Três centenários em destaque nos últimos dias. Lúcidos, activos, com louvável vitalidade. Celebro a vida ao felicitá-los.
Começo por uma senhora: Raquel Soeiro de Brito. Foi a primeira doutorada portuguesa em Geografia e a 12.ª mulher a concluir um doutoramento em Portugal. Aconteceu em 1955. Discípula do mestre Orlando Ribeiro, atravessou o país inteiro e percorreu todas as parcelas ultramarinas - de Cabo Verde a Timor, sem esquecer Goa, Damão e Diu. Distinguiu-se pelas obras pioneiras publicadas sobre todos estes territórios e as gentes que os habitavam. Em 1957, quando eclodiu a erupção dos Capelinhos, voou para os Açores numa avioneta e chegou a entrar na cratera do vulcão, documentando o que podia em fotografia e filme.
Conheci-a na adolescência: era visita assídua da casa dos meus pais. Lembro-a com perfil nórdico: alta, loura, elegante. Revi-a há dias nas páginas do Público a propósito do centenário do seu nascimento, festejado a 12 de Dezembro.
Prossigo com um notável pensador francês, grande filósofo cujo pensamento inspira os seus contemporâneos desde a II Guerra Mundial: Edgar Morin. A 21 de Junho completou 104 anos. Mas não lhe peçam para descansar: os assuntos do mundo continuam a interessá-lo, hoje como em 1973, ano em que publicou O Paradigma Perdido, obra muito influente na minha geração.
A vida dele dava um filme. Judeu sefardita, participou na resistência ao invasor nazi, foi adido militar de França na Alemanha ocupada do pós-guerra. Rompeu com o Partido Comunista, em que chegou a militar, e distinguiu-se desde então no combate aos totalitarismos, demarcando-se da visão marxista da sociedade e mobilizando-se em múltiplas acções cívicas. Em 2021 publicou um livro de memórias, intitulado Leçons d'un Siècle de Vie. Muito apreciado por leitores de diversas idades.
Há poucas semanas voltei a ver o nome dele. Como signatário de uma petição exigindo a libertação do escritor Boualem Sansal, detido pela ditadura argelina: objectivo concretizado. Lição de cidadania para qualquer de nós.
Finalizo com imensa alegria, saudando o centenário de um actor que protagonizou o primeiro filme que vi: Dick Van Dyke, o inesquecível limpa-chaminés de Mary Poppins. Produzida por Walt Disney, esta película data de 1964: ele canta e dança com vibração contagiante, sozinho ou na companhia de Julie Andrews, que também se mantém por cá. Apagou cem velas do bolo de aniversário no dia 13 - faz hoje uma semana.
Acaba de publicar um livro sobre a receita para atingir tão provecta idade, intitulado 100 Rules for Living to 100: an Optimistic Guide to a Happy Life. Eis uma das regras: manter intacto o espírito juvenil. «Às vezes sinto que tenho novamente 15 anos», confessa. Pratica ioga, faz flexões diárias. Ri-se o mais possível - por vezes de si próprio. E conserva o hábito, iniciado há um quarto de século, de cantar com um grupo de amigos.
Está em excelente forma, ao que rezam as crónicas. «Um século não basta», gracejou. Também ele poderia dizer, fazendo coro com Raquel Soeiro de Brito, que a pessoa só envelhece quando deixa de gostar da vida.
Tínhamos quase a mesma idade e começámos ao mesmo tempo no jornalismo. Ambos em semanários, embora concorrentes: um saía à quinta, outro à sexta. Quando era frequente um jornal ter tiragens superiores a cem mil exemplares. Conheci-a num dia de Verão, parecia cena de filme. Na Rua do Jasmim. Descia eu do Príncipe Real, vinha ela em sentido oposto, da Praça das Flores, também solitária. Muito bronzeada, vestida de branco - o Tejo escoltando-a à distância.
Era uma das mulheres mais belas da nossa geração, uma das mais belas que até hoje conheci. A Clara Pinto Correia - tínhamos o mesmo apelido, mas nenhum parentesco nos ligava - não se limitava a ser bonita e a escrever num estilo muito próprio, com linguagem solta, ousada, que parecia brotar-lhe de geração espontânea, à maneira da escrita automática de um Jack Kerouac. Testando os limites ditados pelas convenções, o que irritava alguns bonzos do nosso ofício.
Parecia não fazer caso do que pensavam dela. Sempre pareceu.
Pouco depois, publicou um romance arrebatador, que permanece como marco daqueles anos fugidios - a turbulenta década de 80, na ressaca do frenesim revolucionário, ainda antes da adesão do País à Comunidade Europeia. Documenta esse tempo de transição, naquela terra-de-ninguém que nos marcou para sempre. Tinha apenas 24 anos quando o escreveu. Abandonaria o jornalismo cedo de mais, fragmentou-se por actividades várias, talvez excessivas.
Outras obras passaram sem deixar rasto. Esta ficou. Como retrato de um Alentejo onde a esperança era escassa. Como signo de uma época irrepetível. Adeus, Princesa é também um dos melhores romances portugueses de sempre centrados no jornalismo - como havia sido, duas décadas antes, O Secreto Adeus, de Baptista-Bastos.
Guardo um exemplar que ela me ofereceu, com dedicatória. É da 9.ª edição, da Relógio d'Água, com magnífica capa de Jorge Colombo - daquelas que quase já não há. Um exemplar que a partir de agora, infelizmente, se torna um pouco mais valioso.
Há três anos, revisitando o livro, escrevi de rajada um pequeno ensaio sobre a principal personagem feminina, Bárbara Emília. É, para mim, uma das mais marcantes figuras da ficção portuguesa do último meio século. Ponderei enviar-lhe esse texto, ainda hoje inédito: dar-me-ia imenso gosto que ela o lesse em primeira mão. Só não o fiz porque perdera os seus contactos e não encontrei quem os tivesse: ela atravessara anos muito turbulentos e acabava de se ocultar algures no Alentejo, onde vivia como eremita, longe dos holofotes que chegaram a ofuscá-la.
Seria ali o último refúgio da Clara, agora tristemente desaparecida. Lamentarei para sempre nunca lhe ter mostrado o que escrevi, confirmando uma convicção enraizada: só nos arrependemos do que deixamos por fazer.
Mas continuarei a revê-la, inundada de beleza, subindo de branco integral a calçada oitocentista da Rua do Jasmim. Com a prata do Tejo a refulgir em fundo como se a emoldurasse para a eternidade.
Atravessar a adolescência na década de 70 foi uma corrida, um susto, um espanto, um pavor e uma das mais belas e loucas recordações da minha vida.
Foi como atravessar um deserto de intolerância, repressão e medo, e desembocar num oásis luxuriante pleno de cor, ritmo, palavras soltas e êxtase desmedido.
Abraçar a liberdade sem limites nem imposições, embebedar-se nela, mergulhar de cabeça até perder o pé... foi a época de todas as loucuras, de todos os excessos e de todos os desencantos.
Gratas são as recordações de ver pela primeira vez um concerto ao vivo: Os Genesis, no Dramático de Cascais, a arte cénica do Peter Gabriel, os back vocals do Phil Collins, tão colocados, colados, indistintos, mágicos, como todos aqueles minutos que terminaram cedo demais, no meio de uma multidão ululante que não conhecia bem "The Lamb Lies Down on Broadway", mas a quem a música falava mundos de entusiasmo e vocalizava em unissonãncia tudo que fazia sentido na vida de quem era jovem.
Gratas são as minhas recordações politico-partidárias, que depois dos percalços do PREC abracei com ímpeto voraz, como se não houvesse amanhã. Como naquele sonho juvenil em que somos sempre o herói no seu alazão de pau, eu fiel às minhas convicções, quando as palavras se envolviam, revolviam e por fim pisavam e feriam, não desejava nada mais do que abarcar uma boa escaramuça, dar o corpo ao manifesto, arranhar, morder, rasgar um par de camisas, pôr gelo num olho azul... valia tudo para fazer valer um credo, um valor, um dogma, uma religião.
A memória mais acalentada, a de encontrar a alma gémea, experimentar pecados loucos, sentir os sentidos a revolver as entranhas enquanto o coração martelava nos ouvidos e saía pela boca em suspiros de perdição. A pele em pelo ansiava pela frescura da lama onde deslizava como veio ao mundo, aquela felicidade que brotava no cabelo em flor daquele Woodstock passado, que só então pudemos visionar.
Depois retornaram os que viviam além-mar. Trouxeram outra alegria, outros ritmos, despiram convenções, ofereceram ilusões em forma de verde, que rapidamente inundaram as ideias e os ideais. Depois foi o princípio do fim do conto dos heróis e ninguém viveu feliz para sempre.
Mas foi bom enquanto durou.
Às portas de um novo ano que se prevê radical em promessas de vida, registo esta confissão de lembranças felizes, para que o meu futuro possa um dia saber sobre o meu passado e sorria com a lembrança de que os velhinhos já foram, numa época distante, aquele pequeno ser desarticulado que cabe na cova de um braço e que revela em nós a maior emoção que algum dia poderemos sentir.
Tudo isto se passou num mundo muito diferente do nosso. Os alimentos disponíveis andavam sempre a reboque dos ciclos das sementeiras e das colheitas. Havia quem comprasse uma bezerra para a criar em casa, aproveitava-a para lavrar as terras, com a ideia de a vender, já criada, por alturas da Primavera seguinte. Tempos livres ninguém os tinha, nem pontes, nem fins de semana prolongados. Ajudava-se na vindima dos vizinhos porque era uma maneira de nesses dias ter as refeições asseguradas. O dono da vinha tinha a responsabilidade de garantir a bucha a quem aparecesse e para cada um dos mais próximos, amigos e afilhados, havia sempre uma tira de toucinho curtido na salgadeira, que era servida meio às escondidas.
