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Delito de Opinião

Na Feira do Livro

jpt, 30.08.21

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Como já disse, fui ontem à Feira do Livro. Atrevi-me a isso tanto para seguir a sugestão do Pedro Correia como para assistir à sessão de apresentação de um livro de amigo meu. Encontrei o recinto bastante animado, apinhado de gentes que espero terem sido (estarem a ser) boas clientes. A sessão a que assisti foi simpática, e nela encontrei algumas pessoas que não via há décadas e outras que não tenho o costume de ver. Depois percorri uma das alas da feira. Jurara que não compraria livros, pois vivo sob a pressão de uma tripla escassez: espaço nas estantes, capacidade de concentração e, sobretudo, papel-moeda. Como tal nada vasculhei, de facto deixando distraídos soslaios aos pavilhões e nada ansiosas grandes angulares sobre a mole humana: mas apenas reconheci um afamado ex-bloguista, com o qual convivi em Maputo. Mas, não tendo nada para dizer, eximi-me a ir cumprimentá-lo: é destes recolhimentos, silêncios, que é feita a velhice, já me dizia o meu pai António. Chamava-lhes, lembro-me bem, "falta de paciência". E nada louvava isso, ainda que o praticasse sem rebuço.

Ainda assim não resisti ao velho hábito de comprar livros, e disso deixo registo. Já perto do final da ala, em sentido descendente, atentei numa banca de monos - as que sempre mais atraíam quando era cliente habitual da Feira. E, ao preço de um euro cada, de lá trouxe estes três volumes da colecção ABC da Cozinha, editada por Bárbara Palla e Carmo (Abril/Controljornal Editora, 1999): Tudo Sobre Arroz, Tudo Sobre Peixe, Tudo Sobre Vitela.

Quando regressado a casa percebi que voltara contente.

Sair da Estrada, de Paulo Dentinho

jpt, 29.08.21

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(Paulo Dentinho, Sair da Estrada, Caminho, 2021)

Deste Sair da Estrada deixo apenas as minhas impressões, nada procurando fazer-lhe uma recensão. Nele está como se uma autobiografia do Paulo Dentinho, 30 anos mundo afora com recordações de reportagens em 13 países, algumas sendo trabalhos únicos, outras com visitas sequenciadas e ainda as resultantes de estadas prolongadas, como correspondente da RTP. Nestas 400 páginas ficou um retrato do mundo das últimas décadas, do qual algumas memórias tão significantes se vão esfumando dado o constante turbilhão noticioso: a atenção às guerras e seus efeitos nas nossas antigas colónias (Angola, Moçambique, Timor-Leste), ao início da que viria a ser a maior guerra africana (actual Congo), aos conflitos do sul europeu, com a crise grega, a dissolução da Jugoslávia e o já esquecido projecto de agregação da Turquia à União Europeia. E, claro, no omnipresente conflito do Médio Oriente (Israel, Líbano), nas ondas de choque pós-2001 (Paquistão, França), e nas refracções da que foi chamada "Primavera Árabe" (Síria, Líbia). 

Realço três dimensões que muito me agradam no livro. Conheci o Paulo Dentinho em Moçambique, e ali muito interagimos. Foi-lhe uma estada difícil, tendo saído do país sob uma incessante corrente de ameaças de morte (e recordei isso neste postal). Recordo-me muito bem desse período e afianço que o capítulo agora dedicado a essa época é mesmo fidedigno, diria mesmo que "sem tirar nem pôr". Mais, muito me lembro da ida em 1997 do Paulo ao então Zaire - logo após o frenesim profissional que ambos vivêramos na visita de Jorge Sampaio ao país - e de como ele a contava quando regressado a Maputo. Narrativa que está agora, ressuscitada, no livro. Presumo pois que nos outros 11 capítulos seja também assim, uma colecção de memórias sem quaisquer adornos, reconstruções embelezadoras ou engrandecedoras do autor ou das situações. 

Outro agrado é forma como o Dentinho apresenta breves enquadramentos das situações em cada país. Pois em nenhum momento se deixa tentar pelo diabo ensaístico, nessas habituais resenhas históricas com intuitos explicativos ou nas recorrentes deambulações sobre um qualquer fio condutor que explique a miríade de males do mundo, qual filosofia de história de pacotilha ou atrevido estipular de cadeias de causas-efeitos, esse pobre efeito sob verniz intelectual que nada mais é do que reflexo das agendas das causas em voga. Pelo contrário, ele dá-nos ágeis contextos do que se passava, bem inscritos no que lhe é fundamental: como trabalhou. Pois este é um livro sobre jornalismo. E nisso - e é este o meu terceiro agrado imediato - o Dentinho, profissional do audiovisual, veio, e sem qualquer "escritor-fantasma", com uma escrita lesta e veemente,  a prender-nos. 

O livro traz-nos o modo de trabalho em "grande reportagem". O Sair da Estrada, escapar-se aos hotéis internacionais onde pululam as informações padronizadas, oficiais e oficiosas, fugir ao asfalto (mais ou menos) seguro, arriscando-se, muito mesmo, nas vielas e subúrbios, pelas veredas e picadas. E nessas andanças encontrar o rumo das notícias, essas de abertura televisiva ou primeira página de jornal, mas também quem lá está, exulta ou sofre. E é muito desses que o livro fala, os que cruzaram o repórter e lhe possibilitaram o trabalho, vários intérpretes ou motoristas, quantas vezes quais pisteiros, colegas, alguns já tombados em acção, bem como uma ou outra colega mais cativante cujos vislumbres acalentaram dias difíceis e excitantes, até combatentes ou meros passantes. E tudo isso sem requebros de romance de correspondente de guerra mas num muito mais relevante "é assim!". E, acima de tudo, traz-nos os seus camaradas de percurso, os homens da câmara, sempre invisíveis no ecrã e treslidos no genérico, correndo os mesmos riscos - até mais, pois mais visíveis -, sofrendo as mesmas ansiedades, co-autores das reportagens. 

E nisto o livro torna-se não apenas uma memória para "contar aos netos" - para que os filhos o venham a ler, como se justifica o autor em entrevista. Mas um verdadeiro livro de cabeceira para futuros jornalistas - pois se a indústria está em crise, a reconfigurar-se, a vocação jornalística estará em crescendo. Nele não poderão os aprendizes receber o "como fazer" manualesco mas avisarem-se da necessidade do improviso, de seguir a intuição própria e perseguir o risco. O trejeito próprio. Com os quais o Paulo Dentinho seguiu ao longo das décadas, conseguindo belas reportagens - ainda me lembro de o ver com José Mattoso nas montanhas de Timor e rir-me num "só este gajo para tornar aventurosa uma pesquisa arquivística", episódio que aflora agora no livro. E entre elas algumas reportagens de eco mundial, raríssimos feitos na imprensa portuguesa, de facto no país apenas comparáveis em eco internacional a algumas conquistas no mundo do futebol, do atletismo ou, em modo mais discreto, da diplomacia.

Mas há um outro país presente ao longo do livro, o nosso, pois subjacente capítulo a capítulo. São várias as notas sobre a radical incompreensão, mesmo desrespeito, que os repórteres de terreno (e que terrenos!) vão sofrendo pelos colegas e administrações, estes apoucando (até desperdiçando) notícias e peças, desvalorizando riscos, efeitos do peso do "modo funcionário" que vigora. O que se traduz em coisas inenarráveis, por vezes fruto de ignorância mas outras sendo mera pesporrência: a equipa detida por milícias em sítio ermo, o repórter telefonando para a RTP identificando o líder da  patrulha que os prende e deste lado recebendo um enfastiado "que é que queres que eu faça com isso?"; ou a equipa preparada para o sacrossanto "directo" no telejornal das 8, sita em local fustigado por fogo algo errático e esperando que decorra a cinzenta agenda dos "passos perdidos" (ouvir, sob fogo há meia hora, "aguenta mais um bocadinho, que o Jorge Lacão está a falar" é de bradar aos céus!), entre tantos outros desaforos e até malevolências. Um contexto laboral que leva o autor a desabafar, entre outros trechos similares (e dolorosos de ler): "Apetece-me vociferar contra estes tipos que construíram as carreiras quase sem fazer uma única reportagem. O único risco deles é gerir favores, fazer salamaleques aos poderes para se irem mantendo de direcção em direcção. Pobre país o meu." (62).

O livro termina no 2015 parisiense, no ataque ao Charlie Hebdo e subsequente captura dos terroristas, emotivamente narrado. Dentinho associa-o, como tem de ser, à perseguição ao dinamarquês Jylland-Posten em 2006, numa total defesa, sem rodeios nem escusas, da liberdade de imprensa, do humor, da blasfémia, dos que fazem "a provocação sistemática de tudo e todos, da extrema-direita aos meios católicos, dos políticos em geral aos jornalistas. "Rire, bordel de Dieu!" contra a apregoada "razão de Estado", agora dita multiculturalista pois respeitadora, sempre desejosa de controlar a imprensa, de facto "uma engrenagem em que a primeira etapa é a autocensura e a última a capitulação" (399). Gosto muito deste final, de cabeça erguida no meio do terror fanático e do censório "democrata". E ainda mais porque vem do Paulo Dentinho, homem de esquerda neste nosso país em que essa tal esquerda no último ano apoiou para Presidente da República uma candidata que reiteradamente atacou essa liberdade, apoucando de modo até soez as vítimas do terrorismo fanático. Esquerda essa que também propôs para o Tribunal Constitucional um candidato que segue a mesma mundivisão, dizendo serem iguais os fundamentalistas terroristas e os artistas/jornalistas democratas. Sem que tal cause qualquer repúdio, mero sobressalto que seja, no seio do tal "modo funcionário" de pensar e actuar, tão dominante este segue.

