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Memórias subjectivas (5) - senta-te comigo

por João André, em 03.08.18

Esta memória surgiu-me quando vinha a ouvir a música no carro. Havia em tempos passados de adolescência várias canções capazes de unir quase toda a gente que as ouvisse, fossem punks, góticos, rockabillies, metálicos, betinhos, alternativos ou outra coisa qualquer que neste momento vou esquecendo. Uma das canções que nos levantava sempre era a que se chamava "senta-te" (Sit Down).

 

Havia algo na canção que nos agarrava. Começava com o piano inicial, suave, na voz de embalo de Tim Booth que nos falava dos momentos do escuro na cama, quando todos os sonhos e, especialmente, os pesadelos nos falavam ao ouvido, na solidão do quarto. Mesmo sem ouvir - ou perceber - a letra, havia o tom em si que nos agarrava desde o início. Tínhamos o tom negro inicial, mas que era seguido de um crescendo que cantava sobre esperança e nos lembrava que não estaríamos sozinhos. Ele, o James (Tim Booth era simplesmente o veículo conhecido apenas de quem comprasse as revistas da época)  dizia-nos que estávamos com ele, que ele também tinha vivido os mesmos momentos e deles tinha saído. A chamada para nos sentarmos, feita em ritmo elevado e que nos levava a saltar, era o convite para partilharmos aquele mmento de celebração e de partilha, a epifânia que nós, por muito que nos sentíssemos sós, não o estávamos.

 

Ler a letra da canção, para quem a entendesse, fosse pelo inglês fosse pelo significado, leváva-nos ao patamar seguinte. Booth faláva-nos dos momentos negros, dos sentimentos extremos doces e amargos que não confessávamos a ninguém, mas que ele nos confessava a nós. Falava depois da incerteza, da prece a um Deus que não se sabia existir. Mesmo para quem não acreditasse em Deus (e quem verdadeiramente acredita ou não em Deus aos 13-14 anos?) , havia sempre a noção de acreditar em algo, alguém, naqueles anos de ausência da âncora que os pais tinham sido durante mais de uma década e que, de repente, já não eram, não sabendo nós bem porquê.

 

Havia no entanto os momentos na canção que indicavam a esperança depois do desespero, da angústia. Booth cantava a crença que havia uma onda que aguentaria o nosso peso, que nos levaria de onde estávamos para--- algures mais além. Cantava depois de umas riquezas não explicadas mas que sabíamos implícitamente quais eram e, noutra confissão, explicava que até poderia viver pobre se não soubesse que elas existiam. Tinha então que almejar a elas, ou a parte delas. Era o outro momento de desespero, o outro momento de depressão confessado apenas a nós, que o ouvíamos.

 

Mas depois voltava a pedir-nos que nos sentássemos com ele. O pedido inicial era para nos explicar a partilha, a confissão que o tornava um de nós, fosse qual fosse a idade dele. Os pedidos seguintes eram para agora sermos nós a partilhar os nossos sentimentos com ele. Carregássemos sentimentos de tristeza, de loucura ou de ridículo, de desadequação a uma sociedade que nos apontava como corpos estranhos. Sentávamo-nos então com Booth/James numa partilha de amor, medo, ódio e, ultimamente, lágrimas, as lágrimas que não éramos capazes de verter perante mais ninguém.

 

Esta canção era ouvida essencialmente em dois momentos, um de solidão e outro em grupos, o mais vasto possível. Para ser ouvida propriamente em solidão era necessário fecharmo-nos no quarto, numa casa idealmente vazia, com persianas semicerradas para criar um lusco-fusco adequado ao sabor delicodoce da canção. A música deveria ser ouvida múltiplas vezes enquanto nos deitávamos de costas na cama com lágrimas que correriam sem soluços, simplesmente de forma livre, como se de repente as comportas se abrissem apenas o suficiente para deixar passar o excesso de angústia, numa forma de aliviar aqueles apertos no peito que por vezes sentíamos serem demais. Era um momento de partilha apenas com James/Booth, num silêncio profundo mesmo com a música em volume elevado, numa solidão em que sentíamos tocar todos os outros no mundo que se sentiam da mesma forma. Era uma solidão que nos fazia sentir parte de uma comunidade, em oposição às multidões da escola que nos faziam sentir unicamente sós.

