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Delito de Opinião

O Último Adeus, de Balzac

jpt, 12.11.22

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[Nestes dias de combates nas zonas do Dniepre deixo aqui um postal que colocara no meu Nenhures em Abril passado]

É uma total coincidência, devida a que há poucos dias uma querida amiga me disponibilizou uma preciosa pilha de livros. A qual encetei, desconhecendo o seu conteúdo, por este "O Último Adeus" (Adieu), pequena novela de Balzac publicada originalmente em 1830 (em edição Europa-América, tradução de João Gaspar Simões).

A trama romanesca é interessante, ainda que hoje surja algo secundária, até pelo tom de época, de hipérbole sentimental: o coronel Philippe de Sucy - veterano da campanha russa, regressado a França após seis anos na Sibéria como prisioneiro de guerra - reencontra por mero acaso a sua apaixonada, a condessa de Vandières. Esta está tresloucada, devido aos padecimentos sofridos desde que se tresmalhara durante a retirada do exército napoleónico, pois durante a batalha de Berezina enviuvara do general de Vandières e apartara-se de Sucy, que ficara prisioneiro. 

 

Velhas revistas

jpt, 05.10.22

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Sempre fui fraco leitor de revistas, generalistas, especializadas ou mesmo profissionais - excepto das de banda desenhada, que tanto me moldaram gosto e ser. Razões para tal nem as tenho claras, pois de algumas delas até gosto, será mesmo um qualquer infundamentado desconforto com o molde, uma parva embirração. Mas de uma coisa gosto, isto de folhear as revistas antigas que se amontoaram em casa, as herdadas e as que fui comprando - tantas destas para apenas as entreabrir, até com fastio, apesar do interesse imediato ao vê-las, feito compulsão compradora (quando dessa maleita podia sofrer) -, soslaios que permitem um sorridente aquilatar da realidade das "novidades" ou "dramas" que foram apregoados, com mais ou menos veemência...

Neste Verão já findo recebi os dois últimos caixotes de livros (e revistas) vindos da minha mãe, as partilhas familiares da pequena biblioteca que a acompanhou nos últimos anos na "residência" (o lar de terceira idade). Nesse conjunto vieram mais algumas revistas, das que restaram, "sobreviventes" à habitual partilha deste tipo de leituras. E que me fazem, saudoso, lembrar de quando após um almoço familiar levámos a nossa mãe (e avó) à papelaria vizinha, a qual abastecia diariamente a residência do inevitável duo Correio da Manhã e Público. E do (genuíno) encanto da proprietária diante daquela já nonagenária ainda arguta e, ainda por cima, francófona e anglófona. E logo ali se combinou que providenciasse ela a entrega diária de revistas e jornais que julgasse apropriadas ao gosto e interesses da minha mãe, que a gente pagaria mensalmente... Para alguns meses depois resmungar eu - já então a sopesar os custos do rancho e a racionar o Amber Leaf e o Queen Margot - a "conta calada" daquilo tudo, que do "Paris-Match" e "Hola!" britânica até à "Magazine Littéraire" tudo lhe ia chegando, e do meu murmurado e miserável ataque de sovinice, eu leitor diário do "Record" a criticar "raisparta, a mãe nunca leu estas tralhas ao longo da vida, para quê comprá-las agora?", as revistas "sociais", entenda-se, como se matar o tempo não fosse o fundamental, não seja o fundamental, antes da morte que se nos aproxima...

Enfim, divago, pois o que queria trazer a este postal é esta revista "Estante" que algum de nós lhe levou e que me chegou agora. De 2018, o número 17 desta simpática iniciativa - uma revista literária bem conseguida, no grafismo e no conteúdo, num registo adequadamente "leve" mas não superficial. 10 000 exemplares distribuídos gratuitamente pelos clientes da FNAC - e serve agora para memória (talvez surpreendente para as gerações mais novas) de uma longínqua época em que a cadeia FNAC vendia livros, uma era já finda na história económica.

E o que me apelou a recuperar este exemplar é um dos seus artigos, no qual os jornalistas Carolina Morais e Tiago Matos indagaram a sete escritores e editores "quem merecia o Nobel da Literatura de 2018?", pergunta bem adequada a este tipo de revista, muito mais tendente à divulgação literária do que a  uma reflexão crítica sobre pertinência das premiações e dos seus critérios e, ainda menos, às dinâmicas estruturantes do(s) "campo(s) literário(s)". E ler o resultado dessa demanda promove agora um sorriso, algo entristecido. Pois Ana Teresa Pereira, Carlos Vaz Marques, Francisco Vale, Hélia Correia, Isabel Lucas, Manuel Alberto Valente e Pedro Mexia (o grupo inquirido) deram, obviamente, várias pistas. Mas no final o escritor que sobressaiu como desejável premiado em 2018 foi Javier Marías. Pois, a Academia Sueca atrasou-se, irremediavelmente...

(Nem de propósito, eu a esquiçar este postal e a encontrar o Pedro Correia a inaugurar uma, ambiciosa, série...).

Homenagem à Banda Desenhada Portuguesa

jpt, 04.10.22

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Já está disponível este "Variantes, Uma Homenagem à Banda Desenhada Portuguesa" - será apresentado amanhã, 5.10, em Coimbra, às 16 horas na Livraria Dr. Kartoon, e no dia 8 haverá uma sessão em Lisboa. Edição de A Seita (72 páginas, capa dura, 17 euros - para um produto destes é um preço pré-Guerra da Ucrânia). 

Trata-se de um passeio por 24 obras da BD no país ao longo da história, desde XIX até ao final de XX. Autores actuais (ditos "jovens", nesta ditadura contemporânea da "eterna juventude", gente sub-40) fazem vénias (sob formato de pranchas e desenhos inéditos), desde à considerada como primeira BD portuguesa,  Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro Sobre a Picaresca Viagem do Imperador do Rasilb Pela Europa  (1872), até ao Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, de João Fazenda e Pedro Brito (2000). Nisso passando por Victor Mesquita (1975, Eternus 9 - publicado na célebre e saudosa "Visão") Relvas (1978, Espião Acácio), Louro/Simões (1985, Jim del Monaco), Saraiva/Pinto (1994, Filosofia de Ponta), e outros, como é óbvio.

O rol dos autores é rico : André Caetano; André Pereira; Daniela Duarte; Fábio Veras; Francisco Nunes; Gonçalo Varanda; Jorge Coelho; José Smith Vargas; Madalena Abreu aka Hada; Marco Mendes; Marta Teives; Paula Cabral; Ricardo Baptista; Rita Alfaiate, Sofia Neto. E ainda Álvaro, Fernando Relvas e Pedro Burgos.

A capa é do Pedro Morais. Companheiro, mostrou-me a ilustração completa....

 

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Rui Mateus Pereira

jpt, 16.09.22

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A última edição da revista Etnográfica inclui um In Memoriam dedicado a Rui Mateus Pereira, morto em 2020 - com textos de Adolfo Yáñez Casal, Ana Isabel Afonso, Frederico Delgado Rosa e Laura Almodôvar, colegas que lhe foram próximos e que com ele constituiram amizades. Tive com o autor um relacionamento muito mais distante e esparso. Mas, e até porque a nossa interacção não se enquadrou no espaço universitário, aqui deixo a minha memória. Na qual, e porque escrita em blog próprio, não tenho o espartilho dos limites de caracteres - comum em publicações institucionais - nem prescindo do exclusivo tom de memória pessoal.

