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Instantes em sépia com capa de muitas cores (10 )

por Maria Dulce Fernandes, em 11.06.19
  "Falareis de nós como de um sonho."
Jorge de Sena 
 
 
 
 


 
(o Avô Zé , o Tio Manuel da Moca e o Tio Daniel)
 
 
Para mim "Ir à Terra" era sinónimo de aventura, avançar pelo desconhecido, fazer-me forte quando o medo vinha, chorar à noite e fechar os olhos receosos dos monstros que se escondiam por detrás de cada sombra de cada  janela.
Eu e a mãe éramos alfacinhas, mas o pai, albicastrense de gema, primogénito de uma família numerosa de Gaviãozinho, Santo André das Tojeiras , desenvolveu as costelas de Alis Ubbo quando, com apenas um ano de idade, veio viver com os padrinhos para a capital.
 
Os avós continuaram no seu pacato vilarejo à beira da Ribeira do Ocreza, na sua pequena casa térrea com um sótão escuro, lareiras em cada quarto, um jardinzinho murado e um anexo com um forno de cúpula alva e redonda, onde se cozia o pão e se preparavam todos os doces e cozinhados importantes das festas.
Os bolos da Avó Hortense com erva doce, azeite puro e mel, eram famosos nas redondezas.
 
Não havia estrada para lá chegar, só um caminho com frequentes lombas de grandes pedregulhos negros, barreiras naturais difíceis de ultrapassar pelos automóveis de então.
O percurso fazia-se de comboio até Castelo Branco, onde o Avô Zé , o tio Manuel da Moca e mais dois ou três compadres, nos esperavam com uma  récua bem selada que fazia o transporte até ao Gaviãozinho.
O perfume das estevas em flor na beleza agreste da paisagem,  foi marcado a ferro e fogo na minha memória de criança. Passe o tempo que passar, uma fragãncia leve, vindo sabe-se lá de onde,  acorda a recordação e tenho outra vez 4 anos e grito do colo da mãe "Arre macho!" e ela ri, com aquele sorriso tão lindo e tão jovem, o mesmo que sempre conservou nos lábios enrugados.
 
O Avô saía cedo; tratar dos animais, regar os campos, colher diospiros que me dava às colheradas e que ainda hoje adoro comer... A Avó preparava o mata-bicho e seguia com a merenda que aprontara a juntar-se a ele. A mãe cozinhava o almoço para os de fora e só os voltávamos a ver à tardinha, quando regressavam do campo , sempre com um afago e uma flor para a menina. Conversávamos e riamos à mesa do jantar, à luz de candeeiros a petróleo com os vidros meio enfarruscados que brilhavam uma luz quente e difusa.  Juntavam-se tios e primos, uns que conhecia , muitos que nunca vira na vida. Conversavam e cantavam, com o avô a dedilhar a guitarra. No fim, as mulheres como era costume, arrumavam as loiças que iam lavar em grandes alguidares de barro, os homens iam fumar e conversar para o jardim,  e o Avô Zé pegava-me ao colo e levava-me a ver as figuras no céu, que era branco de luzes numa noite de breu.
 
 
 
 
 
Tomar banho era no rio e era uma festa. "As de Lisboa", de fato de banho e touca, eram uma visão do paraíso para os moçoilos habituados a saias compridas e colarinhos apertados. A tia Adelaide, que acompanhava sempre estas expedições e não vestia fato de banho, ria a bandeiras despregadas e tão intensamente, que se chegava a pensar que a sua saia molhada, não o fora pelas águas do Ocreza.
O rio era frio , mas tão transparente que se via os peixinhos curiosos debicar junto aos nossos pés. Lembro-me de ter um calção de banho vermelho com bolinhas brancas e muitos folhos, que me almofadavam o assento e eu chapinhava feliz.
 
Devia andar pelos meus oito anos, quando a Avó Hortense desenvolveu um problema grave e incurável de bronquite asmática, que juntamente com uma condição cardíaca pré-existente não lhe permitiria viver muito tempo se continuasse no Gaviãozinho, naquele clima agreste do interior da Beira Baixa.
 
Venderam-se terras na "terra" e comprou-se uma quinta com casa e estábulo na Barra Cheia , perto da Moita, para os avós se poderem mudar e terem alguma qualidade de vida.
 
Foi como trazer uma bela planta silvestre  e transplantá-la para um vaso, numa terra distante. Pegou, floriu, mas perdeu o viço, a cor e o cheiro, e os Avós nunca mais foram os mesmos. Estavam por cá, mais saudáveis, mais cuidados, perto dos filhos e dos netos , mas a alegria da sua alma, essa desapareceu,   ficou naquele vilarejo da Beira Baixa,  enterrada numa sepultura triste e sem nome onde nunca mais ninguém lhe descobriu o rasto.

 

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As casas e a vida

por Pedro Correia, em 03.06.19

  

 

«As casas que habitámos ainda nos habitam.»

 José Mário Silva, Luz Indecisa

 

Passo junto à porta da primeira casa onde vivi – um terceiro andar na principal avenida de Almada. Parece-me que nada mudou no prédio onde morei nos primeiros três anos de vida. De lá me vêm as mais remotas recordações que guardo de uma infância feliz. Tenho inúmeras fotos – todas a preto e branco – lá tiradas pelos meus pais.
Ponho-me a pensar em todas as casas onde vivi até hoje em diversas paragens. Santo Tirso, Viana do Castelo, Barreiro, Cova da Piedade, Díli, Fundão, Hereford, Tercena, Corroios, Charneca da Caparica, Macau, Lisboa.
Vinte e duas casas. Uma vez por outra, quando calho, passo por uma delas e miro-a com atenção. Como se procurasse reviver um pedaço de mim que por lá ficou.
Há quem more toda uma vida no mesmo sítio, entre as mesmas quatro paredes. Eu já tive o destino repartido por muitas terras, por muitos tectos – incluindo em casas de familiares e amigos – em Londres, Tóquio e Nova Iorque, no Alentejo e nos Açores.
Fixo o olhar no primeiro prédio onde morei, na Avenida D. Nuno Álvares Pereira, parece que foi ontem. E não cesso de me espantar: ia jurar que está exactamente como quando o deixei.
As pessoas deviam envelhecer ao mesmo ritmo que as casas, com um vagar de muitas décadas, desafiando de pé as inclemências do clima e a traiçoeira erosão do tempo.
 
Texto reeditado

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Abril

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.19

Uma revolução faz-se com todos os momentos, também com os menos bons. Alguns fizeram de nós o que somos hoje.

Uma revolução faz-se com gente boa e estafermos.

Com alguns filhos da puta e tolos também (muitos ainda andam por aí a darem-nos cabo da vida).

