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O novo mapa cor-de-rosa.

por Luís Menezes Leitão, em 03.04.14

 

Como bem se salienta aqui, esta nova proposta de mapa do território marítimo faz lembrar a obsessão do Estado Novo com a extensão do enorme império colonial português. É normal em épocas de crise Portugal ficar obcecado com sonhos de grandeza, perdendo qualquer ligação com a realidade geopolítica, como foi o caso da aventura do mapa cor-de-rosa no séc. XIX, que nos custou a humilhação do ultimato inglês.

 

Hoje, no entanto, a ambição ainda é mais irreal, resultante nesta proposta de extensão da plataforma continental a um enorme território oceânico onde não existe qualquer plataforma continental. Que eu saiba, os Açores ficam no meio do Oceano e são de formação vulcânica, pelo que, a falar de continente, só pode ser o continente perdido da Atlântida. E onde não há plataforma continental, não há qualquer utilidade na extensão territorial, uma vez que o aproveitamento económico dos fundos oceânicos é praticamente impossível. Portugal quer construir assim um novo império marítimo, reinando como Neptuno sobre os abismos oceânicos. É por isso que o Governo proclama entusiasmado que Portugal é Mar. Na verdade, todos os dias se afunda.

Ali mesmo no meio

por José Navarro de Andrade, em 22.11.12

 

Quem aterrasse nos anos 80 no antigo aeroporto de Hong Kong tinha direito a pelo menos dois pavores. O primeiro era temer que o avião se despenhasse sobre as casas. De tal modo se rasavam os telhados que havia quem jurasse ter visto o branco dos olhos da senhora que pendurava roupa no último terraço antes da pista. O segundo era a pista, propriamente dita, uma fitinha de cimento a entrar pelo mar adentro. A mais leve guinada e o mergulho era certo.

Dado a outro tipo de impressões, o que me chamou a atenção foram uns armazéns de carga ostentando o nome de Far East Company – onde fica o extremo oriente quando já estamos no extremo-oriente?

Há poucos países que se designam pela sua posição geográfica; assim de repente ocorre a famosa República Centro Africana. Mas há outros casos, muito mais subtis porque bem disfarçados pelo nosso própria cultura. “China” por exemplo é um nome de origem sânscrita que aparece no Ocidente pelo punho de um navegador português, designando um país até aí conhecido como o reino de Cataio. Toda esta nomenclatura é, evidentemente, estranha aos locais, que chamam à sua terra Zhongguo, uma palavra que significa Império do Meio. No meio, no centro, de quê? No centro do mundo, claro.

E se alguém julgar que isto é vaidade de autóctones fique sabendo que até os vizinhos acatam esta assumida centralidade. Nomeadamente os daquele reino que por se encontrar a leste do centro se denomina como “terra do sol nascente”, ou nippon na língua local, que gerou o exónimo Japão.

planisferio japones.png

mapa mundi escolar japonês 

planisfério chinês

 

Sendo a cartografia uma pura convenção, nós, ocidentais, decidimos partir o planeta pela Linha Internacional de Data (outra pura convenção) que a norte passa pelo estreito de Bering. Esta dobra é inconveniente senão insultuosa a quem considera, com toda a legitimidade, que está no centro e assim se vê remetido a um canto. Donde que noutros lugares a cartografia tenha uma feição bem diferente da nossa como se pode ver nos exemplos acima.

Uma certa senhora, um pouco menos desinformada do que destrambelhada, começou por dizer que “nós não estamos na periferia de nada”, uma frase vacuamente patriótica, embora não de todo insensata. Mas nas justificações, como de costume, foi ter à farsa. A seguir exclama: “nós estamos no centro do mundo” e depois aponta: “se olhar bem a nossa posição geográfica no globo, estamos no meio.”

Havendo mais alguém que presuma ser possível estar no meio da superfície de um globo, faça o favor de levantar a mão.


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