Sem se entender bem como, havia ainda quem conseguisse quatro ou cinco dias para a excursão que o Senhor Zé, o Zé dos Casais, o meu avô paterno, organizava. Segundo o que sempre ouvi não havia quem conhecesse o país como ele. Não sei que conhecimentos teria quando começou as começou a organizar. Lembro-me do meu pai e os meus tios garantirem que ele, de memória, conseguia desenhar o mapa de Portugal. Provavelmente a informação inicial que tinha resultava do estudo demorado de algum mapa que tivesse. Os serões eram longos, os conteúdos disponíveis limitados e, com o passar do tempo, um dia terá fechado na sua memória o puzzle em que todas as palavras que correspondiam a vilas e cidades, estradas, serras, rios e linhas do comboio que as ligavam, se fecharam num conjunto único e definido. Com o desenho do mapa do país memorizado, acabava por ser sempre ele a indicar ao motorista, ao chófer como se dizia, por onde deveria seguir em cada cruzamento. Os autocarros eram alugados para essas ocasiões e até os chóferes gostavam de ir nas excursões organizadas pelo Senhor Zé. Com ele sentado ao seu lado, na primeira linha dos bancos, nunca tinham dúvidas por onde deveriam seguir. Para os motoristas das excursões dos anos 50 e 60, ir com o meu avô ao seu lado terá sido a experiência mais próxima de ter um GPS, embora sem uma voz maviosa e écran colorido.
O evento era especial ao ponto de, pelo menos uma vez, terem preparado uma folha que distribuíam por onde passavam e paravam.
Pelo que nos chegou até aos dias de hoje, esta excursão de 1954 terá sido a quarta e sabemos que outras mais se seguiram. Segundo o que nos diz o prospecto, o Grupo Excursionista Juncalense usava-o para saudar os habitantes das terras ponde passavam. Os versos, arrisco, eram do Senhor José Virgílio, patriarca de uma enorme família, tratados enquanto entidade colectiva como os Vergis, que sempre foi o mais prendado poeta de rimas do concelho e arredores. A partir do prospecto e dos seus versos conseguimos fazer uma viagem no tempo pelos estabelecimentos comerciais, seus donos e ofícios. Lagares de azeite, cerâmicas de telha e tijolo, padarias, moagens, mercearias, serrações, oficina de malas e barbearia, vinhos, bicicletas e aguardentes.
A camionetes eram alugadas a firmas de Leiria com os Claras e a União Automóvel Leiriense, que depois de 1974 foram nacionalizadas para constituir a Rodoviária Nacional.
Longe de saberem o que seria o regime de meia-pensão ou de pensão completa, cada qual levava farnel para si e para os seus. Os almoços e jantares eram momentos altos onde cada um comia do que tinha levado e em que os afilhados se aproximavam dos padrinhos e madrinhas, sempre de olhos na tira de toucinho. Os garrafões de vinho faziam igualmente parte da intendência, sendo que, não fosse o diabo tecê-las, não viajavam no tejadilho. As curvas do Marão tinham má fama para os enjoos, mas não havia vomitório que estragasse o ambiente de festa da comitiva.
Os mais habilidosos serravam e furavam até conseguir segurar no ar um pano a fazer de tenda. Lembro-me de ver o meu avô a usar um furador de manivela, o berbequim da época, numa vara de madeira para esse mesmo efeito. Os outros dormiam onde calhava, sendo que, para esses, os lugares mais disputados eram os que ficavam debaixo do autocarro. Eram dias inteiros de animação, em que nem de noite deixava de haver motivo de risada e de arremedo. Fulano ressonava mais alto que o motor da camioneta e sicrano era o campeão da flatulência e até enquanto dormia conseguia animar todo o grupo excursionista.
Lembro-me de uma das minhas muitas tias-avós, o meu avô tinha sete irmãos rapazes, me contar já muito velha que tinha passado uma vida inteira de arrastação, sempre a tomar conta da casa, dos filhos, do marido e das terras, e que o único que gozo que tinha tido na vida eram as excursões que o meu avô organizava.
O calendário desses tempos era marcado pelo Natal, Páscoa, matança do porco, vindima e as excursões do Zé dos Casais. Tudo o resto tinha sido antes ou depois destes acontecimentos.
Mais de uma década volvida, um rapazola armado ao pingarelho, que era da terra mas tinha passado uns anos pela capital, achou que conseguia também ele organizar excursões como as do Zé dos Casais. Teria visto outras coisas e talvez prometesse paragens mais longas, ou mais curtas, mais ou menos castelos, mais ou menos curvas. Não faço ideia qual seria o seu factor competitivo ou como é que conseguia vender as suas excursões ao público, que só as conhecia pela mão do meu avô. Aquele atrevimento foi coisa que gerou grande indignação na minha família. O fulano vivia um pouco mais abaixo na mesma rua, o que fazia que às vezes se cruzassem num silêncio incómodo. Deve pensar que é mais esperto que os outros! Um rapazola mal desmamado à frente de um autocarro! Como as leis de condicionamento industrial do Estado Novo eram omissas no que toca a excursões, não havia nada a fazer para impedir aquela concorrência. Os mais abonados, que não eram muitos, conseguiam aproveitar as ocasiões que cada um deles criava e não perdiam nenhuma das oportunidades para passear, os demais tinham de escolher a que excursão iam e isso foi tema de demorados debates pelas tascas, adegas e lares do Juncal.
Impedido de travar a concorrência, ao meu avô restou apenas o alívio de inventar uma alcunha para o seu concorrente. Desde esse dia, o Jaquim Rei passou a ser referido lá em casa como o Trombalachana. Não resolvia a apoquentação, mas aliviava o fel.
E veio tudo isto à escrita, porque na semana passada o Trombalachana, que já tinha passado dos noventa há uns bons anos, foi a sepultar. Paz à sua alma.
E é assim, pouco a pouco, que o mundo de antigamente se vai desligando de nós.
Durante cinco anos, por vezes longos, de outras vezes fugazes e etéreos como a paixão que chegou e partiu sem que houvesse tempo de a agarrar, estudando e seguindo regras, foi-se preenchendo uma quadrícula em que a palavra direito era a que mais vezes figurava, alternando com a de justiça. Entre a devoção e a alegria, o choro, a coragem ou o medo do futuro, com uns abraços e uns beijos à mistura, no final cada um seguiu o seu caminho.
Do que me lembro, a despedida, para alguns, das paredes que nos acolheram foi penosa. Para outros abriu-se uma avenida, larga e soalheira, onde se cruzaram múltiplas vidas, romances, aventuras, alegrias e desgostos. Até ontem.
Muitas vezes me recordei deste e daquele, de algumas com evidente e, com o correr dos anos, envergonhada paixão, à medida que a distância e o tempo me afastavam de rostos, de abraços fraternos e sinceros, de sorrisos, cheiros, e de alguns beijos que me foram tão próximos e reconfortantes durante aqueles cinco anos. Foi ontem, podia ter sido hoje.
Aprendemos, quase todos, a ler, a citar, a sublinhar, a glosar, a escrever e a pensar de forma diferente. Sentimos a autoridade do saber, identificámos trastes e embustes, olhámos para os exemplos. Criticámos, discutimos fervorosamente cada vírgula. Houve quem cultivasse hábitos de trabalho, de colaboração com o outro, de respeito para com a diferença. Muitos tornaram-se amigos, camaradas, parceiros, sócios; outros amantes. De gente e de muitas coisas. Poucos de leis, mais pela justiça, que pela liberdade todos trilhámos o caminho e aprendemos a lição.
E no fim cada um seguiu o seu rumo. Até hoje.
Se pensarmos no que ficou, nas quatro décadas que se eclipsaram à velocidade de um fósforo, talvez nos vejamos submergidos num carrossel de lembranças e de emoções.
Mas antes que tal acontecesse, que tombássemos sob o peso de uma memória cada vez mais distante e traiçoeira; e aquelas que tão queridas nos foram se desvanecessem, houve tempo, pese embora algumas ausências, ora ditadas pela incontornável lei da vida, outras pela geografia ou o utilitarismo táctico do quotidiano que nos rege, e que tantas vezes nos afasta de nós próprios e impede o livre fluir da genuína afectividade, de convocar a preceito os últimos resistentes de uma tribo que entendeu preservar e cultivar a memória, a fraternidade e a amizade.
Foi assim que correspondendo ao apelo, porventura na evocação da linhagem de um Shakespeare – “But if the while I think on thee, dear friend, All losses are restored and sorrows end” – ou de Alberoni, para quem a amizade será um “instante de verdade”, ou, como alguém escreveu, “uma ilha de ética num mundo sem moral”, oitenta e oito almas, dissseram-me, alinharam-se para um conveniente e fraterno encontro que ignorou continentes, atravessou fronteiras, e por momentos se estendeu da Alameda da Universidade a um hotel das redondezas, onde foi então possível voltar a trocar abraços e a beber dos mesmos rostos e sorrisos que há tanto nos encantaram.
Talvez por isso, depois da primeira confrontação com a realidade, no átrio da faculdade, e da aceitação da irreversível mudança provocada pelo sulco dos anos, que se prolongou numa romaria ao Anfiteatro 1, com a tão generosa quanto inesperada presença do carismático mestre, no seu genuíno e simpático estilo cartooniano, despido de funções protocolares, se entendeu sublinhar a autenticidade do encontro com a gravação da simplicidade da passagem do tempo na austera eternidade da pedra. Sem gongorismo, sem prosápia, sem ademanes desnecessários. “No devagar depressa dos tempos”, frase lapidar e incontornável de um senhor da diplomacia.
Como é próprio de quem reconhece a gratidão do que lhe foi transmitido, sentimento maior dos que prezam a integridade, a virtude, e rapidamente identificam nos outros, nos seus semelhantes, nos que o merecem, a grandeza do carácter, a autenticidade dos justos, a lhaneza no olhar, a frontalidade do percurso.
Ao redor de uma mesa, sorrateiramente contemplando rostos na distância, redescobrindo nomes, entre um brinde e um piscar de olhos, vendo a música escapar-se pelos anos oitenta de outra era, ou imaginada ao largo do golfo de Sorrento na voz de Lucio Dalla, “qui dove il mare luccica e tira forte il vento", enquanto uma mão me tocava e um sorriso se recuperava, as vozes voltaram a tornar-se familiares. Próximas.
