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Bernard Lewis (1916-2018)

por Diogo Noivo, em 23.05.18

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Bernard Lewis é um nome maior da historiografia sobre o Médio Oriente e o Islão. Cunhou o termo “choque de civilizações”, depois popularizado por Samuel P. Huntington. Contudo, ao contrário deste, Lewis não identificou no povo árabe, ou na comunidade muçulmana, qualquer atavismo que inviabilize a edificação de democracias no Norte de África e no Grande Médio Oriente. Em cerca de 30 livros e mais de uma centena de artigos e ensaios, Lewis argumentou que as aflições políticas dos países árabes e do Islão se devem a problemas eminentemente políticos.

No célebre The Crisis of Islam, elencou e dissecou os desafios (e os abismos) que assolam as terras do Islão - pobreza, desigualdade económica, autoritarismo -, explicando que a sua resolução é matéria de escolha, pois não há na religião nada de endémico que impeça a alteração do status quo. Foi também nestas páginas que afirmou não existir qualquer fundamento doutrinário ou legal no Islão para validar os autores morais e materiais dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. Demonstrou que, de acordo com os cânones da fé islâmica, a violência contra mulheres e crianças é expressamente proibida e, por outro lado, que o suicídio é um pecado punido com a condenação eterna do pecador à repetição incessante do seu acto. Tido como “falcão” - foi conselheiro da Administração de George W. Bush e defendeu mão pesada no Médio Oriente - e como “orientalista” - Edward Said disse de Lewis o que Maomé não disse do toucinho -, o historiador nunca permitiu que as suas convicções políticas deturpassem os factos e a análise.

As memórias de Bernard Lewis, publicadas em 2012 sob o título Notes on a Century: Reflexions of a Middle East Historian, tecidas com humor britânico e erudição despretensiosa, oferecem uma viagem única por uma vida ímpar, deixando entrever uma visão pouco optimista sobre o Médio Oriente e principalmente sobre a capacidade do Ocidente em lidar com aquela região. Li-as na altura e hoje voltarei a elas. Bernard Lewis morreu no passado dia 19 aos 101 anos de idade.

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O (quase) silêncio da Fatah

por Alexandre Guerra, em 15.05.18

A Grande Marcha de Retorno esbarrou literalmente na vedação que delimita a Faixa de Gaza do território de Israel. Era uma iniciativa que estava condenada desde o início. A ideia de uma caminhada triunfal de milhares de palestinianos até Jerusalém não seria mais do que uma fantasia, uma tentativa de reabilitar as intifadas de anos anteriores, numa espécie de grito de revolta por parte de quase dois milhões de pessoas desesperadas, que há vários anos estão autenticamente presas num território com cerca de 40 quilómetros de cumprimento e 10 de largura, onde as condições de vida se degradaram para níveis miseráveis, reflectindo-se em indicadores sociais muito preocupantes.

 

É importante sublinhar que, hoje em dia, quando se fala na causa palestiniana e num futuro Estado palestiniano, na verdade, o que está em análise são duas realidades distintas. Não quer isto dizer que ambas não possam vir a coexistir sob um único Governo e estrutura política, mas, actualmente, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza são dois mundos substancialmente diferentes. E se isso já era evidente há uns anos ao nível social e religioso, sendo Gaza uma sociedade claramente mais conservadora do que a Cisjordânia, agora, em 2018, as diferenças são consideráveis no campo político-económico, sobretudo, por duas razões.  

 

A primeira razão tem a ver com a morte de Yasser Arafat, em 2004, e a consequente perda de influência da Fatah na Faixa de Gaza. Recordo de ter estado em várias casas de famílias palestinianas na Faixa de Gaza e, quase sempre, numa das divisões havia uma fotografia do histórico líder. Isto, numa altura em que a Fatah já tinha pouca influência naquele território, mas onde Arafat continuava a ser o elemento político unificador. Após o seu desaparecimento, o Hamas rapidamente ascendeu ao poder, ao mesmo tempo que reforçava a sua presença na gestão dos serviços públicos e no apoio social. Ora, com a Cisjordânia historicamente dominada pela Fatah e a Faixa de Gaza nas mãos do Hamas, criou-se uma dualidade política que resultou em duas estruturas de poder diferentes e, por vezes, competitivas naquilo que é a luta pela liderança da causa palestiniana.

