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Delito de Opinião

O Discurso*

José Meireles Graça, 27.04.21

No site da Presidência da República não encontro o texto do discurso presidencial no 25 de Abril. Ou está lá e não o vislumbro, mas era de esperar que fosse fácil nele tropeçar, ou não está e deveria porque o site, que abunda em fotografias e vídeos de Sua Excelência (na verdade com tal profusão e detalhe que se estranha não o vejamos a lavar os dentes), bem poderia conter, ainda que numa secção separada, textos: a página da presidência da República na internet não é bem o YouTube.

De modo que fui ouvir e fiquei com uma impressão geral. Negativa, lamento dizê-lo, mais ainda porque a peça foi aplaudida de pé, pareceu-me que por todas as bancadas.

Percorrendo a imprensa, é um imenso caudal laudatório, paroxístico, por exemplo, neste caso: “O discurso do Presidente, bem para lá da sua erudição, é um discurso de coragem e de inteligência, que arrasa a ideia absurda de que o passado pode ser depurado com os julgamentos do presente”. Fantástico: o director acha que a enunciação do abc da análise histórica “arrasa” a ideia “absurda” que ele, Manuel Carvalho, provavelmente tinha e agora já não tem, de que devemos interpretar o passado como se os seus agentes tivessem conhecimento de factos e ideias que só aconteceram, e nasceram, depois; a coragem não se vê onde esteja porque para agradar a toda a gente não é precisa, antes um tipo particular de indefinição; e inteligência sim, no caso infelizmente apenas a que propicia o sucesso na manutenção do status quo.

Isto é jornalismo do bom, em que pesem lá essas notícias de os apoios estatais (isto é, do contribuinte) ajudarem a que não morram de esgotamento títulos prestigiados. Da classe política não apreciei reacções posteriores, devido à minha natural aversão a exercícios de autoflagelação, mas calhou ler esta notícia sobre declarações do presidente do Governo Regional dos Açores:

Creio que fez um discurso brilhante sobretudo para desvalorizar o contexto de circunstância, mas valorizar a substância do que é a história da democracia e da liberdade e o que representa a unidade nesta conquista", sublinhou o social-democrata José Manuel Bolieiro, numa entrevista no jornal da RTP 3.

Não me apercebi de que o discurso tenha valorizado a substância, nem aliás do que Bolieiro quis dizer, de modo que não li o resto, por medo de que me escasseassem as luzes para entender.

Sem texto, como disse a princípio, limito-me a comentar alguns excertos, que encontrei aqui, e deixo para o fim uma apreciação genérica:

O 25 de abril, disse, foi “o resultado de décadas de resistência e grito de revolta de militares, que sentiam combater sem futuro político visível ou viável”.

As “décadas de resistência”, lamento informar, não tiveram qualquer importância para a eclosão da quartelada, o “grito de revolta” sim. Façamos a nós mesmos a seguinte pergunta: se, num mundo contra-factual, nunca tivessem existido comunistas, os principais depositários da resistência, por serem sobretudo eles que tinham força anímica para suportarem os riscos e inconvenientes da oposição ao regime, o 25 de Abril (o dia inicial inteiro e limpo, não o que se passou depois) teria ou não teria tido lugar do mesmo modo? Deixo a resposta aos leitores argutos.

Marcelo continuou, salientando a importância de se “olhar com os olhos de hoje e tentar olhar com os olhos do passado”, explicando que nos olhos de hoje há uma “densidade personalista, de respeito da dignidade da pessoa humana, da condenação da escravatura e do esclavagismo, na recusa do racismo e das demais xenofobias que se foi apurando, representando um avanço cultural e civilizacional irreversível”.

Da imaginária originalidade desta reflexão já falei acima, ainda que o lembrete seja útil para os movimentos contemporâneos, originados nos Estados Unidos, de um absurdo ajuste de contas com o passado, de que são representantes entre nós o dr. Mamadou, a dra. Joacine e outros peso-pluma do pensamento de esquerda mais ou menos interesseira e lunática. Era a eles que o Presidente se estava a dirigir? Seria gastar cera com mau defunto. De modo que não se está bem a ver quem seriam os destinatários da aula de introdução ao curso de História – só se forem aqueles, e foram muitos, e ilustres, que no 24 de Abril conviviam pacificamente com o regime deposto e nele teriam feito carreira se não tivesse havido o percalço da revolução.

“Desenvolvimento, liberdade e democracia sempre foram imperfeitos e, por isso, não plenos”, continuou. “Não há, nunca houve, um Portugal perfeito nem condenado. Há um só Portugal, que amamos, para além dos claros e escuros”, rematou.

Pois sim, estamos transidos de amor, lá isso não há que negar. Mesmo que os excessos ("os Estados Unidos da América são um grande país, mas Portugal ainda é maior”) desse abrasador sentimento talvez levassem Eça, se fosse vivo, a achar que a declaração encaixava numa das suas definições de patriotaças, patriotinheiros, patriotadores ou patriotarrecas. E de escuros ouvimos nada, que o dia não é de depressão – nunca é, com Marcelo.

Isabel Pereira dos Santos, amiga de muitos duelos, escandalizou-se no Facebook com a apreciação (deveria talvez dizer depreciação) com a qual respondi ao seu post em que considerava o discurso “absolutamente brilhante”. Abaixo a transcrevo:

Um discurso que agrada a toda a gente só pode ser ou uma coisa de tal modo brilhante que Marcelo não a poderia produzir ou um balde de água chilra embrulhado em vacuidades consensuais suficientemente doutorais e pedantes para que as pessoas vejam o que lá não está. Aposto singelo contra dobrado que tenho motivo para uma crónica, para gáudio dos meus 13 leitores.

Bem, não fui ler pelas razões que já enunciei, mas fui ouvir. Uma boa oração, o homem sabe escrever e discursar, tiro-lhe o chapéu por isso e porque, ao contrário do ausente Cavaco, não desprezo a retórica, menos ainda a parlamentar. Compreendo o aplauso unânime: está lá uma palavra de compreensão para todos os derrotados e perdedores, uma de congratulação para todos os vencedores, uma de esperança para todos os desencantados, uma de homenagem aos que no regime anterior queriam substituir a ditadura por outra pior, e uma de admiração pelos heróis do 25 do quatro. Está tudo isto, e tudo isto com brilho. O que não está é a quartelada que o 25 de Abril foi, a sua captura por quem tinha a estratégia, e os conhecimentos, que aos capitães faltavam, o falhanço do escopo desenvolvimentista, o futuro penhorado pela dívida, a alienação do módico de independência que uma pequena nação pode ter e a captura do aparelho de Estado por uma casta que comprou, com dinheiro alheio, votantes cativos. A defesa da perspectiva histórica correcta (isto é, não ver o passado com os olhos das ideias e factos que só nasceram e aconteceram depois) é oportuna mas relativamente vulgar - o género de coisa que impressiona deputados e jornalistas, uns e outros geralmente com uma ilustração por demais escassa.

