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Fim de semana inglês

por Pedro Correia, em 07.03.19

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O circunspecto Telegraph titula a toda a largura da primeira página na sua edição de domingo: «O cão domina.» Um destaque impensável noutros tempos e que diz quase tudo: no Reino Unido, como em Portugal, há cada vez mais gente a trocar pessoas por animais, humanizando os bichinhos, a quem tratam como não tratariam um filho. Não me espantava que fosse criminalizado o ralhete ao lulu ou a advertência severa a um bichano, por parte dos donos, no espaço público. Não sei se aqui também já existe um PAN, mais vocacionado para defender as quatro patas do que as duas pernas, mas não deverá faltar muito.

O que não falta é a correcção política, que nos cerca e asfixia como um garrote, nos mais banais actos do quotidiano. Sento-me à mesa para matar saudades de um tradicional fish and chips e logo a empregada paquistanesa me pergunta: «Tem alguma alergia alimentar?» Fiquei tão espantado que nem percebi à primeira.

Esta fobia de todas as fobias domina os chamados países ricos do primeiro mundo, que forçam os seus habitantes a sentir culpa ou a padecer seja do que for. Quem não tem alergias é olhado de soslaio, como se não bastasse tirar o cinto e descalçar os sapatos na minuciosa inspecção dos aeroportos.

Há câmaras de vigilância nos locais mais insuspeitos, proliferam advertências contra a necessidade de «não dirigir palavras ofensivas» aos funcionários públicos, o que constitui infracção criminal. Acabamos por sentir-nos suspeitos de alguma coisa, sabe-se lá o quê.

 

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«Get in lane», advertem em letras garrafais os cartazes destinados a promover a segurança rodoviária. Acho muito bem. Mas já será algo excessivo, nas pedovias, haver uma faixa exclusiva para quem anda e outra para quem corre, como se todos tivéssemos de nos encaixar sempre em trilhos. Ou nem pudéssemos optar por andar e correr quando nos apetecesse.

Esta mania de etiquetar e regulamentar tudo deu cabo da paciência aos britânicos e ajuda a explicar a orientação de voto que levou ao Brexit. Muitas destas normas são emanadas de Bruxelas, onde abundam os microlegisladores apostados em interferir nas mais ínfimas partículas da existência dos povos comunitários. Os ingleses, com o seu espírito insular, continuam a pagar contas em libras e a medir distâncias em milhas e jardas. Mas não escapam à imposição das directivas que mandam esmiuçar até ao último miligrama todas as partículas integrantes de um vulgar frasco de champô, como comprovo no quarto onde me alojo.

Para acompanhar a refeição, mato saudades de uma boa cidra Harry’s, produzida com maçãs do Somerset. Mas algo mudou desde a minha anterior visita ao Reino Unido, como verifico ao observar a garrafa: «Esta bebida é comprovadamente apropriada a vegetarianos, veganos e celíacos», explicita o rótulo.

Bem-vindos ao admirável mundo novo das regras infindáveis e das redomas sem remissão. Nesta Europa a que em breve os britânicos deixarão de pertencer, a crianças são tratadas como adultos e nós, adultos, andamos a ser tratados como crianças.

Volta a paquistanesa e pergunta-me se desejo uma das sobremesas em promoção. «São todas sem açúcar», especifica. Agradeço, mas dispenso. E peço a conta.