Os últimos anos já não surgem no livro. Dentinho foi director de informação da RTP [repito-me, escrevo sobre ele e esse processo excêntrico neste postal]. Os postos de chefia não são eternos e ele foi substituído - disse-se que por desconforto da comunidade futebolística devido a um postal seu no Facebook. Mas ninguém disse na época que o desconforto da malta do futebol, de Lisboa e Porto até La Valleta, advinha da sua imediata oposição a outras futebolices. Enfim, ele seguiu o seu rumo, menos agitado desde então. Com o seu renome ainda conseguiu um "furo" (como antes se dizia), uma entrevista a Lula da Silva, então preso. Lá foi, mas privado de um homem de câmara, e para in loco se deparar que lhe tinha sido atribuído um material de recolha audio e visual... danificado. Enfim, o tal "modo funcionário" mau demais, sempre capaz de surpreender pela... negativa.

Ou seja, se o Dentinho passou 30 anos a Sair da Estrada está agora fora da estrada, emprateleirado. Tem o programa "Mundo sem Muros", convenientemente alojado na noite longa da RTP3 (e na RTP Play, claro). Nele se fala sobre o mundo. Ali ele não entrevista políticos no activo, travestidos de "comentadores", nem ex-políticos feitos correias de transmissão de órgãos de soberania, partidos políticos ou grupos de interesse, nem tão pouco académicos catedráticos de "Tudologia". Pois ali o Paulo Dentinho aborda as situações do mundo, sentando-se com .... outros colegas, correspondentes. Faz jornalismo, com jornalistas, como jornalista. E, acima de tudo, como um homem livre.

Paulo, o livro ficou bom. Espero que os teus filhos o venham a ler, como desejas. E que a minha filha o faça. E que os jovens jornalistas e os ainda aprendizes o leiam, inebriando-se até, se possível. E sonho que alguns dos da nossa geração o façam. Entusiasmando-se com o teu meneio nas letras. Divertindo-se com as memórias das nossas vidas que nos trazes. E, ainda mais, que um ou outro de nós te possamos ler, homem livre que seguiste e continuas, concluindo: "como acabei assim?!". E que nisso, nessa amargura, possamos melhorar um bocadito, fazer por aligeirar a nossa canga. Graças a ti.

Enfim, Dente tens estado bem. E no livro estiveste mesmo bem. Abraço.

Cidade Suspensa

jpt, 23.08.21

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, Lisboa 2020)

No início de Março de 2020, mesmo que nos poderes fácticos ruminassem ainda os flâneurs flanantes, muitos de nós - angustiados com o que se passava nos países vizinhos - nos apressámos a retirar os petizes das escolas e a encerrá-los em casa, enquanto começávamos a evitar os avoengos. Em meados do mês o governo cedeu à evidência e declarou o confinamento - enfim, o Primeiro-Ministro haveria depois de proclamar que isso nunca existira mas essa sua proposta de "narrativa" não teve sucesso.

Fechámo-nos então todos em casa - com as consabidas excepções laborais -, desvanecendo o bulício de cidades e vilas. E logo no dia seguinte saiu à rua o Miguel Valle de Figueiredo, diariamente a fotografar o vácuo humano que o circundava. Calcorreou Lisboa e fez este "Cidade Suspensa", grande livro em formato de bolso, colecção de fotos a preto-e-branco, essa cor do silêncio. Guardou assim a memória da confinada Baixa monumental, do seu Tejo então desguarnecido, com vislumbres das míticas colinas e laivos dos bairros antigos ainda de tez popular, aquilo que sempre nos surge como o identitário da grande Lisboa e do vetusto alfacinha. E a das avenidas em tempos "novas", esse restos sempre apreciados do Estado Novo, tal como a da marca d'água desta II República, as fileiras de edifícios de serviços e as plataformas de transportes. Todos esses sedimentos da cidade unidos pela escassez de gente, tal como os diferentes templos, estes numa ecuménica solidão. Mas também aos lisboetas o fotógrafo perseguiu, mostrando-nos que não estavam eles desaparecidos, devastados, mas apenas acoitados, assomando às varandas, resistindo sarcásticos (decerto que ficará lendária a sua fotografia do lençol pendurado clamando "My husband is for sale"). Demorando-se, cruzou os parcos transeuntes nos seus inadiáveis, submersos nestas máscaras sanitárias, então polémicas, feitas veros cabrestos das almas. Bem como as restantes crianças ainda assim brincando. E, porque de saúde tanto se falava, fixou alguns desportistas a solo. Trouxe ainda médicos e enfermeiros afadigados, esconsos pois no securitário exigido, além de trabalhadores avulsos num desapoiado vai-e-vem pedonal, ainda mais exaustos do que no antes desta toda angústia. Foi assim em Março e Abril de 2020, durante a unânime suspensão. E termina o livro no 1º Maio, na visão da encenação pública da Alameda, pobre festa que tão resmungada foi, quando a tal momentânea congregação se cindiu.

Passou já um ano e meio sobre este início. E naquela época não se esperaria que tudo isto demorasse tanto tempo. Foi uma cesura, no tempo. Mas, mais do que tudo, nos ritmos. Nas nossas mentes, até bem mais do que nos hábitos, e quanto estes mudaram... Cesura que tanto perdura. Releio este livro, refolheio-o. E diante do preto-e-branco, de todo aquele silêncio que ecoa nas páginas, parece-me que urge cerzir o tão esgarçado. Pois, de facto, e por muito que o tenhamos alvitrado ou mesmo sonhado, nada de épico aconteceu.

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Cidade Suspensa: Lisboa em Estado de Emergência, Miguel Valle de Figueiredo (fotografias), Bruno Vieira Amaral (texto), Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020.

 

 

 

 

(Com este postal comecei no  meu blog uma série sobre os meus "livros do covid". Como vem aí a Feira do Livro deixarei também aqui no DO alguns desses postais, que nada mais serão do que "apelos à leitura" desses livros com os quais dialoguei sobre esta era).

Sobre o Afeganistão

jpt, 18.08.21

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Sobre esta coisa do Afeganistão deparo-me com vários conhecedores da situação. Desde um ex-deputado e agora candidato em Loures pelo BE que surge no reflexo típico de culpabilizar o Ocidente, cujos governos "bombardeiam (...) governos progressistas". Para outros - decerto que "progressistas" - aquilo é ab ovo culpa dos EUA, pois descobrem que estes apoiaram a guerrilha anti-soviética [note-se que há um já velho filme sobre isso, "Charlie Wilson's War" (Jogos do Poder) com o actual Jimmy Stewart, o grande Philip Seymour Hoffman e a divindade Julia Roberts, não estando assim estes investigadores a dar-nos grandes novidades]. Mas nenhum desses aborda os motivos da invasão soviética, decerto que por os considerarem irrelevantes.
 
Muitos, até não interseccionalistas, lamentam o destino das mulheres afegãs - mas poucos (não leio sequer um) se preocupa com a gente afegã qual eu. Outros, mais interseccionalistas e nisso paladinos da etnicização de Portugal e restante pérfido Ocidente, anunciam que o decadente governo afegão pró-ocidental descurou uma etnia (os pastós), deixando assim entender que a etnicidade é algo problemática, mas estarão certos que apenas nos longínquos vitimizados transeuropeus. Outros ainda, que leio há anos defendendo o status quo luso, apontam que a derrocada do poder de Cabul se prendeu a ter sido muito corrupto, assim anunciando que - decerto que apenas fora de Portugal - a corrupção estatal enfraquece as vias democráticas. E outros ainda, de recorte mais intelectual, concluem que os ocidentais nada percebem sobre o Afeganistão.
 
Continuo a crer que está (quase) tudo nos livros, e só lamento não ter a militância, a disciplina e, acima de tudo, a inteligência para ler o que me falta e, acima de tudo, reler o que me fez. Enfim, daquilo que me passou pela frente deixo um aviso e uma memória: o aviso, superficial, é sobre o que virá aí naquelas bandas. Será de ler "As Novas Rotas da Seda" do Frankopan. Quem o ler poderá fazer postais no FB, e nos blogs. E, alguns, até irão à TV botar faladura.
 
A memória, que é a coisa importante: está tudo no "O Americano Tranquilo" (há várias edições portuguesas) de Graham Greene (1955). Li-o aos 16 anos e descobri-me Thomas Fowler. Não como alter ego, como acontece nas leituras juvenis. Mas como reconhecimento, num "eu sou este gajo". Ainda hoje me surpreendo como me conheci tão cedo. Reli-o três vezes até aos 25 anos e não mudei de ideias. Depois aos 40s e sorri, na comprovação desse reconhecimento. Quando for à capital, às estantes do meu pai, relerei de novo, agora quase aos 60, usando este exemplar paterno, aquele com o qual descobri Fowler (jpt). Não me dará para postais de FB ou de blog. Mas, claro, e como sempre, dá-me para encolher os ombros diante dos convictos a la carte.

O assassinato nunca prescreve ("Mord verjährt nie")

Cristina Torrão, 30.04.21

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No passado dia 17 de Abril, o canal alemão ZDF transmitiu um policial sobre a tentativa de resolução de um assassinato acontecido há trinta anos ("30 Jahre", no texto em baixo).

 

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Tratava-se de um telefilme, mas, na Alemanha, investigações deste tipo não são ficcionais. O assassinato nunca prescreve. Sobretudo, quando existem meios de identificar um assassino, mesmo passada uma eternidade sobre o crime (como a descodificação do ADN). Já em Portugal, não se investiga um assassinato que tenha ocorrido há quinze anos ou mais. Porque, se os crimes não prescrevem, a possibilidade de instauração ou continuação de um processo penal ou ainda, noutros casos, a execução da sanção aplicada, prescrevem.

 

Vem isto a propósito de mais um policial de Mario Lima, o pseudónimo de um escritor alemão que vive em Portugal e do qual já aqui falei. Neste seu terceiro livro, cujo título Die Mauern von Porto é um pouco difícil de traduzir (talvez “Emparedadas no Porto”), ele ocupa-se precisamente com a prescrição de um assassinato.

