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O "exclusivo" de Marcelo na SIC

por Pedro Correia, em 15.10.19

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Marcelo Rebelo de Sousa revelou à SIC uma das cachas políticas do ano: vai submeter-se a um cataterismo, para avaliar eventuais danos cardíacos e deste exame clínico dependerá uma decisão sua sobre a recandidatura à Presidência da República.

Acontece que a entrevista em que o Chefe do Estado fez esta e outras revelações não foi conduzida por um jornalista, munido do respectivo título profissional, mas pelo director-geral de entretenimento da estação outrora sediada em Carnaxide. O que constitui mais um significativo sinal da desvalorização do papel social dos jornalistas e da sua progressiva irrelevância no circuitos comunicacionais contemporâneos.

Que a SIC, onde trabalham dezenas de jornalistas qualificados e prestigiados, tenha prescindido deles para a obtenção desta informação em exclusivo e que o próprio Presidente da República elegesse como emissário desta novidade alguém ligado à área do entretenimento diz muito sobre a degradação de um ofício hoje invadido a todo o momento por gente que não se inibe de divulgar matéria supostamente noticiosa sem sujeitar o que supõe saber ao crivo do contraditório nem cumprir outras normas deontológicas que só vinculam os portadores da carteira profissional de jornalista.

 

Não passa praticamente um dia sem que, neste ou noutros canais, escutemos comentadores da política ou do desporto difundirem em antena "notícias exclusivas" que muitas vezes são meros rumores, à revelia das respectivas direcções de informação. O caso mais flagrante acontece na área do futebol - a tal ponto que me questiono se continuam a existir jornalistas habilitados a pronunciar-se na área do desporto em qualquer destes canais. Mesmo que a resposta seja afirmativa, o facto é que qualquer deles pouco mais servirá do que para estender um microfone, muitas vezes em "conferências de imprensa" onde não se escuta uma verdadeira pergunta digna desse nome.

Tudo isto deveria preocupar a estrutura dirigente dos jornalistas - se ela existisse. Acontece que esta é a única actividade abrangida por um código deontológico que não está organizada enquanto ordem profissional. Condenados à proletarização, sem condições mínimas para exercer o trabalho, desconsiderados pelas empresas onde prestam serviço e ultrapassados a todo o momento por qualquer "comentador residente" em estúdio, os jornalistas figuram hoje no posto mais baixo da cadeia informativa.

Problema exclusivo deles? Não: é um problema dos cidadãos que tantas vezes preferem ser "informados" pelo que "se vai dizendo" nas redes sociais e elegem as televisões que mais transformam notícias em "entretenimento".

Um problema do País, portanto.

Perguntas que gostava de fazer (4)

por Paulo Sousa, em 03.10.19

Prof. Marcelo,

Como é que gostava de ser lembrado no próximo regime?

Um Presidente diligente.

por Luís Menezes Leitão, em 20.08.19

Graças ao seu conhecimento profundo das questões de constitucionalidade e à forma diligente com que examina os diplomas que lhe são submetidos para publicação, o Presidente da República tem sempre concluído com enorme brilhantismo nunca haver nada em diploma algum que lhe suscite qualquer problema constitucional.

Gente que não sabe estar durante os incêndios

por Tiago Mota Saraiva, em 23.07.19

Mais uma vez, o hábil e ponderado negociador António Costa, erra com estrondo na resposta que dá à crise dos fogos. Polemizar com o vice-presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei atacando-o num momento em que está a lidar com uma calamidade é um disparate político e um gravíssimo erro de comunicação. Se o que Costa diz não é mentira - os autarcas são os “primeiros responsáveis pela protecção civil em cada concelho" - também não é menos verdade que o governo é o principal responsável pela protecção das populações em risco e situação de calamidade.
Costa tarda em aprender com Marcelo que percebe que estes momentos são para ouvir, estar e deixar-se levar, mais do que assumir grandes declarações políticas. No que toca a Marcelo, e assim que os fogos estejam adormecidos, importará perceber como ultrapassará a declaração feita há um ano de que não se recandidataria se sucedesse uma nova tragédia.

Frases de 2019 (20)

por Pedro Correia, em 16.07.19

 

«O Presidente da República não é comentador político.»