 

A outra razão está directamente relacionada com o bloqueio imposto por Israel que, basicamente, já vem dos tempos da intifada de al-Aqsa (2000-2005). Por esta altura, estive por duas vezes naquelas paragens e já então os palestinianos da Cisjordânia não podiam ir visitar os seus familiares à Faixa de Gaza e vice-versa. Era assim e assim continuou. E na altura cheguei a perguntar a muitos palestinianos como eram os tempos anteriores à intifada de al-Aqsa e todos me disseram que nem na primeira intifada (a chamada “revolta das pedras” entre 1987 e 1991) Israel tinha imposto tantas restrições de movimentos. Pois bem, os anos passaram e esse estrangulamento foi-se intensificando na Faixa de Gaza, com a agravante dos bombardeamentos israelitas em 2014 sobre aquele enclave, destruindo, ainda mais, muitas das suas infraestruturas públicas e de saneamento. Ao mesmo tempo, sem aeroporto e porto, e com as fronteiras encerradas com Israel (restando apenas a fronteira de Rafah Crossing com o Egipto, mas que muitas vezes está fechada), a débil economia da Faixa de Gaza foi-se degradando, empurrando a população palestiniana para um caos humanitário.

 

Na Cisjordânia, apesar das dificuldades existentes, tudo é diferente. Há uma estrutura de poder minimamente estável, os serviços públicos funcionam, existe uma economia, as universidades fervilham de actividade, os restaurantes e café estão abertos nas várias cidades palestinianas, digamos que há uma certa dinâmica de sociedade. Além disso, a circulação entre a Cisjordânia e Israel, através de vários postos de controlo ao longo da fronteira, é muito mais facilitada.

 

Este enquadramento talvez seja importante para se perceber a passividade com que a Fatah e os palestinianos na Cisjordânia estão a encarar esta sublevação. Na verdade, dos relatos que chegam da Cisjordânia, registam-se apenas alguns confrontos em Hebron e Nablus, mas pouco significativos e nada comparáveis aos protestos de Gaza. Tudo indicia que a Fatah não está interessada em promover uma nova intifada. A única declaração que se encontra é esta, algo inócua, na qual se apela ao mundo muçulmano para proteger Jerusalém. Ainda esta manhã, a BBC News passava imagens em directo da rotunda Al Manara, em Ramallah, onde, normalmente, se concentram manifestações, e o ambiente era estranhamento calmo para aquilo que costuma ser em momentos de contestação e que eu, pessoalmente, lá vivi em diversas ocasiões.

 

A questão é saber se neste momento interessa à Autoridade Palestiniana e à Fatah abraçarem a causa dos seus "irmãos" da Faixa de Gaza, sabendo de antemão que qualquer acto mais agressivo contra Israel terá consequências dramáticas na Cisjordânia, em cidades como Ramalhah, Belém, Hebron ou Nablus. Do que se vai percebendo, a Fatah e o poder instalado em Ramalhah não parecem estar dispostos a sacrificarem a sua condição para dar força a uma terceira intifada. Para já, os palestinianos na Faixa de Faza estão entregues à sua sorte, como aliás, tem acontecido há quase 20 anos.   

