Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Crosby...

jpt, 20.01.23

David-Crosby-011923-2-7f6c7b4751024ab69762c6840bb8

O velho hippie morreu agora. E nunca cortou o cabelo, justiça lhe seja feita... Aqui o(s) deixo, em especial para os que julgam que o rock de estádio começou no Live Aid... (A minha irmã e o meu cunhado tinham o LP Crosby, Stills & Nash e também o Déjà Vu, daqueles Crosby, Stills, Nash & Young - este último bem antes do Rust Never Sleeps e de ser avoengo do agora também já velho grunge. E assim cresci com eles).

CROSBY & STILLS & NASH & YOUNG - Almost Cut My Hair ( Live In Wembley Stadium , London, 1974)

E qui uma das minhas muito preferidas do trio "original" (o célebre CS&N), em excelente versão... septuagenária: vale a pena ouvir, qual posfácio da selecção de 20 canções de David Crosby feita pela Rolling Stone...

Na passagem de ano

jpt, 31.12.22

alcool.png

Aconteceu-me que em pleno dia de Natal, indo a caminho da casa da minha irmã para as tradicionais celebrações, estreei-me em acidentes rodoviários após 39 anos de condução. Estraguei o meu dia, incomodei a minha filha, que lá me esperava, a qual padece deste pai. E sofri uma fractura exposta no osso orgulho. Para além um derrame na conta bancária, que seria letal não fora o caso desta estar já ligada à máquina, em condição dita irreversível.

Atendendo à data festiva, e concomitantes folgas, tive de esperar umas horas pelo reboque. Era já início de noite quando chegou, levando-me da via rápida verdadeiramente fronteira ao Trancão até à planície nas cercanias do Sado. Simpaticíssimo o motorista, e basto falador - tentando (e conseguindo, justiça lhe seja feita) animar-me, macambúzio que me encontrou, culminando ambos (e logo na Vasco da Gama) num quase nada estóico "foi só (pouca) chapa e plástico" "que se lixe!", isto que sobre angústias monetárias não me deixei espraiar...

E nisso o homem foi-se alongando, confirmando-me que são estes dias, os das Festas, de muita azáfama. Pois poucos colegas de serviço e muita gente a ter problemas, "no Natal saem da casa das famílias com um copito a mais...", no "Ano Novo vêm das festas...". Às vezes cenas dramáticas - e algumas contou mas tenho pejo de as convocar - mas a maioria das vezes pequenas coisas, toques, choquezitos, a perturbarem ou mesmo a magoarem mesmo que felizmente não irremediáveis. Aquele copito de vinho a mais no Natal, só mais, só mais um brinde de Ano Novo - "Feliz" terá ele de ser -, até com o raisparta do espumante, ou mesmo a saideira seguida da abaladiça, e nisso já se está num registo mais desengonçável...

Enfim, lá me largou ele diante da oficina onde parqueei o carro (emprestado, ainda por cima). E agora, antes do reveillon de tantos, ou da "passagem" de outros, nem sequer tenho de me lembrar daqueles inícios dos 80s, antes da instauração do "balão" e das campanhas - nem o cinto de segurança era prescritivo -, das loucuras acontecidas, dos amigos perdidos... Lembro-me só da conversa desta semana com o loquaz motorista de reboque, a desmontar-me a ideia de que após tantas décadas passadas, tantas campanhas feitas, as coisas ao volante tinham mesmo mudado.

Eu sei que a esta canção é foleira, e o vídeo também. Mas muito mais foleiro é guiar acima dos limites da segurança. Portanto, hoje em especial, "não guies com os copos". Mesmo que seja só aquele "bocadinho" de nada... Esse que se calhar até é o pior, dá aquela sensação de "falsa segurança" que a dra. Graça Freitas e a ministra Temido tanto combatiam - quando nos queriam convencer a não usar máscaras e a não nos testarmos.

Um disco que é património nacional

Nos 40 anos de POR ESTE RIO ACIMA, de Fausto

Pedro Correia, 19.11.22

 

Faz hoje 40 anos, era posto à venda um dos melhores álbuns de sempre da música portuguesa: Por Este Rio Acima, de Fausto Bordalo Dias.