Marcelo Rebelo de Sousa, falando aos jornalistas no sábado, dia 13

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Marcelo Rebelo de Sousa entrou no penúltimo ano do seu mandato com impressionantes níveis de popularidade – facto que só terá colhido de surpresa aqueles que, em qualquer banda ideológica, andam de passo trocado com a sociedade. Porque Portugal, naquele momento concreto, estava a precisar de um Presidente com estas características: alguém capaz de sorrir e de se comover em sintonia com o cidadão comum. Sem artifícios, sem poses estudadas, sem obedecer aos ditames das agências de comunicação. Porque Marcelo é mesmo assim. E nada melhor do que o senso comum dos portugueses para distinguir a boa moeda da má moeda, para usar uma expressão celebrizada pelo anterior inquilino do Palácio de Belém.

Seria muito interessante, a propósito, revisitar o que disseram e o que escreveram sobre Marcelo sobretudo aqueles que, acantonados num sector político afim ao do actual Chefe do Estado, o consideravam incapaz de ser a figura inspiradora e galvanizadora que se tem revelado nestes seus três anos no máximo posto político do País. Pintaram-no como imaturo e maquiavélico, recorreram a uma recordação infantil de António Guterres acerca de um irrequieto menino que tocava às campainhas de todas as portas. Houve até uma figura com décadas de lugar cativo no comentário político, acometida por uma visão nada inspiradora, que julgou detectar nele «falta de coragem» para se apresentar às urnas.

Marcelo encarregou-se de contrariar estes péssimos oráculos nos três anos que leva ao serviço do País, funcionando como efectivo traço de união entre todas as parcelas e todos os habitantes do território nacional. Graças a ele, temos hoje um Portugal mais confiante e menos crispado. E vale a pena sublinhar que o nosso primeiro Chefe do Estado especialista em direito constitucional alcançou este objectivo sem abdicar um milímetro dos poderes que a lei fundamental lhe confere: pelo contrário, reforçou o papel do Presidente da República no quadro institucional, quando a prática anterior ameaçava torná-lo mera figura decorativa, devolvendo assim a Constituição de 1976 ao espírito original, de matriz semipresidencialista.

Este Presidente capaz de passar uma noite na companhia de pessoas sem abrigo, de visitar “bairros problemáticos” onde por vezes nem a polícia entra ou de apontar a calcinada Beira Interior como local de férias, irá decerto continuar a surpreender-nos pela positiva. Travando assim o passo aos piores populismos, numa confirmação prática de que é possível aproximar os eleitos dos eleitores.

Ideias certamente não lhe faltam. Apesar disso, tomo a liberdade de lhe transmitir uma: celebrar um 10 de Junho em Olivença. Que, à luz da Constituição portuguesa e do direito internacional público (expresso na Acta Final do Congresso de Viena, em 1817), continua a ser de jure território nacional. Onde subsiste um valioso património histórico e cultural com a nossa marca e é notória a simpatia da população pelas suas seculares raízes alentejanas, o que aliás se traduz em números: desde 2014, mais de 800 oliventinos adquiriram a nacionalidade portuguesa e há turmas cheias de crianças a aprender português, apesar de ser ali apenas disciplina opcional.

Gostaria de ver Marcelo em Olivença, num 10 de Junho, confraternizando com os residentes nos 420 quilómetros quadrados do perímetro oliventino, onde se integram também as aldeias de São Jorge de Alor, São Domingos de Gusmão e São Bento da Contenda. Sem saudosismos nem nacionalismos bacocos. Com o seu espírito positivo e fraterno, de quem tem inequívoca vocação para estabelecer pontes. Esta seria mais uma.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

De disparate em disparate

por Pedro Correia, em 02.06.19

Rui Rio, como se não tivesse já adversários em número suficiente, decidiu abrir mais uma frente de batalha. Mas ainda não foi desta vez que começou a alvejar o Governo: preferiu atirar-se ao Presidente da República, considerando que Marcelo Rebelo de Sousa faz uma análise «muito optimista um bocadinho superficial» da cena política portuguesa.

«Temos uma crise efectiva de regime, com um descrédito muito grande de todo o sistema partidário», disse hoje Rio aos jornalistas. Falava como se não fizesse parte do sistema partidário e não fosse ele próprio líder de um partido desde Janeiro de 2018. Falava como se não andasse há quase 40 anos na política portuguesa - como vice-presidente da JSD, deputado social-democrata, vice-presidente do grupo parlamentar, secretário-geral do PSD, presidente da Câmara do Porto eleito pelo partido laranja e presidente da Junta Metropolitana do Porto antes de assumir as actuais funções.

