Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

O legado de Sócrates

Pedro Correia, 07.04.21

Faz agora dez anos, o primeiro-ministro José Sócrates, pressionado pelo ministro das Finanças e vergado pela força das circunstâncias, anunciava ao País um pedido urgente de intervenção estrangeira para salvar in extremis as contas públicas em derrapagem alucinada.

Quarenta e oito horas antes, havia jurado aos portugueses, pela enésima vez, que não solicitaria ajuda das instituições financeiras internacionais. Cedeu no dia seguinte, perante um ultimato em uníssono dos banqueiros, protagonizando um dos rumos mais erráticos na política nacional dos últimos 45 anos. Quando a nossa credibilidade externa valia zero.

Seis anos depois de chegar ao Governo, e prestes a cessar funções, legava aos compatriotas um cenário arrasador: a mais alta carga fiscal de sempre, a maior dívida pública, o mais elevado défice externo, a maior taxa de desemprego, o estado social à beira do colapso. Fizera da mentira um instrumento político permanente, deixando o país em dupla bancarrota: financeira e moral. 

Feridas que levaram anos a sarar. Mas nem todas: algumas permanecem entre nós. E podem reavivar-se enquanto os seus herdeiros espirituais andarem por aí. 

Para memória futura, continuação

Paulo Sousa, 15.03.21

Jovem do futuro,

Já te falei sobre termos sido durante umas semanas o pior sítio do mundo. Em cada dois minutos um português morria com covid. Esta tragédia fez do nosso país notícia em todo o mundo. Ao contrário do que ocorreu nas primeiras semanas da pandemia, desta vez a solidariedade europeia manifestou-se.

A força aérea alemã, a Luftwaffe que no passado espalhou o terror, desta vez enviou para Portugal médicos, enfermeiros e ventiladores. Traziam também uma mensagem do governo alemão: “É para isto que servem os amigos”. Os nossos governantes, que estavam preocupados apenas com os seus jogos de poder imediatistas, não conseguiram esconder o embaraço. A chegada de ajuda internacional era a confirmação do que já sabíamos, de que estávamos em mãos incapazes e arrogantes. Responderam que aceitavam a ajuda e que era apenas simbólica, e sem entendermos porquê não os deixaram entrar nos hospitais públicos. Quem sofria ao ver tantos de nós a tombar, sentiu vergonha pela soberba dos indigentes e aprendeu em silêncio a dizer Vielen Danke Deutschland.

Os nossos governantes que estavam apenas serodiamente preparados para passear o rótulo das tutelas que lhes distribuíram, e que nunca pensaram que alguma vez teriam de tomar decisões, andaram perdidos. Também já te falei disso. Desataram a levantar proibições e tomaram-lhe o gosto. Entusiasmaram-se com o super-poder que o vírus lhes trouxe e, sem explicação nem propósito, proibiram a venda de livros. As bibliotecas e as livrarias foram forçadas a fechar as portas.

Quem estava infectado perdeu o olfacto mas mesmo quem não estava deixou de poder sentir o aroma dos livros das livrarias. Eu gosto de cheirar os livros, e quem gosta de livros sabe bem do que estou a falar.

Desde há uns anos os livros começaram a ser vendidos entre as batatas e as garrafas de vinho nos hipermercados. Alguns eruditos ficaram incomodados com esta banalização, mas eu fiquei encantado por achar que era ali, entre os bens de primeira necessidade que eles deviam estar. Nunca antes os livros tinham estado tão perto de tanta gente.

Com estas interdições, levantadas por aparente espasmo muscular, o acesso aos livros foi vedado por uma fita plástica colorida. Quando, nos hipermercados entre as frutas e as bolachas, vimos fitas plásticas a interditar os livros, entendemos que estávamos perante a cena de um crime. Não de um crime em investigação, mas de um crime em curso. E foi assim, de olhos embaciados, de ombros descaídos, com os braços pendurados e sem saber onde pôr as mãos, que ficamos à volta das fitas plásticas que impediam o acesso aos livros. Ficamos só a olhar para eles. Sem sequer os poder cheirar.

Para assinalar as diarreias mentais dos nossos governantes, alguns supermercados retiraram os livros das prateleiras e preencheram-nas com rolos de papel higiénico.

O confinamento forçado, além de impedir a venda de livros, impediu a circulação de pessoas para fora do respectivo concelho de residência. Os cafés e os restaurantes foram também proibidos de nos alegrar os dias. Alguns barbeiros e gabinetes de estética passaram a trabalhar na clandestinidade. Em nome da saúde pública ficaram privados dos seus rendimentos. Este foi um sacrifício pelo qual nem os profissionais de saúde tiveram de passar.

O clamor de fundo ainda é pouco mais que inaudível, mas sem poder trabalhar, alguns lembrarão um adágio dos tempos difíceis do Estado Novo, em que Salazar terá dito que tinha livrado o país da guerra, mas não o livraria da fome. Os socialistas no poder não evitaram que nesta pandemia estivéssemos entre os piores e, não fosse a União Europeia, não nos livrariam da fome. Para muitos, nem os milhões despejados pela União Europeia impediram a privação alimentar.

Noutros países o estado apoiou as actividades que mais sofreram com o confinamento, como forma de os compensar do esforço feito pela segurança de todos. Cá não existe dinheiro para isso. Preferiu-se apostar tudo na salvação da TAP que está parada há meses. Se for cumprido o actual plano, o estado gastará com a TAP mais do dobro do que a NASA gastou para colocar um robô em Marte, mas como com eles as contas derrapam sempre, daqui a uns anos veremos a que planeta teríamos conseguido chegar com dinheiro ali consumido. Todos os regimes têm o seu Convento de Mafra.