E foi isto. Peço desculpa por não me associar às comemorações. Aliás, se vivesse em Lisboa, ainda me meteria em trabalhos por não usar máscara na rua, não tendo da liberdade que Abril nos trouxe a mesma concepção de quem as usa.

* Publicado aqui

O discurso do PR no 25 de Abril

jpt, 25.04.21

(Discurso do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa do 47.º aniversário do 25 de Abril na Assembleia da República)

Os meus amigos sabem quanto resmungo contra o Presidente Sousa. Da sua presidência retiro dois grandes momentos: o excepcional discurso de 11 de Junho de 2019, em Cabo Verde, proferido por João Miguel Tavares devido a convite do PR - discurso então muito atacado e, acima de tudo, esquecido pela pobre "esquerda" inintelectual vigente.

E este magnífico discurso de hoje do próprio Presidente da República. A dizer, e bem, o que é preciso. Tardou, muito. Mas está dito! E permite esperar que a partir de agora tenhamos Presidente. Com a densidade e a "compostura" que tão necessárias são.

São 20 minutos. E muito se justifica ouvi-los.

O "Babygro" político: Marcelo Rebelo de Sousa

jpt, 17.04.21

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(Postal também colocado aqui)

Artur Portela (durante décadas conhecido como Portela Filho) morreu há pouco. Das minhas estantes paternas recuperei-lhe alguns livros, em particular estas colectâneas "A Funda", belo mostruário da década de 1970. Deste quarto volume (Editora Arcádia, 1974) retiro este texto, de Janeiro de 1974, um elogio a Marcelo Rebelo de Sousa. Será interessante 47 anos depois não só ler a memória daquele final do Estado Novo, mas também observar o actual presidente a partir deste texto:

O "babygro" político

Era o filho pródigo do Regime. / Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico. / Estava talhado, calibrado, destinado. / Não era um acidente - era uma raça. / Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam com um olhar terno. / Era Marcello. / Era Rebello. / Era De Souza. / E, excessivamente, Nuno.

Foi o escândalo. / Foi o escândalo quando ele, recusando sob Martinez, a reprise, rechaçando, sob Dias Rosas, a tarimba, apareceu por sobre o ombro Pestana & Brito de Francismo Balsemão, a espreitar. / Era a fronda do Expresso. / Não quiseram crer. 

E, no entanto, era bem ele, a vivacidade Tim-Tim, a barba Trotsky, o olhar Harold Loyd. / E o riso fácil, a voz estaladamente metálica, a inteligência extravasante, o brilho incontrolado. / O próprio excesso. / O Regime empalideceu. / A Esquerda riu. E a 3ª Força, ela mesmo, sentiu, naquele Gotha revoltado, naquela lei de  Mendel às avessas, naquela Divisão Azul, um compromisso, uma má consciência, um lastro, uma trela. / Um chumaço. / Uma bala de madeira. / Uma injustiça.

Esperava-se uma imoderação. / Foi uma táctica. / O Regime habituou-se àquela perda. A Esquerda, um momento desperta, mergulhou na sonolência da sua dor. / E os próprios Liberais, por instantes irritados com o metal daquela voz, com a velocidade daquela análise, com a fome daquela super-alimentação política, soltaram, de alívio, um suspiro quando ele se sentou, Z. Zagallo, atrás de Francisco Balsemão.

De resto, que podia Marcello Nuno perante as figuras colossais dos campeões liberais? / Do Norte, chegava, moralmente gigantesco, Sá Carneiro. Do Sul, assomava, consciência viva da Universidade, Miller Guerra. João Salgueiro lançava, para a mesa, na sua luva, o peso inteiro da Sedes, Magalhães Motta movia todo um Congresso. Xavier Pintado desembaciava, do bafo do poder, as suas lentes poderosas. E Francisco Balsemão, de uma rotativa renitentemente Lopes do Souto, arrancava esse "tour de force" que eram 70 000 cópias do "Expresso".

E quando, de trás, da sombra, Marcello Nuno, lápis trémulo, soerguia uma qualquer sugestão, corria, em redor da mesa, um sorriso paternal. / Parecia ser o fim das mais belas esperanças. / O Regime enxugou, por ele, a sua última lágrima. / Fora o príncipe - era o pobre.

Como foi que aconteceu - sabem-no poucos. / Os Liberais, por instantes sob o fogo dos projectores, apagam-se. Um a um. Como lâmpadas de uma peça proibida. / Sá Carneiro é já um bronze a si próprio. A Sedes converte-se num Rotary de quadros. Magalhães Motta está pulindo, inutilmente, a tabuleta de advogado. Xavier Pintado perde o fôlego. E Francisco Balsemão faz Porsche.

Vai-se a ver - e quem está? / Está - quem o diria? - Marcello Nuno. / Só ele se move. Só ele existe. Só ele manobra. / Ele é, nas eleições, a única carta nova dos liberais. O seu único talento. A sua única voz forte e original. A sua única manobra. 

A 2ª página do "Expresso" é ele. A 3ª página do "Expresso" é ele. É ele que flirta com  a Oposição. É ele que desmantela aquele barão A. N. P. / Os títulos são ele. / Os itálicos são ele. / A manobra é ele. / Sá Carneiro faz grandeza. Miller Guerra faz pitoresco. Francisco Balsemão faz charme. / Marcello Nuno faz política.

Há, em tudo isto, a inteligência descompassad da imaturidade? / Há. / Há, em tudo isto, o intelectualismo, a abstracção, o jogo, o luxo, o revanchismo, o edipismo? / Há. / Há, em tudo isto, Freud e Júlio Verne, Luís XIV quando jovem e Douglas Fairbanks Júnior, José António Primo de Rivera e Mickey Rooney? / Há. 

Mas como é possível que a 3ª Força não tenha envergadura para absorver esta descarga eléctrica, para sublimar este escândalo de qualidade, para disciplinar este brilhantismo avulso e lúdico? / Não tem ela a sua disciplina ideológica, a sua hierarquia moral, a sua separação de poderes, o seu ministério sombra, a sua escrita em dia, a sua poeira assente, o seu espírito de seriedade, a sua mochila, o seu colete, o seu polimento? / O seu primeiro jovem turco vai logo a Ataturk? / Que é isto - uma força ou um terreno vago?

Os Liberais acabaram? / Não necessariamente. Mas já fizeram a sua adolescência histórica. / E ainda não sairam dela. / Isto que prova? / Prova que a 3ª Força é a impaciência da 1ª Força. / Prova que a política não é apenas uma generosidade mas também uma hereditariedade. / Prova que a vida política portuguesa se conta pelos dedos - e que a 3ª Força tem o seu Pulgarzinho. / Acontece com Marcello Nuno esta coisa cara aos monárquicos - a vocação política como bem moral de raiz. 

O pai Miller Guerra ofereceu ao filho Miller Guerra, talvez, um estetoscópio de brinquedo. / O pai Sá Carneiro ofereceu ao filho Sá Carneiro, talvez, uma toga de ganga. / O tio Balsemão ofereceu ao sobrinho Balsemão, talvez, uma rotativa de latão. / A Marcello Nuno deram, talvez, 99 000 quilómetros quadrados de esperança e dez milhões de bonecos de pasta. / É o que se chama - um "Babygro" político. 