Depois, a história encarregar-se-á de colocar cada um no seu devido lugar. Sem caganças.

Se for sem sangue melhor. É mais pedagógico porque se prolonga no tempo.

Refina-se, sofre-se, não se apaga.

Transmite-se. Abrila-se todos os anos.

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Esperança entre pedras fumegantes

por João Pedro Pimenta, em 16.04.19

Vi e ouvi o mais belo coro de que tenho memória na Catedral de Notre Dame, há já demasiados anos. Quando se calou, houve um breve silêncio até alguns visitantes orientais desatarem a aplaudir, perante algum espanto e divertimento dos que assistiam à missa.


Com as imagens do último dia vieram-me outras recordações à memória, como a do Emmanuel, o grande sino  da Catedral, que vejo agora ser da época de Luís XIV, e que apenas levemente tocado já soava respeitosamente alto. Ver a "Igreja mãe de França", que resistiu miraculosamente a guerras mundiais e revoluções, deixa-nos num desespero impotente. Quando é que será novamente possível ouvir o seu coro divino?

 

Mas logo as primeiras imagens do interior de Notre Dame faziam adivinhar que nem tudo está perdido. O fogo não consumiu todo o interior, mas o centro da nave, por baixo do coruchéu que ruiu, está severamente danificado. Salvaram-se algumas das relíquias mais preciosas e até marcantes, como a suposta coroa de espinhos e o manto de S. Luís, mas o destino de boa parte é ainda incerto. Em todo o caso, o altar-mor resistiu. A cruz que o encima, essa, está lá. Como sempre.

 

O desastre afectou severamente a catedral, mas não a vergou. Parece até ter criado uma certa união e um novo espírito de esperança aos franceses. E Paris já passou por outras provações. Em 1871, depois de um cerco de meses, de ter perdido a guerra com a Prússia, de ver o seu próprio Imperador prisioneiro dos germânicos e da república ser proclamada, a Comuna pôr a cidade do Sena a ferro e fogo, destruindo numerosos edifícios antes de ser violentamente esmagada. A França estava de rastos. Pois em dez anos pagou todas as imensas indemnizações de guerra, reconstruiu os edifícios destruídos (à excepção do Palácio das Tuilleries, do qual ficaram os jardins, por razões políticas) e ainda organizou a exposição Mundial de 1878, como prova da sua vitalidade. Notre Dame de Paris voltará a ser a Igreja Mãe dos franceses.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e interiores

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Mortais, como todos nós

por Pedro Correia, em 13.04.19

Quando eu era miúdo, o festival RTP da canção fazia parar o País. As pessoas vibravam tanto ou mais com as cantigas do que com o futebol durante aquelas semanas que rodeavam o sarau musical, antes e depois de ter ocorrido.

Assim sucedeu durante muitos anos. Eram outros tempos, era outro país. Embora a belíssima canção de Luísa Sobral que o irmão Salvador tão bem interpretou em 2017, cativando a Europa ao ponto de ter posto milhões de pessoas a cantar em português, com o inédito triunfo na Eurovisão, tenha reaproximado as gerações mais jovens deste concurso. Mas a xaropada que apresentámos há um ano, na estreia de Lisboa como palco do eurofestival, indiciou que Amar Pelos Dois fora algo tão imprevisto como irrepetível.

É justo salientar que nos tempos anteriores, ainda com a RTP a preto e branco, nasceram neste mesmo certame belíssimas canções que deixaram de ser exclusivo dos seus intérpretes originais para se integrarem no património musical português. Canções como Sol de Inverno, Flor Sem Tempo, Cavalo à Solta, No Teu Poema, só para anotar as primeiras que recordo. Além de outras, que por algum motivo guardei numa gaveta grata da memória mais remota, como O Barquinho da Esperança, escrita por Pedro Ayres Magalhães e Miguel Esteves Cardoso para as inesquecíveis Doce - só agora voltei a ouvi-la, 35 anos depois, e não resisto a trazê-la aqui, lembrando sempre com ternura a Fátima Padinha, que conheci em adolescente. O pai dela, Joaquim Padinha, foi um dos maiores amigos do meu pai.

 

 

Quando eu era miúdo, por algum motivo, acreditava que os vencedores do festival RTP estavam tocados pelo dom da imortalidade. E fiz-me adulto com esta mesma convicção enraizada - resquício do imaginário infantil que só terminou de vez no dia em que, estando eu a fechar a primeira página de um jornal em Macau, onde então vivia, lá inseri a notícia da morte de Carlos Paião, um desses vencedores. O primeiro a ficar pelo caminho.

Lembrei-me de tudo isto ontem, ao saber da morte de Dina, também galardoada do festival, falecida após longo combate contra uma implacável doença. No ano passado tinham desaparecido duas outras ex-triunfadoras do festival: Madalena Iglésias e Maria Guinot.

Simples mortais, afinal - da mesma condição que tu e eu. Como cantava a Fá, com aquela bela voz que ainda me emociona, «por cada gota que cai no mar / há uma outra que sobe ao céu».

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Eva

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.01.19

4913426918493990.jpeg(Fotograf: Beat Mumenthaler, Schweiz)

"Há uma nova geração de judeus húngaros, que ele [Viktor Órban] não os ataca directamente, porque tem agora inimigos diferentes, que são os refugiados. Os refugiados são os judeus de hoje (...)" – Eva Koralnik, 82 anos, sobrevivente do Holocausto, tradutora em 1961 no processo de Eichmann, ontem, na Universidade de Macau

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Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 08.10.18

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 

 

Texto reeditado no dia em que se assinalam 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago

 

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"Ter terra" é isto

por Pedro Correia, em 15.09.18

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Volto a Castelo Branco, cinco anos depois. Está um Verão dos antigos: 32 graus neste meio de Setembro. Calha bem: venho em busca de raízes neste regresso esporádico a um dos lugares que transporto nos genes. Terra onde viveram os meus avós (e cuja casa, nas traseiras do Liceu, ficou praticamente destruída pelo tornado de 1954), onde nasceu uma das minhas tias, onde a minha mãe fez o ensino secundário. Viemos com ela em 2013, sabendo todos - ela, melhor que ninguém, com os dotes de presciência que sempre evidenciou - que era uma viagem única. Por ser a última.

Talvez por isso, absorveu-a intensamente. Levámo-la lá acima, ao castelo. Em tantos anos, nunca tinha visitado tal paragem, de onde se disfruta um panorama incomparável: «No meu tempo, nenhuma rapariga vinha aqui, nem sequer acompanhada.»

