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Instantes em sépia com capa de muitas cores (15)

por Maria Dulce Fernandes, em 20.06.19

Bisa

 

Eu sou uma pessoa de sorte, tive quatro mães: a minha Avó Adelaide, a minha Mãe, a minha Madrinha Maria Emília e a minha Bisavó Júlia, qual delas a melhor. Sou um patchwork de todas elas, mas no feitio intempestivo sou igualzinha à (bis)Avó Júlia, um furacão com pelo na venta.


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A minha bisavó era uma força da natureza: de saia comprida, lenço preto e xaile, era o protótipo da matriarca dos primórdios do século 20, que enviuvou cedo e trabalhava de sol a sol para sustentar os três filhos. Era uma cozinheira de mão cheia, e quando jovem e antes da Implantação da República, trabalhou nas cozinhas do palácio nas Necessidades, onde conheceu os soberanos reinantes, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia.

Como viver em pecado era contra os princípios da Rainha, a minha Bisavó Júlia e o meu Bisavô Alberto, carpinteiro também no Palácio e que nunca cheguei a conhecer, levado muito novo pela Consumpção, foram ”aconselhados” a casar pelo seu capelão, e ofertados pela Rainha depois do enlace, de camas de ferro com florões espectaculares para os rapazes dormirem (pois que já tinham dois filhos), camas essas que perduraram gerações fora, até serem vendidas com o espólio da casa do Fiandal, quando o meu pai faleceu.

Teve três filhos: o Álvaro (o protótipo do dandy, chapéu de lado e suaves maneirismos), o Américo, homem bonito, calmo e um tanto mulherengo, e a Adelaide, o patinho feio, que compensou a falta de beleza física com a muita determinação e perseverança que possuía, e que teve dois maridos e quase um terceiro.

O filho favorito era o filho do meio, o meu Avô Américo, ao qual a Mãe e os meus irmãos foram buscar os olhos azuis. O Avô casou com uma criada de servir de seu nome também Adelaide (a Avó), casamento que não foi do total agrado da Bisavó, o que preconizou uma vida nada fácil para o casal. O Avô, que era serralheiro e arbitro de futebol, era também o menino da mãe, ficando por isso, a morar com ela em Belém. Tiveram três filhas, a Maria Emília (a Madrinha), a Luzia e a Ivone (a Mãe).

A Mãe foi o rapaz que o Avô sempre desejou mas não teve. Era o terror das redondezas, e completamente adorada e apoiada pela Bisavó, impunha a sua vontade e ditava as suas leis com tal vigor que foi cognominada “O Veneno”. Ainda nos dias de hoje, se eu passar pela igreja da Memória, qualquer velhinho que descanse num qualquer banco do jardim me poderá facilmente reconhecer como “a Filha do Veneno” ou à minha filha mais velha como “a Neta do Veneno”.

A Mãe, apesar de maria rapaz e a mais novinha do trio, foi a primeira a casar, e então nasci euzinha, a menina na mão das bruxas, o ai Jesus de todos, mas não era o rapaz que ansiavam. Apesar dum bocado masculinizada pelo Avô no vestir e nos cortes de cabelo (o que tirava a Mãe do sério), foi com o advento do Nascimento do Rapaz que a família rejubilou verdadeiramente. O Avô ficou encantado, o Pai realizado, a Mãe triunfante, a Avó feliz e a Bisavó tão maravilhosamente deslumbrada que tornou o meu irmão o propósito de toda a sua existência. Transferiu toda a ternura que as agruras da vida lhe reprimiram no peito para aquele pequeno ser e amou-o incondicionalmente enquanto viveu.

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Sobreviveu ao Avô, a quem um devastador AVC roubou anos de vida, e ainda embalou o meu irmão mais novo com canções de ninar. Passou os últimos anos numa Casa de Repouso, a que agora chamamos Lar da 3ª idade, donde fugia sempre que podia, para poder estar junto dos seus meninos.
A minha herança genética veio praticamente toda dos albicastrenses do lado da família do Pai.
Penso que o mau feitio e a maneira de encarar a vida herdei inteirinhos da Bisavó Júlia, e estou grata por poder contar com o seu ADN nas horas mais complicadas da minha existência.

 

P.S.: Quem possa pensar que transparece uma ponta de ciúme nestes meus escritos, desengane-se. EU fui a primeira e única Princesa Com Sorte da família

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Uma estátua para D. João II

por Pedro Correia, em 18.06.19

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D. João II (retrato do século XVI)

 

Quase todas as grandes cidades portuguesas têm estátuas de figuras ilustres da nossa História. Incluindo, naturalmente, dos monarcas que contribuíram para fundar e robustecer este Estado-Nação, um dos mais antigos do mundo com as suas actuais fronteiras, definidas no rectângulo continental desde 1249, com a conquista do Algarve, e na sua globalidade desde o século XV, com a descoberta e povoamento das ilhas atlânticas.

São conhecidas da generalidade dos portugueses estátuas tão majestosas e emblemáticas como a de D. José implantada em 1775 no Terreiro do Paço, ou a de D. Pedro IV, descerrada em 1866 no coração da Baixa portuense. Sem esquecer a do nosso monarca fundador, D. Afonso Henriques, que se ergue junto ao castelo de Guimarães. Ou a moderna evocação de D. Sebastião, no centro de Lagos.

Várias outras cidades ou vilas têm estátuas de reis que de algum modo lhes estiveram ligados por acontecimentos diversos - ou por lá terem nascido, ou por lhes terem atribuído carta de foral ou ali feito uma inauguração de vulto, ou porque as tomaram aos mouros, alargando o perímetro das fronteiras portuguesas. Acontece, por exemplo, na Guarda (D. Sancho I), em Silves (D. Sancho II), Faro (D. Afonso III), Leiria (D. Dinis), Cascais (D. Pedro I), Lisboa (D. João I), Alcochete (D. Manuel I), Coimbra (D. João III), Vila Viçosa (D. João IV), Mafra (D. João V), Queluz (D. Maria I), Castelo de Vide (D. Pedro V) ou Cascais (D. Carlos). Com maior ou menor mérito, todos são ostensivamente recordados em mármore ou bronze.

Há, no entanto, uma evidente lacuna neste vasto conjunto de estátuas régias distribuídas de norte a sul do País. Refiro-me a D. João II, que passou à História com o cognome de Príncipe Perfeito. Reinou durante 14 anos, entre 1481 e 1495, embora tenha assumido a governação do Estado desde 1477, por abdicação efectiva de seu pai, Afonso V. Foi sob o seu comando que Portugal deu um impulso decisivo à epopeia das navegações, assumindo-se como precursor da globalização em vários marcos: chegada de Diogo Cão às costas de Angola e da Namíbia; início da colonização de São Tomé e Príncipe; envio de Pero da Covilhã por terra à Etiópia, Cairo, Adém, Ormuz e Goa; passagem do cabo da Boa Esperança, assim baptizado por Bartolomeu Dias; assinatura do Tratado de Tordesilhas com os reis de Espanha; preparação da armada de Vasco da Gama que inauguraria o caminho marítimo para a Índia.  

D. João II é o único dos nossos grandes reis ainda sem estátua numa cidade portuguesa. Em 1998, numa rotunda do que hoje se chama Parque das Nações, foi inaugurada uma peça em bronze supostamente em sua homenagem: é um bloco abstracto, que em nada alude ao Príncipe Perfeito. Fica o desafio aos decisores políticos, a nível nacional, regional ou autárquico: pôr fim a esta chocante omissão erguendo um monumento a D. João II realmente digno desse nome. Em 2020 assinala-se o 525.º aniversário da morte do monarca: é um ano apropriado para tal fim.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

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Os heróis

por Pedro Correia, em 06.06.19

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Faz hoje 75 anos, desembarcaram em praias da Normandia onde os invasores nazis os aguardavam, armados até aos dentes. Alguns foram mortos em poucos minutos, milhares deles já não veriam amanhecer o dia seguinte. Mas conseguiram o objectivo: libertar a Europa. E, dessa forma, tornaram o mundo mais decente, mais civilizado, mais limpo.