Tem ainda outra vantagem. / Decisiva, essa. / O ser meu amigo. / E, claro, meu adversário.

Nota: Troquei os parágrafos utilizados pelo autor pela barra ("/") apenas para tornar o texto menos longo no suporte de blog.

 

O primeiro dia da segunda etapa

Pedro Correia, 09.03.21

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«Uma pátria é muito mais do que o local onde nascemos.»

 

«Este foi um ano demolidor para a vida e a saúde, para o emprego e os rendimentos, para os planos e as realizações, as comunidades, as famílias, as pessoas, cada um de nós.»

 

«Teremos de reconstruir a vida das pessoas, que é tudo ou quase tudo: emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos.»

 

«Queremos usar os fundos europeus com clareza estratégica, boa gestão, transparência e eficácia.»

 

«Queremos uma democracia que seja eticamente republicana na limitação dos mandatos, convergência no regime e alternativa clara na governação, estabilidade sem pântano, justiça com segurança, renovação que evite rotura, antecipação que impeça decadência, proximidade que impossibilite deslumbramento, arrogância, abuso do poder.»

 

«Que seja esta a primeira lição do dia de hoje: vivemos em democracia, queremos continuar a viver em democracia e em democracia combater as mais graves pandemias. Preferimos a liberdade à opressão, o diálogo ao monólogo, o pluralismo à censura, e demonstrámo-lo realizando duas eleições em pandemia, de uma das quais resultou a subida da oposição ao Governo.»

 

Frases de Marcelo Rebelo de Sousa no excelente discurso que hoje proferiu no alto da tribuna do Parlamento, marcando o início simbólico do seu segundo mandato presidencial

Sobre o funeral de Marcelino da Mata

jpt, 20.02.21

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É certo que um antigo disse que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Mas outro escreveu que nada há de novo sob este Sol. E assim o problema de se blogar há já 18 anos é que, quase certamente, já se botou algo sobre a maioria das coisas que vão acontecendo.

A morte do tenente-coronel Marcelino da Mata provocou polémica - decerto que incrementada pela generalizada inactividade neste Covidoceno. E que foi muito potenciada pela presença do Presidente da República no seu funeral. Várias vezes já aqui invectivei o histriónico exercício presidencial de Sousa, forma de preencher a vacuidade do seu projecto político, apenas pessoalista - anacronicamente  mimetizando o modus faciendi tardo-imperial do seu digníssimo pai, aquando Governador-Geral de Moçambique. Cabota desprovido de gravitas, minando a auctoritas da função, a esta esvaziando, reduzindo-a a influência dependente das fragilidades conjunturais dos outros órgãos de soberania. O eleitorado (também conhecido por "povo") gosta e vota. E Sousa recompensa-se nisso. E o país deficita. Para não dizer definha.

Nesta ocasião isso é evidente. Alimentando uma situação em que - apesar deste contexto de crise gravíssima e de urgentes decisões estratégicas- , o país mediático está de novo - como o vem estando desde há quase dois anos - encerrado no confronto das minorias demagógicas, os ultramontanos saudosistas face aos revanchistas identitaristas, estes acalentados pelo Partido Socialista no âmbito da sua estratégia de dominação dos diversos feixes da esquerda urbana. Serve isto para articiosamente acirrar campos, nada mais.

Sobre este assunto é certo que há algumas vozes ponderadas, mas são escassas: o texto "Memórias de Sangue" do socialista Sérgio Sousa Pinto é um exemplo de sageza. Mas que ficará dele retido quando no mesmo dia um seu correligionário, o deputado Ascenso Simões, estuporadamente lamenta não ter havido mais mortos no 25 de Abril (bem mais agressivo e incompreensível do que o activista Mamadou Ba quando na academia, citando Fanon, convocou a "morte do homem branco" - da mundivisão dominante)? Propondo ainda Ascenso Simões, a coberto do revisionismo patrimonial, que se derrube o Padrão dos Descobrimentos?

Mas enfim, o que me convoca aqui é esta continuada incontinência do Presidente Sousa, a sua imponderação. Durante esta semana, diante deste despautério - repito, potenciado pela sua presença no funeral do tenente-coronel Mata, símbolo da africanização das tropas portuguesas - recordei-me de um texto que botei em 12 de Julho de 2004. Sobre a ausência do então Presidente Jorge Sampaio do funeral de Maria de Lurdes Pintassilgo - de quem ele era, pelo menos ideologicamente, bem próximo. A demonstrar que há outras formas de exercer o poder. E que são melhores, mais sagazes. Mais competentes. Mesmo que discordemos politicamente dos agentes políticos. E mesmo que menos beijoqueiras. Aqui reproduzo o texto:

O Poder e a Morte

"A ausência de Jorge Sampaio foi muito notada mas um dos seus assessores lembrou que o Presidente "nunca vai a funerais." (no "Público", em notícia a propósito da morte de Maria de Lurdes Pintassilgo, falecida a 10 de Julho desse ano). Notam, reparam, no sagrado do poder? O do rei sagrado, chefe tradicional, ungido pelos deuses, actual antepassado, centro da sociedade, ponto meridiano do cosmos, descendente e representante do passado, garante da continuidade, aquele que faz chuva, que ordena as estações, que faz frutificar, aquele que nos leva até ao futuro, o que dá vida. Esse nunca, mas nunca, vai a funerais, não se conspurca com a morte. Não periga a fertilidade de que é representante, garantia, "banco", "carteiro". Não a periga com a poluição do fim. Da morte infértil, caótica.

Nada critico, pelo contrário. Fico surpreendido, e deliciado, ao saber que a instituição política mais importante de Portugal, dotada de mais simbolismo [mais alto (magistrado), comandante em chefe, garante, árbitro, etc], concebido como figura central do sistema político português, pelo que da própria sociedade, cumpre um tabu (e sai termo vulgar), o tabu da morte, que é recorrente numa pluralidade de outras sociedades. Algo do simbólico do poder que eu nunca tinha percebido no meu país. Excelente. A mostrar continuidades no nosso Portugal moderno, racionalista. Até laico. Pois esta arquitectura da função presidencial não deriva de dificuldades com o "sobrecarregar de agendas" ou de "critérios optativos". Mas sim de avisadas continuidades do não-dito. Tantas vezes do não-pensado. O ritual do poder, assim sua essência.

O próximo texto sobre a matéria será quando vir um PR presente num funeral. Pois isso significará algo. E não será para o criticar, mas sim para tentar perceber as causas de tamanha inflexão.

ADENDA:  Comentadores referem-me que o PR frequenta funerais dos seus pares estrangeiros: mas essas são mortes estrangeiras, forasteiras, no exterior, não poluem a nossa ordem fértil, não perigam a nossa saúde. 

