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Delito de Opinião

Água radioactiva e velocidade no asfalto

Pedro Correia, 12.08.21

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O ministro do Ambiente soltou esta semana um grito dolorido. É tempo, diz ele, de parar com a produção global de combustíveis fósseis que vai colocando o planeta à beira da catástrofe ecológica. «Mais do que salvar o planeta é salvar-nos a nós próprios como espécie. Nós de facto não conseguimos suportar este aumento de temperatura. A economia tem de crescer de forma completamente diferente e com investimentos que sejam focados na sustentabilidade», declarou o governante, notoriamente alarmado. 

Fui conferir. Matos Fernandes ocupa há seis anos consecutivos a pasta governativa, desde 2018 crismada com o pomposo título de Ministério do Ambiente e da Transição Energética - obedecendo ao péssimo hábito, há muito vigente em Portugal, de alterar constantemente designações para disfarçar a total incapacidade de fazer reformas. 

«Isto não vai lá sem o esforço de todos”, adverte Matos Fernandes, como se fosse um recém-chegado. Afinal prestes a entrar no sétimo ano de funções no Executivo socialista que tanto se orgulha de proclamações retóricas com alvos de longo prazo. Como esta: «Portugal foi o primeiro país no mundo a afirmar o compromisso da neutralidade carbónica em 2050.»

Merecia medalha de ouro se fosse modalidade olímpica.

 

Mas o que nos recomenda já hoje, não para 2050, Sua Excelência, auscultado pela Lusa? «Deixar de usar combustíveis fósseis, plástico de uso simples, o petróleo, reduzir muito as embalagens, beber água da torneira, utilizar os transportes públicos.»

Azar do ministro que gosta de escrever cartinhas à «querida Greta» para receber um aceno de aprovação da activista sueca. Horas depois de fazer tão sábias declarações ao país, ficávamos todos a saber, através de notícia divulgada no Jornal de Negócios, que a era do gás natural barato chega ao fim, havendo expectativa de subida dos preços na ordem dos mil por cento. 

«Com o aumento dos preços do gás natural será mais caro abastecer fábricas ou produzir petroquímicos, atingindo todos os cantos da economia global e reforçando os receios de inflação. Para consumidores, o custo será reflectido nas contas mensais de energia e gás. Vai ser mais caro usar uma máquina de lavar, tomar um banho quente ou preparar o jantar», esclarece o jornal. 

Isto não augura nada de bom. Resta-nos beber muita água da torneira e utilizar os transportes públicos, seguindo a recomendação de Matos Fernandes, que há menos de um mês viu a Comissão Europeia accionar Portugal por alegado incumprimento de regras sobre o controlo da presença de substâncias radioactivas na água potável engarrafada que podem causar sérios danos à saúde pública. O mesmo ministro que há poucas semanas foi apanhado a voar baixinho numa auto-estrada e numa estrada nacional, transgredindo largamente os limites de velocidade impostos ao cidadão comum pelo Governo a que pertence. Como se acelerar no asfalto não aumentasse as emissões poluentes que tanto o assustam. 

A "querida Greta" certamente não iria gostar.

Apanhado em excesso de velocidade

João Matos Fernandes

Pedro Correia, 28.07.21

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Bem pode o Governo lançar cem campanhas de prevenção rodoviária: o comportamento de alguns dos seus membros persiste em condená-las ao insucesso. Conduzir ou ser conduzido de pé na tábua continua a ser uma espécie de vício nacional num país que já perdeu tanta gente famosa por morte prematura no asfalto. Ministros como Duarte Pacheco e Mário Firmino Miguel, actores como Angélico Vieira e Francisco Adam, cantores como Carlos Paião e Sara Carreira.

O pior é que ninguém parece aprender as devidas lições com o infortúnio dos outros. E o mau exemplo, nesta matéria, vem de cima. Há pouco mais de um mês, a 18 de Junho, a viatura oficial que transportava o ministro Eduardo Cabrita atropelou na A6 um cidadão chamado Nuno Santos, que fazia trabalhos de reparação e limpeza na berma da auto-estrada. Ignora-se ainda a velocidade a que seguia a viatura, mas não custa presumir que seguia em transgressão pelo simples facto de não haver marcas de travagem na via transformada em pista.

