Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Eva

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.01.19

4913426918493990.jpeg(Fotograf: Beat Mumenthaler, Schweiz)

"Há uma nova geração de judeus húngaros, que ele [Viktor Órban] não os ataca directamente, porque tem agora inimigos diferentes, que são os refugiados. Os refugiados são os judeus de hoje (...)" – Eva Koralnik, 82 anos, sobrevivente do Holocausto, tradutora em 1961 no processo de Eichmann, ontem, na Universidade de Macau

Autoria e outros dados (tags, etc)

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 08.10.18

6603663_hmCbA[1].jpg

 

Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

6603672_BilZW[1].jpg

Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

6603677_fJ7Jn[1].jpg

 

Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 

 

Texto reeditado no dia em que se assinalam 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Ter terra" é isto

por Pedro Correia, em 15.09.18

thumbnail_20180915_123757-1.jpg

 

Volto a Castelo Branco, cinco anos depois. Está um Verão dos antigos: 32 graus neste meio de Setembro. Calha bem: venho em busca de raízes neste regresso esporádico a um dos lugares que transporto nos genes. Terra onde viveram os meus avós (e cuja casa, nas traseiras do Liceu, ficou praticamente destruída pelo tornado de 1954), onde nasceu uma das minhas tias, onde a minha mãe fez o ensino secundário. Viemos com ela em 2013, sabendo todos - ela, melhor que ninguém, com os dotes de presciência que sempre evidenciou - que era uma viagem única. Por ser a última.

Talvez por isso, absorveu-a intensamente. Levámo-la lá acima, ao castelo. Em tantos anos, nunca tinha visitado tal paragem, de onde se disfruta um panorama incomparável: «No meu tempo, nenhuma rapariga vinha aqui, nem sequer acompanhada.»

É um mundo diferente daquele onde ela ia de burro, dar aulas a garotos da aldeia, no Rosmaninhal. A cidade expandiu-se imenso, em todas as direcções. Das ameias do castelo, já mal distingo o quartel onde o meu avô foi comandante antes de rumar à última comissão em África: é um ponto quase remoto, diluído na malha urbana. 

 

O hotel na colina, onde me hospedei pela primeira vez em 2006, continua a proporcionar-nos uma visão deslumbrante das vastas planícies em redor - tendo agora a novidade de alojar turistas de diversas nacionalidades. A cidade exibe enfim um terminal rodoviário que não a envergonha, colado à estação ferroviária. Mas o centro parece-me mais despovoado: nunca consegui entender a "intervenção" do chamado Programa Polis, que o desfigurou por completo. Coincidência ou não, o Praça Velha - outrora o meu restaurante favorito aqui na terra - fechou as portas, na emblemática Praça Luís de Camões: outra excelência gastronómica que elimino da minha lista.

Mas gostei de saber que foi recuperado o Cine-Teatro Avenida, após décadas de abandono, e que o Jardim do Paço mantém o viço de sempre. Incluo-o, sem favor, entre os dez mais belos de Portugal.

Venho em visita demasiado apressada, não chego a contactar o meu ex-professor Manuel Costa Alves, que tanto me marcou nas suas aulas de Geografia, nem os filhos dum quase-irmão do meu pai, que na minha infância sempre tratei como primos.

 

À porta da Sé, gente toda aperaltada neste sábado estival: é um casamento. Miro os noivos com um sorriso largo: foi aqui mesmo que os meus pais casaram, conheço este local de dezenas de fotografias dos álbuns de família.

Reparo numa árvore ampla, de folhas largas e escuras, ignoro como se chama. Alguém me esclarece: é um abacateiro. Símbolo de novidade por estas bandas. 

Velho e novo, tudo se conjuga. Nas vilas como nas vidas. Miro a cidade cá de cima, do hotel, e logo me vêm à memória aquelas estrofes da cantiga de Arlindo de Carvalho que aprendi na infância mais remota: «E quem nasceu lá, em Castelo Branco, / não é feliz noutra terra.»

"Ter terra" é isto. Esta necessidade de um cíclico banho lustral capaz de nos lavar por dentro, em resposta a um apelo que soa no mais fundo de nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Notas de um Verão a Norte

por João Pedro Pimenta, em 23.08.18

Durante muitos anos imaginei com seria uma série, um filme, ou qualquer coisa audiovisual passada em Moledo, farto que estava que as coisas só se passassem em Lisboa, por vezes no Porto, e que no Verão só o Algarve fosse devidamente filmado. Moledo só aparece por vezes em reportagens de jornais e revistas, para falar dos seus "notáveis", da nortada, do nevoeiro, e outros lugares comuns simplistas. Com os anos, esses pensamentos desvaneceram-se.


Mas eis que surgiu uma série passada aqui, de seu nome Verão M, inspirada no Verão Azul da nossa infância, em que um antigo casal de namorados se reencontra, e os respectivos filhos partem à descoberta destas paragens. Há alguns anacronismos (tapetes de flores do Corpo de Deus em Agosto?), alguns factos reais (a chaminé do barco afundado entre a Ínsua e a praia), muita imagem bonita de drones (fieis à realidade da beleza da terra), e uma narrativa simples e sem grande criatividade, mas que entretém. Não falta sequer o velho marinheiro retirado, que se torna amigos das crianças, e que mora inverosimilmente no moinho ao lado do pinhal - que há bem poucos anos esteve em risco de derrocada com os ataques do mar.


Enfim, talvez não fosse o que tinha em tempos em mente para filmar Moledo, mas serve. Não há coisas que desapareceram, com a extensão das dunas, a bola Nívea da praia e o único bar da altura, o extinto Pica-Pau, aberto todo o ano, os torneios de futebol e as míticas idas à Indústria Agrícola, encarrapitada nos montes de Cerveira, em que se via o amanhecer sobre o estuário do Minho, ou outras que permanecem, como os passeios de bicicleta, os jantares em Espanha, já do outro lado, ou as festas com viras e cana verde. Mas naqueles rapazinhos e rapariguinhas que se tornam amigos e que descobrem a terra e a sua envolvente, e nos pais que recordam os melhores verões das suas vidas e que tentam fazer regressar os momentos em que foram felizes (no meu caso, mais nestes), há algo de autobiográfico, de familiar, de próximo que não se consegue negar. Só por isso, valeu a pena exibir o Verão M. Porque sem este M, para todos os que passámos por isto, não haveria Verão.

moledo.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sebastião, de grata memória

por Pedro Correia, em 11.02.18

1198678[1].jpg

 Sebastião Fernandes (1947-2018)

 

Devo esta nota a Sebastião Fernandes. Ao "senhor Sebastião" ou simplesmente Sebastião, como era assim chamado por muitos clientes que o iam acompanhando de restaurante em restaurante. Alguns desde o desaparecido Velha Goa, em Campo de Ourique - pioneiro dos estabelecimentos de comida goesa na capital, numa época em que Lisboa estava muito longe de ser o actual mostruário de gastronomia transnacional.