Isto tem tudo muita piada

jpt, 08.02.21

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Leio isto "...ou do Sr. Presidente da República, que decidiu estrear o seu segundo mandato num programa de humor, em plena catástrofe.". E intuo o que significa. Vou pesquisar e confirmo: no meio de tudo o que está a acontecer, Sousa, reeleito presidente, deu a primeira entrevista no programa de comédia de Araújo Pereira. Como se nada fosse. Isto é completamente inenarrável. É não ter um pingo de noção.
 
E há uma enorme mole de gente que vota nisto. E aplaude. Imensos milhares que até se devem ter sentado no sofá, sintonizados e a sorrir. É o cume da inconsciência. A de Sousa. A dos seus assessores. E, muito pior do que tudo, da massa eleitora/espectadora.

«É a pior situação que vivemos»

Pedro Correia, 29.01.21

 

«A versão inglesa do vírus surgiu e propagou-se vertiginosamente, abarcando mais de 50% dos casos em áreas como a Grande Lisboa.»

 

«O número de mortes cresce a um ritmo há meses inimaginável. E, com ele, cresce a perigosa insensibillidade à vida e à morte.»

 

«É preciso agir depressa e drasticamente.»

 

«Temos de estar preparados para confinamento e ensino à distância mais duradouros do que se pensava antes desta escalada.»

 

«Temos de, na medida do necessário, usar o controlo de fronteiras à entrada e à saída.»

 

«Não vale a pena esconder a realidade, fazer de conta, iludir a situação. Porque esta situação é mesmo a pior que vivemos desde Março do ano passado.»

 

Marcelo Rebelo de Sousa, em mensagem ao País, ontem à hora do jantar

 

Presidenciais (19)

Pedro Correia, 26.01.21

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FALAR DO QUE INTERESSA

Na noite das presidenciais ouvimos vários discursos. Alguns verdadeiramente lamentáveis, como o do zangadíssimo Rui Rio, que reclamava para o seu partido os louros da vitória de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto zurzia em jornalistas e comentadores, e o de Ana Gomes, que aproveitou o momento para um deplorável ajuste de contas com António Costa, que a ignorou olimpicamente durante a campanha. Ou o de Catarina Martins, que sorria com ar enlevado como se não acabasse de ter visto a sua candidata sofrer uma humilhante derrota nas urnas. Ou o de André Ventura, que parecia ter tocado a estratosfera do alto dos seus 11,9% - percentagem muito inferior à que obteve quando se candidatou pelo PSD à Câmara Municipal de Loures.

A melhor intervenção, de longe, foi a última. A do vencedor. Marcelo foi sereno e sóbrio, sem triunfalismo de qualquer espécie, na mensagem escrita que dirigiu aos portugueses. Está consciente das imensas dificuldades que o aguardam num mandato que ninguém pode invejar. Talvez por isso, foi o único a abordar em pormenor o tema mais preocupante: este duríssimo combate à pandemia, com a grave crise sanitária contrariando todo o optimismo que o Governo andou a impingir-nos, enquanto a crise económica e social vai espreitando ao virar da esquina. Em 30 de Setembro, quando terminarem as moratórias de crédito entretanto prorrogadas, isto tornar-se-á muito evidente.

«É a minha, a vossa, a nossa principal missão: primeiro, conter e aliviar a pandemia; para depois podermos passar para o que tanto precisamos, a reconstrução», declarou o Presidente reeleito neste notável discurso de vitória, proferido na reitoria da Universidade de Lisboa. Em contraste com vários outros oradores da noite, que ignoraram o tema ou o remeteram para plano secundário. Como se houvesse hoje alguma outra prioridade na vida nacional.

Falar do que interessa, sem politiquices nem mesquinhos cálculos de tacticismo imediatos, consciente deste pesadelo bem real que assombra o quotidiano das pessoas concretas: isto explica por que motivo o recandidato fez a diferença neste escrutínio em que obteve mais 8,7% e mais 122 mil votos do que conseguira em 2016. Com um impressionante intervalo de dois milhões de votos para a segunda classificada.

Quem na cena política portuguesa persiste em não entender isto, vive num mundo paralelo, desligado da realidade. Faria bem em aprender alguma coisa com o professor Marcelo.

 

Presidenciais (17)

Pedro Correia, 25.01.21

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AS ESQUERDAS GOLEADAS

Três candidaturas presidenciais assumidamente "de esquerda", assim se proclamando perante o eleitorado com os chavões próprios de quem vê o mundo a preto e branco diabolizando a outra metade do hemisfério.

Estas três candidaturas, somadas, só recolheram 21% dos votos ontem expressos nas urnas. Menos do que Sampaio da Nóvoa isolado há cinco anos. O equivalente ao que Manuel Alegre obteve em 2006, também sozinho.

Quase quatro quintos dos portugueses que compareceram nas mesas de voto deixaram evidente a sua preferência por outras opções, situadas em território da não-esquerda. O das direitas, para usar o rudimentar léxico político importado da geometria. A direita social, a direita liberal, a direita autocrática. 

À luz desta lógica de arrumação política, as esquerdas personificadas em Ana Gomes, João Ferreira e Marisa Matias acabam de sofrer uma goleada histórica nesta eleição presidencial de que sai um claro vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa, reforçando o seu triunfo de 2016 com mais cem mil votos e quase mais nove pontos percentuais do que alcançou há cinco anos.

Sendo também o primeiro Presidente, na história da democracia portuguesa, a vencer em todos os concelhos do País.

 

Nada fica igual: este escrutínio ocorrido no auge da gravíssima crise pandémica que só ontem causou mais 275 vítimas mortais produzirá efeitos sísmicos na política portuguesa. Forçando reconfigurações em vários tabuleiros, como se verá a curto prazo.

A primeira consequência é a morte do CDS, apesar da patética tentativa do seu ainda presidente de colar-se ao grande vencedor da noite. Merece exéquias dignas. Paz à sua alma. 

Mas muito mais vai mudar. Com legitimidade revalidada, Marcelo não perdeu tempo. No discurso de vitória, na Reitoria da Universidade de Lisboa, acaba de dizer com total transparência que um dos seus objectivos, no segundo mandato a iniciar em Março, será contribuir para uma «alternativa forte» ao actual Governo «para que a sensação de vazio não convide a desesperos e a aventuras».

Recado que segue direito para Rui Rio. O ainda presidente do PSD nunca poderá dizer que não foi avisado.

A campanha minimal

João Sousa, 21.01.21

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A comunicação social publicitou que Marcelo Rebelo de Sousa seria o candidato, após Vitorino Silva, com orçamento de campanha mais reduzido. Além disso, Marcelo prescindiu dos tempos de antena e só planeou fazer "campanha de rua" durante quatro dias por, veja-se lá, D. Marcelo I "O Justo" pretender "evitar expôr uma disparidade entre as imagens da sua história recente como Chefe de Estado e as dos outros candidatos".

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Campanha minimal? O que foi o primeiro mandato de Marcelo senão uma longa e dispendiosa campanha eleitoral?