 

 

Lost in Fuseta

Cristina Torrão, 09.09.22

Não é todos os dias que se recebem comentários a um postal publicado há mais de três anos, mas ontem aconteceu-me. E qual não foi a minha surpresa, quando hoje deparo com mais um.

Escrevia eu, a 6 de Julho de 2019, sobre Portugal-Krimis, ou seja, livros policiais alemães, tendo Portugal como cenário.

E falava então no Lost in Fuseta, de Gil Ribeiro:

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O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações).

Ontem, a comentadora Paula Bonifácio Vilas disse que a televisão alemã ia passar o filme Lost in Fuseta no Sábado. Por acaso, o meu marido, que já leu duas ou três aventuras algarvias do Leander Lost, já me tinha falado nisso. Hoje, o comentador Artur Nunes pedia um link, onde se pudesse assistir ao primeiro episódio.

De facto, trata-se de um série e o ARD (1º canal alemão, ou Das Erste) até vai apresentar amanhã os dois primeiros episódios. A minha revista televisiva apresenta o primeiro com a frase: Jetzt geht's also an die Algarve! - «Agora, vai-se então até ao Algarve!»

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Este episódio vai ser apresentado às 20h15m, o segundo às 21h45m (hora alemã).

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Ambos podem ser já vistos online, na Mediathek do ARD. Já deixei os links ao comentador Artur Nunes, mas aqui vão, mais uma vez, caso haja mais alguém interessado. Para quem não percebe alemão, servem para ir dar uma olhada.

Primeiro episódio:

https://www.ardmediathek.de/video/krimis-im-ersten/lost-in-fuseta-1-ein-krimi-aus-portugal/das-erste/Y3JpZDovL2Rhc2Vyc3RlLmRlL2tyaW1pcy1pbS1lcnN0ZW4vYTJjM2Y1NWMtOGQ5Yy00ZTc1LTljNDAtMTNmNTNjOWZiMWJi

Segundo episódio:

https://www.ardmediathek.de/video/krimis-im-ersten/lost-in-fuseta-2-ein-krimi-aus-portugal/das-erste/Y3JpZDovL2Rhc2Vyc3RlLmRlL2tyaW1pcy1pbS1lcnN0ZW4vMDg3MjI3OWUtMjJiNy00MWNjLWFhOTUtOWI3NzgwZDU3NjRj

 

A Livraria Martins

jpt, 26.08.22

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(Como ontem se inaugurou a Feira do Livro de Lisboa deixo este postal sobre uma livraria que acabo de conhecer)

Vim a Lisboa para a ver, querida e antiga amiga, companheira em Moçambique, ela andarilha lá e no mundo, agora regressada após meses, quase um ano, na "Pérola..." e a calcorrear os "distritos", para minha - até dolorosa - inveja. Abraçamo-nos, eu sigo no defeito da franqueza e "estás óptima", ela riposta, impiedosa connosco num "estou nada, estou velha!", eu rio-me, pois por mim concordo (e muito) mas não nela, que sempre lhe noto o viço do olhar límpido, esse daqueles que ainda se conseguem encantar. Com lucidez...

Sentamo-nos na esplanada, ali junta à Avenida de Roma, as cercanias dela. Encaramos o célebre - pois "dos tempos" - "Cockpit", enfrenta ela um cocktail vistoso, eu a monástica imperial, e juntos depenicamos um qualquer petisco elegante. E mergulho, até sôfrego, no que me narra sobre esse do Niassa ao Maputo que agora voltou a percorrer, dos trâmites do seu enérgico trabalho, e uns laivos (a meu pedido) sobre os amigos comuns. Não vertemos saudosismo - o muito que então nos foi bom assim nos ficou -, ambos isentos do cândido sonho de regressar ao passado. Temos, sim, interesse: o meu nela, e seus passos, e espero que tal lhe seja recíproco, apesar do baço que manco. E sobre o país, daqueles tão enviesados rumos e esdrúxulos discursos, isso tudo que quando por lá até deixamos de estranhar mas que - e felizmente - nunca se entranhou.

 

 

Manguitos de Rafael Bordalo Pinheiro

jpt, 23.07.22

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Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, edição do Museu Bordalo Pinheiro, 2022.

Rafael Bordalo Pinheiro é muito invocado, dito "fundador da caricatura nacional" - para além de minudências cronológicas que lhe encontram "antecessores" - respeitado, amado até, como "cidadão pleno e libertário" e nisso precioso "coleccionador de fraquezas" (como disse João Paulo Cotrim), dessas que lhes eram coevas e as quais dizemos ainda actuantes nesta nossa (gasta) Pátria.

Mas, na realidade, Bordalo é-nos algo desconhecido, até mesmo obscuro. Um pouco como aquele avoengo presente em tantas famílias, evocado em convívios sazonais através de episódios que se querem risonhos ou verdadeiros exempla, historietas mais ou menos inventadas acontecidas nos Dembos e Angónias, entre os seringueiros amazónicos, baleeiros atlânticos, filões de volfrâmios ou, também, naqueles das andanças "a salto", tudo isso sem que nós, a sobrinhada, de facto perceba quem foram tais estranhos aventureiros "tios-avôs" e o que lhes foi acontecendo e como se fizeram acontecer.

Muito desse afastamento se deve a que as obras de Bordalo eram contextualmente enraizadas, raras as personagens por ele criadas - e estas sempre simbólicas -, pois se tratava de um universo centrado na vida política e social portuguesa do fim do século XIX. E, sendo aqueles quadros quase sempre de uma rica encenação, pela pluralidade de elementos expostos, a sua fruição convoca vários níveis de leitura, apelando a um conhecimento mais amplo, seja das personalidades caricaturadas seja dos contextos de cada uma das investidas de Bordalo Pinheiro. Digo-o também por mim, herdeiro de três volumes da "Pontos nos ii" oriundos de bisavô paterno, cuja leitura exige uma nada apressada decifração.

E é devido a essa distância para com o mundo de Bordalo Pinheiro, encapuçada pela aparente similitude das invectivas aos poderes que dele queremos recuperar, que são preciosos os livros a ele dedicados, pela descodificação daqueles contextos, afinal mais diferentes deste hoje do que poderá parecer a leituras de mera adesão. Através deles poderemos perceber bem melhor as suas obras, e, sem juizos anacrónicos (auto)punitivos - como esses que tanto estão na moda -, fruir do verdadeiro encanto que a compreensão permite. Por exemplo, apreender a profusão das suas referências a África e às putativas colónias portuguesas percebendo-o também como "Romântico, positivista e mação, agarrado às colónias como a um simbólico pé-de-meia, boémio, sexista, sentimental e altivo, cioso da dignidade nacional, intuitivo e de repentes, Raphael Bordallo Pinheiro é de facto "o português tal e qual"", como, há mais de três décadas, escreveu Ângela Guimarães em "Bordallo: Face a um Mundo em Turbilhão"*, uma investigação dedicada à refracção no autor da mentalidade colonial e dos anseios africanistas da época, algo que Guimarães cumpriu sem se desviar por bacocos dislates punitivos mas sim olhando Bordalo como uma voz trangressora no seu tempo. Ou essa reedição aquando do centenário da sua morte (2005), com textos de João Paulo Cotrim, do "Álbum de Glórias", que é preciosa para a identificação de inúmeras personalidades caricaturadas e, também, por fazer reviver a prosa de Bordalo e seus corrosivos colaboradores (em particular a de Guilherme Azevedo e a de Ramalho Ortigão).