 

A outra forma de a ouvir era em grupo, idealmente numa discoteca ou em festas (de anos ou outras). Nunca se ouvia esta música no início da festa ou demasiado cedo na discoteca. Era sempre necessário o período de abandono que a escuridão da discoteca ou a multidão barulhenta da festa proporcionava. Antes de alguém se atrever a colocar a cassete (ou disco) a tocar a música, era necessário que os participantes do ritual tivessem já dançado de forma solta, sem passos, simplesmente girando de cabeça solta, como se os músculos do pescoço não existissem. Enquanto houvesse pessoas a ensair certos movimentos, enquanto houvesse rapazes a impressionar raparigas, enquanto as raparigas estivessem a dançar em grupos - ao invés de dançar sós num grupo - e a falar/gritar aos ouvidos umas das outras, enquanto as condições não estivessem reunidas, não se tocaria a canção. Era necessário o cansaço que baixa as barreiras, que liberta as inibições emocionais, que, no fundo, nos resumisse à nossa insegurança mais básica e nos levasse ao momento de escuridão de que Booth/James cantava.

 

Assim que as primeiras notas do piano soassem num ambiente escuro, apenas com uma pequena luz poouco mais que de presença, todos sabíamos o que vinha e gritávamos juntamente com o público na canção - era sempre a versão ao vivo da canção - em antecipação do que aí vinha. Com o início entrávamos num balanço quase cordenado mesmo quando dessincronizado. Rapazes agarravam raparigas pela cintura, por detrás, mesmo quando eram apenas amigas ou às vezes nem isso. Não era um momento de amor, mas era um momento de paixão, de emoção intensa que obrigava a que fosse partilhado. Rapazes abraçavam-se a outros rapazes de uma forma que seria ofensiva noutras situações. Raparigas abraçavam-se também e choravam abertamente, no único momento em que isso não repeleria os rapazes. Os momentos iniciais de calma, de piano a unir toda a gente, eram então seguidos do pedido para nos sentarmos juntos com James/Booth. E era isso que fazíamos, figuradamente, que literalmente saltávamos, em saltos coordenados seguindo o ritmo da canção. Éramos os animais do circo que eram guiados alegremente pelas palavras e notas da canção. Partilhávamos aqueles momentos em conjunto, numa comunhão que não sentíamos possível em mais nenhum momento. Enquanto saltávamos juntos sentíamo-nos todos um único ser, novamente sós no nosso colectivos, mas alegres por isso mesmo, por sermos quem éramos, jovens e com todo o horizonte pela frente. Estávamos sós na multidão, mas felizes por isso, porque estávamos todos sós da mesma forma.

 

Sit Down terá poupado muitas sessões de terapia a muita gente. Numa altura de angústias, de incertezas, de desenquadramento num mundo que não nos compreendia e que não compreendíamos, a música oferecia-nos a libertação, a compreensão e esperança que precisávamos. Em solidão a música seria seguida por silêncio, para apreciarmos devidamente o que nos tinha oferecido, aquele momento e aquela clareza de espírito que tinha trazido consigo. Em grupo a música era essencialmente o momento de regressar. Na discoteca a música seria seguida pelo acender de luzes e pela debandada geral. Mesmo nas sessões de matinés, em que saíamos para uma rua cheia de luz encandescente, havia um sentimento de vazio e de oportunidade de voltarmos a encher o nosso copo de emoções. Todas as emoções de adolescência eram dolorosas porque excessivamente extremas. Sit Down oferecia o momento de esvaziarmos o nosso corpo dessas emoções, mesmo que só por um pouco, oferecia o abandono e o alívio pelos quais todos os adolescentes anseiam.

 

Não posso falar por todos os adolescentes que ouviram a música na mesma altura que eu, apenas pela comunidade onde me inseria. Sit Down era um hino não comentado, apenas vivido. Conhecia quem, como eu, se recusasse a ter a música na colecção de cassetes, por medo de banalizar o seu efeito, mesmo que não o soubéssemos e não o reconhecêssemos. Era uma música para ser ouvida a espaços, só quando estivéssemos com necessidade do alívio e da partilha que trazia.

 

Quando a ouvi hoje não senti o mesmo porque não sinto as mesmas coisas que quando tinha 13-14-15-16 anos de idade. Não tenho os sentimentos extremos desses tempos. Também não senti qualquer nostalgia por esses tempos, como algumas outras canções poderiam trazer, outras canções que nos fazem recordar tempos bons e esquecer os sentimentos de desadequação, de ausência e de não pertencer a nenhum lado, a nada nem ninguém. Sit Down faz-me lembrar precisamente as angústias desses tempos sem que as relativize ("nem sabíamos que eram os melhores momentos das nossas vidas" é um tema frequente quando se discute a adolescência). Faz-me lembrar que os sentimentos dessa altura, por muito que fosse uma altura maravilhosa para quem a veja desta distância, era um período unicamente difícil.

