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Para memória futura

por Paulo Sousa, em 17.09.20

Jovem do futuro,

Escrevo-te este texto no mês de setembro do ano 2020. Poderia dizer que te escrevo a partir do ano da pandemia, tal como se estivesse em 1939 te poderia dizer que te escrevia do ano da guerra, mas como a guerra durou até 1945, e por não te querer faltar à verdade, digo-te apenas que te escrevo do ano em que a pandemia foi declarada.

Olhando para o que vivemos desde o início da passada primavera, posso contar-te que tudo começou do outro lado do mundo, lá no extremo oriente onde as doenças respiratórias são frequentes. Mas na Europa desde cem anos atrás, desde a Gripe Espanhola, que nada desde género cá chegava. Os sofisticados níveis sanitários desta ponta da Eurásia explicavam a nossa falta de comparência nessas ninharias que só afligiam os países do terceiro mundo. Apesar dos primeiros casos terem já sido registados no final de 2019, a nossa surpresa foi total.

Este vírus, o Corona, apresentou-se com um leque de características que abalaram o mundo em que vivíamos.

Se consultares os dados de mortalidade desta época poderás achar que estou a exagerar. Escrevo-te no início do que será a segunda vaga da pandemia, mas de facto até agora a mortandade não é comparável a outras pestes e pragas. Mas não te esqueças que noutros tempos estes fenómenos, por não terem explicação racional, acabavam por serem justificados como sendo castigos transcendentais. Como nos dias de hoje a ciência já praticamente expulsou o transcendental da esfera de cada indivíduo, ficamos quase sem saber bem o que pensar.

Importa lembrar que a pandemia anterior deixou o nosso país numa quase guerra civil, a que se seguiu uma longa ditadura. A actual democracia é já uma quarentona que apesar de ser democraticamente jovem já tem rugas, vista cansada, pernas pesadas, triceps flácidos e no cabeleireiro manda disfarçar os cabelos brancos. Mesmo sem ter com que pagar o serviço insiste em deixar gorjeta. Três falências financeiras já ninguém lhas tira do curriculum.

Ainda antes dos efeitos da pandemia, um quinto dos portugueses já vivia na pobreza. Os pobres são os esquecidos do regime, passam frio de inverno, têm ratos a passear à porta da cozinha e não têm férias para gozar. Os valores humanistas apregoados pela esquerda que governa contrastam com esta realidade que persiste.

Uma vez por ano celebra-se a liberdade e finge-se que os pobres são livres. O que não é verdade, pois estão aprisionados pelos impostos que incidem sobre os seus contratos de trabalho e que, de tão pesados, afastam possíveis alternativas de emprego ou o emprego em si mesmo. Os governos garantem que se conseguirem cobrar mais impostos irão resolver o problema e assim vivemos num eterno ciclo de impostos altos e de pobreza duradoura que se autoalimenta.

Os partidos mudaram mas para pior. Trocaram os operários por minorias identitárias escolhidas a dedo. Outros preferem os animais às pessoas. Mas nenhum representa os pobres, que não sendo poucos, são uma minoria demasiado grande para ter importância. A abstenção é coisa de gente deplorável e os jornais estão tão falidos quanto a classe dominante podia desejar.

As falências de bancos dos últimos anos foram apenas parte de uma imensa destruição de riqueza que apenas teve consequências nas algibeiras dos contribuintes que através do Orçamento de Estado tiveram de assumir os seus custos infinitos. A acompanhar este empobrecimento colectivo, os serviços públicos degradaram-se.

Quem tiver dinheiro para isso, paga para ter assistência médica prestada por privados. Os servidores públicos têm um sistema autónomo de saúde que lhes garante serem assistidos pelos mesmos privados. A restante população sujeita-se a listas de espera inexplicáveis e até a morrer enquanto aguarda por uma cirurgia que não será feita a tempo.

A justiça inverteu o ónus da prova na cobrança de impostos e é vergonhosamente impotente perante os identificados criminosos que nos roubaram a todos.

Por sorte calhou-nos este canteiro no fim do mapa, quase sempre fora das rotas dos impérios continentais e que permitiu que sejamos uma nação antiga. A geografia arredou-nos assim do centro das disputas de poder e também fez do nosso país um Estado-Membro da União Europeia. É em resultado da geografia, e não por qualquer mérito próprio, que recebemos milhões de metros cúbicos de impostos cobrados aos países ricos do norte e do centro da UE. Enquanto o fluxo de dinheiro europeu não for interrompido o regime irá aguentar-se. De resto lidamos bem com a mediocridade de quem aceita as esmolas como modo de vida.

Foi neste cenário de total dependência económica e de marasmo moral que entrámos nesta pandemia.

No início sabíamos apenas que o vírus era, e continua a ser, muito contagioso. Pode ter até duas semanas de incubação e mesmo antes de a pessoa infectada sentir qualquer sintoma pode estar já a contaminar quem o rodeia. Qualquer amigo, apenas conhecido ou até desconhecido que não apresente qualquer sintoma, pode ainda assim estar infectado e contagiar-nos. Sabendo isso é normal que desconfiemos de todos. Por isso, com medo, banimos o contacto físico, deixamos de dar apertos de mão, beijos no rosto e também de dar abraços. Quer dizer, não totalmente, pois por vezes transportamos o vigor com que queríamos esmurrar esta doença e convertemos esse impulso num abraço inteiro e apertado a alguém que nos é querido. Há coisas e momentos pelos quais vale a pena correr riscos.

Será que, depois de terminada esta provação, nos voltaremos a cumprimentar como antes?

O medo do contágio, e as primeiras imagens chegadas da região de Milão com camiões militares cheios de caixões, levou a um auto-confinamento tão rápido que antecedeu até a declaração do estado de emergência pelo governo. A brusca mudança de hábitos retirou os clientes dos restaurantes, cafés, bares, salas de cinema, discotecas, espaços de espectáculo e de cultura, levou ao cancelamento de festas populares, de festivais de verão, de viagens aéreas e de estadias turísticas. A quebra de riqueza que resultou desta paragem brusca foi imediata e ainda não sabemos ao que nos irá levar. O tráfego aéreo foi reduzido em mais de 90% e os aviões ficaram estacionados nos aeroportos.

Quem por razões profissionais e ou financeiras o pôde fazer, ficou em casa. As famílias passaram muito mais tempo juntas. Essa mudança fez com que algumas ficassem mais unidas, mas outras, e pelo mesmo motivo, desfizeram-se.

Os profissionais de saúde foram os primeiros a lidar directamente com o pesadelo. O norte de Itália foi o primeiro grande foco europeu. Os médicos e enfermeiros que estiveram na linha da frente tiveram de recorrer aos protocolos da medicina de guerra, em que por falta de equipamentos suficientes tiveram de definir critérios de escolha para prestar socorro a um jovem saudável deixando de lado um velho, ou até um jovem não saudável. Os ventiladores tornaram-se no aparelho mais desejado. Em resposta a isso e em poucos dias milhares de engenheiros colaboraram on-line para desenvolver novos modelos de fácil produção e de menor custo. Excluindo egoísmos pontuais, respirou-se um sentimento de partilha e de união perante este este inimigo invisível.

As escolas passaram a funcionar à distância através da internet, algo impensável há poucos anos atrás. Mas as queixas desta solução foram muitas. Demasiados alunos não tinham forma de assistir e, como sempre, os mais pobres ficaram em desvantagem. Excluindo egoísmos pontuais, os professores mostraram espírito de missão. Deram o seu melhor para não deixar os seus alunos sem aulas. As aulas não presenciais exigiram-lhes muito mais horas do que seria necessário no mundo pré-covid. Os alunos adaptaram-se igualmente. As redes sociais colmataram parte da ausência forçada, mas demasiadas coisas no mundo escolar foram interrompidas.

Durante o confinamento, as varandas dos prédios urbanos ganharam uma nova vida. Dali se aplaudiu em reconhecimento os sacrifícios dos profissionais de saúde, dali se cantou em coro com desconhecidos e dali se fizeram incríveis concertos para os vizinhos igualmente aprisionados. Se conseguirmos colaborar em manifestações que não são mais do que arte espontânea e colectiva e se conseguirmos sorrir enquanto este pesadelo nos agride, então ainda há motivo para ter esperança. Descobrimos isso quando nos emocionámos perante os vídeos incríveis de eventos avulsos que chegaram até nós pelos ecrãs dos telefones e dos computadores.

Houve também uma outra casta de heróis quase esquecida. Os supermercados continuaram a funcionar, as suas prateleiras continuaram a ser abastecidas com verduras produzidas pelos agricultores e transportadas pelos camionistas. Estas foram as humildes obreiras que para continuar a abastecer a colmeia não se puderam dar ao luxo de se fechar em casa nem de ir cantar para a varanda. Sabe Deus o medo com que tiveram de lidar para que os circuitos de abastecimento não fossem interrompidos. E assim evitaram o caos. Se alguém lhes perguntar o que fizeram ou porque o fizeram, dirão apenas que fizeram o que tinha de ser feito, e isso para mim é a definição de coragem.

Pouco tempo depois, entendemos que o confinamento nos poupava da doença, mas em contrapartida arrastaria multidões para o desemprego e para a fome. Perante isso digerimos o risco e seguimos em frente. As máscaras de protecção tornaram-se omnipresentes e passaram a esconder os dentes careados e falhos dos pobres assim como os lábios das mulheres bonitas. Com elas postas, com os seus elásticos nas orelhas, aprendemos a sorrir com os olhos.

