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Delito de Opinião

Antigamente é que tudo isto era bom? Olhem que não, olhem que não

Pedro Correia, 10.01.26

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A RTP exibiu há poucos dias, no seu canal de notícias, o documentário A Duas Voltas, que recorda a mais emocionante campanha eleitoral da democracia portuguesa, ocorrida faz agora 40 anos.

Recorrendo ao valioso espólio documental da televisão pública, esta instrutiva série em cinco episódios devia ser exibida nas escolas secundárias. Por recordar um período de extrema polarização política, quando o regime já tinha dez anos e o País permanecia na cauda de vários indicadores económicos, apesar de termos ingressado pouco antes na Comunidade Económica Europeia. A inflação rondava os 20%, havia meio milhão de desempregados, a chaga dos salários em atraso instalara-se em muitas empresas.

Foi a primeira vez - e única, até agora - em que uma eleição presidencial se decidiu a duas voltas - disputadas a 26 de Janeiro e a 16 de Fevereiro de 1986. Na ronda inicial, venceu Freitas do Amaral com larga vantagem: 46,3%, muito acima de Mário Soares, que recolheu 25,4% dos boletins. Na ronda decisiva, as posições inverteram-se: Soares derrotou Freitas, com 51,2% contra 48,8%. Triunfo à tangente: menos de 140 mil votos de diferença num universo de quase 6 milhões de eleitores.

Para trás ficaram outros aspirantes a Belém: o ex-número 2 do PS, Francisco Salgado Zenha, teve 20,9%, e a antiga primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo ficou com 7,4%. 

 

Este documentário - que recomendo sem reservas - é muito interessante pela abundância de pormenores que fornece e pela ampla gama de depoimentos que recolhe, mas também por nos traçar um expressivo retrato do que era o Portugal político de 1986.

Eu vivi esse período histórico já como jornalista profissional e confirmo: o país aqui descrito estava muito longe do cenário idílico que alguns comentadores tocados pela nostalgia nos querem descrever hoje, sob o princípio "no meu tempo é que era bom". Insistindo na tese de que se registou séria degenerescência na democracia portuguesa ao longo destas quatro décadas. Excelente então, péssima agora.

Não é verdade. Basta recordar em traços largos o que sucedeu em 1985-1986. Pintasilgo atraiçoada por Ramalho Eanes, inquillino do Palácio de Belém que a incentivou a avançar na batalha da sucessão e depois lhe tirou o tapete, deixando-a sozinha em palco. Zenha e Soares rompendo em definitivo uma camaradagem de 30 anos, envolvendo-se numa luta fratricida. O Presidente da República mandando às malvas o dever de isenção, enviando a esposa para comícios em apoio expresso a Zenha enquanto formava um partido político a partir do palácio. O secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, tirando da cartola um candidato fictício, Ângelo Veloso - mera manobra para obter tempo de antena favorável a Zenha, que contaria com os votos comunistas na primeira volta.

Tacticismo, intriga, traição, populismo do mais rasteiro: nenhum destes ingredientes faltou.

 

Falta acrescentar, em pano de fundo: o Partido Comunista de férrea obediência soviética valia ainda 15,5% de votos neste país membro da NATO, em plena Guerra Fria. Quando toda a Europa de Leste permanecia amordaçada, no lado de lá da Cortina de Ferro. Com 38 deputados e 47 presidências de câmaras municipais, o PCP mantinha enorme influência nas ruas, nos sindicatos e nas redacções dos órgãos de informação, onde facilmente impunha a sua narrativa.

Era tão influente que bastava a vontade de um só homem, neste caso o próprio Cunhal, para decidir o desfecho de um escrutínio. Aconteceu a 2 de Fevereiro, com a convocação de um congresso extraordinário do PCP: o líder do partido, renegando tudo quanto dissera desde sempre contra Soares, recomendou aos militantes que votassem no socialista, mesmo tapando-lhe a cara e o nome no boletim de voto. E a multidão comunista obedeceu cegamente à ordem do "camarada Álvaro".

Soares deve a Cunhal - seu inimigo histórico - o primeiro mandato como presidente. Tudo a pretexto de travar o passo ao "reaccionário" Freitas do Amaral, que por ironia do destino viria a encerrar a carreira política como ministro dos Negócios Estrangeiros do governo Sócrates

 

Era este o país que alguns lembram agora com suspiros nostálgicos.

