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Delito de Opinião

Há vida para além do défice

jpt, 07.05.22

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Volta e meia surgem relatórios, estatísticas, ensaios sobre as "práticas culturais" dos portugueses - nesta era em que a "Educação para Cidadania" liceal impinge aos petizes o mito do "empreendedorismo" passou-se a chamar-lhes "consumo cultural". Nos cabeçalhos e nos rescaldos dessas apresentações surgem sempre quase escatológicos bramidos sobre a escassa leitura que os compatriotas praticam, que seguimos alheios aos livros. Logo vários apontam uma causa fundamental para tal "défice", o elevado preço dos livros... Pois julgo que "há vida para além do défice".
 
A semana passada fui até à capital e cruzei uma "Feira da Bagageira", realizada lá na minha freguesia. Há quem nelas queira recordar aquilo da velha Feira da Ladra, na qual vendi penduricalhos em 1980-1. Mas estas são cinzentas sequelas, sem o fervilhar até boémio e com pitadas de marginalidade daqueles tempos da Feira, na algazarra de amontoados de quase-tudo à disposição dos porta-moedas de aficionados, amadores, antiquários ou meros passeantes.
 
O que agora vi foram monótonos mostruários de um fim de era: vendedores modorrentos, encanecidos quase todos, e de ares entristecidos mostrando uns cabides de trapos de contrafacção, alguns fingindo-se "vintage" por usados que já surgem; várias resmas de LP's, esses que todos outrora acumularam e que julgam serem agora apetecíveis a uma (já extinta) febre "retro" de vinil; vasilhame variado e demais adjacentes, loiças que de típico só lhes sobra o piroso; alguns metais incógnitos - na excepção de um idoso que ainda apresentava uma fileira de velhas moedas (prenúncio de que um dia se venderão velhos cartões "multibanco" nestas feiras?). As bancas mais animadas, e nisso decerto que lucrativas, eram as dos eternos "comes e bebes", a bifana, a febra, presumo que o coirato, que esses não passam de moda, e felizmente, mais as sacrossantas "minis".
 
E no meio de tudo isto, bem visíveis pois quase banca sim, banca sim, lá estavam os caixotes de livros usados à venda. Pilhas e pilhas. Das edições populares desde os 1960s até agora mesmo. De usados mastigados até usados virginais, manuais decrépitos, banda desenhada popular, dicionários e enciclopédias agora inúteis, livros de bolso da Verbo, da RTP, do Público e tantos outros, ainda um ou outro sobrevivente do PREC - do Engels a Franco Nogueira -, cosmética e "cosmologia", tratados "ajuda-te a ti mesmo" e os de "auto-ajuda" mais recente, talvez mesmo o Dale Carnegie mas este não afianço, as "obras completas" de Júlio Dinis, Eça de Queirós, e as "incompletas" de Victor Hugo em especiosas edições de capa dura, cores berrantes e debruadas a doirado, que tão bem fica(va)m nas estantes quando estas ainda existiam, Hupert Reeves e Carl Sagan, histórias universais e locais. E continue quem quiser a dar exemplos que de tudo se poderá encontrar...
 
Tudo isto a 33 ou 50 cêntimos o livro. Alguns, repito, algo escafiados. Outros intocados, após décadas de distraídas prateleiras. Enfim, a gente não lê porque não nos apetece. E não nos chateiem por causa disso.

Dia mundial do livro

João Sousa, 23.04.22

«Fargas meteu as mãos nos bolsos das calças e passeou junto dos livros, oscilando sobre a perna inválida, olhando-os um a um. Parecia um magro e desastrado Montgomery que passasse revista às suas tropas em El Alamein.

- Às vezes nem lhes toco nem os abro. - Detivera-se, inclinando-se para reajustar um volume na sua fila, sobre a velha alcatifa. - Limito-me a limpar-lhes o pó e a contemplá-los durante horas. Conheço em pormenor o que há sob cada encadernação (...)

Corso folheou um livro. Era um exemplar magnífico, também com margens muito largas. Devolveu-o ao seu lugar com cuidado antes de se erguer, limpando os óculos com o lenço. Aquilo era capaz de provocar suores ao mais frio.

- O senhor não está bom da cabeça. Se vendesse isto tudo, não teria problemas económicos.

- Eu sei. - Fargas inclinou-se para rectificar imperceptivelmente a posição do livro. - Mas se vendesse isto tudo, já não teria razão para continuar a viver e portanto ser-me-ia indiferente deixar de ter problemas.»