Ser feliz em Londres

por José Gomes André, em 04.03.13

 

Em 2007, quando preparava o meu doutoramento, tive a oportunidade de fazer investigação na British Library, junto à estação de King’s Cross. O edifício, construído em 1997, é extraordinário, devido à sua funcionalidade: oito salas de leitura distribuídas por dois andares, uma pequena sala de concertos, um andar para exposições, salas de conferências, uma loja, uma livraria, restaurante, bar e bengaleiro – dispostos em redor da magnífica biblioteca de Jorge III, protegida por um vidro especial, a qual pode ser contemplada onde quer que nos encontremos no edifício.
A decoração é simples, mas com bom gosto. Os pormenores são deliciosos: sofás espalhados ao longo dos corredores convidam a uma pausa tranquila, enquanto se lê o jornal. Existem pequenas mesas de trabalho espalhadas por todos os andares, permitindo que jovens e velhos, estudantes ou simples curiosos, possam frequentar o espaço e dele tirar proveito sem restrições: seja para preparar um teste, navegar na Internet ou concluir um Sudoku.
As salas de leitura contêm um espólio impressionante – 13 milhões de livros, um milhão de jornais, 3 milhões de registos sonoros. A consulta é livre – basta mostrar o cartão de leitor (gratuito). O horário é alargado (9.30h-20h) e a biblioteca está aberta ao sábado até às 17h. As salas de leituras estão apetrechadas de dezenas de espaçosas mesas individuais de trabalho. Existem mais de cem computadores em cada sala, a partir dos quais se podem fazer diversos pedidos, usualmente atendidos num curto período. Um óptimo conjunto de revistas em formato electrónico e uma impressionante colecção de microfilmes estão à disposição do estudioso que necessita de materiais de difícil acesso.
Os funcionários são prestáveis, eficientes e conhecedores da biblioteca. Nunca hesitei em pedir informações sobre as colecções, a forma de requisitar jornais antigos ou tão simplesmente de como fotocopiar um determinado livro. Responderam-me sempre com eficácia – às vezes mesmo com um sorriso.
Frequentam a biblioteca centenas de pessoas – o que perante estas condições não surpreende. Num dos dias em que me encontrava na sala de leitura de Humanidades – e para meu grande espanto – pude mesmo ouvir através dos altifalantes a seguinte informação: “Lamentamos comunicar que a sala de leitura está neste momento lotada. Pedimos às pessoas que desejam um lugar sentado que aguardem alguns momentos”. “É a hora de ponta”, explicou-me uma funcionária. Surpreso, vi formar-se uma fila no exterior. Uma vintena de pessoas esperavam que alguém saísse, para poderem ocupar um lugar na sala de leitura.
Filas para entrar numa biblioteca: ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias.

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Dickens, o homem que travou Marx

por Pedro Correia, em 14.02.12

 

Se há um escritor estreitamente associado a uma cidade e a uma época concreta, esse escritor é Charles Dickens. A cidade é Londres, a época é a da Revolução Industrial: nada do que sucedia naquele tempo e naquele espaço lhe era alheio. Dickens foi uma notável testemunha daqueles dias de profunda transformação da paisagem urbana inglesa que por sua vez marcava a irreversível transição da era agrícola para a era da locomotiva a vapor. E deixou isso bem documentado na sua obra, lida avidamente por legiões de contemporâneos sedentos de justiça.

Se alvo moveu este escritor que desfrutou de imensa popularidade ao longo de quase toda a sua vida adulta, foi precisamente o ideal de justiça."Nenhum autor daquele tempo teve um impacto comparável ao de Dickens. Ele fala da corrupção política e financeira, das desigualdades sociais, da exploração infantil... Temas que estavam aos olhos de todos mas que ninguém chegava a denunciar ou a expor com tanta crueza", sublinha Alex Werner, comissário da exposição Dickens e Londres, organizada no Museu de Londres para assinalar o bicentenário do nascimento deste homem que tem como epitáfio na Abadia de Westminster, escrito por mão anónima: "Amou o pobre, o miserável e o oprimido." Em personagens como David Copperfield ou Pip (de Grandes Esperanças), de cunho claramente autobiográfico, soube narrar a perplexidade infantil perante a inapelável miséria humana.