Triste foi ver os nossos governantes a fingir que sabiam o que fazer. É claro que não sabiam, nem podiam saber. Ninguém nunca poderia estar preparado para uma pandemia como esta. Mas como o fingimento é o seu modo de estar na vida e como só sabem representar, acabaram por dizer coisas completamente opostas com poucas horas de diferença, sempre com o mesmo ar confiante.

Felizmente em grande parte da Europa, é-nos permitido gozar com os políticos. Os políticos portugueses, em particular, são incansáveis em ridicularizar-se a si próprios, assim como ao regime de que fazem parte e que representam. Às vezes são tão risíveis que parecem estar apenas apostados em nos entreter pelas gargalhadas que provocam. Acabam até por nos aliviar da pressão causada pela incerteza. Se se assumissem como palhaços, que é o que são, perderiam a graça.

Gostava de saber como são os líderes do teu tempo. Nunca li nenhuma história de ficção científica em que se vivesse em democracia. Será que os tiranos conseguirão triunfar?

Enquanto isso, e indiferente a tudo isto, a natureza manteve o seu curso. Os pássaros continuaram a nascer nos ninhos, e a cantar nas árvores. Os ratos e os corruptos continuam longe da extinção. Os golfinhos continuam a deslizar pelas águas do mar onde os microplásticos são cada vez mais. E os bebés continuam a nascer. Como eles irão querer melhorar o mundo que receberam, continuamos com motivos para ter esperança.

Eu continuo a questionar-me se a beleza se esgota nos olhos de quem a observa e nos ouvidos de quem a escuta ou, pelo contrário, reside nas mais pequenas partículas das coisas belas. Se o nosso código genético é 98% idêntico ao dos macacos, em que escala atómica é possível definir uns olhos bonitos?

O pôr do sol, esse, continua a ocorrer a oeste. Ao longo da maior parte da linha da costa continental do nosso território, isso faz com que o sol desapareça no mar. Poder assistir a esse momento fugaz continua a ser um privilégio, desperdiçado com indiferença.

Vicente Jorge Silva (1945-2020)

por Pedro Correia, em 08.09.20

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Foto: Pedro Nunes / Expresso

 

Conheci centenas de jornalistas no decurso da minha actividade profissional. Mas figuras marcantes, enquanto directores executivos dos jornais a que estive ligado, apenas três: Vicente Jorge Silva (no Público), Joaquim Vieira (no Expresso) e Mário Bettencourt Resendes (no Diário de Notícias). Três personalidades muito diferentes, até ao nível do convívio quotidiano, mas que deixaram marca nas publicações que dirigiram. Vicente com uma vertente mais cultural, dando largas à sua paixão pela escrita. Joaquim, imbatível na área do jornalismo de investigação. Mário, desaparecido há dez anos, o mais dotado de sensibilidade política.

Deste trio de grandes profissionais do jornalismo resta só o Joaquim Vieira. Acabo de saber a triste notícia do falecimento de Vicente Jorge Silva (nunca nos tratámos por tu), com quem estive pela última vez durante uma tarde bem preenchida, na sua casa de Lisboa, há pouco mais de um ano. Sabia-o muito doente, e ele nem fazia questão de esconder isso, o que não tolhia a sua habitual loquacidade. Era, aliás, um prazer ouvi-lo discorrer sem travão sobre os mais diversos assuntos, saltando de tema em tema, mas sempre com um encadeado lógico. Escrevia desta forma, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor - e também com ele próprio. Cheio de dúvidas metódicas, sem certezas inabaláveis. Mas sempre atento ao «desconcerto do mundo», como bem expressa a redondilha camoniana.

 

Fiz-lhe uma das últimas entrevistas, publicada em Março de 2019 num jornal entretanto desaparecido e que não deixou rasto digital. Tenciono republicar essa entrevista no DELITO, nos próximos dias: Vicente Jorge Silva (1945-2020) merece: foi formador em exercício de duas gerações de jornalistas, durante um quarto de século - dos tempos da resistência à ditadura no Comércio do Funchal, editado na cidade onde nasceu, até ao Verão de 1996, quando renunciou à Direcção do Público, jornal que fundara quase sete anos antes. Passando pela época áurea da Revista do Expresso, nascida por iniciativa dele ainda nos anos 70 e que dirigiu com plena autonomia durante grande parte da década de 80: ali deixou um rasto de qualidade jamais igualada. 

«Nos jornais, falta investigação verdadeiramente jornalística. Falta retomar o gosto de contar uma boa história», disse-me nessa entrevista em que era possível detectar já um aceno de despedida. «Vivemos na gritaria e na correria. Um tipo tem de falar mais alto para ser ouvido. E não há tempo para verificar os factos. A tendência para as notícias falsas é cada vez maior», observou também. Com a lucidez que nunca o abandonou.

Tinha o sonho, eternamente adiado, de tornar-se cineasta a tempo inteiro. Sempre lamentei esta sua retirada prematura, assim como a sua ocasional incursão pela política, como deputado do PS, entre 2002 e 2004. Sabia bem mas sabia a pouco ir lendo as suas colunas na imprensa, rodando em títulos vários, nos anos posteriores - a última em espaço nobre do próprio Público, decisão do jornal da Sonae assumida em 2016 e que só pecou por tardia.

 

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, «os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente».

Uma frase que Vicente certamente subscreveria, naquele estilo cáustico, irreverente e muitas vezes intempestivo que se tornou sua imagem de marca. Vai deixar-nos saudades a partir de agora. 

O futuro

por jpt, em 15.08.20

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(Sob o mote "culpa e castigo" foi agora publicado o nº 5 da revista "Mordaz", o fanzine digital iniciado durante o período do confinamento. Traz textos de Francisco Segurado Silva, Pedro Baptista-Bastos,Ricardo Silveirinha, Afonso de Melo, José Pimentel Teixeira, Artur Guilherme, Carvalho, Jorge Arriaga, Luis Soares de Oliveira, Sara Sampaio Simões, Olga Delgado Ortega, Philmore Stevens, Elsa Bettencourt. Quem tiver interesse em ler a revista bastar-lhe-á "clicar" na ligação ao documento (em pdf) e "folheá-lo" ou gravá-lo.

Eu escrevi sobre racismo. Ecoando uma pequena memória minha. Em si mesmo pouco relevante. Apenas forma de me demarcar do obscurantismo demagógico dos "bem-pensantes" deste Portugal.)

*****

 

Sexta-feira, são para aí 2 de manhã, subo a Guerra Popular vindo do Kampfumo, viro à direita, e sigo já na 25 de Setembro, e toca-me o telefone, surpreende-me a esta hora, até em quase susto, mas vejo que é um camarada, encosto para atender mas já (sub)entendi pois acabei de cruzar o África-Bar de esplanada apinhada e decerto que alguém ali me terá visto passar neste meu vetusto e rejubilante Ssangyong, o rino Musso. E assim é, ele, até parente, num "mais-velho, estamos aqui, e à tua espera ...". E logo salto do arção, avanço para esse tal ali, tanta gente que o gang da antropologia se refugiara no átrio do Cine-África, tudo de 2M na mão, eu vindo dos uísques lá dos CFM e assim um pouco desarmado mas algum mais-novo logo me traz companhia, durante as risadas do "onde andavas tu, mais-velho?" enquanto eu junto a boca ao gargalo recém-chegado, e a vida é assim, corre, afinal sou o único quarentão no círculo, onde abundam ex-alunos agora, e até desde há já muito, colegas.

Festiva a noite continua entre conversas flanantes, festa ombreada. E alguém chega, de todos eles conhecido, jovem trintão, um palmo maior do que eu, para cima e de ombros, que não de barriga, e ali colhe grande e geral agrado, rodada de abraços, daqueles das palmadas nas costas. Diante de mim aperta-me a mão olhando para o quem do lado, e eu, o tal mais-velho, na noctívaga variante bem-disposta, digo-lhe em sorriso jocoso "pá, olha para mim quando me apertas a mão!". O que fui eu dizer!, o tipo investe "que é que tu queres branco de merda!" e por aí em diante, sempre para pior ... Estanco, de tão surpreso, deste modo nunca vira isto nesta terra! Racismo aqui? Sentira-o, muitíssimo, nos tempos em que aportara, mas cuspido por moçambicanos brancos, invectivando-nos "tugas" como se peçonhentos, algo execrável mas contextualizável, daquela tribo sentida como desamada, mas assim nunca ... E tranco, enquanto ele é logo afastado, rodeado num "então, calma, é o Teixeira, o nosso mais-velho!". 

Tiram-no do átrio, esse que em tempos anteriores foi vivido como foyer, e planta-se ele no passeio ainda desabrido. A mim não só me amornou como azedou a 2M, e pergunto(-me) "que é isto? quem é este gajo?", e um dos meus mais-novos esclarece, "é nosso colega, de Economia, fez o mestrado em Portugal e diz que lá sofreu muita merda", e eu disparo, "e o que é eu tenho a ver com isso, caralho?!", filhodaputa, professor universitário ainda por cima …

Mas o tipo não se cala, sonoro nas invectivas, e forçam-no a recuar até ao separador das vias, apinhado de carros pois tantos os clientes que enchem a rua. Ali encontra pedras e paus, que brande em gritaria, ameaçando-me, que já estou na breve escadaria da entrada. E nisso, sem que eu o esperasse, algo se me quebra, perco a cabeça como nunca me acontecera, pois uma merda destas eu não aceito, não posso aceitar ... E avanço para ele, a passo cruzo o passeio e a rua, só depois imaginarei o que toda aquela multidão terá pensado do maluco daquele "branco" ou "tuga", nestas condições assim ali quase-único, ou mesmo "velho", que já estou encanecido, a avançar para um louco aos gritos com pedras na mão num "atira lá, meu cabrão!". A meu lado, logo, C., que é, sempre eu o disse, como se um príncipe, e o mais influente da sua geração, num "calma, Teixeira, calma, mais-velho", e o sacaninha, cobarde, nos gritos a atirar as pedras e paus, às minhas nove horas e às três horas, e depois às sete e às cinco, e eu avanço-me, no passo a passo descerebral, e é ele rodeado, enfiam-no num carro e lá segue à vida.