Foi preciso ter conduzido o partido à mais estrondosa derrota eleitoral de sempre para se alarmar com a «crisa efectiva de regime». Cabe perguntar se falaria assim caso o PSD não tivesse ficado 11,5 pontos percentuais atrás do PS nas eleições que ocorreram faz hoje oito dias.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.05.19

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(pdf edition)

"Initially, balking at the vision, those selfies with “Uncle Marcelo” sat uneasily with me. The gravitas and dignity of a state visit stands incongruous with those eager faces: some showed complete joy in the utterly unique opportunity (ah, the benefits of expatriate life); others with awe and disbelief; a few were lost in the adrenaline rush, soaring so high on the occasion that they portrayed a kind of comedic grotesqueness; then there were those seriously contemplating the solemnity of this once in a lifetime chance, and even those that suggested it might become monetizable one day. Nonetheless, a joyous occasion appeared to be had by all.

At what point did our community move from ridiculing the selfie to becoming an advocate for it? This was not just any selfie, but a “marselfie”; an evidenced moment of intimacy with a figure of global importance and recognition."

A oportuna e distanciada leitura da incontornável Leanda Lee em Dignified Selfies. Para os portugueses e o seu Presidente da República reflectirem.

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Registos

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.05.19

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"E até é bom haver aqui em Macau alguma coisa, que é a sabedoria milenar chinesa, com alguma agitação portuguesa.

É bom quando me chegam, de vez em quando, notícias de Macau acerca de como um ou outro português é português, vive inquieto, quer mais e melhor, quer aqui mais ou quer melhor ali, e gostaria de ter uma ideia na Administração, outra ideia na Justiça, outra ideia na Língua, outra ideia na Cultura.

Eu vou lendo tudo, vou lendo tudo, e sabendo tudo.

E eu digo: que bom é haver a sabedoria e a calma chinesa e haver também este acicate desta capacidade imaginativa e de frenesim português." – Marcelo Rebelo de Sousa, Residência Consular, Macau, 1 de Maio de 2019

Frases de 2019 (12)

por Pedro Correia, em 26.04.19

«Se [as eleições] fossem amanhã, não tinha dúvidas.»

Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, admitindo votar Marcelo Rebelo de Sousa nas próximas presidenciais

Arte Contemporânea

por jpt, em 12.04.19

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Apanho esta fotografia no FB, em mural alheio. A gente (eu sou antropólogo, e há os "primos", colegas de outras disciplinas, que vão na mesma) adora aquilo dos artigos (os hiper-patetas dizem "papers", julgam-se melhores, mais credenciados se balbuciarem assim). Mas, de facto, que melhor "artigo" (ou "paper") poderá haver do que esta fotografia como "etnografia analítica" do estado da arte da "arte contemporânea" e da "política contemporânea"? Título da obra?: "o epifenómeno Sousa", autor desconhecido.

Um chá no Palácio

por Pedro Correia, em 08.02.19

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Pacheco Pereira, com a elegância que o caracteriza, adora aplicar o termo "transumância" aos jornalistas, equiparando a gado esta classe profissional de que faço parte. É a altura de retribuir-lhe o mimo, assinalando que também ele é um ser transumante: sai do canal televisivo que lhe dava guarida, entra na semana seguinte no canal concorrente, como se melancias fossem equivalentes a limões. 

Cumpre reconhecer que a transumância foi cumprida com requinte: recebeu a bênção prévia do primeiro-ministro, como se estivesse em risco a democracia, e acaba de ser ungida pelo Presidente da República, recém-regressado de um encontro com o Papa. Poderes terrenos e celestes convergindo na celebração litúrgica do Programa do Regime.

Não deixa de ter graça ver o biógrafo de Álvaro Cunhal instalado numa poltrona em Belém, dando voz ao Chefe do Estado - figura que tantas vezes tem apontado a dedo por falar em excesso. A 25 de Janeiro de 2018, por exemplo, declarou Pacheco sobre Marcelo: «A continuidade da acção do Presidente é a continuidade do Presidente como comentador. Ele fala sobre tudo e pronuncia-se sobre coisas que não se devia pronunciar.»