Ao mesmo tempo, começaram a chegar as vacinas. O ritmo a que chegavam era muito inferior às nossas expectativas e necessidades. Os mais vulneráveis, os velhos e os doentes, foram os primeiros a serem vacinados. Mas desde o início que as filas começaram a ser furadas por penetras armados em chico-espertos. No teu tempo ainda se usa a expressão chico-esperto? Mesmo que já não se use, de certeza que se me estiveres a ler em Portugal, existe um perto de ti. O chico-esperto é egoísta, despreza o colectivo e, dê por onde der, acaba sempre por arranjar uma maneira de passar à frente dos outros e de se safar. Quando exposto e desmascarado arranja uma interpretação criativa das regras e, se tal for necessário, será suficientemente criativa para conseguir exactamente o contrário daquilo que se pretendia quando estas foram estabelecidas. O chico-esperto é um perito em sobrevivência. Mesmo que tenha de enganar e sacrificar uma aldeia ou um bairro cheio de gente decente, ou até uma geração inteira, ele irá safar-se. É uma habilidade socialmente perversa.

Portugal comporta-se na UE como um chico-esperto, mas no nosso caso também se pode designar por toino-habilidoso. Somos governados por um toino-habilidoso que é uma versão pós-moderna de um chico-esperto. Assim, alguns chico-espertos, protegidos pelo toino-habilidoso, furaram as filas dos prioritários e receberam a tão esperada picadela nos seus espertos e habilidosos tríceps, muito antes da vez que lhes competia.

Quando esses abusos começaram a ser conhecidos, justificaram-se chico-espertamente dizendo que como o frasco da vacina continha cinco doses, havia por vezes sobras e para não serem desperdiçadas acabaram por as desviar para si, ou para os seus amigos, ou até para os donos das pastelarias que frequentavam. E assim, com a maior desfaçatez, tentaram convencer o país que as vacinas, que sabíamos serem tão raras, afinal sobravam abundantemente todos os dias.

Com o passar das semanas, e como resultado natural do confinamento, os números da pandemia lá foram baixando. O ritmo de novas infecções foi seguido, com algumas semanas de atraso, pelos números dos internamentos e dos óbitos. Quando as novas infecções sobem, já sabemos que poucos dias mais tarde os hospitais entrarão em ruptura e, ainda antes dos hospitais começarem a vagar, conseguimos saber que o ritmo de infecções já baixou.

As escolas vão reabrir, pouco a pouco, começando pelos mais novos. Vamos ver se o natural aumento de casos, que se seguirá, será comportável pela capacidade hospitalar.

Depois de um inverno muito rigoroso e inesquecivelmente difícil, todos ansiamos que o renascimento que a Primavera traz à natureza seja alargado à situação que estamos a atravessar.

Já entendemos que isto é uma corrida de fundo, que cada dia é como mais um passo dado, e por isso estamos cada vez mais perto do fim de tudo isto. Não sabemos é quanto tempo ainda falta, nem em que estado é que lá chegaremos, nem como ficará o mundo depois deste tormento.

Tristes Olhos Castanhos

Maria Dulce Fernandes, 07.02.21

mw-1920.jpeg.jpg

 

Foi há cerca de 56 anos que o cantor romântico dos "Olhos Castanhos" , numa actuação em directo no programa TV Clube, resolve  "informar" o país da absurda discriminação e grande disparidade de cachets perpetrada pela RTP, entre artistas nacionais e estrangeiros. Tão abrupta e surpreendente foi a intervenção, que ninguém sabia o que fazer e a emissão continuou no ar durante algum tempo.

Claro está que o ano era 1964 e a censura, apanhada de surpresa nada pôde fazer senão mandar parar a emissão em directo, mas nessa altura o "mal" já estava feito.

O caso "Chico Zé" teve  repercussões populares à boca pequena a nível nacional e, como seria de esperar, a sua carreira em Portugal acabou ali.

Teve um revivalismo anos mais tarde após a Revolução de Abril, mas nunca voltou a atingir a popularidade de que gozava antes de 1964.

Para ler

https://expresso.pt/cultura/2021-02-06-O-dia-em-que-o-cantor-Francisco-Jose-desafiou-a-RTP-em-direto

https://museu.rtp.pt/livro/50Anos/Livro/DecadaDe60/RTPAos10Anos/Pag30/default.htm

 

Foto Google/Expresso

Para memória futura, continuação

Paulo Sousa, 28.01.21

Jovem do futuro,

Olá de novo, quero continuar a contar-te o que tem acontecido nestes dias da pandemia. Estamos agora no final de Janeiro de 2021.

Voltei a ler o que te escrevi em Setembro do ano passado e já sinto saudades daquele fim de Verão em que, mesmo indo de máscara para todo o lado, conseguimos ter alguma normalidade. Nessa altura ainda havia sol para ir à praia e chegamos a ir a restaurantes.

Quem teve dinheiro e tempo para isso, no Verão gozou férias. Muita gente, com receio de voltar a andar de avião, redescobriu Portugal. O turismo interno animou-se com turistas nacionais. Foi como um acto de introspecção dos portugueses, que redescobriram as suas próprias paisagens. Quando regressaram a casa, entenderam melhor o encanto que os estrangeiros sentem pelo nosso país. Sem este vírus aberrante isso não teria acontecido. E tão bonito que é o nosso território. Se fosse habitado por outro povo, não seria igual. Se somos parte do chão que pisamos, este chão também é o que é por causa daquilo que somos.

Houve dias de sol com brisas agradáveis. Quase que nem nos rimos quando os nossos governantes se vangloriaram pelo milagre e pela sorte de sermos governados por gente experiente. Graças a eles, disseram, e com o nosso apego à ordem, tudo tinha sido menos gravoso que noutras paragens.