Enfim, várias obras têm sido dedicadas ao autor. Mas ainda assim é muito atractiva esta nova colecção que o Museu Bordalo Pinheiro começou agora a publicar, pequenos volumes (de pequenas tiragens, 250 exemplares) com incursões temáticas àquelas obras. Comecei por este Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, apresentado este mês. O qual comporta uma bem conseguida mescla entre a importância da gestualidade como comunicação não-verbal intra-comunitária e a a genealogia do carismático "Zé Povinho", "[Essa] criança que tem hoje perto de cinquenta anos de idade! (...) Nele concorrem em conjunto todas as partes que nos enlevam e encantam no bom menino - casta inocência, temor de Deus, obediência a seus mestres, humildade, nariz por assoar, dor de barriga às segundas-feiras e santíssima ignorância. Aos carinhosos desvelos de sua extremosa mãe, a Carta, e de seu galhofeiro pai, o Parlamentarismo, se deve o estado miraculoso de infantilidade que tão vantajosamente recomenda este vulto à simpatia e ao espanto de todo o mundo" (Ramalho Ortigão, dito João Ribaixo no "Álbum de Glórias"), descrição bem apropriada a um "Zé Povinho" que Bordalo, apesar da simpatia que lhe votava, invectivava por não se erguer como Povo, preguiça que considerava desamor à Pátria.

Ora vem esta sopesada mescla a propósito do célebre gesto do manguito, o qual sempre associamos, no nosso real afastamento à obra de Bordalo Pinheiro, a uma prática regular, desabafo até contestatário, do "Zé Povinho". Para depois, neste livro, percebermos que, afinal, "No que diz respeito aos gestos obscenos, Rafael Bordalo Pinheiro é muito discreto, evitando representá-los de modo explícito" (49). Ou seja, e contrariamente à nossa ideia feita, não há manguitos (literais, no sentido gestual) nas caricaturas - esse registo mais brejeiro apenas veio a surgir na cerâmica de Bordalo. E foi esta, torna-se assim evidente, que veio a moldar a nossa apreensão, a nossa memória, do trabalho gráfico do autor.

Fosse apenas por isso, por este desvendar, este livro seria já precioso. Mas há bem mais assuntos de interesse - até porque profusamente ilustrado (como não poderia deixar de ser), com explanações sobre o conteúdo de cada uma das ilustrações. E o mesmo se aplicará, presumo, aos outros exemplares desta colecção, um fio que será uma constante "reintrodução" a Rafael Bordalo Pinheiro, esse filão de entendimento sobre, 

"N'este país de compadres; / E de ministros d'estado, / E de vates trovadores, / E de tocadores do fado, / E de casas de penhores, / E de grandes orçamentos, / E de namoros aos centos, / E de parvonezes todos, / E de cem milhões de alferes, / E de homens que são mulheres, / E de eleitoraes engodos; (...)" ["Neste país de compadres e d'eleitoraes engodos", em O António Maria, 28 de Junho de 1883, reproduzido na p. 50), 

pois, se difererenças há em relação àquela época, e imensas há, as semelhanças também vigoram. E muito as incompreendemos quando não conseguimos perceber os detalhes da obra de Bordalo, na tal descodificação. Ou seja, urge ir ler os pequenos volumes desta colecção, a preço bastante acessível.

* Eu só tenho uma fotocópia de texto prévio, "O Riso e a Angústia", que não tenho a certeza de corresponder totalmente ao livro publicado em 1997.

Adicção que soma e segue

Maria Dulce Fernandes, 20.07.22

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Fiquei radiante por poder partilhar com o mundo algumas linhas que me chegaram em mãos que tratam de resumir a verdadeira essência de "Os Maias" e poderão ser de extrema relevância para quem não comungue da otarice de almas que, como eu, já folhearam por mais de quantos dedos uma mão tem, as seiscentas e setenta e quatro páginas e meia da obra capital de um dos maiores, senão mesmo o maior autor português contemporâneo. 

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Tenho de confessar a minha adicção pelos livros de Eça; é o primeiro passo dos doze que percorro até, não direi à cura total, mas até conseguir algum controle na compulsão que me arrasta diariamente até velhas, obscuras, tortuosas e sombrias prateleiras onde há sempre um calhamaço que me tenta e onde a fraqueza da carne e do espírito acabam por sucumbir derrotadas, uma e outra vez.
No programa dos doze passos que se resume em experienciar um despertar espiritual, fazer um inventário pessoal e reparar danos cometidos sob a influência do viciante, é importante impor a distância necessária ao auto-controle.
Por me encontrar já a meio do caminho da recuperação - que isto dos caminhos nunca tem fim, pois que por cada passo em frente sempre acabamos por retroceder dois - e por já me ser permitida alguma leitura supervisionada pelo sponsor, coisa leve como resumos, o Borda d'Agua, a revista Caras, a Hola¡ e alguns blogs mais pictóricos, achei por bem quinhoar convosco o meu percurso, para que através dele me vejam como a pessoa que fui, má, destrutiva, egoísta, vegetando diariamente de e para o vício, e possam dar a mão à pessoa que hoje sou, boa, empreendedora, altruísta, risonha - não fora o riso a mais antiga e mais terrível forma de crítica, talvez mais onagra, mas consciente da minha consciência.
Desconstruindo um notório aforismo, não sou artista, mas sou crítica: tenho análise e emoção... possuo também pensamento próprio, que é livre como só o vento o consegue ser.
 

Na morte de Maria de Lurdes Modesto

jpt, 19.07.22

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Morreu Maria de Lurdes Modesto, a quem o país tanto agradece, pela investigação, pelos ensinamentos, pela divulgação - que nos legou em extensa bibliografia. Posso falar por experiência, conheço bem alguém que com ela aprendeu - e que, também por isso, magnífica mesa proporcionava em sua casa. Há uns poucos anos fui a um debate no enérgico Museu Bordalo Pinheiro, o tema era a culinária no final de XIX e sua refracção na literatura, e a Senhora uma das três intervenientes. Então já tardo octogenária tinha entusiasmo, energia, verve e simpatia verdadeiramente encantadores. Deixo a minha vénia, de gratidão e respeito.

Das ditaduras

jpt, 13.07.22

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Abaixo o Pedro Correia questiona-se sobre os que indiferenciam democracias de ditaduras. Tal não se deve a um mau juízo ou a desconhecimento pois, por fluida que por vezes seja a distinção num ou outro caso real, essa indiferenciação é uma posição de princípio por parte daqueles que são adversários da democracia, os crentes das virtudes das ditaduras, e por estas ansiosos. Aquilo que por vezes pode acontecer é ficarem os amigos da democracia algo confundidos, desprovidos de argumentação diante da propaganda alheia e seus veementes ecos nos adeptos da autocracia. Isto porque os contextos ditatoriais não só têm conteúdos diferentes como estes se têm vindo a alterar. 

Nem que seja por isso, para aclarar algumas ideias que são mais pressentidas do que sistematizadas (falo por mim mas creio que não vou só nisso), é interessante ler este pequeno livro, "O Regresso das Ditaduras?" de António Costa Pinto, uma edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, daquela tão simpática colecção pois segue ao custo de 3,15 euros por volume e se vende no Pingo Doce - isto para além da(s) Feira(s) do Livro(s) se aproximar(em).