Na segunda metade da década de 80 fundou o Cantinho da Paz, que continua a ser lugar de romagem obrigatória para gastrónomos de diversos quadrantes. Já este século, inaugurou a Casa de Goa, de existência efémera, na Calçada das Necessidades. Nos anos mais recentes, abriu as portas do Nova Goa, entre a Avenida de Roma e o Campo Pequeno. Era lá que recebia, com a bonomia de sempre, dispensando uma palavra gentil a cada cliente.

 

Como aqui assinalei, era um dos restaurantes onde me habituei a abancar sem necessidade de pedir ementa. Sebastião conhecia a minha preferência pelo magnífico sarapatel da casa.

Em regra, chego cedo aos restaurantes: gosto de ser dos primeiros a ser atendidos, seja ao almoço ou ao jantar. Havia tempo para conversar com o proprietário, senhor de muitas histórias, desde a Goa natal de onde saiu ainda adolescente - paixão e devoção que nunca se lhe apagou da memória e dos afectos.

Conhecia muita gente - da política, da banca, da vida empresarial, do jornalismo, do desporto, dos meios artísticos e intelectuais. Sabia receber todos sem nunca trair confidências: esta é uma regra básica de quem quer singrar no ingrato mundo da restauração.

 

Almocei lá pela última vez num domingo de Dezembro. Achei-o um pouco abatido, talvez em consequência de um resfriado. Trouxe-me o sarapatel, com o delicioso arroz basmati servido à parte. O restaurante ia receber um grupo, dessa vez não houve tempo para conversarmos.

Na mesa ao lado, quatro trintonas obcecadas com dietas consultavam interminavelmente a lista, sem se decidirem. "Detestamos picante. Não queremos nada picante nem muito calórico", disse enfim uma delas, aparente porta-voz do grupo, com ar visivelmente enfastiado. Sebastião, com aquela paciência que apenas os orientais têm e a suave ironia em que são exímios, sugeriu: "Posso fazer-vos um bifinho grelhado..."

 

Faleceu há dias, de morte súbita, aos 70 anos. Manteve-se no seu posto gastronómico até ao fim - embaixador informal da bela Goa em Lisboa. Terras irmãs - unidas pela história, pela língua, por crenças e costumes. Unidas pela gastronomia, com tantas influências mútuas. Séculos antes de ter sido popularizada a palavra globalização.

Devo à grata memória de Sebastião Fernandes outra deslocação ao Nova Goa. Onde talvez pela primeira vez me estenderão a ementa. Embora eu já saiba o que irei comer. E que vinho beberei em sua invocação.

Vão-me fazer falta o seu ar bondoso e a sua palavra inspirada em relatos da antiga Goa colonial e da Lisboa de outras eras. Relatos que davam um livro que muitos gostariam de ter escrito. Eu também.

Autoria e outros dados (tags, etc)

José César

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.01.18

03f20dcb88020dd8f480f5895200941e.jpg

Quando eu era miúdo, a minha Mãe metia-me no comboio, no final de cada ano lectivo, e ele esperava por mim em Faro, para me levar para uns dias de férias junto ao mar. Isso foi no tempo em que a Ilha de Tavira não tinha campistas, nem parques de campismo, não havia rádios aos altos berros, nem restaurantes de hambúrgueres. Os pais dele tinham uma casa na ilha. Como marinheiro que fora, embarcado e com várias voltas ao mundo na "Sagres", levou-me a velejar e à pesca. Foi com ele que apanhei salmonetes à noite, burriés, e mergulhei pela primeira vez no azul profundo do Algarve. Deu-me a conhecer a Meia Praia, Santa Luzia, as Quatro Águas, Sagres. Tantos locais, tantos mares que para mim eram novidade. Foi logo no primeiro Verão a seguir ao 25 de Abril. Depois continuou nos anos seguintes. Uma vez, à noite, enquanto os adultos jantavam, fui mordido por um cão pastor dos Pirenéus. Quis fazer do bicho cavalo e ele não gostou. Levou-me de chata pela ria, até Tavira, para uma freira me coser. Dessa vez passei o resto das férias de castigo, de perna e braço entrapados. Via-me jogar futebol na praia, todos os dias, com os mais velhos, achava-me graça, e por causa disso passou a tratar-me por "Beckenbauer", em homenagem à grande estrela da selecção alemã e do Bayern de Munique. Eu sempre achei que seria mais o velho Müller, ou o Eusébio, pois gostava de marcar golos. Para mim, no início da minha adolescência, ele era uma espécie de Jacques Cousteau com sotaque algarvio, com a pele muito tisnada. Conhecia toda a gente, miúdas giras, todos o conheciam. "Agora vamos ali tomar um café, vou apresentar-te um borrachinho!". O "borrachinho" tinha mais vinte anos do que eu. Elas riam-se e ele gozava com a minha timidez. Foi ele que me apresentou o Dentinho e o Brito da Mana. Eram parceiros no mergulho. Eu era o primo. Tomava conta do barco e das garrafas de mergulho. Nesse tempo, ele fazia de tudo um pouco, um verdadeiro artista. Cozinhava, decorava cafés, pintava painéis, quadros, fazia barcos em miniatura. Ainda era casado com uma prima minha, que entretanto partiu e de quem, por força de circunstâncias várias, viria a divorciar-se. Já  a viver com outra pessoa disse-me que fora casado com uma senhora. Gostava muito dela. E tinha um Giannini 1000, de cor roxa, com uma risca branca a meio, carro que comprara ao Cônsul do Reino Unido no Algarve. E também um MG branco, descapotável, com o qual os dois fazíamos a EN125 entre Faro e Tavira. Às vezes, já adulto e a viver fora de Portugal, encontrava-o em casa da minha Mãe. Aparecia nos aniversários dela. Estive muitos anos sem ir ao Algarve, décadas, deixei de o ver, de com ele conviver. Um dia regressei ao Algarve. Acabei por ir viver para Faro, reencontrei-o. Tratou de me fazer o papel e os novos cartões de visita na tipografia onde estava a trabalhar. Ainda estivemos juntos algumas vezes, mas já então era um homem triste, muito diferente daquele que conheci. E tínhamos vidas e interesses diferentes. A vida tinha-lhe pregado algumas partidas. Só vestia de preto e branco, usava um brinco de ouro, como os piratas, e a aliança no polegar. Um excêntrico bem educado, simpático, com um incrível sentido de humor, que pintava, decorava e também gostava de poesia, chegando inclusivamente a publicar alguns livros, na esteira da senhora sua Mãe, poetisa algarvia. Ainda me ofereceu dois com dedicatória. Nos últimos anos andava adoentado, mal dos olhos, e ia de quando em vez a Coimbra. Para "fazer a revisão", como ele me dizia sempre com algum humor quando me encontrava junto à Pontinha. Nos últimos anos perdemos o contacto. Víamo-nos de quando em vez, sempre ali para os lados da Rua de Santo António. Perguntava-me pelo Alfa e pelos tios. Tínhamos vidas diferentes. Também ele foi, à sua maneira, um homem livre. Nunca lhe pagarei os dias e noites de liberdade que me proporcionou, nem a forma como me deu a conhecer o mar do Algarve e a Ria Formosa. Soube há pouco que a vida voltou a pregar-lhe mais uma partida. Foi a última. O José César faleceu ontem a caminho de Coimbra. Tiveram de parar o comboio. Em Santiago do Cacém. Já não chegou a tempo de mais uma revisão. Oxalá que tenham para ele, lá em cima, um lugar com vista para o areal da praia de Faro. E para a ria. Para que ele possa continuar a ver o Sol esconder-se todas as tardes, vermelho fogo, para os lados do Ancão. Ele merece-o.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Promessas do passado e confirmações improváveis