Enquanto se bajulavam, inchados sob os holofotes, os virologistas alertavam que o pior estava ainda para vir. Enquanto noutros países se delineavam planos para o inverno, cá afirmava-se, insistia-se e repetia-se o desprezo oficial pelas estruturas privadas de saúde.

Depois das celebrações religiosas e festas populares terem sido proibidas, a festa dos comunistas na Atalaia reuniu várias dezenas de milhares de pessoas. Para lá chegarem os participantes atravessaram ruas e avenidas onde todo o comércio estava impedido de abrir a porta, para que a pandemia fosse travada. Os comunistas podiam ter aproveitado o ascendente de que gozavam sobre o governo para melhorar a vida dos portugueses, mas gastaram todo o capital político nesta exibição arrogante de poder.

O governo engoliu esta insolência com a tolerância de quem está na posição mais fraca. Este episódio mostrou para quem quis ver, como o destino do nosso país depende nestes dias dos caprichos dos marxistas.

Da última vez que os socialistas saíram do poder precisamos de uma troika, mas da próxima, precisaremos de uma perestroika.

A escola arrancou como sempre no final do Verão. A apreensão era geral. Ao contrário dos seus alunos, muitos professores pertenciam ao chamado grupo de risco. Como é que iriam coexistir estes dois grupos com tamanhas diferenças perante a ameaça? O primeiro período correu exemplarmente. Durante algum tempo tentaram recuperar as falhas do ano anterior, quase todo leccionado à distância, e seguiram em frente.

Os professores só faltaram quando, na dúvida, lhes era recomendado o isolamento profiláctico ou quando testaram positivo. Logo após cumprida a quarentena obrigatória, regressaram às salas de aula, mostrando-se assim, e mais uma vez, à altura das responsabilidades.

Os alunos também se adaptaram. Andaram sempre de máscara que só tiravam durante as refeições. Nos intervalos juntaram-se nos habituais grupos de amizades que raramente coincidem com a disposição da sala de aula. Entre eles falaram, com a voz abafada pela máscara, do que é normal que falem, do mundo que descobriam e trocaram perguntas sobre a vida, recorrendo às formas de expressão normais para a sua idade.

Quando as temperaturas começaram a descer, o número de infectados começou a subir, e número de mortos não demorou também a aumentar. A segunda vaga chegou acompanhada com várias semanas de chuva, seguida de frio e gelo. E novamente de mais chuva. Os pobres sofrem sempre mais no tempo frio e este está a ser um inverno particularmente forte, especialmente forte para com os mais fracos.

Pelo menos, depois de alguns meses de folga nas infecções, já não seríamos apanhados de surpresa. Houve quem acreditasse nisso.

Ainda a maré estava a começar a subir e já os nossos governantes começaram a falar em salvar o Natal, criando de imediato a ideia que nessa altura iria haver uma maior tolerância nas deslocações e nos ajuntamentos familiares. Fizeram isso ignorando as recomendações científicas, pois talvez tenham acreditado que o vírus também parava durante as nossas festividades.

Claro que foi agradável ouvir isso. Pelo menos teríamos um Natal em condições junto dos nossos idosos que viviam isolados há tantos meses. Quem é que se podia opor a notícias tão boas?

Ao mesmo tempo começaram a ser administradas as primeiras vacinas. Só de nos imaginar a todos vacinados … até nos permitimos a inspirar um profundo folgo de esperança.

O Pai Natal este ano iria trazer as vacinas. No Natal celebrou-se o que sempre se celebra, uma nova vida, um novo alento. Umas mais do que outras, as mesas encheram-se, e à volta delas celebrou-se e brindou-se. Como foi bom poder fazer uma trégua a meio da batalha.

Enquanto isso, nos países europeus que deram ouvidos à ciência, o confinamento foi mais apertado do que nunca e as festividades foram proibidas.

Ainda havia umas fatias de bolo-rei por comer e logo começou a haver notícias sobre as mutações do vírus. Registou-se uma nova estirpe no Reino Unido, pouco depois surgiu uma mutação brasileira e também uma sul-africana. Quantas mais iriam ainda aparecer? Será que o vírus se iria tornar mais ou menos agressivo? E será que as vacinas, ainda antes de serem distribuídas, já estariam obsoletas?

Enquanto tentávamos entender o que se estava a passar, os números dos infectados dispararam. De 1.500 infecções diárias, chegamos às 15.000, em menos de um mês. Como cerca de um por cento dos infectados necessitam de assistência hospitalar, todos os dias chegam mais de 150 doentes em risco de vida aos hospitais. Em poucos dias as ambulâncias começaram a esperar cada vez mais tempo nas filas para conseguirem entregar os doentes nas urgências. Por vezes, cada vez com maior frequência, começaram a seguir dessas filas para a morgue. O número de óbitos disparou. Neste momento morrem com Covid mais de 10 portugueses por hora e já foram registados mais mortos pelo vírus, do que na Grande Guerra e na Guerra do Ultramar juntos.

Alguns hospitais tiveram de adquirir câmaras frigoríficas para conseguir gerir a tenebrosa logística de tantos cadáveres. As estruturas privadas de saúde afinal revelaram-se necessárias, mas o apego à ideologia e a recusa, até à última, em recorrer a elas, custou a vida a demasiados portugueses. Já te falei da força que os marxistas hoje ainda têm, não foi?

As estatísticas internacionais desta pandemia dizem-nos que Portugal é nestes dias o pior sítio do mundo.

Quem morre infectado é despachado, sem vestes dentro de um saco de plástico. Os cangalheiros, em vez do habitual fato preto, envergam agora fatos brancos de protecção biológica, com máscara, óculos especiais e botas de borracha. As cerimónias fúnebres estão limitados a um número muito restrito de pessoas, definido por cada autarquia.

O que seria de nós sem os cangalheiros? O que será de nós se os coveiros sucumbirem?