Semanas passam, surge o jantar final do ano lectivo, em casa de colega, um tipo porreiro. Connosco alguns dos finalistas, agora novos doutores também. E de súbito entra o tipo, com a mulher, afinal é ali família. Fico estupefacto, numa amálgama de sentimentos, é certo não poder desatinar pois sou convidado e a anfitriã está presente, e dever-me-ei retirar, ofendido?, mas não deixo de pensar, "oops, agora, sem aquela adrenalina toda, o sacaninha parte-me todo", e até penso que ele virá dizer-me, mentindo claro, "professor ou teixeira, desculpe lá, havia bebido demais". Mas nada disso, ele apenas me fita, com sarcasmo, em injúria altaneira, supremacista ... 

Janto, converso, rio, pois é festa e também minha. Entretanto o casalinho sairá. Nisto fui fumando na varanda, olhando a Drenagem. Sem deixar de pensar, entre outras coisas, que aqueles meus queridos amigos não sentem nem percebem o quão inadmissível é juntarem-me com aquilo. E, pior, o conviverem eles com aquilo. Porque isto não é apenas o passado. É o futuro, compõe-no.

Não tenho culpa. Nem aceito castigo. E, aqui, agora, para o negar podem chamar os demagogos, letrados, atrevidos. Esta pobreza da gente da "petty-corruption".  Que eu avançarei, na mesma. Passo a passo. Desde que, claro, perca a cabeça.

Do meu baú (3)

por Pedro Correia, em 02.07.20

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Sou coleccionador compulsivo das entrevistas de falsos profetas. Sobretudo aqueles que profetizam desgraças e calamidades. Um dos mais simpáticos dentro do género, devo reconhecer, é João Ferreira do Amaral «economista conceituado», como o introduz Clara Ferreira Alves na entrevista (insolitamente apresentada como "almoço") que assinou com ele na revista do Expresso, edição de 4 de Maio de 2013

O título de capa é um daqueles que vendem sempre bem: «Vamos sair do euro.» Assim mesmo, neste tom categórico, sem margem para dúvida.

Como se fosse pouco, lá dentro (página 37) a certeza torna-se ainda mais indubitável: «É claro que vamos sair do euro.»

 

«Num restaurante de Lisboa com vista larga sobre o rio, pediu cabrito assado com batatas. Água. Mais nada. Fala dos assuntos com a voz desapaixonada do técnico e do conhecedor.» Assim alude a ele a jornalista, em prosa quase poética, sem disfarçar o deslumbramento pelo entrevistado: «Lê-lo é um exercício de clareza e de esclarecimento, e tem razão em muitas coisas que aponta. A saída deverá ser controlada para não ser traumática, e será um benefício para a economia. Portugal continuaria na União Europeia e no espaço Schengen. A história já lhe deu razão em quase tudo.»

Caramba, é difícil um simples leitor não se sentir esmagado com tanta sapiência. Tudo isto nos parágrafos de entrada, ainda sem termos acesso ao pensamento do entrevistado. 

 

«Não ponho sequer a alternativa de ficarmos», debita o professor, que trabalhou no Palácio de Belém, entre 1991 e 1996, como consultor de Mário Soares. E nem seria necessário convocar os portugueses para referendar tão relevante opção política. Motivo? «Visto que não entrámos com um, não há razão para precisarmos de um para sair.»

Possíveis consequências, para o País, de uma "saída ordeira" da moeda única? Hipótese desenvolvida num trecho da entrevista: «Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se. O pior são os dois anos, do ponto de vista democrático. A violência, a bandidagem...» E noutro trecho: «Vejo imensos [riscos]. Pode correr mal. Pode gerar-se um pânico.»

 

Sete anos depois, ao revisitarmos este ameno bate-papo, ficamos esmagados com tanta acutilância e tanta presciência daquele a quem «a história já deu razão em quase tudo».

Fez bem, de qualquer modo, o Presidente Soares em não ter seguido os conselhos deste seu sábio consultor.

Do meu baú (1)

por Pedro Correia, em 28.06.20

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Se há manchetes que me fazem sorrir é esta. «Túnel debaxo do Tejo entre Beato e Montijo», titulava o Diário de Notícias a 2 de Agosto de 2007. Prevendo já a chamada "terceira travessia" em Lisboa do maior rio português, com base no estudo de avaliação do empreendimento encomendado pela Confederação da Indústria Portuguesa. Segundo esta notícia - publicada vai fazer 13 anos - a travessia, «através de túnel ou ponte», iria situar-se no eixo Beato/Montijo, «em alternativa à [suposta] travessia entre Chelas e Barreiro, permitindo oferecer melhores acessos, sobretudo ferroviários, a um futuro aeroporto naquele local». O estudo resultou da encomenda a um «consultor internacional» cuja entidade não era revelada. 

O primeiro-ministro, à época, era José Sócrates. Que também figurava nesta capa do jornal, em notícia com menor destaque, sob o título «Curso de Sócrates livre de ilegalidades»: a Procuradoria-Geral da República acabara de arquivar um inquérito à licenciatura do chefe do Governo, concluindo que «não houve tratamento de favor». 

Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 23.06.20

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I

Gosto de bons títulos. E não é de agora: sempre gostei. 

Um bom título deve captar a atenção do leitor, deve atraí-lo, deve seduzi-lo. 

Se for necessário, alguém interrompe outras tarefas na azáfama de uma Redacção e concentra-se nisto até encontrar o título ideal. Por vezes, é o próprio autor do texto. Mas acontece, quase sempre, que seja um editor de caderno ou de secção. Ou até um membro da direcção com mais talento para esta função, o que nem sempre acontece. Conheci directores e subdirectores que mal sabiam fazer um título. Ou até uma simples legenda.

 

Um título bem conseguido é uma forma de mostrar consideração e apreço por quem nos lê.

Seja onde for. Também num blogue. E sempre com regras: aqui no DELITO, por exemplo, uma "regra" tácita e de adesão voluntária recomenda que um título não tenha mais de 32 batidas, incluindo espaços. Evitando assim que uma palavra salte, solitária, para uma inútil e redundante segunda linha. Nada recomendável até por motivos estéticos.

 

Quando havia mais tempo e mais gente para elaborar jornais, as pessoas organizavam-se de acordo com as suas aptidões. Havia os repórteres, que andavam quase sempre fora e ligavam a dar dicas ou a ditar entradas de notícias, e os redactores, com mais talento para a escrita, que se encarregavam da versão final dos textos.

Na hora do fecho, com a primeira página prestes a concluir, convocava-se sempre um especialista em títulos. Que podia ser alguém que nem estava munido com carteira profissional. Houve até um arquivista com especial talento para a arte de titular que acabou por tornar-se jornalista deste modo: forneceu tantas sugestões certeiras para manchetes com sucesso à equipa directiva que um dia saltou do arquivo para um lugar destacado na Redacção.

 

II

Há muito tempo que o Expresso abdicou de fazer bons títulos - criativos, chamativos, sintéticos, sem distorcer factos - e optou pela forma mais preguiçosa e previsível de titular. Aquilo a que costumo chamar "títulos de funcionário": aplica-se o molde chapa cinco e fica despachado. 

Exemplos de "títulos de funcionário": aqueles que usam e abusam de títulos de livros ou filmes ao ponto de se tornarem insuportáveis lugares-comuns. Foi o caso, durante anos, da expressão "à beira de um ataque de nervos", decalcada de um filme de Almodóvar.

Ou os que empregam locuções verbais que pela sua natureza já estão mais que vistas e gastas, incluindo as que incluem o verbo haver, o verbo ir, o verbo ser ou o verbo estar.

Ou os que recorrem até à náusea aos pronomes relativos, sobretudo o famigerado "que", quase sempre substituído com vantagem por elegantes dois pontos.

Ou os intermináveis, cheios de vírgulas e palavras inúteis, que cansam o leitor ao ponto de o dissuadirem de passar do título ao texto.

Ou, na política, os que insistem em "dar murros na mesa", em "querer" ou "não querer" ou em "disparar" contra tudo quanto mexe ou em "arrasar" seja o que for - bocejantes expressões mil vezes escritas, mil vez lidas, ao ponto da saturação total. E reveladoras de uma confrangedora pobreza lexical nestes tempos de galopante supressão de vocábulos, condenados à extinção pela iliteracia dominante.

 

Basta-me folhear a mais recente edição do Expresso para encontrar "títulos de funcionário". 

Eis alguns: «Vai começar uma "revolução científica" no Vale do Côa»; «Portugal vai ter mais um centro para refugiados»; «Emergência social dispara em 2 meses»; «Tempo arrasa agricultura»; «Merkel quer resposta rápida»; «Costa quer entendimento à esquerda até 2023»; «Marcelo não quer público nos jogos da Champions»; «Comércio quer aumentar lotação, DGS recusa, "neste momento"».