O livro já é uma breve (e acessível) súmula da literatura sobre o assunto, pelo que seria descabido fazer eu aqui uma súmula da súmula, mas ainda assim deixo como lamiré algumas ideias que lá colhi. O autor - que há quarenta anos foi meu professor de História Contemporânea e que julgo depois ter enveredado pelo rumo da ciência política - lembra que tem vindo a aumentar o número de Estados sob regimes ditatoriais, num refluxo da "terceira vaga de democratizações" cerca do fim do milénio. E constata que não só têm uma grande variedade institucional como se afirmou um modelo dominante, pois se [tra]"vestem como democracias" , surgindo como "regimes híbridos", "autoritarismos competitivos" - têm eleições multipartidárias e não têm censura rígida mas controlam a informação e manipulam os resultados eleitorais (p. 8). E encontra-lhes traços comuns: uma forte (e crescente) personalização do poder; uma vincada des-ideologização, comparativamente às ditaduras passadas (com particular contraposição face às comunistas e fascistas de XX) - ainda que convocando um nacionalismo e apelando à "ordem e progresso" como função dos regimes; a tal mimetização da parafernália institucional (parlamentos, eleições, "livre" imprensa, etc.) das democracias; uma menor repressão política face às do passado, de cariz mais cirúrgico e preventivo; uma censura de informação menos directiva, num "pluralismo limitado"; uma generalizada integração nos mecanismos de mercado como fundamento da ordem política (pp. 85-88). Mais ainda, recorda que estas ditaduras se vão estabelecendo muito mais pela erosão dos mecanismos democráticos do que por rupturas imediatas revolucionárias. Isto explica Costa Pinto em cerca de 80 páginas, num formato de livro de bolso. Justifica-se ler.

Deixo apenas uma adenda: o livro foi publicado em 2021. O seu autor é relativamente conhecido - não só como renomado académico mas também porque presença habitual na televisão. A edição é popular - barata, da Fundação ligada à marca Pingo Doce, de uma colecção que já faz parte do horizonte do público leitor. Ou seja, não é normal que livros destes sejam totalmente ignorados. Ora Costa Pinto recorre a vários exemplos de regimes autocráticos, pretéritos e actuais. Destes últimos na Europa fala da Bielorússia, da Turquia e da Hungria. Mas também recorre, e com insistência, à Rússia de Putin como exemplo da ditadura. Ora, é verdadeiramente surpreendente que um argumento destes num livro destinado ao grande público, de um autor conhecido, tenha passado incólume ao crivo crítico dos nossos generais Branco, Costa e Cunha, do activo ex-deputado António Filipe e do intelectual José Goulão, para não falar de outros do mesmo ramalhete. Distraídos estavam diante desta manobra, insidiosa, da propaganda capitalista...

Há vida para além do défice

jpt, 07.05.22

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Volta e meia surgem relatórios, estatísticas, ensaios sobre as "práticas culturais" dos portugueses - nesta era em que a "Educação para Cidadania" liceal impinge aos petizes o mito do "empreendedorismo" passou-se a chamar-lhes "consumo cultural". Nos cabeçalhos e nos rescaldos dessas apresentações surgem sempre quase escatológicos bramidos sobre a escassa leitura que os compatriotas praticam, que seguimos alheios aos livros. Logo vários apontam uma causa fundamental para tal "défice", o elevado preço dos livros... Pois julgo que "há vida para além do défice".
 
A semana passada fui até à capital e cruzei uma "Feira da Bagageira", realizada lá na minha freguesia. Há quem nelas queira recordar aquilo da velha Feira da Ladra, na qual vendi penduricalhos em 1980-1. Mas estas são cinzentas sequelas, sem o fervilhar até boémio e com pitadas de marginalidade daqueles tempos da Feira, na algazarra de amontoados de quase-tudo à disposição dos porta-moedas de aficionados, amadores, antiquários ou meros passeantes.
 
O que agora vi foram monótonos mostruários de um fim de era: vendedores modorrentos, encanecidos quase todos, e de ares entristecidos mostrando uns cabides de trapos de contrafacção, alguns fingindo-se "vintage" por usados que já surgem; várias resmas de LP's, esses que todos outrora acumularam e que julgam serem agora apetecíveis a uma (já extinta) febre "retro" de vinil; vasilhame variado e demais adjacentes, loiças que de típico só lhes sobra o piroso; alguns metais incógnitos - na excepção de um idoso que ainda apresentava uma fileira de velhas moedas (prenúncio de que um dia se venderão velhos cartões "multibanco" nestas feiras?). As bancas mais animadas, e nisso decerto que lucrativas, eram as dos eternos "comes e bebes", a bifana, a febra, presumo que o coirato, que esses não passam de moda, e felizmente, mais as sacrossantas "minis".
 
E no meio de tudo isto, bem visíveis pois quase banca sim, banca sim, lá estavam os caixotes de livros usados à venda. Pilhas e pilhas. Das edições populares desde os 1960s até agora mesmo. De usados mastigados até usados virginais, manuais decrépitos, banda desenhada popular, dicionários e enciclopédias agora inúteis, livros de bolso da Verbo, da RTP, do Público e tantos outros, ainda um ou outro sobrevivente do PREC - do Engels a Franco Nogueira -, cosmética e "cosmologia", tratados "ajuda-te a ti mesmo" e os de "auto-ajuda" mais recente, talvez mesmo o Dale Carnegie mas este não afianço, as "obras completas" de Júlio Dinis, Eça de Queirós, e as "incompletas" de Victor Hugo em especiosas edições de capa dura, cores berrantes e debruadas a doirado, que tão bem fica(va)m nas estantes quando estas ainda existiam, Hupert Reeves e Carl Sagan, histórias universais e locais. E continue quem quiser a dar exemplos que de tudo se poderá encontrar...
 
Tudo isto a 33 ou 50 cêntimos o livro. Alguns, repito, algo escafiados. Outros intocados, após décadas de distraídas prateleiras. Enfim, a gente não lê porque não nos apetece. E não nos chateiem por causa disso.

Dia mundial do livro

João Sousa, 23.04.22

«Fargas meteu as mãos nos bolsos das calças e passeou junto dos livros, oscilando sobre a perna inválida, olhando-os um a um. Parecia um magro e desastrado Montgomery que passasse revista às suas tropas em El Alamein.

- Às vezes nem lhes toco nem os abro. - Detivera-se, inclinando-se para reajustar um volume na sua fila, sobre a velha alcatifa. - Limito-me a limpar-lhes o pó e a contemplá-los durante horas. Conheço em pormenor o que há sob cada encadernação (...)

Corso folheou um livro. Era um exemplar magnífico, também com margens muito largas. Devolveu-o ao seu lugar com cuidado antes de se erguer, limpando os óculos com o lenço. Aquilo era capaz de provocar suores ao mais frio.

- O senhor não está bom da cabeça. Se vendesse isto tudo, não teria problemas económicos.

- Eu sei. - Fargas inclinou-se para rectificar imperceptivelmente a posição do livro. - Mas se vendesse isto tudo, já não teria razão para continuar a viver e portanto ser-me-ia indiferente deixar de ter problemas.»

Arturo Pérez-Reverte, O Clube Dumas

Um livro, no dia do livro - Os últimos dias de Immanuel Kant

beatriz j a, 23.04.22

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A propósito de andar a trabalhar a ética kantiana nas aulas fui reler este livrinho de, De Quincey, sobre os últimos dias de Kant.

