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Delito de Opinião

A Festa do "Avante" 2022

jpt, 02.09.22

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Começa hoje a Festa do "Avante", a dos defensores da "manobra militar especial" russa na Ucrânia, a dos que ainda hoje, na hora da sua morte, invectivam Gorbatchev por não ter sustido Honecker, Jaruzelski, Kadar, Ceausescu e quejandos... A festa dessa escumalha moral e intelectual. Gente imperdoável e seus colaboracionistas. 

Um dos músicos que lá vai actuar é este sempre tão arrogante, de hiper-valorizado, Vitorino Salomé. O qual sempre fez actuar uma folclórica "identidade alentejana" de contornos políticos, de "liberdade" sedimentada. E lembro-me de que há 37 anos este Vitorino fez um espectáculo no Coliseu dos Recreios, então casa central, apogeu, na cena musical portuguesa. Um amigo organizava aquilo e arranjou-me um trabalho, por isso assisti. O cantor, cheio de si próprio, pois catapultado pela pobre cena musical daquela era, convidara o então algo marginalizado Tony de Matos para participar no espectáculo. E justificou isso, julgo que no jornal "Sete", por Tony de Matos ser o "cantor das sopeiras". 

Ao ler tal aleivosia, desvalorizadora do grande cantor romântico que o período revolucionário atirara para difíceis condições laborais, resmunguei alguns impropérios sobre o pitoresco rancho Salomé. Mas fui trabalhar, claro. 

37 anos depois ainda me lembro, da penosa actuação (adorada pelos lisboetas de então) do tal Vitorino - da má produção musical e da fraca intervenção vocal deixo aqui memória que é prova. E de que quando o velho e grande Tony de Matos entrou em palco para a sua breve actuação, o Coliseu se levantou em apoteótica aclamação, confrontando-se com a gigantesca diferença de capacidade interpretativa. Grande Tony..., pobretanas Salomé. 

37 anos depois? Ide lá bater palmas ao pobre, putinesco brejnevista, Vitorino. E continuem a dizer a esse Salomé, honeckeriano, kadarista, jaruzelskiano, que simboliza a "liberdade". E, para pior sarcasmo, que canta bem. Ide, sede hipócritas. Mas há uma coisa, contrariamente ao que diz a canção, a gente rir-se-á de vós...

Coldplay e a Economia do Rock

jpt, 25.08.22

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Não é preciso afixar um retrato para comprovar a conclusão a que hoje cheguei: abandonei o estado de (mais-)velho e atingi o estatuto, frágil, de ancião.
 
Notei isso face à azáfama nacional na aquisição de bilhetes para os concertos do grupo Coldplay, que actuarão em Maio próximo em Coimbra - em espectáculos com algum apoio autárquico (ainda não especificado) -, numa hora esgotaram-se três lotações do estádio municipal  e outra se esgotou em breve, tamanho o afã de centenas de milhares de admiradores. O bilhete mais barato custa 90 euros, depois 150 e daí para cima. Demonstração de que há dinheiro na sociedade civil, algo óptimo, pois saudável.
 
Mas lembro-me, ancião ainda não totalmente desmemoriado, de uma coisa. Quando era miúdo tinha o hábito de coleccionar os bilhetes dos concertos, e de os afixar no quarto. Assim os seus detalhes acompanharam-me anos e recordo alguns: os bilhetes de rock em estádio custavam 420 escudos (Police, para exemplo de grandes "estrelas", e em organização de apenas um concerto, no topo do estádio, assim com menos audiência). Quantia que era, grosso modo, o equivalente ao preço de um LP e de um single. Já os concertos de pavilhão (principalmente no Dramático de Cascais, no Restelo ou em Alvalade, rondavam os 300 escudos - o tal LP).- Quando uma década depois (já na CEE) os Rolling Stones deram um (apenas um) espectáculo em Lisboa, na sua ansiada primeira actuação no país, o bilhete custou 5500 escudos. Era dinheiro que se visse. Mas, de facto, correspondia a um jantar bem regado num restaurante mediano no "Bairro" (esse que fomos nós que inventámos, não os d'agora).
 