Isto já para não falar dos títulos incompreensíveis. Deixo uns exemplos, também colhidos desta edição: «Fusão junta SRS Advogados e AAA» (na primeira página); «Leão adia LEO para 2023»; «Avança inquérito sobre origem etnicorracial dos portugueses»

 

III

Mas, felizmente, há excepções. E a que aqui trago é bem honrosa: refiro-me ao título de capa da revista do próprio Expresso, nesta sua mais recente edição. Sob o rosto de Amália Rodrigues no auge da carreira, comprovando a prodigiosa fotogenia da grande diva do fado, nascida vai fazer cem anos. 

«Amália - Nem chegaste a partir» - eis o título-legenda. Justo, conciso e feliz. Quase um verso. Aliás, é mesmo um verso, extraído da letra que David Mourão-Ferreira escreveu para o Barco Negro, a que ela deu expressão eterna: «Eu sei, meu amor, / Que nem chegaste a partir / Pois tudo em meu redor / Me diz que estás sempre comigo.»

 

Para atingir este clímax não basta conhecer todas as potencialidades do nosso belo idioma, tão cheio de ambiguidades e cambiantes, tão vocacionado para uma ampla gama de vocalizações, tão propício a ser cantado. É preciso também ter cultura e conhecer a fundo o tema sobre o qual se escreve.

Sendo o jornalismo uma actividade cuja carpintaria se desenvolve com frequência no anonimato das salas de trabalho, ignoro a quem devemos, enquanto leitores, este título tão digno de elogio. Mas foi seguramente alguém que leu com muita atenção o primeiro dos três textos que justificam esta capa. Um texto de Jorge Calado que vivamente recomendo, em que o autor equipara Amália a Maria Callas e Ella Fitzgerald, convicto de que ela «habita o panteão das maiores vozes do século XX»

Porquê? «Amália ampliava as vogais, arrastava as consoantes, esticava a linha vocal sem a partir, antes percorrendo todas as notas intermédias num alucinante legato cromático que nos deixava estupefactos e em transe, como ela.» E cá surge a referência explícita à canção que ela estreou no filme francês Os Amantes do Tejo, rodado em Lisboa: «Ouça-se, por exemplo, o que Amália faz com a palavra "loucas", do Barco Negro (em que virou do avesso a Mãe Preta, de Maria da Conceição), e a seguir compare-se com o "Amami, Alfredo" da Callas em La Traviata

 

Felizmente ainda surge por vezes um texto que basta, só por si, para nos levar a comprar um jornal sem arrependimentos. É o caso deste, que bem justifica o belo título que lhe serve de chamariz.

A Sair do Armário

por jpt, em 22.06.20

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[Sigo ensimesmado. Notei-o anteontem, na morte de um homem que foi personalidade pública, e decerto que muito simpática dado o impacto que tem na imprensa e nas redes sociais. Pois desconhecia-o. Afinal familiar muito querido de meu bom amigo (Paulo, um grande abraço com condolências), amigo de outros amigos meus, e antigo atleta, até olímpico, do meu Sporting (o clube e o nosso És a Nossa Fé já ecoaram o nosso sentimento de perda comunitária).

Confunde-me um pouco o facto de tantos associarem o lamento a elaborações sobre as causas da morte. Estarei velho, sigo noções antiquadas de reserva, daquilo a que se chamava decoro? Os meus pêsames aos queridos de quem morre, as minhas condolências àqueles desses que conheço pessoalmente. É a minha norma, são os meus limites.

Recentemente no tão significativo obituário do grande José Cutileiro o seu autor culminou (mais-ou-menos) assim: a viúva não divulgou a causa da morte e como tal isso não é assunto. Que suprema, de tão linear, elegância.

Mas talvez, apesar disso, haja momentos em que seja preciso abordar os temas, ainda que nisso talvez magoando os já muito magoados. Li anteontem muitos elaborando sobre "depressão". Esse mal escondido, qual maleita vergonhosa, pois como se sendo défice próprio. E o que me espantou, e me desagradou, é ver tanta gente valorizar a depressão e os deprimidos. A estes atribuir uma especificidade intelectual, uma densidade sentimental. Ou seja, como se os deprimidos o sejam porque são especiais, mais sensitivos, mais inteligentes. Mais lúcidos, e assim sentindo-se diante dos males do mundo, os próprios e os alheios. E essa ideia tem até um corolário implícito, o de que julga os aparentes antónimos "felizes" como menos inteligentes e menos sensitivos. Alienados, até. E contesto essa ideia. Um deprimido não é melhor do que os outros, mais lúcido ou mais sensitivo. Está doente, apenas.

É difícil viver com essa doença. E das piores coisas que se pode fazer a um desses (tantos) doentes é dizer-lhe "estás deprimido porque és especial, melhor do que nós". E eles não podem, nem o querem, ser Prometeus da lucidez, da intensidade, seria mais um dos insuportáveis fardos, e estes já lhes são tantos. Há deprimidos extraordinários, há deprimidos muito básicos e a maioria são medianos.

Conheço essa depressão por via da "observação participante". Há 8 anos escrevi um texto sobre isso. Era para a minha coluna no jornal "Canal de Moçambique". Por coincidência (ou mão divina) a edição dessa semana foi cancelada - julgo recordar que devido a uma crise no fornecimento de papel. Ainda bem, talvez fosse inapropriado para aquele contexto. Ficou no blog ma-schamba. Partilho-o agora:]

A Sair do Armário

Tomás de Aquino foi clarividente no seu século XIII quando decidiu denunciá-la como um dos sete pecados capitais, assim pérfida fonte de um sortido de vícios. Falo da acedia, aquela “certa tristeza”, o torpor acabrunhante que algema os seus padecentes à inactividade, a uma estupefacção constante, no limite até à autofagia. Dela brotam os tais vícios, seus efeitos, entre alguns outros o rancor, a amargura, a timidez e aquele que mais temo, o da divagação da mente, essa que se traduz na inconstância, na verborreia, na mera curiosidade, na instabilidade. Sistematizo, a improdutividade. Diletante.

A tal acedia é pecaminosa, disse o filósofo, porque infundamentada, pois brotada da aversão por pequenos males, relativos. Que a tristeza é justa, e até necessária, mas se defrontada com o verdadeiro mal. Na linguagem de hoje dir-se-á que a acedia nasce de uma incompetência na hierarquização do mal, dos males. Talvez até da “banalização do mal”. Em assim sendo o acedioso é alguém que padece, também, de um défice intelectual, de perspicácia. Do desentender o real.

O mundo de Tomás era diferente do actual. E nisto do necessário para se ser pessoa também. Que hoje para que a tal cheguemos, mais do que ser visto como um mero “tipo” que “para aí anda”, temos que ter um rumo, algo a perseguir, um refúgio a alcançar, uma montanha a escalar, um naco de felicidade ou orgulho luzidio, um qualquer sucesso que desfraldemos aos olhos alheios, em público às vezes, no privado da casa-própria ou, vá lá, pelo menos diante do espelho na hora de sacudir as remelas. Assim acredito que os céus são agora mais inclementes para os acediosos do que o eram naqueles tempos de Tomás. Quando apenas a expectativa de um Além infernal os consumiria, vis pecadores. Sendo que no hoje em dia, de menos aléns, o pecador se vai consumindo num aquém modorrento, culpabilizado, angustiado. Incompleto. Incompetente.

Tomás de Aquino foi um companheiro da alquimia, aquela incessante procura da criação do ouro, dos robôts, da abundância social. E, mais do que tudo, da panaceia, o remédio que tudo cura, o elixir da longa vida. Daquilo que cria a harmonia, esta um bem. Por isso estou certo que acolheria como santificados estas novas mezinhas industriais, os medicamentos que rearrumam a bioquímica dos neurotransmissores, como explicam as vulgatas da coisa. Que harmonizam as cabeças pensantes, ainda que trôpegas.

Pílulas que curam a acedia, por assim dizer, ou, pelo menos, que a disfarçam. Alisando estas cabeças que da maleita sofrem, da depressão como lhe chamamos neste século. Já não a dizemos pecado, que nos é termo mais difícil de usar. Mas dela fazemos aquele mal escondido, o “pequeno mal” actual, como antes se chamava, em surdina, à epilepsia quando se acreditava ser esta coisa de possessão por espíritos malignos ou meia-demência. Exactamente como agora se emudece a tal depressão, vista como se possessão por defeitos malignos ou meia-demência.

Leio que muita há, por aí afora. Talvez sim, talvez que muitos a vivam, a essa incompletude quotidiana. Porventura acompanhados, talvez apenas sozinhos. Se alguém, aqui por Maputo ou arredores, está assim no seu caminho pode-me acenar. Pois estou aqui a sair do armário, deixei-me, sei lá desde quando, assediar pela acedia. Incompleto-me dia após dia. Afogo-me em rancor, por mim mesmo.

Entretanto vão-se-me morrendo os familiares. Amigos queridos. Conhecidos simpáticos. Gente que me cruzou. E tantos que é absurdo continuar assim. Para disto fugir há por aí os medicamentos, os novos elixires da harmonia. Quem com eles vai vai bem, com toda a certeza. Eu, atrevido, vou tentar ir pelo outro lado. Se isto é, disse Tomás de Aquino, efeito de um defeito intelectual, da falta de uma correcta ponderação dos males do mundo, vou-me safar disto calibrando o meu olhar, e nisso o meu sentir. Não mais atentando na espuma dos dias.