Quem sofre ataques cardíacos, acidentes ou outras complicações graves de saúde, tem medo de ir para o hospital e demasiada gente, que em tempos normais teria sido salva, acabou por falecer em casa. Para os condutores e assistentes das ambulâncias de emergência médica, tornou-se normal transportarem apenas cadáveres. Ninguém ficará surpreendido com futuras sequelas de choque pós-traumático entre os profissionais de saúde.

Foi neste ambiente que se realizaram as eleições. O governo lembra-nos diariamente do nosso dever de ficar em casa para evitar mais contágios, para no minuto seguinte nos lembrar que votar é um dever cívico. Desde que a pandemia foi declarada, mais de 75 actos eleitorais foram adiados pelo mundo fora, mas cá as decisões importantes demoram a ser tomadas, e se forem mesmo muito importantes, o mais provável é que não sejam tomadas de todo.

Um dos candidatos que se apresentou a votos, irrita bastante os nossos governantes, assim como as pessoas normais. Diz palermices e é agressivo. Mesmo assim, não pelo que diz, mas apesar do que diz, e apenas porque irrita a situação, acabou por ter bastantes votos. Quem votou nele ficou satisfeito por ver como o seu voto conseguiu irritar os nossos governantes.

O vencedor é o mais completo retrato do nosso regime, e por isso faz sentido ter ganho. É filho da nomenclatura do regime anterior, mas desde os primeiros instantes do que temos, esteve envolvido em tudo o que nos levou ao ponto em que estamos.

Mesmo após 20 anos de estagnação económica, os políticos no poder continuam a pensar que criam riqueza por decreto, e que se assim o entenderem, à força da lei farão os leões voarem e as zebras rugirem. Eu quando os escuto com atenção só oiço zurrar.

Demasiada gente pensa que ao fazer por ignorar as mudanças as consegue evitar, mas esse é um erro antigo da humanidade, para o qual não existe bom senso que impeça que se repita.

Lá fora o tempo continua de chuva. Os últimos dias foram de um burranho que, juntamente com as notícias, nos encharcaram a alma e os olhos. A chuva não se distingue do nevoeiro, tal e qual como aquela que terá caído nos Invernos das pestes medievais.

É um luto permanente.

Quando numa saída para comprar víveres, pela voz, fisionomia ou pelos movimentos, reconhecemos um amigo, sorrimos por detrás de duas máscaras sobrepostas, chocamos com as nozes dos punhos resguardados dentro de luvas de protecção e dizemos, como quem quer garantir: Enquanto não piorar, aguentamos!

Os negacionistas bolsonarescos

Pedro Correia, 28.01.21

mw-320.jpg

 

Faz amanhã um ano: foi a primeira menção ao novo vírus que vinha da China registada no meu diário.

Revisito hoje essas linhas que escrevi em 29 de Janeiro de 2020: 

«Epidemia de gripe, já conhecida como coronavírus, começou na China, onde já provocou dezenas de mortos, e vai alastrando para outro países.

A palavra CORONAVÍRUS, desconhecida até agora, incorpora-se no vocabulário comum.»

 

Tão simples como isto. Cinco linhas escritas num caderno sem imaginar como estava a começar o maior pesadelo da nossa vida colectiva. 

Esse era um tempo em que ainda imperava em Portugal o negacionismo oficial, em que sucessivos responsáveis emitiam declarações boçais negando as evidências, em que abundava por cá o bolsonaresco «é só uma gripezinha». E havia até quem vislumbrasse na desgraça dos chineses uma despudorada oportunidade de negócio para os exportadores nacionais.

 

Foi um tempo em que Graça Freitas - então, como agora, responsável máxima da Direcção-Geral da Saúde - declarava: «A natureza é assim, aparecem novos vírus. (...) Não há grande probabilidade de chegar a Portugal: mesmo na China o surto foi contido.» Enquanto tranquilizava os compatriotas quanto à «fraquíssima possibilidade» de transmissão do vírus de pessoa para pessoa. «Neste momento não há nenhum motivo para alarme nem sequer para alerta», assegurava a directora-geral a 15 de Janeiro.

Foi um tempo em que Maria do Céu Albuquerque - então, como agora, ministra da Agricultura - apareceu com ar jubiloso perante os jornalistas dizendo acreditar que as exportações portuguesas poderiam beneficiar muito com a crise registada na China, numa altura em que o vírus já ali havia provocado pelo menos 500 mortos. O coronavírus «pode ter consequências bastante positivas» para o nosso sector agro-alimentar, declarou a ministra a 5 de Fevereiro.

Foi um tempo em que Jorge Torgal - então, como agora, porta-voz do Conselho Nacional de Saúde Pública e nessa qualidade um dos principais conselheiros da ministra que tutela o sector - declarava sem rodeios que o novo coronavírus era «menos perigoso do que o vírus da gripe». Palavras proferidas numa entrevista ao Jornal de Notícias a 28 de Fevereiro. Quando já havia 2800 mortos e 82 mil pessoas infectadas em mais de 40 países.

Era um tempo em que João Matos Fernandes - então, como agora, ministro do Ambiente - dedicava uma das habituais acções de propaganda do Governo a apregoar as virtudes higiénicas de um produto no metro de Lisboa com a graça e o garbo de um charlatão de feira. «Existe um produto muito eficaz, um produto que mata todos os micro-organismos e, portanto, bactérias e vírus, e que consegue durante um mês essa mesma segurança. Há uma película que é formada em torno das superfícies onde ele for aplicado», declarou o governante a 15 de Março, perante um batalhão de cordatos jornalistas.

Era um tempo em que António Costa - então, como agora, primeiro-ministro - nos tranquilizava garantindo solenemente que «até agora não faltou nada no SNS e não é previsível que venha a faltar nada». Palavras com data de 23 de Março, portanto muito antes da situação actual, em que o Governo já admite enviar doentes portugueses para hospitais estrangeiros.