De súbito, a vichyssoise

jpt, 20.01.21

 
Tudo piora, numa crise extrema qual a Itália de Fevereiro. Muito pior, aliás, pois mostra a quem tenha um mínimo de decência que neste último ano o governo foi incapaz de aprender e de preparar a administração e a sociedade para a mais-que previsível nova vaga, num insuportável cúmulo de inépcia e inacção, uma incompetência inenarrável. E há quem, numa abjecta indignidade, ainda os sufrague.
 
Os governantes, para se defenderem, sempre fiéis à ideia de que o importante é "ficarem bem na foto", clamam que afinal a culpa é nossa, da nossa "mentalidade" diz Costa, diz a Temido, essa aberração, dizem os prostitutos do regime, os (...) das administrações não executivas, os académicos em busca de "grupos de trabalho", os jornalistas avençados, moles apenas sôfregas das tenças. Miserável gente. Passaram meses a criticar governos de países nos quais a pandemia mais grassava, o Trump, o Bolsonaro, o Boris, até um pouco os suecos e por aí afora. Agora, aqui? Os governantes estão correctos, o povo não presta ...
 
É a nossa "mentalidade" que está errada? Não foram os portugueses a recuar para casa, encerrando seus filhos, seus mais-velhos, logo em início de Março quando o governo inconsciente continuava a protelar, clamando (a senhora da DGS) contra o encerramento das escolas privadas, apelando (a senhora da DGS) a que visitássemos os lares, afirmando (o PR e o MNE) a impossibilidade do fecho das fronteiras? Augurando (a ministra da agricultura) que agora é que ia ser, o inundar da China com as nossas exportações? É a nossa "mentalidade" que está errada? Não clamámos, tantos de nós, contra os sinais erráticos do poder, do "25 de Abril" não mascarado, das manifestações autorizadas, do avante às festas e aos grandes prémios?, não contestámos que isso implicaria uma aligeirar da concentração diante dos perigos? Não apontámos o desvario (do PR Sousa) na trepidante campanha veraneante, em tronco nu Algarves afora? Onde esteve, estes meses todos, a "mentalidade" do poder, a gravitas, a consciência? A razão? Um poder tonto, é que tivemos, que temos.
 
E Sousa, esse, serve-lhes, aos do governo, a vichyssoise: o governo não se preparou para a terceira vaga, diz o PR. Como se não tivesse qualquer influência no que se passa. Eanes demitiu governos e constituiu os seus, Soares bateu-se com Cavaco, Sampaio demitiu governos maioritários, Cavaco restringiu-se mas em surdina marcou. E este pateta apenas troca de cuecas em público, roça-se, sem pudor, no povo, partilha bolos com os meninos, fotografa-se. E mente.
 
É evidente que foi o social do Natal que catapultou o que se passa. Exaurindo SNS e matando gente. Apesar de tudo houve gente no governo que quis incrementar as restrições nesse período. Inclusive lançou-se uma campanha publicitária (de facto propagandística, propaganda de cidadania): esta "Não deixes entra o vírus" - feita à revelia do inenarrável Ministério da Saúde, para o qual é suficiente deixar um ridículo doutor, de bigode retorcido, a mandar-nos fazer compotas, para re-mobilizar as pessoas diante dos perigos (que melhor ilustração da desvairada cultura das elites da administração pública, dos atrevimentos dos pequenos poderes?). Pois então as opiniões internas eram diversas. E o vosso "Marcelo", o meu abjecto "Sousa", influenciou-os, aos do governo, a animar o Natal, isso pressionou, para proteger tanto o comércio como os "afectos" e "famílias" deste país tão "católico". E, ainda que muitos quiséssemos "não deixar entrar o vírus" no Natal, veio ele (lembrai-vos?), risonho, anunciar que iria fazer várias refeições em família. Quereis maior minar das preocupações, das cautelas? Só se pensar na propaganda do governo, na véspera do Natal a anunciar as vacinas, quais prendas no sapatinho, e a enviar SMS's aos portugueses (aos eleitores, que é só assim que nos percebem, só assim, para isso, contamos). Haverá maior desincentivo para uma "mentalidade" hiper-cautelosa?
 
E vem agora Sousa atirar a vichyssoise aos pacóvios do governo, apontar-lhes a responsabilidade, descartar a caspa que lhe cobre a alma. Os do governo muito merecem e fazem por merecer as deslealdades dos cúmplices. E comem agora do que promovem. O aldrabismo visceral - e, infelizmente, neste caso assassino - do "católico" Sousa.
 
Entretanto, passam-se semanas em negociações, esperando pareceres de infarmeds e umas eleições que ninguém pensou em planificar - nem um boletim de voto apropriado conseguiram fazer, para além do caos das votações antecipadas, sob um ministro tétrico, esse abominável Cabrita. E, ainda que Costa tivesse dito em finais de Abril que tudo faria para nos proteger da pandemia, mesmo que violando a Constituição, nem conseguiram antecipar tudo isto, planificar o adiar das eleições. E dizem-nos, afinal e como se não fosse para eles letal, que não têm tempo para a "revisão constitucional" que seria necessária para esse adiamento. Que andaram a pensar nestes meses? Enfim, todas estas delongas, todas estas "excepções", toda esta abissal disfucionalidade, toda esta "crónica da crise anunciada", tudo isto pela vontade titubeante, nada esclarecida, de querer proteger "interesses". E tudo descamba.
 
Costa não é Sócrates (quer sê-lo quando procura controlar, para ganhos dos seus, o dinheiro europeu, nas manigâncias da ministra Dunem). De facto, Costa mostra-se agora tal e qual é, o pouco que é: um Guterres de segunda, emaranhado nas indecisões e nos tacticismos, na aflição da opção, numa indecisão radical para tudo que ultrapasse o mero jogo de bastidores, esse pouco que julga ser a política. Costa nada é, para além deste desastre evitável.
 
Guterres foi-se quando se levantaram os produtores de vinho, por causa do limite alcóolico dos condutores. Foi-se por uma minudência, a gota de vinho a transbordar o copo. Foi há vinte anos. Ainda havia energia para protestos consistentes.
 
E agora, apenas vinte anos passados, aceitamos este aldrabismo de Sousa, esta atrapalhação de Costa.
 
O país precisa de ventilador.
 

Presidenciais (7)

Pedro Correia, 15.01.21

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UNIDO À MÁSCARA

Terça à noite, na RTP, houve um espectáculo dentro do espectáculo: seis candidatos presidenciais, reunidos no Pátio da Galé, debateram com um sétimo candidato, que ali só compareceu por via digital. Privilégio de rei-soberano, que não se digna descer ao povoado. Mesmo que o "povoado", como era o caso, se situe no Terreiro do Paço.

Os primeiros falaram sem máscara. O que se manteve à distância fez questão de aparecer com ela. Apesar de se encontrar em casa. «Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?», interrogava-se há nove meses Ferro Rodrigues, segunda figura do Estado português. Sem imaginar que, nove meses depois, a primeira figura nem a dispensaria no aconchego das paredes domésticas.