Devemos as recentes décadas de progresso e prosperidade no continente que habitamos a este punhado de heróis. Alguns felizmente ainda entre nós, todos já com mais de 90 anos - tal como a Rainha Isabel II, que recorda essa longa noite totalitária iluminada por uma imprecisa luz de esperança. Foi com emoção que acompanhei as cerimónias desta manhã, honrando o heroísmo desses bravos de outrora, hoje anciãos alquebrados mas orgulhosos e dignos.

Num mundo cada vez mais despojado de valores, onde tudo se equivale sem hierarquias e a indiferença se banaliza nos mais diversos escalões da vida pública, é gratificante observar estes homens de pele enrugada e olhar cintilante que recordam os camaradas sepultados no solo sagrado da Normandia. Todos lutaram e alguns tombaram em nome de um ideal maior que eles. Enfrentaram a guerra para que a paz florescesse nas gerações futuras.

Somos os legatários dessa paz. Ser-lhes-ei sempre grato por isso.

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A resistência à escravidão

por Pedro Correia, em 12.05.19

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Bloqueio a Berlim decretado por Estaline durou quase um ano: terminou a 12 de Maio de 1948

 

Faz hoje 70 anos, Berlim foi libertada. Não pelo solo, mas pelo ar. Foi um marco na história da liberdade na Europa. Estranhamente - ou talvez não - um marco de que pouco se fala hoje. 

A cidade estava dividida desde 1945, quando o Exército Vermelho se apoderou da metade oriental da Alemanha enquanto as divisões blindadas ocidentais anexavam a parcela mais ocidental do país, conduzido à derrota por Adolf Hitler. As cimeiras de Ialta e Potsdam, em 1945, repartiram o território alemão em quatro grandes áreas de influência tuteladas pelos vencedores da II Guerra Mundial, aplicando-se a mesma regra para Berlim, capital do defunto III Reich. A Alemanha, mergulhada em cinzas e escombros, tornou-se um país ocupado. À mercê de um novo conflito, desta vez ideológico: de um lado os Estados Unidos, o Reino Unido e a França – democracias liberais; do outro, a URSS de cariz totalitário. Como Winston Churchill alertou em Março de 1946, uma Cortina de Ferro fracturara o continente europeu. Do lado de lá, imperavam as legiões de Estaline.

O ditador soviético quis transformar a Alemanha num Estado-satélite, sem verdadeira soberania. Enquanto as potências ocidentais apostavam na reconstrução de uma Alemanha próspera para evitarem os erros cometidos no final da I Guerra Mundial, quando a miséria e o caos social fizeram chocar o ovo da serpente de onde emergiu o regime nazi.

 

Enclave ocidental


Berlim, naquele ano de 1948, permanecia sob ocupação militar. Dividida em quatro zonas. Três quartos da cidade funcionavam como autêntico enclave ocidental em território comunista – ilha democrática no imenso império vermelho. A 7 de Junho, as potências ocidentais anunciaram a intenção de unificar as áreas territoriais sob a sua jurisdição – formando aquilo que seria a República Federal da Alemanha a partir do ano seguinte. No dia 20, entrava em circulação uma nova divisa monetária, o marco alemão, substituindo as senhas de racionamento que vigoravam desde o fim da II Guerra Mundial. Tudo à revelia de Moscovo.

Era um equilíbrio precário entre os antigos aliados que prometia não durar muito. E assim foi: a 24 de Junho, Estaline ordenava aos seus efectivos militares o encerramento compulsivo das vias de acesso a Berlim Ocidental tanto por estrada como pelas linhas férreas que conduziam a Hamburgo e Munique, bloqueando igualmente os canais fluviais: 2,2 milhões de pessoas viram-se privadas, de um dia para o outro, de alimentos. A cidade apenas produzia 2% daquilo que comia, dependendo quase em exclusivo do exterior para esse efeito.

Num primeiro momento, a administração norte-americana hesitou. Alguns conselheiros do Presidente Harry Truman não queriam arriscar um conflito declarado com os soviéticos, anteriores aliados de Washington na guerra contra a Alemanha nazi, nem socorrer aquela população, que escassos anos antes vitoriava Hitler e diabolizava os EUA.

 

A maior ponte aérea


Truman não escutou tais vozes. Estava convencido de que se Berlim caísse por inteiro nas mãos dos soviéticos, os EUA perderiam rapidamente o domínio de todo o território alemão.

A 26 de Junho o inquilino da Casa Branca ordenou o início da Operação Vittler – que viria a transformar-se na maior ponte aérea destinada ao transporte de carga humanitária. Usando para o efeito três corredores aéreos, com 32 quilómetros de largura, a partir de Hamburgo, Hannover e Frankfurt, na Alemanha Ocidental.

O desafio foi imenso: nunca tinha sido montada uma operação deste género, para fins civis, em toda a história da aviação. O general Lucius Clay (1898-1978), comandante militar norte-americano na Alemanha, foi o artífice supremo deste imenso aparato logístico que viria a mobilizar um total de 277.569 voos rumo. «Ninguém nos expulsará de Berlim», garantiu.

Este abastecimento aéreo da população cercada foi um sucesso, rapidamente difundido nos documentários de actualidades exibidos diariamente nas salas de cinema um pouco por todo o mundo. Tornando-se assim num inesperado foco de propaganda americana em socorro de cidadãos em risco, enquanto os soviéticos eram apresentados como seres impiedosos, capazes de condenar homens, mulheres e crianças à fome e ao frio.

 

O argumento atómico


Estaline ainda ponderou encerrar unilateralmente os corredores aéreos. Truman dissuadiu-o, fazendo sobrevoar sobre a Alemanha dois bombardeiros B-29 – as chamadas “superfortalezas” – idênticos aos que em 1945 lançaram as bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui. A URSS ainda não dispunha de arsenal nuclear, o que limitava a capacidade de manobra do dirigente soviético, com noção exacta das distâncias geográficas: uma bomba despejada sobre Berlim teria efeitos inevitáveis em Moscovo, a 1854 quilómetros de distância.

Perdida a batalha da propaganda, confirmada a resistência da população de Berlim e a intenção de Washington de prosseguir a ponte aérea – na qual também participou a Real Força Aérea britânica – Moscovo cedeu. A 11 de Maio de 1949, era anunciada a reabertura das ligações por estrada e via férrea entre Berlim e a Alemanha Ocidental, através de território controlado pelos comunistas, com efeitos logo após a meia-noite. Mas os voos de abastecimento prosseguiram até final de Setembro: havia que salvaguardar reservas suficientes na cidade para a hipótese de haver novo cerco.

Berlim estaria em foco noutros dramas – o maior dos quais ocorrido a 13 de Agosto de 1961, quando Moscovo ordenou que toda a parcela ocidental da cidade ficasse cercada por blocos de betão numa desesperada tentativa de drenar a contínua fuga de cidadãos do Leste para o Ocidente: erguia-se assim o tristemente célebre Muro. Símbolo máximo da Guerra Fria, emblema de um sistema político que entraria em derrocada definitiva em Novembro de 1989. Derrubado pela própria população de Leste, que nunca desistiu de perseguir a liberdade.

 


A ajuda que vinha do céu

 

Apesar da ponte aérea, a população de Berlim Ocidental passou por inúmeras privações entre Junho de 1948 e Maio de 1949. Faltava a energia para o abastecimento de fábricas e lares. Nesse Inverno vários habitantes mais idosos morreram devido ao frio. A iluminação pública esteve quase sempre racionada. E chegou a ser ordenado o corte de milhares de árvores para acender lareiras na cidade sitiada.