Um trabalhador morto por suposta incúria de condução alheia. Mais um, a pesar nas estatísticas. Devia servir de travão a novos excessos na estrada. Mas parece que não: a volúpia da velocidade permanece incólume. Apetece perguntar: tanta pressa para quê?

Escassos 17 dias após a trágica morte de Nuno Santos, outro automóvel com ministro a bordo teve destaque noticioso. Felizmente desta vez sem consequências funestas. Mérito de uma equipa de reportagem da TVI, que registou a ocorrência: a 5 de Julho, João Matos Fernandes foi transportado a 160 quilómetros por hora numa estrada nacional e a 200 quilómetros numa auto-estrada – neste caso a A2, bastante mais movimentada do que a A6.

Péssimo exemplo, a vários títulos. O limite de velocidade em auto-estrada está fixado em 120 km/hora. Quanto mais se acelera mais as emissões poluentes aumentam, comportamento duplamente censurável tratando-se do titular da pasta do Ambiente. Além disso o sentimento de impunidade favorece o pior dos populismos. E reforça a sensação de que existe uma casta de dirigentes a quem tudo é permitido.

Pior ainda é o jogo de passa-culpas em que João Matos Fernandes, imitando o seu colega da Administração Interna, logo se enredou: “Não era eu que conduzia e não me apercebi do que estava a acontecer”, declarou já esta semana, após um período de silêncio. É certo que acrescentou: “Isso não me desresponsabiliza em nada.” Mas a escolha da frase inicial certamente não resultou do acaso. Qualquer português sentiria a tentação de fazer o mesmo.

A questão é que a um membro do Executivo se exige muito mais. Por imperativo de cidadania e em nome da ética da responsabilidade. Noutros tempos, com outro critério, António Costa advertiu antes de exonerar um ministro: “Nem à mesa do café podem deixar de lembrar-se que são membros do Governo.”

Isto num país que registou 6880 vítimas mortais em desastres rodoviários na última década. Razão suficiente para tirar o pé do acelerador.

 

Texto publicado no semanário Novo

Todo um padrão

Pedro Correia, 20.07.21

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Desta vez, felizmente, não houve atropelamentos. Mas não deixou de haver passa-culpas ministerial: é todo um padrão do Governo Costa.

Apanhado pela TVI em evidente transgressão dos limites legais de velocidade enquanto se deslocava na viatura oficial, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, acaba de produzir esta extraordinária declaração: «Não era eu que ia a conduzir e não me apercebi do que estava a acontecer.»

Faz lembrar o miúdo queixinhas da escola primária, pronto a apontar o dedo aos outros meninos. Como se alguém acreditasse que o condutor do ministro fosse de pé na tábua - a 160 km à hora na estrada nacional e a 200 km na A2 - por livre iniciativa, sem consentimento do chefe máximo. 

Agora diz-nos também que já recomendou ao motorista para não voltar a ultrapassar o limite de velocidade, garantindo que isso não irá repetir-se. Deve ser isto que alguns consideram "ética republicana": é preciso ser apanhado em transgressão para jurar que a partir de agora irá cumprir a lei.

Que belo exemplo de cidadania num país onde, entre 2011 e 2020, se registaram 5072 vítimas mortais em desastres rodoviários. Nem o trágico atropelamento do cidadão Nuno Santos a 18 de Junho pela viatura oficial em que seguia o ministro Eduardo Cabrita serviu de lição aos seus colegas de Governo. 

Todo um padrão nisto também.