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Três questões vitais onde Israel nunca cederá

por Alexandre Guerra, em 06.04.18

O conflito israelo-palestiniano voltou a escalar nos últimos dias. Já morreram 16 pessoas e ficaram feridas quase trezentas. Tem sido assim nas últimas décadas, na verdade, desde a criação do Estado de Israel a 14 de Maio de 1948. Até aqui, nada de novo e muito menos de surpreendente. O que surpreende verdadeiramente é como que, ao fim destes anos todos, políticos e analistas internacionais ainda olham para isto com algum idealismo e não tenham percebido que há três questões vitais sobre as quais Israel nunca cederá, sabendo que no dia em que o fizer, é o dia em que sobrevivência do seu Estado fica em causa. Aqui fica uma explicação muito simplificada:

 

1.A primeira questão prende-se com o acesso à água doce, um recurso escasso naquela região do planeta e que Israel tratou de assegurar. O controlo israelita dos Montes Golã, mais do que a sua importância estratégica enquanto “zona tampão” com a Síria, é vital pelo facto daqueles aquíferos montanhosos alimentarem o Rio Jordão. Toda aquela zona é muito verde e propícia à agricultura. É importante notar que um terço da água consumida em Israel vem dali. Sobre este assunto, muito há para dizer, mas o importante é ter-se a noção de que Israel nunca abdicará de qualquer controlo sobre as fontes de água doce na Cisjordânia, exercendo uma espécie de “hidro-hegemonia”, impedindo que a Autoridade Palestiniana desenvolva infraestruturas de fornecimento de água, criando-se, assim, um regime discriminatório com efeitos perversos.

 

2.A segunda questão vital tem a ver com o estatuto de Jerusalém (na verdade, o problema coloca-se com a Cidade Velha de Jerusalém). Por mais pretensões (e razões) que os palestinianos possam ter, Israel nunca permitirá que a Cidade Velha de Jerusalém fique sob domínio palestiniano e se torne a capital do Estado Palestiniano. De pouco servem as pressões internacionais, o facto é que são as Forças de Segurança Israelitas (IDF) que controlam todas as entradas e saídas do lado oriental da cidade, assim como o acesso à Esplanada das Mesquitas dentro dos muros da histórica cidade. No que diz respeito à defesa do seu território e da sua capital, Israel já deu provas de lidar bastante bem com a anátema de ser uma potência ocupante. E apesar de existir uma certa opinião pública israelita que contesta a política de ocupação hebraica, pouca força tem quando se trata de mudar o curso da História

 

3. A terceira questão vital está directamente relacionada com o famoso direito de retorno de todos os palestinianos refugiados. Este estatuto tem origem na primeira guerra de 1948, sendo depois aplicado a todos os palestinianos que foram sendo obrigados a sair das suas casas e terras no seguimento da ocupação israelita dos territórios da Cisjordânia ao longo das décadas. Nas vésperas do 70º aniversário da criação do Estado de Israel, ou da Nakba ("catástrofe"), na perspectiva palestiniana, milhares de pessoas da Faixa de Gaza iniciaram a “Grande Marcha do Retorno”, uma marcha que marchou pouco, porque, para todos os efeitos, está parada em vários pontos da vedação fronteiriça que separa aquele enclave de Israel. Realisticamente falando, trata-se de um acto mais simbólico do que consequente, sendo que as únicas consequências se traduzem em mortos e feridos. Por mais apelos internacionais e campanhas de sensibilização, Israel nunca irá contemplar com aquele movimento e a marcha não sairá dali, nem hoje, nem nunca. Ou pelo menos, enquanto o Estado hebraico existir. Se, por um lado, os palestinianos reclamam por um direito histórico válido, a posição de Israel é compreensível, porque, a julgar pelos dados oficiais da UNRWA, devem haver mais de cinco milhões de refugiados espalhados pela Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Líbano, etc. Ora, a partir do momento em que Israel reconhecesse o “direito de retorno”, era o dia em que iniciava uma guerra que nunca iria ganhar: a da demografia.