Um país em que o moderadíssimo Freitas não virava uma esquina sem ouvir alguém chamar-lhe "fascista". Um país em que milhares de militantes partidários obedeciam cegamente à voz de comando do dirigente máximo, seguindo-o sempre em rebanho após cada decisão contraditória. Um país em que o Presidente conspirava contra governos e a sua esposa surgia como réplica serôdia de Evita Perón, beijando criancinhas em comícios renovadores.

Um país em que toda a imprensa diária estava "nacionalizada" e a televisão livre do monopólio estatal ainda soava a utopia. 

 

Na corrida eleitoral nem faltava o candidato ungido por Belém com este discurso: «É necessária uma nova democracia e uma nova república. Uma nova democracia, porque a que temos é uma democracia achacada por vários vícios, como o clientelismo, a irresponsabilidade, a corrupção, o centralismo e a desigualdade perante a lei.»

Assim falou Zenha ao apresentar-se como concorrente à chefia do Estado. Soa-vos a algo familiar? Pois.

Não acreditem quando vos disserem que antigamente era tudo melhor.

 

A Duas Voltas, documentário de Ivan Nunes e Paulo Pena, pode ser visto ou revisto na RTP Play.

Francisco Sá Carneiro 45 anos depois

Pedro Correia, 04.12.25

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Francisco Sá Carneiro desempenhou um papel histórico no actual regime: reconciliou a direita portuguesa com a democracia. Esta foi uma missão para a qual estava vocacionado, por uma espécie de sentido messiânico, e em que viria a ser bem sucedido nos dois últimos anos da sua vida, desenrolados de forma vertiginosa, numa desesperada corrida contra o tempo. O facto de ter rompido com o regime anterior ao 25 de Abril após uma fracassada tentativa de levá-lo por rumos reformistas, como viria a suceder em Espanha, conferia-lhe uma legitimidade que poucos tinham na sua área política, dados os compromissos estabelecidos com a ditadura.

O combate decisivo para a implantação da democracia no alucinado Verão quente de 1975, contra a esquerda revolucionária, fora liderado por Mário Soares, com quem Sá Carneiro sempre estabeleceu uma rivalidade que nunca viria a ser superada, apesar da cordialidade pública que exibiam. Desafiado nesta espécie de confronto íntimo com Soares, o fundador do PPD/PSD sentiu ainda mais pressa em entrar na História, o que viria a suceder. Tinha qualidades para o efeito, bem reveladas na sua singular trajectória de uma década no palco da política: visão estratégica, uma inegável capacidade de comunicação e aquele atributo tão indispensável quanto indefinível que à falta de melhor certos politólogos costumam chamar carisma.

Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, com sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. Teve razão desde o início ao defender a autonomia regional, o afastamento da tutela militar e o fim do virtual monopólio da economia pública no Portugal pós-25 de Abril. E superou o teste da governação, após duas maiorias conquistadas nas urnas, embora ninguém saiba até que ponto seria vítima dos próprios impulsos se o destino não o tivesse colocado na fatal rota de Camarate, faz agora precisamente 45 anos.

Não teve razão, com alguma frequência, quando deixava a emoção sobrepor-se à implacável lógica cartesiana. Foi, nomeadamente, o que sucedeu no seu desenfreado combate contra o Presidente Ramalho Eanes que lhe consumiu as energias nos últimos meses de vida. A derrota nas presidenciais de 1980, a que já não assistiu, confirmava que tinham razão aqueles que em vão procuraram dissuadi-lo de transformar o popular Chefe do Estado em adversário principal.

 

Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.

Graças a ele, a democracia portuguesa não cresceu amputada.  

Ficámos todos a dever-lhe isso.

Que tal um militar em Belém?

Pedro Correia, 05.06.25

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Spínola e Costa Gomes em Bissau (Janeiro de 1973)

 

Agora que temos - pela primeira vez em 45 anos - um militar novamente como candidato a Belém, vale a pena lembrar quem foram os três anteriores presidentes que usaram farda:

António de Spínola - 1974 

Francisco Costa Gomes - 1974-1976

António Ramalho Eanes - 1976-1986

Aproveito para perguntar aos leitores com boa memória que balanço global fazem destes mandatos. E se os consideram inspiradores para voltarmos a ter um oficial-general na suprema magistratura da nação.

Do meu baú (9)

Pedro Correia, 16.05.25

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Quando oiço comentadores elaborar complicados cenários políticos com base em sondagens, viajo no tempo: regresso a 28 de Janeiro de 2022. Era, como hoje, dia do encerramento de uma campanha para a Assembleia da República. Dia em que o Público deu à estampa uma sondagem que deixava «Tudo em aberto». O PSD liderado por Rui Rio ombro-a-ombro com o PS de António Costa: 33% para um, 36% para outro, quase-empate dentro da margem de erro. Na foto de capa, Rio era até apresentado ligeiramente à frente de Costa, primeiro-ministro desde 2015.

