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Delito de Opinião

Marcelo a ser Marcelo

Pedro Correia, 26.12.25

 

Numa decisão aberrante, o Presidente da República acaba de convocar o Conselho de Estado para 9 de Janeiro. Com a intenção declarada de debater a guerra na Ucrânia e as suas implicações para Portugal.

Aberrante por vários motivos. Porque a dita reunião ocorre a meio da campanha oficial para a eleição de 18 de Janeiro. Porque dá palco suplementar a dois candidatos presidenciais, André Ventura e Marques Mendes, ambos com assento no Conselho de Estado, em desfavor dos restantes. E porque a guerra de agressão da Rússia à Ucrânia começou há quase quatro anos, sem que Marcelo tenha sentido necessidade de auscultar os conselheiros sobre o tema até agora. Como diria António José Seguro noutro contexto: Qual é a pressa?

Enfim, nada de novo: é Marcelo a ser Marcelo. Já estamos habituados.

Deste Marcelo, com toda a franqueza, não sentiremos saudades.

Ele há coisas...

Cristina Torrão, 12.09.25

Ou seja, com esta história dos hambúrgueres, Ventura transformou a imagem de um Presidente tagarela e meio gagá, num Presidente simpático e bem visto, até pela esquerda. Os memes que se vêem, nas redes sociais, são todos muito generosos com Marcelo Rebelo de Sousa. Como se fosse ele o autor de um humor fino e descontraído. E isto, vindo de vários quadrantes políticos. É obra!

A responsabilidade política

jpt, 08.09.25
Palácio de Belém - PRESIDENCIA.PT
 
Há 3 dias deixei uma nota - invocando os velhos Doors e Floyd - mostrando o meu nojo pela partidarite abutrista, desbragada após o acidente do Elevador da Glória. Trata-se de uma guerra de narrativas, entrincheirada - sobre a vontade de apear Moedas ninguém será convencido de que não tem a razão apriorística que decidiu ter. Decidi passar...
 
Mas li hoje que o Presidente da República surgiu a comentar (como lhe é típico), assim com o seu estandarte de Belém entrando na peleja, anunciando a "responsabilidade política" de Moedas. Uns concordarão com o PR - as hostes do CHEGA, do PS e à esquerda deste; outros não - os simpatizantes do "bloco do poder".
 
Estou um bocado à vontade nisto. Na semana passada publiquei este postal, que é o meu rescaldo do que tem sido Rebelo de Sousa, personalidade política que abomino. E nesse postal congreguei vários textos anteriores (o primeiro de 2008!) que lhe dediquei, apontando este quase inenarrável rumo, que despercebo ter tido o sucesso que teve. Seria suficiente para me expurgar deste "Marcelo".
 
Mas este novo "comentário" de MRS, esta sua declaração - que quer doutrinária - da obrigatória "responsabilidade política" sobre um acidente, faz-me lembrar um episódio deste PR. Em 2016/17 o então novo governo fez várias alterações nas chefias das instituições estatais ligadas ao "combate ao fogo florestal". No início da tarde de um sábado deflagrou um incêndio em Pedrogão Grande. Horas depois tinham morrido 66 pessoas. Às 20 horas, no telejornal, MRS já se pronunciava, dizendo que todo o possível tinha sido feito e ladeando um responsável policial que apontou o réu culpado, uma criminosa árvore que tinha entrado em "downburst" (usando o termo estrangeiro, prática comum quando se quer velar o real). Abraçou, beijou, prometeu, fez-se fotografar com a população devastada. E não aludiu a qualquer "responsabilidade política".
 
É para apear Moedas? Façam-no. Mas, por favor, desprezem este Rebelo de Sousa. É o Presidente da República, é uma infracção ("crime") adjectivá-lo de modo negativo. Mas é credor de profundo desprezo.

Efeitos do entretenimento político: Marcelo Rebelo de Sousa e o "activo soviético"

jpt, 31.08.25

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O Presidente da República lançou mais uma atoarda, dizendo que Trump é um “activo soviético… ou russo”. Uns dizem a situação inadmissível, outros apoucam-na, julgando - com alguma pertinência - que o governo dos EUA nem atentará no dislate. De facto, o fundamental nem é a possível repercussão diplomática do episódio. Mas sim utilizar mais esta tropelia para reflectir sobre como o rumo do regime chegou até aqui.

O mais relevante destas declarações é que divulgam ter o PSD convidado Rebelo de Sousa para falar num curso de Verão organizado para a sua “juventude”. Ou seja, ao fim de uma década de um pungente, de incompetente, exercício presidencial o partido actualmente no governo ainda recorre a este homem para “formar” os seus futuros quadros.

“Marcelo” não é um símbolo destes 50 anos de regime. É - desde o início - um seu agente, até frenético. Convertendo-o na república da politiquice (sumariado no célebre caso da vichyssoise) e da jornalice (o rio de insinuações no velho “Expresso” e o jorrar das “fontes próximas de Belém” no actual “Expresso”). O verdadeiro arauto da deriva populista - “eu com o povo”, num além-partidos, isso que tantos julgam ter sido (re)criado por aquele mais novo professor de Direito, que agora se agita.