 

Foi um viajante incansável - atravessou duas vezes o Atlântico e em ambas as visitas aos EUA foi recebido por inquilinos da Casa Branca. Percorreu o Reino Unido de lés a lés e documentou nos seus escritos, primeiro na imprensa e depois em volumes que foram tendo sucessivas reimpressões, as miseráveis condições de vida das classes trabalhadoras do país que Karl Marx anteviu como o primeiro onde ocorreria a grande revolução proletária. Se essa revolução não eclodiu, como salientava há dias o professor universitário espanhol Ignacio García de Leániz Caprile no El Mundo, isso deveu-se à introdução de "mecanismos correctores" naquela sociedade marcada pela injustiça. "Poucas vezes uma literatura tão cheia de bons sentimentos como conhecedora do mal em todas as suas formas, e sempre ligada à realidade, teve tanta dimensão política e transformadora (...). Para Dickens, a boa literatura era a política por outros meios.»

Graças ao autor de Oliver Twist, um cristão convicto e consequente, a reforma travou o passo à revolução. Este é um motivo acrescido para celebrar, neste ano do bicentenário do seu nascimento, um escritor que, ao contrário de Zola, não necessitou de descer às minas de papel e caneta na mão para indagar das miseráveis condições de vida do mundo do trabalho: ele conhecia-as desde muito novo. Com apenas 12 anos, tendo o pai preso por dívidas, começou a trabalhar - dez horas por dia - numa fábrica quase em ruínas, pejada de ratazanas, numa decrépita margem do Tamisa. "Não há palavras para descrever a secreta agonia da minha alma, a sensação de ter sido rejeitado e de ter perdido a esperança", escreveu em David Copperfield, a mais autobiográfica das suas obras.

 

 

Se a Londres daquele tempo - com todas as características do que hoje chamaríamos uma metrópole do Terceiro Mundo - deu lugar à cidade moderna e civilizada dos nossos dias, isso deve-se também a Dickens, um escritor indissociável da capital britânica. Por isso Londres justamente evoca agora - nomeadamente em largas romarias turísticas à sua casa-museu na Rua Doughty - este intelectual que nunca deixou de estar profundamente ligado à vida e acabou por transcender todas as línguas e fronteiras. Autor intemporal, embora profundamente ancorado na sua época. Verdadeiro autor universal sem nunca deixar de ser o maior cronista da sua cidade adoptiva, onde residiu grande parte da vida e viria a morrer em 1870, aos 58 anos.

Uma e outra vez o lemos, sem deixarmos de nos indignar e espantar e comover com o que escreve. Como nestas linhas de David Copperfield: «Que sítio assombroso me parecia Londres quando a vi à distância. Acreditei que todas as aventuras dos meus heróis favoritos podiam acontecer ali, e vagamente me habituei à ideia de que ali havia mais maravilhas e raridades do que em qualquer outra cidade da Terra.»

Os grandes escritores são como os soldados de que nos falava o general Douglas MacArthur. Nunca morrem, apenas se vão dissolvendo no horizonte.

Juro que é o meu último post sobre os desacatos de Londres

por José António Abreu, em 30.08.11
Prova de que há cerca de quarenta anos os britânicos tinham outro respeito pela propriedade alheia. Se bem que, atendendo ao final, este possa ter sido precisamente o ponto de viragem.
(Lamento mas não arranjei com legendas em português.)

Ainda Londres, umas semanas depois

por José António Abreu, em 29.08.11

Escreveu-se muito sobre as diferenças como direita e esquerda viram os «motins» ou «manifestações» (os termos fazem toda a diferença) no Reino Unido. No fogo cruzado, creio que são misturados pelo menos três níveis de análise.

