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Delito de Opinião

Xutos em Maputo

jpt, 08.06.24

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Isto de quando um homem veio para velho sucedem-lhe as memórias, em até frenéticas associações de ideias. E, felizmente, vêm elas em molde selectivo (entenda-se: autocensório), elegendo assim as risonhas e deixando as bisonhas no limbo amnésico. Explico o caso desta manhã:
 
Fui agora ao grupo-FB "Portugueses em Maputo", a publicitar o meu "Torna-Viagem" (que só se pode comprar através desta ligação colocada no título ), na (vã) esperança que algum desses patrícios (e não só...) se possa interessar. E nesse grupo vejo que neste fim-de-semana os Xutos actuarão na cidade... Logo me lembro da estreia deles por lá, há um quarto de século.
 
Uns meses antes haviam aparecido por lá uns funcionários em ambições de organizarem um grande espavento "lusófono", como então se dizia, com "impacto popular", tipo "encher um campo de futebol". E para tal queriam levar a Daniela Mercury, cantora então muito em voga - e que seria uma contratação caríssima, presumi. Ripostei-lhes - depois de em surdina suspirar um ateu "ai, meu Deus!" - que se o objectivo era encher um campo da bola seria melhor levarem o Roberto Carlos! Eles voltaram à pátria (a antiga Metrópole, entenda-se). E passados uns dias o meu amigo António Miguel - que eles haviam contactado para operacionalizar a "coisa" - telefona-me, meio (ou mesmo todo) espantado, "ouve lá, então tu queres levar o Roberto Carlos a Moçambique?, é que me pediram para tratar do assunto!!!". Eu ia caindo da cadeira abaixo, com a gargalhada azeda. Pois esquecera-me que, já naquela época da alvorada da internet, diante de alguns tipos de gente era preciso afixar um emoji quando se ironizava (ou sarcasmava, como fora o caso)...
 
Enfim, passados os tais meses lá aportou a comitiva musical em busca das enchentes. Mas numa selecção menos histriónica, e bem mais plural. Alheio à cena acabei por me associar aos convívios. Por intermédio da querida amiga Isabel Ramos, e conjuntamente com ela, pude oferecer à extensa comitiva musical uma excelente massada de peixe, confeccionada in loco no (velho) Mercado do Peixe pelo cantor Vitorino. Dia agradabilíssimo, durante o qual eu e a minha mulher pudemos conhecer Sérgio Godinho, ali o único verdadeiramente curioso sobre a cena musical (e artística, e literária) do país.
 
Uns dias depois foi o concerto dos Xutos, na velha FACIM. Arregaçaram imenso, como então o faziam. Tanto que às tantas abandonei a pose "sô doutor" e fui lá para a primeira fila, esbracejando Xs, nisso ombreando com o patrício Hernâni, sempre soberbo no seu visual "heavy". No final subi ao camarim e logo fui interrogado pelo Kalu - que não se lembrava de mim mas que eu conhecera anos antes, pois havíamos estado os dois a servir shots de tequila num casamento de amigos comuns - "ouve lá, estes gajos não gostam de rock?", pois a reacção do público não havia sido tão entusiástica como aquela a que estavam habituados (e mereciam, afianço). "Gostam, mas não reagem da mesma maneira...", antropologizei eu em síntese, fugindo a elaborar sobre as formas diferentes de absorção musical. (E sobre os limites da comunicação "lusófona", musical e não só, que isso seria outro assunto, nada adequado àquela noite).
 
E depois seguimos todos para a casa da Nice - a sempre princesa de Pemba - para uma festarola divertidíssima, até às tantas. Eu ficando a bebericar com o Zé Pedro ("sou dos Olivais, pá!", havia-lhe dito), um tipo do caraças, de uma gentileza rockeira única. Única mesmo.
 
Enfim, se estivesse em Maputo hoje iria ao Centro Hípico ver os Xutos. Até porque no início dos 80s os vi quando tiveram os Minas e Armadilhas na primeira parte. E, depois, entre tantas outras vezes, no célebre "ao vivo no Rock Rendez-Vous", no 31 de Julho para que cantássemos em coro, já adequadamente "É amanhã dia 1 de Agosto / E tudo em mim é um fogo posto / sacola às costas cantante na mão..." E foi um longo 1º de Agosto, o fogo posto esteve ateado muito tempo. A ver se reatará..., ainda que duvide disso.
 
 

1º de Agosto - Xutos e Pontapés

Ainda há heróis

Pedro Correia, 04.06.24

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Chai Ling, com 23 anos, falando aos outros estudantes concentrados em Tiananmen (Primavera de 1989)

 

No coração da remota China muçulmana, a população turcófona continua a ser remetida para guetos nos subúrbios: os melhores empregos e as melhores habitações cabem à etnia han, dominante no conjunto do país. Só existe igualdade na lei, não existe na prática: os uígures são tratados como cidadãos de segunda na sua própria terra. Que crime cometeram? Procurarem manter a identidade cultural, falando a sua língua e professando a sua religião no Estado mais populoso do mundo, onde a norma é esmagar toda a diferença.

Acontece hoje no Xinjiang, acontece há 65 anos no Tibete, aconteceu em 1989 na própria sede suprema do Império do Meio.

 

Sei bem do que falo. Faz hoje 35 anos, vivi em Macau um dos períodos mais tristes de que me lembro, quando vi esmagar a Primavera com que milhões de chineses haviam sonhado – a Primavera política, após quatro décadas de regime ditatorial, afogada em sangue naquela trágica madrugada em Tiananmen, a Praça da Paz Celestial, que nunca fez tão pouco jus ao seu nome poético. Após mês e meio de protestos pacíficos, iniciados em Abril, com a morte súbita do ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês, o reformista Hu Yaobang, destituído dessas funções em 1987.

Recordo as expressões festivas nos rostos de muitos chineses semanas antes, dias antes, quando toda a esperança parecia possível.

Recordo as figuras dos principais dirigentes estudantis, imagens que galvanizaram toda uma geração – jovens como Wang DanChai Ling e Wuer Kaixi, que viriam a ser perseguidos e forçados ao exílio.

Recordo a euforia popular que rodeou a chegada à capital chinesa em meados de Maio, para uma visita oficial, de Mikhail Gorbatchov, o homem que se preparava para derrubar a Cortina de Ferro e servia de inspiração ao ansiado derrube da Cortina de Bambu.

Recordo também a mobilização de uma vasta força repressiva, composta por 300 mil soldados mandatados para estancar a revolta. Recordo a proclamação da lei marcial por Deng Xiaoping (que só viria a ser levantada em Janeiro de 1990) e o afastamento do líder do partido, Zhao Ziyang, acusado de ser excessivamente brando pelos falcões da ditadura e condenado a partir daí à morte civil e à reclusão doméstica com carácter vitalício.

Recordo o silêncio de chumbo nos dias subsequentes ao massacre.

 

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Recordo sobretudo o impressionante instantâneo daquele homem sem rosto nem nome, de braços nus, enfrentando uma sinistra fileira de tanques, imortalizado pelo clique da máquina fotográfica de Stuart Franklin. Símbolo máximo da dignidade humana perante a força bruta - há 35 anos em Pequim, hoje no Xinjiang (ou Sinquião, na grafia portuguesa) que teima em ser diferente.

Quando ouço dizer à minha volta que já não existem heróis, lembro-me sempre daquele homem sem medo.

Que outro nome haveremos de dar-lhe senão esse – o de herói?

 

Leitura complementar: Stuart Franklin: how I photographed Tiananmen Square and 'tank man'

A Adega do Isaías, 30 anos depois...

jpt, 14.05.24

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É o "A Bola", claro, sempre consabido e fiel órgão oficioso de uma popular agremiação lisboeta, que recorda a efeméride: hoje, aos 14 de Maio de 24, cumprem-se exactamente 30 anos que jantei no "Adega do Isaías", então renomado restaurante em Estremoz.

Regressara há poucos dias a Portugal, depois de ter trabalhado durante 3 meses na África do Sul como observador eleitoral, aquando da ascensão de Nelson Mandela à presidência. Fora uma experiência extraordinária, exaltante, imensamente marcante, e não só por ter sido a minha primeira viagem em África. Tanto que a tentei descrever, e à influência que em mim teve, através de dois postais, distanciados no tempo: o "Now is the time: Nelson Mandela" e o "O Corredor" - e a ambos coloquei na minha selecção de uma centena de crónicas, o "Torna-Viagem" (o qual, repito a tentativa de o impingir, se pode encomendar através desta ligação aposta no título).