É ele também o fruto da incultura generalizada - num país ainda do “respeitinho”, de mesuras diante de um mero lente de Direito, e que se espanta diante de quem “mostra livros”, mesmo que nada de substantivo deles diga. E é, acima de tudo, um agente incompetente, por “bem sucedido” que pareça ser pois alcandorado a Belém - um pouco também por não ter quem o rodeie, não só pela sua adesão ao populismo egocentrado mas também pelas suas consabidas características pessoais, murmuradas por aqueles que com ele interagiram (por mais que, volta e meia, haja “artigos” jornalísticos louvando a sua pessoa). Enfim, MRS é uma mácula, que espero não venha a ser indelével.

A grande interrogação é a de saber como é que um pequeno homem destes chegou até a PR e ali se vem mantendo. Isso só foi possível devido à inculcação do eleitorado através do entretenimento político televisivo. Emitir canais generalistas é algo caro. Sentar pessoas a falar em estúdio, fazer “rádio” com imagem, é forma menos dispendiosa de o fazer. Para isso o melhor, o mais apreciado pelos “caros telespectadores”, é distribuir “comentários” futebolísticos e políticos.

“Marcelo” foi hábil e vácuo nisso. Produziu boas receitas para as estações televisivas, e por isso estas ao longo dos anos fizeram-no “parte da família” das audiências. E assim há uma década que perora, de forma cruelmente incompetente, em Belém. Espero que nas próximas presidenciais, com vários candidatos já enfileirados, possamos eleger alguém bem diferente, venha lá de que área política vier. Com a ponderação e a cultura que este medíocre Rebelo de Sousa nunca teve.

Presunção e água benta, cada um toma a que quer… De presunção eu tomo esta dose: ao longo dos anos fui escrevendo vários postais em diferentes blogs sobre este Rebelo de Sousa, homem que sempre desconsiderei. Recolho agora alguns deles, e congrego-os aqui, na tal presunção de que a sua leitura possa a alguém ser interessante - recordando este rumo do pior presidente da república que a nossa democracia já teve.

Sublinho que o primeiro postal que sobre ele recupero é de 2008, bem antes de eu imaginar que o homem viria a ser PR. Nele apenas ecooei como a minha filha, apesar de então nos seus cândidos seis anos, desvendou a desonesta vacuidade daquele “Marcelo”. Pois, de facto, só não viu quem ele é quem não quis. E, agora, só a organização da “Universidade de Verão” do PSD é que não vê quem ele é. Nisso se tornando ferrenha cúmplice desta desgraça intelectual. E política.

Declaração de Votos

jpt, 17.05.25

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1. Hoje é o "dia de reflexão", esse anacrónico paternalismo estatal que quer impor à imprensa e aos legítimos partidos e associações cívicas o silêncio político-partidário. E que os ignorantes julgam também abarcar o vulgar cidadão. Nos últimos anos o voto antecipado foi-se estabelecendo - li algures que este ano terão sido 300 000 os eleitores inscritos para o fazerem. O próprio PR o fez. Ou seja, o presidente da república eximiu-se ao "dia da reflexão", assim explicitando a sua desnecessidade. Ao fim de dois mandatos, durante os quais nada induziu para terminar este bafiento item da mundividência estatista, atreve-se a votar antes de tempo. É um pormenor? É. Mas é denotativo da vácua superficialidade de Rebelo de Sousa, um penoso desajuste da nossa democracia.

2. Ontem fui a um encontro político - vou votar IL, fui a uma "cerveja liberal". Entre um grupo com cinco interlocutores - dos quais só conhecia um - perguntaram-me o que penso do "almirante" (Gouveia e Melo).

Não mudei de opinão, apenas a sublinhei após a sua intervenção desta semana anunciando a sua candidatura. Assim desvalorizando as eleições legislativas, mostrando que se pensa (e sente) acima dos partidos e até da assembleia da república. Podemos pensar que os partidos vão fracos, contestar a qualidade do pessoal partidário. Mas a democracia faz-se com partidos. Não com homens "acima" dos partidos, julgando-se salvíficos. E, já agora, a sociedade não é um quartel, uma fragata (ou mesmo um submarino), para sermos apostos numa qualquer parada ou convés, a receber instruções emanadas do topo hierárquico. Ou seja, o que o nosso almirante precisa - e nesta semana mostrou-o bem - é de ser posto em sentido. E depois nós, comandantes-em-chefe, poderemos instruí-lo. Num simpático "à vontade" ou mais ríspido "pode retirar-se" (não se diz "destroçar" a um almirante). Entenda-se bem, Gouveia e Melo não é o homem para o lugar... Nem nós-todos somos objectos para um paternalismo estatista militarizado.