por João Pedro Pimenta, em 24.01.18

A morte de Dolores O´Riordan e as recordações dos Cranberries levaram-me de novo aos anos noventa. Sempre achei curiosos os casos das next big thing do pop-rock que surgem prontas a conquistar o Mundo e que subitamente são ultrapassadas e atropeladas por grupos por quem pouco se dava à partida. É o caso dos James, sobre os quais paira uma engraçada "maldição", a de terem tido amiúde bandas a fazer as primeiras partes dos seus concertos,e  que depois se tornaram maiores do que eles próprios (como os Radiohead, os Nirvana ou os Coldplay). Mas não são, longe disso, caso único.

 
Aí­ por 1992 ou 1993, em tempos de pré-Britpop, em que o Grunge era rei e senhor da cena pop-rock mundial, os britânicos andavam cabisbaixos, à  procura de algum destaque num meio em que, terminado o shoegazing, e vulgarizado o madchester, pareciam condenados à decadência. Apareciam inúmeros grupos a tentar marcar a sua diferença. Uns eram aproveitáveis, outros nem tanto, e alguns levavam os áugures do meio a rotundos enganos.
 
Aconteceu isso mesmo com os Kingmaker, um grupo prometedor, que supostamente iria conquistar os tops de vendas e marcar o som da pop britânica. Mas as coisas não correram pelo melhor, a popularidade que esperavam não chegou e o grupo acabou por se separar poucos anos depois.
 
Porque é que isto me veio à memória à boleia dos Cranberries? Porque, por alguns testemunhos que vi, os Kingmaker realizaram alguns concertos onde tinham, como banda suporte, um grupo londrino chamado Suede, que deram bem mais nas vistas que os próprios cabeças de cartaz. Como se sabe, os Suede, que começaram com um som glam-rock muito devedor de Bowie e dos anos setenta, foram dos grupos fundadores (e essenciais da Britpop) e um dos mais amados no Reino Unido. Ou seja, eram eles próprios a next big thing do momento, com melhores resultados.
 
 
Mas provaram um pouco do mesmo "remédio" atrás descrito: partiram para uma digressão nos Estados Unidos, levando uma pouco conhecida banda irlandesa para fazer as primeiras partes, uns certos Cranberries. Ao contrário do que esperavam, os ingleses passaram quase despercebidos no Novo Mundo, enquanto que os irlandeses e a voz de Dolores O´Riordan atraí­ram as atenções dos americanos, que começaram a fazer passar as suas músicas, como Linger, na MTV, e obtiveram logo um sucesso considerável que os catapultou para a fama. Os Suede foram olimpicamente ignorados e tiveram de se conformar em ser populares deste lado do Atlântico, sobretudo na terra de origem, onde durante bastante tempo continuaram a atrair as atenções sempre que lançavam um novo trabalho.
 
Quanto aos Kingmaker, desapareceram por completo. Provavelmente dedicaram-se a outras actividades que não a música. Deixaram apenas um rasto da sua existência na net, sobretudo no Youtube, para que possam ser recordados como mais uma promessa efémera, que, como em muitas outras áreas, se deixou ultrapassar por improváveis concorrentes.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma luz que se apaga

por Pedro Correia, em 02.01.18

eva6606n.1133capa[1].jpg

 

O País na minha pré-adolescência nada tinha a ver com este. Era um país cinzento, governado por senhores muito idosos que apareciam sempre de fato escuro nos monocórdicos telejornais.

Nesse país irrompiam ocasionalmente focos de luz e de brilho e de beleza. Proporcionados por mulheres lindíssimas, por vezes ainda mal chegadas à idade adulta, mas já em destaque no nosso pequeno mundo do espectáculo, da televisão, do teatro e do cinema.

 

No meu tempo de teenager, havia pelo menos duas que se destacavam da mediana dominante. Eram a Guida Maria e a Helena Isabel - assim mesmo, actrizes com duplo nome próprio.

Inigualáveis, cada qual à sua maneira. E contrariavam em tudo aquela triste modorra num país de senhores severos e graves que pareciam vir da pré-história. Pela forma como falavam, como vestiam, como se comportavam. E pela estonteante beleza que exibiam, sem sentirem necessidade de pedir desculpa aos diáconos de turno, ofuscados com tanto brilho. Como se beleza fosse pecado em vez de bênção.

Sempre me senti fascinado por ambas. Pareciam estrelas de Hollywood caídas neste cordato redil lusitano, fora do tempo e fora do espaço que lhes couberam em sorte. Deslocadas daquela época.

 

Um dia, muitos anos depois daquele tempo cinzento a que aludo no primeiro parágrafo, era eu editor de um suplemento de histórias protagonizadas na primeira pessoa do singular quando decidi entrevistar a Guida Maria. Foi uma longa conversa ao telefone, pontuada por incontáveis gargalhadas dos dois lados do fio. Ela, com um sentido de humor desconcertante, correspondeu à elevada fasquia que lhe antecipara.

Hei-de reproduzir aqui essa entrevista, que hoje recordo ainda em choque, ao saber da notícia do seu falecimento. Há mulheres que nunca deviam desaparecer-nos do horizonte. Sou incapaz de imaginar a Guida Maria morta: ela, bela como poucas, que tantas paixões incendiou na minha imberbe geração. E que trouxe um toque de inesperado colorido a um país baço e chato e deprimido.

Foi uma orquídea rara antes dos cravos. Um raio de luz que emergiu das sombras. Nunca lhe saberemos agradecer por isso.

 

vip-pt-29366-noticia-ultima-hora-morreu-guida-mari

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.12.17

cover.jpg

"One of the most fundamental questions about political life – or political science, as some like to call it, as if it were one – is 'Who are we?' With what pattern of loyalties do we identify? Which narratives, memories and experiences shape our behaviour? Do we always find ourselves caugh in the some threads of that spider's web? Can we move about from one strip of the silky trap to another? All of which raises a preliminary question. 'We' is simply the collection of 'I's'. So who am I? What makes up my identity? Genetics, nature, nurture play a major role. But in addition, as with everyone else, my identity in part reflects choices I make. It is also in part the result of influences over which I have little or no control. 'Know thyself' was Socrates' challenge, a challenge both to personal memory and to honesty. Here, perhaps, is the beginning of a justification for writing in this rather different way about my life." 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tão perto e já tão longe

por Pedro Correia, em 24.11.17

3597748_A101-3702368-741x486[1].jpg

 Pedro Rolo Duarte (Foto: Leonardo Negrão)

 

Há notícias que nos atingem como murros no estômago. Nunca estaremos preparados para elas.

