Bloco a pique: salve-se quem puder
Louçã fundou o BE em 1999, Mortágua afundou-o em 2025

Trocou campanha autárquica por "show-off" mediterrânico: os eleitores retribuíram-lhe
Nunca entenderei o que levou Francisco Louçã, político intuitivo e sagaz, a patrocinar a candidatura de Mariana Mortágua ao posto cimeiro do Bloco de Esquerda. Mortágua não tem feitio nem paciência para a intendência partidária: só aprecia o palco parlamentar. E faltam-lhe atributos indispensáveis à actividade política: é totalmente destituída de dotes empáticos, revela um indisfarçável desdém perante quem não comungue do seu catecismo ideológico e tem nula capacidade de encaixe quando lhe fazem críticas.
Pior: desbaratou todo o esforço de moderação dentro do radicalismo que dirigentes anteriores, como Catarina Martins e Pedro Filipe Soares, vinham ensaiando para alargar a estreita base de um partido com residual representação autárquica e de escassa representação no mundo sindical.
Falar por slogans contra «os ricos», «os privados» e «a direita», aliás quase toda alcunhada «extrema-direita», tornava a gémea de Joana Mortágua numa personagem fora da sua época. Com o vocabulário mecanicista do PCP mas sem a ligação ao terreno que apesar de tudo os comunistas mantêm. Parecia desenterrada do PREC, época que esta mulher nascida em 1986 jamais conheceu excepto por lendas e narrativas.
Terá desejado experimentar a utopia revolucionária de 1975 alimentada pelos partidos que serviram de inspiração e berço à cartilha do BE.
Talvez por essa nostalgia de tempos que nunca viveu, trocou a recente campanha eleitoral autárquica, onde o seu partido lutava pela sobrevivência, por semanas de estridente show-off mediterrânico na chamada "flotilha humanitária". Cambiou os portugueses pelos palestinos a pretexto do respeito absoluto pelos direitos humanos, logo ela que em 2022 tanta compreensão revelou por Vladimir Putin, o carrasco da Ucrânia.
Os eleitores retribuíram-lhe o desprezo. Nem nos seus piores pesadelos os dirigentes do Bloco imaginavam o catastrófico desfecho das autárquicas de 12 de Outubro. Que funcionaram como toque a finados da liderança de Mortágua.
Com ela ao leme, o BE perdeu 80% dos seus vereadores a nível nacional, baixando de cinco para um - este à boleia do PS em Lisboa. Em 2021 elegera 94 deputados municipais em todo o País, restam-lhe 20. Tinha 62 eleitos em freguesias, agora ficou com 31. Desastre absoluto.
Há dois anos, quando chegou ao topo com aclamação das bases, o Bloco de Esquerda tinha cinco deputados: perdeu quatro de então para cá, baixando de 4,4% para 2% em percentagem eleitoral. Queda abrupta também em votos, passando dos 244.603 obtidos em 2022 para os 125.710 das legislativas de Maio. Tinha dois eurodeputados, resta-lhe um assento solitário em Bruxelas (o de Catarina Martins). No parlamento regional dos Açores perdeu metade, baixando de dois para um (com 1,3% nas urnas). Manteve-se fora do parlamento regional da Madeira (onde se ficou pelos 0,3%).
Ao ser eleita, em Maio de 2023, declarou aos camaradas que lhe tributaram sonora ovação: «É só o começo, ainda não viram nada.»
Tinha razão, mas pelos piores motivos na óptica dos seus apoiantes.
Enfim, atingiu o Princípio de Peter ao aceitar um encargo para o qual não tinha competência. Hoje o BE, que em 2019 chegou a ser o terceiro maior partido português - com 19 deputados em São Bento, dois eurodeputados, dois deputados regionais, 12 vereadores, 125 deputados municipais e 213 eleitos em freguesias - está reduzido à expressão ínfima.
Tornou-se um micropartido.
Tão micro como a UDP, o PSR e a Política XXI que em 1999 estiveram na sua base. Neste sentido, e para usar um termo leninista, Mortágua actuou como aliada objectiva da direita. Obviamente, demite-se: acaba de anunciar que abandonará a liderança. Percebeu demasiado tarde o problema. A questão é que nunca lá devia ter chegado.
Louçã fundou o Bloco em 1999, a sua protegida acaba de afundá-lo. Sem salvação à vista: nenhuma "flotilha humanitária" virá em seu socorro.
Leitura complementar:
A liberdade em marcha-atrás (21 de Maio de 2024)
Extremismo contra os «ricos» e o «lucro» (22 de Outubro de 2024)
A Mortágua (21 de Maio de 2025)
















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