Naquela época (e não só então, e não só então...) eu estava muito enlevado - para não dizer de outra forma - pela minha namorada, condição que já não era recente. À chegada, saudoso, logo marcámos para o primeiro fim-de-semana uma incursão a Estremoz, uma bela opção havida por razões que já não recordo. E assim avançámos, ficando albergados numa linda casa em recanto bucólico, até idílico, poiso que decerto veio depois a ser considerado "de turismo rural". 

Ao segundo dia da estada, no sábado, aconteceria o Sporting-Benfica, em plena fase final do campeonato, esse que estava destinado ao nosso Sporting, então possuindo uma magnífica equipa: treinada pelo professor Queirós, que à pátria dera recentemente dois tão entusiasmantes títulos mundiais, blindada por uma excelente parelha de centrais (Valckx e Vujacic), dificilmente repetível, e orlada por um meio-campo luxuoso, esse sim mesmo irrepetível, verdadeiros "Quatro Violinos" (Figo, Capucho, Paulo Sousa, Balakov). E para conclusão, lá na frente impunha-se o codicioso avançado Jorge Cadete, oriundo da antiga Porto Amélia, então já Pemba - terra para onde eu me aprestava a partir para um também entusiasmante semestre de "trabalho de campo".

O jogo teria transmissão televisiva. No nosso refúgio havia uma televisão, algo que à chegada eu havia considerado inútil, até intrusivo, em tal local. Durante a tarde a beldade, sempre completamente alheada das coisas do futebol, disse-me "vês o jogo e depois vamos jantar", ao tal restaurante que nos havia sido basto recomendado, dito como "o" verdadeiro sítio estremocense. Logo refutei a proposta, pois era o que faltava, abstrair-me dela apenas por causa de um mero jogo da bola... Pois o Amor impunha a sua Lei, em regime de "servidão voluntária", como havia dito o La Boétie (falando, é certo, de outras coisas). Assim abdiquei de ver a partida, imunizando-me às vãs paixões futebolísticas, e naquele fim de tarde fomos passear pelas redondezas. Nunca soube se ela percebeu a magnitude daquela minha atitude, o seu significado - mas é certo que depois casou comigo, tivemos uma filha, e aturou-me mais vinte anos, é capaz de ter compreendido...

Pela hora de jantar (jogo da bola completamente esquecido) entrámos em Estremoz e fomos até ao tal "Adega do Isaías". Uma casa aprazível, numa decoração típica, mais que acolhedora, até reconfortante, de cariz etnográfico, na mesa para nos receber foram instalados uns acepipes iniciais consuetudinários, lembro-me que de fino recorte técnico. Mas num dos topos da sala estava uma televisão - ainda nada de ecrãs engrandecidos que vieram depois a vigorar -, e diante dela estavam congregados alguns clientes locais. No recato da disciplina auto-imposta sentei-me de costas para ela, encarando a amada. Nesse entretanto, e através do empregado "...do Isaías". soube - teve de o ser - estar o jogo no intervalo, que o Benfica ganhava por uns (inusitados) 3-2. Acolhi o prometedor cardápio com um sorriso complacente, convicto que aconteceria a reviravolta ("remontada", espanhola-se agora) do nosso Sporting, e divergi a minha atenção. Ainda assim pelo canto do ouvido notei que na reentrada em campo o prof. Queirós havia tirado o lateral-esquerdo Paulo Torres...

E logo depois o ulular dos restantes clientes fez-me notar que o Isaías - não o do restaurante mas sim o jogador do Benfica - cavalgara à desfilada pela avenida onde já não estava o tal Paulo Torres e marcara o 4-2. Petisquei mais uma lasca de enchidos locais, entrecortados por azeitonas verídicas, ainda mergulhado na carta dos vinhos. Breves minutos passados, ainda rodando o primeiro copo de um bom tinto, que me acalentava sonhos de futuros comuns, o "Isaías" restaurante tremeu com a gritaria estremocense, pois o outro Isaías -. o de Carnide - tornara a cavalgar, com os sequazes, a tal avenida desprovida do Paulo Torres, fazendo o 5-2. Mantive-me impávido, soberbo, nem olhei para o ecrã. Naquela "Adega do Isaías" indiferente aos feitos do Isaías.

Nunca mais voltei a Estremoz. E ainda hoje estou crente de que a minha vida teria sido diferente se o Paulo Torres não tivesse sido substituído.

(Adenda: agradeço à equipa da SAPO o destaque dado a este postal na simpática rubrica "Palavras de blog", devido à "consuetudinários" que aqui usei.)

O meu livro Torna-Viagem

jpt, 01.04.24

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Torna-Viagem, de José Pimentel Teixeira (ligação com acesso ao livro no "sítio" de aquisição)
 

Escrevo em blogs há 20 anos - antes no ma-schamba e no Olivesaria, este um colectivo dedicado ao historial do meu bairro Olivais, depois também no sportinguista És a Nossa Fé. E agora no meu Nenhures e no colectivo Delito de Opinião. A um passo dos 60 anos, decidi publicar umas "memórias". "Presunção e água benta, cada um toma a que quer", e eu tomei a da ideia de talvez interessar a outros o que escrevi sobre o que vivi.

Retoquei uma centena de crónicas (de viagens e paragens), dois terços delas escritas em Moçambique, algumas sobre outros países onde trabalhei, o restante em Portugal no meu retorno após duas décadas de ausência. É uma espécie de "prova de vida"... Ao volume chamei-lhe "Torna-Viagem" e (auto)publico-o agora através da plataforma editorial Bookmundo. 

A impressão do livro é feita apenas por encomenda, tal como a sua venda. A quem tenha interesse bastar-lhe-á "clicar" nesta ligação directa ao livro, colocada no nome, e encomendar o Torna-Viagem

Os que quiserem "folhear" o livro poderão fazê-lo na minha conta na rede Academia.edu:  aqui, onde deixei capa, índice e os três primeiros textos.

Depois, como será óbvio, seguir-se-á o envio postal do(s) exemplar(es) comprado(s), processo que demorará alguns, poucos, dias. Ou seja, o livro não estará disponível nas livrarias físicas. Nem haverá futuros monos, sobras destinadas à célebre guilhotina de livros.

Finalmente, aqui replico a sinopse que apus no livro: Chegando agora aos sessenta anos deixo neste "Torna-Viagem" algo como se uma autobiografia. Faço-o através de uma centena de crónicas escritas durante as duas últimas décadas. Sessenta dessas agreguei-as na primeira parte do livro, à qual chamei "A Oeste do Canal", pois escritas sobre Moçambique, nelas ecoando viagens por aquele país afora, alguns pequenos episódios — trechos do real — que senti denotativos das transformações ali acontecidas, e memórias de personalidades que conheci durante os meus dezoito anos de permanência. Em algumas outras recordo momentos vividos em países onde trabalhei. E as restantes três dezenas formam a segunda parte do livro, na qual deixo excertos deste "Ocaso Boreal", a minha actual aventura de retornado pós-colonial defronte à "pátria amada".

Amava a arte porque amava a vida

António-Pedro Vasconcelos (1939-2024)

Pedro Correia, 10.03.24

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Devo a António-Pedro Vasconcelos - e disse-lhe isto, de viva voz - três bens inestimáveis. Ele, sem fazer a menor ideia, ajudou-me a crescer enquanto leitor, ajudou-me a distinguir a  boa da má escrita e ajudou-me a ver cinema com outros olhos. 

Li-o durante décadas. Já não na mítica revista Cinéfilo, que o ajudou a catapultar para a fama com a sua verve crítica e o apuro formal da sua prosa, mas em publicações diversas, desde a revista Grande Reportagem, há muito desaparecida, até ao semanário Sol antes da recente deriva que até o nome lhe alterou. Sem esquecer O Independente, onde publicou alguns dos seus melhores textos. Fazia parte daquela geração - com Vasco Pulido Valente, António Barreto e alguns outros - que nos ensinou a escrever. Prosa enxuta, direita ao assunto, sem adjectivos nem advérbios que pesam como chumbo. Contundente, mas com elegância e estilo. 

Com o decorrer dos anos, habituei-me a seguir com proveito as suas recomendações literárias. Recordo várias, desde A Cartuxa de Parma até A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Oscar Wao, de Junot Díaz. Passando por A Consciência de Zeno, de Italo Svevo - por coincidência um dos livros que tenho de momento à cabeceira. Obras que me fizeram amadurecer, não apenas como leitor mas também na escrita.