Dados do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para esse jornal, a RTP e a Antena 1, cavando enorme incerteza em torno do desfecho eleitoral. Com o PS longe da maioria absoluta - entre 95 e 105 deputados. O PSD a roçar-lhe os calcanhares ou até a ultrapassá-lo, preenchendo entre 89 e 99 lugares no parlamento. Seguiam-se IL, Chega e BE, todos com 6%. E a CDU com 5%.

Lá dentro, este título: «Rio melhora muito em relação a 2019».

 

Assim decorreu aquela sexta-feira, dominada pelo alegado «empate técnico».

A ilusão durou 48 horas. Fechadas as urnas, no domingo, apurou-se algo bem diverso: vitória categórica do PS, com 41,4% e 120 deputados. Maioria absoluta - primeira e única de António Costa. O PSD ficou muito atrás: 29,1%, elegendo apenas 77 parlamentares. Nada de empate, muito longe disso: mais de 12 pontos percentuais de diferença.

O Chega teve 7,2%, a IL 4,9%, o BE 4,4% e a CDU 4,3%.

Em relação ao escrutínio de 2019, Rio nada melhorou: manteve os 77 assentos parlamentares que já tinha. Progrediu apenas na percentagem, em modo residual. Na anterior eleição legislativa tivera 27,8%.

Esta sondagem tornou-se histórica. Não pelo melhor motivo.

Do meu baú (8)

Pedro Correia, 07.05.25

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No inigualável cenário da Capela Sistina, começa hoje o terceiro conclave do século para eleger um Papa. Haverá novidades já amanhã? Não faço previsões. Prefiro revisitar a minha hemeroteca: dela extraio este recorte. «Seis candidatos da América», peça de abertura da página 6 no El País de 7 de Abril de 2005.

João Paulo II falecera cinco dias antes, especulava-se sobre quem seria o seu sucessor. Neste artigo, escrito por Francesc Relea, equaciona-se a hipótese de o Sumo Pontífice vir da América hispânica. Sendo indicados seis nomes: o hondurenho Óscar Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa; o argentino Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires; o brasileiro Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo; o cubano Jaime Ortega, arcebispo de Havana; o colombiano Darío Castrillón, prefeito da Congregação para o Clero na cúria vaticana; e o mexicano Norberto Rivera, arcebispo da Cidade do México.

 

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Sabemos hoje que o trono de Pedro não foi ocupado por nenhum deles nesse Abril de há vinte anos: no dia 19, o conclave elegeria o alemão Josef Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. 

Mas há um toque profético neste artigo, arquivado no meu baú: Bergoglio seria mesmo eleito Papa. Não daquela vez, mas no conclave seguinte, a 13 de Março de 2013.

Foi preciso esperar oito anos para a hipótese se tornar realidade. o argentino Francisco, primeiro chefe da Igreja oriundo do continente americano e do Hemisfério Sul, primeiro pontífice católico não nascido na Europa em mais de 1200 anos.

 

Sobre o jesuíta Bergoglio, Relea escreveu as seguintes linhas:

«Aparece em várias listas [de possíveis Papas]. Estudou Química e é considerado progressista. Teve papel destacado na fracassada tentativa de conseguir um largo entendimento entre amplos sectores da sociedade argentina após a grave crise política, económica e social desencadeada em Dezembro de 2001 que provocou a queda do Governo de Fernando de la Rúa.»

 

Por curiosidade, o que sucedeu aos cinco restantes?

Óscar Maradiaga manteve-se até 2023 à frente da maior diocese das Honduras: é hoje, aos 82 anos, arcebispo emérito e participa no restrito grupo de cardeais que estudam a revisão da constituição apostólica Pastor Bonus, na Cúria Romana.

Cláudio Hummes permaneceu como arcebispo de São Paulo até 2010. Faleceu em 2022, aos 87 anos. 

Jaime Ortega viria a renunciar ao posto máximo da Igreja cubana em 2016, após 35 anos em funções, tendo assumido relevante papel de mediador no restabelecimento das relações diplomáticas entre Havana e Washington, ocorrido em Julho de 2015, durante a administração Obama. Faleceu em 2019, aos 82 anos.