Nesses meses, muitas das crianças da cidade acorriam a toda a hora às vedações do velho aeroporto de Tempelhof e do novo aeroporto de Tegel (inaugurado em Dezembro de 1948), onde era constante o movimento das aeronaves ocidentais. Os miúdos dessa geração habituaram-se a brincar com aviões de papel, de lata ou de madeira – muitas vezes feitos por eles próprios. Cada qual, à sua maneira, simbolizava a resistência à escravidão.

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Assombro e dor

por Pedro Correia, em 16.04.19

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A sensação é de enorme consternação, de profunda tristeza. Direi mais: é de luto. Hoje, como centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, sinto-me enlutado. Pela perda irreparável da catedral das catedrais. Notre-Dame, que sobreviveu incólume a incontáveis guerras, escapou à carnificina de dois conflitos mundiais e em 1944 se manteve imune à desvairada ordem de Hitler, que queria ver Paris a arder, acaba de ser praticamente reduzida a escombros. No início da Semana Santa, num dia em que o Presidente francês anunciara um discurso à nação. 

Ver as imagens das chamas a devorarem o edifício medieval, jóia absoluta da arquitectura gótica, marco da espiritualidade universal, símbolo supremo da cultura cristã que é também matriz europeia, dilacera todos quantos algum dia ali haviam entrado - e fomos muitos, pois Notre-Dame recebia cerca de 13 milhões de visitantes por ano, gente de todas as crenças e todas as latitudes.

O mundo em que vivemos é um mundo em contínua perda de referências, que padece de uma confrangedora falta de memória. O pavoroso incêndio que destruiu Notre-Dame acaba de nos cortar mais um emblemático vínculo às gerações precedentes. Tudo se torna cada vez mais precário e descartável. Assente num passado sem vestígios, o futuro já nasce mutilado.

Notre-Dame, cujos alicerces são contemporâneos da fundação de Portugal, demorou quase dois séculos a ser erguida. Para a destruir bastaram duas horas. E nós a assistirmos, num silêncio impotente e magoado, feito de assombro e dor.

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Aristides de Sousa Mendes

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.01.19

"As we mark Holocaust Remembrance Day on Sunday, we should honor this man who engaged in what one historian called "perhaps the largest rescue action by a single individual during the Holocaust.", Richard Hurowitz, New York Times, 27 de Janeiro

Pese embora o esforço que alguém fez para obscurecer a sua indelével marca, é reconfortante saber que passados todos estes anos um dos mais conceituados e lidos jornais do mundo honra a sua memória, mantendo-a viva para os seus leitores.

Um exemplo que nunca será demais recordar, em especial porque ele não o fez a troco de dinheiro, de títulos ou da glória, ao contrário de algumas sumidades locais que gostam de mostrar a sua beneficência.

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Feita de terra e alma

por Pedro Correia, em 19.11.18

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Honra, palavra antiga. Como outras, que nos parecem em acelerado desuso neste tempo de implacável voragem de valores. Palavra que - neto, sobrinho e primo de oficiais do Exército - sempre associei à instituição militar. 

Na adolescência, nos anos de brasa da revolução, habituei-me à presença quotidiana dos militares na nossa vida colectiva. Fizeram o 25 de Abril e nos dois anos seguintes andaram na crista da onda, com sucessivos protagonistas: António de Spínola, Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Otelo Saraiva de Carvalho, Pinheiro de Azevedo, Ramalho Eanes.

Alguns deles quiseram transformar Portugal numa "sociedade socialista" (com diversos padrões, do soviético ao líbio, passando pelo albanês), outros bateram-se por uma democracia plena, sem tentações totalitárias. Os dois modelos confrontaram-se num tenso dia 25 de Novembro, vai fazer 43 anos, com a vitória - felizmente para nós - dos moderados, que devolveram o poder às instituições civis, integrando o escol fundador da nossa democracia multipartidária e representativa. 

 

Entre esses militares, figurou o general José Loureiro dos Santos, falecido no sábado, aos 82 anos, e cujo funeral hoje se realiza. Transmontano de Sabrosa, teve um brilhante currículo, que de algum modo já se prenunciava ao ser distinguido em 1953 com o prémio nacional como melhor aluno do ensino secundário português. Diplomado na Academia Militar, foi sendo gradualmente promovido de alferes a general de quatro estrelas, entre 1957 e 1991. Cumpriu uma missão de serviço em Angola, como capitão, de 1962 a 1965. Foi comandante da Região Militar da Madeira, chefe do Estado Maior do Exército, vice-chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, ministro da Defesa Nacional (em dois governos), membro do Conselho da Revolução, director do Instituto de Altos Estudos Militares. Leccionou, como professor catedrático convidado, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

É ainda autor de vasta obra, dedicada sobretudo a temas relacionados com a estratégia militar e política num planeta cada vez mais globalizado. Nestes anos mais recentes, partiram dele algumas das observações mais sagazes e pertinentes sobre a marcha da História, nas suas frequentes aparições televisivas ou em artigos de jornal. Alertava, por exemplo, para a necessidade de definirmos a plataforma continental atlântica como um objectivo estratégico do qual devíamos «tomar posse efectiva», sem aguardamos autorização alheia.

Como justamente assinalou o Presidente da República, era «um pensador de Portugal e do mundo».

 

Ninguém o confundia com um teórico desligado da realidade, longe disso - daí o mérito acrescido das suas intervenções públicas. Muito valorizadas pelo facto de em dois momentos cruciais da nossa História recente, com a patente de major, ter estado no lado certo: a 25 de Abril de 1974, ao emergir como delegado da Junta de Salvação Nacional no arquipélago de Cabo Verde, onde era comandante militar, e a 25 de Novembro de 1975, quando integrou o núcleo operacional que conteve o golpe extremista e abriu caminho à democracia liberal em que vivemos desde 1976. Honrando, nas duas ocasiões, a farda que envergava.

Habituei-me a ouvi-lo com atenção, apreciando-lhe a integridade intelectual e a lucidez das suas análises. Lamento muito que esta geração de militares que tanto admirei esteja a desaparecer. Tudo tiveram e de quase tudo se desprenderam, com inegável patriotismo - outra palavra hoje fora de moda.

Palavra «feita de terra e alma», na lapidar definição poética de Miguel Torga, conterrâneo do oficial-general de quem agora nos despedimos.

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A glória póstuma do assassino

por Pedro Correia, em 05.06.18

 

Há um nome de um assassino que nunca me sairá da memória: Shiran Bishara Shiran. Foi o indivíduo que matou traiçoeiramente Robert Kennedy, irmão do malogrado presidente, na cozinha de um hotel em Los Angeles, quando o ex-procurador-geral dos EUA, com apenas 42 anos, acabava de ganhar a decisiva primária da Califórnia pelo Partido Democrata, o que o colocava em excelente posição para concorrer à Casa Branca.

Corria o mês de Junho de 1968 - faz hoje 50 anos. Eu era um miúdo mas já acompanhava com todo o interesse as imagens dos telejornais e Robert Kennedy foi o primeiro dos meus heróis. Fixei para sempre o rosto escuro e triste daquele indivíduo natural da Palestina que, ao premir o gatilho, matou também para sempre os sonhos de milhões de norte-americanos. Escapou por um triz a ser executado, após ter sido condenado à morte, pois a pena capital acabou entretanto por ser abolida no estado da Califórnia, e ainda hoje está detido. Um destino bem diferente do de Lee Harvey Oswald, o assassino de John Fitzgerald Kennedy a 22 de Novembro de 1963 e por sua vez assassinado dois dias mais tarde, em Dallas, por um tal Jack Ruby, figura do bas fond. Este último foi o primeiro homicídio transmitido em directo pela televisão – para os EUA e para o mundo todo. Algo impensável em 14 de Abril de 1865, quando John Wilkes Booth assassinou o presidente Abraham Lincoln enquanto este assistia a uma representação teatral em Washington.