 

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Um incêndio num prédio do Bairro da Sé, mais precisamente, na Rua da Bainharia, provoca estragos numa casa ao lado, vazia há várias décadas. Bombeiros e polícia penetram na casa, a fim de melhor avaliarem os estragos e, na mansarda, deparam com uma parede que, tudo indica, foi levantada à pressa e não tem qualquer passagem para o resto da divisão. Resolve-se mandar deitar a parede abaixo e surgem dois esqueletos, um deles ainda com restos de roupa.

 

A PJ é accionada e os exames de peritagem revelam tratar-se dos restos mortais de duas mulheres, mais precisamente, de uma adulta e de uma jovem de treze ou catorze anos. Porém, quando a equipa do inspector Fonseca se prepara para investigar o caso, a peritagem revela ainda que, apesar de os restos mortais indiciarem morte violenta, o crime terá acontecido há cerca de vinte anos. É um duro golpe, principalmente, para as duas investigadoras da equipa, que logo suspeitam que se trataria de mãe e filha e são firmes no pressuposto de que a culpa nunca prescreve.

 

Nunca me tinha ocupado do assunto e confesso que não sabia que um assassinato prescreve ao fim de quinze anos. O que são quinze anos? Nada! Neste livro, através de uma agente que é inserida na equipa do inspector Fonseca depois de ter trabalhado no departamento de combate à corrupção, o autor aflora ainda a prescrição de crimes de corrupção, alguns já ao fim de dois anos, assim como o enriquecimento ilícito de pessoas à frente de uma Fundação. E não é esquecido o facto de estas leis favorecerem os poderosos e os ricos, que, além de terem influência, estão em condições de contratarem advogados capazes de protelarem a investigação, até que os crimes prescrevam. Como se vê, Mario Lima aborda um tema bem actual. Já por isso, se aconselha a tradução deste seu livro.

 

A equipa do inspector Fonseca vai ser dada enfim a possibilidade de encontrar o culpado, pois um crime perpetrado há um tempo não tão longo assim despoleta acontecimentos fatais. O assassino fica nervoso com a descoberta dos esqueletos das suas vítimas. E há quem ainda não tenha digerido o desaparecimento de duas familiares, embora lhe tenha sido dada uma explicação plausível para a ausência delas. Porém, há sempre dúvidas que não se esclarecem, causando discussões, chantagens. E, numa hora de aperto, um assassino bem pode cometer novo crime...

 

Excelente policial de Mario Lima, que criou uma bela equipa de investigadores da PJ e que, como de costume, descreve na perfeição a atmosfera da cidade do Porto.

 

 

Adenda: o post estava programado há alguns dias e soube hoje, dia 30/04, que o ZDF vai transmitir um documentário, às 00:30 horas, sobre novas técnicas de investigação criminal, apresentando o exemplo de um especialista em ADN que ajudou a localizar o assassino de um rapazinho desaparecido em 1996.

Enamorada

Teresa Ribeiro, 28.04.21

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Há livros pelos quais nos apaixonamos e que lemos já não com prazer, mas com volúpia. Adiando no último terço o seu desfecho, sofrendo por antecipação o momento em que temos de os devolver à prateleira. Com "Coração Tão Branco", senti um desses enamoramentos - para citar outro título do autor, o espanhol Javier Marias. Dele li com entusiasmo outros títulos. Todos me revelaram talento para urdir enredos e construir  personagens complexas, que página a página se retratam, num striptease delicado. Mas este romance, amplamente premiado, coloco-o no meu pequeno altar privado, porque me revelou o que eu sabia e não sabia, mas por palavras que jamais conseguiria juntar, tal a subtileza, inteligência e elegância da escrita. 

 

Estou para aqui a falar de forma, mas o conteúdo é o melhor. Passo a citar:

"Guarda silêncio quem já tem alguma coisa e corre o risco de a perder ou está prestes a conquistá-la";

"Há muitos homens que julgam que as mulheres têm necessidade de se sentir muito queridas e aduladas, inclusive mimadas, quando o que mais nos interessa é que nos entretenham, isto é, que nos impeçam de pensar demasiado em nós próprias. Esta é uma das razões porque costumamos querer ter filhos";

"Abdicamos da linguagem da infância, abandonamo-la por ser demasiado esquemática e simples, todavia aquelas frases descarnadas e absurdas não nos abandonaram por completo, mas subsistem nos olhares, nas atitudes, nos sinais, nos gestos e nos sons".

 

A tentação é continuar, mas chega. São bons exemplos do que o autor consegue fazer. Através das personagens introduz com habilidade inúmeros pontos de reflexão e vai fundo, nós a reboque, inebriados pela sofisticação musical de cada frase. 

Sim, estou enamorada, mas não sou egoísta e partilho: se não leu este romance que Javier Marias escreveu em 1992, ainda vai a tempo.

O "Babygro" político: Marcelo Rebelo de Sousa

jpt, 17.04.21

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(Postal também colocado aqui)

Artur Portela (durante décadas conhecido como Portela Filho) morreu há pouco. Das minhas estantes paternas recuperei-lhe alguns livros, em particular estas colectâneas "A Funda", belo mostruário da década de 1970. Deste quarto volume (Editora Arcádia, 1974) retiro este texto, de Janeiro de 1974, um elogio a Marcelo Rebelo de Sousa. Será interessante 47 anos depois não só ler a memória daquele final do Estado Novo, mas também observar o actual presidente a partir deste texto:

O "babygro" político

Era o filho pródigo do Regime. / Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico. / Estava talhado, calibrado, destinado. / Não era um acidente - era uma raça. / Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam com um olhar terno. / Era Marcello. / Era Rebello. / Era De Souza. / E, excessivamente, Nuno.

Foi o escândalo. / Foi o escândalo quando ele, recusando sob Martinez, a reprise, rechaçando, sob Dias Rosas, a tarimba, apareceu por sobre o ombro Pestana & Brito de Francismo Balsemão, a espreitar. / Era a fronda do Expresso. / Não quiseram crer. 

E, no entanto, era bem ele, a vivacidade Tim-Tim, a barba Trotsky, o olhar Harold Loyd. / E o riso fácil, a voz estaladamente metálica, a inteligência extravasante, o brilho incontrolado. / O próprio excesso. / O Regime empalideceu. / A Esquerda riu. E a 3ª Força, ela mesmo, sentiu, naquele Gotha revoltado, naquela lei de  Mendel às avessas, naquela Divisão Azul, um compromisso, uma má consciência, um lastro, uma trela. / Um chumaço. / Uma bala de madeira. / Uma injustiça.

Esperava-se uma imoderação. / Foi uma táctica. / O Regime habituou-se àquela perda. A Esquerda, um momento desperta, mergulhou na sonolência da sua dor. / E os próprios Liberais, por instantes irritados com o metal daquela voz, com a velocidade daquela análise, com a fome daquela super-alimentação política, soltaram, de alívio, um suspiro quando ele se sentou, Z. Zagallo, atrás de Francisco Balsemão.

De resto, que podia Marcello Nuno perante as figuras colossais dos campeões liberais? / Do Norte, chegava, moralmente gigantesco, Sá Carneiro. Do Sul, assomava, consciência viva da Universidade, Miller Guerra. João Salgueiro lançava, para a mesa, na sua luva, o peso inteiro da Sedes, Magalhães Motta movia todo um Congresso. Xavier Pintado desembaciava, do bafo do poder, as suas lentes poderosas. E Francisco Balsemão, de uma rotativa renitentemente Lopes do Souto, arrancava esse "tour de force" que eram 70 000 cópias do "Expresso".

E quando, de trás, da sombra, Marcello Nuno, lápis trémulo, soerguia uma qualquer sugestão, corria, em redor da mesa, um sorriso paternal. / Parecia ser o fim das mais belas esperanças. / O Regime enxugou, por ele, a sua última lágrima. / Fora o príncipe - era o pobre.

Como foi que aconteceu - sabem-no poucos. / Os Liberais, por instantes sob o fogo dos projectores, apagam-se. Um a um. Como lâmpadas de uma peça proibida. / Sá Carneiro é já um bronze a si próprio. A Sedes converte-se num Rotary de quadros. Magalhães Motta está pulindo, inutilmente, a tabuleta de advogado. Xavier Pintado perde o fôlego. E Francisco Balsemão faz Porsche.

Vai-se a ver - e quem está? / Está - quem o diria? - Marcello Nuno. / Só ele se move. Só ele existe. Só ele manobra. / Ele é, nas eleições, a única carta nova dos liberais. O seu único talento. A sua única voz forte e original. A sua única manobra. 

A 2ª página do "Expresso" é ele. A 3ª página do "Expresso" é ele. É ele que flirta com  a Oposição. É ele que desmantela aquele barão A. N. P. / Os títulos são ele. / Os itálicos são ele. / A manobra é ele. / Sá Carneiro faz grandeza. Miller Guerra faz pitoresco. Francisco Balsemão faz charme. / Marcello Nuno faz política.

Há, em tudo isto, a inteligência descompassad da imaturidade? / Há. / Há, em tudo isto, o intelectualismo, a abstracção, o jogo, o luxo, o revanchismo, o edipismo? / Há. / Há, em tudo isto, Freud e Júlio Verne, Luís XIV quando jovem e Douglas Fairbanks Júnior, José António Primo de Rivera e Mickey Rooney? / Há. 

Mas como é possível que a 3ª Força não tenha envergadura para absorver esta descarga eléctrica, para sublimar este escândalo de qualidade, para disciplinar este brilhantismo avulso e lúdico? / Não tem ela a sua disciplina ideológica, a sua hierarquia moral, a sua separação de poderes, o seu ministério sombra, a sua escrita em dia, a sua poeira assente, o seu espírito de seriedade, a sua mochila, o seu colete, o seu polimento? / O seu primeiro jovem turco vai logo a Ataturk? / Que é isto - uma força ou um terreno vago?