Ópera e troika

jpt, 22.06.19

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(Fotografia de Nuno Botelho, publicada no Expresso)

Não será difícil, a não ser por mero clubismo, discordar que a actual ministra da Cultura - a terceira da legislatura, o que demonstra algum desatino governamental no sector - não deixará grande memória. Pois o que veio dizendo não impressiona: desde fazer-se ministra da civilização, a propósito das touradas, a sarcasmar sobre a imprensa portuguesa (aqui), talvez um mero deslize mas a mostrar-se altaneira, até lapsos geográficos pouco casáveis com o cargo que ocupa, a imagem criada é frágil. É certo que essas declarações, descalibradas, não obrigam a que seja desprovida de virtudes executivas. Mas ... leio agora que o São Carlos está desafinado. Ou melhor, desorquestrado. Ou seja, desnorteado.

Nisto da cultura, e de forma grosseira, costumam-se dividir os locutores: os da "direita" (o ex-"centro") reclamam que cumpre ao Estado preservar o "património" existente e não o financiamento da actual produção artística, coisa a ser entregue ao mundo privado/empresarial. E fazem-no com tanto arreganho, fiéis ao fetiche do mercado, que não vale a pena dizer-lhe que as pirâmides egípcias, o tecto da Capela Sistina, o Partenon, e imortalidades dessas foram obras contemporâneas pagas pelos Estados. Os quais, já agora, durante estes últimos três milénios foram também pagando imensíssimas obras (à época contemporâneas) das quais pouco ou nada reza a História. Repito, não vale a pena dizer-lhes isso, falar com os idólatras é tão inconsequente como resmungar com os peixes.

Os locutores da "esquerda" (parte substancial da qual em tempos se chamou "corporativismo") são menos atreitos à preservação do "património" - em especial se de origem religiosa - e cultuam a "contemporaneidade", o seu financiamento, uma idolatria como outra qualquer: por exemplo o Estado deve lautamente financiar exposições itinerantes lusófonas mostrando bidés ou urinóis 90 anos depois de Duchamp, mas será quase-crime fazer rodar plácidos paisagistas ou retratistas 100 anos depois de Silva Porto ou Columbano. 

O interessante é que a ópera - e, em sentido mais amplo, aquilo a que à falta de melhor termo é comum chamar "música clássica" - poderia ser o ponto de confluência desses dois eixos de (des)entendimento: é "património" edificado e é "contemporânea", até pelas dimensões de recriação, mais ou menos controladas pelo cânone. Algo que poderia ser reforçado por aquela costela iluminista da "esquerda", transmitir ao "povo" as grandes obras da cultura desalienante.  Enfim, aquilo da "civilização" a que a ministra se dedica, pelo menos no combate às touradas.

Ainda assim acaba a legislatura com o Teatro Nacional de São Carlos neste estado, uma direcção inoperante, um conflito generalizado, planificação inexistente. A culpa deve ser da "troika".

Parolismo

jpt, 20.04.19

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Apesar de ser Páscoa talvez alguém que viva em Portugal me possa explicar como é que, a ser verdade que a "Administração do Sistema de Saúde "limpou" doentes das listas de espera para consultas, numa altura em que era presidida pela atual ministra, e foram usados indevidamente mecanismos para alterar datas de inscrição de utentes para cirurgia", conforme o inscrito num relatório de avaliação de um grupo técnico independente nomeado pelo  governo, o qual esteve seis meses sem ser divulgado, a actual ministra ainda está em funções. 

Ou será que, segundo o paradigma de cientista Augusto Santos Silva, é parolo perguntar uma coisa destas?

A ministra da Saúde e os criminosos

jpt, 17.12.18

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(Entrevista ao Diário de Notícias: transcrição e excertos em filme. Para quem tenha dúvidas ou queira aludir a uma hipotética descontextualização, este trecho em rodapé aparece no oitavo filme apresentado)

 