Acaba de acontecer-me ao saber que o Pedro Rolo Duarte partiu de vez, sem avisar quase ninguém, aos 53 anos. Sabia-o doente, alguém me avisara há uns meses, como sempre sucede nesta cidade-aldeia, mas nunca imaginei que a doença fosse tão grave e tivesse tanta pressa em roubá-lo ao nosso convívio.

Conhecíamo-nos há 20 anos exactos. Estava eu na secção política do Diário de Notícias, como repórter parlamentar, e ele editava aquele que foi o mais inclassificável e fascinante suplemento da imprensa portuguesa, o DNa de boa memória – que viria a ter fim prematuro, às mãos de uma direcção do jornal incapaz de perceber que tinha ali uma pepita de ouro que nunca devia ter sido extinta. Vê-lo desaparecer doeu-me, como já tinha doído o desaparecimento do DN Jovem, espaço do jornal cultivado e editado pelo Manuel Dias em que se revelaram, ainda na adolescência, tantos actuais talentos da literatura portuguesa.

Prefigurava-se já ali, nessas mudanças abruptas, a presente agonia da nossa imprensa – consequência de demasiadas opções erradas de excessivos decisores medíocres.

 

O DNa – de que guardo com devoção quase religiosa os primeiros cem exemplares, novos como se tivessem saído agora da gráfica – foi um tesouro da imprensa portuguesa e talvez o mais precioso fruto do talento do Pedro Rolo Duarte na sua carreira jornalística impressionantemente longa e afinal dolorosamente fugaz. Ele teve o condão de conceber um conceito jornalístico difícil de etiquetar, mesclando o melhor da tradição com o melhor da inovação, dinamizando uma restrita mas brilhante equipa de infatigáveis colaboradores. Por lá passaram – em diferentes fases dessa década – o Francisco José Viegas, o Luís Osório, a Anabela Mota Ribeiro, a Sónia Morais Santos, o João Gobern, o Carlos Oliveira Santos, o Pedro Mexia, o José Mário Silva, o Carlos Vaz Marques, a irmã dele, Fátima Rolo Duarte, entre outros. Poucos mas bons.

 

18312741_2PmQt[1].jpg

 

Na redacção, o Pedro era de poucas falas. Alguns, por lá, confundiam essa timidez natural com arrogância, nada dispostos a quebrar o gelo. Nunca senti essa dificuldade – e foi precisamente lá que ficámos amigos. Colaborei com gosto no DNa, à margem das minhas tarefas na absorvente agenda diária do jornal, e lembro-me de duas capas que assinei no suplemento – elegendo-as ainda hoje entre as peças que mais gostei de produzir em trinta anos de jornalismo: entrevistas com Mário Castrim, o decano dos críticos de televisão portugueses, e João Amaral, deputado do PCP e um dos mais brilhantes parlamentares que passaram pela sala das sessões da Assembleia da República.

 

Já acompanhava desde o início da década de 80, como leitor, o percurso do muito jovem Pedro Rolo Duarte - primeiro no semanário Se7e, depois no irrepetível Independente de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, e pela igualmente inclassificável revista K. Legou-nos largos milhares de textos, de todo o género e sobre todos os temas, espalhados pelas mais diversas publicações – herança que recebeu nos genes: os pais, António Rolo Duarte e Maria João Duarte, também jornalistas de profissão, inculcaram-lhe este saudável vício do qual nunca se libertou.

Chegou a integrar uma direcção do DN – de duração efémera, como aconteceu com quase todas desde a partida do nosso comum amigo Mário Bettencourt Resendes, também demasiado cedo desaparecido, deixando um lugar que nunca foi devidamente preenchido no nosso jornalismo. Depois fez-se à estrada, pedalando em pista própria, como sempre. Colaborou na televisão, publicou livros (guardo um aqui à mão, Noites em Branco, recolha de textos avulsos, com a escrita elegante, a suave mordacidade e a discreta ironia que nos habituou), abriu um blogue em nome próprio e regressou à rádio, paixão antiga e sempre renovada.

 

Encontrávamo-nos por vezes, no nosso bairro de Alvalade, em regra no Mercantina – um dos quatro ou cinco restaurantes que frequento em Lisboa – ou na Livraria Barata. Quando lancei o primeiro livro, em 2013, ele teve a amabilidade de me convidar para uma inesquecível entrevista a três vozes (ele, eu e o João Gobern) no seu programa Hotel Babilónia, da Antena 1: foi de longe a mais estimulante conversa jornalística que tive desde sempre, não como entrevistador mas enquanto entrevistado.

Ao contrário do que é mau costume entre nós, nunca lhe faltou capacidade de admiração. Lançou e promoveu vários jornalistas, com uma generosidade rara, e não se deixava contaminar pelo vírus da inveja: nisto, e se calhar só mesmo nisto, parecia pouco português.

 

Trocávamos uma correspondência esporádica e mantínhamos alguma cumplicidade blogosférica. Publiquei aqui no DELITO dois textos dele: o primeiro em Novembro de 2010, fez ontem sete anos; o segundo, no mês passado. Tão longe de imaginar que seria o último.

Ignorava a que ponto estava já debilitado quando dele recebi, a 27 de Setembro, uma calorosa mensagem em que dizia ter superado um sério problema de saúde que não especificou (nem eu o questionei sobre isso, nesta nossa contenção tão masculina que nos leva a contornar detalhes do reduto íntimo de cada qual) e aceitando o meu convite para escrever um texto neste blogue, aqui publicado a 5 de Outubro.

 

Tão perto - e já tão longe. Nunca estamos preparados para dizer adeus a quem parte demasiado cedo. Deixando tantos livros por ler, tantas viagens por fazer, tantos petiscos por partilhar com gente amiga de todas as idades e todos os quadrantes.

É assim, com um nó no estômago e a voz emudecida, que me despeço dele deixando um beijo terno a sua Mãe, um abraço fraterno à Fátima e uma palavra de alento ao filho, baptizado com o nome do avô. Tu, António, tens todos os motivos para sentires orgulho do teu pai.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As nossas irmãs árvores

por Pedro Correia, em 19.11.17

thumbnail_20170923_080328[1].jpg

 

Converso com um amigo sobre as vantagens de viver no campo, em comparação com o frenético quotidiano citadino. Há uma enorme árvore bem perto de nós. Pergunto-lhe: “Sabes que árvore é esta?”