Tenho pensado muitas vezes neste primeiro magnicídio que vi noticiado. Pensei nele, por exemplo, a propósito do massacre na Noruega ocorrido em Agosto de 2011. O que assassinos deste calibre procuram, sob um pretexto político, religioso ou outro qualquer, é um grau máximo de notoriedade – se possível à escala universal. A repetição até à náusea do seu nome, nos mais diversos órgãos de informação, constitui uma homenagem involuntária à barbaridade do acto que praticou. O seu nome banaliza-se, ganhando uma espécie de estatuto de imortalidade. Foi assim com Booth, foi assim com Oswald.

 

 

É por isto que me revejo por inteiro nestas linhas que Jorge Almeida Fernandes escreveu há sete anos no Público. «Em Julho de 356 a.C um anódino Eróstrato incendiou o Templo de Artemisa, em Éfeso, de que se dizia ser uma das “sete maravilhas do mundo”. Assumiu que o fizera como desesperado meio de alcançar a glória. O sacrilégio foi condenado com a morte. Como póstuma punição, os magistrados proibiram os efésios de jamais citarem o seu nome, que foi também apagado de todos os documentos. Mas um historiador de outra cidade nomeou-o, outros o repetiram e Eróstrato entrou na História. Ninguém conhece o nome do arquitecto que desenhou o templo de Éfeso. Tal como Eróstrato, B. está a ganhar.»

B. é o assassino norueguês. Sempre me recusei a escrever e até a fixar o seu nome. Como certamente sucedeu com Almeida Fernandes, indignou-me vê-lo a toda a hora impresso e difundido pelos órgãos de informação. Como se de um filantropo ou um benemérito se tratasse. Como se fosse uma figura familiar, muito lá de casa. Como, no fundo, fosse um de nós.

Não é um de nós. Nenhum assassino merece integrar-se no nosso reduto íntimo. Por mim, nenhum jornalista deveria atribuir-lhe o estatuto de Eróstrato do nosso tempo. Retemos na memória o nome de demasiados assassinos, o que constitui uma espécie de caução póstuma aos seus actos criminosos. Entristece-me saber que jamais apagarei da memória o nome de Shiran Bishara Shiran – o primeiro homicida de que ouvi falar quando percebi, menino ainda, que o Mal é capaz de triunfar sobre o Bem e assombrar-nos para sempre. Como um lado lunar dos contos de fadas. Na vida, ao contrário do que sucedia nos filmes e séries da nossa infância, nenhum final feliz está garantido.

 

Texto reeditado e adaptado, no dia do 50.º aniversário do assassínio de Robert Kennedy

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A guerra que Thatcher "inventou"

por Pedro Correia, em 29.03.18

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Estamos sempre a aprender. Acabo de escutar um historiador, em tom categórico e professoral, proclamar em horário nobre da televisão: "A senhora Thatcher, quando estava a braços com uma crise de agitação social na Inglaterra, inventou uma guerra, a guerra das Malvinas."

Extraordinário doutor Fernando Rosas: folheando sabe-se lá quantos canhenhos empoeirados, só ele conseguiu descobrir que foi afinal a primeira-ministra Margaret Thatcher quem ordenou aos odiosos déspotas do regime militar de Buenos Aires - apoiados pelo ditador cubano Fidel Castro - para  invadirem o arquipélago das Malvinas no dia das mentiras de 1982.

A maquiavélica senhora precisava dessa invasão para "inventar uma guerra" que só poderia culminar com a vitória britânica, emulando o triunfo da Royal Navy sobre Bonaparte em Trafalgar, enquanto as massas ignaras entoavam o God Save the Queen.

Fiquei esmagado com tão eloquente demonstração de sapiência do reputado académico. E aqui venho inclinar-me em respeitosa vénia à sua luminosa e profícua erudição.

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Perder por falta de comparência

por Pedro Correia, em 10.01.18

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 Marcelo e Balsemão em 1975

 

Francisco Sá Carneiro tinha 39 anos quando fundou o Partido Popular Democrático, tornando-se seu líder.

Francisco Pinto Balsemão tinha 43 quando lhe sucedeu, já o partido se designava PSD.

Carlos Mota Pinto subiu à liderança com 47 anos.

Aníbal Cavaco Silva tinha 45 anos quando ascendeu à presidência dos sociais-democratas.

Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito líder aos 47 anos.

Durão Barroso assumiu a presidência do partido aos 43.

Pedro Santana Lopes sucedeu-lhe quando tinha 48 anos.

Luís Marques Mendes foi líder aos 47.

Pedro Passos Coelho ascendeu ao cargo máximo no PSD com 45.

 

É evidente, atendendo até a tais precedentes, que o maior partido com representação parlamentar em Portugal está a perder uma excelente oportunidade, nesta mudança de ciclo político, para fazer uma renovação geracional. Contrariando de algum modo a sua matriz genética.

O PSD sempre foi um partido com dirigentes jovens, sabendo interpretar e até antecipar os sinais de mudança da sociedade.

A campanha interna em curso contraria esta tendência. Os dois únicos candidatos ao cadeirão do poder na Rua de São Caetano à Lapa são Rui Rio (60 anos) e o repetente Santana Lopes (61 anos). Por ausência da geração dos 40 anos, que preferiu aguardar melhor maré.

Neste país de treinadores de bancada, sociais-democratas como Jorge Moreira da Silva, José Eduardo Martins, Luís Montenegro, Paulo Rangel e Pedro Duarte privilegiaram o cálculo político, nada consentâneo com a tradição do partido nem com os exemplos de desassombro que mencionei acima. Gostássemos ou não deles, todos aqueles líderes souberam dar o passo em frente no momento próprio, sem se resguardarem na sombra. Conscientes de que, no palco da política, a pior forma de perder é por falta de comparência.

 

Os quarentões actuais estão talvez convictos de que a mesma água passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Mas já os antigos sábios gregos sabiam que não.

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Chegar ao fim

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.17

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Chegar ao fim.

Pode parecer duro, talvez mesmo cruel, assim dito desta forma seca, áspera, que por vezes soa tão violenta. Nunca me foi tão fácil dizê-lo. E ao mesmo tempo é tudo tão profundamente tormentoso.

Será difícil esquecer um ano sentido entre o pico do Evereste e a escuridão da fossa de Mindanau, em que de tudo um pouco e até o nada que aconteceu conseguiu ser tão perturbante.

O sucesso académico, e os termos de que o seu reconhecimento veio acompanhado na pátria que ficou para trás, mas também nas muitas que me foram acolhendo fora de portas, culminando anos de intenso trabalho, distribuindo o tempo — essa miragem que nos foge segundo a segundo e a que por vezes, estupidamente, damos a liberdade de se escoar ainda mais depressa — entre conferências, seminários, palestras, gabinetes, escritórios, bibliotecas, livros e revistas sem fim, jornais, até rádio e televisão, imagine-se, eu, aspirando a que os olhos não se cansassem, temendo que a luz lhes faltasse e as letras começassem a turvar-lhes o caminho, quando por momentos pensava em Borges e no meu Padrinho, cegos para a eternidade com tanto para fazerem, alternando o seu brilho, o dos meus, que me dizem ser intenso, com a mais profunda e desconsolada tristeza, assistindo impotente à partida daqueles a quem ficarei para sempre ligado por laços indestrutíveis de camaradagem, tornados eternos por essa mesma partida precipitada, comprometidos por amizades sem cedências, recebendo o exemplo de um combate incapaz de vacilar, imune a constrangimentos e dificuldades. Tão lento quanto feroz, mas capaz de fazer estremecer as portas do Céu.