 

O primeiro passa por tentar perceber se havia motivações ideológicas por trás dos acontecimentos. De forma geral, a direita respondeu que não. Que aqueles jovens aproveitaram uma oportunidade (a morte de um cidadão às mãos da polícia) para destruir e roubar o que se lhes apresentava à frente (quase apenas lojas de pessoas que dificilmente podem ser consideradas ricas). Por seu turno, muita esquerda (não toda) preferiu ver nos acontecimentos uma manifestação de opções políticas. Aqueles jovens, ainda que de forma atabalhoada, estavam a querer transmitir uma mensagem política e não era por aproveitarem a oportunidade para roubar LCDs e telemóveis que a mensagem não devia ser ouvida. A minha opinião foi, e continua a ser, que todo o enquadramento ideológico é obra externa. O que se passou em Londres foi essencialmente o aproveitamento de uma oportunidade para destruir propriedade (à semelhança do que fazem elementos das claques de futebol nas áreas de serviço) e ganhar dinheiro. Quase todas as declarações de jovens envolvidos tendem a reforçar esta posição e é perfeitamente possível que alguns refiram motivações políticas sem que estas realmente tenham existido pois constituem agora a melhor justificação disponível para quem deseja parecer algo mais do que vândalo e ladrão. Mas avancemos: não me custa admitir que este seja o nível de análise menos importante.

 

No segundo plano de análise pode discutir-se se, independentemente das motivações concretas da maioria daqueles jovens, as condições de vida que têm servem de justificação para actos de protesto, e especialmente actos de protesto envolvendo violência. A esquerda acha que sim: inseridos em comunidades pobres, muitas vezes ostracizados por questões étnicas, com reduzidos níveis de escolaridade, alvo de cortes de subsídios, estes jovens, tenham ou não consciência plena do facto, representam uma insatisfação que se estende a muito mais gente do que eles – aos pais deles, por exemplo – e são um símbolo da falência do capitalismo. Como tal, para a esquerda eles não só podem como devem manifestar-se e, de forma similar ao que se passa nos protestos anti-globalização e anti-G20, a violência é tolerada, quando não aplaudida. Por seu turno, a direita considera que os desequilíbrios existentes são menos graves do que nos querem fazer crer (afinal, a maioria brande telemóveis de última geração e vive melhor do que, por exemplo, os pais deles alguma vez viveram), que parte da responsabilidade é dos próprios (muitos terão desperdiçado oportunidades para estudar e/ou trabalhar, preferindo viver de subsídios públicos) e das suas famílias (por não lhes incutirem valores «correctos»), e que, acima de tudo, nada justifica a violência. «Nada» é, evidentemente, demasiado definitivo e também demasiado teórico. Há situações que justificam violência – mas nem o Reino Unido é a Síria (as decisões governamentais estão validadas por eleições bastante recentes) nem a violência indiscriminada pode alguma vez ser aceite, ocorra onde ocorrer (também na Síria seria inaceitável que, em protesto contra o governo, se destruíssem lojas de cidadãos anónimos). Quanto ao resto, haverá parte de verdade tanto nas posições da esquerda (claro que as condições sociais em que eles vivem não são as melhores) como da direita (sim, em muitos casos parte da responsabilidade será deles e/ou das suas famílias e não vale a pena estar sempre a desculpar as pessoas só porque são pobres).

 

Finalmente, há um terceiro nível de análise, que não depende das circunstâncias concretas daqueles jovens londrinos e das suas famílias, e que passa por definir se pessoas com dificuldades económicas devem ser ajudadas pela comunidade e, em caso de resposta afirmativa, em que moldes. Franjas radicais exceptuadas, creio ser consensual da esquerda à direita que uma sociedade minimamente coesa e saudável tem de apoiar os seus elementos em dificuldades. É uma questão de ética e de bom senso (de segurança, se preferirem). As dificuldades prendem-se com saber identificar esses elementos, estabelecer (ou não) condições para a ajuda e definir montantes mas também formas de a prestar (descontos no acesso a bens e serviços, entrega de géneros em vez de apenas dinheiro, etc). Sendo este um debate complexo, em que a esquerda tende a ver como positivo o aumento dos apoios sociais e a contestar dúvidas sobre o merecimento de algumas pessoas que os recebem, permitam-me algumas notas:

a) Na sequência dos problemas orçamentais, em grande parte atribuíveis ao crescimento exagerado das próprias despesas sociais nas últimas décadas, cortes são inevitáveis, por muitos impostos extraordinários que ainda possam vir a inventar-se, incidindo sobre os ricos, os remediados ou os canídeos de porte altivo;

b) A única forma de melhorar as condições de vida da generalidade dos cidadãos (numa perspectiva materialista, que é aquela com que quase toda a gente se preocupa) é através do crescimento económico;

c) Um Estado que precisa de muito dinheiro para obras, empresas e institutos públicos de utilidade duvidosa dificilmente terá dinheiro suficiente para fazer justiça social sem afundar a economia;

d) O dinheiro gasto em apoios sociais gera algum consumo mas muito pouco investimento (isto é, os subsídios sociais –  e, na realidade, não só os sociais – pouco ajudam o crescimento económico);

e) Os apoios sociais são sempre uma transferência daqueles que poupam (ou seja, daqueles que ainda têm dinheiro disponível para entregar ao Estado) para aqueles que não o fazem (e não se trata necessariamente de uma questão de falta de recursos à partida: imagine-se uma família de classe média atolada em dívidas e que perde tudo – deve ser ajudada da mesma forma que uma família que, apesar dos seus esforços, nunca conseguiu ganhar o suficiente para chegar a ter hipótese de poupar o que quer que fosse?);

f) Com ou sem ameaça de violência nas ruas, smartphones e ténis de marca não constituem bens de primeira necessidade;

g) Aqueles que, mesmo ganhando pouco, trabalham e pagam os impostos que legalmente lhes são exigidos sentem-se com frequência explorados (de forma tanto mais intensa quanto mais altos forem os impostos) por quem parece viver, muitas vezes tão bem ou melhor do que eles, sem mexer uma palha;

h) A raiva das pessoas referidas na alínea anterior também dá azo a uma situação potencialmente explosiva; o crescimento dos partidos de extrema-direita em vários países europeus devia servir-nos de aviso.

 

Conclusão? Uma muito simples: é importante procurar que toda a gente tenha um mínimo que lhe permita viver com dignidade (o que provavelmente não incluirá iPhones) e, acima de tudo, que tenha oportunidades de melhoria das suas condições de vida (através de acesso a estudos e de uma economia que cresça) mas a ameaça de violência não pode levar-nos a pagar chantagens, até porque ao fazê-lo estaríamos a abrir a porta a consequências económicas e sociais no mínimo tão assustadoras como as que estes jovens, sejam meros ladrões ou utópicos revolucionários, podem despoletar.

Cortar cabeças

por Pedro Correia, em 11.08.11

 

O Renato Teixeira, parafraseando um antigo defesa do Sporting de Gijón (diz-me que pensadores citas, dir-te-ei quem és), proclama: «O que tem que [se] fazer é ir aos bancos e queimá-los, cortar cabeças.»

Há qualquer coisa de vampiresco nesta sede de sangue do 5 Dias. Mas tenho uma má notícia a dar aos Robespierres de pacotilha que se empolgam com os brutais actos de vandalismo no Reino Unido: quem morreu foram imigrantes asiáticos. Gente sem bancos, excluindo os bancos de jardim.

Se temos de "compreender" alguém em Londres, Manchester, Liverpool e Birmingham, comecemos por compreender as vítimas desta cascata de violência, injustificável seja sob que pretexto político for. São as de sempre. Os pobres.

Foto: The Independent

XY

por José António Abreu, em 11.08.11

Pergunta de algibeira: por que será que estes «manifestantes» que partem montras e saqueiam lojas em nome de mais justiça social são quase todos do sexo masculino? As mulheres não sentem problemas similares, talvez piores?

 

Pista: pela mesma razão que também não se vêem muitas mulheres nas claques de futebol que vandalizam áreas de serviço em nome de um clube.