Escolher quem nos inspira é essencial neste percurso.

 

Mas é como cinéfilo militante que mais lhe devo. Na década de 70, a RTP 2 dedicava parte importante da sua programação a clássicos da Sétima Arte. Fui espectador devoto desse magnífico desfile de filmes, sob a designação Cineclube. Antes da projecção ele falava-nos durante breves minutos sobre cada um, educando-nos o olhar com palavras simples, sem prosápia didáctica nem pompa académica. Aprendi muito com ele sobre John Ford e Otto Preminger, por exemplo.

A sombra de Preminger perpassa naquele que seria o seu filme mais emblemático: O Lugar do Morto, surgido em 1984 - film noir que tão bem reflecte a atmosfera daquele Portugal pós-revolucionário, com Ana Zanatti e Pedro Oliveira nos principais papéis, saltando com sucesso dos ecrãs da RTP para a tela grande do cinema.

Foi o maior êxito de bilheteira na produção nacional daquela década. E também um marco na reconciliação entre o público e a arte cinematográfica falada em português, causa em que António-Pedro militou com a paixão que o caracterizava em tantos outros temas, da política ao futebol. Ele e José Fonseca e Costa - autor de Kilas, o Mau da Fita e Sem Sombra de Pecado - advogaram sempre um cinema feito para o público, não contra ele. E sem o Estado a impor "políticas de gosto" a troco de subsídios. Nunca escondeu o desprezo por aqueles que arruinaram a indústria cinematográfica europeia reduzindo o cinema a obscuro ritual de seita, distanciado do mundo, divorciado da história.

Ao contrário dele. Era um homem que apreciava uma boa conversa, uma boa refeição, um bom jogo de futebol. Homem multifacetado, por vezes contraditório, com amigos de todas as idades e convicções. Homem que não escondia aquilo de que gostava nem o que detestava, sem se refugiar em meias-palavras e recusando precauções sonsas, tão frequentes em Portugal. Homem que amava a arte porque amava a vida. Como bem demonstrou em vários dos seus filmes: basta mencionar Jaime (1999), Os Imortais (2003) ou Os Gatos Não Têm Vertigens (2014).

 

Era eu aprendiz de crítico de cinema quando em 1984 acolhi com vibrante aplauso O Lugar do Morto no jornal onde escrevia. Cada geração tem os seus filmes de culto, adoptei logo este entre os meus. Pouco depois entrevistei-o no seu apartamento, num quinto andar da Rua do Quelhas, na zona de São Bento. Mal lá entrei contemplei, fascinado, uma estante cheia de marcas amarelas: eram as lombadas da revista Cahiers du Cinéma: colecção completa. Não admirava que ele fosse uma enciclopédia do cinema naquele tempo muito anterior à Internet, quando palavras como Google e Wikipédia ainda não tinham sido inventadas.

Foi uma das entrevistas que mais gostei de fazer como jornalista profissional. Quase vinte anos depois reencontrei-o à mesa do Pap'açorda original, no Bairro Alto. Ele era o convidado de uma rubrica que mantive durante bastante tempo no Diário de Notícias em que conversava com figuras da política ou da cultura apenas sobre temas gastronómicos. Também nisso era enciclopédico. Demarcando-se daquela ridícula pose de alguns vultos que se mostram distantes dos prazeres mundanos. 

 

Reencontrei-o por acaso há cerca de nove meses. Na esplanada do Matriciano, um dos meus restaurantes italianos favoritos de Lisboa. Ele sentara-se na mesa ao lado: houve tempo para lhe recordar aqueles nossos encontros que tão grata memória me deixaram. Depois lá foi, de passada larga, chapéu borsalino na cabeça, naquele inconfundível andar que tanto me recordava o Senhor Hulot, genial criação de Jacques Tati. Ninguém lhe daria 84 anos: sempre pareceu mais jovem.

Ia apresentar uma petição na Assembleia da República - contra a privatização da TAP, uma das últimas grandes causas em que se envolveu. Entre tantas outras, ao longo de muitos anos, da oposição a Luís Filipe Vieira no Benfica à luta contra o famigerado "acordo ortográfico". Sem esquecer a campanha presidencial de Mário Soares, em 1985-1986: foi um dos raros que estiveram com ele sem desfalecimentos, do princípio ao fim. Manteve o entusiasmo mesmo quando tudo parecia perdido. Eram as causas de que mais gostava: as causas perdidas. Como um herói romântico do século XIX.

O cinema imita a vida, a vida imita o cinema. Marcado desde o Verão passado por uma tragédia pessoal (a morte inesperada de Diogo, o filho mais novo), António-Pedro foi-se apagando como vela ao vento. Aquele perene sorriso extinguiu-se: chegara o momento do pôr-do-sol. Desapareceu dias antes do 85.º aniversário, que nunca iria festejar. 

 

«O meu ofício é contar histórias através de imagens e de sons. Serão o público e a posteridade a decidir se os meus filmes têm algumas condições para ficar na memória das pessoas. Se são arte, não me cabe a mim definir. Não gosto de rotular à partida se sou artista ou não: sou profissional, gosto mais do termo profissional.» Era assim, falando de si próprio sem prosápia de espécie alguma. Em nítido contraste com tantos medíocres que pululam por aí.

É de Stendhal a extraordinária frase que lhe serviu de lema: «Deseja tudo, espera pouco, não peças nada.» Também isto lhe devo: esta divisa (agora com vénia eterna para ele) tornou-se minha também.

Há quatro anos

jpt, 04.03.24

toquei na minha mãe pela última vez. É certo que a, posteriormente consagrada, directora-geral da autoridade sanitária pública ainda nos viria convocar para visitarmos os nossos "mais-velhos", e que o nosso PR ainda andava, frenético país afora, em comemorações teatrais. Mas, face ao que já grassava na Itália e em Espanha, decidimos não visitar a mãe até que as coisas, que tão negras pareciam, viessem a serenar. Fui, fomos, à Ericeira dizer-lhe isso, afiançando-lhe a crença de que seria por pouco tempo, uma "maçada" apenas, algo a que ela, nonagenária lúcida, acedeu em acreditar.

Uma semana depois, a 13, a minha filha viajou de Inglaterra - no exacto dia em que Warwick, a sua universidade, encerrava por todo aquele ano lectivo (!) -, fui recebê-la ao aeroporto, ainda pejado de exultantes turistas nórdicos em busca de sol de Inverno, vinho barato e peixe grelhado, tal como no Tejo ainda aportavam os gigantes paquetes..., vil e incompetente coisa de país reduzido ao afã da "indústria turística". E, angustiados, seguimos directos para Sul do Tejo, onde amigos-verdadeiros irmãos abriram a levadiça do seu já confinamento para nos albergar. Dias depois o país confinou-se.

Algum tempo depois pude voltar, voltámos, a visitar a minha mãe, à distância sem beijos nem toques, no jardim frondoso da "Residência" onde vivia. E, em piores momentos, apartados por uma barreira de acrílico. Um dia, meses depois, ela, bastante enfraquecida por aquela clausura angustiante, disse-me e repetiu-me "és muito bonito, meu filho, és muito bonito", inédita hipérbole que atribuí a alguma anciã confusão intelectual e a um carinho saudoso. Era, afinal, uma despedida pois morreu poucos dias depois. Sem que eu a pudesse ver uma última vez, já no seu esquife, devido às exageradas restrições, nisso disparatadas, mesmo assarapantadas...

Andava eu acabrunhado, acabrunhadíssimo fiquei, entretanto talvez me tenha libertado do superlativo.               

E acabrunhados então andávamos, ainda que não desistentes: o meu amigo Miguel Valle de Figueiredo - que é não só um bom fotógrafo mas também um homem como deve ser (Homem com H grande, dizia-se) - logo se apartou das angústias e saiu à rua para fotografar a cidade confinada, tendo editado o seu "Cidade Suspensa", a Lisboa dessa inicial era Covid. E depois, meses a fio, continuou a fotografar-nos. Acabrunhados, nisso até exaustos. Deixo aqui alguns de nós por ele fotografados.

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sentada.jpgPara quem se possa interessar: um dia deixei um relato longo dos dois primeiros meses de Covid em Portugal, chamando-lhe "O Capitão MacWhirr e o Covid-19". E julgo que qualquer leitor de Conrad logo pressentirá o seu conteúdo...