E agora a lotação de 4 estádios com bilhetes de 90 euros para cima, esgotados numa manhã? A economia do rock mudou muito. E eu, ancião, congratulo-me. Finalmente o meu país está na "Europa", os patrícios abonados. Enfim, vou ali ao parque jogar dominó....

Uma rapariga do meu tempo

Pedro Correia, 11.08.22

Eu era miúdo, mal saído da infância, ela já adulta. Foi um dos meus primeiros amores de adolescência. Linda: parecia uma princesa. Invejei o imbecil do Travolta: queria estar no lugar dele na película que ambos fizeram lá para finais dos anos 70. Filme foleiro, disseram alguns, sem perceberem que aquilo era uma festiva celebração da vida. Fugaz instante que tão cedo se esvai.

Demasiado cedo, no caso da minha sempre amada Sandy, também chamada Olivia Newton-John

A interrupção voluntária da gravidez

jpt, 29.06.22

Julho assoma, chegarão de férias os nossos emigrantes, sempre breves períodos em busca dos mimos familiares, do calor dos amigos, dos odores e sabores, do à-vontade talvez mais do que tudo, daquilo que nos fez e faz algo diferentes quando cá.
 
Entretanto, se alguns deles gastarem algum desse precioso tempo com jornais, tv ou redes sociais, terão a impressão de que regressou o debate sobre a lei do aborto. Então aqui fica aqui o aviso, solidário pois de ex-imigrante: nada disso, não justifica dissipar férias com tal assunto. Todo este ruído que para aqui anda é mesmo apenas porque os doutores portugueses são umas pobres bestas.

Anitta no Rock in Rio

jpt, 28.06.22

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Há vinte anos que fazem um grande festival musical ali em Chelas, julgo que, pois nunca lá fui, nas redondezas do Valsassina - onde estudei - e do velho Cambodja, zona dura onde nem nós, rapaziada dos Olivais, nos atrevíamos a pass(e)ar, a não ser os desgraçados que ali iam ao pó. Lembro que há tempos, estando eu no estrangeiro, lá foram os Stones e apareceu, de surpresa, o Springsteen. E que passados anos regressou este, já com a banda toda, e muito lamentei não ter lá estado, antes a rever os dos Glimmer Twins e, até mais, depois a ver o Boss.
 
Nos últimos dias os gerontes lusos com os quais tenho ligação no Facebook apinharam a minha "ração" de FB com postais sobre a edição deste ano: discutiram o plantel, gozaram com os artistas contratados, foram anunciando que os filhos (e netos) lá foram, e alguns gabaram-se de os terem acompanhado, etc. e tal. Foi um frenesim, o qual bem demonstrou a relevância para a cidade deste festival - ainda por cima neste pós-Covidoceno.
 
E hoje há imensa gente a protestar, insultar, uma cantora brasileira - Anitta, da qual nunca ouvira falar - por ter acenado a bandeira espanhola. Nem sequer se tratou de uma coreografia, apenas aconteceu que a mulher foi cantar junto ao público, um entusiasmado de primeira fila passou-lhe a Rojigualda, e ela continuou até ao palco e nele agitou a prenda por alguns momentos.
 
E cai o Carmo e a Trindade...! Um enorme coro de coirões insurgindo-se por tal ter acontecido no ... "Rock in Rio" em Chelas! Como se dizia no meu tempo "Se a estupidez pagasse imposto, estava Fernando Medina eufórico". Que patrioteiros imbecis.

McCartney octogenário

jpt, 18.06.22

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O McCartney faz hoje 80 anos. É dele a primeira canção de que me lembro - "Tenho seis anos, é noite, estou na sala da nossa primeira casa, na rua cidade de Cabinda em Lisboa, eu no braço da poltrona do meu pai, aquela orelhuda, e nela sentada a minha irmã lê-me um livro dos "Cinco", da Enid Blyton. Na rádio, aquela hi-fi Telefunken, acontece o diário "Quando o Telefone Toca". Alguém pede esta música, que eu nunca ouvira. E de repente, quando ela soa, e sei lá porquê, é um momento lindíssimo, que nunca mais esquecerei. Felicidade? Há quarenta anos." - foi o que botei em postal de blog em 2010.