O visado, irrepreensível anfitrião e pastoreador paciente, acaba de servir-lhe um chá no Palácio. Eis uma forma muito original de o católico Marcelo dar a outra face.

Marcelo no Jamaica

por João Pedro Pimenta, em 06.02.19

Gostava de perceber porquê tanta indignação com a ida de Marcelo ao agora famoso (e famigerado) bairro da Jamaica. Um sindicato da polícia achou que o Presidente tinha tido um "desprezo absoluto" para com eles, os polícias. Ou seja, está a dizer que a gente do bairro é toda ela um bando de criminosos, o que não ajuda nada a refutar o argumento de que não há abuso policial. Uma crítica absolutamente imbecil e contraproducente, como se o presidente tivesse de dar contas à polícia dos sítios onde visita.

 

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Acho muito bem que Marcelo lá tenha ido. Se alguns marginais tiraram fotografias com ele, só posso dar a mesma resposta que ele deu: não tem de pedir cadastro ou CV a cada um que lhe peça para tirar uma selfie (nesse caso dois mandatos não chegariam para tudo). Se queremos que as pessoas destes bairros deixem de se sentir marginalizadas e discriminadas, o primeiro passo é que os mais altos responsáveis políticos apareçam, lhes falem e saibam como é que elas vivem. Assim até podem ganhar alguma noção de hierarquia e respeito pelo estado. Eu sei que o que está na moda são presidentes que só dão atenção à sua facção ou ao seu próprio eleitorado, mas para mim o chefe de estado está acima de grupos e grupinhos e deve dar atenção a todos. Também é por isso que sou monárquico.

Marcelo, Marcelo, Marcelo

por Pedro Correia, em 14.01.19

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Eu sei que o actual Presidente da República é uma figura popularíssima e que as notícias dignas desse nome não nascem para aí aos pontapés. Sei também que o Expresso cumpre ainda uma fase de penitência por ter noticiado há três meses, em manchete nada verdadeira, que o sucessor de Cavaco Silva iria reconduzir a procuradora-geral da República Joana Marques Vidal. Mas, caramba, era mesmo necessário escreverem "Marcelo" três vezes em título na primeira página deste sábado?

Nos anos 80, em que foi assinalado o centenário do nascimento do autor de Mensagem, popularizou-se a expressão «tanto Pessoa já enjoa». Não me admirava que um destes dias alguém comece a dizer «Marcelo, já cansa vê-lo». Agora a triplicar no semanário onde chegou a ter o nome no cabeçalho, como director.

 

P. S. - "Marcelo acha", em título de capa, é o cúmulo do achismo. Confundindo o Presidente com um Sherlock Holmes.

Celo de Sousa

por jpt, em 08.01.19

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A seguir a Sócrates, Celo de Sousa é o político de expressão nacional que mais abomino no rincão. Ou seja, o que julgo pior fazer ao país. Sim, pior do que os corruptores siameses Campelo/Portas, ou o insuportável Louçã, o stôr Nogueira ou o "florentino" (as known as filhodamãe) Augusto Santos Silva. Ainda assim surpreende-me a baixaria (e é difícil que um PR que muda em cuecas em público possa baixar mais baixo) a que ascendeu esta semana passada. A minha atenção para o facto é convocada por um comentário aqui no DO. Na mesma semana em que, em verdadeiro delírio popularucho, telefona em directo para a estreia de um programa de entretenimento televisivo - certo, a apresentadora é uma balzaquiana interessante, mas menos apetecível do que a do concorrente "Praça da Alegria", já que o assunto é convocável -, os serviços de Celo de Sousa esqueceram o falecimento de Joaquim Bastinhas, figura relevante da cultura nacional. Googlei e confirmei. Bastinhas, exímio cavaleiro, e genro do incontornável Comendador Nabeiro (que tive a honra de conhecer em Maputo, quando integrou uma comitiva de um predecessor de Sousa), era uma figura popular e expoente de uma prática cultural tradicional portuguesa. Se fosse um futeboleiro Sousa iria abraçar a sua prole. 

Mas o BE resmunga? O PAN protesta? Celo cala-se. E telefona à "Cristina". O povo, em especial os seniores, demente ou proto-demente, rejubila. Os outros? Já lá não estão.

A comunicação é sobre um assunto tão importante que obrigou mesmo o Chefe de Estado a interromper uma reunião que estava a decorrer.