Quem me está próximo preocupa-se por eu falar sozinho, aparente sinal de senilidade, óbvio marcador de maluquice. "Não te preocupes", vou adiantando, "sempre falei", o que não sei se sossegará alguém. Não sabe, passará agora a saber, se isto ler, que muitas vezes, não sempre mas muitas vezes, nisso falo com o meu pai. Ontem à noite conversei com ele sobre isto, esta ministra da Saúde PS que considera os sindicalistas renitentes como "criminosos, infractores". "Pai, viste esta tipa, então o Partido apoia isto?" e ele, que foi comunista até à morte, daqueles cunhalistas "sem qualquer culto de personalidade", a menear a cabeça, com ar até amargurado, e eu sarcástico "isto já parece lá a vossa União Soviética, para estes gajos um dia destes nem haverá direito à greve", e ele a repreender-me "deixa-te de coisas". E eu, qual adolescente implacável, "eu deixo, mas vocês é que são a geringonça, a esquerda, a apoiarem esta tipa". Ele escorropichou o seu, sempre frugalíssimo, cálice de genebra (ou seria rum?), levantou-se e praguejou, à sua maneira, "patifes!". E culminou "isto tem que acabar" antes do seu "boa noite, vou-me deitar". Eu sorri, servi-me com abundância do rum (ou seria genebra?) e fiquei até a desoras a ver o "trio de ataque", o Oliveira, o Gobern e um rapaz de melena arisca que "representa" o Sporting. Pois antes estes que tal ministra geringôncica. Depois, antes de me deitar, ao espelho lavando os dentes, surpreendi-me a falar sozinho, "criminosos? infractores? os sindicalistas? ... estes gajos perderam completamente a noção". Nisso a minha mãe assomou ao corredor, preocupada, "Zé vai-te deitar, já é tardíssimo e estás para aí a falar sozinho", e eu que "tá bem, mãe, já estou a ir", e ela sorri-me "vai, que já bem me basta o teu pai que não me deixa dormir, ali a falar mal do governo".

 

 

O Raposão, com a ministra no México

jpt, 27.11.18

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(Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos)

 

Foi-se a ministra, orgulhosamente lesbiana, a Guadalajara, decerto que com adido à ilharga – mas não a Cuernavaca com o necessário Cônsul, estou disso certo – e por lá resmungou algo, sobranceira a portugueses, Portugal e seus jornalistas e jornaleiros. Entretanto, cá longe, noutro “lá fora”, ando eu a reler, 35 anos depois, o “Relíquia”. Eça não é, diz quem sabe, o Zola, o Balzac, muito menos o Flaubert, mas é o que temos, e ainda que me solavanque o encanto – tetrali o “Os Maias” por causa do filme de João Botelho, e disso me apercebi, já nada adolescente ou vinteanista, franzindo o meu cenho ao traço grosso da caricatura que escorrega daquele Ega – continua uma delícia.

 

Enfim, perorava a ministra lá em Guadalajara quando o Raposão, o bom do Teodorico, me aportou a Alexandria, naquela sua ímpia, pois humana, peregrinação à então Terra Santa. Logo se acolheu ao afamado e recomendado “Hotel das Pirâmides”, deparando-se com um patrício (onde é que não há um português?), “moço de bagagens e triste“, ali algo desvalido dados os infortúnios de amores e impensares, o Alpedrinha, figura ímpar do panteão queiroziano, mais que não seja por aquela sua sábia e monumental saída, que em mim habitava sem lhe recordar a autoria (“Tu já estiveste em Jerusálem, Alpedrinha?“, perguntou-lhe o Teodorico, “Não senhor, mas sei … Pior que Braga, algo que talvez tenha acicatado aquele Luiz Pacheco). Chegava-se pois, no mesmo fim-de-semana da ministra no México, o bom do Teodorico às terras da Esfinge e, lá de tão longe, responde à sáfica governante: “E se o cavalheiro trouxesse por aí algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a política.”, atreveu-se o Alpedrinha. “Concedi-lhe generosamente todos os “Jornais de Notícias” que embrulhavam os meus botins“, logo concedeu o malandrote.

Isto nem em Cuernavaca lá iria. Quanto mais em Guadalajara.

A condessa de Abranhos.

Luís Menezes Leitão, 07.11.18


Depois destas declarações da Ministra da Cultura, a prometer que o Museu de Évora vai "tornando-se no primeiro Museu Nacional a sul do Sado", só me apetece recordar a célebre personagem ministerial criada por Eça de Queiroz:

"Outra circunstância que torna mais admiráveis esses serviços, é o facto do Conde – tendo dado todo o seu tempo ao estudo das questões sociais – jamais se ter ocupado do conhecimento subalterno da geografia. Segundo ele dizia, nunca pudera reter todos esses nomes esquisitos e bárbaros de rios, cordilheiras, vulcões, cabos, istmos! Assim, por exemplo, nunca compreendeu, confessou-mo muitas vezes, esses cálculos estranhos de graus, latitudes e longitudes, nem dava grande crédito à ciência da navegação (…).