Um beijo, mana... e deixo(-te) mais uma das mesmo dele. Que é uma das que quando tocam me deixam exactamente com o ar apatetado e feliz desta audiência. Há lá algo mais importante?...

Shock the Monkey

jpt, 05.06.22

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É comum ler "doutores" - académicos e jornalistas, ciosos ciumentos saudosistas do seu estatuto de intermediários do Saber, como se Sábios pedagogos pairando sobre nós-plebe - criticarem os perigos da internet, aterro de lixo (e nisso quantas vezes citam Eco). E apupando as "redes sociais" - as quais reduzem ao FB e ao Twitter -, quais pântanos da nossa popular malévola ignorância.
 
São nisso broncos - como alguém que refute bibliotecas porque (também) têm maus livros. São broncos e não têm vergonha de o ser pois ninguém lhes diz isso, dado que infelizmente continuamos naquilo do "respeitinho é muito bonito", chapéu na mão diante do "sô dôtor".
 
Boto isto nesta nebulosa manhã dominical não porque tenha acordado possuído por uma réstia de Michel Serres (esse que reduziu esses filisteus à tralha que são). Mas apenas para louvar, em cúmulo de gratidão, o que estes meios me dão, por malvados capitalistas que os detenham... Pois foi numa "rede social", em murais dos populares que por lá pululam, que soube da transmissão na RTP2 da "Akhnaten" de Glass. A qual está disponível na RTP Play (na tal internet dos miasmas intelectuais) - versão aparentemente majestosa, pelo pouco que já vi. E que verei completa após o jogo da selecção de hoje.
 
Mas muito mais, foi ali noutra "rede social" musical que ontem voltei ao "Live in Athens 1987" - um Peter Gabriel soberbo, já liberto da pirosa tralha Genesis, no pico da voz, no cume da sua inovação no rock. E com um lendário grupo de músicos fabulosos (David Sancious, David Rhodes, Manu Katché, Tony Levin).
 
Sim, o som do meu computador não é grande coisa, eu vou um bocado mouco. E perro, tanto que já nem sozinho ao espelho danço... Mas ainda assim estou há horas, desde a alvorada, a ouvir em loop esta Shock the Monkey - que o autor diz ser sobre o ciúme mas que sempre imaginei como uma canção sobre como o amor nos fez evoluir. E que aqui vem numa versão sublime.
 
E neste longo e intenso loop rejuvenesço décadas, cada vez mais... com a má contrapartida de que assim, de súbito tão jovem, percebo o quão irrelevante, sem sentido e mesmo incompetente é o texto word que tento culminar. Mas que importa isso quando se é jovem?
 
Aqui deixo a canção (retirada de uma outra rede social). Ouvi em loop, comprovai o rejuvenescimento.... Ou então ide ler os "doutores":
 

"A night at the opera"

beatriz j a, 21.05.22

Ontem fui ao São Carlos ver o «Fausto» de Gounod. Uma ópera grande, em cinco actos, baseada na primeira parte da obra homónima de Goethe. Desde que o «Fausto» veio à luz, por assim dizer, nunca mais deixou de inspirar obras, tanto na literatura como na música. Há muitas peças musicais baseadas no poema de Goethe e três grandes óperas, sendo esta de Gounod a mais popular e a que mais vai à cena nas casas de ópera. É uma peça muito melódica e que se desenvolve com muita profundidade.

A peça abre com o Dr. Fausto velho, doente, em fim de vida, a reflectir sobre a falta de sentido do mundo, mas incapaz de se desapegar, revoltado e tentado pelo suicídio, «Nada. Em vão interrogo a Natureza e o Criador», diz Fausto, antes de invocar Satã, com quem fará um pacto de vender a alma em troca da juventude. Este início é muito melódico.

A encenação não começou muito bem, para o meu gosto. Vemos Fausto, já muito velho, entrar numa cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira, parar diante de uma banheira gigante no meio do palco (que tem um pêndulo gigante a balouçar para indicar a passagem inexorável do tempo), despir a camisa e ficar nu, de costas para nós. Depois, enquanto ouvimos aquela música impregnante e melódica estamos a ver a enfermeira lavar o rabo do Fausto... não havia necessidade. Percebe-se a ideia do peso da carnalidade humana na superficialidade da vida, mas... enfim, passado este início, foi tudo muito bom. 

