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O vendedor de ilusões

por Pedro Correia, em 12.12.19

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Faz hoje dez anos, o primeiro-ministro José Sócrates montou um dos monumentais balões de propaganda a que foi habituando os portugueses. Naquele estilo inconfundível de quem parecia acreditar nas próprias patranhas que lhe saíam pela boca, anunciou ao País o vencedor do primeiro projecto de alta velocidade ferroviária em Portugal, correspondendo ao troço Caia-Poceirão: um consórcio entre a Brisa e a Soares da Costa.

Nessa sessão de ilusionismo, semelhante a tantas que marcaram aquela época, o Governo exibia o seu calendário sem margem para dúvidas: a construção do referido troço seria «iniciada em 2010, devendo entrar ao serviço em 2013».

 

Havia crise? Pormenor irrelevante para o expedito Sócrates, sempre disposto a falar pelos cotovelos: «Este é justamente o momento para que o projecto da alta velocidade passe do papel para o terreno. A crise é mais uma razão para o fazermos. É neste momento que o país precisa de investimento, de oportunidades de emprego. Há muita gente à procura de emprego e muitas empresas à espera desta oportunidade.»

Puro cenário virtual, sem a menor correspondência com a realidade. Mas Sócrates nunca deixava que o factos estragassem uma boa história. 

 

A coisa implicaria um investimento de 1.500 milhões de euros. Dinheiro que não havia, exigindo um empréstimo que ninguém nos creditava, numa altura em que o défice externo se agigantava a um ritmo imparável. Os mais atentos aos sinais do tempo podiam ouvir um tique-taque: a contagem decrescente para a perda de soberania financeira do País já começara.

Nem o troço se construiu nem a alta velocidade saiu do papel: recordar tudo isto, à distância de uma década, chega a ser confrangedor. Como é que este pífio vendedor de ilusões conseguiu enganar tanta gente durante tantos anos?

Sónia Ribeiro, 37 anos

por Leonor Barros, em 26.11.19

Não havia se não leveza naqueles dias a sul. O calor, o abandono dos corpos, o arremessar das tarefas quotidianas, o fardo das obrigações que via Guadiana abaixo, e o meu pai que imaginava naquele mesmo lugar e a quem sempre homenageei na intimidade de mim. Depois saíamos para jantar e sentávamo-nos na esplanada do restaurante a servir de pasto para as melgas, e paradoxalmente felizes e gratos por tudo. A mulher servia-nos quase sempre. Era alta, de cabelo negro comprido sempre amarrado num rabo-de-cavalo longo que abanava quando ela se deslocava entre as mesas e que obedecendo à gravidade se estendia como um pêndulo no corpo esguio e magro. Tinha olhos negros aos quais não era fácil arrancar um sorriso, tinha uma irmã com filhos e tratava as crianças da casa com intimidade. Não havia suavidade no seu trato. Havia rispidez e eficiência, rapidez e pouco tempo para conversa mole. A mulher trouxe-me muitas vezes a felicidade nas fritadas de peixe, só por isso poderia subir ao meu Olimpo, nas sardinhas alimadas ou albardadas, nos bifes de atum com pores-do-sol rubros e o casario incendiado da luz que se crepuscula na Espanha na outra margem. A mulher forte e incansável era também os dias a sul. Um dia de maio a notícia soou 'mais uma', e o pressentimento de que poderia ter sido a mulher do cabelo longo, dos olhos negros, a mulher-mãe, a mulher jovem e esguia tão resoluta e eficiente, com uma vida pela frente. Não lhe sabia o nome até então. "Sónia Ribeiro, 37 anos, Vila Real de Santo António, no Algarve. Foi a filha mais velha, de 16 anos, que a encontrou ao fim da manhã, pelas 11h30, quando regressava da escola. (...) O corpo, caído no chão, tinha pequenas perfurações no peito e uma maior perto do coração, que se soube mais tarde terem sido feitas com um picador de gelo, quando Sónia já estaria morta por asfixia." O meu sul nunca mais será o mesmo. O dela deixou de ser.

 

Em memória da Sónia Ribeiro.

Elogio a sete deputados do PS

por Pedro Correia, em 26.11.19

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Sérgio Sousa Pinto, um dos sete

 

Nesta data em que se assinalam 44 anos do fim da perversão do ideal do 25 de Abril pela esquerda totalitária, inscrevo aqui os nomes dos sete deputados do PS que aprovaram um voto de saudação ao 25 de Novembro na Assembleia da República:

Ascenso Simões

Hortense Martins

João Ataíde

João Paulo Pedrosa

Marcos Perestrello

Paulo Cegonho

Sérgio Sousa Pinto

 

Cumpre salientar que estes parlamentares socialistas honraram a melhor tradição histórica do seu partido, contrariando a orientação de voto da bancada, que os mandava imitarem o gesto de Pilatos, abstendo-se.

Os restantes acobardaram-se. Faltou pouco para alinharem com o PCP, o BE e o Livre (e a deputada socialista Isabel Moreira) na condenação do 25 de Novembro. Como se nada soubessem das lições da História.

Acontece que a 25 de Novembro de 1975, data crucial para o estabelecimento da democracia em Portugal, o PS de Mário Soares, Maria Barroso, Salgado Zenha, Jaime Gama, Sophia de Mello Breyner Andresen e Manuel Alegre não se absteve: estabeleceu uma linha fronteiriça entre a democracia representativa e a extrema-esquerda política e militar que queria implantar em Portugal a réplica de uma ditadura cubana, albanesa ou soviética.