Como se sempre ali tivessem estado, e a ternura de outrora, o afago, o sorriso, se recuperasse em cada abraço, no brilho do olhar, ao mesmo tempo que se ignorava o que nos ia passando pelo prato. Enfim, saboreando cada gole de vinho entre dois dedos de conversa como se por ali corresse um Romanée-Conti, poderoso, ajudando as folhas a voltarem-se sozinhas com as nossas caricaturas.
E foi bom, deveras foi, recuperar para aquele cenário Armindo Ribeiro Mendes, como há quarenta anos, com a disponibilidade, a simpatia e a proximidade de sempre, exclusivo dos maiores, que de cagança só se fazem os tolos.
No regresso, pelo silêncio de estradas que há muito deixei de percorrer, vendo cair no ruído dos faróis com que me ia cruzando as primeiras chuvas de Outono, recuperei a solidão interior, que tão próxima me é, também a alegria das longas noites de estudo, boémia e paixão, e preparei-me para a saudade do dia seguinte. Reconfortado para mais uma longa viagem até ao outro lado do mundo, puxando o fio de um longo novelo. Esperando em breve poder rever os que faltaram à chamada, os que não pude abraçar, e que aqui e além vão andando pelas suas vidas.
Ciente de que a ausência, uma vez mais, por muitos anos que passem, não é mais do que um detalhe no compasso de espera do reencontro. Na eternidade, como a Mélita me transmitiu, dos abraços que fizeram, e fazem, de nós aquilo que somos. E que jamais esquecemos.
Morreu Rick Davies, um dos tipos dos Supertramp. A gente dançava esta School - e a Give a Little Bit e mais uma ou outra - nas festinhas e nas matinées dançantes no Beat, no Browns, Porão da Nau e similares, bebendo cubas livres e esfumaçando SGs, Filtros, Gigante ou Ventil ansiando pelos slows... Mas era um banda refutada, fatela por assim dizer. Exactamente por causa isso não os fui ver quando cá vieram neste 1979. E lembro-me de ter lido com total concordância (apesar de não os ter visto, claro) a crítica desaprovadora do António Macedo no então influente "Sete" - está reproduzida em blog, basta engrandecer as imagens que se lê muito bem.
Mas, deixando-me de coisas, tenho saudades dos Supertramp. E do Beat...
“- Ó Avó! Porque é que tens garrafas vazias na estante dos livros?” Não são garrafas vazias, são recipientes cheios de memórias e recordações felizes e divertidas."
“-E são recipientes de quê?” São antigas garrafas de Pepsi, que nós trouxemos de Moscovo há mais de quarenta anos".
“-Mas não dizem Pepsi; apenas têm um E, um N ao contrário e uns símbolos estranhos." São letras do alfabeto cirilico – que estão para os russos como o abecedário está para nós - e essas letras querem dizer exactamente Pepsi."
“-E sabia a quê, a Pepsi na Rússia?” Sabia a Pepsi. E soube pela vida no dia em que lá chegamos. Como chegámos duas horas atrasados ao hotel, já não havia jantar. Só vodka, Pepsi e bolachas rançosas no bar. Teve de servir e matou a fome que era muita."
“- A Rússia é horrível, avó? "Quem te disse isso? Estive lá há muito tempo, mas gostei muito de ver o que nos mostraram. Já deve ter mudado bastante desde esse tempo, ou então não. Já nessa altura era tudo fachada."
“- O que é que quer dizer tudo fachada? "Quer dizer que por detrás de todo o esplendor que nos mostravam, existia uma ruína presa por arames. “ – Não entendi. "Deixa lá ver se te sei explicar… o hotel, as estações de metro, as cadeiras da Ópera, os supermercados com grandes letreiros luminosos, mas vazios no interior, até os candeeiros da rua, por exemplo, parecem imponentes e majestosos se apenas olhares sem ver com atenção. Um segundo olhar, mais acurado, mostrava falhas na construção, na estruturação, na reparação, na restauração… e interiores tristes, apagados, muitos vazios e envelhecidos. Mas isto foi há quarenta e quatro anos. Agora deve ser extraordinário viver num país rejuvenescido, livre, esclarecido e sempre na vanguarda do desenvolvimento."
"- Gostavas de lá voltar? "Gostava sim, mas tenho um dedinho que me diz que iria ficar muitíssimo desapontada."
Este fim-de-semana realizar-se-ão as 24 Horas de SPA-Francorchamps, uma da grandes provas do calendário internacional das provas de resistência. Antes disso, porém, ainda há tempo para deixar aqui algumas imagens da última edição das 24 Horas de Le Mans, que foi a 4.ª prova do Mundial de Resistência da FIA.
Uma grande corrida que deu a 3.ª vitória consecutiva à Ferrari. Desta vez ao 499P da equipa AF Corse, com o número 83, magistralmente conduzido por Robert Kubica, Yifei Ye e Phil Hanson.
Na classe LMP2, a vitória foi para o carro 43, o Oreca 07-Gibson, da Inter Europol Competition, conduzido por J. Schmiechowski, T. Dillmann e N. Yelloly, sendo igualmente de salientar a vitória nos LMGT3 do Porsche número 63 da equipa Manthey 1st Phorm, tendo ao volante Hardwick, Pera e o consagrado Richard Lietz.
Nesta última categoria vai ainda um aplauso para o Chevrolet Corvette da TF Sport, com o número 83, que conseguiu o 3.º lugar da classe e onde voltou a brilhar, ao lado de Van Rompuy e Cliff Eastwood, o luso-angolano Rui Andrade.
Neste 25 de Junho Moçambique comemora meio século. Eu devia - e tinha isso planeado - hoje aqui publicar um texto analítico, ensaístico. Mas adio. Pois ponho-me…
Em 1990, quando acabei a tropa - que então era obrigatória, e saíra-me “em sortes” -, através do na época fulgurante “Expresso Emprego” logo encontrei um trabalho: feito “director”, com belíssimo ordenado (os tempos eram assim), o usufruto de um carro e também de um apartamento fronteiro ao mar, em São Pedro de Moel. Numa empresa de roupas! E todos poderão perceber o que passou na cabeça daquele pós-mancebo, assim feito bem-posto, alcandorado num ambiente obviamente pejado do então celebrado “mulherio”.
(Texto para o meu novo "O Pimentel". Onde colocarei os textos mais "pessoais", desadequados aqui. Fica a informação para quem o quiser/puder subscrever, em modalidade paga ou gratuita)
Hoje vou ao São Jorge ver o espectáculo do Tim. Eu gosto dos (seus) Xutos. Continuo a pensar que o português mais relevante - e não só na música - da minha geração é o Pedro Ayres de Magalhães, por razões que agora não desenvolvo mas sumarizo: na grandeza de si próprio, Homem que é, descomplexou este traste país. Sim, então o mais-velho Soares fez-nos, para o bem e para o mal, “mediterrânicos”, desse mar do meio afinal charco do qual ainda não saímos. E sim, nessa época Lopes e Mota convenceram-nos que poderíamos ser campeões. E, mais ainda, sim, Saramago (e Lobo Antunes) explicaram que até éramos inteligentes. Mas o Magalhães fez mais, foi português! E convocou-nos a nisso segui-lo, refez-nos. E estou feliz pois, há poucos anos, tive a honra de o (re)conhecer - cruzara-o superficialmente “nos tempos” - e o privilégio de lhe dizer isto mesmo. Julgo que o Ayres - o marechal Ayres, se se quiser aceitar o que sinto - não terá desatinado com o meu emotivo arrazoado, até balbuciado.
Mas isso - esse “isso” que agora, velhote, me é o fundamental - é outra coisa. E nada obsta a que os “meus” hinos, as minhas memórias, sejam as do Xutos. Desde o inicial concerto com os Minas e Armadilhas nos meus 15 anos, já nem me lembro onde correu esse verdadeiro “punkismo”, terei bebido demais… Mas lembro bem o “1º de Agosto” do Rock Rendez-Vous em 1984, ali ido com amiga boazuda, mais velha e com o namorado ausente - a malta dos Olivais sabe do que, de quem, falo, mas quarenta (!!!) anos depois já nem é inconfidência -, eu puto num “a ver no que isto dá”, mas a esquecer-me disso - até porque ela também indiferente, diga-se -, pois logo exultante, pulando, diante do “Já estou farto de procurar / um sítio para me encaixar… / eu vou para longe, para muito longe / … falta-me o ar para cá ficar”, isso que vim a seguir na vida. E sim, naquele dia terei urrado “se me amas / se me queres…”, mas para o ar, desarrumado. Vinte anos!, tinha, e ali com uns tipos a rockarem o que tinha eu no âmago…
E nesse longo entretanto vi-os imensas vezes. Um dia num qualquer recanto do Ribatejo, a esgalharem imenso num meio vazio rinque de patinagem, ali tendo uma primeira parte dos Radar Kadafi - a banda da minha rua, a Bolama, quando o Tiago, o Guli, o Ambrósio, o Fernando e o Sampaio tinham decidido que seria eu o “road manager” da banda então em ascensão, eu puto atrapalhado (e ganzado, diga-se) em demasia para ser “manager” de mim-mesmo quanto mais de outros negócios “on the road”…
E lembro o 1986, quando o amigo António Miguel - ele próprio um mito no nosso meio estudantil, pois “manager” dos à época rutilantes Trovante, veterano de palco da festa do Avante, um gajo soberbo, cabeça muito madura (digo-o mesmo, então meu colega de grupo de faculdade, no meio daquilo tudo o que fazia) - me deu acesso ao então celebrado Xutos no Pavilhão do Restelo. Assim eu ascendendo ao “lá em cima”, onde estava ele, produtor, camarote ou lá o que era. E eu, carregado do tão estupidificante haxe, a ver e a urrar o “conta-me histórias daquilo que eu não vi” já e a clamar “amas a vida e eu amo-te a ti” para aquela quem nem ali estava. Mas também momento (crucial, sim) de transição pessoal, percebi-o, pois subindo o degrau para estatuto de observador analítico, ao olhar lá para baixo, o recinto do pavilhão apinhado de gente exultante, imensas bandeiras agitadas, todos “loucos” com os Xutos - “isto é um fenómeno”, disse-me, aprendiz de antropólogo, para logo voltar ao êxtase diante de quem me cantava avisava “contra tudo lutas / contra tudo falhas / todas as tuas explosões / redundam em silêncio”.