O tenor, Mario Bahg, cantou a sua parte com muito lirismo, muita sensibilidade, sobretudo nas partes mais íntimas. Mefistófeles, um baixo, Rubén Amoretti, aparece como um dandy fantástico, sempre seguido por dois demónios visualmente insidiosos e maléficos nos seus movimentos (no final, já nos agradecimentos, desmascaram-se e vamos que são duas mulheres) é como um mestre de dança que comanda todas as almas para a perdição eterna. A cena da danação de Marguerite é verdadeiramente impressionante. Num ambiente escuro e fantasmagórico, Marguerite reza, perto de um padre, aos pés de uma pietá. Eis que aparece Mefistófeles e um monte de gente que ele possui, como marionetas momentaneamente animadas, contra ela - a própria escultura ganha vida e Cristo e sua Mãe começam numa dança erótica, bela na sua decadência obscena, tudo cantado com grande beleza e profundidade dramáticas. A cena da dança das bruxas também é impressionante, uma espécie de bacanal dos infernos a acompanhar o enlouquecimento de Marguerite. 

Marguerite é a personagem que mais evolui ao longo da peça. Começa como uma donzela cheia de excitação pela vida, pelo amor e pelas riquezas e no fim da obra é uma mulher desiludida, abandonada grávida por Fausto que se esgota -ele, não ela- na busca ávida de prazeres e na satisfação dos desejos. 

O soldado, Valentin, irmão de Marguerite que canta uma das árias mais bonitas e famosas da ópera -avant de quitter ces lieux - é um barítono português com uma voz cheia e de grande dimensão, vencedor do prestigiado concurso alemão de Heidelberg, DAS LIED.

Enfim, desde os cenários, muito inteligentes (como têm de ser sempre no São Carlos que é uma casa de ópera muito pequena e não tem espaço para grandes construções em palco), a movimentação das personagens em cena, o coro do São Carlos (excelente), o jogo de luzes que ajudou na perfeição ao ambiente temático da ópera, até à prestação da Orquestra Sinfónica Portuguesa e ao seu maestro, foi tudo muito bom e no fim gritámos todos em ovação como acontece quando as óperas são boas e há um frisson na assistência.

Adoro esta ópera, conheço-a de cor e em casa estou habituada a cantar à medida que ouço música, de maneira que estava a fazer um esforço para acompanhar a melodia só com os ouvidos e a mente.

Para quem gosta de ópera, um espectáculo que quando é bom é insuperável, porque completo, já que inclui tantas artes diferentes, recomendo vivamente uma noite na ópera, no São Carlos, a ouvir o «Fausto» de Gounod.

(André Baleiro canta aqui bem, mas ontem cantou, ainda, muito melhor)

também publicado no blog azul

A vida

jpt, 21.05.22

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Estou numa esplanada, ao Vale dos Barris, com uma bela imperial mas sem um livro. Por isso corro o FB, a distribuir laiques como se estivesse no metro. Nisso vejo que Byrne fez 70 anos há 6 dias. E lembro-me que há 30 e tal anos, espólio acabado de cumprir, regressei à casa paterna, olhei para o meu quarto desde a meninice e arranquei da parede (guardando-os) os dois últimos resquícios da adolescência: Lou Reed (em "poster" da Música&Som) e a fotocópia da letra desta "Once in a Lifetime". Arranquei-os da parede, e fiz mal, mas não cá de dentro.

Vangelis (1943-2022)

João Sousa, 19.05.22

Por vicissitudes várias, há pelo menos uma dúzia de textos que, nos meus anos de blogosfera, já fiz e refiz inúmeras vezes na minha cabeça sem que uma única letra tenha sido (ainda) colocada no papel ou no computador. Um deles seria sobre Vangelis, que morreu na terça-feira. Não foi raro ouvir manifestações de estranheza pela minha admiração por ele. Que não reduzam a sua obra à "banda sonora do Guterres", foi o que sempre respondi aos sarcásticos, ou às bandas-sonoras de Blade Runner e Chariots of Fire, foi o que sempre respondi aos benévolos: a discografia de Vangelis pré-Colombo foi de contínua experimentação onde se ouve o rock progressivo dos Aphrodite's Child, o jazz, a música clássica, o minimalismo, o avant-garde, o pop e até algum rock mais eléctrico.