 

Mas ao ouvir a canção lembro esses sentimentos sem os viver. Sinto essencialmente esse momento de união - não com os amigos de hoje ou os amigos de então como são hoje. Sinto-me novamente unido aos amigos desses tempos precisamente nesses tempos, como se fosse transportado para aquela discoteca, pequena, suja, mal cheirosa, escura, e me pusesse a saltar com a multidão, unido pela música e apesar da distância temporal. É uma união ténue, porque não sinto o mesmo, mas sinto a recordação do sentimento e isso, pelos minutos que dura a canção, basta.

 

Por 5 a 7 minutos, sento-me, juntamente com o adolescente que éramos naquels momentos de partilha. O único adolescente único e colectivo que existia no mundo, ou pelo menos na cidade, discoteca ou sala onde a música fosse ouvida. E sorrio como então.

 

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Memórias subjectivas (4)

por João André, em 26.02.18

A escola

Quando era assim para o pequenininho, a escola só começava lá para os 5-7 anos quando se entrava na primária. Existia já a figura do jardim-escola e da pré-escola, mas eram apenas "o jardim" e "a pré" e ninguém levava aquilo a sério porque não havia trabalhos de casa, faltas, castigos, reguadas, contas e o máximo que se fazia eram umas ondinhas esquisitas que serviam de preparação para aprender os ús e os émes.

 

Claro que é difícil recuar muito tempo sem que a memória comece a falhar ou a pregar partidas. Por isso mesmo eu levanto dúvidas sobre aquela repetição constante dos desenhos de barcos e casas, sempre os mesmos e que talvez possam ter sido feitos uma única vez e eu os recorde ad eternum simplesmente porque o cérebro gosta de nos pregar partidas. Se a nossa biografia é como a lembramos, os episódios de criança devem mais às memórias filiais tingidas pela ternura. Mesmo invocando o meu Trump pessoal, é difícil crer que tenha sido a criança mais precoce, educada, simpática e divertida do mundo, como a família mais velha faz parecer.

 

Avancemos antes no tempo até à primária, a qual fiz em duas escolas, a primeira longe de casa porque os meus pais estavam sempre em viagem e passava os dias com a minha tia e avó. Nesses tempos tive o meu primeiro ataque de pânico ao seguir num autocarro de casa para a terreola para ir à escola já na segunda-feira e um pneu furado me fez chegar com enorme atraso. O medo - completamente infundado - do castigo pelo atraso manteve-se para sempre comigo e ainda hoje o tenho quando me atraso para ir trabalhar (mesmo sem reuniões).

 

A primeira classe é mal recordada. Mesmo muito mal. As seguintes provavelmente também o serão, mas têm a vantagem de terem sido todas na mesma escola e com a mesma professora e assim ser possível empacotá-las e fazê-las parecer mais completas. Recordo que a professora era invariavelmente justa mas já bastante dura para a época, com puxões de orelhas, chapadas e reguadas ainda a serem administradas sempre que os resultados não correspondiam ao desejado. Ainda hoje recordo ter recebido todo o cardápio quando - de forma pouco característica - fui o único incapaz de resolver um problema de divisão. É hoje inconcebível imaginar que tempos houve em que as professoras podiam de facto castigar assim os alunos e ainda bem que assim é.

 

Até por volta do 6º ou 7º ano a minha vida era relativamente simples, mesmo nos ambientes frequentemente cruéis das escolas. As escolas que frequentei nessa altura tinham bastantes alunos de meios sociais mais degradados (dos chamados "bairros sociais", designação que não sei se ainda subsistirá) e tinham notas bastante fracas, sendo a reprovação de ano (o chumbo) muito frequente. Apesar de isso ser receita para um aluno razoavelmente bom e pequeno sofrer, a verdade é que eu ajudava bastante os meus colegas com trabalhos de casa e nos testes e eles, em retribuição, mantinham-me protegido. Era algo que eu nem notava, mas ainda hoje estou imensamente agradecido a todos esses colegas que ajudaram a que o meu período do ciclo fosse algo mais suportável.