 

Há uns anos, um ilustre académico palestiniano de Nablus, e que chegou a candidatar-se contra Yasser Arafat nas eleições presidenciais, dizia-me que o grande problema daquele líder histórico foi ter assinado os Acordos de Oslo, porque foram uma armadilha. Explicava-me esse professor e activista que aqueles acordos nunca contemplaram as matérias vitais acima referidas, essenciais para a criação de um verdadeiro Estado palestiniano independente. O problema é que comprometeram a Autoridade Palestiniana num acordo que definia um status quo favorável a Israel.

 

Na altura, achei que poderia seria uma análise algo exagerada, mas hoje não tenho qualquer dúvida de que Israel nunca formalizará um acordo onde tenha que ceder numa destas três questões. Quem acreditar nisso ou apelar a isso não estará seguramente a fazer um favor à paz. Aliás, é de uma ambição desmedida querer alcançar-se paz entre palestinianos e israelitas, quando aquilo que os líderes internacionais deveriam primeiro pensar era na conquista da estabilidade entre dois povos, dois estados, mas isso só se alcança com realismo e algum cinismo, porque, infelizmente, é assim nas relações internacionais e na História das nações.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata

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As portas do Inferno

por Alexandre Guerra, em 06.12.17

Conheço relativamente bem Israel e a Palestina. Estive lá por duas temporadas durante a intifada de al-Aqsa, numa altura em que turistas ou peregrinos não se atreviam ir à Terra Santa. Numa altura em que Jerusalém era a cidade com mais correspondentes a seguir a Washington, numa altura em que os atentados suicidas eram uma constante nas principais cidades israelitas. No lado palestiniano, os check points das Forças de Segurança Israelitas (IDF) eram cada vez mais intrusivos, os ataques aéreos sucediam-se, a construção de colonatos judeus avançava de forma intensa, os palestinianos deixaram de poder circular em Israel, nomeadamente entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. O Hamas e a Jihad Islâmica afirmavam-se, tal como as milíciasTanzim, uma espécie de braço terrorista da Fatah, liderada entāo por Yasser Arafat. O clima que se vivia foi dos mais violentos e sufocantes desde a última guerra israelo-árabe. A maior parte das infraestruturas palestinianas ficou reduzida a entulho. Na Faixa de Gaza, fosse na cidade de Gaza ou em Rafa, no sul, vi escombros sobre escombros, o porto e o aeroporto totalmente destruídos, projectos que tinham sido financiados pela UE. Israel também sofreu na sua economia, no seu turismo, na sua imagem internacional. Entre 2000 e 2005, terão morrido mais de 3000 palestinianos e cerca de 1000 israelitas. A violência tinha voltado a assolar aquela região e tudo porque Ariel Sharon, na altura líder do Likud na oposição, decidira fazer uma visita aparatosa, em jeito de provocação, à Esplanada das Mesquitas, um dos locais mais sagrados para os muçulmanos. Agora, é só imaginar o que poderá novamente acontecer com esta decisão de Donald Trump. O Hamas já veio dizer que se abriram as "portas do Inferno" e sobre isso não tenho qualquer dúvida.

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A última "pomba" do Médio Oriente

por Alexandre Guerra, em 28.09.16

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Desde que me lembro de ter alguma consciência política e sensibilidade para as questões do mundo, que convivo quase diariamente com o conflito do Médio Oriente, seja em momentos de maior ou menor intensidade. Não estarei a exagerar se disser que aquela realidade israelo-palestiniana me tem acompanhado ao longo da vida, onde aliás já tive o privilégio de estar por mais que uma vez. Havia três figuras que faziam parte desse meu mundo: duas já morreram há uns anos; Ytzhak Rabin, em 1995, e Yasser Arafat, em 2004. E a terceira figura era Shimon Peres, que morreu esta manhã. Todos eles foram em tempos das suas vidas "falcões", que lutaram pela sua terra, mas morreram como "pombas" na tentativa de encontrar uma solução de paz para um conflito milenar.