E depois ver, e olhar com aqueles mesmos olhos, a tristeza dos outros olhos que me são mais queridos, sentindo-os envelhecer longe, desprotegidos do conforto a que sempre se habituaram, ali esperando, também eles, que os dias fossem mais curtos, menos penosos, ansiando desesperadamente pelo escoar do tempo enclausurado entre as paredes daquele mundo distante e rude que se tornou o deles, tornando mais amargos os seus próprios queixumes, as recriminações contra um ramerrão estranhamente atribulado, sem que percebessem o porquê tão intenso de tal destino, lavrando impropérios, frases soltas de revolta contra o tempo que eu queria controlar.

Como se alguma vez fosse possível amenizar a dor, aquela que é de facto sentida em cada hora, encurtando-lhe o tempo, penteando-a, escanhoando-a, enfiando-lhe uns rolos, mudando-lhe os pijamas e os lençóis, as fraldas, as camisolas coçadas que passaram a ser as de todos os dias em que o tempo parou.

E depois eu voltava a sair para o mundo, para o outro, em que o tempo é contado, tão longe deles e ali mesmo ao lado, comigo sentado na cadeira colocada ao seu lado, ou na borda da cama, enquanto via o seu esforço para comer, para que a couve não lhes caísse na mesa ou no tabuleiro, para que a manga já mergulhada no molho não se sujasse.

E depois não poder partilhar as minhas pequenas vitórias lá de fora, do outro mundo, do mundo de onde eu vinha e para onde iria logo a seguir, tornando ainda mais curto o seu tempo e mais prolongada e distante a minha ausência, dor sempre embarcada e a cheirar a combustíveis, tantos que se tornou indiferente saber se entre tantas estradas, portos e aeroportos se tratava de gasolina, de gasóleo ou de querosene, e onde a única certeza era a de que jamais teria a felicidade de me cruzar com eles, de poder abraçá-los, assim na rua, no meio das outras pessoas, numa estação, numa sala de embarque, no quiosque dos jornais, dar-lhes um beijo terno, como se fossemos ainda as pessoas normais que éramos antes desse sacana do tempo resolver tomar conta de nós e deles, castrando-nos outros sonhos e maiores prazeres definitivamente irreconciliados por força dele. E das chagas que os trouxeram até aqui.

Chegar ao fim sentindo que tudo o que foi feito ainda está por concluir, que o meu tempo se está a apartar cada vez mais do deles e que ambos e tornaram gelatinosos, fugidios, como aquele resto de pudim que se lhes escapa da colher, ali, às voltas pelo prato, até soltarem novo impropério, exaustos, abandonando essa luta sem sentido até que alguém lhes dê uma ajuda.

Ah, como estão longes e distantes aqueles dias em que caminhávamos junto ao mar, ouvíamos Rachmaninov e Brel, tomávamos juntos um copo de vinho, falávamos de futebol, de livros e de política. Para a Mãe o futebol ainda faz sentido, mas agora só se lembra do Eusébio e dos remates dele naquele jogo que nunca soube qual foi porque já se esqueceu. Aquele memória já não sabe de que era é, nem como se sobe o som do telemóvel.

Chegar ao fim tornou-se numa preocupação. Agora tudo se tornou em chegar ao fim. Para todos nós. Chegar ao fim do livro, chegar ao fim do jogo, chegar ao fim da corrida, chegar ao fim da rua, chegar ao fim da fila do supermercado, da farmácia, do estacionamento, das consultas, da urgência hospitalar, das finanças, para depois se chegar ao fim do dia, ao fim da noite, ao fim do mês, até se chegar ao fim do ano.

Esperando sempre que esse fim não chegue ao fim sem eu chegar. Sem que eu possa ver então o tempo partir ficando eu no mesmo lugar. Como tantas vezes fiquei este ano, sentindo a injustiça que há nisto tudo. No tempo deste tempo, que não tarda vai outra vez chegar ao fim. Para que amanhã as nuvens voltem a passar, o chão a sorrir, a correr, a saltar, a nadar, como se o tempo não existisse, como se não houvesse horas nem relógios, que ainda há alguns que também dão o tempo. O nosso e o deles. Vingativos, cobardes, acintosos, com a amargura estampada nos ponteiros, no tiquetaque rançoso do despertador, nos números encarnados do digital da mesinha, piscando quando a outra tipa vem e desata a bater com o tubo do aspirador em tudo o que é sítio com medo que o tempo não lhe chegue para se despachar mais cedo sem escaqueirar a mobília e as suas mossas, mais as tomadas, antes de acabar com as franjas dos velhos tapetes de um qualquer desses buracos terminados em “ão” onde o tempo parou no tempo e nas mãos de quem os teceu.

E é assim que se chega ao fim. Sem ruído. Tão perto e aqui tão longe. Onde ele está sempre presente, sem tom nas cores dos dias, perdido no cinzento dos séculos, para sempre imerso no tempo, num tempo que eu ainda espero, no meu íntimo, que não seja o último.

E que eu veja, e os veja, mesmo assim, quando ainda me podem abraçar, dar um beijo, um abraço na lonjura deste tempo que não me perdoa. Nem eu a ele. Até chegar ao fim. Porque ninguém merece um tempo assim.

 

Bom Ano Novo para todos vós. Que sejam felizes. Com saúde.

 

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Contornar a censura

por Pedro Correia, em 25.11.17

Pedro Alvim (1935-1997), também poeta, foi um dos mais brilhantes jornalistas portugueses. Na última década do salazarismo, distinguiu-se entre os profissionais da escrita que souberam contornar com talento e profundo conhecimento da língua portuguesa as severas malhas da censura.

Um dos melhores textos deste autor, hoje infelizmente tão esquecido, foi publicado há meio século, a 26 de Novembro de 1967, no Diário de Lisboa. A propósito das trágicas inundações ocorridas nas horas anteriores em Lisboa, Loures, Odivelas, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Vila Franca de Xira que provocaram largas centenas de mortos e um número incalculável de desalojados, sobretudo nos amontoados de barracas que então circundavam a capital. Uma tragédia que nem o regime ditatorial conseguiu esconder, embora os censores de turno tenham tentado tudo para limar arestas, proibindo a difusão das imagens mais chocantes e feito várias emendas a prosas e títulos.

Alvim deu a volta ao texto com inegável mestria, fintando a censura da forma que passou a reproduzir numa das mais belas e pungentes crónicas desde sempre publicadas na imprensa portuguesa. Com a devida vénia à sua memória. E o meu agradecimento à Alice Vieira, também grande escritora e jornalista, que o recordou aqui.

 

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Os mortos e os fósforos

 

Era ao cair da tarde – e havia mortos.

Todos muito juntos, enlameados, compridos.

Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.

Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades.

Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos.

Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.

“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.”

E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.

O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal.

Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora – Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!

Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos.

E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível.

Como um preito de homenagem.

Como um choro.

Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama.

Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.

Escuridão total.

– Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.

O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos.

E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?

– Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!

E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.

“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília“.

Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.

Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

 

Pedro Alvim

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O 25 de Novembro nunca existiu

por Pedro Correia, em 22.11.17

 

O PS de 2017, que parece ter vergonha da sua história, atraiçoa o PS de 1975 ao recusar celebrar oficialmente o 25 de Novembro - marco essencial na instituição do actual regime constitucional português. O PS de Mário Soares, Salgado Zenha, Maria Barroso, Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jaime Gama e tantos outros construtores da democracia contribuiu decisivamente para essa data, que vai sendo esquecida ano após ano.