 

Estas declarações - nuns casos vergonhosas, noutros simplesmente caricatas - foram pouco depois varridas para debaixo do tapete. Como se nunca tivessem existido. Mas existiram - e influenciaram muitos de nós nessas semanas iniciais. Todas procurando desvalorizar a tempestade que aí vinha. Por irresponsabilidade, ignorância ou estupidez.

Sá Carneiro quarenta anos depois

Pedro Correia, 04.12.20

7649049_Gs3mV.jpeg

 

Francisco Sá Carneiro desempenhou um papel histórico no actual regime: reconciliou a direita portuguesa com a democracia. Esta foi uma missão para a qual estava vocacionado, por uma espécie de sentido messiânico, e em que viria a ser bem sucedido nos dois últimos anos da sua vida, desenrolados de forma vertiginosa, numa desesperada corrida contra o tempo. O facto de ter rompido com o regime anterior ao 25 de Abril após uma fracassada tentativa de levá-lo por rumos reformistas, como viria a suceder em Espanha, conferia-lhe uma legitimidade que poucos tinham na sua área política, dados os compromissos estabelecidos com a ditadura.

O combate decisivo para a implantação da democracia no alucinado Verão quente de 1975, contra a esquerda revolucionária, fora liderado por Mário Soares, com quem Sá Carneiro sempre estabeleceu uma rivalidade que nunca viria a ser superada, apesar da cordialidade pública que exibiam. Desafiado nesta espécie de confronto íntimo com Soares, o fundador do PPD/PSD sentiu ainda mais pressa em entrar na História, o que viria a suceder. Tinha qualidades para o efeito, bem reveladas na sua singular trajectória de uma década no palco da política: visão estratégica, uma inegável capacidade de comunicação e aquele atributo tão indispensável quanto indefinível que à falta de melhor certos politólogos costumam chamar carisma.

Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, com uma sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. Teve razão desde o início ao defender a autonomia regional, o afastamento da tutela militar e o fim do virtual monopólio da economia pública no Portugal pós-25 de Abril. E superou o teste da governação, após duas maiorias conquistadas nas urnas, embora ninguém saiba até que ponto poderia vir a ser vítima dos próprios impulsos se o destino não o tivesse colocado na fatal rota de Camarate, faz agora precisamente 40 anos.

Não teve razão, com alguma frequência, quando deixava a emoção sobrepor-se à implacável lógica cartesiana. Foi, nomeadamente, o que sucedeu no seu desenfreado combate contra o Presidente Ramalho Eanes que lhe consumiu as energias nos últimos meses de vida. A derrota nas presidenciais de 1980, a que já não assistiu, confirmava que tinham razão aqueles que em vão procuraram dissuadi-lo de transformar o popular Chefe do Estado em adversário principal.

 

Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.

Graças a ele, a democracia portuguesa não ficou amputada.  

Ficámos todos a dever-lhe isso.

Salvar a memória

Paulo Sousa, 02.10.20

Em Novembro de 2018, por ocasião do centenário do fim da Grande Guerra, o Município de Porto de Mós editou um livro de homenagem aos 214 portomosenses identificados até essa data como tendo estado nela envolvidos como combatentes. O lançamento do livro coincidiu com a inauguração de um memorial junto aos Paços do Concelho.

Scanner_20201002 (1).png

No prefácio, pela pena do actual Presidente da Câmara Jorge Vala, o concelho descreve-se como “Um município de paz, que não esquece os que lutaram por ela”.

Cada um destes combatentes mereceu uma página inteira deste livro onde consta toda a informação que foi possível reunir. A recolha de dados foi extensa. No arquivo militar existe bastante informação, como o nome, data de nascimento, filiação, data de incorporação e de regresso, teatro de operações, ramo das Forças Armadas, posto, eventuais baixas hospitalares, condecorações entre outros detalhes. A estes dados acrescentaram-se algumas fotos cedidas pelos descendentes, postais enviados à família, alguns com fotos de corpo inteiro e escritos com caneta de aparo.

Sem Título1.png

No verso desta foto está escrito: “Mando esta fotografia junto a este grupo de moços vizinhos e meus amigos para as nossas famílias ver a nossas caras retratadas neste cartão.”

Pegando no livro encontram-se pequenos relatos como o de um louvor a alguém que durante um raid inimigo terá comandado um pelotão e, pela coragem e sangue frio terá incutido valentia aos subordinados suficiente para que o inimigo fosse repelido. Noutra página conta-se uma história de um combate marítimo que se fosse passada noutras latitudes daria um filme. Há também o registo de pelo menos uma deserção.

A maioria dos homenageados não têm fotografia, e de alguns conseguiu-se apenas a foto da respectiva lápide no cemitério militar em França. De outros conseguiu-se a cópia do assento do campo onde foram feitos prisioneiros.

De uma forma bastante ligeira tive oportunidade de colaborar na identificação dos descendentes de alguns destes soldados. Passou-me pela mão uma caderneta militar de um conterrâneo meu com o registo de dois castigos aplicados por ter sido apanhado a jogar às cartas.

Os números mecanográficos dos arquivos militares quase que esvaziam a humanidade de cada um destes nossos compatriotas. São 214 universos de vivências, de expectativas, de sujeição, de sacrifício e de vontade de sobreviver, de quem, tal como nós, não escolheu o país ou a época que lhes foi dada a viver. O entendimento que hoje temos da história é diferente do de há algumas décadas atrás, mas é uma tremenda perda que não se tenham registado relatos contados na primeira pessoa feitos por estes portugueses que, quase anonimamente, vestiram as ásperas fardas que lhes foram entregues e que reduziu cada um deles a um número.