Darío Castrillón - o mais velho deste grupo destacado no El País - renunciou no ano seguinte às funções que desempenhava no Vaticano. Faleceu em 2018, aos 88 anos.

Norberto Rivera cessou funções, a seu pedido, como arcebispo primaz do México em Dezembro de 2017 após 22 anos neste posto. Hoje, com 82 anos, integra a Cúria do Vaticano. 

 

Sairá fumo branco da chaminé da Capela Sistina ainda no decurso desta semana? É esperar para ver. Muitos são chamados, mas só um é escolhido.

Nenhumas saudades daquela época

Pedro Correia, 04.04.25

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«Há mais vida para além do orçamento. A economia é mais do que finanças públicas.»

Jorge Sampaio na Assembleia da República, 25 de Abril de 2003

 

«Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei.»

José Sócrates numa palestra em Paris, 3 de Novembro de 2011

 

Alguém sente saudades dos anos que decorreram entre estas duas frases que tão bem definem aquela época, quando a dívida pública portuguesa pulou de 63,9% para 114,4% do PIB?

Eu não.

Sugestões de novos cartazes ao Chega

Pedro Correia, 02.04.25

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Eis uma pequena amostra do que foi espalhado em Portugal há 45 anos visando o presidente do PSD (e depois primeiro-ministro) Francisco Sá Carneiro, acrescidos de inscrições nas paredes em que o insultavam das mais diversas formas - até ao dia da sua trágica morte, a 4 de Dezembro de 1980.

Se quiser adaptá-los a Luís Montenegro, para prosseguir a actual campanha de difamação, André Ventura precisa, porém, de pagar direitos de autor ao Partido Comunista.

Pelos caminhos da Memória

Maria Dulce Fernandes, 09.02.25

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Não me lembro dos anos anteriores à Argentina, o que, pelos meus cálculos, faz com que a Argentina tivesse ido aprender costura com a minha mãe pelos seus 17 anos. Era assim que se fazia antigamente. Para muitos jovens, terminada a 4.ª classe, a classe era determinante.  Ou a sua  família era abastada o suficiente para poderem seguir os estudos, ou escolhiam um mister, aprendendo uma profissão sob os ensinamentos e supervisão de um Mestre ou de uma Mestra, que tinham percorrido o mesmo caminho, como tantos outros antes deles.

A Argentina completou 80 anos e foi dia de festa. Chegámos cedo e lá estava a igreja, imponente e muda, um marco de resistência, que nem houve raio que a partisse. 

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Para ser um verdadeiro passeio pela memória, decidimos fazer o passeio dos alegres, mas em modo inverso, e caminhar o “ caminho da escola”, pelas mesmas ruas e travessas que me levavam da casa dos meus pais até à Rua da Bica do Marquês e que eu percorria com todo o tino dos meus nove anos, tendo à minha guarda a Guida e a Cristina, quatro anos mais novas. Passávamos o Café Galvão, o Chafariz, descíamos pelas ”Terras” e virávamos à esquerda a seguir ao Salão Portugal, evitando assim o mal falado "Café das Meninas” na esquina da Travessa de Paulo Martins. Era curioso para mim o nome dado ao tal “antro” pois, sempre que por lá passava acompanhada, nunca vislumbrei qualquer menina através do vidro das montras.

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O “caminho da escola” está irreconhecível. As ruas, travessas, largos e pátios são os mesmos, têm o mesmo nome, mas a modernização pintou por cima das imagens do passado uma caiada de edifícios recuperados, transformados em condomínios privados.

O Salão Portugal, onde vi tantos filmes, muitos sem ter sequer idade para os entender (como por exemplo “Lágrimas e Suspiros”), é agora a sede do Comité Olímpico Português. Se olimpíadas por lá houve, foram seguramente cinematográficas.

A farmácia está onde funcionava o fotógrafo da Céu, que tantas fotos tipo passe nos tirou para as fichas escolares, no início de cada ano lectivo. A padaria acabou, a capelista da D. Augusta, onde se comprava os aviamentos e mandava forrar botões, também. A Sapataria Marilu e a Cá-Jor já passaram a memória há muito tempo.

A Memória não ajudou em nada as memórias que guardei.

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Deixámos as cogitações no ar ignoto e fomos  ao encontro da Argentina, porque afinal este era o seu dia, e foi uma festa dentro da festa. As minhas memórias eram também as suas memórias mais gratas de jovem aprendiz. E prodigiosas que elas são. Foi um desfilar de lembranças maravilhosas e sentimo-nos gratas por as termos vivido.