Os Liberais acabaram? / Não necessariamente. Mas já fizeram a sua adolescência histórica. / E ainda não sairam dela. / Isto que prova? / Prova que a 3ª Força é a impaciência da 1ª Força. / Prova que a política não é apenas uma generosidade mas também uma hereditariedade. / Prova que a vida política portuguesa se conta pelos dedos - e que a 3ª Força tem o seu Pulgarzinho. / Acontece com Marcello Nuno esta coisa cara aos monárquicos - a vocação política como bem moral de raiz. 

O pai Miller Guerra ofereceu ao filho Miller Guerra, talvez, um estetoscópio de brinquedo. / O pai Sá Carneiro ofereceu ao filho Sá Carneiro, talvez, uma toga de ganga. / O tio Balsemão ofereceu ao sobrinho Balsemão, talvez, uma rotativa de latão. / A Marcello Nuno deram, talvez, 99 000 quilómetros quadrados de esperança e dez milhões de bonecos de pasta. / É o que se chama - um "Babygro" político. 

Tem ainda outra vantagem. / Decisiva, essa. / O ser meu amigo. / E, claro, meu adversário.

Nota: Troquei os parágrafos utilizados pelo autor pela barra ("/") apenas para tornar o texto menos longo no suporte de blog.

 

A história do bloguismo em Portugal

jpt, 06.03.21

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Atento amigo avisou-me da publicação deste "A Blogosfera Portuguesa: Da Coluna Infame ao ocaso de uma era", de Sérgio Barreto Costa, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, sob o aprazível preço de 3,15 euros. E convocou-me para a conversa promocional, anunciada com o (desagradável) título "Os blogues morreram. E ninguém os avisou?". Muito me interessou a publicação.  E também a sessão pública, a qual encetei, um debate telemático com a presença do autor, de Araújo Pereira e de Vasco M. Barreto, o qual ostenta o oficioso e prestigiado título de Bloguista-Mor olivalense (distinção que aqui explicito pois ciente da prévia permissão concordante do ínclito Apenas Mais Um). 

Se parti com interesse devido ao tema do livro, mais rápido ele floresceu dado que a moderadora, Catarina Carvalho, apresentou a obra como uma "antropologia moderna" sobre o bloguismo. Como  bem compreenderão os amistosos leitores - e mesmo os alguns caústicos comentadores - sendo bloguista veterano, assim um verdadeiro zombie à luz do ali anunciado, e antropólogo (outro avatar de zombie, diga-se, ainda que este académico), não pude resistir e decidi adquirir a obra.

Assim, e desenfiando-me da querida comunidade co-confinada, numa alvorada escapei-me do intra-muros militante que nos vem protegendo das intempéries virais. E avancei até ao Pingo Doce vizinho deste ermo Nenhures em que me acoito, convicto de que ali se vendem os livros publicados pela fundação da empresa. A diligente, simpática (e bem apessoada) funcionária com a qual me lamentei da minha incapacidade senil de encontrar o adequado escaparate logo se dirigiu ao armazém. Do qual regressou abraçando uma caixa de livros, lamentando-se pois "não há nada novo", "não temos recebido nenhuns..." e até desculpando-se "os livros estavam ali desde que foi proibido vendê-los". E assim continuou, demonstrando até agrado com este belo geronte (eu mesmo, jpt) que perguntava por tais produtos, mania aparentemente inédita na clientela regular. Enfim, não só compreendi como bem aceitei a situação, consciente da distância que aparta este Nenhures da capital dos ex-bloguistas cultos e leitores - para cima de uns árduos 40 kms de alcatrão liso... e plano.

Regressei ao cercado, resignado a que lerei o livro quando as restrições vigentes forem amansadas e então me for possível, mesmo exigível, avançar até à capital - urbe onde é até aceitável encontrar livros à venda. E assim, neste por enquanto, fiquei restrito a esta introdução do livro sobre o bloguismo luso. Enfim, "a ler vamos", com toda a certeza. E desejo que os afortunados da "cidade grande" possam comprar e, até, ler o livro (mas não o esgotem antes do desconfinamento, por favor).

Entretanto, pois impregnado de presunção e água-benta, e porque a obra aborda a história do bloguismo em Portugal, lembrei-me do meu primeiro texto no Delito de Opinião. O qual foi um voo de pássaro sobre este assunto, escrito em 2010 (!) quando vivia em Moçambique e de lá algo estupefacto olhava para este tudo isto pátrio - e assim continuo, afianço. E que aqui botei como convidado, numa bela série de convites a bloguistas que o Pedro Correia animou. Repito-o, até porque é fim-de-semana (ainda de confinamento):

The Clash

Agradecer ao Pedro Correia este convite para escrever para o Delito de Opinião não é protocolo. É contexto do que se segue. Pois mesmo que blogo-veterano isto de meter algo num grão-blog, como o DO se tornou - o único dessa mole que consumo diariamente -, levanta logo aquela velha questão, até de algum stress, do "o que dizer a estes tipos?" - os muitos, e nisso louváveis, aqui leitores.

Pois nisto do blogar, botar algo de modo quase quotidiano, treme o emigrado. Deverei procurar um requebro semitropical?, uma ponte intercontinental?, um daqui "estamos juntos"? um voo rasante sobre o onde vivo? Ou restrinjo-me à parca política lusa? E nesta hesitação, até pobreza, pessoal e mental, é o cidadão que vou convocando, sai-me texto sobre o aí Portugal, o aí da política, tanta “espuma dos dias”, tanta mera baba, espúria, na volúpia do opinar. Esse aí de que há anos vou sabendo, maioritariamente, por via dos blogs - se exceptuando a fértil actividade futebolística. Por isso boto hoje sobre blogs, esse "espelho da nação", pelo menos para alguns.

Longe vão os anos 2003-4, quando a gente apareceu desatinada a botar opiniões, frenética nas teclas, cada um pontapeando ou beijando o que lhe ia na alma, tempos de afirmação de alguns manitus da opinião livre, desassombrada - idólatra que sou fiquei-me romeiro do jaquinzinho jcd, Lucky Luke do bloguismo, genial na demonstração dos tiques do então emergente Bloco de Esquerda. Os tempos vêm passando e o colectivismo impôs-se no bloguismo, pois as grandes congregações bloguistas, com plantéis, targets e até missais, tornaram-se um must, na dita "esquerda" e na agora (re)dita "direita".

Mas nesse já recuado antes o motor dessa congregação blogal chamava-se blogómetro, pois os sonhos de teclistas lisboetas - e, vá lá, também portuenses - eram os de destronar, abruptamente, José Pacheco Pereira (jpp) do papado bloguista, ferreamente exercido com a sobranceria da crença da sua infalibilidade no loquaz Abrupto. Nisso se formaram e reformaram ene blogs evangelistas, de porta em porta, arengando no proselitismo dos respectivos profetas. E quantos deles clamando Anticristo esse demoníaco Papa.

Tudo isso era engraçado, e mais ainda pois visto de longe. E naveguei então nesse encapelado mar de links, sentindo-me em casa. Entenda-se, vivo em Moçambique, cuja grande revolução actual é a monoteísta, são omnipresentes os profetas e profetismos, as igrejas e correntes "africanas", a evangelização e a coranização - coisas de que não se fala na RTP-África, mas do que se poderia esperar daquela modorra de funcionalismo público? Assim, logo que chegado a casa, no remanso do escritório, já in-blogs, era quase como estar na rua, nos distritos daqui (“no mato”, dizem os de fora), ouvindo o "alá é grande" "deus nosso senhor tudo pode" e essas coisas. Algo diferente, claro, pois no luso blogal eram Zizek ou Hayek os profetas ministrados, ainda que uma minoria - os congéneres desta burguesia de cá que vive nas vilórias, libertada do jugo das machambas e já em casas de alvenaria -, arengasse sobre Blair como reencarnação do Bem.

Entretanto o Paulo Querido vendeu a plataforma bloguística weblog.com.pt e o blogómetro perdeu algum panache. Pior ainda, ninguém - nem mesmo os jornalistas lisboetas, frutos do caldeirão Frágil-Jamaica/Tokyo  - conseguia deitar abaixo o jpp do pedestal quantitativo, do ambicionado topo do blogómetro. Adivinhava-se a crise, um desgaste do ânimo. Mas alguma blogo-esperança renasceu quando Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá irromperam, imperiais até, no bloguismo, através do seu O Espectro. Para se retirarem, desistindo de blogar - num dos mais (ou mesmo "o mais"?) ridículos episódios dos anos 00 lusos, uma pequenez medonha -, no dia seguinte a terem ultrapassado o sitemeter abruptal. Mas, pelo menos, teve esse feito o efeito de apear o “top blogal” como meta-mor dos grão-bloguistas.

A partir daí, e enquanto o próprio país ia deslizando, e talvez também por isso, algo foi mudando.  Alguns raros individuais encanecidos continuaram, adaptando-se ao tom da época, cada vez mais beligerantes ao serviço da "sua majestade" de cada qual. Os super-blogs mantiveram-se, algo voláteis pois mutantes de nome, com transferências até sonantes qual mundo da bola e, amiúde, entre-zangas prenhes de inter-links, cheias de subtextos e private angers, discerníveis por quem fosse do(s) meio(s), aqueles “lisboa” e “porto”, tudo isso em crescendo de alinhamento pois no meio cada vez mais soava e suava o agendismo.