Na morte de Odete Santos

Pedro Correia, 28.12.23

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Foto: Global Imagens

 

Quando Odete Santos abandonou por vontade própria a Assembleia da República, em 2007, deputados de todas as bancadas tributaram-lhe uma calorosa ovação em plenário. Acompanhei esse momento e questiono-me se aquela rara unanimidade voltaria a ser hoje possível, fosse quem fosse a figura em causa. Sinto-me inclinado a supor que não: os hábitos políticos mudaram muito, a crispação acentuou-se, as trincheiras foram-se aprofundando.

Odete estava há muito retirada dos palcos mediáticos. Depois do Parlamento, chegou a fazer teatro em Setúbal, cidade adoptiva desta jurista natural da Guarda. Era pessoa de verbo fácil e gargalhada espontânea. Não escondia o que pensava nem temia ser inconveniente, por vezes face ao próprio cânone do PCP, que representou durante 27 anos no hemiciclo de São Bento. «Calma, Odete» era a frase-bordão que lhe dizia o secretário-geral Carlos Carvalhas, ambos caricaturados nos bonecos da divertida e saudosa Contra-Informação da RTP.

Isso ficou patente, aliás, na entrevista que lhe fiz para o Diário de Notícias, a última que concedeu enquanto deputada. 

Quando lhe perguntei se devia haver «mais mulheres» na cúpula dirigente dos comunistas, ela não hesitou um segundo na resposta: «Sim. Deveria haver mais mulheres. Não tenho dúvidas nenhumas.»

 

Sempre simpatizei com ela. Tinha o coração ao pé da boca. Entre ortodoxos e moderados nas fileiras comunistas, alinhava com os primeiros. Mas não por cálculo ou conveniência: era isso o que sentia, era isso o que realmente pensava. Fazia parte da sua maneira de ser e da fidelidade de longa data ao magnético «camarada Álvaro» que a levou à militância no pós-25 de Abril.

No entanto, na rua Soeiro Pereira Gomes nem todos lhe apreciavam o estilo algo dissonante e a popularidade que granjeou fora das paredes partidárias. Odete nunca fez parte dos organismos executivos (Secretariado, Comissão Política), nunca foi líder parlamentar, nunca foi candidata presidencial - ao contrário dos cinzentos e sensaborões António Abreu, Francisco Lopes e Edgar Silva, funcionários diligentes mas totalmente desprovidos de carisma.

Apreciava teatro, cinema, literatura. Era vibrante declamadora de poesia. Gostava de acampar. Nunca fugia a um debate, mesmo com quem estivesse nos antípodas do seu pensamento: permanece na memória de muitos a sua vigorosa defesa de Cunhal, na RTP, como "maior português de sempre" num simulacro de concurso em que emergiu como vencedor Salazar, enaltecido por Jaime Nogueira Pinto. Nem D. Afonso Henriques, nem D. Dinis, nem D. João II, nem Vasco da Gama, nem Camões. A memória histórica é curta, os extremos exercem sobre muitos uma atracção irresistível. 

 

Nessa entrevista que lhe fiz em Abril de 2007, confessava abandonar o parlamento com «uma sensação de alívio». Saudades, só as «do futuro» - parafraseando o "poeta militante" José Gomes Ferreira. Deixando no entanto antever alguma mágoa: sentia que devia ter sido mais bem aproveitada pelo partido que nunca renegou. «Tenho pena de não ter criado condições para fazer trabalho de organização, que é importante.» Por uma vez, ficou-se pelas entrelinhas - aliás facilmente entendíveis.

Lembrei-me de várias ocasiões em que privei com ela - nomeadamente em campanhas eleitorais - ao saber ontem a triste notícia do seu falecimento, aos 82 anos. Era de um tempo em que vultos de diversos partidos se cruzavam nos corredores parlamentares sem confundirem divergência com ódio ou insulto ao adversário. Parece uma era já remota, nestes dias em que abunda o carreirismo político, cada um fala quase só para a sua bolha e as personalidades com voz própria e autonomia profissional estão cada vez mais distantes da vida parlamentar.

Não tenho a menor dúvida: a democracia portuguesa perde com isso.

Memória cinéfila de Lisboa

Pedro Correia, 15.12.23

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Monumental (1951-1984): imponente mas malogrado cineteatro
 
Percorro ruas e avenidas de Lisboa e vou-me lembrando dos cinemas que existiam ainda não há muitos anos espalhados pela cidade. Quase todos desapareceram já, devorados pelos novos hábitos de consumo, que nos mandam recolher a casa e olharmos a vida e os filmes pelo quadradinho da televisão.
 
Na Avenida de Marquês de Tomar, atrás da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, existiu em tempos o cinema Berna: abriu em 1970, com uma fita que fez “estrondoso sucesso”, como então se dizia: Borsalino, com Jean-Paul Belmondo e Alain Delon. Outros tempos, outros hábitos: a filmografia francesa arrastava multidões.
 
Outro cinema estreado por essa altura com uma película falada em francês foi o Satélite, ali ao Saldanha, espécie de irmão mais novo do imponente mas malogrado cineteatro Monumental - onde, em criança, Mary Poppins me deslumbrou. Coisas da Vida, assim se chamava a fita inaugural do Satélite, com Romy Schneider e Michel Piccoli. Esteve cerca de um ano em cartaz, algo impossível nos dias que correm.
 
E havia o Apolo 70, atracção máxima no drugstore do mesmo nome, na Rua Júlio Dinis, ao Campo Pequeno: vi lá um dos filmes da minha vida: Apocalypse Now, de Francis Coppola.
 

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Apolo 70 (1971-1990): esteve muito na moda, mas mal chegou à idade adulta
 
No Império – outro cinema que fechou, situado na Alameda Afonso Henriques, vi em estreia Encontros Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg. Inesquecível.
 
Nostalgia e cinefilia são dois vocábulos que caminham a par: por mim, associo antigos cinemas de Lisboa a filmes que jamais passarão de moda. No Camões, perto da praça do mesmo nome, vi a Lolita, de Stanley Kubrick. No Caleidoscópio, em pleno jardim do Campo Grande, chorei a rir com Uma Noite na Ópera, dos Irmãos Marx, e empolguei-me com Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock.
 
Ligarei sempre o Berna a outro filme de Spielberg, Os Salteadores da Arca Perdida, e a uma película que na altura me encantou e jamais revi: Bem-Vindo, Mr. Chance, do malogrado Hal Ashby. No Satélite, vi A Regra do Jogo, de Jean Renoir. No Mundial (às Picoas), E Tudo o Vento Levou. No São Luiz (ao Chiado), vibrei com o Correspondente de Guerra, de Hitchcock. E recordo como se fosse hoje a Guerra das Estrelas, de George Lucas, em estreia no ecrã gigante do Monumental.
 

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Cinema Alvalade original, inaugurado em 1953 na Avenida de Roma
 
No Estúdio, sala associada ao Império, esteve em exibição durante mais de um ano uma fita do Botsuana que fez furor: Os Deuses Devem Estar Loucos. Não a perdi, claro. Nem Kramer Contra Kramer no City Cine (Picoas), Um Cadáver de Sobremesa no Terminal (em plena estação ferroviária do Rossio, outro enorme sucesso de bilheteira na estreia deste cinema, em 1976), o francês Uns e os Outros no Star (na Avenida Guerra Junqueiro) e A Semente do Diabo no Xenon (na Avenida da Liberdade).
 
Sem esquecer o mítico Quarteto, onde assisti a filmes atrás de filmes – do Expresso da Meia Noite (1978) até Babel (2006). Ou o Alfa (na Gago Coutinho), onde vi Os Pássaros, de Hitchcock. Sem esquecer o Estúdio 444, na Defensores de Chaves; o Pathé (antigo Imperial), a Arroios; o Roxy (antigo Lys), na confluência da Almirante Reis com a Rua dos Anjos; o Aviz e o Ávila, na Duque de Ávila (assisti lá, na habitual terceira fila a contar do ecrã, a Vontade Indómita, de King Vidor, com Gary Cooper); o Castil, na Rua Castilho; o Fonte Nova e o Turim, na Estrada de Benfica; o ABCine, na Praça de Alvalade; o Roma, na avenida homónima; o Cine 222, na Avenida da Praia da Vitória; o Cinebloco, na 5 de Outubro; o Europa, em Campo de Ourique; o Zodíaco, na Rua Conde Redondo; o 7.ª Arte, junto ao viaduto dos comboios de Entrecampos; e o Cine AC Santos, num espaço comercial da Avenida da Igreja (onde vi A Morte de um Apostador Chinês, de John Cassavetes).
 