É fácil de concluir que a falta de memória que caracteriza o nosso país é já um mal antigo. Recordo-me que na apresentação do livro, José Conteiro, o obreiro maior da recolha de dados na qual assentou a edição deste livro, acertadamente citou o Padre António Vieira: “Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

Mas se já não é possível entrevistar estes combatentes, ainda é possível fazê-lo aos soldados que serviram na Guerra do Ultramar, e que foram muitos mais. Já existem alguns documentários mas é urgente registar os relatos dos combatentes ainda vivos do último grande conflito armado em que o nosso país esteve envolvido.

É comum que cada regime faça por esquecer o anterior, mas se nada for feito, a cada dia que passa, serão cada vez menos os que podem relatar o que foi para eles estar envolvido nesse enorme esforço feito pelo país e pelos seus cidadãos, sem juízos de valor sobre a justeza da guerra à luz dos dias de hoje. Qualquer telefone ou computador pode gravar uma conversa, mais ou menos formal, com ou sem guião, a cada um destes seres humanos que voluntariamente ou contra a sua vontade por lá andaram. O que viram, o que comiam, onde dormiam, o que lhes foi dado a fazer, o que se lembram das paisagens, das pessoas, da natureza, das deslocações, o que aprenderam?

Segundo o Talamude, quem salva uma vida, salva o mundo inteiro. Na mesma linha atrevo-me a acrescentar que quem salvar as memórias de uma vida, salva a memória do mundo inteiro.

Quem puder que o faça.

We'll meet again

Pedro Correia, 05.04.20

 

«We will succeed - and that success will belong to every one of us.»

«Better days will return. We will be with our friends again. We will be with our families again. We will meet again.»

 

Da mensagem dirigida esta noite aos britânicos pela Rainha Isabel II, que em 1940 sofreu com a família os bombardeamentos nazis em Londres - e não fugiu.

Agitação no pântano

Pedro Correia, 18.02.20

18527938_1396130360425214_5540666111292879757_n[1]

Estádio Nacional, 18 de Maio de 1996

 

Moussa Marega, com um gesto veemente, fez agitar o pântano. Atingiu o limite da paciência, encheu o saco e disse "basta". As imagens que o mostram a abandonar o Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, estão a dar justamente a volta ao mundo. Num grito de revolta contra o racismo. E contra a violência no futebol, que começa por ser violência verbal antes de resvalar para a violência física.

Que sirva de exemplo para muitos outros - tenham a cor de pele que tiverem. Inclusive para aqueles que, em certos estádios e em certos pavilhões, imitam o som do very light que matou um adepto de futebol numa bancada do Estádio Nacional, com o filho menor - então com nove anos - a presenciar tão macabra cena, em plena final da Taça de Portugal.

Jamais esqueceremos a data: 18 de Maio de 1996. Chamava-se Rui Mendes, esse malogrado adepto de futebol. Que era também adepto do Sporting.

 

Vergonhosamente, a tal final continuou a disputar-se como se nada fosse, sem que o jogo fosse interrompido.

Vergonhosamente, o som desse very light continua a ser replicado por irmãos de emblema do assassino. O que é outra forma de continuar a matar Rui Mendes, quase um quarto de século depois.

Sem que ninguém rasgue as vestes. Sem que nenhuma alma sensível solte um brado de indignação.

 

Publicado também aqui.

Aquilo de que te vais lembrar.

Catarina Duarte, 04.01.20

Aquilo de que te vais lembrar, dos teus 14 anos, vai estar rodeado de névoa.

 

Vais recordar-te, vagamente, do teu melhor amigo. E, vagamente também, te recordarás do nome dele. Mas não terás a certeza.

 

Vais lembrar-te da tua escola, das suas secretárias e das suas cadeiras. Tens a vaga ideia de serem desconfortáveis e de serem castanhas, da cor da madeira. Mas também podiam ser pretas. Ou, algumas delas, castanhas; outras, pretas.

 

Vais também recordar-te da cor do vestido que usaste no casamento do teu primo. E vais referir que ficou um espanto com aquela pochete emprestada pela tua mãe. Terá sido um conjunto em tons de azul, aquele que fez furor e suscitou comentários, quase todos elogiosos.

 

Mas, no dia em que o voltares a ver, bem acondicionado num plástico direitinho da lavandaria, vais pensar: “que estranho, não tinha a ideia do azul ser tão aberto."

 

Vai haver também um dia em que vais recordar-te da amizade do teu melhor amigo, aquele que, aos 14 anos, te ajudou a compreender melhor os teus pais e vais - juro - agarrar-te sempre ao amor que sentiste no casamento do teu primo, aquele onde usaste o vestido azul de tom mais aberto, e de como dançaram até ao amanhecer, de como se abraçaram, de como se beijaram e de como, em cima das mesas, foram brindando ao amor, ao amor e ao amor.

 

Podes não ter a certeza da cor das cadeiras da tua escola, nem, tão-pouco, se eram confortáveis mas, para sempre te vais lembrar, do professor que, no final de uma aula de fim de período, te chamou à parte, para te dizer que devias escrever mais pois, se o fizesses, muita coisa boa iria acontecer.

 

Há poucas coisas que têm a importância devida para serem recordadas, ano após ano. E a nossa memória, nesse sentido, dá-nos uma grande ajuda, peneirando as que interessam abraçar e connosco morrer.

Um Bom Ano para todos. Cheio de recordações fáceis do tempo fazer permanecer. São sempre as que verdadeiramente importam.

O vendedor de ilusões

Pedro Correia, 12.12.19

34916_46418_93396-860x507-1507817522[1].jpg

 

Faz hoje dez anos, o primeiro-ministro José Sócrates montou um dos monumentais balões de propaganda a que foi habituando os portugueses. Naquele estilo inconfundível de quem parecia acreditar nas próprias patranhas que lhe saíam pela boca, anunciou ao País o vencedor do primeiro projecto de alta velocidade ferroviária em Portugal, correspondendo ao troço Caia-Poceirão: um consórcio entre a Brisa e a Soares da Costa.