Muito tempo depois, e em tão diferentes tempos…, no final do milénio as paupérrimas mentes de então do Instituto Camões enviaram os Xutos a Maputo, num festival (dito “Pontes Lusófonas”) que eu logo percebera me viria a custar o belo e apetecido emprego. Mas isso, o tétrico embrulho, não era coisa deles, lá foram… Na Feira Popular acorreram algumas centenas de pessoas. Eu, mesmo se amargurado (forma educada de dizer fodido) com tudo aquilo, escondi-me na felicidade de … ver os Xutos em Maputo. Ali na primeira fila, já sem o fato-e-gravata, que então me era curial, e ao lado do patrício Hernâni (um rijo heavy barbudo e gordo, desses “como deve de ser”) alçando os nossos “X”… Subi ao camarim, o Kalu a perguntar-me “estes gajos não gostam de rock?”, diante do silêncio que os acolhera, eu a rir-me, dorido com a imbecilidade de quem os tinha ali levado, “sim” mas “não vos percebem”. E tinha sido uma bela rockada… Logo depois a Nice, a belíssima Nice - das mulheres mais bonitas que conheci na vida -, a verdadeira princesa de Pemba, ofereceu uma festa em sua casa, deu para todos nos conhecermos.
As décadas foram passando. Regressei à “terra”, num riff muito desafinado destruí a minha família! Ou talvez apenas a mim mesmo. Poucos anos depois a minha então juvenil filha pediu-me para a acompanhar a um festival rock. Trinta anos depois voltei a pedir uns bilhetes ao amigo António Miguel, o qual não via há anos, desde que fora a Maputo num concerto qualquer… E lá segui, já um pouco trôpego, à Costa da Caparica para um “estranho brilho na areia molhada”, mas já mais para que o sentisse a minha filha Carolina, qu’a vida é agora dela… Mas fiquei estupefacto, pois à chegada dos Xutos logo ela - e os seus, putos quatorzinhos - entraram em modo rock, entusiasmados, conhecedores… “pai, não tocaram a "Maria”", queixava-se depois, no fim, eufórica, a minha filha, mostrando-me que seguiam eles, afinal, fiéis aos mais-velhos. E “Mulher do Leme” ali a sonhei, em erupção de carinho amoroso…
Depois zanguei-me com os Xutos, coisas de se associarem aos políticos. Não era preciso, sempre tinham passado ao lado disso - sim, iam à Festa do Avante mas … sempre haviam seguido sem as merdas do “sistema”, num verdadeiro it’s only rock’n roll e nós gostamos.... Mas ao vê-los no falso Rock in Rio, entenda-se bem, ao vê-los no festival no velho “Cambodja” - esse onde os nossos iam buscar o “cavalo” -, a meter o Marcelo, o Ferro Rodrigues, o Medina e o Costa, essa gente a pantominar o nosso “X” em pleno palco? A ira foi-me terrível: apaguei os postais de blog em que os louvava, deitei fora os CDs que deles tinha, parti os vinis…
Claro, quando depois o Zé Pedro morreu fui até ao cemitério aqui nos Olivais - e nisso ombreando com a mais bela beldade aqui da rua, lendária mesmo, então já sexagenária avó, “nos tempos” inacessível tamanha a diferença de idade, aqueles 3 ou 4 anos… Fui lá para fazer o X à passagem do féretro. Fi-lo! Com lágrimas internas, despedindo-me do verdadeiro “Homem do Leme”.
Mas a zanga não podia demorar. Pois há anos tentei fazer um doutoramento, já ia nas 400 páginas ou mais. Desvaneceu-se entretanto - para quê fazê-lo?, para quê “remar, remar / forçar a corrente” se sabendo-me já sem cabimento? Mas nesse esforço, inglório, escrevera 30 páginas sobre o “Método” da minha disciplina, essa antropologia, as quais quis que fossem um “berras às bestas / que t(m)e sufocam / em braços viscosos / cheios de pavor”, os eunucos convictos que pululam nos “corredores”. E apresentei-me, nu, pobre pila à mostra, (quase) concluindo sobre como trabalhei 20 anos em Moçambique, como fui antropólogo ao som dos Xutos, deste modo:
E ontem, já quarenta anos depois, o António Miguel pergunta-me “queres ir ver o Tim?, dou-te um bilhete”, “está a esgotar, despacha-te”. Claro que sim!, entusiasmo-me, lesto, pronto a ouvir o Tim d’agora, num “conta-me histórias, daquilo que eu não vi”. Hoje anuncio na vizinhança que irei ao concerto. “Onde vais comprar as ganzas?”, riem-se, “aos Candeeiros? ao Gordo?”, já com sarcasmo… arqueológico (sabem, sacanas, que a última vez que comprei uma pedra tinha 21 anos). “Vais com quem?”, avançam, cruéis, sabendo que não tenho “miúda” para içar às cavalitas, e mesmo se a tivesse a radiculite o vetaria. Mas estrearei o cantil que herdei do meu pai, vou comprar a vodka barata e bebível do Lidl, e seguirei ao São Jorge, “à minha maneira”, “Sacola às costas, cantante na mão”. Pois, sei bem, ainda “tudo em mim, é um fogo posto”, até porque “a vida é sempre a perder”.
Fui entrevistá-lo no início da minha carreira, ao hospital de São José, em Lisboa, onde ele trabalhava como modesto funcionário administrativo. Surgiu-me um indivíduo de elevada estatura, algo desengonçado, hesitante nas palavras. Iniciava frases que não terminava, tinha dificuldade em olhar de frente a câmara ao ser fotografado.
Guardo dele a imagem de um homem tímido, avesso a todas as formas de estrelato, parecendo surpreendido por ser tão enaltecido e ovacionado.
Carlos Paredes faria hoje cem anos. Falecido em Julho de 2004, deixara de tocar bastante antes, tolhido por uma doença degenerativa. Mas a sua música está tão viva como no momento em que nasceu na guitarra que este magnífico compositor e intérprete dominava de modo sublime. Arte herdada do pai, mestre Artur Paredes, figura quase lendária nas noites de serenata em Coimbra.
Oiço uma vez e outra as peças saídas da inspiração ímpar daquele homem tímido que um dia entrevistei num gabinete sombrio de hospital e nunca cesso de me deslumbrar com aquele som tão universal sem deixar de ser tão português.
«Age de modo a que a tua vida, quando chegar ao fim, tenha valido a pena», ensinava um célebre pensador. Foi o que Carlos Paredes fez, quase pedindo desculpa a quem o escutava por ter um talento do tamanho do mundo.
Não me lembro dos anos anteriores à Argentina, o que, pelos meus cálculos, faz com que a Argentina tivesse ido aprender costura com a minha mãe pelos seus 17 anos. Era assim que se fazia antigamente. Para muitos jovens, terminada a 4.ª classe, a classe era determinante. Ou a sua família era abastada o suficiente para poderem seguir os estudos, ou escolhiam um mister, aprendendo uma profissão sob os ensinamentos e supervisão de um Mestre ou de uma Mestra, que tinham percorrido o mesmo caminho, como tantos outros antes deles.
A Argentina completou 80 anos e foi dia de festa. Chegámos cedo e lá estava a igreja, imponente e muda, um marco de resistência, que nem houve raio que a partisse.
Para ser um verdadeiro passeio pela memória, decidimos fazer o passeio dos alegres, mas em modo inverso, e caminhar o “ caminho da escola”, pelas mesmas ruas e travessas que me levavam da casa dos meus pais até à Rua da Bica do Marquês e que eu percorria com todo o tino dos meus nove anos, tendo à minha guarda a Guida e a Cristina, quatro anos mais novas. Passávamos o Café Galvão, o Chafariz, descíamos pelas ”Terras” e virávamos à esquerda a seguir ao Salão Portugal, evitando assim o mal falado "Café das Meninas” na esquina da Travessa de Paulo Martins. Era curioso para mim o nome dado ao tal “antro” pois, sempre que por lá passava acompanhada, nunca vislumbrei qualquer menina através do vidro das montras.
O “caminho da escola” está irreconhecível. As ruas, travessas, largos e pátios são os mesmos, têm o mesmo nome, mas a modernização pintou por cima das imagens do passado uma caiada de edifícios recuperados, transformados em condomínios privados.
O Salão Portugal, onde vi tantos filmes, muitos sem ter sequer idade para os entender (como por exemplo “Lágrimas e Suspiros”), é agora a sede do Comité Olímpico Português. Se olimpíadas por lá houve, foram seguramente cinematográficas.
A farmácia está onde funcionava o fotógrafo da Céu, que tantas fotos tipo passe nos tirou para as fichas escolares, no início de cada ano lectivo. A padaria acabou, a capelista da D. Augusta, onde se comprava os aviamentos e mandava forrar botões, também. A Sapataria Marilu e a Cá-Jor já passaram a memória há muito tempo.
A Memória não ajudou em nada as memórias que guardei.
Deixámos as cogitações no ar ignoto e fomos ao encontro da Argentina, porque afinal este era o seu dia, e foi uma festa dentro da festa. As minhas memórias eram também as suas memórias mais gratas de jovem aprendiz. E prodigiosas que elas são. Foi um desfilar de lembranças maravilhosas e sentimo-nos gratas por as termos vivido.
A Memória continua lá, mas apesar de ser sempre bonita, já pouco me traz à memória.
Ao longo dos anos em blog de vez em quando abordei Boaventura Sousa Santos (em particular no velho ma-schamba). E quando, recentemente, surgiram as denúncias do seu continuado assédio sexual e moral escrevi alguns postais sobre isso - intitulei-os "Affaire Coimbra" (1, 2, 4) mas não os resumirei agora.
Conheci-o em Maputo em 1997. Logo o percebi como um tipo indecente. Também com as mulheres, mas sem poder afirmar ou mesmo imaginar coisas desta gravidade. Mas era-me evidente, então nos meus 30 anos, a cagança fálica do sexagenário diante das mulheres que o seguiam.