O "presidente dos afectos", que distribuía abracinhos e beijinhos, deu agora lugar ao "presidente dos infectos", que se resguarda de si próprio na solidão do lar. Quem diria que se trata do mesmo intrépido aventureiro que noutro século se atreveu a mergulhar na poluição do Tejo?

Travou no último instante

Paulo Sousa, 12.01.21

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Marcelo Rebelo de Sousa disse hoje à RTP, à porta de sua casa, que estava muito irritado com as autoridades de saúde.

"Sinto-me muito irritado porque não me dão, por escrito, uma posição sobre se eu podia ir ao debate ou não. Portanto, não tendo uma posição, esperei, esperei. A primeira posição era que eu podia ir, a segunda é que não, verbalmente.” (…) “Estou à espera, quando chegar, como é natural, já não tenho tempo para ir ao debate”.

Reconheceu ainda que o Presidente tem de ser tratado como “qualquer cidadão comum”, mas considera que “merece uma resposta”.

Eu vi as imagens, e de facto o nosso PR estava irritado. Bem sabemos do seu talento em representar o típico gajo tuga. Cheguei mesmo a pensar que, num excesso de inspiração teatral, lhe ia sair uma daquelas clássicas: “Isto só neste país, pá!”. Mas não. Lá se conteve.

Presidenciais (5)

Pedro Correia, 12.01.21

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A CAMPANHA QUE NÃO EXISTE

Estas presidenciais pós-natalícias têm vindo a transformar-se num nítido nulo, totalmente dominadas pela pandemia em curso. Os protagonistas políticos cederam palco aos virologistas. Existe apenas um vago ruído de fundo nos fugazes intervalos da monotícia Covid. A democracia segue dentro de momentos.

Ligada ao ventilador, em estado comatoso, esta campanha que já nasceu moribunda esteve ontem à beira de ser eutanasiada. Com o candidato favorito das sondagens, Rebelo de Sousa, a anunciar ao País que era portador de infecção. Quase todos os outros, que tinham estado com ele em dias anteriores, entraram em estado de prevenção profiláctica, recolhendo ao domicílio. E a campanha parecia ter congelado de vez.

Esta era a notícia da noite de ontem. A notícia desta manhã contradisse a anterior: Marcelo voltou a submeter-se ao teste e desta vez acusou negativo ("acusar negativo", neste caso, é positivo, o que simboliza bem o quadro geral de trapalhada em que vivemos). O jornalismo mais cortesão pode respirar de alívio: como noutros tempos se escrevia, «Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes».

O destino parece sorrir ao hipocondríaco Marcelo, positivo-negativo. Os adversários estão anestesiados, a militância política ficou reduzida a quase nada, o quadro sintomatológico do País é alarmante - o que favorece a benevolente figura do Chefe do Estado, zelador e cuidador do reino. 

Quando o inquilino de Belém se constipa, os portugueses sentem-se engripados. Marcelo já atraía eleitores de vários géneros - agora atrai também o eleitor comovido que ontem sentiu um susto ao supô-lo atingido pelo malfadado vírus. Incluindo ainda alguns dos quase 700 mil compatriotas que em 1976 votaram em Pinheiro de Azevedo, à época internado numa unidade de cuidados intensivos devido a um enfarte de miocárdio.

Ao voto por antecipação, que este ano deve ser mais elevado que nunca, junta-se o voto por comiseração. Os adversários de Marcelo têm motivos para tremer. E não é do frio.

Presidenciais (4)

Pedro Correia, 11.01.21

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DEBATE GOMES-MARCELO

Há uma diferença enorme entre querer e poder. Esta foi a frase extraída de um western que me veio à memória mal terminou o frente-a-frente da noite de anteontem entre Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa na RTP, bem moderado por Carlos Daniel. 

Para azar da nossa antiga representante em Jacarta, este não foi apenas o debate que lhe correu pior: foi também aquele em que Marcelo se saiu melhor. Enquanto ela titubeava, ele ia espetando farpas. Sempre de largo sorriso no rosto, talvez para aliviar a dor da antagonista.

Mas foram farpas precedidas de anestesia. Como sempre fez nestes debates, o presidente recandidato começou por elogiar quem tinha à frente. Ana Gomes - sublinhou - «teve um papel muito importante para Timor-Leste e para Portugal num momento histórico». Pura técnica retórica, que Marcelo domina com requinte florentino. 

Produziu efeitos com a bloquista Marisa Matias: quase só faltou saírem ambos a valsar do estúdio. E começou por funcionar também com a candidata apoiada pelo PAN e pelo Livre, ao ponto de o moderador se sentir forçado a dar-lhe duas deixas para ela criticar Marcelo. Antes que os telespectadores, bocejando, mudassem de canal.

Foi Carlos Daniel a sugerir ligação entre o suposto falhanço da pedagogia presidencial e o brutal aumento dos contágios por Covid-19 com uma pergunta directa à ex-eurodeputada: «Responsabiliza o Presidente da República pelo que está a acontecer?» Foi ele também a introduzir o tema do homicídio no SEF, que tanto incomoda Rebelo de Sousa. «Esta é das matérias em que eu faria diferente», afirmou a antiga militante do MRPP.

 

Ia a coisa a meio quando começou a haver debate. Ana Gomes atacou Rebelo de Sousa por viabilizar a nova solução governativa dos Açores - elogiando de caminho Cavaco Silva por ter convidado inicialmente Passos Coelho, vencedor nas urnas sem maioria parlamentar, para formar governo no Outono de 2015. Carregou de achismos a sua arma verbal e disparou: «Acho grave, normaliza uma força de extrema-direita.»

Seguiu-se este diálogo, com Marcelo a falar cada vez mais depressa e Gomes a pisar o travão:

- Como é que o Presidente da República recusa uma maioria parlamentar? (...) A posição da senhora embaixadora é proibir, fazer cordão sanitário. Eu sou contra. Ganha-se no debate das ideias, não se ganha proibindo, não se ganha calando. Isso é vitimizá-los.

- Não se trata de proibir...

- Trata-se. Defendeu a ilegalização, é proibir.

- As democracias têm de se defender contra os intolerantes, já dizia Karl Popper.

- Defende-se com as ideias, não se defende policiando.

- Se estivesse... quando estiver no lugar de Presidente da República serei absolutamente incisiva.

- Nunca pediu antes a ilegalização do partido. Foi ao Ministério Público pedir? Como cidadã indignada, porque esperou para ser candidata para vir dizer isso?

 

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Em política, o que parece é. Há quatro meses, parecia que Ana Gomes não descortinava sombras no mandato presidencial. Por uma vez, o inquilino de Belém recorreu à cábula que trazia preparada, lendo uma declaração da candidata: «Faço um balanço positivo do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. (...) Foi muito importante a articulação entre os governos e o Presidente.» Data: 9 de Setembro. Conclusão do sorridente Marcelo: «Até ao dia seguinte à declaração da sua candidatura achava que a articulação tinha sido magnífica.»