Uma ocasião, na Câmara, ele falava de Moçambique como se considerasse essa nossa possessão na costa ocidental da África.

Alguns deputados mais miudamente instruídos desses detalhes, gritaram-lhe com furor.

– Moçambique é na costa oriental, Sr. Ministro da Marinha!

A réplica do Conde é genial:

– Que fique na costa ocidental ou na costa oriental, nada tira a que seja verdadeira a doutrina que estabeleço. Os regulamentos não mudam com as latitudes!

Esta réplica vem mais uma vez provar que o Conde se ocupava sobretudo de ideias gerais, dignas do seu grande espírito, e não se demorava nessa verificação microscópica de detalhes práticos, que preocupam os espíritos subalternos".

EÇA DE QUEIROZ, O Conde de Abranhos.


Ministros demitidos enquanto aprovavam orçamento.

Luís Menezes Leitão, 20.10.18

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Para mim, isto é demasiado baixo para constituir sequer falta de sentido de Estado. Representa pura e simplesmente deslealdade e grosseria para com pessoas que, bem ou mal, estavam a exercer com sacrifício um cargo público.

 

Adenda: Este se calhar aparece agora a dizer isto tão rapidamente porque tem medo de ser também demitido sem o saber.

Quando o silêncio e o discernimento valem mais do que o ouro

Diogo Noivo, 19.03.16

Esta manhã tinha no telemóvel uma mensagem de um amigo espanhol. O tom era jocoso e amigável, mas nas entrelinhas percebia-se que despontava aquele patriotismo do ¡Viva España! ¡Viva el Rey!. A mensagem resumia-se a um link de uma notícia do El País, acompanhado pela frase “pode ser que os postos da Galp em Espanha se lixem” (bom, não era exactamente “lixem”, mas a palavra que aqui uso serve perfeitamente para capturar o espírito da mensagem original).

Abri o link e a notícia era “A los patriotas se les identifica por la gasolinera – El ministro portugués de Economía, Manuel Caldeira Cabral, ha apelado al patriotismo de los conductores para que llenen los depósitos de sus vehículos en gasolineras del país, y no en las vecinas españolas.”

Se falta fizesse, fica mais uma vez demonstrado que aquilo que se diz em Portugal é lido no estrangeiro e, dessa forma, tem o potencial para afectar a imagem e a credibilidade do país lá fora. Resta agora esperar que os espanhóis continuem a adoptar a postura que sempre tiveram ao longo das últimas décadas – a de ignorar olimpicamente a política portuguesa – porque caso contrário alguns interesses económicos lusos em Espanha poderão sofrer as consequências do brilhantismo de S. Exa. o Ministro da Economia.

É pena que o "Tempo Novo" seja tão recente

Rui Rocha, 12.03.16

Se fosse mais antigo, alguém com juízo teria aconselhado o Ministro Caldeira Cabral a fazer o Doutoramento na Covilhã. Mas claro, como não havia "Tempo Novo" em 2004, Caldeira Cabral acabou por fazê-lo em Nottingham. Nem quero pensar na quantidade de impostos que se perderam em Portugal só pelo facto de este compatriota, distraído ou mal aconselhado, ter acabado por fazer uma escolha tão pouco solidária.

Perfeitamente ridículo.

Luís Menezes Leitão, 30.10.14

 Acho tão ridícula esta história de o MInistro da Defesa andar a dizer que andamos a "interceptar aviões militares russos" como o foi há cem anos a captura dos navios alemães que estavam pacificamente no porto de Lisboa. O problema é que é com estas bravatas que nós nos metemos em guerras a que somos totalmente alheios. Por isso, preparemo-nos para cantar: "Contra os russos, marchar, marchar".