Banda sonora das vidas de tanta gente.

Da minha também.

A efeméride aqui fica assinalada. Com saudável e vibrante nostalgia, que nada tem de passadista. Embalada pela música e pelos versos deste belo disco que cedo se tornou património nacional.

 

Gal Costa

jpt, 09.11.22

gal.jpg

Modinha Para Gabriela - Gal Costa (Gabriela) 1975

Houve uma época - um pouco cândida - em que o "Brasil" era importante. A omnipresente "Livros do Brasil", as prateleiras de todas as casas pejadas nem tanto de Machado de Assis mas obrigando-se a Lins do Rego, Veríssimo, o pai Erico, Jorge Amado - ao qual alguns, e nem tão poucos assim, não perdoavam ter-se tornado quase Lampedusa, no "tudo mude para que tudo se mantenha", naquilo de ter inflectido na presciência de ser Mundinho Falcão afinal igual a Ramiro Bastos ,- o poeta de Andrade, mais o "Chico" de "Tanto Mar", o enorme Milton, o Caetano - do qual ainda nem sabíamos a demagogia nativista -, enfim a MPB exultante e ainda chegariam o excêntrico Hermeto, o gigante Gismonti, a Cor do Som e etc, para além do sempre rei Roberto Carlos (e o meu "Portão", ao qual apenas ascendi nos anos 90s, já com idade para me comover nas alvoradas), esse que os "bem-pensantes" já então "cancelavam" devido à pirosice que lhes é natureza. E o tão esquecido Josué de Castro, presente nas prateleiras daqueles que olhavam o mundo - tão diferentes esses dos pacóvios d'agora, liberais "chic" ou "pós"-marxistas ..., avessos a prescrutar o mundo que se escapa às certezas de manual que apregoam. 

E foi essa também a era desta "modinha", que nos encantou, arrebatou para um outro mundo tão mais rico e saboroso. Gal Costa morreu agora, e a nós faz-nos imensa falta outro choque, sem manifesto nem panfleto, como "Gabriela" o foi. Quanto àquele Brasil não sei o que lhe aconteceu, há muito que dele não ouço falar. Nem quero. Morreu Gal Costa, vou ouvir a minha juventude:

Antecipação

Maria Dulce Fernandes, 14.10.22

22373283_olf6v.jpeg


É já amanhã.
Depois de  quase duzentos dias em travessia neste deserto repleto de gente, ruído, confusão, problemas, tristezas e alegrias, chega finalmente avalon. 
Eu sei que estou a ser precipitada, que estou a salivar por antecipação, que estou a criar demasiadas expectativas, mas pensar nesse porvir tão perto, tão alcançável, tão apetecível e precioso, torna-me mais leve, mais alegre e bem disposta. 
Hoje ouvi música.
Oiço música todos os dias. As falas são música, os motores são música, o tinir do vidro que choca levemente, os cliques dos obturadores que fecham e abrem... passos apressados são música, o som do vento que sopra, o cristal da água que corre, o crepitar do doce aroma  fervente, tudo é beleza, som e música... Leio música nas palavras e oiço palavras na música que folheio e que sigo religiosamente dia após dia.
 
Hoje ouvi a minha música, aquela que me fala aos sentidos e provoca sentimentos e que tomo como minha, porque me pertence, me preenche e me faz vibrar. Deixo o som invadir-me, elevar-me o espírito, tomar-me nos braços e falar-me de mansinho tudo aquilo que quero ouvir. Fecho os olhos, vejo o filme da minha vida a preto e branco, sinto o a luz refractar-se, cheiro a proximidade da cor que me cobre, como um bálsamo e expludo em lágrimas de cansaço e sorrisos de gratidão.
Mais poderoso que o som do silêncio, só o som da tua vida. 
É já depois de amanhã que soltarei notas ao vento e inalarei profundamente os acordes que a luz do sol fará entrar por aquela fresta minúscula, onde num rodopio as claves tensas dedilharão cordas insanas e eu, esfomeada de mim, mergulharei no frenesim do prazer dos sons e serei una outra vez.
 