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Dentro do quadro azul

por Patrícia Reis, em 11.02.15

 

O soldado mantém-se quieto, calado. Consegue cheirar o seu suor, o seu sexo, a sua boca seca, o azedo do medo. Tem 19 anos. Apenas 19 anos. O carro andou aos solavancos e o homem ao volante, gritou qualquer coisa em árabe. Havia um padrão preto e branco de um kaffiyeh.
Lembrou-se das imagens de Yasser Arafat, cartazes que viu em criança, com a legenda “sempre contigo”, há muito tempo, antes de Ramallah, da velhice, da doença, do hospital em Paris, da morte. Nessa altura ele, o soldado de 19 anos no carro a fugir à vida, tinha beijado e penetrado a sua primeira mulher.
O cheiro a sexo era distinto de tudo o resto. Tinha sido num fim de tarde, em casa dos pais dela, no centro de Telavive, um bairro de gente com dinheiro. Ele dissera:

Não sabia que a tua família tinha dinheiro.

Dizes bem, a minha família. Eles e eu: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Fora um momento erótico, ela a roçar-se nele com os jeans apertados, o soutien preto a despontar da camisa. A erecção doía-lhe. Doía-lhe tanto. As gotas de suor no vale dos seios dela, entre as pernas, na barriga, junto ao mundo que é a forma do umbigo.
Ela disse que não era preciso ter pressa e chupara-o até ao orgasmo e no desalento de tudo aquilo, ali no sofá, com a cnn a dar o boletim meteorológico do mundo, sentou-se em cima dele, no sexo ainda erecto, branco de esperma, e começou a mexer-se em cima dele até que o desejo regressou e ela riu, quase num tom jocoso, celebrando:

Ah, 17 anos.

Ela tinha 20. Uma velha. Uma veterana. Acabara de sair dos dois anos de exército obrigatório, tinha estado em Goa, fumado e metido todo o tipo de pastilhas. Agora, em Israel, ia trabalhar com o pai, dono de uma empresa de ferramentas com contratos milionários com o Japão. De dois em dois anos regressaria ao exército, para reciclagem. Até aos 45 anos o exército seria uma rotina. A ideia de que o país é quem o defende era uma lengalenga desde criança, uma voz constante. Somos um pais jovem, temos inimigos, somos os eleitos do sofrimento de Deus.

Pode ser que tenha sorte e um dia mate um filha da puta de um árabe.

Ele, no sofá, depois do sexo, sem prestar atenção à conversa, sem saber o que dizer, lembrou-se da boca dela e do cheiro do perfume no seu pescoço. Não queria saber de árabes. Não queria saber de autocarros a explodir, sirenes a passar. Desde sempre que fora treinado para aquilo. Viver em Israel. É-se treinado para viver ali, naquele sítio inventado.
Uma bomba caí hoje, amanhã já está tudo normal, não há sinais. Como é que se sabe se a explosão foi grande? Se foi mortal? Espera-se pelas ambulâncias. Quantas mais forem, mais mortos, quantos mais mortos, menos devemos querer saber. Palavras da mãe.
A mãe, olhos azuis, loira, unhas de gel, um passaporte cheios de carimbos dos países do mundo. A mãe que lê para combater as bombas, os árabes, o holocausto e até as 25 horas de jejum do Yom Kipur, o dia perdão, da purificação do espírito. Mãe é um bicho universal, dissera ela, a rapariga ao seu lado. Ele discordou mas calou-se. Antes de ser mãe, é-se judia, antes de ser mãe, é-se israelita, da Alemanha, da Polónia, da Rússia. Como o filho de Isaque, filho de Abraão, Jacob que luta com um anjo do senhor e torna-se o primeiro guerreiro israelita, mudando de nome, tornando-se Israel.
Agora nos carro, depois dos túneis junto a Gaza, Giled lembra-se dela, da voz dela. O medo que sente está para lá da dor no ombro, na mão partida, vermelha e inchada, os dedos que não fecham. O medo faz-lhe lembrar coisas idiotas. Ela, a mãe, o professor a dizer que adiar os estudos para ir para o exercito era uma pausa, uma brincadeira.