Lembro-me de ter sido convidado (devido às funções laborais que tinha), um ano depois, para jantar em casa de um casal amigo, por ocasião de uma sua visita. Estavam 4 casais à mesa, junto a ele e à sua (implícita evidência) namorada. E a forma boçal como ele se lhe dirigia. Pouco me interessa como os casais se tratam entre si - quantas vezes isso é refracção, até inconsciente, da sua intimidade sexual - mas aquele autoritarismo era ofensivo para os convivas. "Caramba, à mesa está a minha mulher, que é uma Senhora, e tem de assistir a esta cena?!", pensei. E entre nós, logo no carro de regresso a casa, comentámos a miserável situação.
Sousa Santos coordenou um projecto de investigação em Moçambique, para isso congregando o escol nacional das ciências sociais. Ao longo de anos visitou o país, e as histórias da sua irascibilidade eram recorrentes. Eu sofrera-a, com completo despropósito, "ossos do ofício" sossegou-me o embaixador meu chefe, que era um verdadeiro Senhor.
O velho coimbrão disparatava com tudo e (quase) todos - talvez não fiasse fino, sempre o pensei, com uma sua colaboradora que me pareceu muito estruturada, rija, tanto que décadas depois veio a ascender a biombo do famigerado Silva Pereira. Mas o resto da corte ida de Coimbra tremia, como capim.
O pessoal local também sofria as iras do lente coimbrão. Um dia, tive de chamar à razão um amigo, que estava imensamente indisposto devido a (mais) uma birra boaventuriana: "ouve lá", disse-lhe, "tu não estás a ver bem! Ele lá na terra dele é apenas um professor, a merda de um mero professor. Tu aqui, na tua terra, és um órgão de soberania. Põe-no em sentido! Ou julga ele que veio à "colónia"?". E o meu amigo assim o fez!!!
Enfim, as histórias sobre o "Boaventura" são imensas. Muito para além da vacuidade demagógica daquela tralha toda - já o escrevi em tempos: deram-me o calhamaço "Crítica da Razão Indolente", li a introdução. Aquilo é uma patacoada, de ágil retórica mas apenas isso. Escrevi emails a um punhado de colegas em Portugal, num "já leram isto? não há um antropólogo que desmonte isto?", recebendo um timorato "não te metas com o Boaventura" vindo de um sénior da disciplina.
A pompa "teórica" e demagogia "libertária" dos "movimentos sociais" não é agora o fundamental. Mas é evidente que essa propaganda de um "messias teórico" de movimentos políticos lhe alimentou a ideia de "império" pessoal. Pois quantas vezes me contaram a história, que talvez seja apócrifa - mas se non è vero, è ben trovato - de ser ele recebido num qualquer encontro no pobre Brasil com "investigadoras" "activistas" em êxtase, cada uma com uma letra na t-shirt, alinhando-se depois para formarem o "Boaventura". Pois o poder é erótico e a revolução libidinosa. E BSS talvez tenha aprendido isso, já quarentão, nas suas visitas solidárias à democrática e revolucionária Albânia do Enver Hoxha.
Enfim, tudo isto, o "Boaventura" e o seu séquito de "activistas", seria ridículo se não fosse tétrico. Há agora um punhado de mulheres que fizeram queixa dele, do seu assédio sexual e do seu assédio moral. Serão um pequeno núcleo daqueles que ele martirizou durante anos. E daqueles que ele recompensou, já agora - entenda-se, nenhum de tantos aparecerá a dizer "pois eu ganhei este emprego/trabalho porque lhe fiz isto e aquilo".
Às queixas o velho coimbrão resmungou umas inanidades, dizendo-se ofendido. E agora colocou um processo a 4 das queixosas: pois às residentes em Portugal exige-lhes o silêncio e a "desculpabilização", o desdizerem-se. De uma delas, a Sara Araújo, sou amigo, distante. A última vez que a vi foi há já um bom par de anos. E conto como, pois tão denotativa foi a cena... Fui a Coimbra para o seu doutoramento, em cujo júri pontificava BSS. A sessão foi na patética de anacrónica Sala dos Capelos - a qual tanto diz sobre aquela universidade, e concomitantes práticas, de docentes e... de discentes. Depois ela ofereceu um lanche num bar óptimo na cidade que estava em voga (não recordo o nome, que era qualquer coisa industrial). Estávamos ali, em alegre convívio, família, amigos e colegas quando apareceu ele, impante de chapéu. Lembro-me de ter pensado "que pavão, não sabe que numa sala se descobre a cabeça?". Tudo demonstrando a arrogância malcriada e egocêntrica do lente.
À Sara Araújo conheci-a para aí há vinte anos, quando jovem investigadora chegou a Maputo, na companhia de uma outra colega e amiga. Logo a percebi imensamente empenhada, inteligente, jovial. Uma miúda giríssima (vá lá, não me acusem de mansplaining...). E completamente embrenhada nas teorias boaventurianas. Sobre as quais se veio a doutorar. Com competência e brilho - o seu "oponente" foi o António Manuel Hespanha, grande intelectual, grande académico e homem decente.
Há poucos meses li o seu nome no rol de queixosas. Fiquei estupefacto. "Até com esta menina ele se meteu?" ("menina", sim, eu ainda tenho a imagem dela quando recém-chegada a Maputo). Destratou uma mulher que o reverenciava? Claro que exclamei o óbvio: "filhodamãe".
Nesta reportagem com dois episódios do canal Now (sábado 16.11. 22.30 h.) (sábado, 23.11., 22.30 h.), a Sara dá a cara, tal como outras queixosas. Conta o acontecido, o sofrido. Com coragem! "É de Homem!" dizia-se antes. "É de Mulher!!!". O que estas mulheres contam é verdadeiro. O pior nem será, digo eu, o afago mariola. Será mesmo a devastação das expectativas pessoais e profissionais, o amesquinhar do quotidiano, a angústia sobre o futuro. E, até mais, o rombo na personalidade.
Boaventura Sousa Santos não é o único, nem de perto nem de longe, a usar posições de poder, económico, estatutário ou intelectual, para cometer assédio sexual ou, talvez ainda mais comum, assédio moral/laboral. Mas será o mais escandaloso, pois isto é completamente ao invés de tudo o que andou a perorar durantes décadas, diante de tanto silêncio e de tamanha anuência encomiástica.
E o velho, nos seus 84 anos, não tem ninguém à sua volta - família, fiéis - que lhe diga "Acabou! Vai para casa, deixa de importunar os outros. As outras!". Provavelmente porque está como merece. Só! Espero que o juiz lhe diga isso.
«Et par le pouvoir d'un mot Je recommence ma vie Je suis né pour te connaître Pour te nommer
Liberté.»
Eu fui lá e vi.
Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa manhã fria e cinzenta de Abril, por meados da década de 80. Tinha eu 21 anos e estava em Berlim com três colegas de profissão: a Isabel Stilwell, o Luís Marinho, o Jerónimo Pimentel. Nesse dia fomos ao outro lado. Cruzando o Muro da Vergonha que desde 1961, por imposição dos soviéticos, rasgava a meio a antiga capital do Reich. Como incisão de bisturi na pele, separando bairros da mesma cidade, fracturando ruas dos mesmos bairros, até fragmentando casas das mesmas ruas que permaneceram emparedadas durante aquelas tristes décadas em que Berlim-Ocidental, na certeira definição de John Kennedy, era a fronteira mais avançada do mundo livre.
Cruzámos a linha divisória por via ferroviária, na estação de metropolitano de Friedrichstrasse, após termos sido forçados a trocar marcos ocidentais por marcos orientais artificialmente cotados em paridade pelo regime comunista, à revelia do valor real das moedas, como condição para transpor aquela fronteira artificial na cidade dividida.
Éramos muito poucos a fazer aquele percurso. Quase todos vinham em sentido inverso, de lá para cá. E eram todos velhos, que marchavam num silêncio mais eloquente que mil discursos. A ditadura de Erich Honecker só permitia deslocações de 24 horas a cidadãos aposentados.
Do lado de lá, tudo diferente. A começar pelo muro - na verdade, duas muralhas paralelas (a segunda foi erguida em 1962) separadas por uma extensão de 100 metros, denominada Faixa da Morte pelos berlinenses. Riscado e coberto de grafitos na face virada para Berlim Ocidental, imaculado na metade comunista da cidade, de onde aliás ninguém podia acercar-se dele. Rodeado de redes metálicas electrificadas, implacavelmente resguardado por soldados armados até aos dentes em 302 torres de vigilância dispersas por 66 quilómetros de extensão.
Símbolo sinistro da Guerra Fria.
Símbolo supremo da falência de um sistema que prometia libertar os homens e afinal só os mergulhou na escravidão.
Arrepiava a escassez de transeuntes do lado de lá.
Arrepiava ver as majestosas Portas de Brandemburgo colocadas em terra de ninguém, no termo da Unter den Linden, a maior avenida de Berlim.
Arrepiava o silêncio dominante. Em perfeito contraste com o fervilhante bulício da Berlim ocidental, "burguesa" e "capitalista".
Atravessámos a pé uma larga avenida onde não passavam carros e logo fomos interceptados pelo apito de polícias que acorreram ao nosso encontro exigindo inspecção minuciosa de passaportes. Acabaram por nos deixar prosseguir, mas com um solene aviso: proibido atravessar fora das passadeiras. Mesmo numa avenida onde quase não víamos circular veículos, excepto uns decrépitos Trabants leste-alemães, fontes ambulantes de poluição.
Tínhamos de gastar os marcos orientais, que só ali eram aceites. Era hora de almoço, procurámos algum sítio onde pudéssemos matar a fome. Mas naquela imensidão desértica a oferta turística estava reduzida a quase nada. Depois de muito procurarmos, lá nos enfiámos num sell service na Alexanderplatz, de tabuleiro na mão, a comer umas salsichas envoltas em gordura a preços astronómicos. E sem mais nenhum cliente por perto.
Acabámos por gastar a maior parte do dinheiro num sucedâneo de táxi que nos conduziu pela zona mais monumental de Berlim - que devido a um capricho do destino permaneceu após a II Guerra Mundial sob a tutela soviética da cidade - e numa breve incursão aos arrabaldes, onde havia uns bairros operários de aspecto moderno e finalmente pessoas a circular na rua.