E, claro, havia o Eden, nos Restauradores: recordo-me ali da antestreia de um filme português em grande estilo, ao jeito de uma gala de Hollywood - A Vida É Bela?, de Luís Galvão Teles, com Nicolau Breyner no principal papel.
 
Do outro lado da Avenida, era o Condes: vi lá Serenata à Chuva e A Rainha Africana, entre outros clássicos. Mais acima, o Tivoli (onde apreciei o delirante Doutor Estranhoamor, de Kubrick) e o São Jorge, vocacionado para produções britânicas (uma das últimas a que ali assisti foi O Paciente Inglês).
 
Entre os meus favoritos, durante anos, contava-se o Londres, na Avenida de Roma, que chegou a ter as cadeiras mais confortáveis das salas de Lisboa: vi lá em estreia A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, ainda com Mia Farrow como protagonista. Também o King, inicialmente chamado Vox, que acompanhei mesmo até encerrar por absoluta falta de investimento e manifesta falta de espectadores. VolverLos Abrazos Rotos, de Pedro Almodóvar, foram dois dos últimos filmes que ali me cativaram. Nunca os esquecerei.
 

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Nimas, de 1975: um dos raros sobreviventes da era do cinema com porta para a rua
 
Destes espaços autónomos que nos proporcionaram tantas horas de prazer restam muito poucos. Praticamente só o Alvalade, com traça alterada mas ainda resistente, na garbosa Avenida de Roma, o Nimas – inaugurado em 1975, na Avenida 5 de Outubro, com um filme que permaneceu largos meses em cartaz: Chove em Santiago. E o centenário mas renovado Ideal (que também já se chamou Camões), na Rua do Loreto.
 
Nada garante que não venham a fechar também num prazo curto. 
 
Lisboa é uma cidade que descura a sua memória cultural. E que parece ter deixado de gostar de cinema. Agora o que está a dar são as pipocas. 

Ler (28)

Nos 70 anos de uma das revistas da minha vida

Pedro Correia, 19.11.23

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Há uma grande revista informativa europeia que acompanho há décadas. Li-a durante a adolescência, nos anos decisivos da minha formação intelectual. Naquele Portugal pós-revolucionário, tinha uma característica ímpar: era de pendor liberal e não se envergonhava de o proclamar: pelo contrário, fazia-o com manifesto desassombro, com vocação para romper tabus. Por penas tão prestigiadas como as de Raymond Aron e Jean-François Revel, pensadores de excelência. Quando a moda eram os socialismos de todos os matizes que prestavam culto a Marx e epígonos menores. 

L' Express surgiu, contra a corrente, num dos países mais jacobinos e centralistas da Europa Ocidental, que então encaravam o liberalismo como vírus maléfico importado do lado de lá do Atlântico, capaz de ferir o majestático Estado gaulês. Quando a França via crescer o Partido Comunista - que chegou a ser o segundo mais poderoso do continente a oeste da Cortina de Ferro - enquanto procurava salvar os últimos redutos do seu império colonial, na Indochina e na Argélia. Tinha os seus pensadores de referência - com destaque para Albert Camus, que também quebrara tabus, naquele início da década de 50, ao lançar O Homem Revoltado com a célebre frase de abertura: «O que é um rebelde? Um homem que diz não.»

Fundada em Maio de 1953, adoptou pouco depois o formato da Time norte-americana, marcando assim também uma diferença face ao clássico padrão da imprensa europeia em matéria de estilo. Assim a conheci naqueles anos ávidos em que se rasgam todas as janelas sobre o mundo, quando em minha casa a recebiamos por assinatura, tal como à Newsweek. Serviu não apenas para consolidar os meus conhecimentos da língua francesa mas também para a minha formação no domínio das ideias. Ler Aron e Revel naqueles anos bastava para alargar horizontes.

 

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1954: Servan-Schreiber e François Giroud com François Mauriac, Nobel da Literatura

 

Quando falo dos meus heróis do jornalismo, jamais esquecerei a dupla que durante cerca de três décadas vertebrou L'Express: Jean Jacques Servan-Schreiber (JJSS) e Françoise Giroud. Criaram uma revista arrojada, moderna, interveniente e livre. Que fazia da reportagem um dos seus pilares e da qualidade de escrita um lema. Que foi pioneira na infografia e cultivava o cartoon político com a mestria do traço de Sempré e Tim. Uma publicação assumidamente europeísta, anticolonialista e antitotalitária onde escreveram várias das penas mais prestigiadas de França e que jamais deixou de questionar o poder - incluindo o poder do general De Gaulle, herói nacional que resgatara a honra manchada do país nos dias de fogo e cinzas da II Guerra Mundial. 

L'Express manteve-se como marco de referência na imprensa europeia. Enfrentou com sucesso todas as crises - políticas, geracionais, económicas, tecnológicas. Sobreviveu a cisões - que deram origem às rivais Le Nouvel Observateur (fractura pela esquerda) e Le Point (fractura pela direita)- e à partida dos fundadores, sabendo renovar-se. Continua a ser um produto de excelência, fiel ao lema de JJSS: «Devemos dizer a verdade tal como a vemos.» Ou na versão mais requintada de Camus: «O gosto pela verdade não impede tomar partido.»

Durante uns tempos, por motivos diversos, distanciei-me dela. Mas reencontro-a agora, como quem recupera um amor antigo, nesta magnífica edição especial destinada a celebrar o 70.º aniversário. Guardo-a desde já como objecto de colecção: serei sempre grato a tudo quanto L' Express me ensinou.

O segredo das coisas simples

Sérgio de Almeida Correia, 09.11.23

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O texto é relativamente curto, com pouco mais de cem páginas, deixando-se ler tranquilamente, sem altos nem baixos. Como é típico dos livros de memórias, remete-nos para um passado próximo, com os corpos ainda quentes da memória, de recordações de infância, de deliciosos momentos do quotidiano, todos acabando por conviver com a chegada da nostalgia da lembrança, espécie de nevoeiro que vai tomando conta da luz das horas e dos dias mais soalheiros à medida que se recuperam lembranças.

Rodrigo, irmão de Gonzalo, não é Gabo, mas sendo filho recupera alguns dos melhores momentos de seus pais numa altura em que as despedidas se aproximam e a consciência da aproximação à partida torna tudo ao mesmo tempo mais subtil e mais denso.

Cada dia que vivemos, bem ou mal, alegre ou triste, aproxima-nos mais da morte e esta, como ele escreveu, "não é um acontecimento a que uma pessoa se possa habituar".

A habituação jamais ocorrerá quando se fala de quem nos quis e que foi querido, e que por essas mesmas razões tende a fixar-se no essencial que nos marcou e que com gosto depois se recorda.

Uma despedida entre entes queridos tem tudo para não ser um momento feliz; o que todavia não impediu o autor de nos trazer um pouco mais de luz sobre os últimos anos de Gabriel García Márquez e sua mulher Mercedes.

Fê-lo num estilo simples, sem arabescos e sem a prosápia de outros filhos, mantendo as distâncias e os protagonistas no local que merecem e que a vida lhes proporcionou, assegurando-lhes a dignidade no momento em que as primeiras folhas de Outono caem para nos prepararem para a invernosa solidão do fim.

Um conjunto de fotografias torna-nos cúmplices dos relatos, aqui e ali pontuados com notas de humor que reflectem a genialidade do homem – no me las puedo tirar todas é um desses momentos mágicos – e o ambiente que o rodeou os seus últimos tempos, prova inequívoca de que mesmo quando se está "sempre embriagado com a vida e as vicissitudes da existência" é em casa que "a maior parte das coisas que vale a pena aprender continua a aprender-se".

Verdade que nos dias de hoje não será igual para todos, e para muitos é mentira, mas que no caso de Rodrigo se confirma plenamente, pese embora os engulhos que o malfadado Acordo Ortográfico de 1990 continua a provocar em quem traduz e em quem lê. Uma pena a que Rodrigo, Gabo e Mercedes são totalmente alheios e a que só não escapa o leitor português.

A mentalidade do não-vale-a-pena

Vivemos no país do queixume permanente, com tudo a empurrar para baixo

Pedro Correia, 22.08.23

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Terreiro do Evangelistas, no Bom Jesus do Monte (Braga)

 

Vivi longe de Portugal em dois períodos e destinos diferentes. Totalizando 12 anos e meio.