Ucrânia vence o festival da Eurovisão

jpt, 15.05.22

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Por aqui, uns vasculhando outros mais à superfície, partilham os operáticos, por hoje lamentando a morte "da" (comme il faut) Berganza, os etno-ouvintes, agora mais dados à kora do que à cítara e quase nada à flamencada, os nacionaleiros, "que não há como o fado/a marrabenta/...", a malta do jazz - mas não muito "free" -, dos standards ou das lendas - ainda que Dexter siga esquecido -, e menos do actual, aqueles do canto de intervenção, Fausto ou Violeta Parra, muito mais Karajan do que James Last, os memorialistas, - esses do slow "com que roçaguei a Maria(na)/o Manel" -, os do rock, progressivo, indie, southern, n'roll, até heavy, and &, e os da "chanson", française, ou da sempre MPB, mas sem o grande Roberto Carlos noto, um ou outro escasso do blues, e nem discuto se R&B, e, claro, os dos crooners, alguns do Patxi Andión e vizinhos andaluzes, e há até quem se lembre de Savall, e ainda restarão uns já anciãos, balbuciando "inesquecíveis" pérolas do festival de San Remo.
 
Dito todo este quotidiano não deixo de sorrir ao vê-los, empertigados em pantomina, discutindo o Festival da "Canção" na Eurovisão de ontem. Os "faxos" e os "comunas" irritados, os "intelectuais", ditos melómanos, lamentando da justeza dos resultados, dos "interesses" envolvidos, das qualidades dos intervenientes, da subalternização da "música" à "política" e isso. 
 
Enfim, não vejo um festival desses desde o "sobe, sobe, balão sobe" ou das rutilantes "Doce". Mas se os devastados ucranianos vibraram com a sua vitória, um décimo que seja do que os tontos lusos há anos com aquela tralha do rapaz que dá traques em palco... então ainda bem.
 

25 de Abril!!!

jpt, 25.04.22

["E Depois do Adeus", Festival da Eurovisão 1974]

É, no género, uma bela canção e muito bem interpretada, esta "E depois do adeus", sempre lembrada por ter servido como senha para o golpe corporativo militar de 25 de Abril de 1974 - provocado pelos heróicos movimentos de libertação nas colónias africanas portuguesas e tornado, à revelia do oficialato castrense, numa revolução pelo povo de Lisboa (sobre a matéria ver Cunhal 1975 [1967]).
 
É também um bom símbolo da democracia, da autoria do socialista José Niza (lírica), de José Calvário (música) e Paulo Carvalho (intérprete), estes dois últimos logo autores do hino do PPD (depois PPD/PSD), do qual o primeiro foi militante.
 
Esta é a história deste símbolo - não a propagandeada pelos ainda hoje miseráveis enverhoxistas, guevaristas ou brejnevistas. E otelistas...
 
Bibliografia:
 
Álvaro Cunhal, 1975 (1967), As Lutas de Classes em Portugal nos Fins da Idade Média. Lisboa, Estampa, pp. 33-95.

Olhos Azuis

jpt, 09.04.22

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Umas das coisas mais tétricas que esta guerra na Ucrânia trouxe foi a liberdade sentida pelos tantos que por aí andam a criticar quem gosta de gente com "olhos azuis" (o artigo de Boaventura de Sousa Santos no estatal Jornal de Letras desta semana é execrando exemplo dessa execrável via).
 
