitantes. Com o explícito objectivo de seduzir algum(ns) hipotético(s) leitor(es). Aduzo que amigos (e não só) compraram o livro, alguns até o leram. E entre estes houve quem tivesse gostado...
 
A entrevista radiofónica é transmitida às 20 horas mas ficará aqui disponível na página do programa . E o livro "Torna-Viagem" - o tal carregado de crónicas em Moçambique - só se compra encomendando-o na página da plataforma digital: https://publishpt.bookmundo.com/books/366121

O Fim de Rangel

jpt, 14.01.25

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Um amigo jornalista telefona-me em alvoroço, "já ouviste o Venâncio Mondlane?, arrasa o Rangel...!". E manda-me a ligação à curta "live" (como se diz no Facebook) do homem. Cinco minutos de Mondlane, hoje. O homem pode não derrubar o poder em Moçambique. Mas conseguiu destruir Rangel, de uma forma nunca vista e inaudita nestas coisas das relações externas. Isto dirá qualquer português, independentemente das suas simpatias partidárias. (A partir dos 3'45'' do filme). (Tem já notícia no "Observador").
 
Mas tenha-se em atenção um nada detalhe. Qualquer pessoa que tenha alguma atenção às relações entre Portugal e Moçambique, ao ouvir o terrível ditirambo de Mondlane contra Rangel perceberá uma facto crucial: o governo português nomeou este Nuno Sampaio (o da fotografia) para Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação. E ele inexiste. E assim Rangel, distraído (e petulante) ardeu.

Ontem em Moçambique

jpt, 14.01.25

Imagens de ontem da Deutsche Welle de Moçambique. Em Maputo a senhora insurge-se, em desespero, contra a polícia, esse último bastião repressor. Será ela uma "vândala", como se dizia até há pouco? Será ela uma descrente na inovadora oposição parlamentar do Podemos, como alguma intelectualidade surge a afiançar? Será uma "inimiga do povo", como dirão os "camaradas" de cá, lacaia do capitalismo? Ou apenas uma "alienada", desconhecedora dos seus "direitos inalienáveis"? Ou uma fervorosa "bolsonarista", como os enfeudados resumem?
 
Ontem mesmo, segundo a ong de observação eleitoral DECIDE, mais seis mortos em confrontos com a polícia em Moçambique, 3 na província de Inhambane, outros 3 na Zambézia.
 
Que amanhã o nosso servidor a quem emprestámos um gabinete no Palácio das Necessidades tenha isso em atenção. E que fale devagar, após sete voltas à boca com a língua, fingindo-se sábio.

Moçambique: a maldição dos recursos humanos

jpt, 03.01.25

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(Estrada Dondo-Inhaminga, Agosto 1999)
 
(Recebi um amável convite para publicar um texto sobre Moçambique na coluna "Oficina da Liberdade" no jornal "Observador". Como não é de acesso livre deixo-o aqui, em versão ligeiramente retocada. A fotografia que escolho para encimar o postal tem um sentido e um sentimento. O sentido é este: continuo a acreditar que para os portugueses perceberem aquele país é preciso que alguém ponha as botas no matope. O sentimento é este: tenho saudades de pôr as botas no matope). 
 
1. Moçambique está em agonia desde as eleições legislativas, presidenciais e provinciais de 9 de Outubro. Este processo não é inesperado, dada a evidente gangrena do regime. Em Portugal acolhido pela usual distracção, na qual coabita o desinteresse pelas “coisas de África” - vistas como “imutáveis” - com o seguidismo aos regimes vigentes, por via de um dito “interesse estratégico” nacional. Mas a continuada repressão – que causou já mais de 250 mortos entre oposicionistas - trouxe uma recente azáfama na imprensa.
 
Assim, escapo ao actual imediato, recuando em busca de uma visão mais abrangente. Afastada da ideia demasiado “poética” que por cá se tem do país, tão visto como “a Pérola do Índico” - o velho cognome de Lourenço Marques/Maputo que se alastrou ao território nacional –, maculada apenas pelas cíclicas calamidades naturais. Imagem advinda das plácidas memórias colonas, imunes que estiveram – ao invés dos seus congéneres no restante ultramar continental – às agruras das guerras coloniais, pois lá circunscritas em áreas recônditas. E também ao sucesso actual de uma literatura “leve” moçambicana, a qual anima estereótipos sobre aquelas populações, suas mundividências e ambições.