Que farei eu? Esperar pelo rol de candidatos e sopesar. Até agora só poderei dizer: malgré tout, votarei Marques Mendes.

3. Estamos em plena campanha eleitoral para as legislativas. A péssima equipa da Junta de Freguesia dos Olivais está desagregada, em compita interna - há pouco abordei o assunto aqui. E de súbito os fregueses são surpreendidos com o anúncio - neste contexto poder-se-á dizer "pela calada" - da extensão do parqueamento pago controlado pela EMEL. O qual agora irá abranger mais zonas residenciais, com algum até decadente pequeno comércio local, e nas quais não há peculiar pressão de estacionamento.

A introdução da EMEL neste bairro tem sido muito polémica, ao longo de anos - como aqui ecoei. Os Olivais têm particularidades: sociológicas mas também geográficas, no seu relevo, na sua extensão, que apartam a sua situação das de outras freguesias urbanas. Em algumas das suas zonas a pressão de estacionamento automóvel decorreu não da estreiteza de espaço mas da radical inexistência de políticas camarárias desde a década de 1990. Desde então foi criada a EXPO 98, a construída a adjacente Ponte Vasco da Gama, introduzidas estações de metropolitano, erguido um sobredimensionado complexo em torno do centro comercial (que fora planeado como um mais modesto "centro cívico"). E proliferaram os serviços internos ao aeroporto. Nada disso foi acompanhado pela introdução de parques de estacionamento. Nada!, repito. A câmara municipal / o Estado abstraíu-se.

Como consequência, em algumas zonas do bairro aumentou a pressão do parqueamento temporário durante os períodos laborais. A solução camarária foi a típica deste nosso Estado: fazer pagar. Alguns dos vizinhos, residentes nas áreas mais pressionadas até defendem isso. Munícipes de outras freguesias apoiam, num pobre "se nós pagamos vocês também devem pagar", desatendendo às diversas características do bairro.

Vivi em Bruxelas - tal como o actual presidente da câmara. Cidade que sofreu tamanho impacto com a tranformação em capital europeia que brotou o termo "Bruxelização" como conceito urbanístico. Onde a pressão do trânsito automóvel é enorme. Mas onde o sistema de parqueamento pago é muito mais diferenciado do que o lisboeta, com alguma criatividade, convocando autoresponsabilização dos automobilistas, e nisso ordenando o parqueamento e o próprio trânsito. Mas não esbulhando o automobilista (e seus passageiros) - como este modelo "cego" a la EMEL faz.

Pois esta EMELização do espaço público lisboeta tem subjacente essa mundividência: os cidadãos são meros pagadores de impostos e taxas, as suas vivências "ordenam-se" fazendo-os pagar. É um esbulho! No caso do nosso extenso bairro implicará redução da mobilidade intra-freguesia, redução de frequência do empobrecido comércio local, e o acréscimo do isolamento dos habitantes mais velhos - e são muitos ainda, nesta freguesia construída durante os 1960/70.

Carlos Moedas pode argumentar que é um presidente minoritário, que pouco pode mudar. Mas a esta questão vital, do "império" das taxas, virou costas. Demonstrando ser mais um "dos do Estado", o partilhar dessa mundividência estatista, altaneira e medíocre. (Uma ressalva: há uma década que não tenho carro, não é por mim que protesto).

Aqui em Lisboa há hoje um jogo de futebol decisivo: o Sporting tenta ganhar o campeonato, um segundo título consecutivo pela primeira vez em 70 anos. Os sportinguistas estão ansiosos por comemorar isso. Encherão o estádio. Carlos Moedas manda fechar os cafés e restaurantes circundantes. Afirma que o faz por conselho policial, para minorar os perigos dos festejos. É a tal mundividência estatista a sobrepor-se. Um paternalismo patético. Há perigo no futebol? Todos sabemos que há - em particular nos "jogos grandes". Então siga-se mesmo esta mentalidade policiesca: proíba-se a assistência, façam-se os jogos "à porta fechada", ficará a PSP descansada. Agora isto, encerrar os sítios onde a rapaziada sportinguista quererá beber um copo para comemorar (ou lavar as mágoas, longe vá o agoiro)? É de uma tacanhez intelectual, de um "estatismo", inaceitável.

Nas últimas eleições não só votei Moedas como muito saudei a derrota daquele Medina. Mas se os restaurantes e bares circundantes do nosso Estádio não abrirem hoje - se a câmara não reverter a decisão - não mais votarei em Moedas. É um pormenor? É. E eu nem sequer irei ao estádio e casas de pasto adjacentes. Mas é também um pormaior porque denota a mentalidade de Moedas, da sua concepção de exercício do poder político. E em assim sendo irei votar noutro, pois estou cansado deste tipo de políticos.