 

Há 44 anos, Soares era o inimigo n.º 1 dessas forças extremistas, que o comparavam a um girondino da Revolução Francesa ou a Aleksandr Kerenksy, o efémero líder social-democrata russo destituído pela insurreição bolchevista de Lenine em 1917. O fundador do PS esteve à altura do seu papel histórico, assumindo-se como um resistente de primeira hora a uma ditadura de esquerda. Com a mesma fibra de lutador que revelara no salazarismo.

Esta lamentável abstenção do PS, traindo o legado do partido, foi também um voto contra Soares e os restantes socialistas que travaram o passo ao comunismo em Portugal.

RDA, 1949-1989

por Pedro Correia, em 09.11.19

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Tanques soviéticos esmagando a rebelião operária em Berlim-Leste, capital da República "Democrática" Alemã (17 de Junho de 1953)

 

O fim da ditadura. O fim da repressão. O fim do partido único. O fim das manifestações orquestradas a favor dos ditadores Ulbricht e Honecker. O fim do vergonhoso servilismo perante a União Soviética. O fim dos "crimes" de natureza política. O fim da sociedade de delatores, tão bem retratada nessa obra-prima do cinema contemporâneo que é A Vida dos Outros. O fim da proibição do direito à greve. O fim da proibição do direito à manifestação. O fim da imprensa amordaçada, submetida ao pensamento único do Partido. O fim da polícia política. O fim dos delitos de opinião. O fim da Stasi - a PIDE leste-alemã. O fim dos tiros disparados, na calada da noite, contra quem ousasse transpor a fronteira. O fim da perversão da palavra democracia, usada como emblema de um Estado que sempre a espezinhou.

Além do derrube do Muro, é também isto que hoje festejamos. O fim de um pesadelo que durou 40 anos.

Revisitando os clássicos

por Pedro Correia, em 05.11.19

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Pacheco Pereira (com Falcão e Cunha e Passos Coelho) em 1996

 

«Dificilmente se compreende por que razão no discurso político do PSD se está permanentemente a enfatizar o "acordo" com o PS, aceitando-se aquilo que é o ideal para o Governo.»

 

«O problema político deste discurso é que ele tem o efeito prático de valorizar semelhanças que não existem ou não devem existir e permite que seja o PS que tome a iniciativa política.»

 

«O resultado aproxima-se perigosamente de um "bloco central" não enunciado, despolitizando seriamente o debate de propostas e esbatendo a clareza das opções colocadas aos eleitores. O confronto político tende a tornar-se apenas procedimental e o eleitorado do PSD e os descontentes com o Governo socialista sentem-se sem representação política.»

 

José Pacheco Pereira, Diário de Notícias, 19 de Junho de 1997

A derrota e a vergonha

por Pedro Correia, em 28.10.19

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Às 8 da manhã do dia 21 de Junho de 1942, as tropas britânicas sitiadas na fortaleza de Tobruk, no norte de África, rendiam-se às divisões comandadas por Erwin Rommel, após terem sofrido baixas consideráveis. No seu quartel-general da Alemanha, Hitler rejubilou, entregando a Rommel o bastão de marechal. Ao receber a má noticia em Washington, onde conferenciava com o presidente Roosevelt, Churchill desabafou: “A derrota é uma coisa, a vergonha é outra.” Os britânicos tinham sido derrotados mas não deviam envergonhar-se. Tinham-se batido até ao limite das suas forças. Um ano mais tarde, recuperariam Tobruk.

A que propósito me lembrei deste emblemático episódio da II Guerra Mundial? É que ele constitui uma exemplar lição de vida. A desonra é perder sem sequer dar luta. Vale para todas as épocas e para as mais variadas circunstâncias – e também na política, que é a continuação da guerra por outros meios.

Da falta de memória

por Pedro Correia, em 26.10.19

Leio hoje no Expresso, em peça muito destacada, que há a partir de agora três mulheres à frente de bancadas parlamentares -- «são as sucessoras de Manuela Ferreira Leite, a única mulher até agora líder de um grupo parlamentar, entre 2001 e 2002».

Erro factual grave. A primeira mulher que liderou um grupo parlamentar foi Maria José Nogueira Pinto, à frente da bancada do CDS entre 1997 e 1999.

Um erro que é consequência directa da galopante falta de memória nas redacções dos órgãos de informação. Ao contrário do que muitos imaginam, o mundo não começou anteontem.

Livros com nomes de blogues

por Pedro Correia, em 12.10.19

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«"Conheci uma pessoa." Eis uma expressão que nalguns casos implica dois evidentes exageros.»

Pedro Mexia, Prova de Vida

 

Sinto por vezes algumas saudades do tempo de maior pujança da blogosfera, em que o debate de ideias se impunha sem o colete-de-forças compressor do Twitter nem o umbiguismo grupal do Facebook. Um tempo em que era possível dialogar com quem pensava de forma muito diferente, até antagónica, sem reduzir o pensamento a legendas, sem coleccionar bonequinhos de polegar levantado, sem confundir afectos e cumplicidades com a carneirada dos clubes de fãs, sem esse anátema sempre implícito no ridículo verbo "desamigar".