 

O meu ano de glória foi indubitavalmente o 6º (ou o "segundo ano do ciclo" como era conhecido na altura). Não só me ofereceu as melhores notas da minha carreira escolar (até com 4 a trabalhos manuais e educação física, casos únicos na minha vida) como me permitiu a distinção como um jogador de futebol de escola com talentos reconhecíveis. Como caí numa turma de apenas 9 rapazes, dos quais seis eram múltiplos repetentes e dois dos outros não gostavam de futebol, acabava por ter a possibilidade de jogar com frequência nas peladinhas inter-turmas. Sendo o mais pequeno, acabava por ser invariavelmente enviado para a defesa (tínhamos dois bons guarda-redes, para meu alívio) na qual eu até me dava bem. Não só não tinha muito que fazer (os nossos matulões de 3 a 5 anos mais velhos que eu dominavam o jogo e pouco sobrava para mim) como quando algum atacante me aparecia à frente eu executava a minha famosa manobra defensiva: "chuta a bola e se falhares a bola acertas na canela". Noutras circunstâncias eu seria sumariamente espancado com tais tácticas, mas quando tinha anjos da guarda que me pareciam um cruzamento entre Kareem Abdul-Jabar e Mike Tyson, a vontade de me castigarem rapidamente desaparecia dos elementos ofendidos.

 

(Neste aspecto devo deixar um pequeno parêntesis para o grande jogo desse ano: o encontro 2ºP (nós) contra 7ºA (os outros). Ao longo de várias semanas que havia a discussão sobre qual seria a melhor equipa da escola. A oportunidade de dissipar dúvidas ia sendo adiada, porque nós éramos das turmas da tarde e eles das turmas da manhã. Contudo, um dia lá se organizou o jogo. Tudo preparado. Nós e eles com os melhores jogadores disponíveis (o nosso guarda-redes tinha febre mas não podia faltar). O campo atrás do pavilhão estava ladeado por um grupo de espectadores que ainda hoje não deve ter sido repetido naquele sagrado terreno. O resultado é que não foi de acordo com o esperado. O 7ºA abriu o jogo com um golo pelo avançado deles, um cruzamento entre touro, cavalo e locomotiva, sem requintes técnicos mas que, lançado, só seria parado por um helicóptero Apache. Era o aviso e fiquei preocupado: se não conseguia acertar no bicho, como o parar? Não houve problema. A verdade é que não voltei a ver a bola. Vencemos por 7-1 (apesar de um golo deles após o final, quando o nosso guarda-redes já tinha saído da baliza) e a humilhação ainda deve ser suficiente para aqueles indivíduos esconderem a cara quando passam em vista da escola.)

 

A minha coroa de glória académica nesse 2º ano do ciclo foi um teste de história, disciplina para a qual tinha apetência e onde as notas acima de 90% eram não só frequentes como corriqueiras. Na véspera de um teste alguém surgiu no final de uma aula com o enunciado do teste da outra turma, a que tinha os testes sempre depois de nós e que eram sempre iguais. Por uma vez éramos nós a poder saber o teste com antecipação: um dia inteiro!! Toda a gente copiou o enunciado (nessas alturas, inexplicavelmente, os nossos telefones não tinham o CamScanner nem tiravam fotografias nem eram, imagine-se, portáteis) menos eu. Não sei ainda hoje explicar porquê. Seria por uma mistura de medo, vergonha, ética e confiança, talvez. Sei que não o fiz. No dia seguinte, com um enunciado que, inevitavelmente, não era igual ao que tinha sido profusamente copiado, toda a gente caiu por terra. Em toda a turma houve duas notas acima dos 50%. A de um colega que teve talvez 51% ou 52% (pelo menos imagino o caso assim) e a minha, também inevitavelmente, com 99% (não sei onde terei colocado mal a vírgula). Desde esse momento que fui visto como uma espécie de feiticeiro, epsecialmente  história, que era capaz de prodígios intensos. Depois veio o 7º ano.

 

A partir do 7º ano, habituado à excelência fácil das minhas notas, caí numa mediania profunda da qual só fui resgatado já no 11º ano por uma fúria contra um colega que gostava de gozar com quem tinha notas piores (quase todos). No desejo de lhe mostrar quem era acabei por melhorar as minhas notas a ponto de conseguir entrar na universidade. Hoje, à distância destes anos, posso também agrader-lhe pela parvoíce. O facto de o ter enfrentado em pleno balneário conferiu-me um certo prestígio extra que nada mal fez à minha imagem na escola (aos 15-16 anos isto contava).