Não se enxerga

Pedro Correia, 06.05.25

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No início da campanha oficial das legislativas, o Presidente da República, passeando despreocupado por Beja, deixou-se fotografar e filmar com André Ventura, que já lhe chamou "traidor à Pátria" e alimentou durante longos meses uma comissão de inquérito na Assembleia da República em que o acusou de "abuso de poder" no chamado caso das gémeas (entretanto morto e enterrado).

Não existem acasos na política. Sabendo isto, observo a indecorosa foto e concluo: este homem não se enxerga. O outro, sem surpresa para ninguém, também não.

Dinamarca-Portugal

jpt, 21.03.25

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Ontem ao fim da tarde fui ao "Cabeça de Touro" ouvir o que têm para dizer os membros de uma lista que se candidatará à Junta de Freguesia dos Olivais. Gostei - aqui a IL já está a reflectir, nisso a trabalhar, saúdo isso.
 
Depois segui ao vizinho "Flor do Minho", partilhei uma boa dobrada com amigo "dos tempos". A menina-minha-mais-que-querida foi mais frugal. Ao sentarmo-nos, eu a escolher ficar de costas para a televisão, perguntou-me ela - e também ele - "não queres ver o jogo?". "Não me interessa", ripostei, abancando sem cerimónias. "É a selecção...!", resmunguei, já com a manápula nas azeitonas.
 
Fernando Gomes era braço direito de Pinto da Costa. Depois foi delegado para a FPF. Ali escolheu Fernando Santos para seleccionador. Este teve o bambúrrio de ganhar um Europeu com uma equipa que não jogava nada. Depois, aquando da primeira Liga das Nações fez aquilo para o qual esta fora criada: jogar com os putos e os secundários. Ganhou!
 
Entretanto a FPF de Fernando Gomes fez com Santos um contrato para "dar a volta" ao fisco. E arrastou-o anos a fio como seleccionador, de desilusões e mau futebol feitos. Os ministros das finanças, o primeiro-ministro e o presidente? Adoravam-no, ao Gomes.
 
Depois, quando "aquilo" ficou insustentável, Gomes - presidente da federação de futebol num país onde há uma extraordinária "escola" de treinadores (4 na 1ª Liga inglesa, vários triunfantes no Brasil, outros nos luxos árabes, imensos mundo afora) - contratou um estrangeiro mediano, tornou-o - se calhar já sem contratos mariolas - um dos seleccionadores mais bem pagos do mundo. E o septuagenário Santos lá foi, mundo afora, amealhar porventura para pagar as inesperadas coimas.
 
Gomes foi condecorado (aquilo do contrato não o maculou). E foi para presidente do Comité Olímpico (aquilo do contrato não o maculou). E deixou-nos amarrados ao tal seleccionador. E a selecção nacional não joga nada, está até pior do que no tempo de Santos.
 
"Não queres ver o jogo?", surpreende-se a menina-minha-mais-que-querida, "Então, pá?", surpreende-se o meu-padrinho. Sorvo o gole da imperial, com as costas da mão limpo a espuma alojada na bigodaça. E ouço o Comendador Teixeira a perguntar: "como é que se condecora um gajo destes?", "isso é que eu queria ver, o marcelo a responder a isso".
 
Ainda a lambuzar-me com a dobrada (aviso, é boa a do "Flor do Minho") dizem-me que o jogo acabou. Perderam? Claro, "não jogam nada...." E não adjectivo nem aduzo interjeições. Pois está ali a menina-minha-mais-que-querida. Apenas reduzo tudo ao óbvio "não é a minha selecção".

Tudo ao contrário

Pedro Correia, 11.03.25

O Presidente da República apressou-se a anunciar datas para as prováveis eleições legislativas antecipadas - 11 ou 18 de Maio - sem ouvir o Conselho de Estado nem os partidos políticos, como a Constituição da República lhe impõe. Em sessão de tagarelice com um grupo de jornalistas em Viseu. E no tom que usaria se estivesse a falar do clima ou de futebol.

Agora, que tanto se fala em populismo, eis um exemplo evidente desse fenómeno. Como se a democracia não implicasse formalidades e estas devessem ser mandadas às malvas com ligeireza de catavento no Palácio de Belém.

Tudo ao contrário, portanto.

Depois venham dizer que populista é o Almirante - alguém que ainda mal abriu a boca para dizer fosse o que fosse. Pode ter muitos defeitos, mas não parece padecer de logorreia. Valha-nos isso.

Frase nacional de 2024

Pedro Correia, 19.01.25

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«O primeiro-ministro António Costa era lento, era oriental. Este [Montenegro] não é oriental mas é lento, tem o tempo do país rural.»

Marcelo Rebelo de Sousa, falando muito informalmente aos jornalistas durante um jantar com a Associação da Imprensa Estrangeira, a 23 de Abril

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases: 

 

«Mas o que é que não funciona?»