Vaidade

por José António Abreu, em 10.08.11

Quando sabemos que não valemos nada, só mesmo jogar à roleta russa com a morte é que pode satisfazer a nossa vaidade.

Don DeLillo, Submundo. Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.

 

Mas há quem lhe chame outras coisas. Desejo de justiça, por exemplo. E, claro, a culpa de não valermos nada (ou, mais exactamente, de pensarmos não valer nada) é sempre alheia. Dos nossos pais, dos nossos professores, do governo, de realidades difusas como a globalização, de pessoas tentando defender as suas lojas.

Que tudo mude para que nada mude

por Pedro Correia, em 10.08.11

Na Síria, organizações de direitos humanos contabilizam já 1700 mortos desde o início do levantamento popular contra o ditador. Nada que mereça, por cá, uma só palavra da extrema-esquerda incendiária: ao 5 Dias apenas interessa ver Londres a arder. "É preciso que a destruição seja total!!", berra o professor Vidal, o maior esbanjador de pontos de exclamação da blogosfera portuguesa. Assad, o titular de uma dinastia sanguinária que oprime os sírios há meio século, é um gajo porreiro para estes mecos: "criminoso" é Cameron, eleito por voto popular. E há já mesmo quem pretenda ver Portugal transformado numa "nova Inglaterra" - desde que não lhe queimem a casinha, o carrito e a magra biblioteca, presumo.

Estes pequeno-burgueses excitam-se sempre que vêem uma viatura a arder, imaginando um Jean Valjean munido de BlackBerry em cada pilhador de subúrbio numa grande cidade europeia. Ao lê-los, vem-me à memória uma frase de J. G. Ballard: "There's nothing like a little violence to tone up the system."

Pura verdade. Sem necessidade de ponto de exclamação algum.

 

ADENDA. O Sérgio Lavos diz aqui praticamente o mesmo por outras palavras: "Os motins são escaramuças inúteis, improdutivas, que apenas poderão ter como consequência um reforço da legitimidade de uma sociedade que discrimina e guetiza parte dos seus cidadãos." É óbvio.

Da revolta

por José António Abreu, em 09.08.11

A destruição é atraente. Ver carros desfeitos e prédios a arder. Uau. Qualquer justificação é desnecessária, excepto a oportunidade. Subitamente, pode-se fazê-lo. Talvez não se deseje matar alguém mas não se pensa nisso. Se acontecer, acontece. E se for um polícia, nem conta. Dificilmente os polícias podem ser considerados «alguém». São o factor de risco. O acréscimo de adrenalina. Os filhos da puta e os soldados dos filhos da puta. São a justificação formal, juntamente com a sociedade de consumo, o capitalismo, a injustiça social. Não importa. O que importa é deixar marca. Destruir coisas. Ver prédios a arder e saber que se fez aquilo. Uau. Duplo uau. É a coisa mais fantástica que já se fez na vida – a mais fantástica que provavelmente alguma vez se virá a fazer (mas não se pensa nisso; o futuro é uma entidade abstracta que nada significa). A emoção de ser um fora-da-lei, de conseguir deixar zonas da cidade a ferro e fogo, de obrigar toda a gente a prestar atenção e a borrar-se de medo. E ainda de ver especialistas na televisão e nos jornais explicando que há motivos válidos para os actos. Que estes são cometidos por pessoas que devem ser ouvidas. Que têm ideias. Uau. Fucking uau.

 

Mas já agora, que estamos numa de vandalizar e assaltar lojas, que sejam de material electrónico, de modo a poder levar-se para casa um iPad ou uma PS3. No fundo, é o que verdadeiramente se deseja.

Mais trinta cidades que jamais esquecerei (IX)

por Pedro Correia, em 21.07.11
  LONDRES
"Quem está cansado de Londres está cansado da vida."
(Samuel Johnson)


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