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Alerta de terrorismo: mais um lobo solitário

por Diogo Noivo, em 22.06.16

BrusselsEPA.jpg

 

Para J.B., o Ocidente é um alvo a abater. Trata-se de um mundo de hedonismo, divorciado dos valores que estruturam as sociedades puras e justas. O Ocidente está confortavelmente deitado nos braços da promiscuidade sexual e do consumo rápido, fácil e acrítico, um espaço onde a indecência vagueia com um à vontade mefistofélico. Perante tamanha ignomínia, o exercício de crítica é timorato e confunde-se com complacência. A J.B. não lhe restava outro caminho que não fosse a mais elevada forma de sacrifício: oferecer-se como mártir, levando consigo o maior número possível de vidas imorais. Contudo, foi detido a tempo pela polícia belga. Quando analisaram o engenho explosivo que levava à cintura, os elementos policiais depararam-se com um novo e grotesco instrumento de terror: sal e bolachas. Sim, leu bem. Este jihadista pretendia rebentar o mundo que odeia usando sal e bolachas. A candura idiota deste indivíduo transporta uma carga cómica capaz de ressuscitar os grandes nomes do humor, de Benny Hill a Badaró.

 

A informação disponível é escassa, mas tudo indica que J.B. contactou as autoridades locais no início do mês afirmando ter contactos com organizações terroristas que o incentivavam a juntar-se às fileiras jihadistas na Síria. Mas nenhuma se perfilou para reivindicar esta admirável tentativa de atentado. Faltou o módico de competência que infelizmente não faltou ao alienado responsável pela matança em Orlando. É a rotina habitual na maioria dos casos de lobos solitários: indivíduos com sérios distúrbios mentais cometem actos de violência em nome de um terrorismo que não entendem e com o qual não têm qualquer relação. Se há um mínimo de mestria, há uma longa lista de organizações a reivindicar a barbárie. Caso contrário, o demente fica a falar sozinho.

 

O mais curioso nestes casos é que os detractores do Islão obedecem ao mesmo padrão de comportamento. Se há um mínimo olímpico de competência no atentado, mesmo que estejamos perante de um caso óbvio de psicopatia, são rápidos a rotular o Islão como uma fé de violência, de intransigência, de sectarismo. Os factos são acessórios para a defesa do seu argumento. No entanto, quando a inépcia do terrorista roça o absurdo, os militantes anti-Islão disfarçam a sua indignação, sendo incapazes de reconhecer que aquilo que é comummente designado como jihadismo pouco tem que ver com Islão e encerra realidades muito diferentes que não se prestam a leituras imediatistas.

Lobos Solitários e Aves Raras

por Diogo Noivo, em 15.06.16

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Omar Marteen, terrorista responsável pelo recente atentado em Orlando, nos Estados Unidos da América

 

À primeira vista, o terrorismo dos lobos solitários parece ser um inimigo formidável. Se o criminoso não pertence a qualquer organização, se age única e exclusivamente por conta própria, então é praticamente impossível às Forças e Serviços de Segurança identificar os sinais de alerta que permitem antecipar e impedir atentados.

 

Este quadro faz os encantos dos profissionais do “especialismo em terrorismo” que povoam o espaço mediático (e algumas universidades). Para estes “analistas”, cuja condição de “especialista” vive da existência e, sobretudo, da complexidade da ameaça, os lobos solitários oferecem uma passagem com destino à ribalta. Espontâneos nas suas motivações e na decisão de actuar, os lobos solitários são uma ameaça invisível até ao momento em que é demasiado tarde e, por isso, garantem ao “especialismo” horas nos plateaux de televisão, umas quantas páginas nos jornais e, com sorte, um convite para integrar um grupo de trabalho sob a égide de Sua Excelência o Ministro de-qualquer-coisa. Como não podia deixar de ser, este terrorismo voluntarista é para os “analistas” uma prova da omnipresença e, consequentemente, do êxito jihadista.

 

A realidade, como quase sempre, é mais ponderada e faz o favor de não complicar muito as coisas. Nunca se refere que a matilha de lobos solitários conta com um importante contingente de perturbações mentais e de inépcia. Aliás, parece haver por parte destes indivíduos uma obsessão pelo absurdo que, não fosse a barbárie dos actos cometidos, seria motivo de escárnio.

 

Veja-se, por exemplo, o caso do jovem Mohammad Taheri-Azar que, em nome de Alá, decidiu usar o carro para atropelar o maior número possível de colegas na Universidade de North Carolina. Em carta escrita na prisão, Taheri-Azar admitiu que preferia ter-se alistado nas fileiras de mujahideen a combater no Afeganistão e no Iraque, mas foi dissuadido pelas dificuldades em obter os vistos necessários. Admitiu igualmente que preferia ter usado uma arma de fogo na universidade, mas foi demovido pelo calvário burocrático necessário à aquisição de uma Glock. Como ironizou Charles Kurzman, Taheri-Azar terá sido o primeiro terrorista na História a ser dissuadido por políticas de controlo de armamento. Numa palavra, vaudeville.

 

O autor do atentado em Orlando parece encaixar no perfil de demência. Disse à polícia ser membro do Estado Islâmico, mas também de outras organizações terroristas, como o Hizbullah ou o al-Qaeda que, por mero acaso, são inimigos declarados do ISIS. Afirmou odiar homossexuais, embora fosse frequentador do bar gay onde levou a cabo a matança. Segundo testemunhas, Omar Mateen era um habitué do  bar em apreço, onde procurava companhia masculina, para além de ser utilizador de chats dedicados a encontros homossexuais. Em suma, se não fosse pela carnificina produzida, o autor dos atentados de Orlando não passaria de um imbecil com perturbações evidentes.

 

Aliás, verifica-se um fenómeno curioso na sequência deste tipo de atentados: se há um módico de competência – na óptica do terrorista, claro está – perfilam-se de imediato uma miríade de organizações a reivindicar o atentado; se, pelo contrário, a acção é trôpega, ninguém vem a terreiro. Com base na informação disponível, Barack Obama tem razão.

 

Se os lobos solitários nada têm que ver com organizações jihadistas e dado que a maioria demonstra um desconhecimento confrangedor sobre a causa pela qual afirmam lutar, é evidente que qualquer ligação entre isto e Islão é abusiva. A ameaça terrorista é real e deve merecer a maior atenção. Por isso mesmo é fundamental que saibamos indentificar os alvos. 


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