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In memoriam.

por Luís Menezes Leitão, em 15.10.17

Hoje passam 77 anos sobre o dia do fuzilamento em Barcelona de Lluís Companys, o presidente da Generalitat da Catalunha que pagou com a vida a ousadia de declarar o Estado Catalão dentro de uma República Federal Espanhola. Ao contrário do que habitualmente se refere, Companys nunca proclamou a independência, pretendendo apenas que a Catalunha fosse um Estado numa Espanha federal. Mas, mesmo isso chegou para que tivesse como resposta a prisão, o exílio, e por fim a morte por fuzilamento. Aquando da sua execução, efectuada após um julgamento sumário de umas horas, recusou a venda, quis permanecer descalço para que os seus pés nus pudessem sentir a terra catalã e gritou aos seus assassinos: "Assassinais um homem honrado. Pela Catalunha". Causou por isso indignação geral a recente ameaça de um jovem deputado do PP, Pablo Casado, de que Puigdemont poderia vir a ter o mesmo destino de Companys

 

Companys pode ter sido assassinado, mas a ideia que defendeu permanece. Hoje uma das avenidas principais de Barcelona é o Paseo Lluís Companys e a independência da Catalunha está na ordem do dia. Mesmo que não venha a ocorrer, há a certeza de que nada ficará como dantes depois deste processo, uma vez que o PP e o PSOE já se puseram de acordo para uma ampla revisão constitucional que reforce a autonomia das regiões de Espanha. É mais que tempo de a Espanha abandonar de vez a divisa de Franco "Una, grande, libre". Historicamente sempre existiram muitas Espanhas, sendo que até o nosso Arcebispo de Braga tem o título de Primaz das Espanhas. Reconhecer a diversidade dos povos de Espanha, e até a eventual consagração de uma Espanha Federal na Constituição, é seguramente a solução mais adequada para a resolução deste conflito, em lugar do extremar de posições que não conduz a lado nenhum.

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Alemanha: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 23.09.17

Recordei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século - de Lyndon Johnson, em 1967, a Barack Obama, entretanto substituído por Donald Trump.

Recordei aqui quem foram os inquilinos do Palácio do Eliseu, ano após ano, durante o último meio século - do quase mítico general De Gaulle ao malogrado François Hollande, que não arriscou concorrer a um segundo mandato e viu o seu Partido Socialista implodir.

Recordei aqui quem foram os inquilinos do n.º 10 de Downing Street, ano após ano, durante o último meio século - do trabalhista Harold Wilson ao conservador David Cameron, que entretanto deu lugar a Theresa May, sua correligionária.

Na véspera de os alemães serem chamados às urnas para escolherem o novo parlamento e o Governo que decorrerá do novo elenco no Bundestag, lembro quem foram os chanceleres da República Federal Alemã dos últimos 50 anos. Entre 1967 e 2016.

Volto a dividir este período por cinco décadas, para uma consulta mais fácil. E distribuo assim as cores: vermelho para os chefes do Governo sociais-democratas, azul para os democratas-cristãos.

 

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1967/1976

1967- Kurt Georg Kiesinger

1968 - Kurt Georg Kiesinger

1969 - Kurt Georg Kiesinger

1970 - Willy Brandt

1971 - Willy Brandt

1972 - Willy Brandt

1973 - Willy Brandt

1974 - Helmut Schmidt

1975 - Helmut Schmidt

1976 - Helmut Schmidt

Predomínio claro dos chanceleres sociais-democratas - com destaque para Brandt, que antes fora burgomestre de Berlim e ministro dos Negócios Estrangeiros.

 

 

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1977/1986

1977 - Helmut Schmidt

1978 - Helmut Schmidt

1979 - Helmut Schmidt

1980 - Helmut Schmidt

1981 - Helmut Schmidt

1982 - Helmut Schmidt

1983 - Helmut Kohl

1984 - Helmut Kohl

1985 - Helmut Kohl

1986 - Helmut Kohl

Dois Helmuts dividiram esta década. Schmidt liderou o Governo alemão - então ainda sediado em Bona - mais um ano do que o seu homólogo democrata-cristão.

 

 

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1987/1996

1987 - Helmut Kohl

1988 - Helmut Kohl

1989 - Helmut Kohl

1990 - Helmut Kohl

1991 - Helmut Kohl

1992 - Helmut Kohl

1993 - Helmut Kohl

1994 - Helmut Kohl

1995 - Helmut Kohl

1996 - Helmut Kohl

Domínio absoluto do democrata-cristão Kohl, que liderou o complexo processo de reunificação, reconduzindo para Berlim a capital de todos os alemães.

 

 

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1997/2006

1997 - Helmut Kohl

1998 - Helmut Kohl

1999 - Gerhard Schroeder

2000 - Gerhard Schroeder

2001 - Gerhard Schroeder

2002- Gerhard Schroeder

2003 - Gerhard Schroeder

2004 - Gerhard Schroeder

2005 - Gerhard Schroeder

2006 - Angela Merkel

Outra década dominada por um político social-democrata. Schroeder assegurou sete anos de liderança alemã após o longo consulado de Kohl, que durou mais de década e meia.

 

                              

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2007/2016

2007 - Angela Merkel

2008 - Angela Merkel

2009 - Angela Merkel

2010 - Angela Merkel

2011 - Angela Merkel

2012 - Angela Merkel

2013 - Angela Merkel

2014 - Angela Merkel

2015 - Angela Merkel

2016 - Angela Merkel

Hegemonia total da liderança democrata-cristã na última década, personificada na primeira mulher colocada à frente dos destinos de Berlim. Merkel vai amanhã novamente a jogo.

 

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Balanço: domínio claro dos democratas-cristãos, que ocuparam a chancelaria durante 30 anos neste último meio século. Uma percentagem de 60%.

A CDU (União Democrata-Cristã) teve três líderes no Governo alemão ao longo deste período: Kiesinger, Kohl e Merkel. O SPD (Partido Social-Democrata) teve outros três: Brandt, Schmidt e Schroeder.

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O dia em que a nossa vida mudou

por Inês Pedrosa, em 11.09.17

Cumprem-se agora dez anos sobre o dia em que o mundo mudou. O massacre aéreo de Manhattan obrigou-nos a todos – a começar pelos americanos – a perceber que vivemos num mundo global e que o mal não acontece só aos outros. Não foi o primeiro nem o último massacre da História da Humanidade – mas foi o primeiro que visou uma civilização. Não nos equivoquemos: o ataque às Torres Gémeas não era dirigido contra os americanos, nem contra os judeus, nem sequer contra o capitalismo. A Arábia Saudita é um exemplo rutilante de como o islamismo radical convive santamente com o mais sofisticado capitalismo. Americanos, judeus ou não, tal como os europeus têm em comum a cultura da liberdade, da igualdade e da democracia –  foi essa cultura que a Al Quaeda pretendeu dizimar, com a matança de civis, que aliás repetiu em menor escala em Madrid, a 11 de Março de 2004.

         O 11 de Setembro tornou impossível a neutralidade; as posições ideológicas que, desde o fim do Muro de Berlim, boiavam num caldo morno de «humanismo» indiferenciado, tornaram-se quentes e vibrantemente opostas. O chamado multiculturalismo sofreu vários processos de filtragem e reflexão: serão todas as culturas de facto equivalentes? Haverá valores universais a defender? Onde ficam os limites da tolerância? Desenvolveu-se uma extensa literatura sobre estes temas, que se repartiu entre a condenação dos perpetradores e a condenação dos Estados Unidos – a literatura do «eles estavam a merecê-las», como me disse alguém com quem cortei relações. Não há forma de sustentar uma conversa quando o interlocutor sustenta que determinados «eles» merecem ser assassinados – ainda por cima, quando os «eles» são indiscriminados. Para muitos de nós, Setembro de 2001 significou uma revisão intensa e dolorosa de afinidades electivas.  