A guerra contra o Estado islâmico.

Luís Menezes Leitão, 29.09.14

 

Uma das análises mais correctas sobre o que se estava a passar no mundo resulta de um livro de Samuel P. Huntington, de 1996, intitulado The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order. Nesse livro demonstra claramente como se estava a formar uma nova ordem mundial para o séc. XXI e que nessa nova ordem um dos factores mais decisivos era o Ressurgimento Islâmico. A seu ver a civilização islâmica estava a tornar-se cada vez mais influente a nível mundial, não apenas pela sua maior capacidade de conversão de novos crentes, mas ainda pelo maior crescimento demográfico das suas populações.

 

Para Huntington a influência mundial da civilização islâmica só não era maior porque o islamismo radical não tinha um Estado religioso forte que pudesse servir de sustentáculo às suas pretensões. A esmagadora maioria dos Estados árabes não apoiava uma versão radical do islamismo, preferindo estar de bem com o Ocidente, e a única excepção, o Irão, baseava-se na corrente xiita do Islão, minoritária em face dos sunitas, o que levava a que não fosse seguido pelos militantes islâmicos radicais.

 

Por isso o Ocidente ficou descansado com o aumento da influência islâmica no mundo, uma vez que as guerras eram travadas entre os próprios Estadoa arábes, ainda que o ataque ao Kuwait tenha pela primeira vez obrigado a uma intervenção, dado que pôs em causa os interesses ocidentais. Mas Bush pai teve a inteligência de deixar Saddam Hussein no poder, uma vez que bem sabia que o seu derrube só serviria para aumentar a influência do Irão e dos movimentos islâmicos radicais na região.

 

Bush filho, com uma inteligência rudimentar, e movido por uma questão pessoal, quis derrubar Saddam Hussein, seguindo a estratégia de iluminados como Wolfowitz que achava que o Iraque tinha que ser conquistado, uma vez que "nadava num mar de petróleo". Consta que terá respondido o seguinte a quem o interrogava como é que depois os americanos sairiam do Iraque: "É simples. Não saímos". Nessa estratégia teve o apoio ainda mais desastrado de Blair, Asnar e do nosso Durão Barroso, que juntos criaram um enorme sarilho.

 

Obama, que é inteligente e tinha a vantagem de se ter oposto desde o início a este disparate, não conseguiu, porém, ver que Wolfowitz tinha razão num ponto: é que depois de se ter entrado no Iraque já não era possível sair de lá. A saída dos EUA do Iraque, associada a um apoio às primaveras nos outros países arábes, foi um campo fértil para os militantes islâmicos radicais, que conseguiram nos territórios sírios e iraquianos aquilo que desde sempre ambicionavam: a reconstrução do califado. Ora, esse Estado islâmico vai ser seguido pelos militantes radicais de todo o mundo e pode ter um sucesso muito mais rápido que o califado original, cujos exércitos chegaram em 80 anos desde a península arábica em 632 até Poitiers em 711. E esse Estado todos os dias proclama o seu ódio aos ocidentais, como se vê pelas execuções que sistematicamente são exibidas.

 

É manifesto, por isso, que o Ocidente está a ser constantemente desafiado para a guerra, só que já não tem coragem de mandar tropas para o terreno e os ataques aéreos podem fazer mossa, mas não alterarão a situação. Quanto a Portugal, é o ridículo de sempre. Mal li aqui que o Ministro da Defesa afirmava que Portugal vai participar na coligação contra o Estado islâmico, julguei que se estava a planear uma cruzada, ao velho estilo do "Por El-Rey e São Jorge aos Mouros!". Mas afinal o Ministro explicou que "a seu momento se verá" de que forma Portugal participará, tendo em conta que a colaboração pode acontecer de várias formas, designadamente através "de treino, de inteligência, de formação" ou humanitária. Quanto a tropas no terreno, cruzes canhoto. Está visto assim que o Ocidente não vai ter a mínima hipótese de ganhar esta guerra.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 16.09.14

«A ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues ficou chocada por ter sido condenada a três anos e seis meses de prisão, com pena suspensa. Chocados ficamos todos nós por a dita senhora esbanjar dinheiro público a bel-prazer. Deu o trabalho de fazer uma base de dados legislativa a um amigo porque não tinha juristas. E não sabia o essencial do contrato, como o pagamento, ou se devia fazer concurso. Não tratava "dessas coisas", disse. O que pensará a senhora do que é governar? Não tem noção da ilicitude nem quer ter. Como outros do seu governo, pensa só que não se aplica a ela. Foi com gente desta que caímos no buraco em que estamos.»