É um mundo diferente daquele onde ela ia de burro, dar aulas a garotos da aldeia, no Rosmaninhal. A cidade expandiu-se imenso, em todas as direcções. Das ameias do castelo, já mal distingo o quartel onde o meu avô foi comandante antes de rumar à última comissão em África: é um ponto quase remoto, diluído na malha urbana. 

 

O hotel na colina, onde me hospedei pela primeira vez em 2006, continua a proporcionar-nos uma visão deslumbrante das vastas planícies em redor - tendo agora a novidade de alojar turistas de diversas nacionalidades. A cidade exibe enfim um terminal rodoviário que não a envergonha, colado à estação ferroviária. Mas o centro parece-me mais despovoado: nunca consegui entender a "intervenção" do chamado Programa Polis, que o desfigurou por completo. Coincidência ou não, o Praça Velha - outrora o meu restaurante favorito aqui na terra - fechou as portas, na emblemática Praça Luís de Camões: outra excelência gastronómica que elimino da minha lista.

Mas gostei de saber que foi recuperado o Cine-Teatro Avenida, após décadas de abandono, e que o Jardim do Paço mantém o viço de sempre. Incluo-o, sem favor, entre os dez mais belos de Portugal.

Venho em visita demasiado apressada, não chego a contactar o meu ex-professor Manuel Costa Alves, que tanto me marcou nas suas aulas de Geografia, nem os filhos dum quase-irmão do meu pai, que na minha infância sempre tratei como primos.

 

À porta da Sé, gente toda aperaltada neste sábado estival: é um casamento. Miro os noivos com um sorriso largo: foi aqui mesmo que os meus pais casaram, conheço este local de dezenas de fotografias dos álbuns de família.

Reparo numa árvore ampla, de folhas largas e escuras, ignoro como se chama. Alguém me esclarece: é um abacateiro. Símbolo de novidade por estas bandas. 

Velho e novo, tudo se conjuga. Nas vilas como nas vidas. Miro a cidade cá de cima, do hotel, e logo me vêm à memória aquelas estrofes da cantiga de Arlindo de Carvalho que aprendi na infância mais remota: «E quem nasceu lá, em Castelo Branco, / não é feliz noutra terra.»

"Ter terra" é isto. Esta necessidade de um cíclico banho lustral capaz de nos lavar por dentro, em resposta a um apelo que soa no mais fundo de nós.

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Notas de um Verão a Norte

por João Pedro Pimenta, em 23.08.18

Durante muitos anos imaginei com seria uma série, um filme, ou qualquer coisa audiovisual passada em Moledo, farto que estava que as coisas só se passassem em Lisboa, por vezes no Porto, e que no Verão só o Algarve fosse devidamente filmado. Moledo só aparece por vezes em reportagens de jornais e revistas, para falar dos seus "notáveis", da nortada, do nevoeiro, e outros lugares comuns simplistas. Com os anos, esses pensamentos desvaneceram-se.


Mas eis que surgiu uma série passada aqui, de seu nome Verão M, inspirada no Verão Azul da nossa infância, em que um antigo casal de namorados se reencontra, e os respectivos filhos partem à descoberta destas paragens. Há alguns anacronismos (tapetes de flores do Corpo de Deus em Agosto?), alguns factos reais (a chaminé do barco afundado entre a Ínsua e a praia), muita imagem bonita de drones (fieis à realidade da beleza da terra), e uma narrativa simples e sem grande criatividade, mas que entretém. Não falta sequer o velho marinheiro retirado, que se torna amigos das crianças, e que mora inverosimilmente no moinho ao lado do pinhal - que há bem poucos anos esteve em risco de derrocada com os ataques do mar.


Enfim, talvez não fosse o que tinha em tempos em mente para filmar Moledo, mas serve. Não há coisas que desapareceram, com a extensão das dunas, a bola Nívea da praia e o único bar da altura, o extinto Pica-Pau, aberto todo o ano, os torneios de futebol e as míticas idas à Indústria Agrícola, encarrapitada nos montes de Cerveira, em que se via o amanhecer sobre o estuário do Minho, ou outras que permanecem, como os passeios de bicicleta, os jantares em Espanha, já do outro lado, ou as festas com viras e cana verde. Mas naqueles rapazinhos e rapariguinhas que se tornam amigos e que descobrem a terra e a sua envolvente, e nos pais que recordam os melhores verões das suas vidas e que tentam fazer regressar os momentos em que foram felizes (no meu caso, mais nestes), há algo de autobiográfico, de familiar, de próximo que não se consegue negar. Só por isso, valeu a pena exibir o Verão M. Porque sem este M, para todos os que passámos por isto, não haveria Verão.

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Sebastião, de grata memória

por Pedro Correia, em 11.02.18

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 Sebastião Fernandes (1947-2018)

 

Devo esta nota a Sebastião Fernandes. Ao "senhor Sebastião" ou simplesmente Sebastião, como era assim chamado por muitos clientes que o iam acompanhando de restaurante em restaurante. Alguns desde o desaparecido Velha Goa, em Campo de Ourique - pioneiro dos estabelecimentos de comida goesa na capital, numa época em que Lisboa estava muito longe de ser o actual mostruário de gastronomia transnacional.

Na segunda metade da década de 80 fundou o Cantinho da Paz, que continua a ser lugar de romagem obrigatória para gastrónomos de diversos quadrantes. Já este século, inaugurou a Casa de Goa, de existência efémera, na Calçada das Necessidades. Nos anos mais recentes, abriu as portas do Nova Goa, entre a Avenida de Roma e o Campo Pequeno. Era lá que recebia, com a bonomia de sempre, dispensando uma palavra gentil a cada cliente.

 

Como aqui assinalei, era um dos restaurantes onde me habituei a abancar sem necessidade de pedir ementa. Sebastião conhecia a minha preferência pelo magnífico sarapatel da casa.

Em regra, chego cedo aos restaurantes: gosto de ser dos primeiros a ser atendidos, seja ao almoço ou ao jantar. Havia tempo para conversar com o proprietário, senhor de muitas histórias, desde a Goa natal de onde saiu ainda adolescente - paixão e devoção que nunca se lhe apagou da memória e dos afectos.

Conhecia muita gente - da política, da banca, da vida empresarial, do jornalismo, do desporto, dos meios artísticos e intelectuais. Sabia receber todos sem nunca trair confidências: esta é uma regra básica de quem quer singrar no ingrato mundo da restauração.

 

Almocei lá pela última vez num domingo de Dezembro. Achei-o um pouco abatido, talvez em consequência de um resfriado. Trouxe-me o sarapatel, com o delicioso arroz basmati servido à parte. O restaurante ia receber um grupo, dessa vez não houve tempo para conversarmos.