No regresso, ainda entrámos num Armazém do Povo, com vários pisos, na esperança de gastarmos parte do dinheiro que nos sobrara. Mas a esmagadora maioria das prateleiras estava vazia. Não havia clientes, só funcionárias que nos ignoraram olimpicamente.
Trouxe de lá uns postais manhosos. O meu único recuerdo palpável da Berlim comunista.
Foi o meu baptismo do "socialismo real" no segmento oriental da maior cidade germânica, na então denominada República Democrática Alemã - que nada tinha de democrático e tudo tinha de repulsivo logo ao primeiro olhar.
No regresso, enquanto nos cruzávamos novamente no posto fronteiriço com os velhos agora de regresso a casa após fugazes visitas a familiares no Ocidente, sentimo-nos testemunhas privilegiadas da História, no tempo e no espaço.
Mil vezes a caótica, barulhenta, transgressora Berlim Ocidental do que a organizada, vigiada e silenciada Berlim-Leste - a cidade de maior progresso e com maior prosperidade económica do bloco socialista, como rezava a propaganda.
Nos dias imediatos, observei ainda com mais atenção o "muro de protecção antifascista" mandado erguer por Nikita Krutchov "a pedido" do ditador comunista alemão Walter Ulbricht em 13 de Agosto de 1961 para impedir a contínua sangria de alemães de Leste, sobretudo jovens, rumo ao Ocidente. Três milhões e meio tinham escapado nos 15 anos anteriores.
De tantos em tantos metros, levantava-se uma cruz branca em memória de cidadãos do Leste alvejados mortalmente pela implacável guarda fronteiriça comunista ao procurarem fugir da ditadura.
Morreram largas dezenas ou mesmo centenas entre 1962 e 1989.
Faz amanhã 35 anos, festejei com irreprimível alegria a queda do Muro da Vergonha. Festejei-a com os magníficos versos de Paul Éluard com que saudei o fim de outras ditaduras: «E pelo poder de uma palavra / Recomeço a vida / Nasci para te conhecer / Para te chamar // Liberdade.»
Nessa noite inesquecível de 9 de Novembro de 1989, milhares de habitantes de Berlim puderam pela primeira vez transpor a fronteira livres da absurda ameaça de poderem morrer alvejados pelos agentes do Estado. E também com eles, embora a milhares de quilómetros de distância, celebrei essa palavra tantas vezes pervertida e conspurcada na boca e no gesto de ditadores de todos os matizes, de todos os quadrantes, de todas as ideologias.
Uma palavra que não tem fronteiras, barreiras, Muro em Berlim.
A incómoda, imprevisível, inapagável palavra Liberdade.
Em 1976, os portugueses foram chamados pela primeira vez às urnas para eleger o Presidente da República, que iria substituir após sufrágio universal o até então Presidente Francisco da Costa Gomes, indicado para o cargo pela Junta de Salvação Nacional, após o pedido de demissão do General António de Spínola em Setembro de 1974.
Creio que não havia jovem da minha idade que não tivesse um interesse partidário ou fosse activista filiado num partido, como era o meu caso e o da minha melhor amiga.
Concorriam às eleições presidenciais o General Ramalho Eanes, que contava com o apoio do PS, PPD, CDS e MRPP, o já General Otelo Saraiva de Carvalho, apoiado pela UDP, MES, FSP e PRP, o Almirante Pinheiro de Azevedo,como candidato independente, e Octávio Pato, com o apoio do PCP e das suas ramificações,como a UEC, por exemplo.
Os filiados dirigentes de núcleos e células tinham como objectivo primordial angariar votos para o candidato apoiado pelo seu partido, onde quer que fosse. Sendo eu estudante, fiquei encarregada (pelo coordenador do Partido Socialista a quem respondia directamente) de coordenar a campanha eleitoral no Liceu, com folhetos informativos palestras e pósteres. A direcção do Liceu tinha, para o efeito, improvisado um mural em contraplacado para afixar tudo o que fosse propaganda eleitoral.
Todos os dias de manhã seguia eu para o liceu com um pequeno balde, uma trincha, uma latinha de cola, um ror de panfletos e os pósteres com a foto do General Eanes (que iam mudando a figura e a mensagem com alguma frequência), e começava por colar estes últimos no mural. Depois, com a ajuda de mais cinco ou seis camaradas, distribuíamos os panfletos pela carteiras ainda vazias das salas de aula. Tudo isto feito muito rapidamente e até poucos minutos antes de tocar para a entrada, para não dar tempo de as facções rivais nos apanharem os papéis e os deitarem para o lixo, substituindo-os depois pelos seus próprios panfletos. Era uma guerra de coordenação e paciência. Quando começámos, se encontrávamos panfletos nas carteiras, juntávamos os nossos e pronto. As meninas da UEC jogavam sujo. Destruíam todos os folhetos que encontravam e deixavam apenas os delas, colavam os pósteres do Octávio Pato por cima dos outros e, à falta de material para cobrir o exposto, faziam bigodinhos à Hitler nas fotos do General Eanes.
Toda esta sacanice era coordenada pela minha melhor amiga e colega de carteira, coordenadora da propaganda eleitoral no Liceu, pela UEC do PCP e do Senhor Pato. Ao princípio levámos tudo aquilo na desportiva, mas depressa compreendemos que as meninas uéques estavam irredutíveis porque tinham “recebido ordens” e nunca as iriam contrariar. Aí é assim? Está bem. Também sei jogar sujo quando é preciso.
Fiz um desenho fácil de reproduzir e arranjei giz colorido. Missão: desenhar um pato depenado e escrever "UEC, UEC, UEC, abriu a caça aos Patos", em todos os quadros negros de todas as salas de aula.
Fazer isto todos os dias, colar cartazes, distribuir folhetos e “dar palestras” implicava chegar ao Liceu às sete da manhã, ficar por lá até às cinco e meia da tarde e passar os intervalos de guarda ao mural dos pósteres. Muitas vezes quando lá chegávamos já estava tudo destruído, o que acontecia nos minutos das aflições para chichis durante as aulas, por isso passámos a ficar muitas vezes aflitas também e de tal modo que a professora de matemática escreveu um recado para os meus pais, alvitrando possíveis problemas de bexiga.
A minha amiga e eu tínhamos um pacto de não-agressão e não discutíamos o trabalho politico-partidário que cada uma estava encarregue de fazer. Mas éramos mazinhas umas para as outras e a única maneira de vencer a campanha no Liceu, era pelo cansaço.Passámos então a colar pósteres mais pequenos do General Eanes nos tampos das carteiras das meninas da UEC. Todos os dias. Tendo como ponto de ordem a erradicação de toda a propaganda contrária às directrizes do partido, tinham as pequenas uéques de arrancar as colagens de onde quer que estivessem. Ora a cola que utilizávamos nos tampos das carteiras não era diluída, pelo que tinham forçosamente de conviver com o nosso General boa parte do tempo lectivo, até conseguirem arrancar dali aqueles fascismos.
De uma certa forma ganhámos na propaganda e depois nas eleições. Foi uma festa. Foi hercúleo o esforço para não rir nem grasnar no dia escolar que veio após as eleições.
Curiosamente, as apoiantes da candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho, talvez por pensarem que a eleição eram favas contadas, não tiveram grande impacto na vida estudantil no Liceu. Olhavam-nos do alto da sua certeza com algum desprezo e apenas protagonizavam sessões de esclarecimento programadas. Tinham os pósteres do seu candidato intocáveis por acordo tácito e não nos incomodavam. Era como se não existíssemos. Sobre Pinheiro de Azevedo, muito pouco se viu ou ouviu, por isso a batalha “do bem contra o mal” foi basicamente PS+PSD+CDS+MRPP, contra a UEC do PCP.
Como acontece na vida de todos nós, passado o calor da primeira vez, tudo voltou ao que era dantes, sem ressentimentos, porque as amizades fortes não se destroem com ideologias, aceitam-se e continuam como sempre foram. Ainda nos rimos de todas essas peripécias, mas depois de a minha amiga ter partido como cooperante para Angola, perdi-lhe o rasto. A sua família entretanto mudara de cidade, eu também mudei de casa e o PCP nunca me respondeu aos e-mails, que ainda continuo a enviar, com menos frequênciaé certo, mas com esperança de que alguém por lá os leia e me saiba dar notícias dela.
Agora as campanhas eleitorais são feitas online, carregadas de aldrabices no X e em outras redes sociais. Muito pouco me admiraria se num futuro próximo os votos se contabilizassem em likes.
In illo tempore fugi de Direito, primeiro, e de Sociologia, depois, e fui estudar Antropologia. Um erro, crasso (desaconselho-o às novas gerações - não por causa dos saberes disciplinares acumulados, esses louváveis...). Tal se deveu à complacência dos meus pais, crentes de que eu, de facto então petiz, mesmo se barbado, saberia do melhor para o meu destino.
No final da licenciatura (que cumpri de modo trôpego, arrastado e sofrido) tinha de concluir uma disciplina, mal leccionada - sei do que falo, pois vim a leccionar tal coisa, anos depois e alhures, fazendo-o de modo muito melhor e ainda assim mal. Para esse êxito era necessário escrever um trabalho e apresentá-lo oralmente. Era uma "história de vida", coisa então muito em voga, fruto do sucesso de "Os filhos de Sanchez" do célebre O. Lewis e, menos, do anterior "Juan Perez Jolote, biografia de um tzotzil", do mexicano Arciniega. A ideia, nada má de per se, era que da "história de vida" (que não da biografia) de alguém se induziam os feixes constitutivos / constrangedores de determinado contexto histórico.
A colegada, impregnada de "sensibilidade etnográfica" - ainda que à bolina naquele Portugal "europeu" que tornou a velha etnografia em meros "salvados", sem que nenhum dos funcionários públicos doutorais a avisasse disso - correu a buscar um qualquer vizinho vulto típico, pitoresco, que lhes contasse a sua "história". Já não me lembro, mas presumo que tenham saído do armazém a velha criada, o pescador curtido pelo Sol, um oleiro ou amolador, etc.. Eu, "do grupo dos Olivais" - como ainda hoje me apresentam - disse uns palavrões, peludos e líquidos, sobre isso de andar a estudar durante os melhores anos da vida para depois ir à procura do "típico". Em monólogo mudo insultei colegas e professores. E fui entrevistar o meu querido barbeiro.