Marcelo

por Pedro Correia, em 12.12.18

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Setenta anos, celebrados hoje. Em plena forma. Com níveis de popularidade altíssimos já após ter cumprido mais de metade do seu mandato. Em tempos que convidam à depressão colectiva e ao afastamento entre eleitores e eleitos, ele persiste em fazer a diferença. Com um sorriso aberto, um abraço solidário, uma palavra inspiradora. Decepcionando todos aqueles que desejariam ver em Belém uma espécie de múmia grave e sorumbática.

Vai continuar a decepcioná-los, tenho a certeza. Ainda bem. Parabéns, senhor Presidente.

O Vício Blogal

por jpt, em 27.09.18

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O vício blogal é tramado, um tipo lê as notícias de uns dias e, por mais que diga "tenho mais que fazer, que se lixe ...", cai nas teclas: MRS diz que não saudou o PR americano por respeito à posição portuguesa sobre o multilateralismo. Ou seja, explicita que as suas formas de saudação denotam a posição do país, dado que ele PR. Muito bem. E a posição portuguesa, do Estado e da sociedade, sobre a laicidade, essa conquista da democracia? Pode o PR saudar o Papa neste gesto de "islão", de submissão expressa no beijo ao anel? Não. A "direita" portuguesa, mais ou menos católica, (pelo menos disto) gosta. A "esquerda" portuguesa, entre os descendentes da capela do Rato e a igreja PCP, encolhe os ombros. Está-lhe grata, pela protecção ao governo na cena dos fogos, pela protecção ao regime na cena da PGR - e é estruturalmente avessa à laicidade: eu recordo o meu espanto, então recente torna-viagem, com o sucesso, aplausos e partilhas, de tantos intelectuais compatriotas ao abjecto texto do padre Leonardo Boff a defender limites ao direito à blasfémia logo após o atentado ao Charlie Hebdo. E passeiam-se por aí, a dizerem-se democratas, anti-censura. E os "tudólogos"? Falam do resto ...

Aos 13 na escola li "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes (e depois o "Engrenagem"). Antes lera "Os Putos" de Altino de Tojal (livro que vendia imenso). Chamavam-lhes neo-realistas, havia um Alves Redol (que nunca li) ou um Manuel da Fonseca (que li logo depois e gostei - tenho que lá voltar) e acho que um jovem Cardoso Pires, se não estou em erro. Nas casas de muitos burgueses, e para além de bustos de Lenine e obras de Marx e Engels, constavam reproduções dos desenhos de Cunhal. E de Cipriano Dourado, e talvez outros. E juntavam o Gorki ao Caldwell e ao Saroyan, enquanto desdiziam um bocado do Jorge Amado, "apesar de ...", pois "enfim ...". A coisa era apresentar a todos nós, burgueses, a grandeza e a beleza ética e estética dos outros, esconsos e oprimidos, seus modos de vida e legítimas aspirações. O (neo-)realismo foi saindo de moda, tinha havido até umas polémicas, e poucos quererão hoje saber das mentes e desejos das belas e robustas catarinas eufémias e dos valentes proletas da praça da grève. O "must" de agora, nada (neo-)realista, diz-se, é louvar a ética e a estética dos gajos que metem chicotes pelo ânus acima ... "Épater le bourgeois", seja com a virilidade proletária seja com a do lumpen prostituído, mas nada mais do que isso. Bom para os "tudólogos".

De resto, em 3-4 dias? O ministro da defesa ainda o é (ele que disse que se calhar não tinha havido roubo em Tancos - estamos a brincar?, não é óbvio o que o homem sabia?); a polícia da tropa vê os seus graduados presos; os generais assobiam, quais meros milicianos da administração do rancho. O ministro da saúde manda à merda a democracia e diz que só vai ao parlamento daqui a 6 meses. O PM goza com o ter faltado à "palavra de honra" (mas tudo está bem, há uma entrevista da mãe dele a confirmar que ele é bem educado; e o Ferreira Fernandes, já agora, lembrou que o pai dele era antifascista e anticolonialista, não vá a gente esquecer-se). A ministra do mar põe a sócia a dirigir os portos, é ilegal, mas (também ela) não tem agenda para responder aos jornalistas. Nem para se demitir. O arquitecto Salgado surge em mais uma marosca, e logo tudo desaparece das notícias. Um antigo professor meu publica um texto contra Medina, a propósito da apropriação privada de um miradouro - logo partilhado pelos "companheiros de estrada" naquela "esquerda". Afirma(m) que Medina tudo faz para preparar a cidade para os turistas. Alto, mas não é isso que se critica ao presidente da câmara, essa sua ideologia do "jardinismo", desde há anos? Ah, sim, mas a gente é de "direita", somos só ressabiados. Eles não, agora a crítica é justa (e pós-Robles, já agora: "cá se fazem, cá se pagam").