Nessa sessão de ilusionismo, semelhante a tantas que marcaram aquela época, o Governo exibia o seu calendário sem margem para dúvidas: a construção do referido troço seria «iniciada em 2010, devendo entrar ao serviço em 2013».

 

Havia crise? Pormenor irrelevante para o expedito Sócrates, sempre disposto a falar pelos cotovelos: «Este é justamente o momento para que o projecto da alta velocidade passe do papel para o terreno. A crise é mais uma razão para o fazermos. É neste momento que o país precisa de investimento, de oportunidades de emprego. Há muita gente à procura de emprego e muitas empresas à espera desta oportunidade.»

Puro cenário virtual, sem a menor correspondência com a realidade. Mas Sócrates nunca deixava que o factos estragassem uma boa história. 

 

A coisa implicaria um investimento de 1.500 milhões de euros. Dinheiro que não havia, exigindo um empréstimo que ninguém nos creditava, numa altura em que o défice externo se agigantava a um ritmo imparável. Os mais atentos aos sinais do tempo podiam ouvir um tique-taque: a contagem decrescente para a perda de soberania financeira do País já começara.

Nem o troço se construiu nem a alta velocidade saiu do papel: recordar tudo isto, à distância de uma década, chega a ser confrangedor. Como é que este pífio vendedor de ilusões conseguiu enganar tanta gente durante tantos anos?

Sónia Ribeiro, 37 anos

Leonor Barros, 26.11.19

Não havia se não leveza naqueles dias a sul. O calor, o abandono dos corpos, o arremessar das tarefas quotidianas, o fardo das obrigações que via Guadiana abaixo, e o meu pai que imaginava naquele mesmo lugar e a quem sempre homenageei na intimidade de mim. Depois saíamos para jantar e sentávamo-nos na esplanada do restaurante a servir de pasto para as melgas, e paradoxalmente felizes e gratos por tudo. A mulher servia-nos quase sempre. Era alta, de cabelo negro comprido sempre amarrado num rabo-de-cavalo longo que abanava quando ela se deslocava entre as mesas e que obedecendo à gravidade se estendia como um pêndulo no corpo esguio e magro. Tinha olhos negros aos quais não era fácil arrancar um sorriso, tinha uma irmã com filhos e tratava as crianças da casa com intimidade. Não havia suavidade no seu trato. Havia rispidez e eficiência, rapidez e pouco tempo para conversa mole. A mulher trouxe-me muitas vezes a felicidade nas fritadas de peixe, só por isso poderia subir ao meu Olimpo, nas sardinhas alimadas ou albardadas, nos bifes de atum com pores-do-sol rubros e o casario incendiado da luz que se crepuscula na Espanha na outra margem. A mulher forte e incansável era também os dias a sul. Um dia de maio a notícia soou 'mais uma', e o pressentimento de que poderia ter sido a mulher do cabelo longo, dos olhos negros, a mulher-mãe, a mulher jovem e esguia tão resoluta e eficiente, com uma vida pela frente. Não lhe sabia o nome até então. "Sónia Ribeiro, 37 anos, Vila Real de Santo António, no Algarve. Foi a filha mais velha, de 16 anos, que a encontrou ao fim da manhã, pelas 11h30, quando regressava da escola. (...) O corpo, caído no chão, tinha pequenas perfurações no peito e uma maior perto do coração, que se soube mais tarde terem sido feitas com um picador de gelo, quando Sónia já estaria morta por asfixia." O meu sul nunca mais será o mesmo. O dela deixou de ser.

 

Em memória da Sónia Ribeiro.

Elogio a sete deputados do PS

Pedro Correia, 26.11.19

naom_552a3c9e7871f[1].jpg

Sérgio Sousa Pinto, um dos sete

 

Nesta data em que se assinalam 44 anos do fim da perversão do ideal do 25 de Abril pela esquerda totalitária, inscrevo aqui os nomes dos sete deputados do PS que aprovaram um voto de saudação ao 25 de Novembro na Assembleia da República:

Ascenso Simões

Hortense Martins

João Ataíde

João Paulo Pedrosa

Marcos Perestrello

Paulo Cegonho

Sérgio Sousa Pinto

 

Cumpre salientar que estes parlamentares socialistas honraram a melhor tradição histórica do seu partido, contrariando a orientação de voto da bancada, que os mandava imitarem o gesto de Pilatos, abstendo-se.

Os restantes acobardaram-se. Faltou pouco para alinharem com o PCP, o BE e o Livre (e a deputada socialista Isabel Moreira) na condenação do 25 de Novembro. Como se nada soubessem das lições da História.

Acontece que a 25 de Novembro de 1975, data crucial para o estabelecimento da democracia em Portugal, o PS de Mário Soares, Maria Barroso, Salgado Zenha, Jaime Gama, Sophia de Mello Breyner Andresen e Manuel Alegre não se absteve: estabeleceu uma linha fronteiriça entre a democracia representativa e a extrema-esquerda política e militar que queria implantar em Portugal a réplica de uma ditadura cubana, albanesa ou soviética.

 

Há 44 anos, Soares era o inimigo n.º 1 dessas forças extremistas, que o comparavam a um girondino da Revolução Francesa ou a Aleksandr Kerenksy, o efémero líder social-democrata russo destituído pela insurreição bolchevista de Lenine em 1917. O fundador do PS esteve à altura do seu papel histórico, assumindo-se como um resistente de primeira hora a uma ditadura de esquerda. Com a mesma fibra de lutador que revelara no salazarismo.