Na mesa ao lado, quatro trintonas obcecadas com dietas consultavam interminavelmente a lista, sem se decidirem. "Detestamos picante. Não queremos nada picante nem muito calórico", disse enfim uma delas, aparente porta-voz do grupo, com ar visivelmente enfastiado. Sebastião, com aquela paciência que apenas os orientais têm e a suave ironia em que são exímios, sugeriu: "Posso fazer-vos um bifinho grelhado..."

 

Faleceu há dias, de morte súbita, aos 70 anos. Manteve-se no seu posto gastronómico até ao fim - embaixador informal da bela Goa em Lisboa. Terras irmãs - unidas pela história, pela língua, por crenças e costumes. Unidas pela gastronomia, com tantas influências mútuas. Séculos antes de ter sido popularizada a palavra globalização.

Devo à grata memória de Sebastião Fernandes outra deslocação ao Nova Goa. Onde talvez pela primeira vez me estenderão a ementa. Embora eu já saiba o que irei comer. E que vinho beberei em sua invocação.

Vão-me fazer falta o seu ar bondoso e a sua palavra inspirada em relatos da antiga Goa colonial e da Lisboa de outras eras. Relatos que davam um livro que muitos gostariam de ter escrito. Eu também.

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José César

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.01.18

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Quando eu era miúdo, a minha Mãe metia-me no comboio, no final de cada ano lectivo, e ele esperava por mim em Faro, para me levar para uns dias de férias junto ao mar. Isso foi no tempo em que a Ilha de Tavira não tinha campistas, nem parques de campismo, não havia rádios aos altos berros, nem restaurantes de hambúrgueres. Os pais dele tinham uma casa na ilha. Como marinheiro que fora, embarcado e com várias voltas ao mundo na "Sagres", levou-me a velejar e à pesca. Foi com ele que apanhei salmonetes à noite, burriés, e mergulhei pela primeira vez no azul profundo do Algarve. Deu-me a conhecer a Meia Praia, Santa Luzia, as Quatro Águas, Sagres. Tantos locais, tantos mares que para mim eram novidade. Foi logo no primeiro Verão a seguir ao 25 de Abril. Depois continuou nos anos seguintes. Uma vez, à noite, enquanto os adultos jantavam, fui mordido por um cão pastor dos Pirenéus. Quis fazer do bicho cavalo e ele não gostou. Levou-me de chata pela ria, até Tavira, para uma freira me coser. Dessa vez passei o resto das férias de castigo, de perna e braço entrapados. Via-me jogar futebol na praia, todos os dias, com os mais velhos, achava-me graça, e por causa disso passou a tratar-me por "Beckenbauer", em homenagem à grande estrela da selecção alemã e do Bayern de Munique. Eu sempre achei que seria mais o velho Müller, ou o Eusébio, pois gostava de marcar golos. Para mim, no início da minha adolescência, ele era uma espécie de Jacques Cousteau com sotaque algarvio, com a pele muito tisnada. Conhecia toda a gente, miúdas giras, todos o conheciam. "Agora vamos ali tomar um café, vou apresentar-te um borrachinho!". O "borrachinho" tinha mais vinte anos do que eu. Elas riam-se e ele gozava com a minha timidez. Foi ele que me apresentou o Dentinho e o Brito da Mana. Eram parceiros no mergulho. Eu era o primo. Tomava conta do barco e das garrafas de mergulho. Nesse tempo, ele fazia de tudo um pouco, um verdadeiro artista. Cozinhava, decorava cafés, pintava painéis, quadros, fazia barcos em miniatura. Ainda era casado com uma prima minha, que entretanto partiu e de quem, por força de circunstâncias várias, viria a divorciar-se. Já  a viver com outra pessoa disse-me que fora casado com uma senhora. Gostava muito dela. E tinha um Giannini 1000, de cor roxa, com uma risca branca a meio, carro que comprara ao Cônsul do Reino Unido no Algarve. E também um MG branco, descapotável, com o qual os dois fazíamos a EN125 entre Faro e Tavira. Às vezes, já adulto e a viver fora de Portugal, encontrava-o em casa da minha Mãe. Aparecia nos aniversários dela. Estive muitos anos sem ir ao Algarve, décadas, deixei de o ver, de com ele conviver. Um dia regressei ao Algarve. Acabei por ir viver para Faro, reencontrei-o. Tratou de me fazer o papel e os novos cartões de visita na tipografia onde estava a trabalhar. Ainda estivemos juntos algumas vezes, mas já então era um homem triste, muito diferente daquele que conheci. E tínhamos vidas e interesses diferentes. A vida tinha-lhe pregado algumas partidas. Só vestia de preto e branco, usava um brinco de ouro, como os piratas, e a aliança no polegar. Um excêntrico bem educado, simpático, com um incrível sentido de humor, que pintava, decorava e também gostava de poesia, chegando inclusivamente a publicar alguns livros, na esteira da senhora sua Mãe, poetisa algarvia. Ainda me ofereceu dois com dedicatória. Nos últimos anos andava adoentado, mal dos olhos, e ia de quando em vez a Coimbra. Para "fazer a revisão", como ele me dizia sempre com algum humor quando me encontrava junto à Pontinha. Nos últimos anos perdemos o contacto. Víamo-nos de quando em vez, sempre ali para os lados da Rua de Santo António. Perguntava-me pelo Alfa e pelos tios. Tínhamos vidas diferentes. Também ele foi, à sua maneira, um homem livre. Nunca lhe pagarei os dias e noites de liberdade que me proporcionou, nem a forma como me deu a conhecer o mar do Algarve e a Ria Formosa. Soube há pouco que a vida voltou a pregar-lhe mais uma partida. Foi a última. O José César faleceu ontem a caminho de Coimbra. Tiveram de parar o comboio. Em Santiago do Cacém. Já não chegou a tempo de mais uma revisão. Oxalá que tenham para ele, lá em cima, um lugar com vista para o areal da praia de Faro. E para a ria. Para que ele possa continuar a ver o Sol esconder-se todas as tardes, vermelho fogo, para os lados do Ancão. Ele merece-o.

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Promessas do passado e confirmações improváveis

por João Pedro Pimenta, em 24.01.18

A morte de Dolores O´Riordan e as recordações dos Cranberries levaram-me de novo aos anos noventa. Sempre achei curiosos os casos das next big thing do pop-rock que surgem prontas a conquistar o Mundo e que subitamente são ultrapassadas e atropeladas por grupos por quem pouco se dava à partida. É o caso dos James, sobre os quais paira uma engraçada "maldição", a de terem tido amiúde bandas a fazer as primeiras partes dos seus concertos,e  que depois se tornaram maiores do que eles próprios (como os Radiohead, os Nirvana ou os Coldplay). Mas não são, longe disso, caso único.