 

A escola em Leiria tinha certos aspectos interessantes. Um deles era a enorme quantidade de góticos que continha. Em Coimbra descobri que a tendência andava pelo punkrockabilly mas Leiria, em respeito pelo castelo, preferia os tons mais escuros. Talvez por isso seja hoje em dia o palco do festival EntreMuralhas (sim, um dos organizadores é um amigo, mas não desses tempos). Era uma cidade já orgulhosamente freak mas infelizmente sem prestígio por isso em tempos sem internet, Twitter, Facebook ou outros instrumentos que realçam o carácter da cidade. Características fundamentais dos góticos, nessa altura ainda em versão soft, era o uso de roupas escuras - claro! - botas Doc Martens com biqueira de aço (nada de imitações) para os pontapés nas sessões de mosh, ar taciturno, mãos permanentemente nos bolsos e postura liieramente dobrada. O curioso é que estes góticos, vistos como servos do diabo por qualquer senhora com mais de 50 anos da zona velha da cidade (onde estavam os bares), eram dos mais bem comportados da escola. Poucos fumavam, quando bebiam não abusavam e eram frequentemente bons alunos. Não fosse aquela roupa velha inspirada por Belzebu e até seriam bons moços, diria a Sra. Adosinda da Rua Direita (sei hoje que se chama Rua Barão Viamonte).

 

A escola onde andei no liceu era a Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo. A outra localizada também na cidade era a Escola Secundária Domingos Sequeira e uma outra, algo fora, era a Escola Afonso Lopes Vieira. E eram inevitavelmente conhecidas como o Liceu, Escola Comercial e Escola da Gândara, respectivamente (se os alunos não recordavam os nomes dos escritores que tinham que aprender nas salas de aula como recordariam os nomes das escolas onde andavam?). Como era lógico, os alunos do Liceu não se davam com os da Escola Comercial. Nem pensar nisso. Como poderíamos falar com eles? Pior que isso só darmo-nos com os da Escola da Gândara. Que ralé!! Ainda hoje me é um mistério a razão desta separação, mesmo (ou especialmente) depois de já na universidade ter namorado brevemente com uma antiga aluna da Escola Comercial, mas tenho a certeza que as razões eram boas. Ainda hoje olho de soslaio pra a Escola Comercial, cujo único aspecto bom era ter espaço para estacionar quando saía ao fim de semana uns anos mais tarde.

 

Um dos grandes mistérios que ainda hoje me assombra é o efeito do 8º ano. Toda a gente falava de o 8º ano ser o ano mais difícil, onde muitos alunos reprovavam. Ainda não sei porquê. Teria um grau de dificuldade mais elevado, isso seria lógico para todos os anos, mas dificilmente seria como uma entrada na universidade. Ainda assim, com ou sem mistério, a verdade é que sofri nesse ano o meu momento de maior tremideira: passei com dsuas "negativas" (a Francês e a Físico-Química - ironia para um engenheiro químico). Também experimentei um momento que acabou por ser determinante na minha vida: ao ver uma pequena exposição dos alunos de Quimicotecnia (opção que existia apenas naquela escola), gostei o suficiente para a querer adicionar como segunda opção quando seguindo para o 9º ano. Acabei nela e, como se costuma dizer, o resto é (má) história.

 

O Liceu tinha obviamente muitos recantos. Havia a zona de baixo, onde havia apenas duas salas que só eram usadas no verão (creio que por serem menos quentes, embora eu não o notasse muito). Havia o ginásio e balneários, zona onde tínhamos que nos vestir a tal velocidade (as toalhas molhadas podem ser chicoteadas a velocidades de Mach 5) que recrutas do exército seriam vistos como lesmas. Havia também a mitológica sala da associação de estudantes, cuja maior virtude era poder ser trancada com uma chave que os alunos da mesma possuíam e que lhes permitia passar os intervalos a fumar. No entanto o espaço mais selvagem, com uma fauna que teria deslumbrado David Attenbourough, era o pátio. Chamar pátio a uma espaço coberto, em forma de galeria, e aberto para os campos e basquetebol, era talvez um exagero, mas era esse o nome e o espaço era sagrado. Havia delimitações claras que hoje não recordo mas que obedeciam a regras muito estritas. Os fumadores ficavam mais para os lados da parede, para nãos erem vistos pelos professores. Os punks ficavam mais longe da porta de entrada, a conversar encostados aos pilares. A miúdas ficavam a conversar e a ver a Bravo (ali ninguém saberia ler alemão e não era pela literatura que queriam a revista) sentadas no degrau que separava o pátio do campo. Os trestantes andavam por ali, em classes sociais completamente estratificadas e bem delimitadas. Não seria boa ideia a ninguém ingressar nos espaços de classes acima sob pena de levar o tratamento "croquete" (ser molhado e depois rebolado na caixa de areia). Já se alguém decidisse passar pelas classes mais baixas, era de bom tom fazê-lo com encontrões e um par de calduços. Até ficaríamos desapontados se isso não acontecesse.