A Memória continua lá, mas apesar de ser sempre bonita, já pouco me traz à memória.

Convém lembrar

Pedro Correia, 07.01.25

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Há dez anos, ainda mal haviam arrefecido os cadáveres dos assassinados no massacre do Charlie Hebdo, a então eurodeputada Ana Gomes apressou-se a justificar a chacina, ligando-a não ao fascismo islâmico com origem na Península Arábica mas às condições socio-económicas na Europa, nomeadamente em Paris, onde ocorreu a matança - quando o Chefe do Estado francês era o seu camarada socialista François Hollande.

«Horror! É este o resultado das políticas anti-europeias da austeridade: desemprego, xenofobia, injustiça, extremismo, terrorismo.»

Assim rabiscou Gomes.

Dez anos depois, retenho a primeira palavra. Horror. O resto, hoje tal como em 7 de Janeiro de 2015, é simplesmente desprezível.

O que eles disseram faz agora dez anos

Quando Sócrates foi detido, muita gente correu logo a defendê-lo

Pedro Correia, 21.11.24

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Faz agora dez anos, José Sócrates era detido por sérios indícios de ter cometido ilícitos criminais diversos. Passado todo este tempo, continua sem ser julgado: estendeu ao limite toda a panóplia de garantias que o sistema legal português lhe concede e suscitou numerosos incidentes processuais com a suposta intenção de ver anuladas, por prescrição, as acusações formais que enfrenta desde Outubro de 2017. No início de 2024, tinha já apresentado 52 recursos e reclamações - mais de 80% chumbados, incluindo todos os que submeteu ao Supremo Tribunal de Justiça.

Eram inicialmente 31 crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, branqueamento de capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada. O Tribunal da Relação viria a reduzir de 31 para 28 o número de crimes: três de corrupção, 13 de branqueamento de capitais, seis de fraude fiscal, três de lavagem de dinheiro e três de falsificação de documento.

Sete anos volvidos, o antigo primeiro-ministro continua a desfrutar de uma espécie de férias vitalícias na Ericeira, uma das mais belas e acolhedoras vilas balneárias do País. Em casa de empréstimo, para se manter fiel aos seus hábitos. E em persistente anomia moral, como se lhe fosse indiferente o facto de sabermos que viveu à custa de um empresário com quem o Estado teve negócios de milhões

 

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Em Novembro de 2014, dezenas de políticos, jornalistas e comentadores saíram de imediato em defesa e louvor de Sócrates. Num ruidoso movimento de solidariedade colectiva, sem questionar os actos e as motivações do homem que durante seis anos, entre 2005 e 2011, esteve à frente do Governo de Portugal.

Vale a pena lembrar o que alguns disseram naqueles dias de febril exaltação socrática. Porque a memória não prescreve.

 

Manuel Magalhães e Silva: «A democracia está em perigo.» (SIC Notícias, 22 de Novembro)

Clara Ferreira Alves: «Esta Justiça de terceiro mundo aterroriza-me. Isto não acontece num país civilizado com jornais civilizados.» (Expresso, 22 de Novembro)

Pedro Adão e Silva: «Devemos questionar tudo sobre a justiça em Portugal.» (SIC Notícias, 22 de Novembro)

Edite Estrela: «Qual a melhor forma de desviar as atenções do escândalo dos vistos gold?» (Facebook, 22 de Novembro)

Pedro Marques Lopes: «A minha confiança no sistema judicial deste país está pelas ruas da amargura.» (SIC Notícias, 23 de Novembro)

Fernando Pinto Monteiro: «[Está a haver] uma promiscuidade entre política e justiça.» (RTP, 24 de Novembro)

Proença de Carvalho: «[O juiz Carlos Alexandre] é o herói dos tablóides.» (TSF, 26 de Novembro)

Mário Soares: «Estes malandros estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar!» (RTP, 26 de Novembro)

Fernando Rosas: «Estamos a entrar num sistema, promovido de facto pelos media em grande parte, de mediatização dos juízes. Queremos uma república de juízes?» (TVI24, 27 de Novembro)

Pedro Bacelar de Vasconcelos: «Subsistem dúvidas legítimas quanto à real motivação do tribunal.» (Jornal de Notícias, 28 de Novembro)

O PS deve cinco Orçamentos ao PSD

Pedro Correia, 03.10.24

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Quando Marcelo liderava o PSD, entre 1996 e 1999

 

O PSD aprovou cinco Orçamentos do Estado apresentados na Assembleia da República por executivos minoritários do PS. Aconteceu com os orçamentos de 1997, 1998 e 1999, viabilizados por decisão de Marcelo Rebelo de Sousa quando liderava os sociais-democratas como principal força da oposição. E com os orçamentos de 2010 e de 2011, quando José Sócrates chefiava o Governo e Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho ocupavam a presidência do partido laranja.