O bloguismo-punk morrera há muito, o blogo-rock envelhecia em espasmos e fomos nós, incautos (?!) leitores, sendo encerrados no top of the pops. Com os ciclos eleitorais a indústria desceu à rua e tomou, definitivamente, conta do assunto e no pacote de gabinetes do pró e do contra se foi formando um regime profissionalizado, penteado, no qual ao clic-clic de entrada já se sabe o que esperar, se vai à missa in-blog para se reafirmar as certezas, os blogs tornados quais escalfetas. O actual Festival da Eurovisão blogal parece não perder audiências - fui ver o velho blogómetro antes de botar isto, confere, as audiências aguentam-se e até crescem... - mas é óbvio que os maestros, cantores e jurados despercebem que a obesidade, os números de leitores, advém via google search: pois quanto mais "arquivos" têm os blogs mais leitores incautos lhes chegam ao engano, na demanda de outras coisas, e é este o verdadeiro teorema bloguístico.

E assim ficou um mundo de gente trabalhando in-blog, uns de cara destapada outros nem tanto, não lhes vão cair os patrões na lama, tão rasteiras as coisas que vão botando. Dos pacotes de assessores ou não, proto ou ex, brotaram alguns. Assim feitos "lisboa" muitos discutem, veementes, quem é quem, de onde vêm, com quem jantam - "eu jantei com A, ele existe" "eu ensinei X a blogar, e em minha casa" e, um must, "eu tirei esta foto a Y, o qual por acaso mal se percebe na foto, mas - estão a ver? - ele existe", como gozam connosco os jornalistas e académicos do Jugular socratista, quando o povo se questiona sobre um blog anónimo ao serviço do governo.

Trata-se de um "quem" "são" "esses" "alguns" que é forma, ladainha, de ir tentando comprovar que o tudo isso, a tal "lisboa", sempre vai existindo. No fundo, no debate pró ou contra a nomeação, a assinatura dos textos, julgam-se nomenclatura. Entretanto, lá longe, a gente da internet, essa que em tempos alimentou via clic-clic a quantidade de blogs que foram florindo, já lá não está. Pois encontra-se, noite fora, nestes nossos pós-bloguismos do youtube e facebook, gente com nome e de fotografia espetada no "perfil". Enquanto o tal pacote "convicto" não imigra para cá, trazendo o "remoquismo" que lhe é alma, andamos noutra, a "gostarmos" uns dos outros,  Uns a ler. A ver. A ouvir. Outros a botar.

The Clash, hoje:

 

(London Calling, The Clash; Capitol Theater New Jersey 1980: um filme precioso dedicado aos premiados dos prémios Gandula Blog 2004 e 2005)

José Pimentel Teixeira

A Super-Marta (feat. Artur Portela)

jpt, 02.02.21

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Os obituários de 2020 não deverão ter sido mais ricos e variados do que os dos anos anteriores. Mas talvez o ambiente pandémico me tenha feito mais atentar naqueles que findaram. Ou será da idade, isto de me ir vendo cada vez mais desprovido daqueles que me animam ou nos alumiam.

Um dos que morreram foi Artur Portela (Filho, como foi conhecido até ser avô e se ter insurgido contra a manutenção pública desse estatuto júnior). Oposicionista ao Estado Novo e depois julgo que próximo da área do PS. Nas estantes do meu pai estão alguns dos seus livros, dos quais trouxe 3 para este retiro confinado. Dois são volumes de “A Funda”, o 3º e o 4º (Arcádia, 1973 e 1974, respectivamente), recolhas de textos de opinião escritos entre 1972-4. São muito interessantes. É certo que são propositadamente textos de ocasião. Mas em muitos casos é espantosa a sua actualidade, e por mais do que por mera analogia (aliás, no 4º volume está o conhecido “O babygro político”, elogio a Marcelo Rebelo de Sousa – que aqui transcreverei se algum leitor o solicitar, pois não está disponível na internet). Mas também muito pelo que dá a conhecer, a nós mais-novos, do ambiente da “primavera marcelista” e das diferentes figuras que então assomavam.

Mas muito mais do que isso o que convoca é a verve, sarcástica, ferina de cruel. Sem quartel na sua elegância. Para usar este irritante termo que agora acampou na imprensa portuguesa, Portela (então Filho) “arrasava” ambientes e protagonistas – por exemplo José Hermano Saraiva, de tal forma que até me condoí do simpático celebrizado na tv.

Li os volumes neste final de Janeiro de 2021 – e, como sempre acontece quando lhe peço emprestados livros, em diálogo com o meu pai. É o período em que nos tornámos o país mais fustigado pelo Covid-19. Desapareceu o “milagre que é Portugal”. Expirou a imunidade promovida pela vacina da BCG. Descobriu-se que o governo não lê nem ouve as notícias internacionais, sobre “variantes inglesas” e outras … Explodiu uma corrida à célebre “atençãozinha”, umas vacinas para os amigos, tão mostrando o estado do nosso Estado … Ultrapassámos o Brasil de Bolsonaro mas a (tão competente) Mortágua não se indigna. Pior vamos que o reino da Suécia mas os próceres do PS calam a sua voz. Enchem-se os hospitais mas se em algum falta o oxigénio a culpa é do alarmismo da imprensa. Em suma, estamos confinados. E atrapalhados. E, tantos de nós, chorosos. Mas, dizem-nos, não nos cumpre criticar. Pois é hora de “unidade nacional”. E as críticas são “antipatrióticas”.

Pois durante este desatino, desnecessário, acima de tudo desnecessário…, tão fruto de incúria e incompetência, e tanto de inconsciência, fui dar uma volta ao rossio d’agora, o Facebook, a ver as modas. Ali encontro um enorme elogio – exactamente agora, quando isto está como está, depois de um ano disto – à nossa ministra da Saúde. “Super-Marta”, chamam-lhe! Chamou-lhe um, veterano bloguista. E logo a chamam milhares, todos os milhares, e muito são, que partilham o elogio, aplaudindo-o, aplaudindo-a.

Nem estupefacto fico. Pois logo me lembro de Portela – o tal que julgo ter sido próximo do PS, friso. O tal que sinto tão actual. Em Outubro de 1972 escreveu “O Príncipe da Rua do Século” (A Funda 3, Arcádia, pp. 161-163). O mote era um elogio publicado no “A Capital” ao Secretário de Estado da Informação e Turismo, a propósito do 4º aniversário da instauração dessa secretaria de Estado e da nomeação do seu responsável político. Deste, César Moreira Baptista, dizia o jornal tratar-se de príncipe que lá pontifica” e que “conquistou honras de generalato”, entre outras pérolas similares. Portela Filho – com uma nele inusitada placidez e até alguma simpatia (porventura irónica, seria necessário conhecer os meandros daquele tempo para descodificar por completo) pelo membro governamental – investiu impiedoso sobre o articulista:

O dr. César Moreira Baptista não é responsável pelo fundo de “A Capital”. É uma justiça que lhe devemos. Ponho até sérias dúvidas a que se sinta confortavelmente na moldura surrealista que “A Capital” lhe propõe – um Príncipe doublé de general que está servindo uma República.

E eu (…) que sou, definitivamente, contra toda e qualquer espécie de censura – imagino com alguma benevolência o esforço do Secretário de Estado em ultrapassar a tentação de fazer suprimir aquele editorial.

Esforço que resultava de duas contingências: o facto do Secretaria de Estado ser o homem que está levando por diante, no seu campo da Informação, a chamada política liberalizadora, e o facto de o editorial não ser contra mas, embaraçadoramente, dramaticamente, a favor.

É que o Secretário de Estado, seguramente homem de espírito, sabe que há uma coisa mais comprometedora do que um ataque bem feito – é um elogio grotesco.

E isto porque o ataque bem feito enobrece – o elogio grotesco diminui. O ataque bem feito produz o diálogo – o elogio grotesco produz o rubor. O ataque bem feito suscita a atenção – o elogio grotesco suscita a gargalhada. O ataque bem feito merece-nos. O elogio grotesco – compromete-nos.

É que o Secretário de Estado, inevitavelmente homem do mundo, sabe que, se somos um pouco responsáveis pelos nossos adversários, somos muito responsáveis pelos nossos aliados.

O que se torna tremendo quando um dos nossos aliados é o autor do fundo de “A Capital”. Eu serei adversário político do dr. César Moreira Baptista, mas não creio que ele mereça a violência que é este fundo.

Não creio que ele mereça o título de Príncipe. (…)

pela razão, simples e definitiva, de que esse título pertence, inteiramente, ao autor do fundo de “A Capital”. O Príncipe do Jornalismo. O Príncipe da Rua do Século. Manuel José. Homem. De Mello.

Hoje, neste confinamento de facto doloroso, cumpre a cada um encontrar um Manuel José Homem de Mello, reconhecê-lo, reconhecê-los. E, infelizmente, a alguns (muitos, de facto) serem-no.

As (poucas) leituras de 2020

João Campos, 01.01.21

Ao contrário do Pedro, que pelos vistos se fartou de ler em 2020, eu tive um ano péssimo de leituras. Tão mau, aliás, que talvez tenha de recuar a 2007 para chegar a um ano em que tenha lido tão pouco. É possível que para algumas pessoas o confinamento e o teletrabalho tenham proporcionado mais tempo para ler, mas não foi esse o meu caso. Longe disso, aliás. Não por faltarem os livros para ler - as estantes estão bem abastecidas -, nem sequer por faltar o tempo. O que faltou foi mesmo a disponibilidade mental para me dedicar à leitura. Nunca tive o hábito de deixar leituras interrompidas, mas neste ano isso aconteceu em três ou quatro ocasiões - não por os livros não serem interessantes, mas porque pausas de um dia rapidamente davam lugar a várias semanas dominadas pelo cansaço. Como muita gente terá percebido durante 2020, as vantagens oferecidas pelo teletrabalho escondem alguns inconvenientes, como o esboroar progressivo dos horários e das rotinas; no final dos inúmeros dias intermináveis de trabalho apetecia-me com mais frequência transitar da secretária para o sofá e ficar a ver televisão, ou ligar a Playstation e perder-me por umas horas num videojogo mais ruidoso e colorido (salvaram-me o Horizon: Zero Dawn na primavera e o No Man's Sky no Outono).