À distância temporal, não tenho a menor dúvida em considerar que o balanço é largamente positivo. Falo por mim, mas creio falar por quase todos. Abrimos horizontes, conhecemos diferentes línguas e culturas, fazemos novas amizades, ganhamos arcaboiço para enfrentar o inesperado.

E sobretudo - gostaria de sublinhar isto - saímos de uma atmosfera social que demasiadas vezes nos empurra para baixo. Refiro-me ao desânimo, ao desalento, à mentalidade do não-vale-a-pena, à convicção de que tudo só muda para pior, às certezas de que todos os esforços são inúteis. À atmosfera de crise permanente, do queixume como senha de identidade, da insistência em ver o copo meio vazio mesmo quando está cheio porque o resto da tribo também o vê assim.

 

Enquanto estive fora, na maior época de "vacas gordas" em Portugal, quando cá vinha de férias só ouvia falar em crise. Crise do jornalismo, da televisão, do teatro, do cinema, do comércio, da cultura, da indústria, da economia, das finanças, da política. Como sucedia dez anos antes, como continuou a ser dez anos depois (já com as vacas bem magras, quase esqueléticas).

Encontrei as mesmas pessoas nos mesmos bares, sentadas nas mesmas cadeiras, com as mesmas conversas, dizendo mal de tudo e de todos. Uma década depois.

Disso não tive saudades. Nem voltaria a ter se emigrasse de novo.

 

Falta-nos mentalidade mais positiva, algo que muitas vezes só adquirimos quando saímos, quando vivemos em países de brumas e regressamos com saudades do sol.

Recortes do Canhenho

Maria Dulce Fernandes, 26.06.23

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Com a chegada do calor, chegam todas as memórias a ele associadas, as boas e as más. A pior memória que tenho de dias muito quentes é a da morte prematura do meu pai. Também são com o meu pai as memórias mais felizes de dias despreocupados de Verão, na Costa da Caparica, em Albufeira, em Pedras D'El Rei, mas principalmente no campismo, em Lagos, numa altura em que, apesar de já não ser uma menina, não era mulher feita e não tinha preocupações.

Foi por essa altura que fiz de bóia, mergulhei em apneia, andei de barco, conheci o Algarve de ponta a ponta e frequentei pela primeira vez um hotel de 5 estrelas.

Estávamos em 1973 e a Liberdade ainda estava em embrião, apesar de, nas imensas férias de Verão, não se dar pela sua falta. A liberdade de se ser jovem era imensa e envolvia-nos às golfadas.

Depois de um mês de campismo no Parque de Turismo em Lagos e das imensas peripécias que vivíamos diariamente, eis-nos chegados ao momento de regressar a Lisboa. Nesse ano, a partida iria ser diferente: não seria necessário "levantar âncora", porque a Joceline iria ocupar a tenda, de três cómodos, sala, cozinha e avançado, com o Dietmar e o Lars por mais um mês.

Lembro-me de aguardar ansiosa que chegassem. Adorava esta minha prima que casara com um alemão de Bremen, divorciado e folgazão, amante da nossa cultura e principalmente da nossa grastronomia. A Line foi a pessoa mais tranquila que conheci em toda a minha vida. Nunca a ouvi exaltar-se ou levantar a voz. O Dietmar era o homem dos sete ofícios, desde compartilhar a gestão da Electroliber em Portugal até à administração de uma empresa pioneira em máquinas de depenar aves, que ele, numa altura em que a publicidade era cara e as redes sociais ficção científica, se propôs divulgar por todo o Algarve.

A meio de um almoço supimpa providenciado pela minha mãe, o convite chegou inesperadamente. A Dulcinha fica connosco, queres? Claro! Como recusar? Ler, dormir, passear… Adeus mãe, pai, rapazes, que eu fico por cá!

Foram quatro semanas inesquecíveis, a partir do Quartel General em Lagos. Aprendi a ficar quatro minutos sem ar no fundo da piscina, aprimorei a minha natação, acompanhei o Dietmar na pesca submarina na qualidade de bóia, visitei de barco todas as grutas, viajei por todo o Algarve, comi fruta a rodos, assei na praia numa fogueira de gravetos o peixe que se apanhava nas incursões mar adentro, jantei em bons restaurantes e tive uma das mais incríveis experiências da minha vida, num hotel de 5 estrelas em Vale do Lobo, para festejar o final do prolongamento das férias, as vendas das máquinas de depenar aves, as longas noites na praia a cantar belas melodias e o merecido descanso daquele casal maravilhoso, que adorava a vida, os filhos, os desportos e me adorava a mim. Aprendi muito com ambos.

Gostava de ter uma foto do momento em que, com o meu longo cabelo solto, já manchado pelo sol, envergando um caftan cor de salmão com renda na frente, executado primorosamente pela minha mãe, a pele dourada por muitos dias de sol, olhei para o espelho e vi. Vi que era bonita para além de calções e t-shirts e não apenas a maria-rapaz de rabo de cavalo, magra, desengonçada e quase invisível. Senti-me bem. Senti-me feliz.

Ao jantar, à luz das velas, senti também os olhos brilhar. Não é verdade que o brilho não se sente, porque depois de perceberes que o tens, é algo que  guardas como uma jóia rara durante toda a vida.

É uma das minhas memórias mais doces, esta de zarpar  com ambos à descoberta e ter-me descoberto também a mim.

Ainda agora, nas profundas e cálidas noites algarvias, com a música das ondas que rebentam de mansinho, me chegam os acordes do Edelweiss, que acompanho baixinho, com saudade e gratidão.

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Dois deputados que deixaram saudades

Pedro Correia, 26.04.23

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O 25 de Abril fez-se para fundar uma democracia representativa em Portugal, sufragada pelo voto universal e livre dos cidadãos. Mas raras vezes, ano após ano, vejo homenagear esse órgão concreto da democracia - com o qual tantos sonharam durante gerações - que é a Assembleia da República, símbolo supremo do nosso regime constitucional.

Espero que este lapso seja corrigido e que em 25 de Abril de 2024, quando a Revolução dos Cravos comemorar meio século, possam ser homenageados 50 deputados, de diferentes partidos. Deputados que nunca foram ministros nem secretários de Estado nem presidentes de câmara nem presidentes de governos regionais: apenas deputados. Seria uma excelente forma de assinalar a instituição máxima da democracia portuguesa.

 

Fui repórter parlamentar do Diário de Notícias durante cinco anos e, nessa qualidade, tive o privilégio de conhecer competentíssimos deputados em todas as bancadas. A pretexto do 25 de Abril, quero distinguir dois desses parlamentares que conheci pessoalmente: Maria José Nogueira Pinto e João Amaral. Ela claramente de direita, ele inequivocamente de esquerda.

Em legislaturas marcadas por fortes combates políticos, nenhum dos dois alguma vez cessou de tomar partido, envolvendo-se convictamente no confronto de ideias que é função cimeira do órgão parlamentar: sabia-se ao que vinham, por que vinham, que causas subscreviam e que bandeiras ideológicas sustentavam. Mas também sempre vi neles capacidade para analisar os argumentos contrários, com elegância e lealdade institucional, sem nunca deixarem as clivagens partidárias contaminarem as saudáveis relações de amizade que souberam travar com adversários políticos.

Porque a democracia também é isto: saber escutar os outros, saber conviver com quem não pensa como nós.

 

Lembro-me deles com frequência. Como me lembro das sábias palavras que Giorgio Napolitano proferiu em 2013, ao tomar posse no segundo mandato como Presidente italiano. «O facto de se estar a difundir uma espécie de horror a todas as hipóteses de compromisso, aliança, mediações e convergência de forças políticas é um sinal de regressão», declarou neste notável discurso Napolitano, que aos 97 anos ainda é um dos políticos mais respeitados da turbulenta e caótica Itália.

Palavras que deviam suscitar meditação entre nós. Palavras que a conservadora Maria José Nogueira Pinto e o comunista João Amaral decerto entenderiam - desde logo porque sempre souberam pôr os interesses do País acima de tacticismos políticos.

Quis o destino, tantas vezes cruel, que já não se encontrem fisicamente entre nós. Mas o exemplo de ambos perdura, como símbolo de convicções fortes que - precisamente por isso - são capazes de servir de cimento para edificar pontes. E talvez nunca tenhamos precisado tanto dessas pontes como agora.