Não faz a menor ideia. É um choupo negro, alto e esguio, de folha em forma do símbolo de espadas nas cartas de jogar – uma das espécies vegetais mais frequentes em Lisboa por se adaptar muito bem à atmosfera poluída

palmeira califórnia.jpg

 

Este episódio banal confirma-me a profunda iliteracia da esmagadora maioria dos habitantes das cidades em relação ao nosso vasto património botânico. A recente tragédia dos incêndios pareceu ter feito de cada compatriota um inesperado especialista em espécies vegetais – ao ponto de todos terem passado a emitir sentenças categóricas sobre o que deve ou não ser plantado nas quintas e aldeias do interior do País. Invocavam a necessidade imperiosa de acolhermos mais “espécies autóctones” e rejeitarmos “espécies invasoras”, sem fazerem a menor ideia do que significa uma coisa e outra.

Essa pretensa sabedoria teve um brevíssimo prazo de validade, próprio dos actuais surtos de indignação nas redes sociais. A verdade é que poucos conhecem as árvores, muito poucos as respeitam e quase todos são incapazes de nomeá-las.

olaia.jpg

 

Tive a sorte de os meus pais me haverem ensinado desde menino a conhecer o mundo vegetal e a tratar as árvores pelos nomes próprios. Aprendi muito cedo que algumas estão mesmo associadas a características de certas regiões. Na região de onde sou originário, a Cova da Beira, a  cerejeira é uma árvore icónica e muito admirada tanto na magnífica fase da floração como na incomparável explosão dos frutos, que conferem tonalidades muito próprias aos extensos pomares das encostas serranas.

Outra árvore a que prestamos tributo por ser uma histórica aliada no combate à fome e pela sua relevância presente no tecido económico da região é o castanheiro, que aliás se destaca no brasão da Câmara Municipal do Fundão, com as castanhas a figurarem como pepitas de ouro.

medronheiro.jpg

 

Estas e outras árvores acompanharam o meu percurso biográfico.

Os pinhais do Alto Minho e da Fonte da Telha, os coqueiros e tamarindeiros na casa de Timor. Os gondoeiros da praça Engenheiro Canto Resende, no Bairro do Farol. As Madres del Cacau na Ermera. As casuarinas na praia de Hac-Sá, na ilha de Coloane. A grevílea robusta da vivenda da Charneca. Encontrei uma há dias, no jardim do Campo Grande, e saudei-a como se revisse uma velha amiga.

Falta-nos este espírito de confraternização com as nossas irmãs árvores, como diria São Francisco de Assis. Nas reuniões de condóminos urbanos um dos temas recorrentes é o do abate de árvores – porque sujam, porque roubam a luz do sol, porque atraem pássaros e insectos, porque “desfiguram a paisagem”, porque sim. E as próprias autoridades municipais se apressam tantas vezes a retirá-las do espaço público. Ainda hoje não perdoo ao vereador Sá Fernandes ter ordenado a remoção das laranjeiras que ornavam a Praça de Alvalade, substituindo-as por placas de cimento.

choupo branco.jpg

 

Há dias pus-me a pensar nas árvores que sou capaz de identificar – tanto árvores de floresta, de cultivo ou espontâneas, como de jardim. A lista foi-se tornando cada vez mais extensa. Da figueira ao pinheiro bravo, da tília ao carvalho, do eucalipto ao freixo, do lódão à olaia, do marmeleiro à oliveira, da acácia ao salgueiro, do choupo branco à macieira, do pessegueiro à romanzeira, da pereira ao cipreste, da palmeira-de-leque à alfarrobeira, do sobreiro ao jacarandá, da ginkgo à araucária, do zambujeiro à tipuana, do plátano ao limoeiro, da bananeira à nespereira, da laranjeira à magnólia, do pinheiro manso à palmeira das Canárias. Sem esquecer árvores-arbustos, como os dragoeiros ou os medronheiros.

Várias delas, felizmente, integram já a lista oficial do nosso património. Incluindo o inigualável cedro do Buçaco no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, ou a deslumbrante figueira da Austrália em destaque no Parque Marechal Carmona, em Cascais.

Sempre que posso, fotografo-as: são minhas todas as fotos que ilustram este texto, captadas ao longo deste terrível ano que parece de perpétua Primavera, em que as folhas caducas permanecem verdes e muitas espécies estão a florescer em Novembro como se fosse Abril ou Maio enquanto pelo menos 5% da superfície do País ficou reduzida a cinzas. Muitos dos nossos velhos não voltarão a ver paisagem verde em seu redor.

limoeiro.jpg

 

Há três meses, a jornalista Maria Henrique Espada, editora da revista Sábado, reuniu António Bagão Félix e José Sá Fernandes numa interesssantíssima conversa sobre árvores em que os dois interlocutores exibiam extensos conhecimentos na matéria.

Gostei muito de ler o que diziam. Só lamento que Sá Fernandes, enquanto vereador responsável pelos espaços verdes da capital, teime em não partilhar essa sabedoria com os habitantes de Lisboa.

Bastaria colocar tabuletas nos jardins a indicar os nomes das espécies vegetais, como fazem várias câmaras por esse País fora, claramente amigas do ambiente.

Isso contribuiria para aproximar das árvores os lisboetas que hoje julgam que elas só servem para receber urina de cães e dar sombra aos carros nos meses de Verão.

 

 

Legendas (de cima para baixo):

1. Romanzeiras

2. Palmeira-de-leque

3. Folhas de olaia

4. Medronheiros

5. Choupos brancos

6. Limoeiros

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 11.09.17

olhar026[1].jpg

 

Dezasseis anos depois, a tragédia continua.

Pelo menos mil pessoas já morreram por efeitos secundários dos atentados, nomeadamente a inalação de poeiras e cinzas tóxicas. Outras duas mil terão provavelmente idêntico destino num prazo máximo de cinco anos. E só 1641 despojos mortais das 2753 pessoas assassinadas a 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque foram devidamente identificados: cerca de 40% dos cadáveres nunca foram resgatados.

 

Foi um dia concreto, não uma data abstracta. Por isso quantos o vivemos nos lembramos bem onde estávamos e o que sentimos quanto tudo aconteceu.

Falo por mim: nunca mais conseguirei esquecê-lo. As vidas de muitos de nós mudaram naquela terça-feira. Todos recordamos as emoções que nos assaltaram, a profunda angústia ao observar aquelas imagens terríficas, a impotência perante o terror.

Os atentados quase simultâneos nas Torres Gémeas, no Pentágono e no voo 93 que se despenhou na Pensilvânia tiveram o impacto de uma revolução. Algo de nós ficou ali para sempre, fixado nas imagens daqueles condenados sem remissão.

Cada um deles podia ser qualquer de nós.

 

Depois do 11 de Setembro nada voltou a ser como dantes. É uma data que traça uma linha fronteiriça na história universal: o terror inscrito nos mais banais gestos do nosso quotidiano. Com alguns direitos fundamentais a cederem contínuo terreno de então para cá.

Entre a liberdade e a segurança, a esmagadora maioria das pessoas prefere hoje a segurança. Compreende-se, de algum modo: é o instinto de preservação da espécie a funcionar.