De Quincey (autor do famoso, Confessions of an English Opium-Eater (1821), o primeiro relato, na primeira pessoa, sobre a dependência de opiáceos, neste caso do láudano) limita-se, praticamente, a traduzir o livro de Wasianski, um grande amigo de longa data de Kant que o acompanhou nos últimos anos de vida e a quem se deve a maioria das histórias que se contam sobre a pessoa de Kant. No entanto, mesmo na Alemanha, é este livro de De Quincey e não o de Wasianski que é apreciado e editado.
 
Como diz, De Quincey, logo nas primeiras linhas, tem-se por certo que qualquer pessoa medianamente instruída reconhecerá algum interesse na história pessoal de Immanuel Kant, dado ter sido um dos maiores filósofos de sempre, um pensador que influenciou a maioria das áreas do conhecimento humano.
 
Kant nasceu e viveu em Königsberg, antiga capital da Prussia Oriental, anexada pela URSS após a Segunda Grande Guerra, depois expurgada de alemães e colonizada com russos soviéticos, e que é hoje um enclave russo, chamado Kaliningrado, entalado entre a Lituânia e a Polónia, à borda do Mar Báltico.
 
Kant foi um filósofo com um intelecto formidável, um homem de hábitos muito rígidos, sistematizados intencionalmente com princípios de racionalidade para servirem à manutenção da saúde e à máxima produtividade filosófica, de maneira que é muito interessante, neste livrinho, vermos o homem por detrás do filósofo.
 
O livro tem partes cómicas, como a cena de Kant a ler, à noite, com a cabeça demasiado próxima das velas e pegar fogo à touca e tem partes comoventes como o relato das estratégias que adoptou para manter alguma normalidade de vida, quando se apercebeu que estava a ficar senil, uma tragédia para um indivíduo com a sua natureza intelectual. 
 
Infelizmente, nos dias que correm, Kant é muito criticado mas, a meu ver, pelas razões erradas, quer dizer, criticam-no, não no valor das suas ideias, que se mantêm em tantas áreas (por exemplo, o opúsculo de Kant, «A Paz perpétua», de 1795, defende a possibilidade de paz, a relação necessária entre ética e política por intermédio do Direito Internacional e desenha um projecto de união de todos os povos na defesa dos seus territórios que está na origem do que hoje é a ONU),  mas por ter sido um homem machista (quem não o era no seu tempo? Ainda hoje a maioria, sobretudo de uma certa idade, o é), por ter sido etnocêntrico, não em princípio mas em prática e por aquilo que fizeram, em termos de política europeia, com o seu «criticismo racionalista».
 
Enfim, o livrinho é pequeno e lê-se muito bem enquanto se bebem duas chávenas de chá.
 
texto também publicado no blog azul.

Diferentes capas do mesmo livro

Pedro Correia, 02.04.22

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Não há fome que não dê em fartura. Durante longos anos, a obra de André Gide esteve ausente do mercado editorial português apesar de ser um escritor galardoado (em 1947) com o Prémio Nobel da Literatura. Sublinho: da Literatura - e não de Literatura, como agora é moda grafar-se copiando os brasileiros. Fuga sem sentido à norma, pois não dizemos Nobel de Economia nem Nobel de Paz.

De repente, as livrarias são inundadas por títulos de Gide, vários dos quais inéditos. Motivo: a obra deste autor, falecido em 1951, acaba de passar para o domínio público. Tal como tinha sucedido há meses com George Orwell. Editá-lo tornou-se mais fácil e muito mais barato.

Inverte-se a situação: antes havia escassez, agora há excesso.

Só o romance O Imoralista, publicado originalmente em 1902, acaba de gerar três versões quase simultâneas em Portugal. Reproduzo aqui as capas das editoras E-primatur, Cavalo de Ferro e Minotauro.

Há muito que sublinho a importância de uma boa capa para valorizar um livro. Lamentavelmente, é uma arte que parece condenada à extinção: hoje basta pesquisar-se num banco de imagens na internet e recolher uma fotografia - com frequência do próprio autor - para fazer de conta que existe capa. A ilustração deixou de ser regra: tornou-se excepção.

Uma verdadeira capa atrai, não afugenta. Capta a atenção por ser diferente, não banaliza nem vulgariza. Até porque, em boa medida, a arte pode - e deve - começar logo aí. Como instrumento de sedução.

Cada leitor que julgue por si, dizendo qual destas capas do mesmo livro prefere.

Dois acontecimentos editoriais

Pedro Correia, 31.03.22

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São de fresca data, merecem registo e aplauso. Refiro-me a dois verdadeiros acontecimentos no nosso mercado literário.

O primeiro, lançado ainda em Dezembro, é o monumental volume (809 páginas) dos Diários de Sylvia Plath, incluindo os trechos expurgados pelo marido da malograda escritora, Ted Hughes, e recuperados em 1999, após a morte deste. O público português dispõe enfim desta obra no nosso idioma: são oito diários principais, redigidos entre 1950 e 1959, e quinze fragmentos de cadernos de apontamentos, iniciados em 1951 e prolongados até 1962 - meses antes do suicídio da autora de Ariel. Lançamento com a competência a que a Relógio d'Água já nos habituou. Destaco a excelente tradução de José Miguel Silva e Inês Dias.

O segundo, chegado às livrarias já este mês, é História de um Homem Comum (título original: Coming Up for Air). Único dos seis romances de George Orwell que permanecia inédito em Portugal. Elaborado em 1938, pouco depois da saída do escritor de Espanha, onde combateu nas fileiras republicanas, é uma sátira à sociedade britânica das décadas iniciais do século XX. «Um romance notável, ao mesmo tempo divertido e dolorosamente verosímil», como assinalou à época o jornal australiano The Age. Edição da E-primatur, outra chancela que prima pela qualidade. Com tradução digna de elogio de Jacinta Maria Matos, que também assina a introdução. 

Obras que tenho o maior gosto em saudar aqui. Os editores, Francisco Vale e Hugo Xavier, merecem um cumprimento deste leitor atento e grato.

Leitura recomendada para entender a guerra na Ucrânia

jpt, 03.03.22

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Há imensas fontes para se tentar perceber a situação na Ucrânia. Desde logo as inúmeras televisões - por hábito vou mais à France 24 e à BBC World News mas a DW também me serve. Um dos nossos generais comentadores televisivos recomenda a fiabilidade da televisão estatal da autocracia catariana. Enfim, há para todos os gostos.
 
Outras estações serão menos recomendáveis: um popularíssimo cómico português acaba de espezinhar a cobertura da guerra do canal rival, feita pelo antigo director do canal onde há duas décadas começara a sua carreira televisiva e que o terá dispensado - "Cá se fazem, cá se pagam", "a vingança é um prato que se serve frio" e se a guerra ucraniana é mais sanguinolenta do que a do "millieu" lisboeta os combatentes não serão menos sanguinários. E aqui o povo ri e aplaude, não faz manifestações de oposição aos tiranetes.
 
Em "papel" (digital) há imensa coisa, e farto-me de ver recomendações de literatura contextualizadora/explicativa do processo actual, entre as quais abundam as que remetem para o omnipresente Kissinger, cuja pertinência nestas matérias costuma ser idolatrada - e não serei eu o iconoclasta.
 