 

Suponho que ainda hoje assim seja: a estratificação das classes entre alunos do secundário é tão normalizada e estrita que seria mais fácil a um intocável casar com um brâmane do que a um aluno do 8º ano ir pedir um cigarro a um do 11º. Note-se que os do 12º ano eram outro caso. Eram já adultos e não se incomodavam com os mais novos. Até adoptavam alguns, em substituição de cães. Estas delimitações eram no entanto flexíveis quando se transpunham os portões da escola, para fora, para o mundo real. Aí a possibilidade de interacção era real, embora sempre contida. Era-me então possível falar directamente com alguma rapariga gira e popular (sim, pleonasmo) sem receio de humilhação (mesmo pedir-lhe as horas em plena escola era arriscado). Os mais novos atreviam-se a pedir lume aos mais velhos e até havia quem bebesse uma cerveja em conjunto ao sábado em pleno Terreiro. Ainda hoje não entendo como era possível compreender estas regras todas e não ser possível tirar mais que um 12 num simples teste de matemática do 10º ano.

 

Claro que tudo isto tinha que terminar. Findo o 12º ano, veio a entrada para a faculdade. No último dia faziam-se as festas, assinavam-se os anuários uns dos outros sem preocupação com classes (era um sucesso conseguir um simples gatafunho do brutamontes que passava o ano a bater-nos n cabeça quando nos via) ou sem consideração para com qualquer familiariedade (metade das assinaturas devem ser de pessoas que eu conhecia no máximo de vista). Era também o momento em que alguns dos professores desciam ao pátio e conversavam connosco, nos perguntavam o que iríamos fazer e quais os nossos sonhos. O momento em que a escola, toda e completmente, se reunia num grupo sem separações, em amizade e numa antecipada saudade.

 

Se todo o ano tivesse sido assim, talvez esse período da minha vida fosse menos conturbado. Contudo, seria menos recordado. E, em todo o caso, éramos adoslescentes. Estar conturbados era a única coisa que todos sabíamos sem ser ensinados. Com, ou sem escola.

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Memórias subjectivas (3)

por João André, em 16.09.16

Distâncias e viagens

Enquanto cresci, a única auto-estrada existente era a que ligava Lisboa a Aveiras. Num bom carro e respeitando apenas o espírito da lei no que respeita a limites de velocidade (isto é, acreditar na sua existência mas não os praticar, como a maioria dos católicos portugueses), era possível ir de Aveiras ao Aeroporto em 20-24 minutos. Isto era um eternidade, mas a bem dizer viajar em Portugal até meados da década de 90 demorava eternidades.

 

Quando pequeno, eu passava bastantes fins de semana em casa da minha tia. A distância eram uns 10-15 km, mas no Citroën Diane (a "diane") ou no Renault 5 (o "renôssinco") que o substituiu, a viagem era um tédio. Visitar a minha avó implicava uma viagem de 20 km por estradas regionais, com passagens de nível e demorava pelos meus cálculos cerca de 3 episódios do Roy Rodgers ou pelo menos a primeira parte do Benfica Belenenses (que não valia a pena ver a preto e branco na televisão porque as camisolas vermelhas e azuis eram indistinguíveis). Uma ida à Nazaré exigia mantimentos equivalentes ao um Paris-(Argel)-Dakar e se fôssemos a Lisboa o carro passava metade do dia anterior em revisões, mudando o óleo, acertando a pressão dos pneus, atestando o depósito e os tanques de água, enchendo a bagageira de equipamento de emergência incluindo tendas, fornos a gás e rádios portáteis (talvez a minha memória me faça exagerar).