Sentindo que os minutos se escoavam sem pontificar no confronto televisivo, a socialista abandonou por uma vez o tom diplomático. Aludiu à «relação de amizade» entre Marcelo e Ricardo Salgado, sugerindo interferências de Belém no passo de caracol a que segue o processo BES.

Pisava um terreno em que nem o rei das insinuações, André Ventura, ousou mover-se.

Isto permitiu que Marcelo desenrolasse um inventário: «No meu mandato, orgulho-me de terem avançado - com duas procuradoras, não só com uma - a Operação Marquês, a Operação BES, recentemente o julgamento de Tancos, a Operação Lex, operações contra magistrados judiciais. Avançaram, não pararam.» 

Permitiu-lhe também o contra-ataque. Em comparação subliminar com o líder do Chega, remeteu-a à gaveta dos que disparam primeiro e só pensam depois: «Não sei se percebe o quão ofensivo é aquilo que disse. (...) Atingiu a minha honorabilidade e a minha integridade. Eu nunca diria de si aquilo que disse de mim. Não vale tudo na política.»

A sua antagonista nada mais de relevante proferiu.

 

Este foi o debate em que emergiu um vencedor mais nítido. Marcelo, receando a abstenção por parecer vencedor antecipado, só mobiliza votos vitimizando-se. Precisava do pretexto que Ana Gomes lhe serviu quando cedeu à tentação da demagogia.

Na sombra, António Costa terá sorrido: o seu candidato saiu-se bem neste western da campanha, galopando em triunfo na pradaria.

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Frases do debate:

 

Gomes - «É preciso ter uma relação leal e franca com o Governo.»

Marcelo - «Quem disse que o primeiro-ministro era igual ao primeiro-ministro húngaro Orbán não fui eu, foi a senhora embaixadora.»

Gomes  - «Marcelo Rebelo de Sousa podia contribuir mais para as soluções.»

Marcelo  - «A senhora embaixadora tem de estabilizar a sua opinião.»

Gomes - «Eu sei que o senhor professor, ate pela sua relação de amizade com o dr. Ricardo Salgado, é certamente das pessoas com mais interesse em que o caso BES já tivesse sido esclarecido, que já tivessem sido apuradas responsabilidades.»

Marcelo - «Eu não distingo entre portugueses. Não tenho interesses especiais, no caso Rui Pinto... não tenho interesses especiais nenhuns.»

Gomes - O senhor fala sobre tudo...»

Marcelo - «Não falo sobre tudo, falo sobre o que é importante. Quem fala sobre tudo é a senhora embaixadora.»

Presidenciais (1)

Pedro Correia, 07.01.21

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DEBATE MARCELO-VENTURA

André Ventura teve ontem direito ao seu momento Basílio Horta. Confrontando o poderoso e popular Chefe do Estado que se recandidata a mais cinco anos como inquilino do Palácio de Belém.

O fio do tempo segue percursos sinuosos. Herdeiro espiritual de Basílio em eleições presidenciais, Ventura só tinha oito anos quando o fundador e primeiro secretário-geral do CDS concorreu à Presidência da República com um feroz discurso da direita "fracturante". Culminado num célebre frente-a-frente com Mário Soares nessa campanha presidencial de 1991. A notícia foi ele, por ter afrontado o recandidato apoiado pelos dois partidos maioritários, PSD e PS. 

Destronar Soares - ou sequer forçá-lo a disputar uma segunda volta - parecia tarefa impossível. E era mesmo: o Presidente recandidato obteve 70,4% nas urnas, esmagando Basílio, que se contentou com 14,2%.

 

O curioso, nesta vida política portuguesa pautada pela falta de memória, é assistirmos a repetições que parecem novidade aos incautos. Ontem, no debate entre André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa na SIC, o deputado único do Chega esteve para o seu adversário como a réplica exacta de Basílio naquele frente-a-frente de 1991. A mesma fluência verbal, a mesma repetição de frases sincopadas e façanhudas, a mesma invocação da "verdadeira direita" - de músculo forte, em desprezo absoluto pelos fracos.

Com simetria quase perfeita. Na altura, Soares era acusado à direita do PSD de contemporizar em excesso com o Executivo de Cavaco Silva, tal como Sousa agora recebe farpas pela sua excessiva aproximação ao Governo de António Costa. 

 

Faltava quem corporizasse tal causa. Coube o turno a Ventura, que se apresentou em estúdio com duas fotografias: na primeira via-se o Presidente com várias pessoas, incluindo um presumível delinquente; na segunda, datada de Junho de 2017, com Marcelo junto a um senhor já falecido, na altura em pranto por ter perdido os bens na catástrofe de Pedrógão.

Houve um tempo, neste país, em que os mortos também votavam. Agora servem para caçar votos, quando todos os meios se tornam lícitos para atingir os fins. Talvez nem o arguto Marcelo esperasse tal estocada: fez bem, de qualquer modo, em não trocar cromos com Ventura. Se o fizesse, poderia mostrar imagens enternecedoras da criatura junto ao criador, Luís Filipe Vieira, que iniciou Ventura nas lides televisivas como seu fiel discípulo no canal do Benfica. 

 

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O inquilino de Belém optou inicialmente pela via pedagógica, estabelecendo diferenças entre a «direita social», a que ele pertence, e «a direita securitária, a direita do medo», corporizada no antigo comentador de futebol. 

Estabeleceu fronteiras em matéria de valores. Considerando inaceitável, por exemplo, que alguém tente reintroduzir penas perpétuas em Portugal.

Ventura deu-lhe réplica, bem ao seu estilo: «Eu não vou ser Presidente dos traficantes de droga, dos pedófilos, dos que vivem à custa do Estado com esquemas de sobrevivência paralelos enquanto os portugueses de bem pagam os seus impostos.» E garantiu que a prisão perpétua vigora na maioria dos países da Europa. É falso, mas o timoneiro do Chega sente alergia aos factos quando atrapalham a sua narrativa.

 

Em 1991 Basílio conseguiu irritar Soares, que entrou em estúdio com ar pachorrento. Ventura seguiu idêntico guião em 2021: a gota de água, para que Marcelo abandonasse o terreno da amabilidade, foi a exibição da fotografia com o senhor já falecido, entre crescentes insinuações acerca da indiferença presidencial perante a tragédia dos incêndios florestais.

«Se há exemplo de doação minha integral é o dos fogos. Os portugueses lembram-se. Eu estive lá! Eu estive lá! Eu estive lá! Não estiveram muitos políticos, mas eu estive lá!» E, sem desviar os olhos de Ventura: «O senhor andou lá? Foi lá ver? É uma demagogia barata.»

 

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Naquele instante, o seu antagonista cumpriu um desígnio táctico: conseguira que Marcelo perdesse a compostura presidencial. Imagino Basílio a sentir o mesmo perante Soares há 30 anos, ao desfiar-lhe o novelo dos escândalos de Macau.

Mas o candidato do Chega, dominado pela vertigem da velocidade, não se satisfaz com pouco. Pisou ainda mais o acelerador acusando Marcelo de ser «manipulado pelo Governo»

Seguiu-se este breve diálogo, com o Presidente à defesa:

- Fiz o discurso mais violento que houve contra o Governo.