Fui coleccionando livros que resultaram da escrita blogosférica - e eles cá continuam, na minha biblioteca doméstica, como memórias vivas desse tempo que já passou. Livros com nomes de blogues, como O Acidental (que reunia o Paulo Pinto Mascarenhas, o Rodrigo Moita de Deus, o Vítor Cunha, o Luciano Amaral, o Vasco Rato e o Bernardo Pires de Lima, entre outros), Portugal dos Pequeninos (feliz título com a marca inconfundível do João Gonçalves antes da sua irreversível migração para o FB), Prova de Vida (diário do Pedro Mexia nascido como blogue e polvilhado de argutos aforismos, como aquele que serve de epígrafe a estas linhas) e Jaquinzinhos (onde o João Caetano Dias deixou um pioneiro rasto liberal antes da sua irreversível migração para o Twitter). 

A escrita blogosférica tornou-se residual, quase anacrónica: é precisamente por isto que eu insisto nela. Quando a prosa de Facebook originar livros, agradeço que me avisem.

Fora da caixa (23)

por Pedro Correia, em 04.10.19

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«Entre o conhecimento do bem e do mal há uma grande diferença: o mal conhece-se quando se tem e o bem quando se teve; o mal, quando se padece, o bem, quando se perde.»

Padre António Vieira

 

Mário Soares fundou o PS em Maio de 1973. Sá Carneiro fundou o PPD (depois PSD) em Maio de 1974. Diogo Freitas do Amaral, agora falecido, fundou o CDS em Julho de 1974. Álvaro Cunhal, de algum modo, refundou o PCP na década de 40 e foi seu dirigente histórico durante quatro décadas. Fernando Rosas, Francisco Louçã, Luís Fazenda e Miguel Portas fundaram o Bloco de Esquerda em 1999.

E o PAN, que parece ter caído do céu há quatro anos, ungido por André Silva? Este partido tem um fundador, do qual todos os actuais dirigentes parecem demarcar-se, vá lá saber-se porquê. É o professor Paulo Alexandre Esteves Borges, budista praticante após ter sido entusiasta do Quinto Império: primeiro presidente do partido, em 2011, afastou-se da liderança três anos depois e desfiliou-se em 2015. Entre «divergências profundas quanto ao rumo que alguns comissários [pretendiam] dar ao PAN».

 

Seria interessante recordar a cascata de convulsões internas que levaram ao seu afastamento.

Seria interessante saber se André Silva se revê nos princípios doutrinários de Paulo Borges, discípulo espiritual do padre António Vieira e do professor Agostinho da Silva.

Seria interessante indagar se o professor Borges tenciona votar no partido que fundou.

Já agora, também teria interesse saber por que motivo o deputado do PAN preferiu votar em Fernando Negrão em vez de Ferro Rodrigues para presidente da Assembleia da República em Outubro de 2015.

Eis questões com relevância pública e que mereciam tratamento jornalístico se o PAN fosse encarado pelo mesmo prisma acutilante reservado à maioria das forças partidárias representadas no Parlamento.

Fora da caixa (22)

por Pedro Correia, em 04.10.19

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«Poucos deram tanto a Portugal, à liberdade e à democracia.»

António Costa, ontem, sobre Freitas do Amaral 

 

A campanha eleitoral terminou ao princípio da tarde de ontem. Precisamente quando foi conhecida a triste notícia do falecimento de Freitas do Amaral, o último fundador civil do nosso regime democrático - resta o general Ramalho Eanes, ilustre sobrevivente desta estirpe já com lugar na História.

Este infeliz acontecimento relegou para segundo plano tudo quanto vinha a ser discutido no espaço mediático, o que muito jeito dá a António Costa - confirmando que o secretário-geral socialista é o político com mais sorte em Portugal. A campanha corria-lhe razoavelmente mal: Costa está longe de ser brilhante nas caravanas de propaganda eleitoral, para as quais tem pouco jeito e quase nenhuma paciência. A nova dimensão dada ao lamentável caso de Tancos, centrada na acusação deduzida pelo Ministério Público ao ex-titular da pasta da Defesa Azeredo Lopes, fragilizou o primeiro-ministro numa das dimensões que mais cultiva: a sua faceta de homem de Estado.

O desaparecimento de Freitas, senador da democracia, e as cerimónias fúnebres que lhe serão devidas hoje e amanhã, dia de reflexão eleitoral, encerram simbolicamente um capítulo da nossa vida colectiva. E põem fim prematuro a uma campanha que se revelou mais incómoda para o PS do que alguns responsáveis socialistas previam.

Recordo-me da dramática recta final das legislativas de 1999, marcada pelo súbito falecimento de Amália Rodrigues, que gerou comoção nacional. Foi a 6 de Outubro, vai fazer 20 anos depois de amanhã - quatro dias antes de os portugueses irem então a votos.

Também a campanha terminou nesse dia. E dela saiu uma vitória pírrica do PS: António Guterres ficou a um escasso lugar da maioria absoluta e acabou por nunca recuperar desse trauma. Nascia uma legislatura condenada ao fracasso desde o vagido inicial.

Embora com protagonistas diversos, a História tem tendência a repetir-se.

Instantes em sépia com capa de muitas cores (19)

por Maria Dulce Fernandes, em 28.06.19
Memória

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"Óscar, ó Óscar", gritava a ti' Elsa da sua casinha térrea, mesmo em frente ao Chafariz da Memória. "Ó Óscar!! É preciso dar de comer á criação, homem de Deus!"
 
O Felgueiras, hábil barbeiro, perito em carecadas e cortes à tigela que se tinha estabelecido em Belém há muitos anos, sorria encostado ao batente da barbearia vazia, enquanto soprava languidamente novelos de um fumo esbranquiçado, que se soltavam da beata gasta do cigarro que enrolara minutos antes. Era isto todos os dias. O Óscar desaparecia e a mulher dele gritava que lhe acudisse mais à criação.
 