 
Aí­ por 1992 ou 1993, em tempos de pré-Britpop, em que o Grunge era rei e senhor da cena pop-rock mundial, os britânicos andavam cabisbaixos, à  procura de algum destaque num meio em que, terminado o shoegazing, e vulgarizado o madchester, pareciam condenados à decadência. Apareciam inúmeros grupos a tentar marcar a sua diferença. Uns eram aproveitáveis, outros nem tanto, e alguns levavam os áugures do meio a rotundos enganos.
 
Aconteceu isso mesmo com os Kingmaker, um grupo prometedor, que supostamente iria conquistar os tops de vendas e marcar o som da pop britânica. Mas as coisas não correram pelo melhor, a popularidade que esperavam não chegou e o grupo acabou por se separar poucos anos depois.
 
Porque é que isto me veio à memória à boleia dos Cranberries? Porque, por alguns testemunhos que vi, os Kingmaker realizaram alguns concertos onde tinham, como banda suporte, um grupo londrino chamado Suede, que deram bem mais nas vistas que os próprios cabeças de cartaz. Como se sabe, os Suede, que começaram com um som glam-rock muito devedor de Bowie e dos anos setenta, foram dos grupos fundadores (e essenciais da Britpop) e um dos mais amados no Reino Unido. Ou seja, eram eles próprios a next big thing do momento, com melhores resultados.
 
 
Mas provaram um pouco do mesmo "remédio" atrás descrito: partiram para uma digressão nos Estados Unidos, levando uma pouco conhecida banda irlandesa para fazer as primeiras partes, uns certos Cranberries. Ao contrário do que esperavam, os ingleses passaram quase despercebidos no Novo Mundo, enquanto que os irlandeses e a voz de Dolores O´Riordan atraí­ram as atenções dos americanos, que começaram a fazer passar as suas músicas, como Linger, na MTV, e obtiveram logo um sucesso considerável que os catapultou para a fama. Os Suede foram olimpicamente ignorados e tiveram de se conformar em ser populares deste lado do Atlântico, sobretudo na terra de origem, onde durante bastante tempo continuaram a atrair as atenções sempre que lançavam um novo trabalho.
 
Quanto aos Kingmaker, desapareceram por completo. Provavelmente dedicaram-se a outras actividades que não a música. Deixaram apenas um rasto da sua existência na net, sobretudo no Youtube, para que possam ser recordados como mais uma promessa efémera, que, como em muitas outras áreas, se deixou ultrapassar por improváveis concorrentes.

 

 

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Uma luz que se apaga

por Pedro Correia, em 02.01.18

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O País na minha pré-adolescência nada tinha a ver com este. Era um país cinzento, governado por senhores muito idosos que apareciam sempre de fato escuro nos monocórdicos telejornais.

Nesse país irrompiam ocasionalmente focos de luz e de brilho e de beleza. Proporcionados por mulheres lindíssimas, por vezes ainda mal chegadas à idade adulta, mas já em destaque no nosso pequeno mundo do espectáculo, da televisão, do teatro e do cinema.

 

No meu tempo de teenager, havia pelo menos duas que se destacavam da mediana dominante. Eram a Guida Maria e a Helena Isabel - assim mesmo, actrizes com duplo nome próprio.

Inigualáveis, cada qual à sua maneira. E contrariavam em tudo aquela triste modorra num país de senhores severos e graves que pareciam vir da pré-história. Pela forma como falavam, como vestiam, como se comportavam. E pela estonteante beleza que exibiam, sem sentirem necessidade de pedir desculpa aos diáconos de turno, ofuscados com tanto brilho. Como se beleza fosse pecado em vez de bênção.

Sempre me senti fascinado por ambas. Pareciam estrelas de Hollywood caídas neste cordato redil lusitano, fora do tempo e fora do espaço que lhes couberam em sorte. Deslocadas daquela época.

 

Um dia, muitos anos depois daquele tempo cinzento a que aludo no primeiro parágrafo, era eu editor de um suplemento de histórias protagonizadas na primeira pessoa do singular quando decidi entrevistar a Guida Maria. Foi uma longa conversa ao telefone, pontuada por incontáveis gargalhadas dos dois lados do fio. Ela, com um sentido de humor desconcertante, correspondeu à elevada fasquia que lhe antecipara.

Hei-de reproduzir aqui essa entrevista, que hoje recordo ainda em choque, ao saber da notícia do seu falecimento. Há mulheres que nunca deviam desaparecer-nos do horizonte. Sou incapaz de imaginar a Guida Maria morta: ela, bela como poucas, que tantas paixões incendiou na minha imberbe geração. E que trouxe um toque de inesperado colorido a um país baço e chato e deprimido.

Foi uma orquídea rara antes dos cravos. Um raio de luz que emergiu das sombras. Nunca lhe saberemos agradecer por isso.

 

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.12.17

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"One of the most fundamental questions about political life – or political science, as some like to call it, as if it were one – is 'Who are we?' With what pattern of loyalties do we identify? Which narratives, memories and experiences shape our behaviour? Do we always find ourselves caugh in the some threads of that spider's web? Can we move about from one strip of the silky trap to another? All of which raises a preliminary question. 'We' is simply the collection of 'I's'. So who am I? What makes up my identity? Genetics, nature, nurture play a major role. But in addition, as with everyone else, my identity in part reflects choices I make. It is also in part the result of influences over which I have little or no control. 'Know thyself' was Socrates' challenge, a challenge both to personal memory and to honesty. Here, perhaps, is the beginning of a justification for writing in this rather different way about my life." 

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Tão perto e já tão longe

por Pedro Correia, em 24.11.17

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 Pedro Rolo Duarte (Foto: Leonardo Negrão)

 

Há notícias que nos atingem como murros no estômago. Nunca estaremos preparados para elas.

Acaba de acontecer-me ao saber que o Pedro Rolo Duarte partiu de vez, sem avisar quase ninguém, aos 53 anos. Sabia-o doente, alguém me avisara há uns meses, como sempre sucede nesta cidade-aldeia, mas nunca imaginei que a doença fosse tão grave e tivesse tanta pressa em roubá-lo ao nosso convívio.

Conhecíamo-nos há 20 anos exactos. Estava eu na secção política do Diário de Notícias, como repórter parlamentar, e ele editava aquele que foi o mais inclassificável e fascinante suplemento da imprensa portuguesa, o DNa de boa memória – que viria a ter fim prematuro, às mãos de uma direcção do jornal incapaz de perceber que tinha ali uma pepita de ouro que nunca devia ter sido extinta. Vê-lo desaparecer doeu-me, como já tinha doído o desaparecimento do DN Jovem, espaço do jornal cultivado e editado pelo Manuel Dias em que se revelaram, ainda na adolescência, tantos actuais talentos da literatura portuguesa.