Esse era um excepcional "cabeleireiro" (como exigia ser chamado, dado que tinha formação profissional, e disso era ufano) de homens. Aos seus clientes regulares oferecia dois cortes: o da tropa - e quando segui para Mafra fez-me um pente zero à mão (!!!!), tão rapado que o mancebo alferes me veio a dizer que não era preciso tanto... uma obra de ofício mesmo espantosa; e o de casamento, coisa que algo depois fui cobrar, chegado de Maputo na antevéspera do meu feliz enlace.
O seu salão olivalense, de labor imparável, era também um refúgio. Ali se acoitavam os jovens depressivos do bairro, "drunfados" claro, os outros "drunfados" oficiosos, pois voluntários, alguns ex-junkies mais mansos, enfim, o colectivo dos desamparados sem mais. E mesmo amigos e vizinhos que ainda seguiam inteiros, ou isso julgavam. Crente Ba'hai, e algo prosélito, mas sem excessos, a todos acolhia e, com imensa generosidade, aconselhava. Num saber que os pobres doutos diriam de "senso comum" mas que a todos acalentava - e por isso sempre regressavam os seus ouvintes. Verdadeiras terapias de grupo...
Enquanto nos aparava - com a sua, de facto, magnífica técnica - perorava, incansável. Não só sobre os rumos que cada um presente naquela plateia, real congregação, deveria seguir. Mas também, e essa era tema constante, sobre a sua experiência de vida. Pois ele era um magnífico, grandiloquente, mitógrafo de si mesmo. E o que mais me fascinava era o facto daquela sucessão de mirabolantes episódios ser contada e recontada sem falhas, sem aquelas alterações que desvendam a ficção e, muito mais, a autoficção. De facto, ele era um talentoso mitógrafo, pois crente irredutível do mito que construía, ele-mesmo...
E basto credível nisso - ainda hoje os que o frequentaram afiançam da veracidade dos detalhes então narrados: a participação na resistência armada antifascista, o mergulho na clandestinidade, a partida "a salto" para o estrangeiro, as desavenças com o (micro)movimento em que militava. E o ressurgir da "normalidade", fazendo-se cabeleireiro no Sul de França, estudando isso e estabelecendo o salão em Marselha. Tendo-se seguido a fuga daquele país, para Norte, para mais um mergulho na clandestinidade da resistência armada antifascista. Depois viera o 25 de Abril, a liberdade e o seu regresso ao país. E só então o remanso - laborioso, é certo - da vida familiar, vivida naquela religiosidade bonacheirona, até anafada, de uma imensa generosidade, esse a que nós assistíamos, acompanhávamos. Que tanto me encantava. E a tantos dos meus vizinhos, seus fiéis clientes.
Nesse rodopio que lhe fora o vivido narrado havia um episódio que me era mais sonante, a causa da sua fuga de Marselha, norte afora e regresso à luta antifascista clandestina. Pois o seu salão marselhês havia tido um rápido sucesso, a clientela crescera desmesuradamente. Alain Delon cedo se tornara cliente habitual. Mas esse tinha um defeito: julgava que o seu estrelato lhe concedia estatuto privilegiado. Um dia, farto das irrupções de Delon no seu salão, o cabeleireiro disse-lhe, sem rodeios: "Ó Alain, tens de ir para fila como os outros, espera a tua vez...". Claro, o actor, despeitado, mandou os seus capangas violentá-lo, tendo ele fugido, felizmente antes de ser seviciado. E nunca a história faltava, e nunca tinha versões adulteradas...
E talvez a lembrança dessa prazerosa, mas convicta, encarnação do Delon de Borsalino seja exemplo maior de como através do cinema a ficção se pode tornar real - verdadeiramente real. Sendo assim uma grande homenagem ao actor que agora morreu. E que fez das suas personagens parte da nossa vida, de forma tão... viva.
(Claro, escolhi como meu objecto de "história de vida" o maior mitógrafo que conhecia, o menos típico "informante" que tinha à mão. Porque acreditava, e ainda acredito, que era o mais significante para ser ouvido... Apresentei o trabalho final na minha última aula de licenciatura, dia grande... A assistente do regente, jovem ainda, quando expliquei as causas daquela minha opção, respondeu-me, crítica, lá do meio da sala: "isso é o contrário do que qualquer manual de investigação recomenda!"... Eu, também jovem, ripostei, até sem querer: "se eu estivesse preocupado com manuais tinha ido estudar Gestão" - coisa que, de facto, deveria ter feito, estaria agora numa prateleira algo remunerada, em teletrabalho pré-reforma.
Dispensava-se de exame final se obtida uma nota de frequência bastante acessível, até medíocre. Mas tive de o ir fazer, foram implacáveis... Mesmo assim ainda hoje penso que "O Barbeiro do Alain Delon" foi o melhor texto que já escrevi.)
Há quase 50 anos, andava eu pelos meus 17 anos de rebelde bem comportada, quando, inesperadamente o meu pai me presenteou com quatro bilhetes para o Teatro Villaret, que lhe tinham sido ofertados pelo saudoso Vasco Morgado. A “peça” era o Godspell. Confesso que nunca tinha ouvido falar, mas significava poder sair à noite e regressar depois das 23 horas, e isso sim, era um presente inestimável. Convoquei a Batatinha e a Mena que ficaram tão ou mais alvoroçadas do que eu, pusemos o plano em marcha, mas entretanto fizeram-nos os nossos maiores conhecedoras do senão, sem o qual a bela iria por água abaixo: precisávamos de acompanhante “responsável”. A Batatinha propôs falarmos com o seu tio Zé, multiprofissional e músico nas horas vagas, mas pessoa adulta que, nesse ponto, cumpria perfeitamente os requisitos. Aceitou um tanto reticente, mas era uma boa pessoa e totalmente persuadível.
No dia do espectáculo, jantámos cedo, partimos palradoras para Belém e apanhámos o eléctrico para a Praça da Figueira, de onde seguiríamos de Metro para o Marquês de Pombal. A noite estava fria e conseguimos convencer o Tio Zé a levar-nos à Ginjinha. Era uma maluquice que nenhuma de nós tinha feito antes, mas que diabo! Era a nossa primeira grande noite de liberdade.
Bem aquecidas, seguimos no metro a rir e cantarolar descontraídas e um tanto descontroladas. O ar frio no rosto, caminhando a distância entre a saída do metro e o Teatro Villaret deixou-nos mais despertas e menos toldadas, entrámos e o espectáculo começou.
Honestamente, esperávamos aquilo a que se chamava “apanhar uma seca”, mas fomos surpreendidas por um musical espectacular. A música e as interpretações de actores muito nossos deixou-nos rendidas. Reconhecemos a Mafalda Drummond, a Rita Ribeiro, a Vera Mónica, o Carlos Quintas, o Joel Branco, a Anabela, o Norberto de Sousa, a Verónica, o Nuno Emanuel, o José Luís Ardiz, o Carlos Norberto… e reconhecêmo-los multifacetados actores e excelentes cantores.
Baseado no Evangelho segundo S. Mateus, o musical apresenta uma trupe cómica de excêntricos que se juntam a Jesus para ensinar as suas lições através de parábolas, jogos e tolices. Foi a primeira vez que ouvimos “Day by Day”, bem como uma mistura eclética de música que vai do pop ao vaudeville, enquanto a vida de Jesus é representada em palco. Mesmo depois da crucificação, a mensagem de bondade, tolerância e amor de Jesus Cristo continuou viva de forma vibrante e brilhante.
No final, que chegou rápido demais, a magia continuou. Tivemos um convite para ir aos bastidores, porque a Batatinha conhecia a Rita que foi colega de liceu da sua irmã Malucha. Nem sei como descrever a experiência. Um Sonho de uma Noite de Inverno talvez? Foi como se aquele Puck travesso que vive em todos nós tivesse rédea solta e nos fizesse rodopiar endiabradas e felizes com todo aquele grupo maravilhoso.
Se eu fechar os olhos, consigo recuar quase 50 anos e volto aos bastidores do Villaret e estamos lá todos, alegres, conversadores, fantásticos e jovens, muito jovens. Muitos já partiram. Dos quatro safados daquela noite libertina, resto eu e todas as recordações felizes daquele feitiço de Deus.
Day by Day, na versão cinematográfica. Lamentavelmente não encontrei a versão portuguesa.
Escrever bem, de acordo com a técnica jornalística, é adoptar a regra dos três C: de forma clara, concisa e compreensível.
O leitor não tem tempo nem paciência para voltar atrás porque não entendeu o significado daquilo que acabou de ler nem paga um jornal para decifrar charadas que lhe são servidas em forma de notícia.
Apesar disso, são cada vez mais frequentes as frases incompreensíveis na nossa imprensa - até em títulos. Frases codificadas, oriundas de um jargão tecnicista ou empresarial e polvilhadas de estrangeirismos que certos jornalistas pretendem à viva força incorporar no vocabulário comum. Esquecendo que devem ser eles a descodificar a mensagem e não o leitor a esforçar-se por tentar decifrar aquilo que se pretende comunicar.
Deparo todos os dias com frases em que prevalece o tom charadístico, numa espécie de caricatura involuntária do que não deve ser a escrita usada em jornalismo: opaca, inexpressiva, indecifrável.
Ao falar-se na crise do jornalismo contemporâneo omite-se com frequência este aspecto: a falta de capacidade para comunicar. Quando iniciei a actividade jornalística, na década de 80, os velhos tarimbeiros da redacção costumavam dizer aos novatos como eu: «Escreve de maneira a que possas ser entendido não pelo físico nuclear mas pela empregada doméstica.» Utilizando, desde logo, um vocabulário acessível a todos. Precisamente ao contrário daquilo em que que tantas vezes reparo agora. Como se o mais difícil fosse escrever de forma simples.