Dada essa profusão de palpites até pedagógicos também faço uma proposta aos interessados no entendimento da crise na Ucrânia, algo acessível e que se poderá ler neste fim-de-semana.
 
Trata-se deste "O Americano Tranquilo" de Graham Greene, um pequeno romance que explana com detalhe algumas das dinâmicas que promoveram este actual conflito. Será muito de interesse principalmente para quem se interrogue sobre a intervenção do mundo "ocidental", sem com isso se sossegar na demonização dos malditos "capitalistas, imperialistas, ocidentais" (e, agora, no pós-Greene, "neoliberais" e "brancos").
 
Adianto, como ressalva da minha parcialidade, que este é o "livro da minha vida" (o que não quer dizer "o melhor livro"), pois tendo-o lido e relido na adolescência logo percebi que eu era aquele protagonista Fowler, o que reafirmei nas várias leituras ao longo da vida. Não como alter ego, mas sim como constatação de uma evidente predestinação. Algo que aliás se cumpriu: só não tenho uma namorada mais nova, que me desame e que de mim dependa economicamente. Mas isso é de somenos, pois o estado é o mesmo. (Tanto assim que até tive um blog chamado Rue Catinat).
 
Enfim se tiverdes curiosidade sobre este caso ucraniano ide ler o tal "O Americano Tranquilo". E também percebereis muito mais coisas, como bónus.
 
(Nota: há dois filmes que não fazem justiça ao livro. Um suficiente + (apesar) de Mankiewicz; um suficiente - (nota puxada para cima) de Philip Noyce. Convém evitar vê-los, pelo menos antes da leitura)

Os melhores livros do meu ano (3)

Pedro Correia, 15.02.22

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À medida que os anos passam e as leituras se acumulam, cresce a apetência por revisitarmos obras que nos cativaram em décadas precedentes. Seja no domínio da ficção, seja em qualquer outro ramo literário.

Tem-me acontecido isso. E a tendência acentou-se em 2021, também por causa dos extensos períodos de confinamento vigentes em grande parte deste ano, que deixa poucas saudades. Neste contexto, a literatura tornou-se num passaporte para outras paragens. Mesmo quando existem impedimentos para a viagem física, podemos embarcar sempre na viagem literária.

Foi assim que reforcei o meu gosto pela releitura. Nunca dei o tempo por mal empregue neste reencontro com livros meus amigos. Sem necessitar de máscara ou distanciamento físico - a que alguns imbecis continuam a chamar «distanciamento social», incapazes de perceber a diferença entre uma coisa e outra.

Partilho convosco a lista dos dez melhores livros que fui relendo no ano que terminou: seis romances ou novelas de autores portugueses, dois romances estrangeiros, um ensaio literário e um diário. Por ordem alfabética, mantendo o critério assumido aqui e aqui.

 

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A CIDADE DAS FLORES, de Augusto Abelaira (1959). Lisboa transposta para Florença, no auge do fascismo, em 1939. O autor concebeu este cenário italiano, vinte anos antes, para ludibriar a censura salazarista. É o romance de uma geração confrontada com esta dúvida: ou envolve-se num combate talvez desesperado pela liberdade ou verga-se ao imobilismo.

 

A MISSÃO, de Ferreira de Castro (1954). Admirável novela do criador d' A Selva em torno de um dilema ético vivido numa missão católica em França, durante a ofensiva nazi em 1940. Como devem comportar-se os discípulos de Cristo perante um risco de ataque aéreo? Um padre ousar questionar o seu superior em nome de um bem maior que a segurança.

 

ADEUS, PRINCESA, de Clara Pinto Correia (1985). Em formato policial, um dos melhores romances portugueses da década de 80. Com Beja, Cuba e Baleizão como cenário. Funciona hoje também como documento daquela época num Alentejo que vivia a ressaca da revolução e o declínio da hegemonia comunista antes da entrada de Portugal na CEE.

 

CÂNTICO FINAL, de Vergílio Ferreira (1960). Um pintor, sabendo-se condenado pela doença, recolhe à aldeia natal para concretizar o seu último projecto: decorar uma capela há muito encerrada, onde quer deixar a sua marca artística. Enquanto vai lembrando as etapas mais relevantes da sua vida, dos sonhos da juventude às cicatrizes da idade adulta.

 

CONTA CORRENTE 3, de Vergílio Ferreira (1981). Diário do autor de Aparição que foi muito lido e comentado quando surgiu. Obra inimitável, que assinala o encontro do escritor com camadas mais vastas de leitores, só pode ser hoje encontrada em alfarrabistas. Estranhamente, nunca mais foi reeditada. E não é por falta de qualidade, longe disso.

 

DOMINGO À TARDE, de Fernando Namora (1961). Clarisse, jovem com leucemia prestes a despedir-se da vida, apaixona-se por Jorge, o médico que tenta devolver-lhe a saúde. Namora, que exerceu cínica no Instituto Português de Oncologia, assina aqui um dos seus melhores romances. Que poucos anos depois deu origem a um excelente filme.

 

GUIA PARA 50 PERSONAGENS DA FICÇÃO PORTUGUESA, de Bruno Vieira Amaral (2013). Um dos melhores ensaios literários surgidos na última década. De um escritor que também demonstra ser um leitor atento e meticuloso. Com o mérito acrescido de nos chamar a atenção para obras há muito esquecidas e que merecem ser revisitadas.

 

O BARÃO, de Branquinho da Fonseca (1942). Uma das raras incursões portuguesas na chamada novela gótica, marcada por uma atmosfera de mistério e assombro, que nunca chega a ser desvendada por completo. António José Branquinho da Fonseca foi mestre da ficção curta, mais psicológica do que social. Esta é considerada a sua obra-prima.

 

O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO, de John Le Carré (1963). Mal foi publicado, tornou-se um clássico instantâneo. Cada vez mais revalorizado à medida que o tempo passa. Ponto cimeiro de um subgénero na literatura de espionagem - a que traça um retrato impiedoso dos meandros da Guerra Fria. Com o sinistro muro assombrando a noite de Berlim.

 

SAYONARA, de James Michener (1954). Singular romance sobre o Japão ocupado por forças dos EUA nos anos subsequentes à II Guerra Mundial, quando outro conflito bélico já se desenrolava, na península da Coreia. Neste cenário, um oficial norte-americano envolve-se com uma actriz nipónica. Desafiando convenções e preconceitos atávicos.

Os melhores livros do meu ano (2)

Pedro Correia, 14.02.22

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Como referi anteriormente, há muitos anos que não lia tantos livros. Este biénio marcado pela pandemia, tanto em 2020 como em 2021, devolveu-me aos dias da adolescência em matéria de leituras. Se há males que vêm por bem, este foi um deles.

Cada vez tenho menos dúvidas: ler é a actividade intelectual que mais nos permite contrariar tendências dominantes, rejeitar o espírito de rebanho ou alcateia e mergulhar na subjectividade - no fundo, aquilo que nos diferencia dos restantes mortais. A literatura faz-nos viajar a qualquer momento no tempo e no espaço, abrindo-nos horizontes de toda a espécie. Graças a ela, ficamos a saber o que nos antecedeu e a conhecer a face oculta do que nos rodeia. E passamos até a ser iluminados sobre nós próprios.