Prefigurava-se já ali, nessas mudanças abruptas, a presente agonia da nossa imprensa – consequência de demasiadas opções erradas de excessivos decisores medíocres.

 

O DNa – de que guardo com devoção quase religiosa os primeiros cem exemplares, novos como se tivessem saído agora da gráfica – foi um tesouro da imprensa portuguesa e talvez o mais precioso fruto do talento do Pedro Rolo Duarte na sua carreira jornalística impressionantemente longa e afinal dolorosamente fugaz. Ele teve o condão de conceber um conceito jornalístico difícil de etiquetar, mesclando o melhor da tradição com o melhor da inovação, dinamizando uma restrita mas brilhante equipa de infatigáveis colaboradores. Por lá passaram – em diferentes fases dessa década – o Francisco José Viegas, o Luís Osório, a Anabela Mota Ribeiro, a Sónia Morais Santos, o João Gobern, o Carlos Oliveira Santos, o Pedro Mexia, o José Mário Silva, o Carlos Vaz Marques, a irmã dele, Fátima Rolo Duarte, entre outros. Poucos mas bons.

 

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Na redacção, o Pedro era de poucas falas. Alguns, por lá, confundiam essa timidez natural com arrogância, nada dispostos a quebrar o gelo. Nunca senti essa dificuldade – e foi precisamente lá que ficámos amigos. Colaborei com gosto no DNa, à margem das minhas tarefas na absorvente agenda diária do jornal, e lembro-me de duas capas que assinei no suplemento – elegendo-as ainda hoje entre as peças que mais gostei de produzir em trinta anos de jornalismo: entrevistas com Mário Castrim, o decano dos críticos de televisão portugueses, e João Amaral, deputado do PCP e um dos mais brilhantes parlamentares que passaram pela sala das sessões da Assembleia da República.

 

Já acompanhava desde o início da década de 80, como leitor, o percurso do muito jovem Pedro Rolo Duarte - primeiro no semanário Se7e, depois no irrepetível Independente de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, e pela igualmente inclassificável revista K. Legou-nos largos milhares de textos, de todo o género e sobre todos os temas, espalhados pelas mais diversas publicações – herança que recebeu nos genes: os pais, António Rolo Duarte e Maria João Duarte, também jornalistas de profissão, inculcaram-lhe este saudável vício do qual nunca se libertou.

Chegou a integrar uma direcção do DN – de duração efémera, como aconteceu com quase todas desde a partida do nosso comum amigo Mário Bettencourt Resendes, também demasiado cedo desaparecido, deixando um lugar que nunca foi devidamente preenchido no nosso jornalismo. Depois fez-se à estrada, pedalando em pista própria, como sempre. Colaborou na televisão, publicou livros (guardo um aqui à mão, Noites em Branco, recolha de textos avulsos, com a escrita elegante, a suave mordacidade e a discreta ironia que nos habituou), abriu um blogue em nome próprio e regressou à rádio, paixão antiga e sempre renovada.

 

Encontrávamo-nos por vezes, no nosso bairro de Alvalade, em regra no Mercantina – um dos quatro ou cinco restaurantes que frequento em Lisboa – ou na Livraria Barata. Quando lancei o primeiro livro, em 2013, ele teve a amabilidade de me convidar para uma inesquecível entrevista a três vozes (ele, eu e o João Gobern) no seu programa Hotel Babilónia, da Antena 1: foi de longe a mais estimulante conversa jornalística que tive desde sempre, não como entrevistador mas enquanto entrevistado.

Ao contrário do que é mau costume entre nós, nunca lhe faltou capacidade de admiração. Lançou e promoveu vários jornalistas, com uma generosidade rara, e não se deixava contaminar pelo vírus da inveja: nisto, e se calhar só mesmo nisto, parecia pouco português.

 

Trocávamos uma correspondência esporádica e mantínhamos alguma cumplicidade blogosférica. Publiquei aqui no DELITO dois textos dele: o primeiro em Novembro de 2010, fez ontem sete anos; o segundo, no mês passado. Tão longe de imaginar que seria o último.

Ignorava a que ponto estava já debilitado quando dele recebi, a 27 de Setembro, uma calorosa mensagem em que dizia ter superado um sério problema de saúde que não especificou (nem eu o questionei sobre isso, nesta nossa contenção tão masculina que nos leva a contornar detalhes do reduto íntimo de cada qual) e aceitando o meu convite para escrever um texto neste blogue, aqui publicado a 5 de Outubro.

 

Tão perto - e já tão longe. Nunca estamos preparados para dizer adeus a quem parte demasiado cedo. Deixando tantos livros por ler, tantas viagens por fazer, tantos petiscos por partilhar com gente amiga de todas as idades e todos os quadrantes.

É assim, com um nó no estômago e a voz emudecida, que me despeço dele deixando um beijo terno a sua Mãe, um abraço fraterno à Fátima e uma palavra de alento ao filho, baptizado com o nome do avô. Tu, António, tens todos os motivos para sentires orgulho do teu pai.

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As nossas irmãs árvores

por Pedro Correia, em 19.11.17

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Converso com um amigo sobre as vantagens de viver no campo, em comparação com o frenético quotidiano citadino. Há uma enorme árvore bem perto de nós. Pergunto-lhe: “Sabes que árvore é esta?”

Não faz a menor ideia. É um choupo negro, alto e esguio, de folha em forma do símbolo de espadas nas cartas de jogar – uma das espécies vegetais mais frequentes em Lisboa por se adaptar muito bem à atmosfera poluída

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Este episódio banal confirma-me a profunda iliteracia da esmagadora maioria dos habitantes das cidades em relação ao nosso vasto património botânico. A recente tragédia dos incêndios pareceu ter feito de cada compatriota um inesperado especialista em espécies vegetais – ao ponto de todos terem passado a emitir sentenças categóricas sobre o que deve ou não ser plantado nas quintas e aldeias do interior do País. Invocavam a necessidade imperiosa de acolhermos mais “espécies autóctones” e rejeitarmos “espécies invasoras”, sem fazerem a menor ideia do que significa uma coisa e outra.

Essa pretensa sabedoria teve um brevíssimo prazo de validade, próprio dos actuais surtos de indignação nas redes sociais. A verdade é que poucos conhecem as árvores, muito poucos as respeitam e quase todos são incapazes de nomeá-las.