Mas ficámos com o pior de dois mundos: nos últimos dezasseis anos tornámo-nos muito mais inseguros e muito menos livres.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Na morte de Jerry Lewis

por Pedro Correia, em 20.08.17

jerry-lewis-today-170820-tease-02_d842bfb90a9420b8

 

Certos actores são inimitáveis: Jerry Lewis era um deles. Vi-o, como qualquer de nós, em dezenas de filmes. Mas também o vi uma vez em palco, já ele andava nos 70 anos. Ninguém diria que tinha essa idade: cantava, dançava, cabriolava com uma energia inesgotável no musical Damn Yankees, de George Abbott, Douglass Wakllop (letra), Richard Adler e Jerry Ross (música), nas tábuas do Golden Gate Theater, em Market Street, no centro de São Francisco.
Ainda hesitei em aguardar por ele à saída, para lhe caçar um autógrafo, ao princípio dessa noite de Setembro de 1996: afinal, Jerry Lewis foi um dos ídolos da minha infância.
 
Mal surgia no ecrã, despertava um festival de gargalhadas nas suas comédias de início de carreira em parceria com Dean Martin. O último filme que rodaram juntos – Pintores e Raparigas, de Frank Tashlin, película de 1955, o mesmo ano em que Damn Yankees estreou na Broadway – é uma obra-prima do género, com a vantagem acrescida de incluir uma esplendorosa Shirley MacLaine, então a dar os primeiros passos no cinema.
Dez anos depois, sempre em registo de comédia, o actor nascido com o nome de Joseph Levitch a 16 de Março de 1926, em Newark, Nova Jérsia, protagonizou um dos raros filmes que me fizeram rir até às lágrimas: Boeing, Boeing, hilariante longa-metragem sobre troca de identidades realizada por John Rich em que Jerry se revelava no auge das suas magníficas capacidades como comediante.
Mas talvez o seu melhor filme tenha sido afinal um drama: O Rei da Comédia, de Martin Scorsese (1983), ao lado de Robert de Niro. A Academia de Hollywood podia e devia ter-lhe dado um Óscar por esse trabalho que desmontava com implacável lucidez os frágeis mecanismos do sucesso televisivo. Nada feito: os académicos costumam torcer o nariz a actores oriundos do reino da comédia, esse género que teimam em considerar menor. Pelo mesmíssimo motivo, nem um gigante como Chaplin conseguiu uma estatueta com clássicos como Luzes da Cidade ou O Grande Ditador.
 
Naquele dia, acabei por trocar o autógrafo de Jerry Lewis pelo de Suzanne Vega, que actuava a curta distância, na Virgin, também em Market Street. Improvisando um recital com uma simples viola na mão e um ar doce, quase tímido, como se pedisse desculpa pela súbita fama de que gozava.
Confesso: gosto de ver o meu nome escrito por ela na dedicatória que me deixou no disco Nine Objects of Desire, que tem uma canção deliciosa: World Before Columbus, com uma letra que rapidamente memorizei: "If your love were taken from me / Every color would be black and white / It would be as flat as the world before Columbus / That's the day that I lose half my sight // If your life were taken from me/ All the trees would freeze in this cold ground / It would be as cruel as the world before Columbus / Sail to the edge and I'd be there looking down."
 
Mas ainda hoje me arrependo de não ter esperado antes por Jerry Lewis à porta dos actores no Golden Gate.
 
Texto reeditado em homenagem a Jerry Lewis, hoje falecido aos 91 anos

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reviver o passado em Caminha

por Pedro Correia, em 15.06.17

DSC07225[1].JPG

 

Devido à profissão dos meus pais, ambos professores, passei a infância a saltitar de terra em terra. Quando fiz 12 anos vivia já na oitava casa onde morei, em cinco terras muito diferentes.

Na altura, como julgo ser normal acontecer com qualquer miúdo nas mesmas circunstâncias, isso entristecia-me. Porque me sentia incapaz de cultivar amizades de infância que perdurassem para a vida. Hoje, pelo contrário, considero que esta constante itinerância produziu efeitos muito mais positivos do que negativos. Graças a ela, posso gabar-me de ter várias terras em vez de uma só.

 

Há quem não valorize isto, mas eu gosto de sentir que fui dispersando raízes por diversos quadrantes a que de algum modo posso chamar meus. Mesmo quando estou muitos anos sem visitá-los. Tem-me acontecido por estes dias, aproveitando as férias de Junho. Passei toda a semana anterior numa das minhas terras adoptivas: Tavira, que frequento com raras intermitências desde há vinte anos.

De um dia para o outro, no entanto, decidi rumar do extremo sudeste ao extremo noroeste do País. Confirmando que bastam oito horas para atravessarmos Portugal de lés a lés. E cá estou em Caminha, onde não pousava há três décadas. Não por falta de vontade mas por falta de oportunidade.

 

Ainda bem que voltei. Porque esta é uma das paisagens da minha infância. Vivi três anos em Viana do Castelo e fazíamos praia um pouco onde calhava, ao longo da estrada nacional 13: Carreço, Afife, Vila Praia de Âncora. Há poucas horas passei defronte da antiga Pensão Meira, hoje um orgulhoso hotel de Âncora, onde a família se alojava durante parte da estação estival.

Mas as minhas melhores memórias infantis de Verão são daqui, da foz do Rio Minho que tenho neste preciso momento defronte dos meus olhos. Do areal de Moledo, onde pela primeira vez vi pára-ventos, presença obrigatória nas praias minhotas batidas pela nortada. Das águas plácidas do rio, que frequentávamos quando o oceano ficava mais agitado. Da aprazível mata do Camarido, com o seu parque de campismo e os seus aromas a flores silvestres. Das caldeiradas em família no entretanto desaparecido Pirata, situado junto ao posto da velha Guarda Fiscal

 

P1010739[1].jpg

 

Regressei. E fiz bem. Calcorreando no presente os trilhos do passado quase como se não houvesse décadas de permeio. Eis-me de volta à marginal, que acompanha o vasto rio fronteiriço - semelhante aos cenários que transplantámos para todas as paragens onde deixámos marca, do Rio de Janeiro a Díli, de Luanda a Macau, de Goa a São Tomé.

A paisagem do passado ecoando no presente: a muralha seiscentista, a matriz, as tílias na praça central, a torre do relógio, o Coura desaguando no Minho, a silhueta tutelar da Serra d' Arga e a massa imponente do Monte de Santa Tecla, na Galiza, atraindo-nos para o outro lado da foz.

Sinto-me miúdo outra vez enquanto cruzo estas ruas. Quando cá vínhamos, abancávamos por vezes na Adega do Chico, típico restaurante familiar. Nunca mais soube dele até há dois dias, quando deparei com ele quase por acaso. Está praticamente na mesma: só deixou de haver serradura no chão, como era habitual nas adegas daquele tempo.

Até o prato mais emblemático ainda é o célebre bacalhau à Chico.

 

É o que peço, sentado na esplanada, enquanto escrevinho estas linhas, acompanhadas de goles de um fresquíssimo verde de Ponte de Lima - outra paisagem da minha infância que quero revisitar.

Cada vez mais me convenço que a felicidade em abstracto não passa de uma utopia: existem, isso sim, múltiplos momentos felizes.