 

 

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Memórias subjectivas (2)

por João André, em 14.09.16

O cinema

Os filmes fizeram desde cedo parte da minha vida. Não passava sem os clássicos que iam passando na RTP2 nas tardes de sábado, enquanto os meus pais dormiam e me deixavam em paz, especialmente durante o Verão quando o calor era muito e eles ficavam agradecidos de me ver sossegadinho, com as persianas em baixo, numa semi-penumbra e a ver televisão. Era um daqueles casos em que os interesses deles se cruzavam com os meus e me permitiam uma boa dose de clássicos de alta ou baixa qualidade numa altura em que os meus filtros eram de passe baixo e eu me alimentava de tudo. Descobri mais tarde que tinha andado a ver obras-primas (Heaven Can WaitTo Have and Have NotA Matter of Life and DeathThe Way Ahead) e outras menos primorosas (Crack in the WorldThe Beast from 20,000 Fathoms, qualquer filme com Vincent Price, ou mesmo qualquer filme de terror ou ficção científica, o que na altura era quase o mesmo).

 

A qualidade era menos importante que o fascínio. No caso de bons filmes, eram a qualidade e os elementos mais visuais que me prendiam. Lubitsch, Powell e Pressburger, Cukor, Sirk, Minnelli (excepto musicais, de que só comecei a gostar mais tarde) estavam, descobri depois de alguns anos, entre os meus preferidos. Nomes de realizadores conhecidos eram poucos: John Ford pelas coboiadas  e Hitchcock pelo suspense, palavra que eu repetia aterrado sem compreender do que se tratava (poderia ser essa ou otorrinolaringologista e iria dar ao mesmo) seriam os únicos reconhecíveis para mim. Havia um ou outro filme que tinha que ser visto se me aparecessem à frente certos actores: John Wayne (obviamente), Gene Kelly (desde que não dançasse) e Errol Flynn eram obrigatórios. Actrizes menos. O meu pai tinha um estranho fascínio por Sophia Loren que eu não comprendia, mas esforçava-me por tal.

 

 

 

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Memórias subjectivas (1)

por João André, em 09.09.16

Manhãs de fim de semana

Nesses tempos os sábados eram o momento de libertação. Sem escola às 8 da manhã (ou seria às 8:30?), a televisão era para mim. Ainda sem cor, essa só viria numa manhã de Natal após uma visita ao primeiro Continente do país, num aparelho (NEC, ainda existe) que me fascinou mais pelo controlo remoto que pela cor que já conhecia. Levantava-me, pegava nos livros de banda desenhada, com preferência para os Lucky Luke e Astérix do cimo da prateleira, passava pela cozinha para pegar na lata dos biscoitos (redonda, de metal, branca e com alguns motivos castanhos e que mais tarde acabou a guardar os meus bonecos) e dirigia-me para a sala.

 

Entre os livros a preferência seguia para os que tinham Goscinny como autor da história. Verdade, no início ainda não sabia ler os autores das histórias, mas sabia pelos meus pais quais eram os livros com narrativa desse génio. No caso de Lucky Luke era algo complicado: o desenho era diferente nos períodos iniciais, mas nos outros havia ainda dificuldade em escolher. Com Astérix era ainda mais simples: só tinha um ou dois títulos com Uderzo como autor da história. Claro que antes de saber ler fazia pouca diferença, mas como as histórias estavam (estão) decoradas, a recomendação filial era importante.

 

O ritual passava por sentar no sofá, ler e comer biscoitos até a minha mãe acordar, tomar o pequeno-almoço a correr (não fosse a emissão começar mais cedo de repente) e voltar para a sala. Cerca de meia-hora a uma hora antes do início da emissão ligava o aparelho. Ficava a ver a mira técnica (não recordo se me dava ao trabalho de ouvir a música) e a ler. Havia que ficar atento à possibilidade de os planos da RTP mudarem e começarem os desenhos animados mais cedo. À hora da emissão o hipnotismo comçava.

 

Ao meu redor suponho que existia um completo remoinho de actividade. Tinha uma noção vaga de pessoas a andar de um lado para o outro, de um aspirador a funcionar e que me forçava a sentar-me noutra posição na sala enquanto o sofá era movido, de a minha mãe avisar o meu pai que ia fazer compras, de pedir ajuda para as arrumar, de o barulho na cozinha se intensificar quando o programa infantil se tornava algo mais juvenil e começavam as séries menos "animadas". A certa altura lá era chamado para a mesa da cozinha para o almoço e rogava por uns minutos mais para poder acabar de ver o episódio de fosse o que fosse que estava a ser transmitido no momento.