As deputadas portuguesas fotografam-se contra Bolsonaro. Este é um traste. Um cafajeste, como se dizia nas velhas novelas dos anos 1970s. Aliás, o homem é um fascista, não é preciso outro adjectivo ou outro insulto. Mas as senhoras deputadas não acham que têm, portas dentro, tralha suficiente (ainda que não tão abjecta) para estarem contra? Não querem fazer, não acham que o deviam, uma "usie" contra esta cloaca? E a semana ainda vai a meio. Sabe-se lá o que antes do fim-de-semana ainda virá, neste estertor de regime ...

Mourinho está com problemas no Manchester United. E o tipo que foi do Rio Ave para o Nantes também. Mas o Eder(zito) marcou um grande golo na taça da Rússia. Há esperança.

Marcelo no país que não tem voz

por Pedro Correia, em 06.08.18

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 Imagem da Sábado

 

Tenho, de antemão, bastante pena do Presidente da República que sucederá a Marcelo Rebelo de Sousa. Porque irá ser permanentemente comparado com o seu antecessor. De forma desfavorável, não custa antecipar. Por mais que isso custe aos escassos detractores do actual inquilino de Belém, incapazes de dar o braço a torcer no reconhecimento dos seus méritos.

Há quem sobrestime o papel das agências de comunicação na chamada "formatação de políticos". Acontece que nenhuma agência, por mais credenciada que seja, consegue aquilo que sucedia nas fábulas da nossa infância, capazes de transformar sapos em príncipes pelo efeito de um simples beijo. Isto não acontece, de todo, na vida real. Nenhuma agência de comunicação seria capaz de fabricar um candidato com a soma das qualidades de Marcelo. O actual Chefe do Estado - que, recorde-se, andou quatro décadas a preparar-se para a função que hoje desempenha - não necessita dos préstimos de agência alguma: basta-lhe a conjugação do seu instinto político com o talento que até alguns dos seus mais empedernidos adversários lhe reconhecem, tudo polvilhado com o lastro que foi acumulando em múltiplos terrenos, no plano político e no plano mediático.

Até em férias isto acontece. Viu-se neste fim de semana, o mais quente de sempre em Portugal desde que há registos credíveis sobre a temperatura atmosférica. Marcelo fora da agenda oficial, distante dos palcos institucionais, trocando a solene gravata pelo calção de banho, mergulhando nas águas convidativas das praias fluviais do País esquecido, forçando de algum modo os meios de comunicação a irem ter com ele. Só assim, neste Portugal tão assimétrico, onde o "interior" começa tantas vezes a 30 quilómetros do litoral, é possível vermos em horário nobre dos nossos noticiários televisivos regiões tão belas e tão ignoradas pela turba dos tudólogos urbano-depressivos. Como Tondela, Vouzela, Arganil, Oliveira do Hospital e Penacova.

Graças a ele, Marcelo. Atento às áreas deprimidas do rectângulo lusitano que necessitam mais que nunca de visitantes prontos a contribuir para a dinamização do frágil tecido económico local. Atento como nenhum outro ao país dos portugueses cuja voz não chega ao Terreiro do Paço.

Até em férias, o Presidente da República faz mais pelo combate à desertificação do interior do que mil discursos de cem ministros.

Vai ser árdua, a tarefa do seu sucessor.