Claro que sempre li alguma coisa - quanto mais não seja porque a banda desenhada é sempre mais apetecível quando falta a vontade de me embrenhar num livro mais denso. Aqui ficam então algumas sugestões das minhas leituras de 2020.

The Vanished Birds, de Simon Jimenez (Del Rey Books, 2020)

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Um dos aspectos mais fascinantes da ficção científica literária reside no diálogo constante entre o passado e o futuro do género. Aos leitores menos habituados o género oferece uma multitude temática capaz de agradar a todos os gostos (assim se supere o preconceito habitual), mas aos conhecedores um livro de ficção científica oferece pelo menos um nível de leitura adicional: o da descoberta (ou redescoberta) das múltiplas influências e referências que surgem a cada linha, que dão forma àquele mundo secundário, e que conferem ao texto coordenadas muito precisas na vasta cartografia do género.

The Vanished Birds, romance de estreia do escritor de ascendência filipina Simon Jimenez, é um exemplo perfeito desse diálogo. O seu primeiro capítulo, uma história autónoma que decorre num planeta remoto, recupera de The Forever War (e, vá, da Teoria da Relatividade) a noção de que viajar pelo espaço é também viajar pelo tempo, e com ela constrói um romance improvável. A trama principal, desenvolvida numa estrutura narrativa nem sempre sequencial, é reminiscente tanto das modernas space operas políticas da tradição de M. John Harrison ou de Iain M. Banks como das histórias de gente comum a fazer pela vida no vazio do espaço - recordemos Firefly na televisão, ou a série Wayfarers de Becky Chambers na literatura (ou a Expanse de James S.A. Corey em ambas). E uma das ideias fundamentais do texto é levantado de Alfred Bester e do eterno The Stars My Destination. Mas desengane-se quem julgar que The Vanished Birds é apenas uma amálgama de ideias já usadas, recentes ou antigas: Jimenez utiliza todas essas influências para criar um futuro espacial muito próprio, tão verosímil como fascinante, e para contar uma história envolvente e cativante, com personagens verdadeiramente humanas. E isto com uma prosa magnífica, que embala todo o texto.

Há largos meses que tencionava trazer The Vanished Birds para o Delito, mas o texto permanece inacabado nos rascunhos - a impressão que o livro me deixou foi tremenda (o primeiro capítulo é magnífico, e jamais esquecerei as imagens da longínqua memória romântica de uma das personagens principais no terceiro), e talvez por isso me seja tão difícil escrever sobre ele, por paradoxal que isso possa ser. Foi não só o melhor livro que li em 2020, como um dos melhores livros que li em muitos anos. Nada mau para um livro de estreia.

Transmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson (Vertigo/DC Comics, 1997-2002)

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Já tinha começado a ler Transmetropolitan há alguns anos (tenho até ideia de ter mencionado o primeiro volume numa conversa no último jantar do Delito a que fui - noutros tempos, quando ainda havia convívios e socialização fora dos espaços virtuais), mas por algum motivo deixei a colecção e a leitura a meio. A colecção foi concluída ao longo do ano e à leitura dediquei-me durante o mês de Dezembro.

O que mais impressiona em Transmetropolitan quando o lemos em 2020 talvez seja a presciência incrível da trama urdida por Warren Ellis, centrada numa eleição presidencial norte-americana disputada entre um incumbente péssimo e um candidato terrível - várias são as passagens que, se retiradas das pranchas, podiam perfeitamente descrever os círculos de Donald Trump, com um cinismo que há vinte e poucos anos talvez fosse excessivo. E no olho do furacão eleitoral está Spider Jerusalem, o infame jornalista que abandona o exílio auto-imposto nas montanhas para regressar à Cidade e ao jornalismo. Ao longo dos dez volumes trade paperback vamos acompanhando as reportagens de Jerusalem e conhecendo aquela metrópole futurista, na melhor tradição da ficção científica cyberpunk de William Gibson, com extrapolações tecnológicas e sociais mirabolantes (há gatos mutantes, humanos geneticamente modificados, publicidade invasiva, bowel disruptors, etc). A ilustração de Darick Robertson e o seu olho atento para o detalhe dão à Cidade uma textura palpável, e algumas pranchas pedem mais atenção pelas inúmeras referências e jogos de palavras que incluem (recordo-me sempre dos cigarros de marca "Carcinoma Angels", ao mesmo tempo um jogo de palavras macabro e uma alusão a um conto notável de Norman Spinrad, por exemplo). É uma banda desenhada intensa, violenta, a todos os níveis excessiva - toda a criação de Spider Jerusalem é inspirada em Hunter S. Thompson, pelo que os leitores podem ter uma ideia do que os espera. Mas por hiperbólica que possa ser, Transmetropolitan é também uma ode ao Jornalismo, à profissão que já foi considerada o quarto poder, e um alerta para a corrupção política. Nestes tempos de declínio da imprensa e de recrudescência do populismo político talvez esta mensgem seja mais relevante do que nunca.

Nausicaä of the Valley of the Wind, de Hayao Miyazaki (Viz Media, 1982-1994)

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Os leitores decerto conhecerão Hayao Miyazaki pelos extraordinários filmes de animação japonesa que realizou desde o início dos anos 80 (e se não conhecem, não sei que vos diga). O que talvez menos gente saiba é que o mestre da animação também fez algumas incursões pela banda desenhada, e que o seu prodigioso filme de 1984, Nausicaä of the Valley of the Wind, é na verdade uma adaptação de uma longa banda desenhada da sua autoria.

Com um traço espantoso, Miyazaki constrói um futuro pós-apocalíptico no qual uma guerra e o cataclismo ecológico que se lhe seguiu destruiram a civilização tal como a conhecemos - restam pequenos reinos e cidades dispersas por zonas costeiras que uma Natureza agressiva ainda não consumiu. E a trama segue Nausicaä, a jovem princesa do Vale do Vento, forçada pelas circunstâncias a envolver-se numa guerra que não é a sua enquanto tenta compreender e aplacar a violência do mundo natural. É uma história fascinante e surpreendentemente violenta quando desviamos o olhar daquelas pranchas lindíssimas e nos lembramos de que foram ilustradas pelo autor de My Neighbour Totoro ou Kiki's Delivery Service. Nela, porém, também reconhecemos alguns motivos e temas recorrentes na obra cinematográfica de Miyazaki, como a dualidade Natureza/Indústria, o protagonismo dado a personagens femininas inspiradoras, que em momento algum assumem o papel de damsel in distress (Miyazaki, como Atwood, também já era ecologista e feminista antes das modas), e o absoluto fascínio por máquinas voadoras e pelo desafio constante à gravidade. Existe uma edição antiga em português, salvo erro em seis volumes, que pode ser encontrada em algumas bibliotecas e, com sorte, em alfarrabistas. Mas a edição em inglês da Viz Media, com dois lindíssimos volumes em capa dura, ficará muito bem em qualquer estante de banda desenhada.

Sex Criminals, de Matt Fraction e Chip Zdarsky (Image Comics, 2013-2020)

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No final de 2019, quando todas as publicações se dedicaram a fazer as listas das melhores obras "da década", descobri esta banda desenhada invulgar, que já tinha visto em algumas lojas especializadas mas que por algum motivo não me tinha despertado a atenção. Não sei que expectativas tinha em relação a Sex Criminals, mas não esperava de todo o que encontrei: uma banda desenhada cómica e atrevida, com um twist inesperado às tramas de super-heróis: a protagonista, Suzie, descobre na adolescência o seu super-poder: quando atinge um orgasmo o tempo pára para toda a gente... menos para ela. Literalmente. E quando conhece Jon e descobre que ele tem o mesmo poder (digamos assim), o próximo passo torna-se lógico: parar o tempo com um orgasmo e assaltar um banco. Por uma boa causa, claro: salvar a biblioteca onde Suzie trabalha.

É uma leitura tão pouco convencional como divertida - logo na primeira parte, as passagens nas quais Suzie recorda a sua juventude e a descoberta da sua capacidade invulgar são hilariantes, sem no entanto deixarem de ter uma certa familiaridade para qualquer leitor que ainda tenha presente toda a estranheza da adolescência. E o humor mantém-se em algums momentos mais pueris, e na ilustração talentosa de Chip Zdarsky, repleta de alusões e de piadas que noutro contexto seriam demasiado juvenis, mas que ali funcionam na perfeição. Dito isto, Sex Criminals é mais do quem uma mera banda desenhada cómica com sexo como pano de fundo: é também uma história profundamente humana sobre relações, desenvolvida com duas personagens empáticas que Fraction desenvolve na perfeição.

Apesar de Sex Criminals ter chegado ao fim este ano, ainda não terminei a leitura da série - comecei por comprar as duas magníficas edições deluxe da Image, pelo que aguardarei até ao Verão para adquirir o terceiro volume e ler então esta excelente banda desenhada até ao fim.

Até lá, espero ler mais do que em 2020.

Os melhores livros do meu ano(3)

Pedro Correia, 31.12.20

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À medida que vamos acumulando leituras, outro prazer os livros nos proporcionam. Refiro-me ao gosto da releitura, que em 2020 cultivei em doses adicionais.

Aproveitando o longo período de reclusão imposto pelas autoridades sanitárias e por força das circunstâncias, revisitei várias obras literárias, de autores muito diversos. Como se fosse um reencontro com velhos amigos, sem precisar de máscara.

Isto aconteceu-me tanto com autores portugueses como estrangeiros. Tratando-se, em certos casos, de uma leitura já em dose tripla. Mas nem por isso menos estimulante.

Fica a lista dos dez melhores livros que fui relendo no ano que agora acaba. Por ordem alfabética, como aconteceu aqui e aqui.

 

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A CIDADE E AS SERRAS, de Eça de Queiroz (1901). Já longe da estética realista, de que foi um dos principais cultores, Eça escreveu em França esta magnífica declaração de amor a Portugal. Com personagens, cenários e diálogos inesquecíveis, entre o luxo de Paris e a beleza rústica da paisagem duriense.