Pedro Nuno Santos, secretário-geral do PS, a 5 de Fevereiro em debate eleitoral na SIC com Rui Rocha, da IL

 

«Quando eu era mais novo, a minha avó dizia assim [...] `isto já só vai lá com dois Salazares`. Era o que ela dizia, é verdade. E hoje eu orgulho-me muito quando as pessoas sabem que, afinal, já não é preciso Salazar nenhum

André Ventura, a 6 de Junho

 

«Algo falhou, porque senão as pessoas não tinham fugido.»

Rui Abrunhosa, director-geral de Reinserção e Serviços Prisionais, a 8 de Setembro, sobre a fuga de cinco presos muito perigosos do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus 

 

«Sobre os meus estados de espírito, não vou alimentar especulações.»

Almirante Gouveia e Melo, a 4 de Outubro, sem confirmar nem desmentir se será candidato presidencial

 

«Se disparassem mais a matar, o país estava mais na ordem.»

Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, a 23 de Outubro, num debate na RTP3

 

«A comunicação social está um bocadinho com anemia.»

Cristina Vaz Tomé, secretária de Estado da Gestão da Saúde, a 9 de Novembro, confundindo amnésia com anemia

 

«O desmantelamento do SNS continua.»

Alexandra Leitão, líder parlamentar do PS, a 29 de Novembro, durante o debate da votação final do Orçamento do Estado para 2025

 

«Éramos felizes e não sabíamos.»

Marcelo Rebelo de Sousa, a 4 de Dezembro, lembrando com nostalgia a coabitação com António Costa, agora presidente do Conselho Europeu

 

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Frase nacional de 2010: «O povo tem de sofrer as crises como o governo as sofre.»

(Almeida Santos)

Frase nacional de 2011: «Estou-me marimbando para os nossos credores.»

(Pedro Nuno Santos)

Frase nacional de 2013: «Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

(Paulo Portas)

Frase nacional de 2014: «Sinto-me mais livre que nunca.»

(José Sócrates)

Frase nacional de 2015: «Temos os cofres cheios.»

(Maria Luís Albuquerque)

Frase nacional de 2016: «Já avisei a famíia que só volto no dia 11 [de Julho] e vou ser recebido em festa.»

(Fernando Santos)

Frase nacional de 2017: «Este ano foi um ano particularmente saboroso para Portugal.»

(António Costa)

Frase nacional de 2020: «Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?»

(Ferro Rodrigues)

Frase nacional de 2021: «Já posso ir ao banco»?

(António Costa)

Frase nacional de 2022: «Haver 400 casos de abusos não me parece particularmente elevado.»

(Marcelo Rebelo de Sousa)

Frase nacional de 2023: «O Governo pôs-se a jeito, cometeu erros.»

(António Costa)

Moçambique pós-Natal

jpt, 26.12.24

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Antes do Natal aqui deixei o meu repúdio pelo seguidismo - típico de "deficientes intelectuais" - do governo e do presidente da República às posições do poder de Maputo. É um assunto que pouco interessa aos portugueses. Tal como pouco lhes interessará que nenhum dos nossos países congéneres ou das multilaterais a que pertencemos se aprestaram a fazer comunicados com o mesmo teor acrítico. Bem pelo contrário, todos se vêm distanciando do rumo daquele poder instituído.

Logo então referi que o candidato oposicionista Venâncio Mondlane - actualmente no exílio em parte incerta - fez declarações muito explícitas, criticando a posição portuguesa, sem abordar outras posições internacionais. Mas também alertou os seus seguidores no sentido de salvaguardar os "nossos irmãos portugueses" que no país habitam, irresponsáveis da irresponsabilidade dos seus governantes. (Mas quem acompanha a situação moçambicana também sabe que Mondlane não tem controlo total sobre a contestação. Entenda-se bem: não tem um partido organizado, não tem "milícias" - como especulavam os parcos apoiantes do poder -, tem "apenas" uma enorme influência "moral" / política mas a qual não é espartilho total das massas contestatárias). 

Ou seja, as posições de Montenegro e do nosso Presidente da República - esse Dâmaso Salcede da política nacional -, pressurosos em caucionar o poder Frelimo, não só descuram o processo democrático moçambicano, não só destoam das posições dos nossos aliados. Mas também perigam o bem-estar dos nossos compatriotas no país. E a estes nossos dois próceres some-se o MNE Rangel, cujas actuais contradições sobre Moçambique o recobrem da peçonha da indignidade pessoal.

Nesta alvorada deixava eu no meu blog uma plácida memória, até íntima, sobre este meu Natal. Quanto atentei, via Whatsapp, no massacre ontem acontecido em Maputo - e que talvez hoje continue. Dado o desnorte estatal houve fugas massivas das prisões de Maputo, para as quais as autoridades, já incapazes de susterem as fugas, apontam contraditórias causas: a ministra da Justiça refere que tiveram origem interna às cadeias, o comandante da polícia afirma terem sido promovidas por manifestantes oposicionistas - o que parece desmentido pelas imagens das saídas em barda, portões afora, dos prisioneiros. E figuras oposicionistas clamam que foram organizadas pelo poder, para criar uma situação de insegurança que legitime o recurso à força, para reestabelecer uma "ordem" pública, uma pax frelimica...