Então aqui deixo este já maduro ol' blue eyes numa das suas imortais. Porque o ol' blue eyes foi, e é, o maior:
 

(For Once In My Life - Frank Sinatra | Concert Collection)

E mais uma, dedicada aos intelectuais que não se importam com invectivas a quem gosta daqueles com "olhos azuis" (e não só) - é talvez a melhor, e não só devido à senhora presente...:

(Frank Sinatra - A Lady is a tramp - Pal Joey, 1957)

E para os comunas que para aí andam a vomitar contra os "olhos azuis", e os que deles gostam? Ainda há esta, um "olhos azuis" a cantar a liberdade de voo, que tanto apreciam por razões militares:

(Frank Sinatra - Come Fly With Me)

..."fascistas!", "ocidentais!", clamarão estes vis apatetados, quando nos encontram a dizer que temos um tipo "olhos azuis" entranhado, pois "sob a nossa pele":

(I've Got You Under My Skin - Frank Sinatra | Concert Collection)

Esperança

Paulo Sousa, 26.03.22

Violinists Support Ukraine surgiu como forma de apoiar a Ucrânia. Violinistas de todo o mundo juntaram-se a nove ucranianos que mesmo debaixo do chão, enquanto tentam sobreviver aos bombardeamentos russos, não deixam de nos maravilhar.

Entre muitos outros defeitos, será no apego e na necessidade de arte, que melhor nos distinguimos dos bichos. Enquanto isso acontecer, há razões para termos esperança.

Com Açúcar, Com Afecto

jpt, 29.01.22

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A minha geração foi abalroada pela heroína, e nem preciso de juntar grandes detalhes memorialistas para o comprovar. Não naquilo da implosão de muitos dos heróis (Coltrane, Hendrix, Joplin, Morrison e tantos outros). Mas no descalabro de amigos e vizinhos, desde os finais dos 1970s, muitos que por então se foram, alguns até de propósito, outros que se rearranjaram, "sabe Deus" com que esforços, e tantos destes para virem morrer no cabo dos seus cinquentas, dos fígados devastados. Para quem não se lembra, ou faz por isso, bastará lembrar a Lisboa dos 1990s, carregada de já velhos junkies penando pelas ruas, arrumando carros, perseguindo as carrinhas da metadona...
 
Entretanto, nós aqueles que havíamos seguido doutro modo, uns mesmo saudáveis, outros nos mares de álcool apropriados à nossa nação de marinheiros, ou nas multiculturais ganzas, quanto muito aqui e ali polvilhadas de uma chinesa "só para experimentar", e mesmo alguns já adult(erad)os como aburguesados encocaínados, fomos crescendo e procriando. Nisso deparando-nos com aquele "saber de experiência feito" do nosso Duarte Pacheco Pereira, e nisso a angústia do que viria a ser com os nossos queridos. A heroína perdera o prestígio social, ainda que resista no mercado, mas haviam surgido várias novidades, sintéticas, até legais.
 
 
(Lou Reed, David Bowie, I'm Waiting for the Man, Live, 1997)
 
Ora nesse longo - e preocupante - entretanto, por mais angústias que houvesse, ninguém se lembrou de exigir a Lou Reed que apagasse esta célebre "I'm Waiting for the [my] Man" (ou aquela "Heroin" ou tantas outras, como as que me são fundamentais "Caroline Says" I e II). Ninguém, com dois dedos de testa, quis que amputasse ele o seu percurso, a sua arte, a sua refracção poética do que vivia, em nome de qualquer "causa", justa ou espúria que fosse. E também por isso, para que não me digam que também então se "cancelavam" textos, aqui deixo uma versão feita em 1997, trinta anos depois dos Velvet Underground terem irrompido e rompido com quase tudo o que vigorava.  Não é uma das melhores, apesar de Bowie, e por isso para uma de píncaros deixo abaixo uma majestosa do John Cale, um pouco mais antiga.
 
Pois mesmo com a maldita heroína a rebentar à nossa volta o que se pedia e pede aos nossos é que a evitem - "por favor, não entres num carro onde haja gente com os copos, não uses químicos, por favor, só isso!". Mas também "ouve Lou Reed [e John Cale], e especialmente aquelas Caroline Says I e II, já agora". E não que se apaguem textos que não a denunciem. Porque os poetas não se amputam. E porque são tão mais importantes quando dizem aquilo que "não fica bem", para não estar eu aqui com prosápias ensaísticas.
 
Lembro-me disto ao ler que o magnífico Chico Buarque anunciou a "reforma" (o cancelamento, para ser explícito) da bela "Com Açúcar, Com Afecto", devido às pressões feministas. Encho-me de compaixão pelo ancião.
 