Era um casal castiço. O ti' Óscar, careca, bonacheirão mas seco de carnes, e a ti' Elsa, uma negra roliça e de peito farto que o obrigava a andar a nove com os muitos afazeres quotidianos da sua vida de reformados.
 
A minha tia Adelaide parava sempre junto à janela aberta para dois dedos de conversa e eu aproveitava para ir molhar o bico na bica do chafariz.
 
A casa do ti' Óscar e da ti' Elsa ficava encravada entre a porta da D. Maria Alpalhão, a senhoria,  senhora baixinha e sem idade aparente durante mais de 30 anos, dona da maior parte das casinhas da Memória, a janela da D. Alda, esposa do Sr. Severo e mãe da Miss Belém da época, e o Torrado, mercearias finas e taberna, ponto de encontro de fim de tarde de quase todos os homens das redondezas para o seu copito de três ou para a proverbial suecada.
Todos os sábados de manhã, munida com um pequeno frasco e cinco tostões, ia eu até ao Torrado comprar brilhantina para o meu pai e trazia o troco em pevides.
 
Naturalmente que o ti' Óscar se perdia mais pelo Torrado do que em tricas com o mulherio, por isso não era de todo difícil de encontrar. Quem o queria ver bem, era ouvir-lhe as várias anedotas de um repertório que metia num chinelo muito humorista de standup. Era uma barrigada de riso - e eu ria, por contágio claro, porque com sete anos pouco ou nada entendia do conteúdo.
 
A ti' Elsa era a beijadora oficial de todos os bebés nascidos ali... para dar sorte, dizia ela sempre a sorrir, com uns pequenos óculos encarrapitados no nariz. Tinha sempre um afago e um rebuçado para mim.
 
Quase em frente ao Óscar da ti' Elsa, ficava a porta tripla do "pitrolino", de quem nunca soube o nome... "Sr. Pitrolino, a minha mãe quer um litro de lixívia" - dizia eu de braço esticado, a segurar uma garrafa vazia de Camilo Alves com uma cápsula de plástico...
 
Logo ao lado, ficavam as escadas de pedra da Vizinha Custódia, onde eu, a Susana, a Bandeira e a Luisinha da Menina Joaquina, brincávamos às casinhas e às escolas, com papéis, carretos de madeira de carros de linhas vazios, trapinhos dos restos da costura, latas velhas, paus e pedrinhas. Tantas vezes já o sol se recolhera e nós lá, felizes e despreocupadas, porque a maldade ainda não se tinha tornado mesmo má, mesmo apesar de eu ser, como dizia o ti' Óscar, a "Filha do Veneno"... a Mãe, como já anteriormente referi, foi e sempre será nos anais da Memória a miúda mais endiabrada que se conheceu, o terror de toda a rapaziada...  enfim, um "autêntico veneno"..

Instantes em sépia com capa de muitas cores (15)

por Maria Dulce Fernandes, em 20.06.19

Bisa

 

Eu sou uma pessoa de sorte, tive quatro mães: a minha Avó Adelaide, a minha Mãe, a minha Madrinha Maria Emília e a minha Bisavó Júlia, qual delas a melhor. Sou um patchwork de todas elas, mas no feitio intempestivo sou igualzinha à (bis)Avó Júlia, um furacão com pelo na venta.


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A minha bisavó era uma força da natureza: de saia comprida, lenço preto e xaile, era o protótipo da matriarca dos primórdios do século 20, que enviuvou cedo e trabalhava de sol a sol para sustentar os três filhos. Era uma cozinheira de mão cheia, e quando jovem e antes da Implantação da República, trabalhou nas cozinhas do palácio nas Necessidades, onde conheceu os soberanos reinantes, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia.

Como viver em pecado era contra os princípios da Rainha, a minha Bisavó Júlia e o meu Bisavô Alberto, carpinteiro também no Palácio e que nunca cheguei a conhecer, levado muito novo pela Consumpção, foram ”aconselhados” a casar pelo seu capelão, e ofertados pela Rainha depois do enlace, de camas de ferro com florões espectaculares para os rapazes dormirem (pois que já tinham dois filhos), camas essas que perduraram gerações fora, até serem vendidas com o espólio da casa do Fiandal, quando o meu pai faleceu.

Teve três filhos: o Álvaro (o protótipo do dandy, chapéu de lado e suaves maneirismos), o Américo, homem bonito, calmo e um tanto mulherengo, e a Adelaide, o patinho feio, que compensou a falta de beleza física com a muita determinação e perseverança que possuía, e que teve dois maridos e quase um terceiro.

O filho favorito era o filho do meio, o meu Avô Américo, ao qual a Mãe e os meus irmãos foram buscar os olhos azuis. O Avô casou com uma criada de servir de seu nome também Adelaide (a Avó), casamento que não foi do total agrado da Bisavó, o que preconizou uma vida nada fácil para o casal. O Avô, que era serralheiro e arbitro de futebol, era também o menino da mãe, ficando por isso, a morar com ela em Belém. Tiveram três filhas, a Maria Emília (a Madrinha), a Luzia e a Ivone (a Mãe).

A Mãe foi o rapaz que o Avô sempre desejou mas não teve. Era o terror das redondezas, e completamente adorada e apoiada pela Bisavó, impunha a sua vontade e ditava as suas leis com tal vigor que foi cognominada “O Veneno”. Ainda nos dias de hoje, se eu passar pela igreja da Memória, qualquer velhinho que descanse num qualquer banco do jardim me poderá facilmente reconhecer como “a Filha do Veneno” ou à minha filha mais velha como “a Neta do Veneno”.