(PS. Não encontrei Avalon este ano)
 
(Imagem Google)

No cerejal

Paulo Sousa, 11.10.22

Já por aqui escrevi algumas linhas sobre duas felizes viagens à Ucrânia. Na primeira das visitas, juntamente com os meus companheiros de aventuras, tivemos a sorte da nossa chegada ter motivado um jantar com a família alargada dos nossos anfitriões.

À fartura dos pratos que nos foram servidos, concorreram o calor humano e os sorrisos. As continuas traduções do nosso vizinho, que ali nos recebia, ajudou à afinação da sintonia de todos os comensais. É certo que somos os quatros, ali representantes deste rectângulo, pessoas razoavelmente dadas e por isso incapazes de recusar mais um brinde proposto pelo mais velho da casa, o sogro dele. A bebida acastanhada, destilada em casa, e baptizada por nós como “bom material”, afinou a goelas e os espíritos e foram eles os primeiros a avançar com uma demonstração de cânticos populares. Pouco seguros do nosso repertório acabamos mais tarde também por alinhar na cantoria e chegamos mesmo a conseguir fazer um cânone da “Menina que estás à janela”. Uma coisa memorável.

Consciente da irrepetibilidade daqueles momentos, registei em áudio diversas passagens daquelas três ou quatro horas, quase até esgotar a memória do telefone.

Um dos cânticos ucranianos ficou-me na memória. Não reconheci uma única palavra, mas lembro-me com clareza da limpidez da voz do cantor, do sentimento transmitido e do silêncio quase total enquanto o mesmo foi entoado. Só o voltei a ouvir umas semanas mais tarde num almoço em jeito de ressaca da viagem.

Ontem, nas notícias, ouvi-o de novo e reconheci-o imediatamente. Centenas de habitantes de Kyiv cantavam-no no metro, enquanto se abrigavam dos mísseis russos.

A canção é a mesma, o povo também e não consigo ficar indiferente à serenidade que transmite, nem à impotência que sinto face ao curso da guerra.

Entretanto soube que se chamava No Cerejal (ou No Pomar das Cerejeiras segundo tradução directa do Google) e, a partir dos inúmeros registos que se encontram na internet, pertence sem dúvida ao cancioneiro popular ucraniano.

Não me atrevo a elaborar sobre a exegese da letra que o Google traduziu e por isso deixo aqui apenas o seu texto.

Oh, no pomar de cerejeiras
Um rouxinol cantou lá
Eu pedi para ir para casa
E você não me deixou ir.

"Você é minha querida, e eu sou sua.
Deixe-me ir, o amanhecer chegou.
Minha mãe vai acordar,
Eles vão perguntar onde eu estava."

E você dá a ela esta resposta:
"Que linda noite de maio.
A primavera está chegando, traz beleza,
E tudo se alegra com essa beleza."

"Minha senhora, esse não é o ponto.
Onde você vagou a noite toda?
Por trança desamarrada,
Há uma lágrima em seu olho?"

"Minha trança está desamarrada -
Suas amigas desamarradas.
Uma lágrima brilha nos olhos,
Porque eu estava me despedindo da minha amada.

Minha mãe, você já está velha
E estou feliz, jovem.
Eu quero viver, eu amo.
Mãe, não repreenda sua filha.

 

A Festa do "Avante" 2022

jpt, 02.09.22

festavante22.png

Começa hoje a Festa do "Avante", a dos defensores da "manobra militar especial" russa na Ucrânia, a dos que ainda hoje, na hora da sua morte, invectivam Gorbatchev por não ter sustido Honecker, Jaruzelski, Kadar, Ceausescu e quejandos... A festa dessa escumalha moral e intelectual. Gente imperdoável e seus colaboracionistas. 

Um dos músicos que lá vai actuar é este sempre tão arrogante, de hiper-valorizado, Vitorino Salomé. O qual sempre fez actuar uma folclórica "identidade alentejana" de contornos políticos, de "liberdade" sedimentada. E lembro-me de que há 37 anos este Vitorino fez um espectáculo no Coliseu dos Recreios, então casa central, apogeu, na cena musical portuguesa. Um amigo organizava aquilo e arranjou-me um trabalho, por isso assisti. O cantor, cheio de si próprio, pois catapultado pela pobre cena musical daquela era, convidara o então algo marginalizado Tony de Matos para participar no espectáculo. E justificou isso, julgo que no jornal "Sete", por Tony de Matos ser o "cantor das sopeiras". 