E acabar todas as coisas que intento. Botando. Nem que seja um simples ponto parágrafo. Por ausência de bens do mundo de que falar.

Os jovens e o Covid-19

por jpt, em 21.06.20

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Sendo de 64 a grande crise, pois o verdadeiro incómodo, da minha adolescência foi a da greve da Tabaqueira, uma infame agressão da classe operária que nos obrigou, durante meses que pareceram anos, a fumar "Fortuna", o veneno espanhol com que a família Borbón entendeu retribuir o asilo que o país lhe concedera em tempos que lhes haviam sido menos faustosos. Nunca Esquecer! tamanha vilania da vizinhança ...

É certo que as ameaças maiores eram outras, naquele tempo pós-punk mas pré-grunge, pois se rockando ele "Rust Never Sleeps" ninguém lhe atentava na "needle and the damage done", e muito se seguia o outro na ânsia de ser herói por um dia, nadando (ou dançando ...) como um golfinho, ouvindo-o como se aquilo fosse um ... seja lá como for. E logo depois veio a maldita peste sexual, que tanto amarfanhou a geração. Mas essas eram coisas de cada um por si mesmo. Pois ainda que pragas contagiosas - e eu nunca vi algo que se pegasse mais do que a heroína - era cada um como cada qual, a decidir do risco que queria agarrar, não havia isto do agora, a imunização em manada.

Com amigos da minha idade - será mesmo melhor dizer "com sobreviventes da minha idade" - tenho ironizado com o que teria acontecido se nos dissessem no início dos 80s "agora é para se fecharem em casa [e com os vossos pais!!!!] durante meses". Teriam havido escapadelas em massa, fugas, motins, "revolution rock", suores, lágrimas imensas, até sangue, comunas estabelecidas, perseguições ...

35/40 anos depois os mais-novos fecharam-se em casa durante três meses. Aturaram os pais, ouviram o Rodrigo Guedes de Carvalho (e a Clara de Sousa, que nariz!, que belo nariz ...!) no dia-a-dia, confinados sem piarem. Haviam lido o PR e o MNE dizerem que não se podiam fechar fronteiras. E foram fechadas. Haviam ouvido a dra. Freitas dizer-lhes para visitarem os avós. E não visitaram. Haviam visto o PR a cirandar entre escolas e teatros cheios, ainda que já avisado do que se passava. E ficaram em casa. Viram a festividade do 25 de Abril e o nº 2 do internato a dizer que não andaria "mascarado". E ficaram em casa e depois, quando foi para pouco-sair, sairam mascarados. Viram os camaradas do PCP fazer a festa do 1º de Maio e ficaram em casa. Um mês mais tarde viram os camaradas do BE fazer a festa, a pintarem a manta e as estátuas, e ficaram em casa. E haviam sabido que era para ficar em casa para que não houvesse "ruptura" de ventiladores nos hospitais, mas já sabem que o governo comprou os tais ventiladores necessários (chegaram?, com instruções em cirílico, árabe ou em que alfabeto?). Depois viram o PM e a ministra do Género no teatro a ver o cómico do regime. E ficaram em casa. E foram saindo mascarados, nas poucas-coisas necessárias. E viram o Presidente Professor a beber uma jolas com os motoqueiros. E ficaram em casa. E souberam do orgulho pátrio porque vem aí a Xampions Ligue. E também ouvem há meses que Portugal é um exemplo de contenção e que fomos campeões no Covid-19. E foram ficando em casa.

E, mais de três meses passados, agora que o Verão aportou e que os turistas já aterram, aleluia que é este o desígnio nacional, saem eles, vão beber uns copos, talvez alguns fumar uns charros (se é que ainda se fuma), conviver, ir à praia, dançar. E nisso contagiar-se um pouco, claro. Pois "namorar é preciso, viver não é preciso ...", já diziam os antigos.

E depois de tudo isto a manada mais-velha, sempre imune à inteligência, di-los irresponsáveis, infantis.

 

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 18.06.20

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

 

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 
Texto reeditado no dia do décimo aniversário da morte de José Saramago.

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(Postal para o meu mural de facebook)

Meus queridos amigos,

de súbito brotou um "même" nas redes sociais, o gozo aos comentadores televisivos que, pois agora confinados em casa, surgem na tv via seus computadores tendo atrás estantes apinhadas de livros. Ou seja, é ridículo ter livros e fatela mostrá-los.

Eu percebo as irritações por princípio, os "preconceitos" como agora se diz. Ou, melhor, os "ódios de estimação", como o magnífico MEC lhes chamou um dia, aqui há atrasado. Eu, apesar de mim-mesmo, também os pratico. E enuncio-os: detesto o presidente da Assembleia-Geral do Sporting, o dr. Rogério Alves, apenas e exclusivamente porque trata toda a gente por "querido amigo" (ver acima, neste postal). E abomino, até ao desejo de extermínio, todos os patetas que se (auto)representam com a queixada sob a palma da mão, como se sinalizando o peso do intelecto, tamanho que assim necessita de suporte (ver foto avulsa). Por isso percebo, humano que sou, que detestem só por detestar os tipos que têm livros em casa, amontoados num estrado a que chamam estante e guardados (para hipotética consulta, em alguns casos) numa divisão - recordo que os livros acumulam pó, nisso ácaros, e que não convém tê-los nos quartos de dormir. Por questões sanitárias, mais que não seja.

Há pessoas que têm livros. Eu próprio os tenho. Aqui me selfizei (como vós, "meus queridos amigos", agora falais) na sala da pequena casa aquém-Tejo na qual me aboletei. Um T1, rústico e maravilhoso, no qual está a estante. Duas prateleiras (correspondentes a uma mala de viagem e uns sacos) de livros meus, vindos para este pré-apocalipse, três outras com livros residentes. Faz parte ... Desde há uns tempos, séculos até (consta que pelo menos desde D. Quixote), os remediados têm prazer em comprar livros e vêem utilidade em lê-los. E nas casas (térreas ou apartamentos) congregam-nos numa divisão na qual alguns, segundo a profissão, até trabalham. Ou estudam. Chamam-lhes escritórios, por vezes. Os meus avós tinham-no (magnífico o do meu avô materno, até com mesa de fumo, belíssima, oferta de um regimento que comandou. Vem essa passando de mão em mão, por linha masculina [mas não varonil]. Chegou-me e depois de a viver dei-a, há uns dois anos, a um sobrinho que um dia a virá a passar a seu filho, presumo). Os meus pais também tinham escritórios, carregados de livros. E era o meu pai pessoa bem-educada, tal como o é a minha mãe. Mesmo assim tinham escritórios. Eu tenho-o - ainda que os livros estejam também noutras divisões da casa (no corredor, na sala de refeições, burguesmente dita "de jantar" - a gente já não pode almoçar em casa -, nos quartos e até, para minha vergonha, na cave).

Ou seja, é normal que um tipo que tem que aparecer na tv emitindo a partir de casa o faça desde o seu local doméstico de trabalho. No qual tem livros, já que é um burguês e - sendo opinador - presumivelmente trabalhador intelectual. Sei que muitos de vós usam os telefones na sanita [já agora é "sanita" que se diz e não "retraite", ó seus bimbos armados em finórios]. Mas, de facto, o mais normal é que quem tem que falar em público desde casa não o faça sentado na sanita. Nem em locais com usos estritamente domésticos (ex. o tanque de lavar roupa). Ainda para mais quando, muito provavelmente, lá estão os outros membros da família.

É óbvio que há excepções. Temáticas. Ontem passei pelo canal 11, da bola. E nele estava um friso de 6 comentadores em simultâneo, a falarem (sei-lá-do-quê). Todos tinham as traseiras lisas, nem um livro à mostra. Acredito que os tenham em casa, a alguns exemplares. Mas para aquele público - os compatriotas mais morcões que assistem a painéis futeboleiros - parece mal mostrar livros, descredibiliza os locutores. Não sei se os "meus queridos amigos" me estão a seguir no silogismo ... são os que comungam sensibilidade e gosto com estes espectadores da bola, os tais compatriotas mais morcões, que agora andam a gozar com os literatos que falam na tv.

Enfim: não há qualquer razão para gozar com os tipos que têm livros e que falam desde casa para a tv com as estantes atrás. Repito, é normal tê-los (até eu os tenho), e é normal que se fale para fora numa pequena sala com as paredes algo cobertas de livros.

O que os meus queridos amigos poderiam analisar, e até gozar, é o que esses comentadeiros dizem. E, se tiverem paciência para tal, especularem sobre as agendas, pessoais e colectivas, que transportam no perorar. Muito mais à frente, talvez apenas em era pós-covidiana, poderiam até questionar este tipo de fazer informação televisiva, sem reportagens substantivas e com uma série infinda de charlas inócuas e/ou interesseiras.

Entretanto, e porque confinado, eu vou gozando com os tais morcões. Os que julgam que têm piadola.

Memórias de Roma

por Paulo Sousa, em 23.03.20

Itália está a sofrer uma praga bíblica.

Será que podemos observar em Itália o que vai acontecer em Portugal daqui a algum tempo?

Os detalhes são demolidores e dei por mim a lembrar-me das maravilhas de Roma, cidade que visitei com alguma frequência nos últimos anos.