 

(John Cale, "I'm Waiting for the Man, Live, 1984)

(Postal para o meu Nenhures - e mais ao seu estilo)

Música, mas da boa

Paulo Sousa, 12.04.21
Diz-me porquê diz-me
Nós não sabemos nada
Mas resistimos por ti
Até que seja de madrugada
Até que seja de madrugada
 
(Refrão)
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
 
Quem prend´água que corre
E a ribeira enchendo
Saberá que nunca morre
O sonho de a ver correndo
O sonho de a ver correndo
 
(Refrão)
 
Liberdade não morre
Nem silêncio pesado
De um povo a entristecer
Por te saber tão magoado
Por te saber tão magoado
 
(Refrão)
 
Ser livre não tem preço
Nem se conhecem margens
A vida é reconheço
A esperança não e uma miragem
A esperança não e uma miragem
______________
Letra Luísa Lopes
Musica de Jorge Andrade Pinheiro
 
PS: Ando à procura das tablaturas para obrigar o meu mais velho a tocar isto na guitarra.
Seria porreiro pá, se quem as tiver, puder partilhar.

A costela portuguesa dos Daft Punk

João Pedro Pimenta, 11.03.21

Os Daft Punk, talvez o grupo (ou duo) de música electrónica mais famoso do globo, resolveu encerrar actividades, anuncionado-o numa mensagem lacónica a fazer justiça à imagem silenciosa dos seus elementos. Além de silencisos, eram discretos, tanto que nem mostravam os seus verdadeiros rostos em público, coisa que nos tempos actuais até parece visionária. No entanto, têm algumas curiosidades, com a origem de um dos elementos do dueto, que recordo aqui na adaptação de um post já com uns anos (podem vê-lo aqui, se quiserem).

Nas cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi, destacou-se o conhecidíssimo Coro do Exército Vermelho, a cantar uma divertida versão de Get Lucky, dos Daft Punk, uma das músicas mais tocadas dos últimos anos nas pistas de dança de todo o Mundo. Um espectáculo com piada, e que é um hino à globalização: um grupo de rapazes russos a cantar, numa cerimónia internacional no litoral do Cáucaso, uma música em inglês da autoria de um duo francês, um dos quais com apelido português.

Ora o elemento de origem lusitana é Guy-Manuel de Homem-Christo, francês de terceiro geração, trineto do jornalista e polemista republicano Homem-Cristo (pai), reconhecido na toponímia aveirense, e bisneto de Francisco Homem Cristo (filho), que se destacou por ter sido o primeiro grande intelectual e propagandista do fascismo em Portugal, e cuja biografia política, Do Anarquismo ao Fascismo, é da autoria de Miguel Castelo Branco. De tal maneira ganhou a confiança de Mussolini que se tornou logo um dos principais "embaixadores" do Duce para espalhar a nova doutrina pela Europa e até mesmo para organizar um congresso do fascismo em Itália. Morreu em 1928, em Roma, num desastre de automóvel, no decurso dessas actividades políticas, quando já vivia e tinha família em França. O início da carreira dos Daft Punk, e em certa medida o seu progresso, pode ser visto no filme Eden, de Mia Hansen-Løve, baseado na percurso do seu irmão na música electrónica, onde conviveu de perto com os Daft Punk, sem nunca alcançar o enorme sucesso destes.

O irónico disto tudo é que provavelmente o Coro do Exército Vermelho, surgido, como o próprio nome indica, no tempo da União Soviética, não imaginaria sem dúvida estar a cantar uma música da autoria do bisneto de um notório propagandista do fascismo, inimigo mortal (ou outra cara da moeda?) da URSS. E com toda a certeza Homem Cristo Filho, admirador e defensor do fascismo italiano, jamais pensou que um seu descendente directo comporia músicas em inglês que seriam cantadas pelo coro do Exército Vermelho. Não seria essa, com certeza, a divulgação que pretenderia, mas o certo é que um seu descendente com o seu nome acabou por se tornar mundialmente conhecido pela sua música, e não certamente pela sua ideologia política (nem pela sua cara, já que o duo há anos que só aparece em público mascarado).
 

Relembre-se ainda que tanto o Homem Christo pai como o filho são referidos no Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, de uma forma pouco elogiosa, como não podia deixar de ser naquele texto verrinoso onde ninguém escapa.