Ao ler tal aleivosia, desvalorizadora do grande cantor romântico que o período revolucionário atirara para difíceis condições laborais, resmunguei alguns impropérios sobre o pitoresco rancho Salomé. Mas fui trabalhar, claro. 

37 anos depois ainda me lembro, da penosa actuação (adorada pelos lisboetas de então) do tal Vitorino - da má produção musical e da fraca intervenção vocal deixo aqui memória que é prova. E de que quando o velho e grande Tony de Matos entrou em palco para a sua breve actuação, o Coliseu se levantou em apoteótica aclamação, confrontando-se com a gigantesca diferença de capacidade interpretativa. Grande Tony..., pobretanas Salomé. 

37 anos depois? Ide lá bater palmas ao pobre, putinesco brejnevista, Vitorino. E continuem a dizer a esse Salomé, honeckeriano, kadarista, jaruzelskiano, que simboliza a "liberdade". E, para pior sarcasmo, que canta bem. Ide, sede hipócritas. Mas há uma coisa, contrariamente ao que diz a canção, a gente rir-se-á de vós...

Coldplay e a Economia do Rock

jpt, 25.08.22

police.jpeg

stones.jpg

Não é preciso afixar um retrato para comprovar a conclusão a que hoje cheguei: abandonei o estado de (mais-)velho e atingi o estatuto, frágil, de ancião.
 
Notei isso face à azáfama nacional na aquisição de bilhetes para os concertos do grupo Coldplay, que actuarão em Maio próximo em Coimbra - em espectáculos com algum apoio autárquico (ainda não especificado) -, numa hora esgotaram-se três lotações do estádio municipal  e outra se esgotou em breve, tamanho o afã de centenas de milhares de admiradores. O bilhete mais barato custa 90 euros, depois 150 e daí para cima. Demonstração de que há dinheiro na sociedade civil, algo óptimo, pois saudável.
 
Mas lembro-me, ancião ainda não totalmente desmemoriado, de uma coisa. Quando era miúdo tinha o hábito de coleccionar os bilhetes dos concertos, e de os afixar no quarto. Assim os seus detalhes acompanharam-me anos e recordo alguns: os bilhetes de rock em estádio custavam 420 escudos (Police, para exemplo de grandes "estrelas", e em organização de apenas um concerto, no topo do estádio, assim com menos audiência). Quantia que era, grosso modo, o equivalente ao preço de um LP e de um single. Já os concertos de pavilhão (principalmente no Dramático de Cascais, no Restelo ou em Alvalade, rondavam os 300 escudos - o tal LP).- Quando uma década depois (já na CEE) os Rolling Stones deram um (apenas um) espectáculo em Lisboa, na sua ansiada primeira actuação no país, o bilhete custou 5500 escudos. Era dinheiro que se visse. Mas, de facto, correspondia a um jantar bem regado num restaurante mediano no "Bairro" (esse que fomos nós que inventámos, não os d'agora).
 
E agora a lotação de 4 estádios com bilhetes de 90 euros para cima, esgotados numa manhã? A economia do rock mudou muito. E eu, ancião, congratulo-me. Finalmente o meu país está na "Europa", os patrícios abonados. Enfim, vou ali ao parque jogar dominó....

Uma rapariga do meu tempo

Pedro Correia, 11.08.22

Eu era miúdo, mal saído da infância, ela já adulta. Foi um dos meus primeiros amores de adolescência. Linda: parecia uma princesa. Invejei o imbecil do Travolta: queria estar no lugar dele na película que ambos fizeram lá para finais dos anos 70. Filme foleiro, disseram alguns, sem perceberem que aquilo era uma festiva celebração da vida. Fugaz instante que tão cedo se esvai.