Emendar os textos antigos e racismo

jpt, 29.03.23

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(Jô Soares e casamento português)

A propósito disto das "sensibilidades" ofendidas e da "urgência" em higienizar os legados textuais (e outros) para, dizem, evitar desmandos e desvalorizações sociais, lembrei-me desta "piada de português" (muito brejeira, aviso os ouvidos frágeis) do João Soares. Só há pouco a conheci e ri-me imenso, apesar do/devido ao tom corrosivo que nos é dedicado. Ri-me apesar de saber do abrasivo do humor brasileiro contra todos nós, da sua origem xenófoba (e elitista) - recordo um belo artigo sobre a emergência na imprensa de meados de XIX destas invectivas contra os portugueses, publicado numa "Oceanos" de 2000, coordenada por Robert Rowland... Ri-me porque tem piada e porque o contexto o permite (e não é ilegitimado por qualquer patente ou presumida intenção), e ele é omnipotente nestas coisas. Tal como os "ouvintes" devem ser minimamente esclarecidos para se contextualizarem.
 
Nestas coisas de me ofenderem a "sensibilidade" (de me "racializarem") lembro dois episódios: há mais de uma década um casal moçambicano convidou-nos para jantarmos com um outro casal brasileiro, quadros de empresas recém-chegados a Maputo. Assim foi, eles simpáticos, cultos, conversadores. Mas de repente o marido contou uma "anedota de português". Não foi mal acolhida, pelo que seguiu um vasto repertório no tema. Como é evidente nunca mais convivemos com eles, desagradados num "que é isto?", e foi pena pois até poderia ter sido "o início de uma bela amizade". Mas a minha sensibilidade fora demasiado "racializada".
 
Décadas antes acontecera-me outra, ainda pior. Aos meus 14/15 anos, no Verão de São Martinho do Porto, uma família francesa (naquela época os turistas eram quase todos franceses) alugou uma barraca balnear perto da nossa. A filha era linda, loura, e aos meus anseios já se parecia com a Marion des Neiges dos "Pequenos Vagabundos", e o seu irmão e o amigo logo acamaradaram nos jogos de bola, mergulhos e outros que tais. Uns dias passados foram almoçar lá a casa, encantados com a simpatia da minha mãe - até porque ela era verdadeiramente bilingue - e com a sisuda placidez do meu pai (que devia estar a fruir o estado basbaque deste seu filho, assim notando-o a crescer "como um homenzinho"). Depois fui eu almoçar lá a casa, recebido como se adulto fosse pelo messire ali veraneante e sua extremosa mulher. À mesa a conversa fluiu, eu no meu francês pausado mas melhor do que o de agora, eles elegantemente acompanhando o meu ritmo. Entre conversas, e entre eles, o pai pediu à bela filha, sentada do outro lado da mesa, uma qualquer coisa e eu, de imediato, lha passei. Para sua sorridente surpresa, pois entendera eu não só o léxico mas, acima de tudo, a velocidade parisiense da fala... Ao que respondeu ela, talvez ufana do jovem pretendente, talvez precisando de justificar aquele convívio "inter-cultural", "ele é português mas é inteligente!"... Eu passei-me, mantendo a compostura diante dos pais, mas passei-me mesmo. Pior ainda com os outros rapazes a tentarem justificar a "gaffe" mas nisso, atrapalhados, metendo les pieds par les mains... Enfim, o pai lá soube fechar a questão, elaborando sobre a grandeza e a excelência lusa (e após a minha saída deve-se ter rido, vero gaulês, do sanguíneo petiz que lhe entrara porta dentro).
 
Ora esta minha sensibilidade foi reactiva apesar de não ter eu interiorizado (ou sofrido) qualquer pressuposto sobre a minha inferioridade intelectual, social, cultural - ou mesmo "racial" ("étnica" mascara-se agora). É pois normal que outros, provenientes de contextos recorrentemente desvalorizados (por exemplo os "parolos" que Augusto Santos Silva despreza), sejam mais epidérmicos com algumas expressões que vão enfrentando.
 
Por isso as nossas expressões e as nossas sensibilidades são educáveis, aprimoradas - só um imbecil se ri hoje daquele vil filme "Os Deuses Devem Estar Loucos" que há 40 anos foi um sucesso mundial, ancorado no humor racista do apartheid. Mas isso não implica andar a apagar o passado, a emendá-lo. Hoje a Agatha Christie e a Enid Blyton, amanhã o Engels e o Hegel (que vendem menos).
 
Enfim, mas de tudo isto o fundamental que retiro é que foi o Joaquim, um tipo do Porto, que depois conseguiu trocar uns beijos mais intensos com a Falbala de São Martinho do Porto. Não foi a última vez que isso me aconteceu, nem nada que pareça. Mas ainda me dói...

15 de Fevereiro de 2003

João Pedro Pimenta, 25.02.23

É certo que a efeméride que agora se comemora é outra, mas não queria deixar de recordar outra, mais antiga, que tem uma ténue ligação à da invasão da Ucrânia. Há pouco mais de uma semana passaram vinte anos sobre uma data que não teve grande eco nestes dias, mas que na altura não só era nota de primeira página como se tornou um marco da globalização. Refiro-me às enormes manifestações contra a invasão do Iraque, que acabaria mesmo por acontecer pouco mais de um mês depois, e que terão sido as primeiras realmente globais convocadas pela internet, ainda antes dos smartphones e das redes sociais, mas já com os blogues a despontar (e a dar-nos alguns dos melhores debates sobre a matéria).

O dia era 15 de Fevereiro de 2003. Tinham decorrido dez dias sobre o discurso de Colin Powell na Assembleia Geral das Nações Unidas, que, com a história das "armas de destruição maciça", tinha praticamente garantido que os Estados Unidos avançariam mesmo sobre Bagdade, assim cumprindo a primeira parte do plano contra o "Eixo do Mal" urdido pelos entusiastas neoconservadores, que na altura influenciavam decisivamente o Partido Republicano e a Casa Branca com a sua ideia de democratizar o Mundo e levar a pax americana a todo o lado nem que fosse à bomba (se bem que hoje, olhando para o GOP, quase tenha saudades deles). 

Apesar dos apoios, em especial dos tradicionais aliados dos EUA, começando pelo Reino Unido e Portugal e continuando pela "nova Europa", a reação seria dura, precisamente vinda da "velha Europa", com a França a liderar a oposição à guerra, secundada pela Alemanha, no que seria até uma mini-guerra cultural. Se uns clamavam contra os "belicistas" e "falcões", outros falavam em "covardia" e "anti-americanos" e acusavam a França de ser um país que estava habituado a render-se e que tinha sido graças aos EUA que a Europa se tinha livrado dos nazis (embora também se lembrasse com propriedade que os Estados Unidos deviam a sua existência à França pela ajuda decisiva na Guerra da Independência). O corolário dessa discussão seria a patética questão das "freedom fries", um nome aplicado efemeramente às "french fries", ou seja, às batatas fritas de palito, que algumas vozes com melhor memória lembraram ser belgas e não francesas (a isto se poderia chamar o síndrome Poirot).

E a 15 de Fevereiro, um Sábado, vieram as tais manifestações. Um pouco por todo o Mundo, mas particularmente na Europa e nos EUA, precisamente nos países cujos governos apoiavam a invasão. Socorrendo-me da Wikipedia, à falta de dados mais eficazes, a maior manifestação terá sido em Roma, com mais de dois milhões de pessoas na rua, seguindo-se Madrid, Londres (ou seja, as capitais dos países que apoiavam a guerra), Berlim, Paris, etc. Um pouco menos participadas, as manifestações nos EUA tiveram ainda assim largas dezenas de milhar espalhadas por todo o território. Havia de tudo: anarquistas, artistas, freiras, estudantes, reformados, etc.

 
 
Curiosamente, o "resto do Mundo", que se deveria ter mobilizado mais contra a guerra, demonstrou uma tímida oposição popular. Na Rússia, que tantas vezes invoca esta invasão para se justificar, houve escassa contestação, na China nem houve, na Ásia, mesmo no Médio Oriente, e em África, quase nem se viu. E se se pode sempre justificar com os regimes destes países, repare-se que no Brasil, de onde tenho visto críticas à "hipocrisia dos europeus", estiveram pouco mais manifestantes do que em... Malta.