- E consequências disso?

- A ministra da Administração Interna pediu a demissão imediatamente.

 

O comentador Marcelo apenas cerebral, destituído de emoções e afastado do palco da política, teria aconselhado o recandidato a não ir por aí: exonerar ministros recorrendo a discursos não integra o rol de competências do Presidente da República. Nem a revelar o conteúdo das conversas que trava com os seus convidados no Palácio de Belém, como Rebelo de Sousa fez já no final do frente-a-frente: nestas coisas convém nunca abrir precedentes, sejam quais forem os estados de alma do titular do cargo.

De qualquer modo, Ventura só venceria o debate - muito bem moderado por Clara de Sousa - se aquilo fosse um concurso de frases sonantes. Para azar dele, a política é muito mais que isso.

Nesta campanha, o solitário parlamentar do Chega apenas triunfará se forçar Marcelo a uma segunda volta. À falta disso, resta-lhe um prémio de consolação: conquista o Troféu Basílio Horta. 

 

Aos mais distraídos, convém recordar que o candidato da "verdadeira direita" nas presidenciais de 1991 é hoje presidente da Câmara de Sintra, eleito pelo Partido Socialista. 

A vida dá muitas voltas. E a geometria partidária também.

 

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Frases do debate:

 

Marcelo  - «Eu sou da direita social, centro-direita, direita social, que se reconhece na doutrina social da Igreja, no Papa Francisco, na preferência pelos pobres, pelos explorados, pelos oprimidos, pelos dependentes.»

Ventura  - «Eu só posso ficar desapontado, à direita, com a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.»

Marcelo - «Eu não faço das presidenciais umas primárias das legislativas, eu não tenho várias agendas ao mesmo tempo.»

Ventura - «[Marcelo] passou os últimos anos a desacreditar o centro-direita.»

Marcelo - «Eu sou Presidente de todos os portugueses. Dos desempregados, dos pobres, dos imigrantes.»

Ventura - «Marcelo Rebelo de Sousa é manipulado pelo Governo.»

Marcelo - «Eu não tenho nada a ver com a sua direita.»

Ventura - «Será que alguém de direita, que esteja bom da cabeça, pode votar Marcelo Rebelo de Sousa?»

O Crime no Aeroporto da Portela

jpt, 13.12.20

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Durante estes longos meses nem o presidente Sousa - no seu histrionismo "camp", sempre ávido de roçagar cidadãos e assuntos - abordou o assassinato estatal de Ihor Homeniuk, apesar do seu hábito em comentar investigações judiciais em curso. Ou fez mera menção solidária junto da família vitimada, ele que tão lesto é em abraços e beijos, e mesmo não se coíbe em telefonemas saudando estreias de programas televisivos, nisso abrindo (publicitárias) excepções.

O MNE Silva diz que contactou a embaixada ucraniana, do modo "habitual nestes casos", como se haja "habitual" para uma situação destas. O ministro Cabrita - cujo presença no governo, e na Administração Interna ainda por cima, é, e muito para além deste caso, o sinal da total amoralidade do actual poder - diz de si próprio que é exemplar (e o ministro Silva sublinha-o). A Assembleia da República leva nove meses a convocá-lo para que fale sobre um horror destes. Nove!, decerto que com desculpas formalistas - pois diante de um escândalo destes o inenarrável Rodrigues não se importa de andar mascarado de formalista. Entretanto, a directora do SEF, Gatões, esteve oito meses calada e a primeira vez que falou - sobre um assassínio cometido em grupo pelos seus funcionários no aeroporto da Portela - usou máscara diante das cameras dos jornalistas, demonstrando total insensibilidade, até simbólica (E parece que segue para quadro diplomático bem pago, isto é um ultraje ...). E é agora demitida, nem sequer teve a dignidade de se demitir, nove meses após este horror ...

Foi então noticiado que um médico acompanhou as sevícias cometidas, na própria sala de médicos: a Ordem dos Médicos pronunciou-se? Nada, que eu saiba .... A família pagou o retorno à Ucrânia do assassinado - nem uma igreja, católica ou outra, nem uma ong, nem uma organização assistencialista, nem um filantropo, nem uma dessas "fundações" das grandes empresas ou dos grandes escritórios de advogados-comentadores televisivos, se disponibilizou para colmatar a imoralidade estatal. Mas agora, de repente, pois "investigação terminada", "botão de pânico" proposto, muitos uivam e bramem. E leio mesmo que, também, os esquerdalhos do costume invectivam o silêncio, o do "governo" (desfeita que vai a geringonça) e o da "direita". Este desgraçado caso mostra o descalabro generalizado em que seguimos.

Em início de Junho 2020 muito me irritei com a pantomina histérica, desonesta e demagógica, que correu em Portugal devido à morte de um americano em Minnesota. Abjecto desatino geral, esse de andarem por aí aos guinchos, abanando os rabos e as mamas, por causa da morte americana enquanto nada se dizia sobre o que se passara na Portela de Sacavém. Que gentalha, servos dos sôfregos demagogos socratistas, de vestes "sociais-democratas", no gargarejo da "causa" racialista. É certo que Moreira levantara o assunto em Abril. Mas sem a ênfase nem a indignação que lhe é constante aquando cheira a "raça".

Muito me irritou tudo isso e por isso escrevi sobre Ihor Homeniuk - ou seja, também o fiz apenas de modo reactivo, e como tal não sigo cidadão eticamente incólume com tudo isto. Então googlei em busca da grafia correcta do nome do assassinado. E tirando textos noticiosos daquele Março/Abril quase nada mais se encontrava. De tal forma isso me surpreendeu que fui até à página 3 da "busca google", para sedimentar a apreensão do silêncio social. Depois de eu blogar (no meu Nenhures e no colectivo Delito de Opinião) surgiram outros textos, um pouco na mesma linha (reactiva) de reflexão - um dos quais de Zita Seabra (publicado no mesmo dia), de outros autores não me recordo.  Não me venho armar em "influencer" ou em precursor ou "consciência". Sou só um bloguista desconhecido - um bocadinho lido porque publico no Delito de Opinião que ainda tem audiências. Não estou a dizer que tive qualquer primazia. O que quero assinalar é que tendo escrito no 1 de Junho um texto sobre esta situação encontrei, reflectido na internet (imprensa/redes sociais), um generalizado silêncio, quase universal, sobre este inenarrável assassinato.

Ou seja, é o ministro Cabrita execrável? É! O ministro Silva é melífluo? É! O presidente Sousa é o presidente Sousa, agora em crassa mentira? Ui, se o é! O SEF será irrecuperável? Sim. O silencioso médico que tudo testemunhou deveria ser empalado? Sim. A dra. Gatões deve ir para a prateleira e não para Londres? Óbvio. 

Mas, e sem qualquer dúvida, precisamos do agora célebre "botão de pânico". Não por causa dos tipos do SEF. Mas para nos defendermos de nós-próprios. Que gente somos!