Às vezes dou por mim a pensar que fazem falta esses tarimbeiros nas redacções actuais - pessoas dotadas não com títulos académicos mas com o bom senso que deriva da sabedoria comum.
Muitos dos erros que costumo anotar seriam evitados pelo olhar atento e experiente de um bom editor. Mas como evitar a propagação do erro se quem tantas vezes o comete são profissionais do jornalismo investidos das funções de direcção ou editoria?
Voltarei a este assunto, raras vezes ou nunca debatido no espaço público. Para já, ficam 50 exemplos que fui colhendo da nossa imprensa:
"falta cada vez menos para o kick-off deste jogo"
"alternar entre o aceleramento, o giroscópio e os dois joysticks"
"a proposta tem vários regimes e vários períodos de phasing out"
"o processo devia ter sido muito mais friendly user para os utilizadores"
"um verdadeiro apreciador de cozido à portuguesa nunca recusa um convite para descobrir um novo spot com este 'prato do dia'."
"o event designer conta como gere a profissão"
"podia ser um storyboard"
"temos de buscar clusters de desenvolvimento"
"não se consegue compreender porque é que há este delay"
"as teorias de agenda-setting"
"criámos todo um sistema de back up"
"downgrade sobre a dívida portuguesa"
"o presidente fez o takeover"
"ele estaria a causar twitter storms constantemente"
"o mercado de credit default swaps atribui a Portugal uma possibilidade de default"
"case study na habitação"
"retalhistas omnichannel"
"hotel em Armação de Pêra é All inclusive"
"reestruturação de programas do daytime da SIC"
"se o governo quiser fazer um restyling, tudo bem"
"acessórios must have da estação"
"ficámos a saber o breakdown dos chumbos"
"é economic adviser do Governo"
"este país adora quick fixes"
"o que os debates speed-dating fizeram pela democracia portuguesa"
"seria um trabalho de accountabillity útil"
"os estúdios a olharem ao espelho num blacklot em Hollywood"
"os respectivos artwork e streaming"
"Portugal tem de descer os salários em relação ao core da zona euro"
"o partido funciona por key words"
"livrarias queer migram para a Net"
"a última filosofia para superar crises conjugais é o coaching familiar"
"sou uma fashion victim"
"vai ser criada uma safe house em Lisboa"
"poderá utilizar o crowdfunding"
"o governo não pode ceder nos valores core"
"tentativa de criação de um catch-all party"
"Ucrânia e Polónia preparam-se para o seu close-up"
"as contas são o nosso bottom line"
"Bolsa alvo de ataque de short-selling"
"ao Chelsea sai quase sempre bem o papel de underdog"
"um daft punk em pose de artes marciais"
"receio de ficar fora do loop"
"após algumas semanas de avaliação em soft opening, X concluiu que deveria criar também um menu de balcão”
"ex-ministro recomenda a criação de um imposto one shot"
"o percurso foi feito para ser TV-friendly"
"o investidor segue uma estratégia passiva de buy-and-hold"
"a dialéctica entre believers e haters"
"o cinema teve outros provocadores e outros pranksters"
Isto de quando um homem veio para velho sucedem-lhe as memórias, em até frenéticas associações de ideias. E, felizmente, vêm elas em molde selectivo (entenda-se: autocensório), elegendo assim as risonhas e deixando as bisonhas no limbo amnésico. Explico o caso desta manhã:
Fui agora ao grupo-FB "Portugueses em Maputo", a publicitar o meu "Torna-Viagem" (que só se pode comprar através desta ligação colocada no título ), na (vã) esperança que algum desses patrícios (e não só...) se possa interessar. E nesse grupo vejo que neste fim-de-semana os Xutos actuarão na cidade... Logo me lembro da estreia deles por lá, há um quarto de século.
Uns meses antes haviam aparecido por lá uns funcionários em ambições de organizarem um grande espavento "lusófono", como então se dizia, com "impacto popular", tipo "encher um campo de futebol". E para tal queriam levar a Daniela Mercury, cantora então muito em voga - e que seria uma contratação caríssima, presumi. Ripostei-lhes - depois de em surdina suspirar um ateu "ai, meu Deus!" - que se o objectivo era encher um campo da bola seria melhor levarem o Roberto Carlos! Eles voltaram à pátria (a antiga Metrópole, entenda-se). E passados uns dias o meu amigo António Miguel - que eles haviam contactado para operacionalizar a "coisa" - telefona-me, meio (ou mesmo todo) espantado, "ouve lá, então tu queres levar o Roberto Carlos a Moçambique?, é que me pediram para tratar do assunto!!!". Eu ia caindo da cadeira abaixo, com a gargalhada azeda. Pois esquecera-me que, já naquela época da alvorada da internet, diante de alguns tipos de gente era preciso afixar um emoji quando se ironizava (ou sarcasmava, como fora o caso)...
Enfim, passados os tais meses lá aportou a comitiva musical em busca das enchentes. Mas numa selecção menos histriónica, e bem mais plural. Alheio à cena acabei por me associar aos convívios. Por intermédio da querida amiga Isabel Ramos, e conjuntamente com ela, pude oferecer à extensa comitiva musical uma excelente massada de peixe, confeccionada in loco no (velho) Mercado do Peixe pelo cantor Vitorino. Dia agradabilíssimo, durante o qual eu e a minha mulher pudemos conhecer Sérgio Godinho, ali o único verdadeiramente curioso sobre a cena musical (e artística, e literária) do país.
Uns dias depois foi o concerto dos Xutos, na velha FACIM. Arregaçaram imenso, como então o faziam. Tanto que às tantas abandonei a pose "sô doutor" e fui lá para a primeira fila, esbracejando Xs, nisso ombreando com o patrício Hernâni, sempre soberbo no seu visual "heavy". No final subi ao camarim e logo fui interrogado pelo Kalu - que não se lembrava de mim mas que eu conhecera anos antes, pois havíamos estado os dois a servir shots de tequila num casamento de amigos comuns - "ouve lá, estes gajos não gostam de rock?", pois a reacção do público não havia sido tão entusiástica como aquela a que estavam habituados (e mereciam, afianço). "Gostam, mas não reagem da mesma maneira...", antropologizei eu em síntese, fugindo a elaborar sobre as formas diferentes de absorção musical. (E sobre os limites da comunicação "lusófona", musical e não só, que isso seria outro assunto, nada adequado àquela noite).
E depois seguimos todos para a casa da Nice - a sempre princesa de Pemba - para uma festarola divertidíssima, até às tantas. Eu ficando a bebericar com o Zé Pedro ("sou dos Olivais, pá!", havia-lhe dito), um tipo do caraças, de uma gentileza rockeira única. Única mesmo.
Enfim, se estivesse em Maputo hoje iria ao Centro Hípico ver os Xutos. Até porque no início dos 80s os vi quando tiveram os Minas e Armadilhas na primeira parte. E, depois, entre tantas outras vezes, no célebre "ao vivo no Rock Rendez-Vous", no 31 de Julho para que cantássemos em coro, já adequadamente "É amanhã dia 1 de Agosto / E tudo em mim é um fogo posto / sacola às costas cantante na mão..." E foi um longo 1º de Agosto, o fogo posto esteve ateado muito tempo. A ver se reatará..., ainda que duvide disso.
Chai Ling, com 23 anos, falando aos outros estudantes concentrados em Tiananmen (Primavera de 1989)
No coração da remota China muçulmana, a população turcófona continua a ser remetida para guetos nos subúrbios: os melhores empregos e as melhores habitações cabem à etnia han, dominante no conjunto do país. Só existe igualdade na lei, não existe na prática: os uígures são tratados como cidadãos de segunda na sua própria terra. Que crime cometeram? Procurarem manter a identidade cultural, falando a sua língua e professando a sua religião no Estado mais populoso do mundo, onde a norma é esmagar toda a diferença.
Acontece hoje no Xinjiang, acontece há 65 anos no Tibete, aconteceu em 1989 na própria sede suprema do Império do Meio.
Sei bem do que falo. Faz hoje 35 anos, vivi em Macau um dos períodos mais tristes de que me lembro, quando vi esmagar a Primavera com que milhões de chineses haviam sonhado – a Primavera política, após quatro décadas de regime ditatorial, afogada em sangue naquela trágica madrugada em Tiananmen, a Praça da Paz Celestial, que nunca fez tão pouco jus ao seu nome poético. Após mês e meio de protestos pacíficos, iniciados em Abril, com a morte súbita do ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês, o reformista Hu Yaobang, destituído dessas funções em 1987.
Recordo as expressões festivas nos rostos de muitos chineses semanas antes, dias antes, quando toda a esperança parecia possível.
Recordo as figuras dos principais dirigentes estudantis, imagens que galvanizaram toda uma geração – jovens como Wang Dan, Chai Ling e Wuer Kaixi, que viriam a ser perseguidos e forçados ao exílio.
Recordo a euforia popular que rodeou a chegada à capital chinesa em meados de Maio, para uma visita oficial, de Mikhail Gorbatchov, o homem que se preparava para derrubar a Cortina de Ferro e servia de inspiração ao ansiado derrube da Cortina de Bambu.
Recordo também a mobilização de uma vasta força repressiva, composta por 300 mil soldados mandatados para estancar a revolta. Recordo a proclamação da lei marcial por Deng Xiaoping (que só viria a ser levantada em Janeiro de 1990) e o afastamento do líder do partido, Zhao Ziyang, acusado de ser excessivamente brando pelos falcões da ditadura e condenado a partir daí à morte civil e à reclusão doméstica com carácter vitalício.
Recordo o silêncio de chumbo nos dias subsequentes ao massacre.
Recordo sobretudo o impressionante instantâneo daquele homem sem rosto nem nome, de braços nus, enfrentando uma sinistra fileira de tanques, imortalizado pelo clique da máquina fotográfica de Stuart Franklin. Símbolo máximo da dignidade humana perante a força bruta - há 35 anos em Pequim, hoje no Xinjiang (ou Sinquião, na grafia portuguesa) que teima em ser diferente.
Quando ouço dizer à minha volta que já não existem heróis, lembro-me sempre daquele homem sem medo.
Que outro nome haveremos de dar-lhe senão esse – o de herói?