A Mãe, apesar de maria rapaz e a mais novinha do trio, foi a primeira a casar, e então nasci euzinha, a menina na mão das bruxas, o ai Jesus de todos, mas não era o rapaz que ansiavam. Apesar dum bocado masculinizada pelo Avô no vestir e nos cortes de cabelo (o que tirava a Mãe do sério), foi com o advento do Nascimento do Rapaz que a família rejubilou verdadeiramente. O Avô ficou encantado, o Pai realizado, a Mãe triunfante, a Avó feliz e a Bisavó tão maravilhosamente deslumbrada que tornou o meu irmão o propósito de toda a sua existência. Transferiu toda a ternura que as agruras da vida lhe reprimiram no peito para aquele pequeno ser e amou-o incondicionalmente enquanto viveu.

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Sobreviveu ao Avô, a quem um devastador AVC roubou anos de vida, e ainda embalou o meu irmão mais novo com canções de ninar. Passou os últimos anos numa Casa de Repouso, a que agora chamamos Lar da 3ª idade, donde fugia sempre que podia, para poder estar junto dos seus meninos.
A minha herança genética veio praticamente toda dos albicastrenses do lado da família do Pai.
Penso que o mau feitio e a maneira de encarar a vida herdei inteirinhos da Bisavó Júlia, e estou grata por poder contar com o seu ADN nas horas mais complicadas da minha existência.

 

P.S.: Quem possa pensar que transparece uma ponta de ciúme nestes meus escritos, desengane-se. EU fui a primeira e única Princesa Com Sorte da família

Uma estátua para D. João II

por Pedro Correia, em 18.06.19

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D. João II (retrato do século XVI)

 

Quase todas as grandes cidades portuguesas têm estátuas de figuras ilustres da nossa História. Incluindo, naturalmente, dos monarcas que contribuíram para fundar e robustecer este Estado-Nação, um dos mais antigos do mundo com as suas actuais fronteiras, definidas no rectângulo continental desde 1249, com a conquista do Algarve, e na sua globalidade desde o século XV, com a descoberta e povoamento das ilhas atlânticas.

São conhecidas da generalidade dos portugueses estátuas tão majestosas e emblemáticas como a de D. José implantada em 1775 no Terreiro do Paço, ou a de D. Pedro IV, descerrada em 1866 no coração da Baixa portuense. Sem esquecer a do nosso monarca fundador, D. Afonso Henriques, que se ergue junto ao castelo de Guimarães. Ou a moderna evocação de D. Sebastião, no centro de Lagos.

Várias outras cidades ou vilas têm estátuas de reis que de algum modo lhes estiveram ligados por acontecimentos diversos - ou por lá terem nascido, ou por lhes terem atribuído carta de foral ou ali feito uma inauguração de vulto, ou porque as tomaram aos mouros, alargando o perímetro das fronteiras portuguesas. Acontece, por exemplo, na Guarda (D. Sancho I), em Silves (D. Sancho II), Faro (D. Afonso III), Leiria (D. Dinis), Cascais (D. Pedro I), Lisboa (D. João I), Alcochete (D. Manuel I), Coimbra (D. João III), Vila Viçosa (D. João IV), Mafra (D. João V), Queluz (D. Maria I), Castelo de Vide (D. Pedro V) ou Cascais (D. Carlos). Com maior ou menor mérito, todos são ostensivamente recordados em mármore ou bronze.

Há, no entanto, uma evidente lacuna neste vasto conjunto de estátuas régias distribuídas de norte a sul do País. Refiro-me a D. João II, que passou à História com o cognome de Príncipe Perfeito. Reinou durante 14 anos, entre 1481 e 1495, embora tenha assumido a governação do Estado desde 1477, por abdicação efectiva de seu pai, Afonso V. Foi sob o seu comando que Portugal deu um impulso decisivo à epopeia das navegações, assumindo-se como precursor da globalização em vários marcos: chegada de Diogo Cão às costas de Angola e da Namíbia; início da colonização de São Tomé e Príncipe; envio de Pero da Covilhã por terra à Etiópia, Cairo, Adém, Ormuz e Goa; passagem do cabo da Boa Esperança, assim baptizado por Bartolomeu Dias; assinatura do Tratado de Tordesilhas com os reis de Espanha; preparação da armada de Vasco da Gama que inauguraria o caminho marítimo para a Índia.  

D. João II é o único dos nossos grandes reis ainda sem estátua numa cidade portuguesa. Em 1998, numa rotunda do que hoje se chama Parque das Nações, foi inaugurada uma peça em bronze supostamente em sua homenagem: é um bloco abstracto, que em nada alude ao Príncipe Perfeito. Fica o desafio aos decisores políticos, a nível nacional, regional ou autárquico: pôr fim a esta chocante omissão erguendo um monumento a D. João II realmente digno desse nome. Em 2020 assinala-se o 525.º aniversário da morte do monarca: é um ano apropriado para tal fim.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

Os heróis

por Pedro Correia, em 06.06.19

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Faz hoje 75 anos, desembarcaram em praias da Normandia onde os invasores nazis os aguardavam, armados até aos dentes. Alguns foram mortos em poucos minutos, milhares deles já não veriam amanhecer o dia seguinte. Mas conseguiram o objectivo: libertar a Europa. E, dessa forma, tornaram o mundo mais decente, mais civilizado, mais limpo.