Entendi então com nitidez que há princípios básicos que unem e separam as pessoas, para lá das diferentes visões do mundo e simpatias ou filiações partidárias. A raiz desses princípios é o amor – ou esse particular traço do amor a que se chama compaixão, isto é, partilha da paixão alheia.  Emmanuel Lévinas, cuja obra ecoa cintilantemente sobre o silêncio do horror nazi, define a ética como um «acontecimento», um «desfalecimento do ser em humanidade» através do súbito encontro de um rosto. O rosto inesperadamente humano do inimigo com que esbarramos no campo de batalha, por exemplo. Mas esse encontro ético é uma intermitência, um afluxo de sangue cuja surpresa pode ser – e foi-o, no caso do holocausto dos judeus – antecipadamente extirpada. O que se passou no nazismo como no estalinismo foi a total objectivação do outro. O outro tornou-se, simplesmente, coisa. Coisa que estrebucha, ou sangra ou grita, como um autómato à experiência, nunca como ser humano.

      No século XIX, Tocqueville verificava que «cada um só vê o seu semelhante nos membros da sua casta». No século XXI, observamos que a má-consciência leva muitos a encontrar o seu semelhante apenas e só naqueles que o querem aniquilar. Negar a existência de uma guerra é prolongá-la – e, por mais que se pretenda o contrário, ser conivente com uma das partes. O 11 de Setembro mostrou a diferença entre uma cultura que reconhece a dignidade dos seres humanos e outra que não reconhece senão a sua vontade de mando –  e que não reconhece os outros como seus iguais, nem olha a meios para atingir fins. Não são visões equivalentes: uma é pela vida, outra é pela morte. Há coisas que são barbaramente simples.

 

( crónica publicada no semanário Sol a 9/9/2011)

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Em louvor de Clement Attlee

por Pedro Correia, em 08.09.17

 Attlee com a mulher, Violet, logo após a vitória eleitoral dos trabalhistas em 1945

 

Clement Richard Attlee (1883-1967) era um homem destituído de carisma. Um esforçado militante de esquerda que, superando inúmeras crises nas suas hostes, alcançou em 1935 a liderança do Partido Trabalhista britânico.

Estavam então no poder os conservadores -- primeiro liderados por Stanley Baldwin, depois por Neville Chamberlain. Quando ocorreu a guerra -- a mais devastadora de todas as guerras -- outro conservador, Winston Churchill, ascendeu à chefia do Governo londrino.

Attlee podia ter-se refugiado na trincheira partidária. Mas não: assumiu uma atitude patriótica, aceitando integrar o executivo liderado por Churchill. Sempre na segunda linha, inicialmente apenas como ministro, depois como vice-primeiro-ministro -- posto até aí inexistente, criado especialmente para ele.

Foi de uma lealdade inquebrantável a Churchill durante os cinco penosos anos de guerra. O governo de unidade nacional -- que integrava ainda os liberais, além dos conservadores e dos trabalhistas -- funcionou sempre como um bloco. Sem que a liderança de Churchill fosse alguma vez discutida, sem que a lealdade de Attlee fosse alguma vez posta em causa.

 

Vencida a guerra, em Maio de 1945, a coligação dissolveu-se e realizaram-se eleições. E os mesmos britânicos que aplaudiram a gestão de Churchill durante o conflito que deixou o Reino Unido depauperado, tanto em vidas humanas como nas finanças públicas, disseram nas urnas que era tempo de confiar a outro político os destinos do país.

Ganhou Attlee, com 47,7%, contra 36% de percentagem atribuída aos conservadores: pela primeira vez o Partido Trabalhista dispunha de uma larga maioria na Câmara dos Comuns. E nos anos seguintes, sob a sua liderança, a esquerda britânica assumiu o poder. Governando com tanta eficácia a Grã-Bretanha em tempo de paz como Churchill a governara nos dias incertos da guerra.

Depois de enterrar os mortos, chegara o tempo de cuidar dos vivos -- como ensinou o nosso Marquês de Pombal. Attlee soube cuidar dos vivos: lançou as bases do Serviço Nacional de Saúde britânico, de base universal e gratuita, alargou a segurança social e delineou um ambicioso programa de habitação pública -- marcos modelares daquilo a que por estes dias chamamos "Estado Social". De tal maneira modelares que Churchill manteve-os inalterados quando regressou ao poder, em Outubro de 1951.

 

Attlee, o político sem carisma, é hoje recordado como um dos melhores primeiros-ministros britânicos de todos os tempos. Quando morreu, em Outubro de 1967, o Guardian acertou em cheio ao prever que a passagem do tempo só engrandeceria a sua figura. Assim aconteceu. Uma sondagem realizada pelo Times em 2010 considerou-o o mais qualificado de todos quantos governaram no século XX.

 

Porquê?

Porque soube agir em dois tempos, conforme as circunstâncias exigiam: baixou bandeiras partidárias quando era esse o seu dever patriótico no momento em que a soberania britânica estava em risco e foi recompensado por isso com dois mandatos sucessivos que lhe permitiram enfim aplicar o seu programa de vastas reformas sociais. Deixando o país numa situação de pleno emprego e a crescer ao ritmo de 3% ao ano.

 

Por vezes lembro-me de Attlee ao analisar o percurso de certos políticos contemporâneos. E concluo sempre que o seu exemplo ganharia em ser seguido por todos quantos, manifestamente equivocados, ambicionam o máximo para o momento seguinte. Como se não houvesse amanhã. Como se o decurso do tempo funcionasse como adversário e não como aliado. Como se a política não fosse sobretudo um exercício inteligente e laborioso de persuasão e persistência. Como se os livros de História pesassem menos do que as manchetes da manhã seguinte.

 

Daqui a um mês, a 8 de Outubro, assinalam-se os 50 anos da morte de Attlee

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Memória de Eduardo Prado Coelho

por Inês Pedrosa, em 04.09.17

No passado dia 25 de Agosto, cumpriram-se 10 anos sobre a morte de Eduardo Prado Coelho. Republico aqui a crónica em forma de carta que escrevi para o Expresso quando ele morreu. A velocidade do esquecimento é um dos grandes problemas do nosso tempo. Onde andam os livros dele? 

 

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Eduardo

 

Sobre o teu caixão, um girassol aberto. Disseram-me que o gesto veio da Teresa Belo – tu terás sorrido, e o Ruy Belo floriu contigo nesse sorriso, estendendo-te a mão. Uma das tuas heranças são as amigas, várias, escolhidas a dedo – em geral, mulheres fortes, radiosas como girassóis, com as quais conversavas infinitamente de tudo e de nada. Mulheres que riem. No fundo, invejavam-te tanto esse dom de gerar e manter amizades longas com mulheres como os outros todos – a erudição, a inteligência plástica, a escrita iluminante, o sentido de humor, o prazer de viver, a capacidade de organização, a liberdade da palavra, a visibilidade. E invejavam-te descaradamente o dom da paixão retribuída, que possuías em alto grau. Uma vez, um escritor perguntou-te: «Como é que você faz para ter tanto sucesso com as mulheres quando eu, que sou um homem bonito, não consigo ter nem metade?» Ter-lhe-ás respondido, segundo me contaste: « Não sei, é de facto estranho. O melhor será perguntar-lhe a elas». Fulminante, com uma gargalhada elegantíssima. Também isso te perdoavam pouco: a gargalhada, a elegância.