Não pretendo concorrer com os livros de viagens que descrevem os locais onde se tiram as melhores fotos para partilhar, mas apenas colocar por escrito memórias da cidade eterna, um sítio único.

Visitei Roma pela primeira vez de carro, vindo de Portugal. Curva após curva, dia após dia, depósito de combustível após depósito de combustível, fronteira após fronteira, lá cheguei.

O tempo era pouco e segui para o clássicos dos clássicos. Fui para a fila visitar o Museu do Vaticano. Acabei por não ver o Papa, e assim, recriar o velho ditado. Senti-me exactamente como se tivesse ido a Roma e não tivesse visto o dito.

Mas vi a imensidão de mármores e a incrível concentração de arte e de materiais nobres e raros em tão reduzido espaço. Não me foi automático mas foi possível desligar o interruptor que faz disparar as perguntas entre a mensagem da Igreja e tamanha ostentação. Graças a isso fiquei encantado com tanta beleza. A estética está associada à qualidade, à contemplação e será uma das faces de uma plenitude que ali procuraram construir.

Martinho Lutero não conseguiu desligar esse interruptor e meteu a Europa num sarilho ainda maior que o do covid-19.

Esta riqueza obscena da Igreja contrastou absolutamente com uma outra viagem a Roma em que consegui arranjar umas horas para usufruto pessoal.

Da Via Appia moderna até à Via Appia Antica a distância não é muita. Palmilhei a Antica milha a milha (a cada mil passos encontramos um marco miliário) em direcção às catacumbas da Igreja perseguida.

No tempo de Nero, no início do cristianismo, a mensagem desta nova religião antagonizava com os cânones do império, e era por isso perseguida. Todos os seus membros viviam em modo de sobrevivência, tendo alguns acabado no Circo entregues às feras.

As práticas funerárias romanas baseavam-se na cremação dos corpos e o facto de ali, nas catacumbas, se fazerem sepulturas incomodava os romanos, tornando-os por isso locais razoavelmente seguros para reunião e refúgio.

Antes de lá chegar encontra-se a Igreja de Santa Maria das Plantas mais conhecida por Domine Quo Vadis. Segundo a tradição cristã, São Pedro após a ressurreição de Cristo seguiu para Roma para evangelizar a capital do Império.

Terá sido aqui que um dia, em fuga para as catacumbas, se terá cruzado com Cristo que seguia no sentido de Roma. Perguntou-lhe: Onde vais Senhor? Domine Quo Vadis, em latim. Jesus respondeu-lhe que ia para Roma para voltar a ser crucificado. Então Pedro terá entendido que não podia voltar a negar a sua fé e terá regressado a Roma, onde foi capturado e crucificado. A pedra que Jesus terá pisado nesta aparição ficou marcada pelos seus pés e no chão desta pequena Igreja encontra-se uma réplica dessa pedra. De relance parece que tinha pé chato.

Pedro, por achar que não era digno de morrer como Cristo, pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. O seu pedido foi aceite e isso explica as imagens associadas à sua morte, numa cruz invertida.

Ainda segundo a tradição, os carrascos de Pedro ter-lhe-ão cortado os pés para o descerem da cruz. Os seus restos mortais, que agora se encontram junto das sepulturas dos papas no Vaticano, terão sido identificados de entre outros exactamente pela falta dos pés.

Esta história inspirou o romance com o mesmo nome do nobelizado Henryk Sienkiewicz, que mereceu um busto seu dentro da capela. Ao lado do altar existe também uma imagem do português Santo António que os italianos apelidam de Pádua.

Regressemos à Via Appia Antica. A partir desta pequena igreja em poucos minutos a pé, chega-se às Catacumbas. São várias. Visitei as de São Calisto.

Lembrando a visita às riquezas do Vaticano, o contraste é total e absoluto. Não parece ser coisa da mesma religião. A Igreja das catacumbas é a Igreja perseguida, das práticas secretas, das celebrações para grupos pequenos, das sepulturas dos corpos de quem acreditava na vida depois da morte. Aqui foram sepultados os primeiros papas, cujos restos mortais só mais tarde foram transladados para o Vaticano.

No dia da minha visita celebrava-se ali uma missa, em francês, num espaço de poucos metros quadrados, que constitui a maior capela de todo aquele sistema de túneis de mais de 15 quilómetros. Ali, o espaço exíguo, a penumbra e o silêncio convidam a um recolhimento impossível junto das inúmeras e maravilhosas obras de arte da Cidade do Vaticano.

Vários séculos mais tarde, quando o Cristianismo deixou de ser uma religião perseguida, as catacumbas foram abandonadas como local de culto. Ocorreram algumas derrocadas e foram pontualmente ocupadas por fugidos à justiça e também vandalizadas.

Continuando pela Via Appia Antica para sul, os monumentos seguem-se e coexistem vizinhanças com muitos séculos de diferença. Mausoléus funerários de importantes figuras romanas quase ao lado de um restaurante ou de uma hospedaria. O slogan das autoridades romanas para este espaço é: Una strada, tante storie.

Vou tentar continuar a pôr por escrito mais notas sobre a cidade eterna que hoje vive apenas mais uma das inúmeras crises por que passou ao longo da história.

Diário do coronavírus (4)

por Pedro Correia, em 19.03.20

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Dia do Pai confinado no apartamento, com a minha filha à distância: todo o contacto é virtual.

Eis um paradoxo do nosso tempo: habitamos um hemisfério que idolatra a natureza em proporção inversa ao desconhecimento que dela temos por estarmos mergulhados em múltiplas ilhas digitais que funcionam como mecanismos de substituição. Quanto mais estas bolhas se ampliam, maior é a sensação de vivermos num universo alternativo, progressivamente afastado do mundo real.

Entretanto, alguém me põe a par da "linguagem inclusiva": Dia do Pai é expressão passadista, condenada à extinção. Agora diz-se "dias dos pais", em obediência ao cânone da correcção política. Tal como a palavra mãe vem dando lugar a "progenitora". E a mulher grávida passou a denominar-se "ser gestante" de modo a abranger nem sei bem o quê. 

 

Dizem-me que por estes dias há pequenas legiões de gatos e cães abandonados por donos que passaram a olhar para os animais com outros olhos: imaginam-nos agora potenciais "portadores de vírus", além de um peso acrescido no minguado orçamento doméstico, castigado pela recessão que já espreita e que nenhum paliativo governamental promete mitigar. Estes bichos, até agora denominados "animais de companhia" na etiqueta socialmente correcta, eram para muita gente o único e último vínculo à natureza que tanto se idolatra - e que inclui vírus e bactérias, transportando consigo uma crueldade inata, imposta pela lei do mais forte e pelo instinto de sobrevivência do mais apto. Nada consentâneo com aquilo a que chamamos civilização, erigida precisamente contra o fatalismo ritualista dos ciclos naturais.

Pressinto que estes dias serão terríveis para muita gente confinada a espaços herméticos de 30 metros quadrados, coabitando com pessoas que só costumavam ver em horários desencontrados e a quem se ligam por frágeis vínculos afectivos, sujeitos às pressões centrípetas para o isolamento que as novas tecnologias proporcionam. Beijos e abraços abolidos no quotidiano, com toda a sua carga simbólica, reforçam esta tendência para a misantropia exacerbada que constitui uma das marcas inequívocas deste início de século. 

 

Desperta o primeiro dia neste país agora em estado de emergência, com um sol igual ao de outra manhã qualquer. Fotografo-o a elevar-se no horizonte, sobre a silhueta dos prédios fronteiros, enquanto raros transeuntes circulam no passeio em ritmo apressado. A natureza é assim, indiferente às dores e preocupações dos seres humanos.

Recordo outro momento de emergência na nossa vida colectiva, era eu adolescente, quando foi imposto o estado de sítio na região de Lisboa, em 25 de Novembro de 1975. Havia recolher obrigatório, as pessoas não podiam circular de noite sem salvo-conduto, a tropa patrulhava as ruas. Os jornais estavam proibidos: uns passaram a imprimir-se no Porto, de onde chegavam com uma aura de clandestinidade e eram lidos com avidez; outros, como o Diário de Notícias de José Saramago, fecharam por determinação superior.

A RTP emitia a preto e branco dos estúdios do Monte da Virgem, em Gaia, exibindo os rostos do poder - todos militares: Costa Gomes, Pinheiro de Azevedo, Jaime Neves, Pires Veloso, Vasco Lourenço, Melo Antunes e um emergente Ramalho Eanes, de patilhas e óculos escuros, que meio ano depois ascenderia a Presidente da República. Só ele e Lourenço restam desse tempo em que Portugal parecia transformado numa imensa parada de quartel. Com Eanes, símbolo supremo do Thermidor português, o período revolucionário chegou ao fim.

 

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Recolhidos durante duas semanas em casa, sem aulas, entretínhamo-nos com a leitura ou a ouvir música. Rodeados de livros e discos, à moda antiga. A internet não tinha sido inventada nem dispúnhamos de comunicações telefónicas instantâneas, as plataformas com múltiplas séries eram inexistentes e a oferta actual de centenas de canais televisivos não passava de utopia. Restava a RTP, exibindo fardas e camuflados. Só faces masculinas.

Ainda não se popularizara a igualdade de género nem a sociedade civil. Era outro século.