Devemos as recentes décadas de progresso e prosperidade no continente que habitamos a este punhado de heróis. Alguns felizmente ainda entre nós, todos já com mais de 90 anos - tal como a Rainha Isabel II, que recorda essa longa noite totalitária iluminada por uma imprecisa luz de esperança. Foi com emoção que acompanhei as cerimónias desta manhã, honrando o heroísmo desses bravos de outrora, hoje anciãos alquebrados mas orgulhosos e dignos.

Num mundo cada vez mais despojado de valores, onde tudo se equivale sem hierarquias e a indiferença se banaliza nos mais diversos escalões da vida pública, é gratificante observar estes homens de pele enrugada e olhar cintilante que recordam os camaradas sepultados no solo sagrado da Normandia. Todos lutaram e alguns tombaram em nome de um ideal maior que eles. Enfrentaram a guerra para que a paz florescesse nas gerações futuras.

Somos os legatários dessa paz. Ser-lhes-ei sempre grato por isso.

A resistência à escravidão

por Pedro Correia, em 12.05.19

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Bloqueio a Berlim decretado por Estaline durou quase um ano: terminou a 12 de Maio de 1948

 

Faz hoje 70 anos, Berlim foi libertada. Não pelo solo, mas pelo ar. Foi um marco na história da liberdade na Europa. Estranhamente - ou talvez não - um marco de que pouco se fala hoje. 

A cidade estava dividida desde 1945, quando o Exército Vermelho se apoderou da metade oriental da Alemanha enquanto as divisões blindadas ocidentais anexavam a parcela mais ocidental do país, conduzido à derrota por Adolf Hitler. As cimeiras de Ialta e Potsdam, em 1945, repartiram o território alemão em quatro grandes áreas de influência tuteladas pelos vencedores da II Guerra Mundial, aplicando-se a mesma regra para Berlim, capital do defunto III Reich. A Alemanha, mergulhada em cinzas e escombros, tornou-se um país ocupado. À mercê de um novo conflito, desta vez ideológico: de um lado os Estados Unidos, o Reino Unido e a França – democracias liberais; do outro, a URSS de cariz totalitário. Como Winston Churchill alertou em Março de 1946, uma Cortina de Ferro fracturara o continente europeu. Do lado de lá, imperavam as legiões de Estaline.

O ditador soviético quis transformar a Alemanha num Estado-satélite, sem verdadeira soberania. Enquanto as potências ocidentais apostavam na reconstrução de uma Alemanha próspera para evitarem os erros cometidos no final da I Guerra Mundial, quando a miséria e o caos social fizeram chocar o ovo da serpente de onde emergiu o regime nazi.

 

Enclave ocidental


Berlim, naquele ano de 1948, permanecia sob ocupação militar. Dividida em quatro zonas. Três quartos da cidade funcionavam como autêntico enclave ocidental em território comunista – ilha democrática no imenso império vermelho. A 7 de Junho, as potências ocidentais anunciaram a intenção de unificar as áreas territoriais sob a sua jurisdição – formando aquilo que seria a República Federal da Alemanha a partir do ano seguinte. No dia 20, entrava em circulação uma nova divisa monetária, o marco alemão, substituindo as senhas de racionamento que vigoravam desde o fim da II Guerra Mundial. Tudo à revelia de Moscovo.

Era um equilíbrio precário entre os antigos aliados que prometia não durar muito. E assim foi: a 24 de Junho, Estaline ordenava aos seus efectivos militares o encerramento compulsivo das vias de acesso a Berlim Ocidental tanto por estrada como pelas linhas férreas que conduziam a Hamburgo e Munique, bloqueando igualmente os canais fluviais: 2,2 milhões de pessoas viram-se privadas, de um dia para o outro, de alimentos. A cidade apenas produzia 2% daquilo que comia, dependendo quase em exclusivo do exterior para esse efeito.

Num primeiro momento, a administração norte-americana hesitou. Alguns conselheiros do Presidente Harry Truman não queriam arriscar um conflito declarado com os soviéticos, anteriores aliados de Washington na guerra contra a Alemanha nazi, nem socorrer aquela população, que escassos anos antes vitoriava Hitler e diabolizava os EUA.

 

A maior ponte aérea


Truman não escutou tais vozes. Estava convencido de que se Berlim caísse por inteiro nas mãos dos soviéticos, os EUA perderiam rapidamente o domínio de todo o território alemão.

A 26 de Junho o inquilino da Casa Branca ordenou o início da Operação Vittler – que viria a transformar-se na maior ponte aérea destinada ao transporte de carga humanitária. Usando para o efeito três corredores aéreos, com 32 quilómetros de largura, a partir de Hamburgo, Hannover e Frankfurt, na Alemanha Ocidental.

O desafio foi imenso: nunca tinha sido montada uma operação deste género, para fins civis, em toda a história da aviação. O general Lucius Clay (1898-1978), comandante militar norte-americano na Alemanha, foi o artífice supremo deste imenso aparato logístico que viria a mobilizar um total de 277.569 voos rumo. «Ninguém nos expulsará de Berlim», garantiu.

Este abastecimento aéreo da população cercada foi um sucesso, rapidamente difundido nos documentários de actualidades exibidos diariamente nas salas de cinema um pouco por todo o mundo. Tornando-se assim num inesperado foco de propaganda americana em socorro de cidadãos em risco, enquanto os soviéticos eram apresentados como seres impiedosos, capazes de condenar homens, mulheres e crianças à fome e ao frio.