 

 

Em Portugal também as tivemos. Na de Lisboa pontificava Mário Soares, ao lado de oitenta mil pessoas. No Porto bastante menos, cerca de cinco mil. Lembro-me de ir a essa, com epicentro na Praça dos Poveiros, por oposição à guerra mas também por alguma curiosidade sociológica. Por uma vez Ferro Rodrigues estava carregado de razão: na véspera, o então secretário geral do PS declarara que embora estivesse totalmente contra a guerra não iria apoiar oficialmente a manifestação (embora não estivesse contra) porque certamente haveria gente que aproveitaria para branquear o regime de Saddam Hussein. Dito e feito: entre os oradores, não faltaram aqueles que, claramente ligados ao PC, diziam conhecer o Iraque, afirmavam não haver quaisquer perseguições políticas e que Saddam o tinha transformado num país próspero e dinâmico. Ainda houve outras diatribes semelhantes, com discursos pró-Palestina e alguma propaganda, essa sim, anti-americana, como cartazes com insultos à porta do McDonalds por jovenzinhos anticapitalistas de ar pouco cuidado. Mas não dei a tarde por perdida. A causa fundamental era nobre e até reencontrei a minha velha professora da 1.ª classe, que me ensinou a ler.

Esse dia ficaria na história, como disse, como a primeiro e provavelmente maior, até agora, manifestação global da História. Acho estranho não ter sido mais recordada, embora tivesse deixado claras sementes, e até Ian McEwan escreveu um romance, Sábado, baseado nesse dia. Mas achei importante recordá-lo, não apenas pelo momento em si mas pelo actual. É que tenho ouvido muito boa gente dizer que o Ocidente apoiou todo a Invasão ao Iraque, e que particularmente os europeus são "hipócritas" porque reclamam conta a invasão da Ucrânia e apoiaram a do Iraque. Pois este dia 15 de Fevereiro de 2003, e não só, prova que isso é mentira. É mesmo o contrário. Vai-se a ver e a França, o estado francês, opôs-se-lhe bem mais do que a Rússia e a China, e os europeus manifestaram-se em massa contra a guerra, em claro contraste com a inacção de chineses, russos, brasileiros, indianos e do resto do mundo em geral. Houve muito mais indignação popular na Europa e nos Estados Unidos do que naqueles que agora se recusam a condenar a invasão da Ucrânia com a tese da invasão do Iraque (como se uma impedisse a outra, e aí está Sean Penn a prová-lo). E por cá, o PCP bramia contra a invasão de Bush mas vem sonsamente acusar a NATO de ser culpada da guerra na Ucrânia e Zelensky de ser "antidemocrático" e outras coisas que nunca disseram de Saddam. Por isso, quando ouvirem alguém com esta conversa desmemoriada e ignorante (ou de má fé) sobre a "hipocrisia dos europeus" e os "dois pesos e duas medidas" entre a invasão do Iraque e a da Ucrânia, recordem-lhes isto e mostrem que não eles têm qualquer moral para invocar whataboutismos falsos. A memória do 15 de Fevereiro cá está para lhos recordar.

Em memória atrasada de Mikhail Gorbachov

João Pedro Pimenta, 30.01.23

O mês de Janeiro de 2023 já vai a caminho do fim, em que parece que andei nos momentos e regiões certas atrás das intempéries, como a de Ano Novo no Alto Minhoa do segundo fim de semana no Porto e a da terceira semana nas terras altas transmontanas. E apesar disso, ainda fiquei com assuntos pendentes de 2022.

Uma das coisas que se menciona sempre no ano que acaba é o da necrologia. E esta esteve em destaque em 2022. A quantidade de personalidades de relevo internacional que nos deixaram é enorme. Talvez a que mais sensação tenha causado tenha sido Isabel II, que parecia eterna, e já mesmo no caír do ano deixaram-nos Pélé, provavelmente a maior lenda do futebol de sempre, e o Papa Bento XVI, cujo estado de saúde já declinava há bastante tempo. Uma rainha, um rei e um Papa, portanto.

Há muitos anos, na década de noventa, o Expresso lançou um destacável com mil figuras de relevo do século XX para celebrar a sua milésima edição. O primeiro capítulo tinha cinquenta personagens consideradas as mais relevantes do século. Duas delas morreram em 2022. Pélé era uma delas. A outra era Mikhail Gorbachov.

Gorbachov deixou-nos nos últimos dias de Agosto, enaltecido pelas democracias liberais e ignorado ou desdenhado pela sua Rússia. Putin deixou umas palavras de circunstância, apenas porque tinha de ser. O homem que tentou dar um rosto humano à URSS (literalmente, bastava olhar para ele e comparar com as faces patibulares ou caninas dos outros apparatchiks) e um rumo àquele sistema bloqueado e sem saída acabou por derrubar o regime e a próprio União Soviética. Pelo meio, assinou com os EUA o tratado de não proliferação de armas nucleares, o que causou o degelo nas relações entre blocos, aliviando o "equilíbrio pelo terror" e acabando efectivamente com a Guerra Fria. Rasgou a "Doutrina Brejnev", substituindo-a pela "Doutrina Sinatra", escusando-se a intervir nos países do Pacto de Varsóvia, cujos povos aproveitaram a oportunidade para derrubar os muros e respectivos regimes, já sem a ameaça de intervenção soviética. E internamente, também os integrantes da URSS começaram a questionar-se e a declarar a autonomia, começando pelo Báltico. O fim da Guerra Fria permitiu igualmente que do outro lado os EUA deixassem de apoiar certos cães de fila, o que originou, entre outras coisas, o fim da regime do Apartheid na África do Sul e a libertação de Nelson Mandela, a saída de Pinochet dos comandos do Chile e o fim da guerra civil em Angola (por pouco tempo) e Moçambique.

 

 

Poucos homens estiveram na origem de mudanças tão drásticas e radicais, mesmo que a intenção inicial não fosse essa. O problema é que internamente elas resultaram na implosão de um sistema que era totalitário, desumano e falhado, mas que deu lugar a anarquia, pobreza e violência extremas. Não era isto que realmente Gorbachov e os russos desejariam, mas acabou por ser o resultado, de tal forma que no fim da década de noventa colocaram um tal Vladimir Putin à frente dos destinos do país.

A morte de um ser desta dimensão nunca é positiva, mas o desaparecimento de Gorbachov ocorreu na pior altura possível, precisamente quando o regime vigente na Rússia está mais tirânico do que nunca desde Tchernenko - ou seja. a URSS pré-Gorby - e representa exactamente o contrário do que o último líder soviético representava: autoritarismo, corrupção, opacidade, militarismo e ultranacionalismo. E a tentativa de reversão das independências obtidas à época, com a brutal invasão à Ucrânia, depois de se ter mutilado a Geórgia e a própria Ucrânia.

Porque a morte de Gorbachov em Agosto levou-me a outro Agosto, o de 1991, em que fora vítima de um golpe de estado dos últimos defensores do regime soviético puro e duro. Recordei-me das imagens dos russos manifestando-se em Moscovo, de Ieltsin em cima de um tanque, com a Duma (a mesma que ele mandaria atacar dois anos depois) em fundo, a conferência de imprensa da junta golpista num anfiteatro de dimensão estalinista (diz-nos José Milhazes, então presente, que o primeiro-ministro Valentin Pavlov estava ausente porque não tinha recuperado de uma bebedeira na véspera), e a cara de fuinha do auto-proclamado presidente, Yanayev, e depois o falhanço do golpe e o regresso de um Gorbachov pálido mas aliviado. Vi tudo isso num mês em que não podia fazer muito mais porque decidi partir uma perna logo no último dia de Julho, o que constituiu um rude golpe nesse meu começo de adolescência.

 

 

E também nesse Agosto, aproveitando o fiasco do golpe, o que restava de facto da URRS ruiu. Lembro-me das imagens do anúncio do fim do regime comunista e em simultâneo da restauração da bandeira russa. Pensei até há pouco tempo que tivesse ocorrido no dia dos meus anos, mas afinal é de dois dias antes, 22 de Agosto. Em contrapartida, fiquei a saber há pouco tempo, por causa da guerra em curso, que a Ucrânia tinha como dia da independência precisamente o 24 de Agosto (de 1991). Assim, eu e a Ucrânia fazemos anos no mesmo dia. Como não poderia apoiar a causa da sua independência?

Gorbachov deixou-nos no mesmo mês - mas em ano diferente - em que as suas reformas e a reação às mesmas precipitaram tudo aquilo que era impossível manter. Que a sua memória seja no futuro tão favorável como a dos povos que graças a ele ganharam a sua liberdade.

Saramago e o Portugal de sempre

Pedro Correia, 16.11.22

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe.

Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria porventura a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera largos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho.

Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. «Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano», disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

 

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 

Texto reeditado, no dia do centenário do nascimento de José Saramago