Entretanto, a polícia - que nos últimos meses tem vindo a reprimir "sem fé nem lei" os contestatários do poder instaurado - conseguiu recuperar algumas dezenas de fugitivos. Filmes de telemóvel realizados por agentes policiais mostram-no. Congregaram esses fugitivos, transportaram-nos, interrogaram-nos, abateram-nos. Com júbilo! Filmam os cadáveres, para registo e "relatório". "Estes julgavam que as armas não disparam", clamam, apoucando aqueles restos mortais. Deixo acima a imagem de um desses assassinados - em vários filmes aparece detido, entrevistado, transportado: diz-se um "brigadista" (entenda-se, um criminoso de baixo risco, perto de ter cumprido metade da pena e passível de liberdade condicional, já com autorização para saídas diurnas laborais nas imediações da prisão). Passadas horas está cadáver, amontoado entre dezenas de corpos, e dito pelos polícias como "nigeriano" e "agitador"...

Trata-se de um massacre em curso em Maputo. Levado a cabo pelos agentes dos poderes lestamente caucionados por este trio: Rebelo de Sousa, Montenegro, Rangel. Malditos sejam estes. E malvistos, pois execráveis.

Para quem se interesse por este assunto, mas julgue ser imperscrutável em Portugal o actual processo moçambicano, aconselho a que na SIC Notícias recue até ontem, dia 25 de Dezembro, às 21.25 h., quando decorre um desses programas de comentário político - que agora me recomendaram ver... O comentador Miguel Morgado (militante do PSD) tem uma análise informada e totalmente pertinente do que se passa em Moçambique, e uma visão radicalmente crítica das posições havidas sobre o governo e o presidente (que são do seu partido). Ou seja, é possível estar aqui e perceber não só a situação moçambicana como entender o profundo despautério que grassa em Belém, em São Bento e nas Necessidades.

E ouça-se também o que diz sobre o assunto o militante do PS e antigo governante Prata Roque, o outro comentador. Pois é amplamente denotativo do que como o poder português impensa e, em particular! Defende o homem as posições pró-regime de Maputo - cabal defensor das solidariedades internas à Internacional Socialista e, porventura, das ligações privadas entre respectivas elites políticas. Mas atente-se mais ainda na abjecta, obtusa, cavernícola mediocridade dos seus argumentos: o que lhe importa é lamentar que em Moçambique "se fale cada vez menos português" (uma imbecilidade factual), e que a população seja cada vez menos sensível à "lusofonia" e - ainda por cima - à "portugalidade"... Não é apenas uma patetice, trata-se mesmo de um escarro intelectual, para além da imoralidade ululante.

E é isto, esta nulidade, esta esterqueira, que ascende a governos do PS. É  isto que é docente na actual Faculdade de Direito de Lisboa (!). E é isto, já agora, a que as televisões pagam para "informar" e "fazer opinião" as gentes de cá. Enfim, é a tralha imunda que vem grassando, há décadas, no "Bloco Central".

Entenda-se, conhecendo e sentindo Moçambique, vendo na alvorada pós-Natal o que estou a ver a acontecer em Maputo, vomito impropérios, jorram-se-me. Nenhum dos quais tão ordinários, javardos, como dizer "Prata Roque". Sem com isso salvaguardar de desprezo similar os actuais incumbentes.

O governo português e Moçambique

jpt, 24.12.24

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Em 2024 houve mundo afora um imenso, inusitado, número de eleições nacionais. A reduzir a atenção internacional sobre cada uma delas. Some-se a isso a relevância mundial das eleições americanas, até monopolizadora de interesses alheios,  a continuidade das duas guerras que mais convocam os cuidados da opinião pública e, agora, a queda do velho regime sírio. Tudo isso se congregou para a pouca relevância externa das eleições presidenciais, provinciais e legislativas moçambicanas do último Outubro. Também por cá isso aconteceu.

Nossa desatenção nacional que se reforça pelas características do nosso arco parlamentar politicamente significante. Entre o qual há em relação ao poder daquele país uma atávica solidariedade do PCP. E um desinteresse real do BE - note-se que a única intervenção significante desse partido sobre o assunto foi uma declaração da deputada Matias, a qual, de facto, apenas utilizou o caso moçambicano para criticar a posição portuguesa e europeia face à ditadura venezuelana. Quanto ao PS há uma solidariedade explícita, advinda da comunhão na Internacional Socialista, bem como - e até será mais relevante - existem liames já de décadas entre algumas figuras gradas socialistas e a oligarquia moçambicana, a vera causa do de outro modo inacreditável silêncio do PS sobre este assunto. Quanto ao PSD poder-se-á explicar o silêncio por um trio de influências: o peso de lóbi interno de algumas figuras desse partido, o rumo titubeante neste caso do seu actual Ministro dos Negócios Estrangeiros - o qual, decerto, brandirá um paupérrimo, de mítico, "sentido de Estado" para agora se justificar. E, decerto, a opinião do incompetente e ininteligente presidente da República que desse partido emanou, suas características sempre exponenciadas quando sobre Moçambique se trata. Ficarão os olhares críticos parlamentares sobre a situação moçambicana a cargo da IL, que tem tido posições pertinentes, e do ignaro bolçar revanchista colonialista desse CHEGA que para aqui anda...