Um Presidente em calções

por Alexandre Guerra, em 05.08.18

Nos anos 70, o sociólogo e politólogo Roger-Gérard Schwartzenberg publicou um livro muito importante no campo da sociologia e da ciência política chamado "O Estado Espetáculo" (trad. brasileira). Nesse livro, que me foi apresentado há uns anos pelo já falecido professor João Bettencourt da Câmara numa das aulas de mestrado, e que devia ser lido por quem, muitas vezes, se pronuncia no alto da sua sabedoria sobre os fenómenos da comunicação política dos dias de hoje, Schwartzenberg alerta para os perigos da teatralização da acção dos actores políticos, tornando-se, em muitos casos, espectáculos de "one man show", onde o cidadão é um mero observador passivo perante o exercício de poder egoísta e interesseiro de quem o detém. Espectáculos circenses nos quais os políticos pouco virtuosos colocam os seus interesses pessoais e fúteis acima dos outros. Como escreveu Adriano Moreira, em Maio de 2016, numa das suas crónicas no DN, precisamente em relação a este livro de Schwartzenberg, todo este "espectáculo" montado pelo político é feito "sem grandes preocupações sobre manter a integridade da relação entre o proclamado e a ação do poder alcançado".

 

Este era um dos perigos para os quais Schwartzenberg alertava, ou seja, o do eterno problema da ausência de verticalidade na política e na falta de palavra dos seus intervenientes, entre a promessa e a concretização. Ora, analisando bem aquilo que o autor queria transmitir, problema não se coloca no facto de um político aparecer ou não em cima de uma tartaruga algures numa ilha paradisíaca do Índico ou de surgir em directos nas televisões a mergulhar numa praia fluvial no interior de Portugal. A questão, sim, que deve ser tida em conta, é se esse mesmo político se preocupa em “manter a integridade da relação entre o proclamado e a acção do poder alcançado”. Esse é o exercício que se deve fazer num âmbito de uma análise política e é o que se deve ter em consideração no escrutínio que um cidadão faz ao seu líder, esteja ele de fato e gravata ou em calções. É sempre importante relembrar que Winston Churchill só não governou deitado, porque não dava muito jeito, tendo sido apanhado em situações perfeitamente disparatadas, mesmo para aquela época, no entanto, penso que ninguém duvidará da sua convicção e no seu compromisso com a causa maior e com o seu povo. E é isso o mais importante, é isso que deve ser julgado pelos cidadãos, porque é isso que faz com um líder seja virtuoso, que contribua para o bem-estar das pessoas.

 

O Presidente Marcelo, à sua maneira, abdicou de parte das suas férias para fazer aquilo que achava que era o seu compromisso com as populações, sobretudo com aquelas que sofreram directamente tamanhas tragédias com os incêndios do ano passado. Dirão os críticos que o podia fazer sem o aparato mediático. Podia, mas não era a mesma coisa. Porque o objectivo também é chamar a atenção, sensibilizar, e aí, um bom político, utiliza as ferramentas que tem ao seu dispor para executar a sua visão, a sua estratégia. A diferença é se o faz em prol dos seus interesses e projectos pessoais de poder ou se, por outro lado, o faz a pensar nas pessoas.

 

Embora nem sempre tenha concordado com algumas opções e acções do Presidente, não tenho dúvidas de que Marcelo está de corpo e alma com estas gentes do interior. Basta vê-lo pessoalmente no local e percebe-se o seu envolvimento. Mas mais importante, é ver os olhos de felicidade e de conforto das pessoas do tal interior, historicamente sempre esquecido pelas elites de Lisboa. Marcelo não esqueceu o que tinha dito no ano passado depois da tragédia dos incêndios, de que iria passar férias na região, e isso é que é raro em política. Apelou também a outros políticos e aos portugueses para visitarem todos aqueles concelhos. Pois bem, o presidente cumpriu. E cumpriu genuinamente.

  

Marcelo, que ao longo da sua vida política nunca deixou de ser maquiavélico (no sentido científico da palavra) e alinhar em “jogos de bastidores”, parece ter deixado parte disso para trás quando alcançou o seu projecto de poder de uma vida, Belém. Um segundo mandato depende apenas de si. Com quase 70 anos, parece ser um homem em paz consigo próprio, que assumiu o registo presidencial virado para o povo, contrariando alguns vaticínios de caos e anarquia no Palácio de Belém. Marcelo é hoje um político que não precisa de qualquer reforço de reputação ou de notoriedade. Muito menos, precisaria de abdicar das suas férias no Algarve para executar uma manobra circense no interior do país de modo a subir nas sondagens. Pelo contrário, nunca nenhum político em Portugal foi tão acarinhado pelas pessoas e nunca teve sondagens tão favoráveis. 


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