 

Uns anos mais tarde comecei a ter de acompanhar a minha mãe nas suas visitas ao mercado, para comprar mercearias ou peixe, e comecei a odiar essas visitas, por volta das onze horas, que me impediam de ver o meu programa preferido (por regra, qualquer programa que eu não pudesse ver, fosse porque razão fosse, era invariavelmente o meu preferido). Nesse período eu acelerava sempre a minha mãe para poder voltar o mais depressa possível para ver alguma coisa antes daquelas notícias da hora de almoço que os meus pais não queriam nunca perder. Mais tarde, quando fiquei mais velho e poderia ficar em casa sozinho, sofri pelo infortúnio de ser já mais alto e mais forte que a minha mãe e não pude ficar em casa porque estava encarregue de ajudar a trazer os sacos das compras.

 

Já os domingos eram outra coisa. Com a missa dominical, o 80x7 e o Telerural, o primeiro canal era para mim algo sem qualquer pinta de interesse. Infelizmente o segundo canal começava mais tarde, mas isso não me impedia de me sentar a ver a sua mira técnica, inifinitamente mais interessante que aquele senhor com roupas esquisitas que levantava uns copos dourados enquanto vozes femininas cantavam uma músicas chatas. Como o segundo canal não era prolífico em desenhos animados, acabei por ir vendo os programas de vida selvagem e sobre o corpo humano (inclusivamente um, alemão, que me ensinou mais que vários anos de aulas de Ciências da Natureza). Talvez possa mesmo traçar o meu interesse por ciência àqueles domingos sem desenhos animados que me faziam agarrar a qualquer farrapo de entretenimento.

 

A maior variação a estas rotinas eram as visitas à minha tia, na aldeia. Os domingos eram especialmente dolorosos, dado que nessa altura a electricidade era racionada e não era ligada na aldeia antes do meio-dia. Eram períodos em que lia e relia (ou "lia e relia" no período pré-primário) os livros que tinha trazido comigo, vasculhava a casa da minha tia em busca de qualquer coisa com o mínimo de interesse (acabei a ler a Nova Gente, confesso hoje) e lá aceitava a certa altura ir passar pela Igreja e até espreitava a missa, algo que apesar de desinteressante me fascinava um pouco. É curioso que eu nunca tenha conseguido, até hoje, equiparar a missa televisiva com a missa "real". A primeira era como um programa sem qualquer interesse, um desperdício de tempo televisivo. A segunda era chata, como uma visita a uma tia-avó muito velha e mal-cheirosa mas que tinha aspectos de curiosidade. Até hoje sou da opinião que a missa é desporto presencial, nunca televisivo.

 

Ainda hoje os meus sábados livres são tentativas fúteis de emular esses períodos despreocupados. "Vegetar" é aspiração não compreendida por muitos adultos, mas uma que eu persigo ardentemente quando tenho essa oportunidade (uma vez por ano se o sol estiver azul e o galo dormir de pijamas). Não regressa, mas recordo-a. Idealmente com uma lata de biscoitos à frente.

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Memórias subjectivas (0)

por João André, em 09.09.16

"Memórias subjectivas" é um termo algo pleonástico. Uma memória existe não como um registo exacto de um momento mas como um registo parcial desse mesmo momento e apenas da forma como o registamos. Uma camisa às riscas brancas e pretas pode não ter sido vista mas, por omissão de informação, recordada pelo nosso cérebro como sendo de um vermelho escuro, quase de sangue. Uma pessoa pode nunca ter passado pela nossa vida senão, sem ser notada, na rua, mas devido a uma descrição poderemos recordá-la vivamente como sendo parte integral de um episódio. Entre duas situações, a mais recente por dez anos pdoerá ser pior recordada que a mais antiga, mesmo sem qualquer razão lógica para isso.

 

Por isso qualquer memória é subjectiva. É-o na forma como o fragmento de história é observado, na forma como é registado, na forma como é relembrado. E quando se conta, adicionam-se os pormenores extra que poderão não fazer parte da memória ou que são alterados em função da narrativa. Por isso mantenho o pleonasmo nestas minhas crónicas em que irei recordar episódios sem linha cronológica e sem qualquer vontade de fazer mais que deixar um registo a que voltarei em tempos.

 

Ou como escreveu García Márquez: «La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla».

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