Ontem, ao fim de dois meses e meio (muito mais do que ocorreu em vários processos eleitorais deste ano em África), o Conselho Constitucional moçambicano aprovou os resultados finais - como seria de esperar. Fez algumas alterações aos números inicialmente anunciados pela CNE. Grosso modo, atribui mais 4% dos votos ao segundo candidato mais votado - que tem protestado os resultados -, e mais 1% a um outro. Entretanto, ao longo destes dois meses de contestação popular dos resultados anunciados foram vários os relevantes militantes do partido do poder que confirmaram publicamente a longa tradição do seu (do seu, sublinho) partido na manipulação dos processos eleitorais. Corolário dessas más práticas no ano passado decorreram umas eleições autárquicas sob uma enorme, escandalosa, fraude. 

Neste 2024 aconteceu mais uma enorme manipulação eleitoral. Aos protestos generalizados seguiu-se uma brutal repressão policial: o assassinato de figuras do oposicionistas Podemos, mais de uma centena de mortos, pelo menos centenas de feridos. 

Não contesto que o partido Frelimo tenha ganho as eleições, julgo até ser normal que isso tenha acontecido: aconteceu uma grande abstenção, na desmobilização do voto oposicionista devido a uma longa tradição de manipulação eleitoral, na desagregação real do histórico oposicionista Renamo (de facto cooptado pelo poder, e assim compreendido pela população), na tripartição da oposição eleitoralmente significante, para além do peso histórico do partido do poder e de este ter um efectivo aparelho partidário na totalidade do país. Não contesto a sua vitória nem a afianço, pois de facto os processos eleitorais não são credíveis - como deixou explícito a declaração da missão de observação eleitoral da UE, raríssima de tão crítica. 

A toda essa tradição de prática política eleitoral some-se a atroz repressão em curso, da qual houve nos últimos dois meses incontáveis testemunhos fílmicos e fotográficos.

Mas ontem, ao fim dos tais dois meses e meio, o Conselho Constitucional validou o processo eleitoral. Duas horas depois, meras duas horas depois, o nosso governo divulga a sua concordância apoiante ao velho poder de Maputo. Articulando algumas recomendações gerais sobre "boas práticas" com a adopção, explícita, da linguagem que o Frelimo usa para agora se legitimar, como está escarrapachado na utilização de "o novo ciclo" no documento oriundo das "Necessidades", tópico na actualidade sempre propalado pelo partido incumbente. Nesta deriva, decerto que emanada por concordância entre Belém e São Bento (e as Necessidades, decerto), não houve sequer uma pausa, uma ligeira demora - tão típica da linguagem diplomática -, que significasse um desconforto - com o passado recente, com o presente, com o molde de autocracia eleitoral, com o constante viés repressivo.

Resta apenas um frenesim, conivente, de Sousa, Montenegro & Rangel. Precaução, dirão os sacerdotes da "realpolitik". Incompetência e desatenção, direi eu, defensor da "realpolitik".

E se há dias para ter vergonha de ser português este é um deles. A causar um Natal acabrunhado.

Adenda

Ao meu postal criticam-no, por via privada, por "aceitar" a vitória do Frelimo. As pessoas querem - sobre aquilo que "torcem" - proclamações, como se adesões. Não as farei a propósito de partidos estrangeiros. O que digo é que não recuso a hipótese da vitória do Frelimo (e adianto razões plausíveis). Mas adianto que, seja qual for o resultado apurado, nada daquilo é credível. E que a reacção do governo português é execrável. Digamos assim, se por cá volta e meia se pede a demissão (até a cabeça) de um qualquer ministro (da Educação, da Administração Interna, da Justiça, etc) por causa de um qualquer episódio, por maioria de razão se deveria pedir o abate deste ministro Rangel. 

Quanto ao resto dizem-me que hoje - nas suas comunicações audiovisuais - o oposicionista Mondlane zurziu no nosso presidente e no nosso governo, com total pertinência. Tendo também a clarividência de salvaguardar os nossos compatriotas residentes no país. De facto inocentes da incompetência do nosso presidente e deste ministro dos negócios estrangeiros (entenda-se bem, o seu comunicado é inadmissível...).

Mas como é Natal e Rangel é Rangel tudo passará e ninguém por cá ligará.

Presidente sofre

Paulo Sousa, 25.06.24

Em resultado das dinâmicas da Guerra Fria, ou do espírito daquele tempo se assim preferirem, a forma como Jean-Bedel Bokassa chegou ao poder, e o exerceu, nunca pareceu importar à França, antiga potência colonial da República Centro Africana. O perigo soviético, cuja influência avançava em África ao ritmo de cada nova independência, justificava que se olhasse para o lado de forma a poder assegurar influência neste imenso território pejado de riquezas minerais.