 

A ILHA DO TESOURO, de Robert Louis Stevenson (1883). Romance de aventuras para todas as idades - um dos mais célebres de sempre. Na sua galeria de personagens fabulosas destaca-se Long John Silver, o marinheiro renegado que abraça a pirataria, cruzando para sempre a linha divisória entre o bem e o mal.

 

A LINHA DE SOMBRA, de Joseph Conrad (1917). Um navio estagnado devido a uma imprevista calmaria oceânica, com dezenas de tripulantes infectados a bordo, parecendo alvo de uma insólita maldição. O protagonista jamais esquecerá esta sua viagem iniciática em mares orientais com galões de comandante.

 

A SELVA, de Ferreira de Castro (1930). Um dos raros romances portugueses com alcance universal. Castro transforma a sua experiência como jovem trabalhador braçal na Amazónia em material literário de inegável qualidade. Uma obra que tem como protagonista a floresta, com os seus mistérios e os seus terrores. 

 

ATÉ AO FIM, de Vergílio Ferreira (1987). Romance crepuscular do autor de Aparição, centrado num pai que vela o corpo do filho numa capela à beira-mar enquanto desfia memórias relacionadas com encontros e desencontros que mantiveram. Vigília povoada de interrogações e perplexidades sobre o homem e o seu destino.

 

CRIME IMPUNE, de Georges Simenon (1954). Obra capital entre os romances que o prolífico autor belga escreveu sem a presença tutelar do seu comissário Maigret. Ambientado numa pensão de Liège, com hóspedes de várias nacionalidades e oriundos de encruzilhadas diversas. Um deles terá um futuro trágico.

 

MAU TEMPO NO CANAL, de Vitorino Nemésio (1944). O melhor romance português do século XX. Imbatível como ficção literária no cenário açoriano - desenrolada em quatro ilhas: Faial, Pico, São Jorge e Terceira. Obra apropriada nestes tempos difíceis: a epidemia (aqui, de peste bubónica) é um dos temas centrais.

 

O MALHADINHAS, de Aquilino Ribeiro (1922). Obra-prima da nossa novelística, escrita na primeira pessoa do singular, com linguagem pícara e castiça, dando voz a um almocreve de meados do século XIX que percorria serranias beirãs no rescaldo da guerra entre liberais e miguelistas que dilacerou Portugal por muitos anos.

 

O TRIGO E O JOIO, de Fernando Namora (1954). A chamada escola neo-realista produziu romances de indiscutível qualidade. Talvez nenhum com tanta autenticidade como este, centrado num humilde camponês alentejano que ambiciona ser proprietário de uma burra e move tudo para concretizar tal sonho. 

 

VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS, de Júlio Verne (1870). Quinto romance mais traduzido em todo o mundo, tem encantado sucessivas gerações de leitores e mantém intacto o seu fascínio. Quantos de nós não desejámos embarcar no Nautilus - o primeiro submarino da literatura - sob o comando do enigmático capitão Nemo?

Os melhores livros do meu ano(2)

Pedro Correia, 30.12.20

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Como referi anteriormente, há muitos anos que não lia tantos livros como neste 2020 prestes a ficar para trás. Desde a adolescência, mais precisamente. O longo período de confinamento a que estive sujeito, à semelhança do que sucedeu com tantos de nós, incentivou-me a mergulhar ainda mais na leitura. E com proveito, devo confessar.

Ler, como alguém assinalava um dia destes, é a actividade intelectual que mais nos permite contrariar tendências dominantes, rejeitar o espírito de rebanho ou alcateia e mergulhar na subjectividade - no fundo, aquilo que nos diferencia dos restantes mortais.

Senti isso como nunca neste ano de pesadelo. Graças, em boa parte, a autores que escreveram sobre mundos e modas tão diferentes dos que agora experimentamos. Esta é uma conquista ímpar da literatura: fazer-nos viajar a qualquer momento no tempo e no espaço, abrindo-nos horizontes de toda a espécie. Graças a ela, ficamos a saber o que nos antecedeu e a conhecer a face oculta do que nos rodeia. E passamos até a ser iluminados sobre nós próprios.

Fica a lista dos dez melhores livros de autores estrangeiros que li no Ano da Pandemia. Por ordem alfabética, para facilidade de consulta.

 

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A IDADE DA INOCÊNCIA, de Edith Wharton (1920). Romantismo tardio cruzado com suave mas inequívoca denúncia social: eis alguns ingredientes desta fascinante viagem literária que nos apresenta a arrogante e pretensiosa classe dominante de Nova Iorque na década de 1870, com mais sombras do que luzes.

 

A MÃE, de Máximo Gorki (1907). O primeiro - e talvez o melhor - romance da escola do "realismo socialista", que mesclava ficção literária com cartilha política e produziu imensas cópias inferiores em que o talento se rendia ao proselitismo. Inesquecível, a personagem principal - figura cimeira da literatura.

 

A MENTE APRISIONADA, de Czeslaw Milosz (1953). Corajoso libelo contra o totalitarismo comunista a partir da experiência do autor, no auge da ditadura vermelha na Polónia, antes de rumar a um exílio que durou décadas e lhe custou a perda da cidadania. O equivalente em ensaio a O Zero e O Infinito em ficção.

 

A TIA JULIA E O ESCREVEDOR, de Mario Vargas Llosa (1977). Até que ponto a vida, tal como ela realmente é, pode funcionar como eficaz matéria literária? Desafio difícil, mas superado com brilhantismo neste divertidíssimo romance, aquele em que o Nobel de 2010 mais se desvenda sem biombos nem artifícios.

 

CORAÇÃO TÃO BRANCO, de Javier Marías (1992). Talvez o melhor romancista actual de Espanha, Marías elabora aqui uma teia de encontros e desencontros que se vão prolongando no tempo e no espaço, suscitando-nos interrogações sobre o destino humano. Basta o capítulo inicial para ascender ao patamar de obra-prima.

 

O AMANTE DE LADY CHATTERLEY, de D. H. Lawrence (1928). Muito mais do que um clássico da literatura erótica, é um estudo admirável da psicologia feminina e uma desassombrada denúncia dos preconceitos sociais vigentes na Inglaterra saída da I Guerra Mundial, ainda povoada de sombras atávicas.

 

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS (1997). O realismo mágico transposto para uma comunidade cristã na Índia com um arrojo e uma destreza literária em nada inferiores ao de Gabriel García Márquez. É também uma obra sobre as marcas da infância que permanecem para sempre inscritas nos sulcos da memória.

 

O MUNDO PERDIDO, de Conan Doyle (1912). Livro de aventuras, na mais genuína acepção do termo, esta obra-prima demonstra-nos que existem sempre novas fronteiras por desbravar, por vezes em desafio aberto à lógica cartesiana. Recomendável aos nostálgicos do género, que suscita fascínio em todas as idades.

 

RESSURGIR, de Margaret Atwood (1972). Admirável romance sobre o fascínio das raízes familiares, os precários laços afectivos que provocam cicatrizes e a atribulada relação entre o homem e a natureza, desenrolada em cenário florestal do Canadá. Ambientalista e feminista antes de estes conceitos se tornarem moda.

 

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM, de James Joyce (1916). Um dos melhores livros sobre as encruzilhadas da adolescência: Joyce conduz-nos à sua Dublin natal do final do século XIX em óbvia evocação autobiográfica. Tornando-nos testemunhas privilegiadas das suas crises de identidade e dos seus dilemas existenciais.

Os melhores livros do meu ano(1)

Pedro Correia, 29.12.20

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É sempre assim. Chego a Dezembro e elaboro o meu balanço de livros e filmes. Neste ano de pesadelo, como muitos de nós classificamos 2020, os meus livros ganharam por larga vantagem aos meus filmes. Apesar do confinamento, ou talvez até por isso, apeteceu-me muito mais mergulhar na leitura do que assistir a filmes. Ler e cozinhar foram, aliás, os meus passatempos favoritos no ciclo de 12 meses que agora chega ao fim.

Os filmes foram ficando para trás. Sendo com frequência trocados também por séries, vistas ou revistas - dos clássicos Columbo e Uma Família às Direitas até ficções televisivas contemporâneas de inegável qualidade, como a intrigante Shetland, a devastadora Hinterland, a negra Absolvição, a sombria Linha Invisível, a desbragada Narcos, a tensa Os Crimes de Valhalla, a cáustica Barão Negro, a surpreendente Hierro, a empolgante Salvação, a imprescindível The Crown

 

Pois desta vez os livros venceram por larga margem: 100-40. Uma goleada, como se diz em linguagem futeboleira. Refiro-me apenas aos livros lidos integralmente neste 2020 que nos virou a vida do avesso: os que abandonei a meio, fosse por que motivo fosse, não entram nesta contabillidade. 

Durante três dias, começando hoje, deixarei aqui a lista dos dez melhores destes cem, multiplicada por três: a primeira, já de seguida, respeitante só a autores portugueses. Amanhã virão os autores estrangeiros. Depois de amanhã, recordo os dez que mais gostei de reler. Títulos sempre acompanhados por duas ou três frases sobre cada obra.

Cada lista fica por ordem alfabética. Podia ter sido outro o critério, mas prefiro este.

 

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A PAZ DOMÉSTICA, de Teresa Veiga (1999). Romance de estreia desta escritora avessa a protagonismo mediático, mais conhecida como contista. Relato sincopado do singular percurso de uma mulher ao longo de um quarto de século de convulsões políticas em Portugal, com drama e comédia entrelaçados.

 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de José Saramago (1995). Ponto culminante da literatura portuguesa de ficção em matéria de distopias. Lúcida descrição de um mundo sem fronteiras espaciais ou temporais convulsionado pela cegueira colectiva. De leitura quase obrigatória em tempo de pandemia.