Esta lamentável abstenção do PS, traindo o legado do partido, foi também um voto contra Soares e os restantes socialistas que travaram o passo ao comunismo em Portugal.

RDA, 1949-1989

Pedro Correia, 09.11.19

5400827_76hG5[1].jpg

Tanques soviéticos esmagando a rebelião operária em Berlim-Leste, capital da República "Democrática" Alemã (17 de Junho de 1953)

 

O fim da ditadura. O fim da repressão. O fim do partido único. O fim das manifestações orquestradas a favor dos ditadores Ulbricht e Honecker. O fim do vergonhoso servilismo perante a União Soviética. O fim dos "crimes" de natureza política. O fim da sociedade de delatores, tão bem retratada nessa obra-prima do cinema contemporâneo que é A Vida dos Outros. O fim da proibição do direito à greve. O fim da proibição do direito à manifestação. O fim da imprensa amordaçada, submetida ao pensamento único do Partido. O fim da polícia política. O fim dos delitos de opinião. O fim da Stasi - a PIDE leste-alemã. O fim dos tiros disparados, na calada da noite, contra quem ousasse transpor a fronteira. O fim da perversão da palavra democracia, usada como emblema de um Estado que sempre a espezinhou.

Além do derrube do Muro, é também isto que hoje festejamos. O fim de um pesadelo que durou 40 anos.

Revisitando os clássicos

Pedro Correia, 05.11.19

461960[1].png

Pacheco Pereira (com Falcão e Cunha e Passos Coelho) em 1996

 

«Dificilmente se compreende por que razão no discurso político do PSD se está permanentemente a enfatizar o "acordo" com o PS, aceitando-se aquilo que é o ideal para o Governo.»

 

«O problema político deste discurso é que ele tem o efeito prático de valorizar semelhanças que não existem ou não devem existir e permite que seja o PS que tome a iniciativa política.»

 

«O resultado aproxima-se perigosamente de um "bloco central" não enunciado, despolitizando seriamente o debate de propostas e esbatendo a clareza das opções colocadas aos eleitores. O confronto político tende a tornar-se apenas procedimental e o eleitorado do PSD e os descontentes com o Governo socialista sentem-se sem representação política.»

 

José Pacheco Pereira, Diário de Notícias, 19 de Junho de 1997

A derrota e a vergonha

Pedro Correia, 28.10.19

s420x280[1].jpg

 

Às 8 da manhã do dia 21 de Junho de 1942, as tropas britânicas sitiadas na fortaleza de Tobruk, no norte de África, rendiam-se às divisões comandadas por Erwin Rommel, após terem sofrido baixas consideráveis. No seu quartel-general da Alemanha, Hitler rejubilou, entregando a Rommel o bastão de marechal. Ao receber a má noticia em Washington, onde conferenciava com o presidente Roosevelt, Churchill desabafou: “A derrota é uma coisa, a vergonha é outra.” Os britânicos tinham sido derrotados mas não deviam envergonhar-se. Tinham-se batido até ao limite das suas forças. Um ano mais tarde, recuperariam Tobruk.

A que propósito me lembrei deste emblemático episódio da II Guerra Mundial? É que ele constitui uma exemplar lição de vida. A desonra é perder sem sequer dar luta. Vale para todas as épocas e para as mais variadas circunstâncias – e também na política, que é a continuação da guerra por outros meios.

Da falta de memória

Pedro Correia, 26.10.19

Leio hoje no Expresso, em peça muito destacada, que há a partir de agora três mulheres à frente de bancadas parlamentares -- «são as sucessoras de Manuela Ferreira Leite, a única mulher até agora líder de um grupo parlamentar, entre 2001 e 2002».

Erro factual grave. A primeira mulher que liderou um grupo parlamentar foi Maria José Nogueira Pinto, à frente da bancada do CDS entre 1997 e 1999.

Um erro que é consequência directa da galopante falta de memória nas redacções dos órgãos de informação. Ao contrário do que muitos imaginam, o mundo não começou anteontem.

Livros com nomes de blogues

Pedro Correia, 12.10.19

thumbnail_20191012_093646-1[1].jpg

 

«"Conheci uma pessoa." Eis uma expressão que nalguns casos implica dois evidentes exageros.»

Pedro Mexia, Prova de Vida

 

Sinto por vezes algumas saudades do tempo de maior pujança da blogosfera, em que o debate de ideias se impunha sem o colete-de-forças compressor do Twitter nem o umbiguismo grupal do Facebook. Um tempo em que era possível dialogar com quem pensava de forma muito diferente, até antagónica, sem reduzir o pensamento a legendas, sem coleccionar bonequinhos de polegar levantado, sem confundir afectos e cumplicidades com a carneirada dos clubes de fãs, sem esse anátema sempre implícito no ridículo verbo "desamigar".

Fui coleccionando livros que resultaram da escrita blogosférica - e eles cá continuam, na minha biblioteca doméstica, como memórias vivas desse tempo que já passou. Livros com nomes de blogues, como O Acidental (que reunia o Paulo Pinto Mascarenhas, o Rodrigo Moita de Deus, o Vítor Cunha, o Luciano Amaral, o Vasco Rato e o Bernardo Pires de Lima, entre outros), Portugal dos Pequeninos (feliz título com a marca inconfundível do João Gonçalves antes da sua irreversível migração para o FB), Prova de Vida (diário do Pedro Mexia nascido como blogue e polvilhado de argutos aforismos, como aquele que serve de epígrafe a estas linhas) e Jaquinzinhos (onde o João Caetano Dias deixou um pioneiro rasto liberal antes da sua irreversível migração para o Twitter). 

A escrita blogosférica tornou-se residual, quase anacrónica: é precisamente por isto que eu insisto nela. Quando a prosa de Facebook originar livros, agradeço que me avisem.