Demasiado cedo, no caso da minha sempre amada Sandy, também chamada Olivia Newton-John

A interrupção voluntária da gravidez

jpt, 29.06.22

Julho assoma, chegarão de férias os nossos emigrantes, sempre breves períodos em busca dos mimos familiares, do calor dos amigos, dos odores e sabores, do à-vontade talvez mais do que tudo, daquilo que nos fez e faz algo diferentes quando cá.
 
Entretanto, se alguns deles gastarem algum desse precioso tempo com jornais, tv ou redes sociais, terão a impressão de que regressou o debate sobre a lei do aborto. Então aqui fica aqui o aviso, solidário pois de ex-imigrante: nada disso, não justifica dissipar férias com tal assunto. Todo este ruído que para aqui anda é mesmo apenas porque os doutores portugueses são umas pobres bestas.

Anitta no Rock in Rio

jpt, 28.06.22

anitta-rock-in-rio-lisboa.jpg

Há vinte anos que fazem um grande festival musical ali em Chelas, julgo que, pois nunca lá fui, nas redondezas do Valsassina - onde estudei - e do velho Cambodja, zona dura onde nem nós, rapaziada dos Olivais, nos atrevíamos a pass(e)ar, a não ser os desgraçados que ali iam ao pó. Lembro que há tempos, estando eu no estrangeiro, lá foram os Stones e apareceu, de surpresa, o Springsteen. E que passados anos regressou este, já com a banda toda, e muito lamentei não ter lá estado, antes a rever os dos Glimmer Twins e, até mais, depois a ver o Boss.
 
Nos últimos dias os gerontes lusos com os quais tenho ligação no Facebook apinharam a minha "ração" de FB com postais sobre a edição deste ano: discutiram o plantel, gozaram com os artistas contratados, foram anunciando que os filhos (e netos) lá foram, e alguns gabaram-se de os terem acompanhado, etc. e tal. Foi um frenesim, o qual bem demonstrou a relevância para a cidade deste festival - ainda por cima neste pós-Covidoceno.
 
E hoje há imensa gente a protestar, insultar, uma cantora brasileira - Anitta, da qual nunca ouvira falar - por ter acenado a bandeira espanhola. Nem sequer se tratou de uma coreografia, apenas aconteceu que a mulher foi cantar junto ao público, um entusiasmado de primeira fila passou-lhe a Rojigualda, e ela continuou até ao palco e nele agitou a prenda por alguns momentos.
 
E cai o Carmo e a Trindade...! Um enorme coro de coirões insurgindo-se por tal ter acontecido no ... "Rock in Rio" em Chelas! Como se dizia no meu tempo "Se a estupidez pagasse imposto, estava Fernando Medina eufórico". Que patrioteiros imbecis.

McCartney octogenário

jpt, 18.06.22

Ay4ryVTCcAAm9FZ.jpg_large

O McCartney faz hoje 80 anos. É dele a primeira canção de que me lembro - "Tenho seis anos, é noite, estou na sala da nossa primeira casa, na rua cidade de Cabinda em Lisboa, eu no braço da poltrona do meu pai, aquela orelhuda, e nela sentada a minha irmã lê-me um livro dos "Cinco", da Enid Blyton. Na rádio, aquela hi-fi Telefunken, acontece o diário "Quando o Telefone Toca". Alguém pede esta música, que eu nunca ouvira. E de repente, quando ela soa, e sei lá porquê, é um momento lindíssimo, que nunca mais esquecerei. Felicidade? Há quarenta anos." - foi o que botei em postal de blog em 2010.

Um beijo, mana... e deixo(-te) mais uma das mesmo dele. Que é uma das que quando tocam me deixam exactamente com o ar apatetado e feliz desta audiência. Há lá algo mais importante?...

Shock the Monkey

jpt, 05.06.22

PG_LiveinAthensPOV_photo-by-Pennie-Smith-734x474.j

É comum ler "doutores" - académicos e jornalistas, ciosos ciumentos saudosistas do seu estatuto de intermediários do Saber, como se Sábios pedagogos pairando sobre nós-plebe - criticarem os perigos da internet, aterro de lixo (e nisso quantas vezes citam Eco). E apupando as "redes sociais" - as quais reduzem ao FB e ao Twitter -, quais pântanos da nossa popular malévola ignorância.
 