Este é um deles. E há que aproveitá-los todos: cada qual é um pedaço de eternidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O drama repete-se na direita tradicional francesa

por João Pedro Pimenta, em 04.04.17

 

Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correligionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.

 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trotsquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.
 
O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos" vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Factos alternativos

por Bandeira, em 13.02.17

Sucede por vezes que certas ideias incongruentes, talvez por jamais nelas investirmos um pouco do nosso capital reflectivo ou as havermos absorvido em muito novos, se colam ao nosso cérebro, um pouco como cartões de crédito sem plafond às carteiras de administradores de empresas públicas. Por exemplo, eu recordava-me muito bem de haver habitado no 4º andar de certo prédio de Algés; eu nunca pusera em dúvida o facto de haver habitado no dito 4º andar do supracitado prédio de Algés; mas certo dia, passando de automóvel pela rua do prédio de Algés em cujo 4º andar me recordava de indubitavelmente haver habitado, e tendo eu partilhado esse importante dado autobiográfico com os restantes ocupantes da viatura, alguém chamou a atenção para a circunstância de o prédio em questão não contar mais que dois andares bem contados, verdade que, de coração apertado, atestei visualmente alguns segundos antes de ligar para o meu neurologista - não sem antes apreciar o facto de ainda haver alguém que presta atenção ao que eu digo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma memória de Mário Soares

por Pedro Correia, em 07.01.17

Tenho várias - de Macau a Estrasburgo, passando por Lisboa. Mas hoje prefiro destacar a mais recente e mais singela. Esta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Lena do bibe encarnado

por Marta Spínola, em 04.01.17

No João de Deus, onde andei dos 3 aos 10 anos (para sempre na minha cabeça, ou "pela vida fora João de Deus"), a referência para anos diferentes é a cor do bibe. Quem lá andou ou anda, orienta-se assim -"estávamos no bibe castanho", "em que bibe andas?", "Qual é o teu bibe este ano?", é uma coisa que nos fica, lá  está, pela vida fora. 

A Lena do bibe encarnado era uma das educadoras da altura em que eu estava no dito bibe (o dos 4 anos). Não era a minha, mas acompanhava os almoços, ficava connosco em alguns recreios, e por isso havia contacto. 

Eu tinha medo da Lena. A memória que tenho é de uma senhora um pouco ríspida, apesar de me lembrar de a ver sorrir - um sorriso de lado, só com um canto da boca -, de poucas palavras connosco. Tive um episódio com ela que me ficou sempre: uma vez, ao almoço, pus de parte o bocadinho mais apetitoso do peixe (quem nunca?) para ser o último. Aquele estava mesmo bom para ser o último a saborear. A Lena, que estava na supervisão dos almoços, apareceu por trás de mim, pegou no meu garfo, e misturou o peixe todo, enquanto dizia "o peixinho é para comer todo!". E eu chocadissima, mas em silêncio, que nem me atrevia a responder a adultos, muito menos aos que me metiam medo. Lembro-me que o meu pensamento imediato foi: "Nãoooooo! Eu não sou aqueles meninos que não gostam de peixe!".  E não era. 

A Lena tinha um dom: contava histórias como ninguém. Naqueles intervalos em que não podíamos ir brincar para o jardim, e ficávamos no salão, contava-nos histórias. Era uma narradora nata, tinha o tom certo, a entoação perfeita, fazia cada personagem sem grandes teatros mas de uma forma que eu, ainda sem saber ler, os vivia como os dos livros que li mais tarde. Contava-nos histórias, e eu ficava presa em cada palavra até ao fim.

Ouvi "A guardadora de patos", "A princesa e o sal", entre outras, muitas vezes. A que me marcou mais, tanto que nem a versão Disney a suplantou, foi "A Bela e o monstro". A Lena contava-a tão bem, que eu via a fera (não sei se ela não lhe chamaria fera) nas suas torres, serpenteando e perdendo a pele no fim da história. Ontem vi uma rosa numa cúpula de vidro, anunciando a nova versão de "A Bela e o monstro", e mais uma vez me lembrei da Lena e os recreios em dias de chuva, a ouvir histórias.  

Nos bibes que se seguiram, gostava sempre de tudo, mas tinha pena de já não fazer parte daqueles intervalos de histórias de encantar - ficaram sempre no bibe encarnado. Era encantada que eu ficava, juro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eis-me ainda a perguntar porquê

por Pedro Correia, em 24.11.16

559078[1].jpg

 

Faz hoje dez anos, fomos sacudidos pela notícia trágica: a Maria José Margarido morrera num acidente de aviação durante umas férias no Chile, quando o bimotor em que viajava acompanhada por três amigos - dois deles também jornalistas - e uma guia local se despenhou numa região montanhosa.

Mergulhámos num mutismo dolorido. Sobre a ruidosa redacção, sempre fervilhante de conversas cruzadas e estridentes toques de telefone, caiu um manto de silêncio incrédulo e assombrado. Todos olhávamos para a secretária da nossa colega que ainda há dias ali estava, na flor da juventude e um sem-fim de sonhos por realizar. Parecia apenas ausente por breves instantes: ninguém diria que partira numa viagem sem regresso.

A Maria José, especializada em temas sociais, era uma das mais competentes jornalistas da sua geração. Deixou centenas de artigos no Diário de Notícias - onde a vi entrar, tímida estagiária - como  testemunhos  inapagáveis  do seu mérito profissional. Sempre com uma escrita cuidada, meticulosa, muito acima da mediania. Tão discreta como perspicaz, parecia quase pedir desculpa pelo seu talento.

Tinha uma beleza serena e um brilho inquieto que por vezes lhe vislumbrava num olhar fugaz. No último postal que escreveu no blogue Respirar um Novo Ar, com o pseudónimo Celta, deixou esta frase: "Nunca estive fisicamente em Lisboa, não." Jamais cessarei de me interrogar se aqueles que partem demasiado cedo serão de algum modo tocados pela misteriosa premonição do fim.

Hei-de lembrar-me sempre dela, eternamente jovem. E do silêncio interminável em que o seu imprevisto desaparecimento nos envolveu naquela fatídica tarde, contemplando a cadeira onde ela nunca mais se sentaria.

Já passaram dez anos. Eis-me de novo a perguntar porquê, eis-de me novo sem resposta alguma.

 

Leitura complementar: A morte e o lixo, do Pedro Mexia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O DN sem Liberdade

por Pedro Correia, em 20.11.16

mw-860[1].jpg

Prémio Valmor 1940 deixa de ter um jornal lá dentro 

 

Este domingo é um dia muito triste na vida secular do Diário de Notícias. Mas é também um dia triste para Lisboa e para o jornalismo português. A capital perde um dos seus principais símbolos iconográficos – o primeiro edifício construído de raiz para albergar um jornal em toda a Península Ibérica deixa de ter um jornal lá dentro.