 

O argumento atómico


Estaline ainda ponderou encerrar unilateralmente os corredores aéreos. Truman dissuadiu-o, fazendo sobrevoar sobre a Alemanha dois bombardeiros B-29 – as chamadas “superfortalezas” – idênticos aos que em 1945 lançaram as bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui. A URSS ainda não dispunha de arsenal nuclear, o que limitava a capacidade de manobra do dirigente soviético, com noção exacta das distâncias geográficas: uma bomba despejada sobre Berlim teria efeitos inevitáveis em Moscovo, a 1854 quilómetros de distância.

Perdida a batalha da propaganda, confirmada a resistência da população de Berlim e a intenção de Washington de prosseguir a ponte aérea – na qual também participou a Real Força Aérea britânica – Moscovo cedeu. A 11 de Maio de 1949, era anunciada a reabertura das ligações por estrada e via férrea entre Berlim e a Alemanha Ocidental, através de território controlado pelos comunistas, com efeitos logo após a meia-noite. Mas os voos de abastecimento prosseguiram até final de Setembro: havia que salvaguardar reservas suficientes na cidade para a hipótese de haver novo cerco.

Berlim estaria em foco noutros dramas – o maior dos quais ocorrido a 13 de Agosto de 1961, quando Moscovo ordenou que toda a parcela ocidental da cidade ficasse cercada por blocos de betão numa desesperada tentativa de drenar a contínua fuga de cidadãos do Leste para o Ocidente: erguia-se assim o tristemente célebre Muro. Símbolo máximo da Guerra Fria, emblema de um sistema político que entraria em derrocada definitiva em Novembro de 1989. Derrubado pela própria população de Leste, que nunca desistiu de perseguir a liberdade.

 


A ajuda que vinha do céu

 

Apesar da ponte aérea, a população de Berlim Ocidental passou por inúmeras privações entre Junho de 1948 e Maio de 1949. Faltava a energia para o abastecimento de fábricas e lares. Nesse Inverno vários habitantes mais idosos morreram devido ao frio. A iluminação pública esteve quase sempre racionada. E chegou a ser ordenado o corte de milhares de árvores para acender lareiras na cidade sitiada.

Nesses meses, muitas das crianças da cidade acorriam a toda a hora às vedações do velho aeroporto de Tempelhof e do novo aeroporto de Tegel (inaugurado em Dezembro de 1948), onde era constante o movimento das aeronaves ocidentais. Os miúdos dessa geração habituaram-se a brincar com aviões de papel, de lata ou de madeira – muitas vezes feitos por eles próprios. Cada qual, à sua maneira, simbolizava a resistência à escravidão.

Impossível esquecer

por Cristina Torrão, em 01.05.19

Ayrton Senna.jpg

O 1º de Maio foi também o dia da morte de Ayrton Senna, um dia, a partir do qual, a Fórmula 1 nunca mais foi a mesma para uma infinidade de pessoas (onde eu me incluo). Hoje, em que se completam 25 anos sobre a tragédia, deixo-vos com as palavras de Lídia Paralta Gomes, que, na altura, tinha apenas seis anos, um exemplo do impacto que a morte deste carismático piloto teve na vida de muita gente (para ler o texto completo, clicar no link):

Quando o braço da direção do Williams de Ayrton Senna se partiu em dois e o carro do brasileiro bateu desgovernado no muro de cimento da curva Tamburello - nome que nunca mais me saiu da cabeça e que desde então associo a coisas terríveis -, a minha vida ficou virada do avesso. É um exagero, eu sei, mas tentem explicar a uma criança que o seu primeiro ídolo desapareceu, ainda por cima a fazer aquilo em que era o melhor, e mesmo que naquela altura não fosse de caras o melhor, continuava a ser o mais carismático, o mais talentoso, o mais mágico, o mais malandro, aquele que nos fazia a cada quinze dias, a mim e à minha família, ligar a televisão ao fim de semana pela hora do almoço, os únicos almoços em que estávamos juntos, para vermos o Grande Prémio, isto quando a Fórmula 1 ainda era assunto de canal aberto.

Ou de como peguei numa revista que guardávamos como um tesouro, uma dessas revistas do coração, como dizem os espanhóis, (...) e a esquartejei, porque queria guardar só para mim as últimas fotos de Senna a sorrir e de como isso ia provocando uma guerra civil no país do nosso quarto, meu e da minha irmã, que é cinco anos mais velha que eu e por isso viveu o 1 de maio de 1994 e os dias seguintes com muito mais violência. Colámos o que foi possível colar com fita-cola, ao menos aquele pedaço de Senna dava para salvar.

 

Imagem: Mike Hewitt

Assombro e dor

por Pedro Correia, em 16.04.19

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A sensação é de enorme consternação, de profunda tristeza. Direi mais: é de luto. Hoje, como centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, sinto-me enlutado. Pela perda irreparável da catedral das catedrais. Notre-Dame, que sobreviveu incólume a incontáveis guerras, escapou à carnificina de dois conflitos mundiais e em 1944 se manteve imune à desvairada ordem de Hitler, que queria ver Paris a arder, acaba de ser praticamente reduzida a escombros. No início da Semana Santa, num dia em que o Presidente francês anunciara um discurso à nação. 