Em 1969, Charles De Gaulle nomeou Bokassa como chefe de Estado, chefe de governo, presidente do partido único e ministro centro-africano da Informação, recebendo-o oficialmente para jantar no Eliseu. Reconhecido por tal generosidade, o antigo combatente que na Segunda Guerra Mundial se colocou ao lado das Forças Livres Francesas, entendeu tratar o presidente francês por “papá”. “Não me trate por papá!” terá dito De Gaulle embaraçado. “Oui, papá” terá respondido Bokassa.

Trago aqui este episódio em desagravo do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que igualmente embaraçado, terá recebido um email de um maluco qualquer, que lá por ser não sei o quê de uma Câmara de Comércio não sei de onde, o desatou a tratar por pai para aqui, pai para ali, se o pai puder ajudar, obrigado pai… dá mesmo vontade de dizer que vá chamar pai a outro! Ao que uma pessoa se sujeita para poder servir o país. Ninguém lhe dá o devido valor, é o que é.

Marcelo: o estado a que isto chegou

jpt, 04.06.24

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(Este postal ficou mais de um mês resguardado em "rascunho" para o apartar de qualquer associação, implícita que fosse, à execrável acusação a Marcelo Rebelo de Sousa de "traição à pátria", levantada pelo partido CHEGA)

"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos" (Capitão Salgueiro Maia, no discurso mobilizador às suas tropas na partida para a revolução de 25 de Abril de 1974)

Nestes anos da sua presidência tem sido reduzida a crítica a Marcelo Rebelo de Sousa (MRS), algo notório face às constantes invectivas aos outros agentes políticos, tantas vezes abrasivas. Mesmo quando se debatem algumas das suas decisões - as recentes dissoluções da assembleia ou posições avulsas sobre medidas legislativas, para exemplos maiores -, isso advém da elite política e surge sempre num cuidadoso registo plácido, denotando a quase intocabilidade de MRS. A qual muito ultrapassa o tradicional respeito pelo estatuto simbólico da presidência, o que é visível se comparando com o crivo crítico que recaía sobre todos os seus antecessores presidenciais. E diante da sua frenética actuação, esse corropio flanante e palavroso sobre o país, reina a "distracção" pública, restam apenas alguns dichotes, quantos deles em registo complacente... Até nos casos, recorrentes, que denotam alguma sua descompensação, a qual é apenas referida em surdina e/ou em tom de jocosa simpatia - como, para exemplos, os seus comentários a um decote ou, ainda pior, o já recuado, e absurdo, episódio durante a vigência da "distância social" no COVID, quando se deixou partilhar bocados de bolos com as crianças circundantes (compare-se a acrimónia com que, décadas passadas, tantos ainda referem o episódio em que Cavaco Silva comeu atabalhoadamente uma fatia de bolo-rei com o silêncio amnésico sobre este gritante disparate político comensal). Em suma, MRS tem "boa imprensa" e grande popularidade, esta constantemente visível.

O relevante é entender como pôde um homem com as suas características pessoais e o seu percurso político assumir tamanha relevância e captar tanto apreço, este que o vem blindando às críticas. Ou seja, como as representações e os anseios que a população tem sobre política e políticos coincidiram, casaram até, com a arquitectura que Rebelo de Sousa fez de si mesmo. Dito de outro modo, "Marcelo" reflecte "o estado a que isto chegou", o presente do regime.

 

 

Uma enorme e rematada estupidez

Pedro Correia, 18.05.24

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A acusação de "traição à pátria" ao Presidente da República era tão delirante que nem pode ser classificada de populista.

Tratou-se de uma enorme e rematada estupidez.

Marcelo Rebelo de Sousa talvez até deva agradecer o dislate de André Ventura, que nenhum jurista digno desse nome se atreveu a validar. E que cobriu de ridículo o líder do Chega perante a larga maioria dos portugueses.

 

As declarações do Presidente, mais papista do que o papa, a propósito das supostas "reparações" às antigas parcelas do nosso território ultra-periférico (como se diz em jargão eurocrático) são mais do que criticáveis. Eu próprio o fiz aqui, em tom jocoso. Daí a considerá-lo "traidor à pátria" e mobilizar 50 deputados para tentarem cavalgar a desbragada onda com horas extra de espaço noticioso é patetice tão grande que quase tresanda a desespero.

Não devia valer tudo para garantir lugar cativo nos telediários que adoram circo em sessões contínuas. Mas pelos vistos vale.

Quem vive na política assim, morre na política também assim. Porque há sempre outro demagogo ainda mais alucinado ao virar de uma esquina. Estes tiros acabam por fazer ricochete, como na velha história do aprendiz de feiticeiro, obviamente sem final feliz.