São nisso broncos - como alguém que refute bibliotecas porque (também) têm maus livros. São broncos e não têm vergonha de o ser pois ninguém lhes diz isso, dado que infelizmente continuamos naquilo do "respeitinho é muito bonito", chapéu na mão diante do "sô dôtor".
 
Boto isto nesta nebulosa manhã dominical não porque tenha acordado possuído por uma réstia de Michel Serres (esse que reduziu esses filisteus à tralha que são). Mas apenas para louvar, em cúmulo de gratidão, o que estes meios me dão, por malvados capitalistas que os detenham... Pois foi numa "rede social", em murais dos populares que por lá pululam, que soube da transmissão na RTP2 da "Akhnaten" de Glass. A qual está disponível na RTP Play (na tal internet dos miasmas intelectuais) - versão aparentemente majestosa, pelo pouco que já vi. E que verei completa após o jogo da selecção de hoje.
 
Mas muito mais, foi ali noutra "rede social" musical que ontem voltei ao "Live in Athens 1987" - um Peter Gabriel soberbo, já liberto da pirosa tralha Genesis, no pico da voz, no cume da sua inovação no rock. E com um lendário grupo de músicos fabulosos (David Sancious, David Rhodes, Manu Katché, Tony Levin).
 
Sim, o som do meu computador não é grande coisa, eu vou um bocado mouco. E perro, tanto que já nem sozinho ao espelho danço... Mas ainda assim estou há horas, desde a alvorada, a ouvir em loop esta Shock the Monkey - que o autor diz ser sobre o ciúme mas que sempre imaginei como uma canção sobre como o amor nos fez evoluir. E que aqui vem numa versão sublime.
 
E neste longo e intenso loop rejuvenesço décadas, cada vez mais... com a má contrapartida de que assim, de súbito tão jovem, percebo o quão irrelevante, sem sentido e mesmo incompetente é o texto word que tento culminar. Mas que importa isso quando se é jovem?
 
Aqui deixo a canção (retirada de uma outra rede social). Ouvi em loop, comprovai o rejuvenescimento.... Ou então ide ler os "doutores":
 

"A night at the opera"

beatriz j a, 21.05.22

Ontem fui ao São Carlos ver o «Fausto» de Gounod. Uma ópera grande, em cinco actos, baseada na primeira parte da obra homónima de Goethe. Desde que o «Fausto» veio à luz, por assim dizer, nunca mais deixou de inspirar obras, tanto na literatura como na música. Há muitas peças musicais baseadas no poema de Goethe e três grandes óperas, sendo esta de Gounod a mais popular e a que mais vai à cena nas casas de ópera. É uma peça muito melódica e que se desenvolve com muita profundidade.

A peça abre com o Dr. Fausto velho, doente, em fim de vida, a reflectir sobre a falta de sentido do mundo, mas incapaz de se desapegar, revoltado e tentado pelo suicídio, «Nada. Em vão interrogo a Natureza e o Criador», diz Fausto, antes de invocar Satã, com quem fará um pacto de vender a alma em troca da juventude. Este início é muito melódico.

A encenação não começou muito bem, para o meu gosto. Vemos Fausto, já muito velho, entrar numa cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira, parar diante de uma banheira gigante no meio do palco (que tem um pêndulo gigante a balouçar para indicar a passagem inexorável do tempo), despir a camisa e ficar nu, de costas para nós. Depois, enquanto ouvimos aquela música impregnante e melódica estamos a ver a enfermeira lavar o rabo do Fausto... não havia necessidade. Percebe-se a ideia do peso da carnalidade humana na superficialidade da vida, mas... enfim, passado este início, foi tudo muito bom. 