No meu tempo é que era à séria.

Nada podia ser mais sério do que isto. Giled já nem tenta abrir os olhos. Fica com eles cerrados a tentar ver outras coisas. Alguém o irá buscar. Alguém o irá salvar. Nunca ficará por ali. Nunca ninguém é deixado para trás. O pai desesperado por trocarem soldados palestinianos, terroristas pretensamente do Hamas, por corpos de soldados israelitas. A mãe a concluir:

Só te desespera a troca dos mortos pelos vivos porque não é o teu filho que tens de enterrar.

Giled percebe agora que toda a vida que planeou pode desaparecer à velocidade de um segundo não contabilizado. Todos os seus planos trocados, embrulhados, desfeitos pela vida. A vida trocou-me as voltas, pensa. O ombro dói cada vez mais e a mão está a latejar. Alguém o arrasta para fora do carro, brutal. Sente o seu corpo magro contra a chapa do carro, a areia da rua, as pedras de uns degraus que sobe trôpego. Nada será como planeou. Nada. Em Israel assumir que a idade é uma bênção parece uma coisa estranha. Giled deixa-se escorregar por uma parede que o arranha. Não tem camisola, a farda, a chapa de identificação, tudo o que é, ou era, o seu nome e origem. O pai dizia, tantas vezes, tantos almoços: um soldado é a sua unidade. Até agora não lhe ocorreu pensar nos companheiros, sente o estômago, sente frio, sente dor, mas não sente preocupação com os outros. Não tem que ver com ser boa pessoa, é sobrevivência. Instinto. Tem a cara inchado do murro que levou, um gesto inesperado.
O homem da kaffiyeh entra no quarto e diz-lhe

Passaram umas horas. Eles dizem que vêm vingar-te. Que nenhum soldado é abandonado. Tu sentes-te abandonado?

Giled não responde. O homem agacha-se lentamente, fica à altura dos olhos dele. Tem um sorriso ligeiro. Olha para a mão inchada, com a ponta do dedo pressiona o ombro. Levanta-se.

Não é desta que vais morrer, soldado. Ainda não é agora. Quando chegar a tua hora, aviso. Não te preocupes. Eu cumpro sempre com a minha palavra.

Giled pensa que não sabe pensar em árabe. Que a diferença essencial entre eles é uma só: eles não têm medo de morrer.

Eu tenho. Eu tenho medo de morrer.

A sua voz, a meia voz, desperta-o por fim para a verdade de tudo aquilo. Ao fundo, na parede, está uma tela grande em tons de azul, rasgados por brancos rosados. Giled começa a chorar. O seu futuro é aquele quadro desconhecido. Não vai ver mais nada.

(Gilad Shalit, 19 anos, foi raptado na Faixa de Gaza em Junho de 2006 pelo Hamas. Voltou a casa em Outubro de 2011, depois da libertação de presos palestinianos.)

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O avanço do Estado Islâmico

por Rui Herbon, em 26.09.14

O Estado Islâmico avança com desordem e sem atender a fronteiras. É a facção mais extrema do islamismo radical. Ocupa zonas do Iraque e da Síria. É uma cópia conceptual dos califados de há quase mil anos. Os Estados Unidos e a França bombardeiam as imprecisas posições dos novos terroristas, que degolaram vários cidadãos ocidentais e ameaçam voltar a fazê-lo, espectáculos filmados que se retransmitem através das redes globais. As pessoas que viviam no Curdistão iraquiano e sírio atravessam massivamente a fronteira com a Turquia — mais de 130.000 nos últimos dias. 