O contrário jamais sucedeu.

Não há memória de vermos a bancada parlamentar socialista contribuir, com a abstenção, para a passagem de um Orçamento do Estado submetido ao hemiciclo de São Bento por executivos minoritários do PSD.

Moral da história? O PS deve cinco Orçamentos ao PSD. Tão simples como isto.

O meu guarda-redes

Maria Dulce Fernandes, 02.07.24

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"Foi 11 vezes internacional pela Selecção A, já para o final da sua carreira, em plena maturidade. Estreou-se em 19 de Abril de 1965, data em que Portugal foi ganhar à Turquia por 1-0. Logo a seguir, em 25 de Abril, destacou-se num dia que ficou para a história: reduzido a 10 elementos, Portugal ganhou em casa da Checoslováquia por 1-0, e José Pereira foi determinante, ao defender assombrosamente um penalty."

É do "meu tempo". Tenho ideia dele e da equipa. O meu avô e o meu pai referiam o José Pereira como "o maior de todos os tempos", mas a política de clubes não permite que se lhe façam grandes referências.

Deixo esta memória do meu guarda-redes em homenagem ao Diogo Costa.

https://www.osbelenenses.com/2014/09/15-de-setembro-de-1931-nasce-jose-pereira/

Para avivar algumas memórias

Pedro Correia, 08.06.24

Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República, tinha 26 anos quando foi eleito deputado à Assembleia Constituinte.

Jerónimo de Sousa, que foi secretário-geral do PCP entre 2002 e 2022, tinha 27 anos quando foi eleito deputado à Assembleia Constituinte.

Jaime Gama, que foi presidente da Assembleia da República entre 2005 e 2011, tinha 27 anos quando foi eleito deputado à Assembleia Constituinte.

Helena Roseta, arquitecta e deputada em várias legislaturas da Assembleia da República, tinha 27 anos quando foi eleita deputada à Assembleia Constituinte.

Manuel Gusmão, poeta, ensaísta e professor da Faculdade de Letras, tinha 29 anos quando foi eleito deputado à Assembleia Constituinte.

Vital Moreira, um dos constitucionalistas de referência em Portugal, tinha 29 anos quando foi eleito deputado à Assembleia Constituinte.

As palavras também têm história

Pedro Correia, 23.04.24

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Palácio Quintela, em Lisboa, onde Junot instalou o seu quartel-general em 1807

 

Muitas vezes não fazemos a menor ideia da origem de algumas das expressões coloquiais que usamos. Mas vale a pena investigar de onde vêm e como se foram generalizando.

Várias remontam ao tempo das invasões francesas, na primeira década do século XIX. Uma das mais frequentes relaciona-se com a chegada do general Jean-Andoche Junot a Lisboa, à frente do exército napoleónico, quando ainda se avistavam no horizonte as velas da frota que conduzia a família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 30 Novembro de 1807. Ficou, portanto, a ver navios.

Portugal acabou por ser devastado pelas tropas gaulesas, que aqui praticaram as maiores atrocidades. Mas Junot, indiferente às situações de penúria e de miséria provocadas pelos invasores também em Lisboa, instalou-se no Palácio Quintela, na Rua do Alecrim, com despudorada ostentação, vivendo à grande e à francesa.

Um dos generais que o acompanharam na invasão, Louis Henri Loison, tornou-se tristemente célebre pela ferocidade com que tratava os portugueses que tinham o azar de lhe surgir ao caminho. Por ter perdido o braço esquerdo numa batalha, logo recebeu a alcunha de Maneta. A partir daí, quando alguém se envolvia numa situação complicada ou perigosa, passou-se a dizer que iria pr'ò Maneta.

Derrotados na batalha do Vimeiro em Agosto de 1808, após o desembarque de forças britânicas em Portugal, Junot e as suas tropas retiraram-se para França após encherem navios de tudo quanto puderam na sequência de incontáveis actos de pilhagem em igrejas, palácios e bibliotecas - num dos maiores atentados desde sempre cometidos ao património nacional. Zarparam assim, de armas e bagagens.

 

Duzentos anos depois, os ecos das invasões francesas perduram no nosso vocabulário corrente. Porque também as palavras têm história.