Ontem destaquei aqui dez obras entre as cem completas que pude ler no ano passado. Hoje trago outras dez, mas só de autores estrangeiros: sete romances ou novelas, uma biografia, um ensaio satírico e um volume de crónicas memorialísticas. Alinhados também por ordem alfabética, para maior facilidade de consulta.

 

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A LARANJA MECÂNICA, de Anthony Burgess (1962). Poderosa distopia situada num futuro talvez mais próximo do que possamos imaginar. Trabalho notável também ao nível da linguagem: Burgess criou dezenas de neologismos que serviam de senha aos jovens delinquentes, violentos por natureza num Estado destituído de princípios morais.

 

A PRAGA ESCARLATE, de Jack London (1912). Como sobreviverá o ser humano num mundo apocalíptico? London morreu muito antes da bomba atómica, mas pressentiu um vírus letal com efeitos pandémicos nesta novela que nos fala do fim da civilização e do regresso do homem ao estado de natureza mais selvagem. Obra-prima, no tema e no estilo.

 

A REBELIÃO, de Joseph Roth (1924). Um olhar realista e sem complacência sobre a ruína social que submergiu a Europa nos anos subsequentes à I Guerra Mundial. Tendo como protagonista um antigo combatente austríaco mutilado no conflito que passa a lutar pela sobrevivência diária. Num outro combate, ainda mais implacável do que o anterior.

 

HEMINGWAY EN CUBA, de Norberto Fuentes (1984). Uma das melhores biografias do autor de Adeus às Armas, centrada nas duas décadas em que se radicou numa quinta a 15 km de Havana e da qual só saiu pouco antes de Fidel Castro proclamar a sinistra divisa «socialismo ou morte». Uma obra lamentavelmente inexistente em português.

 

O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA, de Gabriel García Márquez (1985). Talvez o melhor romance do talentoso autor colombiano, à época já galardoado com o Nobel da Literatura. Uma atribulada história de amor que resistiu a todas as vicissitudes e todas as tempestades, comprovando que o fracasso pode ser só uma palavra no dicionário.

 

O CONSERVADOR, de Nadine Gordimer (1974). Meticulosa digressão ao quotidiano dos anos de chumbo do apartheid, numa África do Sul já condenada pela comunidade internacional mas que teimava em resistir aos «ventos da História». Quando um próspero proprietário rural branco se viu abandonado pela própria filha, avessa ao regime racista.

 

O REI FAZ VÉNIA E MATA, de Herta Müller (2003). Galardoada em 2009 com o Nobel da Literatura, esta escritora nascida numa comunidade germânica da Roménia sentiu na pele a repressão da ditadura comunista de Ceausescu. Fala-nos dessa amarga experiência nesta estimulante colectânea de crónicas e pequenos ensaios autobiográficos. 

 

OS TEUS PASSOS NAS ESCADAS, de Antonio Muñoz Molina (2019). Pode haver um romance português de um escritor espanhol? Sim. Eis a prova, nesta admirável declaração de amor a Lisboa, que já tinha figurado numa das suas primeiras obras. Cidade-refúgio num mundo assombrado pelas catástrofes climáticas e pelo terrorismo global.

 

SEMENTES DE VIOLÊNCIA, de Evan Hunter (1954). Um dos melhores romances sobre a delinquência juvenil, aqui centrada numa escola pública de um bairro pobre de Nova Iorque e nos desafios que coloca a um professor no início da profissão. Adaptado no ano seguinte ao cinema, com merecido êxito de público e de crítica.

 

WOKE, de Titania McGrath (2019). Demolidora denúncia do extremismo liberticida que vai lançando anátemas, impondo dogmas e ditando a censura em nome da correcção política. Titania é personagem inventada pelo comediante britânico Andrew Doyle, que ridiculariza o sectarismo destes novos talibãs que tudo querem proibir.

Os melhores livros do meu ano (1)

Pedro Correia, 13.02.22

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Já vem tarde, mas creio que ainda chega a tempo. Faço um balanço das minhas leituras feitas em 2021, Ano II da Pandemia, muito marcado pela imobilidade forçada, e que, entre as raras compensações, me permitiu usufruir de mais horas dedicadas à leitura. Como num regresso tardio à adolescência, quando tinha tempo para tudo - incluindo para devorar qualquer livro que me chegasse às mãos.

Tal como no ano anterior, em 2021 consegui ler cem livros completos. Dos mais diversos géneros, mas bastante centrados na literatura portuguesa de ficção do século XX - para tentar dar corpo a um projecto que gostaria de ver materializado em ensaio literário. Não custa tentar, veremos no que dá.

 

Também à semelhança do que já sucedera em 2020, dediquei mais tempo à leitura do que ao cinema, contrariando um hábito há muito enraizado. Nos dias que correm, os filmes interessam-me bastante menos. Porque já vi grande parte do que gostaria de ver - incluindo a esmagadora maioria dos clássicos da Sétima Arte. E também porque nada me atrai hoje na chamada "indústria cinematográfica", precisamente a que domina os circuitos de exibição e comercialização. 

Como acontece com vários dos meus leitores, julgo, vi muito mais séries do que filmes. Não apenas nos canais por cabo mas numa das principais plataformas dedicadas ao género, a Netflix, de que sou assinante periódico. Mas também aqui é necessário peneirar bastante: a maioria da oferta não me agrada. 

 

Tenciono falar delas um dia destes. Agora venho partilho convosco o balanço das leituras, na expectativa de vos deixar sugestões úteis.

Durante três dias, revelarei aqui a lista dos dez melhores destes cem, multiplicada por três: a primeira, já de seguida, respeitante só a autores portugueses. Amanhã virão os autores estrangeiros. Depois de amanhã, recordo os dez que mais gostei de reler. Títulos sempre acompanhados por duas ou três frases sobre cada obra.

Cada lista fica por ordem alfabética. Podia ter sido outro o critério, mas prefiro este.

 

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A CAPITAL, de Eça de Queiroz (1925). Um dos romances menos conhecidos do autor d' Os Maias. E um dos mais cáusticos. Obra póstuma, escrita ainda na juventude, inclui já quase todos os temas dominantes no imaginário de Eça. Com uma personagem inesquecível: Artur Corvelo, homem que tenta tudo para subir na vida. Podia ser hoje.

 

A TORRE DA BARBELA, de Ruben A. (1964). Genial cruzamento dos romances de cavalaria com histórias de fantasmas e folhetins românticos, tudo polvilhado com sátira inteligente e diálogos surrealistas, numa espécie de revisitação burlesca da História de Portugal. Obra-prima de um autor desaparecido demasiado cedo. 

 

ANDANÇAS DO DEMÓNIO, de Jorge de Sena (1960). Mais conhecido como poeta e ensaísta, Sena foi igualmente magnífico prosador. Em formato longo, legando-nos o romance Sinais de Fogo, e também em pequenas mas marcantes narrativas. Este volume comprova-o em contos como "História do Peixe-Pato" e "A Janela da Esquina".

 

ERNESTINA, de J. Rentes de Carvalho (1998). Memórias? Crónica novelesca? Romance de não-ficção, ao jeito de Truman Capote? Pouco importam as etiquetas. Aqui estamos perante literatura digna de quadro de honra. Que é também um retrato impressivo e vívido de um Portugal que muitos não conheceram e já poucos recordam.

 

FELIZMENTE HÁ LUAR!, de Luís de Sttau Monteiro (1961). Teatro é para ver representado em palco, não para ler. Mas, quando o texto tem qualidade, até resulta em leitura proveitosa. É o caso deste drama em dois actos, centrado na execução do general Gomes Freire de Andrade em 1817 - símbolo de outras injustiças e outros tempos de opressão.