Trinta anos de "Público"

por Pedro Correia, em 05.03.20

 

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Faz hoje trinta anos, surgia a primeira edição do Público. De todos os projectos em que estive envolvido na minha vida profissional, este foi um dos mais gratificantes. Um projecto nascido cerca de um ano antes, em que andámos a escrever "para o boneco", como na altura ironizavam colegas de outros jornais, mal disfarçando o nervosismo com que o novo diário era encarado pela concorrência. Havia bons motivos para isso, como depressa se viu. O Público não foi apenas mais um título da nossa imprensa: foi um periódico que marcou, logo ao nascer, o jornalismo português - pela sua independência editorial, pela qualidade da sua redacção e pela abordagem séria, clara e completa dos temas, segundo os melhores padrões europeus.

Fui - durante três anos - o primeiro correspondente em Macau do jornal. E logo nos primeiros meses assinei várias manchetes, dada a situação agitadíssima que então se vivia no território, nessa recta final da administração do governador Carlos Melancia. Guardo as melhores recordações dessa etapa profissional tão intensa e estimulante, sob a direcção do Vicente Jorge Silva, um dos melhores jornalistas com quem tive o privilégio de trabalhar. O meu percurso profissional conduziu-me depois a outras paragens, mas continuo a sentir particular orgulho por ter integrado essa equipa de pioneiros. E ainda hoje, apesar de todas as vicissitudes do seu percurso, sinto um carinho muito especial pelo Público. A todos quantos lá trabalham, muitos dos quais são meus amigos, envio daqui um caloroso abraço de felicitações.

Contra a preguiça intelectual

por Pedro Correia, em 24.02.20

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Vasco Pulido Valente foi meu professor na Faculdade. Leccionava Ciência Política e era uma das celebridades daquele curso. 

Julgo que quase todos o líamos religiosamente na última página do Expresso, numa coluna intitulada "O País das Maravilhas". Eu começava precisamente por ali, sábado após sábado. Por aquele rectângulo destacado na linha gráfica do jornal com uma prosa que parecia saída do bisturi dum cirurgião. Prosa limpa, sem "poréns", sem "entretantos", sem "outrossins". Sem reticências nem pontos de exclamação. Sem atalhos para chegar onde queria. À inglesa, libertando-nos da retórica afrancesada que ainda marcava tantos dos seus parceiros de geração. 

Porque ele não nos ensinava só a pensar. Também nos ensinava a escrever. Este foi um dos seus maiores méritos: mudar a forma como se escrevia nos jornais, traçando linhas de fronteira. Antes dele proliferavam os gongóricos, cultores imoderados do adjectivo e e do advérbio. Depois dele, a nossa escrita ficou mais limpa.

 

Estou a revê-lo no alto do estrado, na Universidade Católica. Era o primeiro dia de aulas e nós, caloiros, tínhamos pela frente aquele professor ainda jovem mas já famoso pela tal coluna onde zurzia nos políticos. 

De blazer e gravata de malha, ele olhou-nos de cima para baixo e rompeu enfim o silêncio com uma lâmina em forma de pergunta: «Algum dos senhores leu Os Fidalgos da Casa Mourisca

Sentiu-se um embaraço colectivo na sala enquanto olhávamos uns para os outros: ninguém havia lido aquele livro. 

«Era o que eu pensava», disparou em tom cáustico, cruzando os braços enquanto continuava a olhar-nos fixamente. O Vasco colunista confundia-se com o Vasco professor: agora éramos nós os zurzidos. 

«Os senhores nunca saberão o que foi a história do século XIX em Portugal sem lerem esse romance», prosseguiu, sem a menor preocupação em cativar-nos pela simpatia. Não era para isso que ali estava, mas para rasgar-nos horizontes. E a primeira lição fora dada: não há limites estanques no domínio do saber. Um romance pode ser a primeira janela aberta para a política. 

 

Meses depois, O País das Maravilhas saiu em livro. Andei com ele literalmente debaixo do braço. Lido e relido, sublinhado, transcrito. Já com as virtudes e até alguns dos defeitos que obras posteriores confirmaram - no campo da crónica, da biografia, do ensaísmo histórico. Obras como Às AvessasPortugal -- Ensaios de História e de Política, Retratos e Auto-Retratos, Os DevoristasEsta Ditosa PátriaMarcello Caetano: as Desventuras da RazãoUm Herói PortuguêsIr Prò ManetaGlória. Até à última, não por acaso intitulada O Fundo da Gaveta, sobre a qual escrevi aqui.

Uma escrita elegante, cáustica, direita ao osso, sem vias sinuosas. A palavra certa estava sempre lá. Mas também uma visão de Portugal marcada por um inabalável pessimismo, ancorado na ancestral geração de 70 e nas torrenciais páginas desse romance excessivo em tudo, até no campo das ideias, que Eça de Queiroz nos deixou em legado: Os Maias. A visão por vezes desfocada de um país asfixiado pela mediocridade irrevogável das suas elites. 

 

Lembrarei sempre Vasco Pulido Valente, acima de tudo, como meu professor. Um dos mais estimulantes que tive - e, felizmente, foram vários. Capaz de nos fornecer pistas de análise, de nos sacudir da tentação da apatia, de nos alistar no combate à preguiça intelectual. Até para discordarmos dele.

Anoto isto e reparo agora que, tantos anos depois, continuo sem ter lido Os Fidalgos da Casa Mourisca. Algum dos senhores o leu?

Pequenas vaidades

por Pedro Correia, em 30.01.20

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Ao longo de muitos anos no jornalismo entrevistei líderes partidários, ministros, deputados, artistas, escritores, actores, prémios Nobéis, celebridades várias: Jorge Amado, Bjorn Borg, Peter Ustinov, Alvin Toffler, Fernando Arrabal, Ramos-Horta, José Saramago, Julião Sarmento - só para citar uns quantos. Tenho autógrafos concedidos em missão profissional por todos os jogadores da selecção portuguesa que ficou em terceiro lugar no Europeu de Futebol em 1984 (saravá, Rui Jordão!) e de Maurício de Sousa (sim, o criador da Mônica e do Cebolinha, uma simpatia de pessoa).

Nunca me envaideceu o convívio com gente que - para utilizar a bela expressão de Camões - se vai da lei da morte libertando. Nem as centenas de notícias que levei às primeiras páginas em onze jornais ou revistas. Nem os muitos "prémios cacha" que ganhei no Diário de Notícias quando era liderado por esse grande director (e um inesquecível ser humano) chamado Mário Bettencourt Resendes, tão cedo desaparecido. Sempre considerei cada momento desses como mais um dia no trabalho. "Business as usual", na sagaz e concisa fórmula norte-americana.

 

Mas confesso-vos uma pequena vaidade: ter o meu nome associado, enquanto jornalista, a dois restaurantes que muito prezo. O Poleiro, em Lisboa, e a Adega Vila Meã, no Porto. Lá estão, emoldurados nas paredes, textos meus alusivos a estas casas de bem-comer.

O da adega portuense, datado de 2019, só há pouco o vi, na minha mais recente visita à Invicta, era o primeiro sábado deste ano. Ia com vontade de matar saudades do cabrito assado no forno, mas já não constava do cardápio. Optei então pelos filetes de polvo com arroz do dito. Era dia de muita afluência, a hora já a pender para o tardio, diz-me a patroa que chegara ao fim. Expressei um lamento. Ela faz uma rápida incursão à cozinha e diz-me que ainda se arranja meia dose de meia dose. Mais que suficiente para mim. «Venha ela», ordenei.

Meia dose ali, como sabem os comensais, dá para encher o papo. E meia dose de meia dose, digo-vos eu agora, também. Voltei a fazer jus à fama e ao proveito do estabelecimento, ali tão discreto na baixa do Porto. Ao sair, descubro o meu texto já consagrado na parede, à vista de quem lá vai.

Sorri para dentro: eis talvez o único troféu que gosto de exibir na profissão.

 

É a hora de pagar, alguém avisa a patroa lá do fundo, na cozinha: «É a minha filha a dizer-me para não me esquecer de só lhe cobrar a meia dose da meia dose.»

Saravá, Adega. A partir de agora és um pouco minha também.