 

Esta guerra é uma profunda aberração. Os curdos lutaram durante mais de trinta anos contra a Turquia. Paradoxalmente, é agora a Turquia a acolher por razões humanitárias milhares de curdos procedentes da Síria e do Iraque. Esses curdos não são bem-vindos pelos que na Turquia lutaram contra Ankara. A mobilidade forçada de grandes dimensões é sempre conflituosa. Mas o facto da Turquia aceitar centenas de milhares de curdos indica até que ponto o Estado Islâmico é concebido como um perigo para a estabilidade na zona e para a sobrevivência de etnias, culturas e antigas religiões que, como a cristã, povoam aquelas terras desde há quase vinte séculos.

 

A agência de refugiados da ONU pede desesperadamente ajuda para mitigar dentro do possível este drama humano de bárbaras dimensões. Se o Estado Islâmico controlar a cidade de Kobane terá  um enclave para dominar toda a região. Está em marcha uma coligação que agrupa mais de trinta países, incluindo vários estados muçulmanos. Os bombardeamentos americanos e franceses atingem os fundamentalistas, mas Tony Blair pediu a entrada de forças terrestres se se quer derrotar definitivamente o Estado Islâmico.

 

Obama venceu duas eleições prometendo sair do Afeganistão e do Iraque, e agora volta à guerra para destruir um grupo terrorista que está a formar um novo estado, apagando as fronteiras entre a Síria e o Iraque e enviando centenas de milhares de refugiados para a Turquia.

 

A política, sobretudo a internacional, é imprevisível. Mas há que dizer que a guerra iniciada em 2003 contra Saddam Hussein, justificada pelas inexistentes armas de destruição massiva, foi um erro cujas consequências estamos todos a pagar. A alegria com que se lançavam bombas sobre Bagdade retornou na forma da amargura de centenas de milhares de mortos, deslocados e desesperados. Está tudo pior que em 2003. Os efeitos da tristemente célebre cimeira dos Açores continuarão a fazer-se sentir e o seu cabal apuramento só poderá ser medido dentro de pelo menos mais uma década.

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e será que alguém se comove?

por Patrícia Reis, em 30.07.14

 

Quantos jornalistas portugueses estão em Gaza? Ah, esqueci-me, estamos à beira das primárias do PS e há o Ricardo Salgado. Ok. Como jornalista, com carteira e no sindicato, com contas em dia, não entendo. Alô? Está alguém a dirigir os jornais? As televisões? Quem são? De onde vêem? São jornalistas? E os donos dos órgãos de comunicação social são apenas isso: proprietários de imprensa escrita ou outra? Terão outros interesses? Devem ter.

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Nervosos

por João Carvalho, em 04.06.11

O presidente do Iémen poderá ter deixado definitivamente o país e a oposição parlamentar já apelou à comunidade internacional no sentido de obter ajuda para evitar a guerra civil.

Por um lado, a confirmar-se tudo isto, Ali Abdullah Saleh torna-se o terceiro líder árabe a cair perante a vaga de contestação popular que tem varrido os déspotas do Médio Oriente e do Norte de África. Por outro lado, a notícia há-de voltar a tirar o sono a José Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Vasco Graça Moura e mais alguns conhecidos zeladores da nossa democracia e da ditadura de outros lá longe.

Espero que tais zeladores consigam amanhã votar sem que o nervoso miudinho pelas mudanças no mundo lhes provoque tremedeira nas mãos. Todo o cuidado é pouco: se as cruzinhas ficarem muito tremidas, os boletins de voto serão considerados nulos.

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IPRIS Viewpoints 40

por Paulo Gorjão, em 03.03.11

Political turbulence in the MENA region: change we can trust in?

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O medo da mudança e da sua direcção

por Paulo Gorjão, em 01.03.11

Winston Churchill disse um dia que não há nenhum problema com a mudança, desde que seja na direcção certa. Se ainda estivesse vivo, Churchill estaria a seguir com interesse os acontecimentos em curso no Magrebe e no Médio Oriente. O próprio Churchill frisaria seguramente que não é claro se os ventos da mudança, que alastram como um vírus na região, estão a soprar na direcção certa. O único dado seguro nesta altura é que, independentemente do que vier ainda a acontecer em 2011, nada será como antes na região (continuar a ler).

