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Os filhos dos outros

por Cristina Torrão, em 26.06.19

Nos últimos dias, as condições catastróficas em que se encontram crianças e jovens migrantes, em centros de migração norte-americanos, muitos separados dos pais, foi mais uma vez notícia na imprensa (pelo menos, internacional), depois de alguns advogados terem visitado esses centros e terem ficado literalmente chocados.

A chaotic scene of sickness and filth is unfolding in an overcrowded border station in Clint, Tex., where hundreds of young people who have recently crossed the border are being held, according to lawyers who visited the facility this week. Some of the children have been there for nearly a month.

Children as young as 7 and 8, many of them wearing clothes caked with snot and tears, are caring for infants they’ve just met, the lawyers said. Toddlers without diapers are relieving themselves in their pants. Teenage mothers are wearing clothes stained with breast milk.

Most of the young detainees have not been able to shower or wash their clothes since they arrived at the facility, those who visited said. They have no access to toothbrushes, toothpaste or soap.

O número de migrantes tem aumentado imenso e os centros em questão estão sobrelotados. Por outro lado, pergunto-me como os guardas desses centros aguentam a situação. Não são igualmente pais e mães? Não poderiam, de alguma maneira, minorar o sofrimento dessas crianças, trazendo de casa colchões de campismo, cobertores (parece que algumas crianças dormem no chão de cimento, cobertas apenas com alumínio), roupas, produtos de higiene e (porque não?) alguns brinquedos?

O artigo diz que os guardas, que vigiam crianças, algumas ainda de fraldas, usam os seus full uniforms — including weapons — as well as face masks to protect themselves from the unsanitary conditions. Eu não estive lá, não posso garantir, mas estas palavras, a meu ver, transmitem apenas uma coisa: indiferença!

No tempo da Guerra Fria, Sting cantava:

"Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too"

À altura, pensei que afinal talvez não fosse tão difícil como isso evitar guerras. Bastava que cada um pensasse nos seus filhos, na hipótese de eles poderem morrer num conflito. Hoje sei que pensamentos deste tipo são de uma ingenuidade gritante (assim como, afinal, a canção de Sting). Estávamos em 1985, eu tinha 20 anos. Sting tinha já 34, mas era pai de, pelo menos, um filho pequeno e seria o medo pelo futuro dele que o fez cantar assim.

Hoje sei ser um facto que nem todos os pais (inclui mães) amam os seus filhos. E, muitos dos que amam, estão-se nas tintas para os filhos dos outros. Guerras, maus tratos e indiferença pelo sofrimento continuarão a acompanhar a Humanidade.

 

Nota: depois de quatro dias de polémica, as autoridades norte-americanas decidiram transferir centenas de crianças e jovens para outras instalações. Resta saber se a sua situação realmente melhorou.

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Distracções

por Alexandre Guerra, em 21.06.18

O mundo de hoje é mesmo assim, tão cedo as pessoas e as redes sociais se revoltam e se indignam com uma tragédia, como, rapidamente, a esquecem e as suas atenções se desviam para um outro assunto. O jornalismo histriónico, munido de comentadores e analistas pouco atentos, alimenta estas dinâmicas ilusórias, e os governantes (quase todos) vão navegando na espuma dos dias. Se, algures, uma injustiça é revelada ao mundo, surgem de imediato as vozes de indignação, os movimentos de sensibilização, as frentes comuns de “batalha” (parece que agora se está a formar um frente “anti-fascista, signifique lá o que isso significar). O problema é que este “despertar” súbito da sociedade para os problemas, não deixando de ser louvável, é efémero e, muitas vezes, contraproducente, porque aborda as questões pelo seu pior ângulo: o imediato e, muitas vezes, o demagógico.

 

Os dramas de natureza política e social, ao contrário das catástrofes naturais, normalmente, não surgem de rompante nem de surpresa. Há sinais, indícios, que podem perspectivar determinados acontecimentos. É claro que para os identificar e interpretar é preciso tempo, conhecimento, dedicação profissional e, sobretudo, interesse. Admite-se que esse não seja o papel dos cidadãos comuns, que têm os seus empregos e actividades no quotidiano profissional e social, dando, assim, o seu contributo à comunidade. Para as pessoas, enquanto massa (sociologicamente falando) integrada numa democracia, está reservado o derradeiro papel: o voto. Essa leitura atempada e atenta deveria ser feita pelos “observadores” e actores dos respectivos sistemas políticos, por forma a produzirem-se decisões que pudessem, se não evitar, pelo menos atenuar o impacto de alguns dos dramas que acabam por irromper mais tarde.

 

É extraordinário constatar como, desde há poucos dias, se fazem ouvir as vozes revoltosas de comentadores, analistas, políticos e activistas, como se tivessem “acordado” agora para um tema, tema esse que se tivesse contado com este mesmo empenho há mais de um ano, provavelmente, mais de duas mil crianças não tinham sido separadas dos seus pais migrantes ilegais vindos do México em direcção aos Estados Unidos. Mas poderá o leitor perguntar, como é que isso seria possível, se só há cerca de dois meses se começou a concretizar esta política promovida pelas autoridades americanas. A questão é totalmente pertinente, no entanto, lá está, os tais sinais já existiam há mais de um ano. E nem se pode dizer que eram indícios ténues. Nada disso.

 

A 3 de Março de 2017, ou seja, há mais de um ano, a MSNBC avançava com um exclusivo que dizia: “Trump admin. plans expanded immigrant detention”. O que vinha nessa notícia era absolutamente assustador, porque ia muito para além de meras declarações estapafúrdias do Presidente Trump. Pelo contrário, essa notícia não trazia qualquer declaração do Presidente, demonstrava, isso sim, uma sistematização daquilo que poderia vir a ser o novo modelo de tratamento dos migrantes ilegais com filhos vindos do México.

 

Lia-se: “In a town hall with Department of Homeland Security staffers last month, Asylum Division Chief John Lafferty said DHS had already located 20,000 beds for the indefinite detention of those seeking asylum, according to notes from the meeting obtained by All In. This would represent a nearly 500% increase from current capacity.

The plan is part of a new set of policies for those apprehended at the border that would make good on President Trump’s campaign promise to end the practice critics call ‘catch and release’. 

‘If implemented, this expansion in immigration detention would be the fastest and largest in our country’s history’, says Andrew Free, an immigration lawyer in Nashville who represents clients applying for asylum. ‘And my worry is it’ll be permanent. Once those beds are in place they’ll never go away.’

[…]

Under the plan under consideration, DHS would break from the current policy keeping families together. Instead, it would separate women and children after they’ve been detained – leaving mothers to choose between returning to their country of origin with their children, or being separated from their children while staying in detention to pursue their asylum claim.”

 

Sublinhe-se. Este exclusivo foi avançado a 3 de Março de 2017 pela MSNBC, que ainda há dias voltou a relembrar o tema. Curiosamente, das muitas vozes agora indignadas, que estão “avalizadas” para comentar nos jornais e televisões e para decidir nos gabinetes, não se ouviu ao longo deste mais de um ano qualquer comentário ou acção concreta sobre este assunto. Tinham palco e condições para o fazer. Se não o fizeram não foi, supostamente, por falta de boa vontade, foi, simplesmente, porque, mais uma vez, estavam distraídos. Se tivessem estado um pouco mais atentos, talvez se pudesse ter evitado o choro e sofrimento de mais de duas mil crianças. Infelizmente, este é apenas um de muitos outros tristes exemplos.

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