Por amarga ironia, o que a ditadura e a censura não conseguiram – retirar o DN do seu espaço histórico no topo da Avenida da Liberdade – conseguiram-no os poderes fácticos da democracia: o velho jornal onde escreveram tantas penas ilustres do nosso jornalismo e da nossa literatura, começando pela de Eça de Queirós, acaba de ser remetido para uma parcela de uma torre modernaça, próxima da Segunda Circular. Mais distante do bulício da cidade e do ruído da rua. Mais distante das pessoas concretas, de carne e osso.

Isto sucede quase sem um pestanejar de indignação da nossa “sociedade civil” numa semana em que o País andou dias e noites a discutir se dois presidentes de clubes passaram das palavras aos actos numa quase-briga de corredor num estádio de futebol. É um sinal dos tempos no declinar deste ano em que o Dicionário Oxford elegeu pós-verdade como palavra mais emblemática de 2016. Na era das “redes sociais” e da televisão interactiva, onde a suposta verdade é proclamada por quem berra mais alto, a nova palavra de algum modo assinala o dobre a finados do jornalismo.

 

Muita gente, que utiliza a resignação como flor na lapela, dirá que não havia volta a dar: são os cultores do “inevitável”, para quem todo o esforço de remar contra a maré é sempre inglório. O ar do tempo recomenda esta pose cínica: em regra, as energias são gastas a combater alvos remotos e abstractos – quanto mais longínquos melhor.

E no entanto, ao contrário do que possa por vezes imaginar-se, nem sempre foi assim. Na dobra do século, um movimento de jornalistas do próprio DN levou por diante um bem-sucedido surto de indignação que extravasou das paredes do diário para os meios políticos e culturais do País, travando a anunciada transferência do jornal para um espaço arrendado no edifício do Entreposto, em Moscavide. O Conselho de Redacção, de que fiz parte por eleição dos meus colegas, liderou esse movimento que se prolongou durante meses e foi coroado de sucesso. Graças a ele, o periódico fundado por Eduardo Coelho em 1864 manteve a sede durante mais década e meia na principal avenida de Lisboa.

Como porta-voz do Conselho de Redacção, escrevi um memorando sobre o edifício, inaugurado em 1940, galardoado nesse ano com o Prémio Valmor e que integra a lista do património arquitectónico da capital. Esse memorando chegou a centenas de personalidades de reconhecido relevo na vida pública do País.

Foram-se multiplicando as adesões a esse abaixo-assinado que contestava a transferência do DN. Não esqueço Agustina Bessa-Luís, que encabeçava a lista organizada por ordem alfabética e que do Porto nos dirigiu uma mensagem de inabalável solidariedade. Nem da calorosa mensagem que nos fez chegar José Saramago - entre vários outros escritores, de Lídia Jorge a Mário de Carvalho, de Mário Cláudio a Manuel Alegre. Nem das vibrantes palavras de Manuela de Azevedo, então (como hoje) prestigiada decana dos profissionais portugueses da comunicação social.

 

P1010023[1].jpg

 Painel de Almada Negreiros no piso térreo do edifício

 

Foram meses febris, a contra-relógio, antes da assinatura do contrato de arrendamento das novas instalações. Eu coordenava o processo e funcionava como porta-voz do movimento junto de outros órgãos de informação, a quem dava nota periódica das adesões. Era raro o dia em que não me chegavam novas mensagens, recolhidas por colegas como a Ana Marques Gastão, o Carlos Albino, o José Manuel Barroso, a Céu Neves, a Filomena Naves ou a saudosa Cadi Fernandes, entre vários outros. Da redacção Norte, sem a menor quebra de solidariedade apesar da distância física, chegavam palavras de apoio reunidas pelo Francisco Mangas, pela Ilídia Pinto ou pelo Fernando Madaíl.

Eu encarreguei-me sobretudo dos políticos – incluindo quatro dos cinco dirigentes partidários à época. Francisco Louçã (BE), Carlos Carvalhas (PCP) e Paulo Portas (CDS) foram dos primeiros a aderir à nossa causa. Durão Barroso, que então liderava o PSD, não quis comprometer-se de início. Mas de todos os quadrantes nos chegavam expressivas demonstrações de apoio.

Quando esgotei a lista dos políticos, passei a outros protagonistas da vida pública portuguesa, pedindo uma declaração exclusiva a cada um. O único que ma recusou foi um historiador muito mediático, já falecido, que do outro lado da linha telefónica me disse em tom agreste que as administrações dos jornais tinham “todo o direito” de transferirem as redacções para onde lhes apetecesse. Agradeci-lhe e desliguei: a pessoa em causa acabara de perder um admirador.

 

1825[1].jpg

 Postal publicitário de Stuart Carvalhais anunciando o novo edifício (1939)

 

Decepcionante foi também o comportamento de alguns colegas de redacção, felizmente muito poucos. Uns pareciam mais preocupados em reservar lugares de estacionamento no novo edifício, ignorando a nossa recolha de assinaturas, outros opinaram olimpicamente que se tratava de um esforço inútil e foram à vidinha. É sempre mais fácil apregoar camaradagem do que praticá-la.

O tempo demonstrou que não tinham a menor razão. Conseguimos pôr o assunto na agenda mediática, suscitámos uma onda crítica que foi engrossando semana após semana e forçámos a administração do DN a recuar. O ponto culminante foi o depoimento solidário de Durão Barroso, que me apressei a transmitir ao Pedro Lima, no Expresso. Nesse sábado, o semanário destacou-o em lugar cimeiro nas suas notícias da primeira página. Na segunda-feira seguinte, a administração comunicou-nos que a batalha fora ganha. E eu, que até era (e sou) amigo do secretário-geral do Entreposto, partilhei com indizível entusiasmo o sentimento de profunda satisfação que percorreu a Redacção do DN – satisfação que abrangeu os próprios directores, Mário Bettencourt Resendes e António Ribeiro Ferreira.

Foi apenas há década e meia mas parece ter acontecido há uma eternidade.

 

Desliguei-me em 2013 dos quadros do DN, mas mantenho-me profundamente ligado ao jornal, onde passei 15 anos da minha vida profissional. Não houve um só dia em que não me sentisse orgulhoso de trabalhar naquele edifício projectado pelo arquitecto Pardal Monteiro – com o seu elegante torreão, o seu vasto arquivo subterrâneo abrigado num cofre-forte, a sua emblemática porta-giratória, o seu magnífico átrio com painéis de Almada Negreiros.

A tristeza dos profissionais do Diário de Notícias é a minha tristeza. Uma tristeza ainda mais profunda e dilacerante do que a simples despedida do edifício há 76 anos implantado numa avenida chamada Liberdade: o encerramento deste capítulo na vida do diário mais antigo de Lisboa simboliza também, de algum modo, o fim do jornalismo tal como o conhecemos – enquanto alguns charlatães de turno proclamam que qualquer indivíduo pode “tornar-se jornalista” com uma aplicação móvel ao seu dispor.

Nada mais ilusório neste ano da “pós-verdade”. Como o futuro próximo se encarregará de comprovar.

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D