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A revolução é contagiosa?

por Laura Ramos, em 23.02.11

Barómetro de sobrevivência dos déspotas do médio-oriente, até final de 2011.

Vai ser interessante observar a correlação entre essess movimentos.

 


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Tema(s) enriquecedor(es)

por João Carvalho, em 05.07.10

Sobre o blogue desta semana que a Ana Sofia escolheu aqui, assistam ao vídeo incluído no post. No final, aparecem mais vídeos correlacionados (numa barra inferior), o primeiro dos quais é o mesmo. Prestem atenção aos outros. Recomendo vivamente (repito: recomendo vivamente) que vejam o segundo e o terceiro. São muito enriquecedores. E mais não digo.

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Contra o crime, sempre

por Pedro Correia, em 17.01.09

 

Dizia Estaline que a morte de um ser humano é uma desgraça enquanto a morte de um milhão de seres humanos é uma estatística. Ao contrário do ditador comunista, para quem o homicídio era apenas um modo como qualquer outro de fazer política, jamais devemos sobrepor critérios de outra ordem à nossa firme condenação das acções bélicas como a que Israel executou em Gaza ao longo das últimas três semanas. Sublinhado isto, acrescentarei que só conseguirei respeitar os mais vigorosos protestos contra Israel que tenho escutado e lido, de uma pequena multidão indignada que vai de José Saramago a Daniel Oliveira, se a vir igualmente tão firme na condenação das atrocidades cometidas pelos radicais islâmicos, de que o Hamas é uma componente vital no seu obsessivo desígnio de estabelecer um califado à escala do planeta. Parafraseando Gertrud Stein, um crime é um crime é um crime. A própria carta de fundação do Hamas faz um apelo explícito ao crime no seu artigo 7º: «Que o enviado [Maomé] disse: 'Que lutem os muçulmanos contra os judeus e que os matem os muçulmanos, e quando o judeu se esconder atrás das árvores e das pedras, então dirão as árvores e as pedras: 'Ó muçulmano, ó servidor de Alá, aqui esconde-se um judeu, vem matá-lo'.»

Um crime é um crime é um crime.

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Notícias

por João Carvalho, em 13.01.09

Israeli army chief: Troops will continue fighting Hamas in Gaza. Há pouco, esta era a chamada de topo para uma notícia online no 'Yahoo!'. Portanto, podem continuar a falar do Cristiano e do futebol o dia todo, que o mundo ainda não mudou.

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Interrupções e conceitos

por João Carvalho, em 07.01.09

Israel decidiu interromper hoje a guerra em Gaza por três horas, para ajuda humanitária. E parece que é assim mesmo que o conflito vai continuar: uma trégua de três horas por dia, para acorrer às vítimas das restantes 21 horas diárias de guerra.

À indiferença com que se matam civis - crianças e velhos incluídos - acresce a previsão desumana das partes beligerantes, que concedem um intervalo regular para socorrer ou recolher as vítimas da guerra. Assim a frio, pode dizer-se que a diferença entre esta guerra e as da Idade Média não vai muito além das fardas e do armamento, por exemplo. E da própria interrupção, claro.

Quanto à diferença entre esta interrupção e outras interrupções, ela está no conceito. Esta é um pouco como nos cinemas, em que a interrupção corresponde a um intervalo. Ou como nos velhos tempos da RTP, em que era retomada a programação após a interrupção, a qual até originava um pedido de desculpas. Diferente é a eufemisticamente chamada 'interrupção voluntária da gravidez', em que a interrupção é definitiva e nada se retoma.

Israel e a Palestina deviam pensar no conceito que Portugal associa ao aborto, juntar-lhe um pedido de desculpas tipo RTP a preto-e-branco e deixar o intervalo para os filmes. Mas preferem a razão da força. Contra crianças e velhos, os dois serão seguramente vencedores.

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