 

GAIBÉUS, de Alves Redol (1939). O neo-realismo português entrava em cena neste romance, trocando as personagens individuais pelo protagonismo colectivo de humildes trabalhadores agrícolas das Beiras que desciam ao Ribatejo para ganhar a vida em tempo de ceifas e colheitas. Quase como escrita de repórter.

 

GAIVOTAS EM TERRA, de David Mourão-Ferreira (1959). Quatro novelas que marcaram a estreia em ficção deste grande poeta. À sua maneira, cada uma celebrando com nostalgia a Lisboa burguesa de meados do século XX. Duas delas originaram filmes, realizados por Jorge Brum do Canto e José Fonseca e Costa.

 

KURIKA, de Henrique Galvão (1944). Muitos ignoram que o futuro opositor de Salazar se distinguira antes como escritor, sobretudo de temática africana, como reflexo dos anos vividos em Angola. Este é um romance em que os animais surgem em surpreendente destaque, num contraponto português a Lassie ou Bambi

 

QUANDO OS LOBOS UIVAM, de Aquilino Ribeiro (1958). Romance-libelo sobre a luta dos camponeses da Beira Alta pelo cultivo de baldios que valeu ao autor um processo judicial e a ameaça de prisão. Inesquecível, a longa cena desenrolada num Tribunal Plenário, com palavras desassombradas em desafio à ditadura.

 

SILÊNCIO PARA 4, de Ruben A. (1973). Quatro personagens em diálogo neste romance incompreendido à época. Obra imediatamente anterior à revolução, ganha em ser lida à distância de quase meio século. Por ser sinal evidente de um fim de ciclo: a mudança de costumes antecipava o vendaval político.

 

TERRA MORTA, de Castro Soromenho (1949). Houve um tempo em que a literatura portuguesa não se circunscrevia ao continente europeu. Entre o legado dos nossos escritores africanistas distingue-se este apaixonado e pungente retrato da gente e do espaço em zonas remotas de Angola na era colonial. 

 

VIVER COM OS OUTROS, de Isabel da Nóbrega (1964). Um prodígio formal, este romance escrito da primeira à última linha num discurso directo que nunca soa a artifício. Na Lisboa privilegiada em que se anteviam os primeiros sinais de desagregação das classes sociais que funcionaram como âncora do Estado Novo. 

 

VOLFRÂMIO, de Aquilino Ribeiro (1943). Romance escrito quase em tempo real, no auge da guerra, quando ingleses e alemães disputavam as riquezas minerais do interior português, aproveitando a nossa neutralidade no conflito. Com personagens credíveis e uma impressionante riqueza vocabular, marca distintiva do autor.

Repensar o São Martinho (e outras datas rituais)

jpt, 12.10.20

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Abaixo aludi à necessidade de repensar as celebrações do dia de São Martinho - meu modesto contributo à proposta presidencial de reflexão sobre os convívios familiares natalícios durante este Covidoceno.

Nos comentários a esse meu postal João Lisboa colocou ligação a uma interessantíssima série de 3 postais no seu Provas de Contacto, dedicados às origens e conteúdos das celebrações do São Martinho, frutos da leitura do livro L'Ours/Histoire d'un Roi Déchu de Michel Pastoureau (La Librairie du XXIème Siècle/Seuil, 2007). Os três (breves e sumarentos) textos são acessíveis nesta ligação. Muito aconselho a sua leitura.

Born a Crime. (Audio)li e recomendo

Marta Spínola, 08.09.20

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Tiremos isto do caminho desde já: eu audioleio. Leio, e-leio, audioleio. Gosto de um livro, do seu peso e cheiro, mas quando preciso de andar e desandar, o audiobook releva-se extremamente útil e o e-book muito leve. 

Recomendo a versão audio e original deste livro de Trevor Noah, por ser um extraordinário contador de histórias, no caso a da sua infância e adolescência numa África do Sul onde o Apartheid não tinha lugar para um rapaz nascido de mãe negra e pai branco - o tal crime do título. É um ponto de vista muito pessoal, a sua avó castigava os primos de uma forma diferente por não saber como educar com um rapaz branco (que nem ele nem nós hoje vemos como branco). Contado pelo próprio é como estar à mesa com um amigo que nos conta as suas memórias. 

Não é um livro que pretenda mudar o mundo, mas é um relato muito franco - pois se o viveu -, muito claro e vivo de um dia a dia dos anos 90 em Joanesburgo. 

Destaco o maior comic relief, o capítulo "Go Hitler" - não esse Hitler, um amigo de Noah, mas contar mais estraga esta passagem. É cómico e triste ao mesmo tempo: dois mundos que chocam sem que se percebam um ao outro.

Era isto, é um bom livro e se o puderem ouvir na versão original, tanto melhor, garanto que compensa começar a "audioler" por este. 

 

(adaptado de um post no Da Vida de Pi)

Uma História da ETA | Pub

Diogo Noivo, 05.09.20

O Diário de Notícias publica hoje uma entrevista conduzida pela Valentina Marcelino onde falamos do passado, do presente e do futuro.

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No Expresso, o Hugo Franco escreve sobre a primeira grande aquisição de armas feita pela ETA - que lhe permitiu dar "o salto" de movimento para organização terrorista -, intermediada pelos portugueses da LUAR. 

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São partes de um trabalho de dois anos que chegou hoje em forma de livro à Feira do Livro de Lisboa - e que chegará às livrarias no dia 13 de Setembro. A propósito de partes, o Observador publica parte de um capítulo no seu site (não percebo bem porquê, mas é apenas para assinantes).

Espero que os leitores do DO e os meus camaradas delituosos encontrem nestas páginas - dos jornais e do livro - algo de interesse.

Uma História da ETA | Pub

Diogo Noivo, 01.09.20

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Chegam ao fim dois anos de trabalho nos dois lados da fronteira. Com base em documentação de arquivo - muita dela inédita - e algumas entrevistas, este livro traça a história política da organização terrorista ETA, extinta em 2018. É uma história de nacionalismo, nativismo e violência política. Pelo meio, faz-se a primeira análise sistematizada da presença e relações do terrorismo nacionalista basco em Portugal (1960-2010).

Estará disponível na Feira do Livro de Lisboa no próximo fim-de-semana. E chegará às livrarias de todo o país em meados de Setembro. Até lá, os interessados podem encontrá-lo na página web da editora E-Primatur / Bookbuilders com desconto de pré-lançamento. Darei notícias.

Botar Abaixo o Hemingway?

jpt, 28.06.20

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Há em várias cidades um punhado de estátuas de Hemingway. Deixo um excerto do autobiográfico "As Verdes Colinas de África", escrito em 1935. Talvez seja um exemplo apropriado para uma era em que as sensibilidades pretéritas andam a ser avaliadas. A preto e branco ...

"M'Cola foi, aos saltos, pela montanha abaixo e, através do riacho, mesmo no lado oposto ao nosso, surgiu um rinoceronte a correr, num trote ligeiro, pela parte de cima da margem. Quando o observávamos, apressou o passou e correu, em trote rápido, perpendicularmente à beira da estrada. Era de um vermelho sujo, o chifre muito visível, e não havia nada de pesado nos seus movimentos, rápidos e deliberados. Ao vê-lo, senti-me excitado. 

- Vai atravessar o regato - observou Pop - Está ao alcance do tiro.

M'Cola pôs-me a Springfield na mão. Abri-a para me certificar de que estava carregada. O rinoceronte estava fora da minha vista, mas distinguia-se o agitar do capim alto. 

- A que distância julga que pode estar?

- A uns quatrocentos metros.

- Hei-de apanhar esse malandro.

Conservei-me alerta, procurando deliberadamente acalmar-me, fazendo cessar a excitação como quem fecha uma válvula, entrando naquele estado impessoal que se atinge ao fazer pontaria. 

O animal surgiu no regato baixo e pedregoso. Naquele momento apenas pensava em que era perfeitamente possível alvejá-lo, mas que para isso era necessário alcançá-lo e ultrapassá-lo. Alcancei-o, ultrapassei-o e disparei. Ouvi o ruído da bala e, como animal seguia a trote, esta pareceu-me ter explodido mais à frente. Com um resfolegar sibilante, caiu prostrado, esparrinhando água e roncando. Disparei de novo, levantando uma coluna de água atrás dele. Como tentasse escapar-se para a relva, voltei a disparar. (...)

Droopy correu. Carreguei a espingarda e corri atrás dele. Metade dos homens do acampamento estavam espalhados pelas colinas (...). O rinoceronte tinha-se dirigido precisamente para debaixo do lugar onde eles se encontravam e subia o vale em direcção ao sítio onde se perdia na floresta. (...)

O rinoceronte estava no capim alto, atrás de uma qualquer moita. Enquanto avançávamos, ouvimos um roncar surdo, quase um gemido. O ruído voltou a ouvir-se, terminando desta vez com um suspiro sufocado pelo sangue. Droopy ria.  (...) Sabíamos onde estava o animal e, ao aproximarmo-nos, lentamente, abrindo passagem pelo mato alto, descobrimo-lo. Estava morto, caído sobre um dos flancos. (...)

Quando chegou o grupo todo, voltámos o rinoceronte de forma a ficar como que numa posição de ajoelhado e cortámos o capim em volta para tirarmos fotografias. (....) ali estava com a sua comprida carcaça, pesados flancos, de aspecto pré-histórico, a pele como borracha vulcanizada e vagamente transparente, com a cicatriz de uma ferida causada por uma cornada e depois picada pelos pássaros, a cauda grossa, redonda e aguçada, carraças de mil patas formigando-lhe no corpo, as orelhas franjadas de pêlos, olhinhos de porco, com musgo na base do chifre, que lhe saía da parte de frente do focinho. (...) Era um animal dos diabos! (...)

- Estou louco de satisfação - confessei."

(Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África, Livros do Brasil, 77-81. Tradução de Guilherme de Castilho. Edição original em inglês de 1935)