Eduardo Dâmaso, no Correio da Manhã

A antítese do Álvaro

Sérgio de Almeida Correia, 02.08.11

Não ficaria de bem com a minha consciência se depois do que antes escrevi sobre o que hoje se passou no parlamento com o ministro Álvaro Santos Pereira, não dissesse aqui o quanto apreciei as intervenções da semana passada do ministro Nuno Crato. Só por absoluta falta de tempo não o sublinhei mais cedo. Não só pelo estilo, mas também por não ter fugido às questões e ter logo pegado na matéria da avaliação "pelos cornos", propondo um modelo que, na minha perspectiva, tem tudo para poder funcionar (já sei que o senhor Nogueira não concorda, mas ainda está para nascer o primeiro ministro da Educação com quem ele concorde).

O ministro da Economia e etc. e tal devia pôr os olhos no seu colega de Governo. Aprender com outro catedrático, e mais velho, não deverá ser desprestigiante.

O estilo Álvaro

Sérgio de Almeida Correia, 02.08.11

Estou há mais de duas horas a ouvir o ministro Álvaro Santos Pereira na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas. É inacreditável como é que um tipo está mais de duas horas a debitar falando apenas do passado, dos modelos (errados) de desenvolvimento, das estratégias que não deram resultados e dos erros cometidos. Tudo foi ruinoso, na sua perspectiva, e o único elogio que se lhe ouviu foi ao modelo de desenvolvimento dos anos 50 e 60. Mas isso ainda seria o menos, não fosse dar-se o caso do "ministro Álvaro" ter sido absolutamente incapaz de dar uma resposta objectiva, de concretizar uma medida que fosse - com excepção de garantir novo aumento de transportes para Janeiro -, limitando-se a divagar e a explanar raciocínios teóricos inconsequentes. Que os outros erraram já todos nós sabemos. Não é preciso que ele o venha dizer. O povo não sabe onde fica Vancouver, mas isso ainda percebe. Por isso é que agora está lá ele.

Quanto ao mais, ao que importa do ponto de vista da reforma do Estado ou da redução da despesa (apontar o dedo à, criticável, ostentação dos antecessores não chega), limita-se a dizer que estão a estudar ou que vão estudar.

Bem sei que o Governo tomou posse há pouco mais de um mês, mas de quem escreveu e publicou lençóis antes de ir para o Governo, era suposto que tivesse alguma ideia mais concreta. De teoria está o País cheio. Alguém devia dizer ao senhor ministro que na Universidade é que ele é pago para estudar e investigar. Enquanto ministro são-lhe pedidas soluções e decisões. O ministro Álvaro neste momento é pago para decidir, não para continuar a atacar o passado sem concretizar soluções para o futuro.

Regista-se, igualmente, a falta de humildade, o tom professoral utilizado de cada vez que se dirigia aos membros da Comissão, a forma como fugiu às respostas e manipulou o discurso com a conivência do presidente da Comissão. Ao contrário do que disse o deputado Campos Ferreira, a democracia não é a liberdade de cada um fazer as perguntas que entende e de cada um dar as respostas que quer. É o ministro que responde perante o Parlamento e não este que deve responder às dúvidas ou "bocas" do ministro. Se fosse para falar sozinho ou para só responder aos seus fiéis, não valia a pena o ministro ir à Comissão. Podia ficar no ministério. Ou em casa. Ou não ter saído da Universidade, já que aí tem certamente toda a liberdade para fazer o que muito bem entende ou só responder ao que lhe apetece e convém.