Torres Vedras de Nuno Rebelo

jpt, 31.05.20

Esta atividade integra o programa Emergência Cultural Torres Vedras 2020, organizado pelo Teatro-Cine de Torres Vedras, nisso cruzando esta era Covid-19. 

É um trabalho do Nuno Rebelo (Texto, video, música, sonoplastia e grafismo) - que alguns conhecerão por via do grupo musical Mler Ife Dada - em colaboração com o seu filho Igor Brncic Rebelo (voz e desenhos). Diz o Nuno: "Agora mesmo é aqui que estou é um vídeo autobiográfico da minha vida em Torres, onde nasci em 1960 e onde vivi até 1975. Faço-o a partir dos meus atuais 59 anos e do sítio em que me encontro, confinado como todos por causa do vírus, no meu caso em Barcelona."

É uma pérola. Rara. Linda. Que me encantou. Vede, que decerto gostareis.

 

Música proibida

Cristina Torrão, 09.05.20

Diz-se que a música pode ser uma arma. Para mim, que, junto com o meu marido Horst, canto no coro gospel Lightfire, a música é, acima de tudo, alegria e partilha. Além disso, a música é uma “língua” internacional, que pode unir pessoas de proveniências díspares, seja através da participação numa orquestra, seja através da dança, ou do canto.

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O nosso coro Lightfire. O Horst é o segundo homem, a contar da direita; eu estou mais ou menos a meio, na frente, com um lenço vermelho ao pescoço. A nossa indumentária é livre, desde que se resuma às cores vermelho e preto.

 

Cantar faz feliz. Já todos constatámos que, muitas vezes, basta murmurar uma melodia para esquecer tristezas. Estudos têm igualmente provado que cantar ajuda a libertar o stress, baixando o ritmo cardíaco e a tensão arterial e fortificando o sistema imunitário.

Cantar num coro traz outras vantagens: ensina-nos disciplina, paciência e respeito pelo outro. Ensaiar uma canção a quatro vozes só é possível, tendo em conta estes três factores. Implica muito trabalho, mas o resultado final é sempre compensador. Depois dos ensaios, vou a murmurar, ou mesmo a cantar, as melodias ensaiadas, enquanto pedalo na minha bicicleta, de regresso a casa.

Infelizmente, cantar tornou-se uma actividade de alto risco. Claro que há a possibilidade de cantarmos  sozinhos, em casa. Até podemos fazer vídeos e mostrá-los na internet (no caso de sermos bons solistas, claro, muitos artistas têm optado por esse meio). Mas cantar num coro, ou tocar numa orquestra, principalmente tratando-se de instrumentos de sopro, tornou-se numa actividade perigosa e proibida.

Ao cantar, expulsamos o ar a grande velocidade e respiramos de maneira diferente. Antes dos ensaios, além de treinos de voz, fazemos muitos exercícios de respiração, pois torna-se frequente o inspirar fundo, o que, em tempos de Covid-19, é especialmente perigoso, já que o vírus pode assim entrar profundamente nos pulmões. Também os aerossóis são um problema, os especialistas dizem que as gotículas microscópicas de saliva que expiramos mantêm-se bastante tempo suspensas no ar.

Tudo isto anula o efeito benéfico do cantar na nossa saúde; cantar tornou-se tão perigoso como tossir, espirrar e rir, mesmo respeitando distâncias de segurança. Prevê-se que fazê-lo em conjunto e/ou em público se manterá proibido durante muito tempo, o que não afecta apenas quem a isso se dedica, seja em forma de hobby, seja a nível profissional. Também o cantar na igreja continuará tabu, mesmo que se comecem a celebrar missas sob condições especiais.

A nossa tristeza é imensa; para cantores e músicos profissionais pode mesmo significar a pobreza. Restam-nos as recordações e a esperança de que a situação, algum dia, mude. Enquanto isso não acontece, permitam-me deixar-vos com uma actuação nossa, gravada em áudio no Outono de 2017, na igreja luterana dos Santos Cosme e Damião, em Stade, a qual aproveitei para fazer um vídeo ao estilo de “slide-show”. Trata-se da canção Look at the World, de John Rutter, e é acompanhada apenas ao piano.