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Tive a sorte de os meus pais me haverem ensinado desde menino a conhecer o mundo vegetal e a tratar as árvores pelos nomes próprios. Aprendi muito cedo que algumas estão mesmo associadas a características de certas regiões. Na região de onde sou originário, a Cova da Beira, a  cerejeira é uma árvore icónica e muito admirada tanto na magnífica fase da floração como na incomparável explosão dos frutos, que conferem tonalidades muito próprias aos extensos pomares das encostas serranas.

Outra árvore a que prestamos tributo por ser uma histórica aliada no combate à fome e pela sua relevância presente no tecido económico da região é o castanheiro, que aliás se destaca no brasão da Câmara Municipal do Fundão, com as castanhas a figurarem como pepitas de ouro.

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Estas e outras árvores acompanharam o meu percurso biográfico.

Os pinhais do Alto Minho e da Fonte da Telha, os coqueiros e tamarindeiros na casa de Timor. Os gondoeiros da praça Engenheiro Canto Resende, no Bairro do Farol. As Madres del Cacau na Ermera. As casuarinas na praia de Hac-Sá, na ilha de Coloane. A grevílea robusta da vivenda da Charneca. Encontrei uma há dias, no jardim do Campo Grande, e saudei-a como se revisse uma velha amiga.

Falta-nos este espírito de confraternização com as nossas irmãs árvores, como diria São Francisco de Assis. Nas reuniões de condóminos urbanos um dos temas recorrentes é o do abate de árvores – porque sujam, porque roubam a luz do sol, porque atraem pássaros e insectos, porque “desfiguram a paisagem”, porque sim. E as próprias autoridades municipais se apressam tantas vezes a retirá-las do espaço público. Ainda hoje não perdoo ao vereador Sá Fernandes ter ordenado a remoção das laranjeiras que ornavam a Praça de Alvalade, substituindo-as por placas de cimento.

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Há dias pus-me a pensar nas árvores que sou capaz de identificar – tanto árvores de floresta, de cultivo ou espontâneas, como de jardim. A lista foi-se tornando cada vez mais extensa. Da figueira ao pinheiro bravo, da tília ao carvalho, do eucalipto ao freixo, do lódão à olaia, do marmeleiro à oliveira, da acácia ao salgueiro, do choupo branco à macieira, do pessegueiro à romanzeira, da pereira ao cipreste, da palmeira-de-leque à alfarrobeira, do sobreiro ao jacarandá, da ginkgo à araucária, do zambujeiro à tipuana, do plátano ao limoeiro, da bananeira à nespereira, da laranjeira à magnólia, do pinheiro manso à palmeira das Canárias. Sem esquecer árvores-arbustos, como os dragoeiros ou os medronheiros.

Várias delas, felizmente, integram já a lista oficial do nosso património. Incluindo o inigualável cedro do Buçaco no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, ou a deslumbrante figueira da Austrália em destaque no Parque Marechal Carmona, em Cascais.

Sempre que posso, fotografo-as: são minhas todas as fotos que ilustram este texto, captadas ao longo deste terrível ano que parece de perpétua Primavera, em que as folhas caducas permanecem verdes e muitas espécies estão a florescer em Novembro como se fosse Abril ou Maio enquanto pelo menos 5% da superfície do País ficou reduzida a cinzas. Muitos dos nossos velhos não voltarão a ver paisagem verde em seu redor.

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Há três meses, a jornalista Maria Henrique Espada, editora da revista Sábado, reuniu António Bagão Félix e José Sá Fernandes numa interesssantíssima conversa sobre árvores em que os dois interlocutores exibiam extensos conhecimentos na matéria.

Gostei muito de ler o que diziam. Só lamento que Sá Fernandes, enquanto vereador responsável pelos espaços verdes da capital, teime em não partilhar essa sabedoria com os habitantes de Lisboa.

Bastaria colocar tabuletas nos jardins a indicar os nomes das espécies vegetais, como fazem várias câmaras por esse País fora, claramente amigas do ambiente.

Isso contribuiria para aproximar das árvores os lisboetas que hoje julgam que elas só servem para receber urina de cães e dar sombra aos carros nos meses de Verão.

 

 

Legendas (de cima para baixo):

1. Romanzeiras

2. Palmeira-de-leque

3. Folhas de olaia

4. Medronheiros

5. Choupos brancos

6. Limoeiros

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 11.09.17

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Dezasseis anos depois, a tragédia continua.

Pelo menos mil pessoas já morreram por efeitos secundários dos atentados, nomeadamente a inalação de poeiras e cinzas tóxicas. Outras duas mil terão provavelmente idêntico destino num prazo máximo de cinco anos. E só 1641 despojos mortais das 2753 pessoas assassinadas a 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque foram devidamente identificados: cerca de 40% dos cadáveres nunca foram resgatados.

 

Foi um dia concreto, não uma data abstracta. Por isso quantos o vivemos nos lembramos bem onde estávamos e o que sentimos quanto tudo aconteceu.

Falo por mim: nunca mais conseguirei esquecê-lo. As vidas de muitos de nós mudaram naquela terça-feira. Todos recordamos as emoções que nos assaltaram, a profunda angústia ao observar aquelas imagens terríficas, a impotência perante o terror.

Os atentados quase simultâneos nas Torres Gémeas, no Pentágono e no voo 93 que se despenhou na Pensilvânia tiveram o impacto de uma revolução. Algo de nós ficou ali para sempre, fixado nas imagens daqueles condenados sem remissão.

Cada um deles podia ser qualquer de nós.

 

Depois do 11 de Setembro nada voltou a ser como dantes. É uma data que traça uma linha fronteiriça na história universal: o terror inscrito nos mais banais gestos do nosso quotidiano. Com alguns direitos fundamentais a cederem contínuo terreno de então para cá.

Entre a liberdade e a segurança, a esmagadora maioria das pessoas prefere hoje a segurança. Compreende-se, de algum modo: é o instinto de preservação da espécie a funcionar.

Mas ficámos com o pior de dois mundos: nos últimos dezasseis anos tornámo-nos muito mais inseguros e muito menos livres.

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Na morte de Jerry Lewis

por Pedro Correia, em 20.08.17

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Certos actores são inimitáveis: Jerry Lewis era um deles. Vi-o, como qualquer de nós, em dezenas de filmes. Mas também o vi uma vez em palco, já ele andava nos 70 anos. Ninguém diria que tinha essa idade: cantava, dançava, cabriolava com uma energia inesgotável no musical Damn Yankees, de George Abbott, Douglass Wakllop (letra), Richard Adler e Jerry Ross (música), nas tábuas do Golden Gate Theater, em Market Street, no centro de São Francisco.
Ainda hesitei em aguardar por ele à saída, para lhe caçar um autógrafo, ao princípio dessa noite de Setembro de 1996: afinal, Jerry Lewis foi um dos ídolos da minha infância.
 