Com a casa às costas - 1

por Maria Dulce Fernandes, em 28.12.19

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Depois da Grande Viagem, o pai tomou o gosto pelos longos passeios, mas sem ser rico e com um agregado familiar de cinco pessoas, um cão e um cágado, era difícil marcar férias num resort à beira-mar ou num paraíso na montanha.
Tivemos o primeiro contacto com o campismo quando uma amiga da mãe deixou a tenda montada no Parque de Campismo da Foz do Arelho, para que pudéssemos usufruir de uns dias. Completamente ignorantes do conceito (e de tudo o resto), fizemos uma data de asneiras, mas é assim que se aprende. Aprendemos e gostámos tanto que voltámos nos anos seguintes, claro está melhor equipados.
A família em Amstelveen, quando veio a Lisboa de férias, trouxe consigo uns amigos holandeses, que se fizeram acompanhar de uma tenda nova, com três quartos, cozinha e avançado, que seria nossa sem necessidade de desalfandegar. Truques daqueles tempos.
Tínhamos como contrapartida uma tenda de dois quartos e sala preparada no Parque de Campismo da Costa da Caparica a pedido da família, e uma grade de cerveja Sagres para o Johann, que a bebia em todo o lado, fosse a dormir, no banho ou até mesmo às refeições, alternando com bom tinto português.
Eram alegres, musicais e despreocupados, recusando os “luxos" campistas que a mãe tinha instalado na tenda da Costa, pois não pretendiam sequer cozinhar. Este facto de os alemães e holandeses não serem dados a cozinhados, fomos constatando ao longo dos anos, principalmente quando estávamos de visita ao meu irmão em Geilenkirchen e a minha mãe fazia sopa. Sempre nos acharam complicados e trabalhosos com as refeições, mas apareciam sempre na hora de jantar.
Com a tenda que a família do Johann trouxe, passámos a campistas de segunda categoria no Parque de Campismo da Foz do Arelho. Não podíamos, claro, competir com a Lila e com o Rui, família afastada da Bela e do Fernando Pinto (grande virtuoso da guitarra portuguesa), os vizinhos e amigos do primeiro esquerdo da casa de Belém, porque eram veteranos do rio e da terra.
O Rui, filho do dono da Pensão Cristina nas Caldas da Rainha, onde ficámos algumas férias, tinha barcos e sabia tudo sobre o Arelho, sobre passar “a aberta" e navegar no mar. Sabia também como apanhar amêijoa no “lado de lá" . Munidos de um balde, prescutávamos o areal molhado em busca de dois furinhos próximos e aí enterrávamos a pá e com torção de alavanca fazíamos sair amêijoas, lambujinhas ou berbigão que guardávamos no balde, para depois serem despejados no grande alguidar e escolhidos para serem saboreados por todos.
Entre os “todos", estava o Tino. O Tino era um cromo. Entertainer no mundo do espectáculo, bom amigo do Pinto e da Bela e casado com a Nocas, era o cómico de serviço. Não havia ninguém na Foz do Arelho que à sua presença, não esperasse uma tirada tragicómica, como cavalgar uma vassoura pelo pontão de madeira com um balde na cabeça  e um garrafão vazio na mão, recitando Shakespeare em plenos pulmões e mergulhar de seguida no Arelho com grande espalhafato. Sempre pensei ser da sua autoria o bordão da carcaça e do garrafão de vinho.

Quando não apetecia cozinhar,  bastava agarrar um tacho grande e subir a rampa da FNAT. 

Não havia monotonia. Os domingos eram os dias mais aborrecidos devido à invasão de “leopoldos" com farnéis e rádios de pilha para ouvir o relato do futebol. Eram dias tristes também, porque invariavelmente o Arelho reclamava uma vida, aquela do incauto que, contra todos os avisos, se aventurava mais fundo no leito lodoso e não conseguia sair. Com os mirones a emparedar a desgraça, os bombeiros acabavam por retirar a vítima de afogamento, mas quase sempre demasiado tarde.
Foram anos bons. De longas férias, nas quais o tempo era pachorrento e dava tempo para toda a indolência do mundo. Ler, dormir, amalucar, viver sem medos.
Sempre que faz trovoada, recordo com ternura a imprudência e despreocupação da juventude que continuava a saltar daquele pontão de madeira num espalhafato de espuma e de água, entre gritos e trovões.

Dizer mal e dizer bem

por Pedro Correia, em 26.12.19

Escrevo textos de opinião, ininterruptamente, há mais de 30 anos. Ao longo de todo este tempo, nunca me esqueci de uma recomendação que, era eu jovem jornalista, me fez um camarada de profissão curtido em sabedoria e experiência: «Nunca digas tanto mal de alguém de quem possas vir a dizer bem nem tanto bem de alguém de quem possas vir a dizer mal.»

As lições mais simples, muitas vezes, são as que mais perduram.

Macau: passado e presente (3)

por Pedro Correia, em 21.12.19

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O sucesso desta década pode ser creditado a muitas personalidades, mas antes de mais, e com toda a justiça, a Edmund Ho. O primeiro chefe do Executivo macaense pós-transição esteve à altura dos desafios que o cargo lhe impunha, governando com o discreto talento de negociador e de árbitro de conflitos que já demonstrara noutro plano, como dirigente empresarial e vice-presidente da Assembleia Legislativa, durante a administração portuguesa. Teve, para o efeito, o melhor dos mestres: o seu pai, Ho Yin, ainda hoje justamente recordado como um dos homens a quem Macau mais deve, estabelecendo pontes entre as diversas comunidades locais mesmo nos momentos de maior tensão política.

Preferia, claro, que não se cultivasse tanto um certo novo-riquismo kitsch em certas edificações turísticas apostadas em tornar o território numa réplica parola de Las Vegas. E gostaria sobretudo que se tivessem dado passos mais audaciosos no plano político. Durante demasiado tempo, vigorou na administração portuguesa uma mentalidade ainda contaminada por resquícios coloniais: encontrei-me, nos anos 90, entre os que consideraram imperdoável que Portugal não estimulasse com maior vigor em Macau o exercício de direitos comuns em todo o mundo livre - do direito à greve à liberdade de constituição formal de correntes políticas, além do alargamento, que continuo a achar indispensável, do voto directo dos cidadãos para a escolha dos deputados da Assembleia Legislativa. Faltou alguma ousadia neste domínio - e continua a faltar.

Mas o que mais lamento, nestes dez anos, foi ter visto partir alguns amigos de longa data que tive o privilégio de conhecer em Macau - saudosos amigos como o advogado Francisco Gonçalves Pereira, o professor José Silveira Machado, o pintor Nuno Barreto e o padre Francisco Fernandes, entre outros. Mas esta é uma consequência da natural erosão do tempo, que a distância física acaba por tornar mais dolorosa. Entre os motivos de congratulação, que felizmente são muitos, permito-me destacar a manutenção de órgãos de comunicação social que se exprimem (e bem) em português. Nenhuma sociedade é verdadeiramente adulta sem imprensa livre e responsável. Tanto mais responsável por ser livre, tanto mais livre por ser responsável.

Macau: passado e presente (2)

por Pedro Correia, em 20.12.19

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O ritmo da cidade é trepidante. Nada a ver com a bucólica Macau onde aportei pela primeira vez, ainda miúdo, em Abril de 1972 - e de onde do alto da Fortaleza do Monte se podia avistar praticamente toda a extensão da península onde Portugal se estabeleceu no século XVI.

Ao pensar nas profundas transformações entretanto ocorridas não consigo dissociá-las do génio empreendedor chinês aliado à notável capacidade de adaptação dos portugueses, que aportaram às mais remotas regiões do planeta com vocação assimiladora. Tanto assim foi, no caso da Cidade do Nome de Deus, que aqui nasceu uma comunidade miscigenada, caso único no Extremo Oriente e que é hoje o nosso melhor legado nestas paragens - a comunidade macaense, actualmente também espalhada um pouco por toda a parte mas que permanece uma referência insubstituível no local de origem.

 

Outros sublinharão melhor que eu o que foi o desenvolvimento nestas duas décadas, o ritmo imparável das obras públicas e dos equipamentos sociais, impulsionados pela decisão de pôr fim ao monopólio da concessão do jogo, em boa hora assumida pela administração chinesa.

Outros dirão melhor que eu se a eficácia da administração pública satisfaz as necessidades da dinâmica iniciativa privada. Vistos de longe, os resultados parecem globalmente positivos, fruto de uma transição planeada ao milímetro com a devida antecedência, contrariando a nossa natural tendência para a improvisação, e honrada pelas duas partes - a portuguesa e a chinesa - sob o aval discreto da comunidade internacional. Uma transição possibilitada pelo Estatuto Orgânico de 1975 e pelo reatar das relações diplomáticas luso-chinesas em 1979, que desembocaram na Declaração Conjunta de 1987, documento de direito internacional depositado nas Nações Unidas.

 

Fica provado, para quem tivesse dúvidas, que o factor tempo é essencial em política: as mais sábias decisões são as que decorrem do longo prazo. E nisso nós, portugueses, temos muito a aprender com a China. Não esqueçamos que no rescaldo da Revolução dos Cravos, quando alguns incendiários procuravam abandonar Macau a todo o custo, a elite dirigente de Pequim fez questão de manter intocável o statu quo do território.

A razão estava do seu lado. Pensemos, por momentos, como tudo teria sido diferente, para muito pior, sem os laboriosos 12 anos que possibilitaram a transição suave entre dois capítulos tão distintos da História.

Macau: passado e presente (1)

por Pedro Correia, em 19.12.19

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Nessa época, ouvia os mais antigos expressar negros augúrios. Que toda a tradição portuguesa se eclipsaria. Que os direitos humanos seriam estrangulados. Que bastariam os primeiros anos para a face da cidade se descaracterizar irremediavelmente. Que o melhor era transferir bens e haveres para a longínqua Lisboa. Que a presença militar de Pequim assombraria o quotidiano da doce Macau poupada a todas as guerras e a quase todas as intempéries. Felizmente esses prognósticos não se confirmaram. Vinte anos depois da transferência do exercício da soberania para a República Popular da China, ei-la mais pujante que nunca, em franco crescimento, mantendo a sua vocação ancestral de cruzamento de etnias, crenças e culturas. Um oásis num mundo que vive sufocado pela crise financeira e assombrado pelo espectro do desemprego, praga que atormenta as vidas de milhões de pessoas nas rotas de todos os continentes.

Naturalmente, todos ambicionamos sempre mais e melhor. Mas, vista à distância por alguém que viveu uma década em Macau, a efeméride que agora se assinala só pode ter um carácter festivo. Por constituir um exemplo de harmonia com raros antecedentes nas encruzilhadas da História. Macau passou a ser, de pleno direito como já era de facto, parte integrante da China sem perder as características de cosmopolitismo que lhe deram um carácter único nem os seus traços identitários muito próprios, nos quais a influência europeia, através de Portugal, é inapagável.


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