Arturo Pérez-Reverte, O Clube Dumas

Um livro, no dia do livro - Os últimos dias de Immanuel Kant

beatriz j a, 23.04.22

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A propósito de andar a trabalhar a ética kantiana nas aulas fui reler este livrinho de, De Quincey, sobre os últimos dias de Kant.

De Quincey (autor do famoso, Confessions of an English Opium-Eater (1821), o primeiro relato, na primeira pessoa, sobre a dependência de opiáceos, neste caso do láudano) limita-se, praticamente, a traduzir o livro de Wasianski, um grande amigo de longa data de Kant que o acompanhou nos últimos anos de vida e a quem se deve a maioria das histórias que se contam sobre a pessoa de Kant. No entanto, mesmo na Alemanha, é este livro de De Quincey e não o de Wasianski que é apreciado e editado.
 
Como diz, De Quincey, logo nas primeiras linhas, tem-se por certo que qualquer pessoa medianamente instruída reconhecerá algum interesse na história pessoal de Immanuel Kant, dado ter sido um dos maiores filósofos de sempre, um pensador que influenciou a maioria das áreas do conhecimento humano.
 
Kant nasceu e viveu em Königsberg, antiga capital da Prussia Oriental, anexada pela URSS após a Segunda Grande Guerra, depois expurgada de alemães e colonizada com russos soviéticos, e que é hoje um enclave russo, chamado Kaliningrado, entalado entre a Lituânia e a Polónia, à borda do Mar Báltico.
 
Kant foi um filósofo com um intelecto formidável, um homem de hábitos muito rígidos, sistematizados intencionalmente com princípios de racionalidade para servirem à manutenção da saúde e à máxima produtividade filosófica, de maneira que é muito interessante, neste livrinho, vermos o homem por detrás do filósofo.
 
O livro tem partes cómicas, como a cena de Kant a ler, à noite, com a cabeça demasiado próxima das velas e pegar fogo à touca e tem partes comoventes como o relato das estratégias que adoptou para manter alguma normalidade de vida, quando se apercebeu que estava a ficar senil, uma tragédia para um indivíduo com a sua natureza intelectual. 
 
Infelizmente, nos dias que correm, Kant é muito criticado mas, a meu ver, pelas razões erradas, quer dizer, criticam-no, não no valor das suas ideias, que se mantêm em tantas áreas (por exemplo, o opúsculo de Kant, «A Paz perpétua», de 1795, defende a possibilidade de paz, a relação necessária entre ética e política por intermédio do Direito Internacional e desenha um projecto de união de todos os povos na defesa dos seus territórios que está na origem do que hoje é a ONU),  mas por ter sido um homem machista (quem não o era no seu tempo? Ainda hoje a maioria, sobretudo de uma certa idade, o é), por ter sido etnocêntrico, não em princípio mas em prática e por aquilo que fizeram, em termos de política europeia, com o seu «criticismo racionalista».
 
Enfim, o livrinho é pequeno e lê-se muito bem enquanto se bebem duas chávenas de chá.
 
texto também publicado no blog azul.

Diferentes capas do mesmo livro

Pedro Correia, 02.04.22

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Não há fome que não dê em fartura. Durante longos anos, a obra de André Gide esteve ausente do mercado editorial português apesar de ser um escritor galardoado (em 1947) com o Prémio Nobel da Literatura. Sublinho: da Literatura - e não de Literatura, como agora é moda grafar-se copiando os brasileiros. Fuga sem sentido à norma, pois não dizemos Nobel de Economia nem Nobel de Paz.

De repente, as livrarias são inundadas por títulos de Gide, vários dos quais inéditos. Motivo: a obra deste autor, falecido em 1951, acaba de passar para o domínio público. Tal como tinha sucedido há meses com George Orwell. Editá-lo tornou-se mais fácil e muito mais barato.

Inverte-se a situação: antes havia escassez, agora há excesso.

Só o romance O Imoralista, publicado originalmente em 1902, acaba de gerar três versões quase simultâneas em Portugal. Reproduzo aqui as capas das editoras E-primatur, Cavalo de Ferro e Minotauro.

Há muito que sublinho a importância de uma boa capa para valorizar um livro. Lamentavelmente, é uma arte que parece condenada à extinção: hoje basta pesquisar-se num banco de imagens na internet e recolher uma fotografia - com frequência do próprio autor - para fazer de conta que existe capa. A ilustração deixou de ser regra: tornou-se excepção.