Mal surgia no ecrã, despertava um festival de gargalhadas nas suas comédias de início de carreira em parceria com Dean Martin. O último filme que rodaram juntos – Pintores e Raparigas, de Frank Tashlin, película de 1955, o mesmo ano em que Damn Yankees estreou na Broadway – é uma obra-prima do género, com a vantagem acrescida de incluir uma esplendorosa Shirley MacLaine, então a dar os primeiros passos no cinema.
Dez anos depois, sempre em registo de comédia, o actor nascido com o nome de Joseph Levitch a 16 de Março de 1926, em Newark, Nova Jérsia, protagonizou um dos raros filmes que me fizeram rir até às lágrimas: Boeing, Boeing, hilariante longa-metragem sobre troca de identidades realizada por John Rich em que Jerry se revelava no auge das suas magníficas capacidades como comediante.
Mas talvez o seu melhor filme tenha sido afinal um drama: O Rei da Comédia, de Martin Scorsese (1983), ao lado de Robert de Niro. A Academia de Hollywood podia e devia ter-lhe dado um Óscar por esse trabalho que desmontava com implacável lucidez os frágeis mecanismos do sucesso televisivo. Nada feito: os académicos costumam torcer o nariz a actores oriundos do reino da comédia, esse género que teimam em considerar menor. Pelo mesmíssimo motivo, nem um gigante como Chaplin conseguiu uma estatueta com clássicos como Luzes da Cidade ou O Grande Ditador.
 
Naquele dia, acabei por trocar o autógrafo de Jerry Lewis pelo de Suzanne Vega, que actuava a curta distância, na Virgin, também em Market Street. Improvisando um recital com uma simples viola na mão e um ar doce, quase tímido, como se pedisse desculpa pela súbita fama de que gozava.
Confesso: gosto de ver o meu nome escrito por ela na dedicatória que me deixou no disco Nine Objects of Desire, que tem uma canção deliciosa: World Before Columbus, com uma letra que rapidamente memorizei: "If your love were taken from me / Every color would be black and white / It would be as flat as the world before Columbus / That's the day that I lose half my sight // If your life were taken from me/ All the trees would freeze in this cold ground / It would be as cruel as the world before Columbus / Sail to the edge and I'd be there looking down."
 
Mas ainda hoje me arrependo de não ter esperado antes por Jerry Lewis à porta dos actores no Golden Gate.
 
Texto reeditado em homenagem a Jerry Lewis, hoje falecido aos 91 anos

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Reviver o passado em Caminha

por Pedro Correia, em 15.06.17

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Devido à profissão dos meus pais, ambos professores, passei a infância a saltitar de terra em terra. Quando fiz 12 anos vivia já na oitava casa onde morei, em cinco terras muito diferentes.

Na altura, como julgo ser normal acontecer com qualquer miúdo nas mesmas circunstâncias, isso entristecia-me. Porque me sentia incapaz de cultivar amizades de infância que perdurassem para a vida. Hoje, pelo contrário, considero que esta constante itinerância produziu efeitos muito mais positivos do que negativos. Graças a ela, posso gabar-me de ter várias terras em vez de uma só.

 

Há quem não valorize isto, mas eu gosto de sentir que fui dispersando raízes por diversos quadrantes a que de algum modo posso chamar meus. Mesmo quando estou muitos anos sem visitá-los. Tem-me acontecido por estes dias, aproveitando as férias de Junho. Passei toda a semana anterior numa das minhas terras adoptivas: Tavira, que frequento com raras intermitências desde há vinte anos.

De um dia para o outro, no entanto, decidi rumar do extremo sudeste ao extremo noroeste do País. Confirmando que bastam oito horas para atravessarmos Portugal de lés a lés. E cá estou em Caminha, onde não pousava há três décadas. Não por falta de vontade mas por falta de oportunidade.

 

Ainda bem que voltei. Porque esta é uma das paisagens da minha infância. Vivi três anos em Viana do Castelo e fazíamos praia um pouco onde calhava, ao longo da estrada nacional 13: Carreço, Afife, Vila Praia de Âncora. Há poucas horas passei defronte da antiga Pensão Meira, hoje um orgulhoso hotel de Âncora, onde a família se alojava durante parte da estação estival.

Mas as minhas melhores memórias infantis de Verão são daqui, da foz do Rio Minho que tenho neste preciso momento defronte dos meus olhos. Do areal de Moledo, onde pela primeira vez vi pára-ventos, presença obrigatória nas praias minhotas batidas pela nortada. Das águas plácidas do rio, que frequentávamos quando o oceano ficava mais agitado. Da aprazível mata do Camarido, com o seu parque de campismo e os seus aromas a flores silvestres. Das caldeiradas em família no entretanto desaparecido Pirata, situado junto ao posto da velha Guarda Fiscal

 

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Regressei. E fiz bem. Calcorreando no presente os trilhos do passado quase como se não houvesse décadas de permeio. Eis-me de volta à marginal, que acompanha o vasto rio fronteiriço - semelhante aos cenários que transplantámos para todas as paragens onde deixámos marca, do Rio de Janeiro a Díli, de Luanda a Macau, de Goa a São Tomé.

A paisagem do passado ecoando no presente: a muralha seiscentista, a matriz, as tílias na praça central, a torre do relógio, o Coura desaguando no Minho, a silhueta tutelar da Serra d' Arga e a massa imponente do Monte de Santa Tecla, na Galiza, atraindo-nos para o outro lado da foz.

Sinto-me miúdo outra vez enquanto cruzo estas ruas. Quando cá vínhamos, abancávamos por vezes na Adega do Chico, típico restaurante familiar. Nunca mais soube dele até há dois dias, quando deparei com ele quase por acaso. Está praticamente na mesma: só deixou de haver serradura no chão, como era habitual nas adegas daquele tempo.

Até o prato mais emblemático ainda é o célebre bacalhau à Chico.

 

É o que peço, sentado na esplanada, enquanto escrevinho estas linhas, acompanhadas de goles de um fresquíssimo verde de Ponte de Lima - outra paisagem da minha infância que quero revisitar.

Cada vez mais me convenço que a felicidade em abstracto não passa de uma utopia: existem, isso sim, múltiplos momentos felizes.

Este é um deles. E há que aproveitá-los todos: cada qual é um pedaço de eternidade.

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O drama repete-se na direita tradicional francesa

por João Pedro Pimenta, em 04.04.17

 

Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correligionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.

 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trotsquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.
 
O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos" vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

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