 

ÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE, de David Machado (2013). Um dos mais estimulantes romances portugueses surgidos na última década. Muito influenciado pelos road movies, transporta-nos por estrada de Lisboa a Barcelona na companhia de um heterogéneo grupo de amigos e conhecidos. Comovente e divertido: vale a pena seguir viagem com eles.

 

O ESPLENDOR DE PORTUGAL, de António Lobo Antunes (1997). Fulgurante romance que estabelece uma espécie de rima interna com uma das primeiras obras do autor, Os Cus de Judas. Também com Angola como cenário. Mas aqui fala-se de civis, não de militares. E das marcas que a descolonização deixou. Sem temores nem tabus.

 

O MILAGRE SEGUNDO SALOMÉ, de José Rodrigues Miguéis (1975). Injustamente esquecido, é um dos grandes textos de ficção do nosso século XX. Grande em vários sentidos - a começar no número de páginas, cerca de 700. Do final da monarquia ao início da ditadura pós-28 de Maio, com alusões óbvias a Fátima. Merece ser lido e divulgado.

 

O RETORNO, de Dulce Maria Cardoso (2011). Angola, de novo. Na perspectiva de adolescentes que lá nasceram e se viram forçados a embarcar para a distante Lisboa fugindo ao morticínio na Luanda de 1975, pré-independência. Os chamados "retornados". Será possível retornar a um lugar onde nunca se viveu? 

 

TERRAS DO DEMO, de Aquilino Ribeiro (1919). Um dos primeiros e melhores romances de mestre Aquilino, um dos nossos mais inconfundíveis prosadores. Em páginas que nos transportam ao esquecido Portugal do interior serrano, onde as paixões mais primárias e superstições de todo o género andavam à solta, longe de qualquer verniz citadino.

Os psicopatas americanos no Congresso

João Pedro Pimenta, 09.01.22

American Psycho, ou Psicopata Americano, é um romance, chamemos-lhe assim, escrito no início dos anos noventa por Bret Easton Ellis que retrata de forma crua, amoralmente ostensiva e exaustivamente descritiva a idade de ouro dos yuppies na segunda metade dos anos oitenta, no pré-crash de 1987. A narrativa centra-se no modo de vida de Patrick Bateman, um financeiro de Wall Street com menos de trinta anos, de início mais nas suas obsessões materiais - a casa, a decoração, os aparelhos de alta fidelidade, os produtos de beleza e de higiene, o culto do corpo, os fatos, as gravatas, os restaurantes de luxo, as drogas, as amantes e as prostitutas - e mais à frente na sua faceta (ainda) mais negra que justifica o título da obra, tudo entrecortado pelas detalhadas críticas musicais dos músicos favoritos da personagem, que surgem como curiosa Hybris normalmente em situações inesperadas.  

O livro, já de si um sucesso comercial e de crítica, foi adaptado ao grande ecrã em 2000, com Christian Bale a compor um impressivo Bateman num desempenho que projectou a sua carreira. Como já se percebeu, o protagonista espelha uma ganância e uma obsessão materialista tais (de que é exemplo o seu acesso de fúria só porque os correligionários têm cartões de apresentação mais caros e polidos que os dele, o que terá consequências funestas) que é capaz de transformar Gordon Gekko, outra personagem fictícia deste peculiar mundo dos yuppies, num voluntário caridoso. É claro que nem todas as partes das descrições torrenciais de Ellis puderam ser transpostas para o filme, mas o essencial manteve-se.

Uma das alusões na obra a figuras reais, mais presente no livro que na película, é o culto do peculiar universo que rodeia Bateman pelos bilionários ostensivos, em geral, mas com uma especial admiração: Donald Trump. Sim, Trump e as festas que ele dá, os locais que frequenta e os seus carros. Trump é o modelo, a bússola e farol, aquilo que esta mole de gente endinheirada, entediada e amoral pretende ser.

Recordei-me de novo do livro/filme e das suas alusões a propósito do primeiro aniversário da invasão do Capitólio por aquela horda estranhíssima e alucinada, que deixou como resultado cinco mortos e uma imagem de ultraje e vergonha à democracia americana, mais própria de um país do interior de África. Tinham vindo de vários pontos dos Estados Unidos, numa das alturas mais gélidas do ano, para ouvir o discurso de Trump em frente ao congresso. Um discurso aliás de acusação e de incitamento directo contra a câmara legislativa, na senda da não aceitação do resultado das eleições de dois meses antes e das alusões a supostas fraudes. As palavras eram demasiado explícitas para que não se possa ligá-las ao que sucedeu a seguir. Aliás, até parecia que alguns adoradores trumpistas, mesmo deste lado do Atlântico, já o estavam a pressentir, referindo-se a "demonstrações do triunfo do "America First" que iriam surgir em Washington. Até tinham razão, como se viu.

Trump flutua entre um instinto político eficaz e uma mitomania que se torna pública muitas vezes. Era sem dúvida este último sentimento que o dominava naquele dia. Provavelmente, no embalo daquele discurso a meio caminho entre um ditador sul-americano e o general Custer lançando ordens contra os índios, não previu que as consequências pudessem ser tão funestas. Mas foram (por pouco não o foram para o próprio Mike Pence) e são indissociáveis do seu discurso de raiva que levou aquela mole desvairada habituada a "informar-se" no Qanon a cometer um acto tão grotesco.


O contraste entre esta gente e a retratada em American Psycho é gritante, a começar pela forma de trajar e a acabar na capacidade económica. As respectivas mundividências também são abissalmente diferentes. O que as une é a admiração e a confiança quase ilimitada em Trump, embora por razões diversas. Mas é bem mais compreensível vinda dos segundos, já que Trump é ele próprio um símbolo do materialismo (e de muito exibicionismo, como se observa na sua Trump Tower e no seu avião, por exemplo) e da ganância de um lado mais perverso do "sonho americano", além de ser nova-iorquino e de ter vivido quase sempre na Big Apple. Já da parte dos invasores do Capitólio é bem menos lógico, pois falamos de gente mais proveniente do Midwest e do Deep South, menos cosmopolita e mais susceptível a propaganda e com muito menos poder económico. Trump e a fauna de Wall Street estão a anos-luz desta massa de proletários sem rumo, em muitos casos desprezando-os até, e são o oposto aos princípio cristãos (com uma interpretação muito própria do cristianismo, é certo, muito WASP) e aos modelos de família por eles defendidos.

Em suma, Patrick Bateman admira Trump não só pelas suas posses mas sobretudo por não olhar a meios para atingir os seus fins e por possuir um ego do tamanho do mundo - pela fortuna, antes de mais, e depois pelo poder político - o que o faz sentir-se quase uma divindade omnipotente perante os outros seres que o rodeiam. Combina o dinheiro, o poder e o sexo, a avaliar pelas suas bravatas. Aquela frase de que "podia dar um tiro a alguém na Quinta Avenida que não perdia um voto" seria certamente do agrado de Bateman e poderia perfeitamente ser dita por ele. Ao criar a personagem, Ellis pôs muito de Trump nela, embora não pudesse prever que uma tal levaria à invasão do Capitólio. Com a diferença de que Patrick sabe certamente muito mais de música popular contemporânea do que Donald.