Ver as imagens das chamas a devorarem o edifício medieval, jóia absoluta da arquitectura gótica, marco da espiritualidade universal, símbolo supremo da cultura cristã que é também matriz europeia, dilacera todos quantos algum dia ali haviam entrado - e fomos muitos, pois Notre-Dame recebia cerca de 13 milhões de visitantes por ano, gente de todas as crenças e todas as latitudes.

O mundo em que vivemos é um mundo em contínua perda de referências, que padece de uma confrangedora falta de memória. O pavoroso incêndio que destruiu Notre-Dame acaba de nos cortar mais um emblemático vínculo às gerações precedentes. Tudo se torna cada vez mais precário e descartável. Assente num passado sem vestígios, o futuro já nasce mutilado.

Notre-Dame, cujos alicerces são contemporâneos da fundação de Portugal, demorou quase dois séculos a ser erguida. Para a destruir bastaram duas horas. E nós a assistirmos, num silêncio impotente e magoado, feito de assombro e dor.

Aristides de Sousa Mendes

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.01.19

"As we mark Holocaust Remembrance Day on Sunday, we should honor this man who engaged in what one historian called "perhaps the largest rescue action by a single individual during the Holocaust.", Richard Hurowitz, New York Times, 27 de Janeiro

Pese embora o esforço que alguém fez para obscurecer a sua indelével marca, é reconfortante saber que passados todos estes anos um dos mais conceituados e lidos jornais do mundo honra a sua memória, mantendo-a viva para os seus leitores.

Um exemplo que nunca será demais recordar, em especial porque ele não o fez a troco de dinheiro, de títulos ou da glória, ao contrário de algumas sumidades locais que gostam de mostrar a sua beneficência.

Feita de terra e alma

por Pedro Correia, em 19.11.18

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Honra, palavra antiga. Como outras, que nos parecem em acelerado desuso neste tempo de implacável voragem de valores. Palavra que - neto, sobrinho e primo de oficiais do Exército - sempre associei à instituição militar. 

Na adolescência, nos anos de brasa da revolução, habituei-me à presença quotidiana dos militares na nossa vida colectiva. Fizeram o 25 de Abril e nos dois anos seguintes andaram na crista da onda, com sucessivos protagonistas: António de Spínola, Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Otelo Saraiva de Carvalho, Pinheiro de Azevedo, Ramalho Eanes.

Alguns deles quiseram transformar Portugal numa "sociedade socialista" (com diversos padrões, do soviético ao líbio, passando pelo albanês), outros bateram-se por uma democracia plena, sem tentações totalitárias. Os dois modelos confrontaram-se num tenso dia 25 de Novembro, vai fazer 43 anos, com a vitória - felizmente para nós - dos moderados, que devolveram o poder às instituições civis, integrando o escol fundador da nossa democracia multipartidária e representativa. 

 

Entre esses militares, figurou o general José Loureiro dos Santos, falecido no sábado, aos 82 anos, e cujo funeral hoje se realiza. Transmontano de Sabrosa, teve um brilhante currículo, que de algum modo já se prenunciava ao ser distinguido em 1953 com o prémio nacional como melhor aluno do ensino secundário português. Diplomado na Academia Militar, foi sendo gradualmente promovido de alferes a general de quatro estrelas, entre 1957 e 1991. Cumpriu uma missão de serviço em Angola, como capitão, de 1962 a 1965. Foi comandante da Região Militar da Madeira, chefe do Estado Maior do Exército, vice-chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, ministro da Defesa Nacional (em dois governos), membro do Conselho da Revolução, director do Instituto de Altos Estudos Militares. Leccionou, como professor catedrático convidado, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

É ainda autor de vasta obra, dedicada sobretudo a temas relacionados com a estratégia militar e política num planeta cada vez mais globalizado. Nestes anos mais recentes, partiram dele algumas das observações mais sagazes e pertinentes sobre a marcha da História, nas suas frequentes aparições televisivas ou em artigos de jornal. Alertava, por exemplo, para a necessidade de definirmos a plataforma continental atlântica como um objectivo estratégico do qual devíamos «tomar posse efectiva», sem aguardamos autorização alheia.

Como justamente assinalou o Presidente da República, era «um pensador de Portugal e do mundo».

 

Ninguém o confundia com um teórico desligado da realidade, longe disso - daí o mérito acrescido das suas intervenções públicas. Muito valorizadas pelo facto de em dois momentos cruciais da nossa História recente, com a patente de major, ter estado no lado certo: a 25 de Abril de 1974, ao emergir como delegado da Junta de Salvação Nacional no arquipélago de Cabo Verde, onde era comandante militar, e a 25 de Novembro de 1975, quando integrou o núcleo operacional que conteve o golpe extremista e abriu caminho à democracia liberal em que vivemos desde 1976. Honrando, nas duas ocasiões, a farda que envergava.

Habituei-me a ouvi-lo com atenção, apreciando-lhe a integridade intelectual e a lucidez das suas análises. Lamento muito que esta geração de militares que tanto admirei esteja a desaparecer. Tudo tiveram e de quase tudo se desprenderam, com inegável patriotismo - outra palavra hoje fora de moda.

Palavra «feita de terra e alma», na lapidar definição poética de Miguel Torga, conterrâneo do oficial-general de quem agora nos despedimos.

In memoriam.

por Luís Menezes Leitão, em 01.11.18

 

Hoje é um dia em que recordo sempre a maior tragédia que alguma vez atingiu Portugal. Não apenas matou 60.000 pessoas num único dia, como também destruiu completamente o que era então a cidade de Lisboa, não nos deixando quase nenhum edifício para recordar os tempos passados.


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