O tenor, Mario Bahg, cantou a sua parte com muito lirismo, muita sensibilidade, sobretudo nas partes mais íntimas. Mefistófeles, um baixo, Rubén Amoretti, aparece como um dandy fantástico, sempre seguido por dois demónios visualmente insidiosos e maléficos nos seus movimentos (no final, já nos agradecimentos, desmascaram-se e vamos que são duas mulheres) é como um mestre de dança que comanda todas as almas para a perdição eterna. A cena da danação de Marguerite é verdadeiramente impressionante. Num ambiente escuro e fantasmagórico, Marguerite reza, perto de um padre, aos pés de uma pietá. Eis que aparece Mefistófeles e um monte de gente que ele possui, como marionetas momentaneamente animadas, contra ela - a própria escultura ganha vida e Cristo e sua Mãe começam numa dança erótica, bela na sua decadência obscena, tudo cantado com grande beleza e profundidade dramáticas. A cena da dança das bruxas também é impressionante, uma espécie de bacanal dos infernos a acompanhar o enlouquecimento de Marguerite. 

Marguerite é a personagem que mais evolui ao longo da peça. Começa como uma donzela cheia de excitação pela vida, pelo amor e pelas riquezas e no fim da obra é uma mulher desiludida, abandonada grávida por Fausto que se esgota -ele, não ela- na busca ávida de prazeres e na satisfação dos desejos. 

O soldado, Valentin, irmão de Marguerite que canta uma das árias mais bonitas e famosas da ópera -avant de quitter ces lieux - é um barítono português com uma voz cheia e de grande dimensão, vencedor do prestigiado concurso alemão de Heidelberg, DAS LIED.

Enfim, desde os cenários, muito inteligentes (como têm de ser sempre no São Carlos que é uma casa de ópera muito pequena e não tem espaço para grandes construções em palco), a movimentação das personagens em cena, o coro do São Carlos (excelente), o jogo de luzes que ajudou na perfeição ao ambiente temático da ópera, até à prestação da Orquestra Sinfónica Portuguesa e ao seu maestro, foi tudo muito bom e no fim gritámos todos em ovação como acontece quando as óperas são boas e há um frisson na assistência.

Adoro esta ópera, conheço-a de cor e em casa estou habituada a cantar à medida que ouço música, de maneira que estava a fazer um esforço para acompanhar a melodia só com os ouvidos e a mente.

Para quem gosta de ópera, um espectáculo que quando é bom é insuperável, porque completo, já que inclui tantas artes diferentes, recomendo vivamente uma noite na ópera, no São Carlos, a ouvir o «Fausto» de Gounod.

(André Baleiro canta aqui bem, mas ontem cantou, ainda, muito melhor)

também publicado no blog azul

A vida

jpt, 21.05.22

th.jpg

Estou numa esplanada, ao Vale dos Barris, com uma bela imperial mas sem um livro. Por isso corro o FB, a distribuir laiques como se estivesse no metro. Nisso vejo que Byrne fez 70 anos há 6 dias. E lembro-me que há 30 e tal anos, espólio acabado de cumprir, regressei à casa paterna, olhei para o meu quarto desde a meninice e arranquei da parede (guardando-os) os dois últimos resquícios da adolescência: Lou Reed (em "poster" da Música&Som) e a fotocópia da letra desta "Once in a Lifetime". Arranquei-os da parede, e fiz mal, mas não cá de dentro.

Vangelis (1943-2022)

João Sousa, 19.05.22

Por vicissitudes várias, há pelo menos uma dúzia de textos que, nos meus anos de blogosfera, já fiz e refiz inúmeras vezes na minha cabeça sem que uma única letra tenha sido (ainda) colocada no papel ou no computador. Um deles seria sobre Vangelis, que morreu na terça-feira. Não foi raro ouvir manifestações de estranheza pela minha admiração por ele. Que não reduzam a sua obra à "banda sonora do Guterres", foi o que sempre respondi aos sarcásticos, ou às bandas-sonoras de Blade Runner e Chariots of Fire, foi o que sempre respondi aos benévolos: a discografia de Vangelis pré-Colombo foi de contínua experimentação onde se ouve o rock progressivo dos Aphrodite's Child, o jazz, a música clássica, o minimalismo, o avant-garde, o pop e até algum rock mais eléctrico.