Uma verdadeira capa atrai, não afugenta. Capta a atenção por ser diferente, não banaliza nem vulgariza. Até porque, em boa medida, a arte pode - e deve - começar logo aí. Como instrumento de sedução.

Cada leitor que julgue por si, dizendo qual destas capas do mesmo livro prefere.

Dois acontecimentos editoriais

Pedro Correia, 31.03.22

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São de fresca data, merecem registo e aplauso. Refiro-me a dois verdadeiros acontecimentos no nosso mercado literário.

O primeiro, lançado ainda em Dezembro, é o monumental volume (809 páginas) dos Diários de Sylvia Plath, incluindo os trechos expurgados pelo marido da malograda escritora, Ted Hughes, e recuperados em 1999, após a morte deste. O público português dispõe enfim desta obra no nosso idioma: são oito diários principais, redigidos entre 1950 e 1959, e quinze fragmentos de cadernos de apontamentos, iniciados em 1951 e prolongados até 1962 - meses antes do suicídio da autora de Ariel. Lançamento com a competência a que a Relógio d'Água já nos habituou. Destaco a excelente tradução de José Miguel Silva e Inês Dias.

O segundo, chegado às livrarias já este mês, é História de um Homem Comum (título original: Coming Up for Air). Único dos seis romances de George Orwell que permanecia inédito em Portugal. Elaborado em 1938, pouco depois da saída do escritor de Espanha, onde combateu nas fileiras republicanas, é uma sátira à sociedade britânica das décadas iniciais do século XX. «Um romance notável, ao mesmo tempo divertido e dolorosamente verosímil», como assinalou à época o jornal australiano The Age. Edição da E-primatur, outra chancela que prima pela qualidade. Com tradução digna de elogio de Jacinta Maria Matos, que também assina a introdução. 

Obras que tenho o maior gosto em saudar aqui. Os editores, Francisco Vale e Hugo Xavier, merecem um cumprimento deste leitor atento e grato.

Leitura recomendada para entender a guerra na Ucrânia

jpt, 03.03.22

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Há imensas fontes para se tentar perceber a situação na Ucrânia. Desde logo as inúmeras televisões - por hábito vou mais à France 24 e à BBC World News mas a DW também me serve. Um dos nossos generais comentadores televisivos recomenda a fiabilidade da televisão estatal da autocracia catariana. Enfim, há para todos os gostos.
 
Outras estações serão menos recomendáveis: um popularíssimo cómico português acaba de espezinhar a cobertura da guerra do canal rival, feita pelo antigo director do canal onde há duas décadas começara a sua carreira televisiva e que o terá dispensado - "Cá se fazem, cá se pagam", "a vingança é um prato que se serve frio" e se a guerra ucraniana é mais sanguinolenta do que a do "millieu" lisboeta os combatentes não serão menos sanguinários. E aqui o povo ri e aplaude, não faz manifestações de oposição aos tiranetes.
 
Em "papel" (digital) há imensa coisa, e farto-me de ver recomendações de literatura contextualizadora/explicativa do processo actual, entre as quais abundam as que remetem para o omnipresente Kissinger, cuja pertinência nestas matérias costuma ser idolatrada - e não serei eu o iconoclasta.
 
Dada essa profusão de palpites até pedagógicos também faço uma proposta aos interessados no entendimento da crise na Ucrânia, algo acessível e que se poderá ler neste fim-de-semana.
 
Trata-se deste "O Americano Tranquilo" de Graham Greene, um pequeno romance que explana com detalhe algumas das dinâmicas que promoveram este actual conflito. Será muito de interesse principalmente para quem se interrogue sobre a intervenção do mundo "ocidental", sem com isso se sossegar na demonização dos malditos "capitalistas, imperialistas, ocidentais" (e, agora, no pós-Greene, "neoliberais" e "brancos").
 
Adianto, como ressalva da minha parcialidade, que este é o "livro da minha vida" (o que não quer dizer "o melhor livro"), pois tendo-o lido e relido na adolescência logo percebi que eu era aquele protagonista Fowler, o que reafirmei nas várias leituras ao longo da vida. Não como alter ego, mas sim como constatação de uma evidente predestinação. Algo que aliás se cumpriu: só não tenho uma namorada mais nova, que me desame e que de mim dependa economicamente. Mas isso é de somenos, pois o estado é o mesmo. (Tanto assim que até tive um blog chamado Rue Catinat).
 