As mulheres gostavam de conversar contigo porque tu sabias dançar de tema para tema, misturar o sério e o risível, o sublime e o quotidiano. Os homens ainda não são educados para deslizar assim entre os diversos níveis da existência. Tinhas uma curiosidade insaciável e genuinamente democrática: tudo te interessava. Transitavas entre pessoas e artes sem preconceitos de espécie nenhuma – estavas sempre disponível para a alegria da descoberta e do encantamento. Revelaste e estimulaste muitíssimos talentos, sem nunca adoptares a pose tutelar do pai ou do padrinho latino – antes pelo contrário, entregavas-te ao prazer de admirar, que é uma espécie de jóia rara, no nosso Portugal de hierarquias, vénias e trocas de favores.

Uma figura grada convocou-te certa vez para um encontro à chuva, e, depois de te deixar marinar bastante no meio de uma praça, lá veio dizer ao que vinha: queria que tu mexesses uns cordelinhos para que lhe atribuíssem um Prémio prestigiado e chorudo. Respondeste que nem membro do júri eras, mas a figura insistia que o teu poder de influência resolveria isso. Eu pasmava com a tua bonomia diante destes assaltos contínuos. Porque continuavas a disponibilizar a mesma atenção – nem mais, nem menos – para o trabalho das múltiplas pessoas que te tentavam usar como SOS-Promoção.  Eras generoso a fundo perdido, e fazias disso a tua riqueza: o que vivias, o que conhecias, o que aprendias. Pessoalmente, invejava-te sobretudo a capacidade de esquecer as ofensas. «Não é que perdoe, é que esqueço genuinamente. Não tenho arquivo para as coisas más, o que é que eu hei-de fazer?». E tornavas a rir. Era esse talento para o esquecimento o que te impedia de envelhecer.  Dizia Manuel Alberto Valente ao «Público», na bela e dolorosa edição que esse teu jornal de sempre te dedicou, que foste o grande intelectual da geração dele. O pior é que eu olho para a geração seguinte, a minha geração, e também não vejo ninguém como tu, capaz de fazer a ponte entre a universidade, as artes (todas as artes) e a vida, capaz de dar o corpo pelas causas (recordo-te muito doente, no Inverno passado, numa tarde gelada, no Rossio,  recolhendo assinaturas para o Movimento de cidadãos em prol da interrupção voluntária da gravidez), capaz de estar em tudo, e tão intensamente, como tu. Sendo simultaneamente, como tu eras, como tu és – porque os textos não morrem – um cintilante escritor. Várias vezes me pareceu que aquilo que escrevias sobre obras alheias era  melhor do que a obra em si. E tu, modestamente, incentivavas-me a que olhasse outra vez. Eu olhava – e, se nem sempre consegui gostar do que tu gostavas, consegui pelo menos descobrir novas dimensões e estímulos nas tuas razões. Tinhas um cânone estético bem definido, mas de forma alguma estanque – pouco te perdoavam, aliás, uma coisa e outra. E tu, nas tintas. A frontalidade foi o único traço que senti alterar-se em ti, com o tempo – em particular nos últimos anos: como se a ronda da morte te levasse a escolher palavras cada vez mais directas e límpidas. Essa liberdade paga-se, claro –há pouco tempo telefonaras-me perguntando se não me importaria de a ir ao tribunal atestar do teu bom carácter.    

         Creio que essa liberdade indomável te terá vedado o acesso a cargos que terias servido na perfeição – ocorrem-me vários, desde Ministro da Cultura a director de programas da RTP. As tuas incessantes ideias e o teu modo comunicante de viver teriam sido muito úteis ao país – os dez anos em que foste conselheiro cultural em Paris marcaram uma projecção exponencial da cultura portuguesa em França.             

         Consola-me saber que não sofreste. Que apenas adormeceste, ao lado da mulher que amavas, depois de mais um dia feliz. Sem incomodar ninguém – como era teu timbre. Se me pedissem uma definição humana para a suavidade, eu dizia o teu nome. Eduardo Prado Coelho. E continuarei a evocar o teu riso, as tuas palavras, o teu exemplo, como se rodasse um inesgotável girassol.

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Como é possível não gostar do "General Lee"?

por Alexandre Guerra, em 18.08.17

Quantas horas passadas frente à televisão a ver os primos Duke a fazer as suas travessuras em Hazzard County ao volante do "General Lee". A questão é que na América de hoje, muito provavelmente, esta série não passaria no crivo dos puritanos de serviço.

 

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As vítimas secretas

por Pedro Correia, em 25.07.17

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 Inundações de Lisboa em 1967: número oficial de mortos nunca foi divulgado

 

Em política não pode valer tudo. Não pode, desde logo, um governo em democracia imitar procedimentos da ditadura.
Trinta e oito dias depois, o Ministério da Administração Interna e o Ministério da Justiça ainda não divulgaram a lista dos mortos nos trágicos incêndios dos concelhos de Pedrógão, Castanheira e Figueiró. Passado todo este tempo, tal lista permanece secreta. O que, obviamente, permite todas as especulações.
Alega-se "segredo de justiça", o que é absurdo. Uma lista de óbitos ocorridos num quadro de calamidade pública é secreta? Desde quando? Não foram registados no Instituto de Medicina Legal?
Insolitamente, repete-se em democracia o ocorrido com as cheias de Lisboa em 1967. Nessa altura a ditadura entendeu manter secreta a lista integral dos mortos, que nunca chegou a ser divulgada.

Uma vergonha então.

Uma vergonha agora.

 

Recordo que a necessidade de publicitar essa lista nominal é uma exigência dos próprios familiares. Até para efeitos de eventual contestação dos critérios que levaram as entidades oficiais a incluir ou excluir pessoas do rol de vítimas, com os correlativos apoios - de ordem financeira e psicológica - a que terão direito os sobreviventes mais próximos.
«Para nos organizarmos, para podermos conhecer-nos e trabalharmos juntos, temos de saber quem somos, quem são os familiares das vítimas», disse uma jurista de Figueiró dos Vinhos que perdeu um filho de cinco anos e está a organizar uma associação de vítimas da tragédia.

Associação Portuguesa de Seguradores já admitiu estar a ter dificuldades em obter informações sobre as vítimas, na tentativa de apoiar os familiares das pessoas que morreram e os feridos em estado grave, «por razões ligadas à circunstância de este processo se encontrar em segredo de justiça».

O caso só agora tornado público, graças à investigação do Expresso, da senhora atropelada quando abandonava a residência supostamente em pânico, apenas pode ser debatido porque o jornal o divulgou. E suscita desde logo a questão: por que motivo esta vítima foi excluída e o bombeiro vítima de um acidente rodoviário e falecido posteriormente, no hospital de Coimbra, consta da presumível lista?

 

Não faz o menor sentido associar a enumeração dos nomes das vítimas dos incêndios de Pedrógão, Castanheira e Figueiró ao segredo de justiça.
O que está em segredo de justiça, obviamente, é a componente processual, ligada à investigação que decorre no âmbito do Ministério Público.
A lista de mortos é um dado factual, sujeito a registo e portanto do domínio público: é inaceitável que se mantenha secreta.
Mais: a divulgação da lista decorre de um dever geral das entidades administrativas - e, acima de todas elas, do Governo - de prestar informações aos cidadãos sobre acontecimentos de inegável relevância pública.

 

É intolerável que esta questão esteja a ser tratada como segredo de Estado. Como se os tempos da censura e da opacidade política vigentes há meio século ainda vigorassem entre nós.

 

 

ADENDA:

«A não divulgação da lista das vítimas não tem cabimento»

(Ricardo Sá Fernandes, no Jornal de Notícias)

«Nestes casos, o segredo de justiça serve para apurar culpados, não para se aplicar a vítimas»

(Rogério Alves, no i)

«O segredo de justiça protege dois valores: a presunção da inocência e a investigação. Mas há duas situações que não estão abrangidas pelo segredo: quando existe comoção ou ansiedade social, que é o caso; ou quando há notícias contraditórias, que também é o caso.»

(José Miguel Júdice, no Jornal de Notícias)

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