Ucrânia vence o festival da Eurovisão

jpt, 15.05.22

zappa.jpg

 

(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Por aqui, uns vasculhando outros mais à superfície, partilham os operáticos, por hoje lamentando a morte "da" (comme il faut) Berganza, os etno-ouvintes, agora mais dados à kora do que à cítara e quase nada à flamencada, os nacionaleiros, "que não há como o fado/a marrabenta/...", a malta do jazz - mas não muito "free" -, dos standards ou das lendas - ainda que Dexter siga esquecido -, e menos do actual, aqueles do canto de intervenção, Fausto ou Violeta Parra, muito mais Karajan do que James Last, os memorialistas, - esses do slow "com que roçaguei a Maria(na)/o Manel" -, os do rock, progressivo, indie, southern, n'roll, até heavy, and &, e os da "chanson", française, ou da sempre MPB, mas sem o grande Roberto Carlos noto, um ou outro escasso do blues, e nem discuto se R&B, e, claro, os dos crooners, alguns do Patxi Andión e vizinhos andaluzes, e há até quem se lembre de Savall, e ainda restarão uns já anciãos, balbuciando "inesquecíveis" pérolas do festival de San Remo.
 
Dito todo este quotidiano não deixo de sorrir ao vê-los, empertigados em pantomina, discutindo o Festival da "Canção" na Eurovisão de ontem. Os "faxos" e os "comunas" irritados, os "intelectuais", ditos melómanos, lamentando da justeza dos resultados, dos "interesses" envolvidos, das qualidades dos intervenientes, da subalternização da "música" à "política" e isso. 
 
Enfim, não vejo um festival desses desde o "sobe, sobe, balão sobe" ou das rutilantes "Doce". Mas se os devastados ucranianos vibraram com a sua vitória, um décimo que seja do que os tontos lusos há anos com aquela tralha do rapaz que dá traques em palco... então ainda bem.
 

25 de Abril!!!

jpt, 25.04.22

["E Depois do Adeus", Festival da Eurovisão 1974]

É, no género, uma bela canção e muito bem interpretada, esta "E depois do adeus", sempre lembrada por ter servido como senha para o golpe corporativo militar de 25 de Abril de 1974 - provocado pelos heróicos movimentos de libertação nas colónias africanas portuguesas e tornado, à revelia do oficialato castrense, numa revolução pelo povo de Lisboa (sobre a matéria ver Cunhal 1975 [1967]).
 
É também um bom símbolo da democracia, da autoria do socialista José Niza (lírica), de José Calvário (música) e Paulo Carvalho (intérprete), estes dois últimos logo autores do hino do PPD (depois PPD/PSD), do qual o primeiro foi militante.
 
Esta é a história deste símbolo - não a propagandeada pelos ainda hoje miseráveis enverhoxistas, guevaristas ou brejnevistas. E otelistas...
 
Bibliografia:
 
Álvaro Cunhal, 1975 (1967), As Lutas de Classes em Portugal nos Fins da Idade Média. Lisboa, Estampa, pp. 33-95.

Olhos Azuis

jpt, 09.04.22

fs.jpg

Umas das coisas mais tétricas que esta guerra na Ucrânia trouxe foi a liberdade sentida pelos tantos que por aí andam a criticar quem gosta de gente com "olhos azuis" (o artigo de Boaventura de Sousa Santos no estatal Jornal de Letras desta semana é execrando exemplo dessa execrável via).
 
Então aqui deixo este já maduro ol' blue eyes numa das suas imortais. Porque o ol' blue eyes foi, e é, o maior:
 

(For Once In My Life - Frank Sinatra | Concert Collection)

E mais uma, dedicada aos intelectuais que não se importam com invectivas a quem gosta daqueles com "olhos azuis" (e não só) - é talvez a melhor, e não só devido à senhora presente...:

(Frank Sinatra - A Lady is a tramp - Pal Joey, 1957)

E para os comunas que para aí andam a vomitar contra os "olhos azuis", e os que deles gostam? Ainda há esta, um "olhos azuis" a cantar a liberdade de voo, que tanto apreciam por razões militares:

(Frank Sinatra - Come Fly With Me)

..."fascistas!", "ocidentais!", clamarão estes vis apatetados, quando nos encontram a dizer que temos um tipo "olhos azuis" entranhado, pois "sob a nossa pele":

(I've Got You Under My Skin - Frank Sinatra | Concert Collection)