Enfim se tiverdes curiosidade sobre este caso ucraniano ide ler o tal "O Americano Tranquilo". E também percebereis muito mais coisas, como bónus.
 
(Nota: há dois filmes que não fazem justiça ao livro. Um suficiente + (apesar) de Mankiewicz; um suficiente - (nota puxada para cima) de Philip Noyce. Convém evitar vê-los, pelo menos antes da leitura)

Os melhores livros do meu ano (3)

Pedro Correia, 15.02.22

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À medida que os anos passam e as leituras se acumulam, cresce a apetência por revisitarmos obras que nos cativaram em décadas precedentes. Seja no domínio da ficção, seja em qualquer outro ramo literário.

Tem-me acontecido isso. E a tendência acentou-se em 2021, também por causa dos extensos períodos de confinamento vigentes em grande parte deste ano, que deixa poucas saudades. Neste contexto, a literatura tornou-se num passaporte para outras paragens. Mesmo quando existem impedimentos para a viagem física, podemos embarcar sempre na viagem literária.

Foi assim que reforcei o meu gosto pela releitura. Nunca dei o tempo por mal empregue neste reencontro com livros meus amigos. Sem necessitar de máscara ou distanciamento físico - a que alguns imbecis continuam a chamar «distanciamento social», incapazes de perceber a diferença entre uma coisa e outra.

Partilho convosco a lista dos dez melhores livros que fui relendo no ano que terminou: seis romances ou novelas de autores portugueses, dois romances estrangeiros, um ensaio literário e um diário. Por ordem alfabética, mantendo o critério assumido aqui e aqui.

 

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A CIDADE DAS FLORES, de Augusto Abelaira (1959). Lisboa transposta para Florença, no auge do fascismo, em 1939. O autor concebeu este cenário italiano, vinte anos antes, para ludibriar a censura salazarista. É o romance de uma geração confrontada com esta dúvida: ou envolve-se num combate talvez desesperado pela liberdade ou verga-se ao imobilismo.

 

A MISSÃO, de Ferreira de Castro (1954). Admirável novela do criador d' A Selva em torno de um dilema ético vivido numa missão católica em França, durante a ofensiva nazi em 1940. Como devem comportar-se os discípulos de Cristo perante um risco de ataque aéreo? Um padre ousar questionar o seu superior em nome de um bem maior que a segurança.

 

ADEUS, PRINCESA, de Clara Pinto Correia (1985). Em formato policial, um dos melhores romances portugueses da década de 80. Com Beja, Cuba e Baleizão como cenário. Funciona hoje também como documento daquela época num Alentejo que vivia a ressaca da revolução e o declínio da hegemonia comunista antes da entrada de Portugal na CEE.

 

CÂNTICO FINAL, de Vergílio Ferreira (1960). Um pintor, sabendo-se condenado pela doença, recolhe à aldeia natal para concretizar o seu último projecto: decorar uma capela há muito encerrada, onde quer deixar a sua marca artística. Enquanto vai lembrando as etapas mais relevantes da sua vida, dos sonhos da juventude às cicatrizes da idade adulta.

 

CONTA CORRENTE 3, de Vergílio Ferreira (1981). Diário do autor de Aparição que foi muito lido e comentado quando surgiu. Obra inimitável, que assinala o encontro do escritor com camadas mais vastas de leitores, só pode ser hoje encontrada em alfarrabistas. Estranhamente, nunca mais foi reeditada. E não é por falta de qualidade, longe disso.

 

DOMINGO À TARDE, de Fernando Namora (1961). Clarisse, jovem com leucemia prestes a despedir-se da vida, apaixona-se por Jorge, o médico que tenta devolver-lhe a saúde. Namora, que exerceu cínica no Instituto Português de Oncologia, assina aqui um dos seus melhores romances. Que poucos anos depois deu origem a um excelente filme.

 

GUIA PARA 50 PERSONAGENS DA FICÇÃO PORTUGUESA, de Bruno Vieira Amaral (2013). Um dos melhores ensaios literários surgidos na última década. De um escritor que também demonstra ser um leitor atento e meticuloso. Com o mérito acrescido de nos chamar a atenção para obras há muito esquecidas e que merecem ser revisitadas.

 

O BARÃO, de Branquinho da Fonseca (1942). Uma das raras incursões portuguesas na chamada novela gótica, marcada por uma atmosfera de mistério e assombro, que nunca chega a ser desvendada por completo. António José Branquinho da Fonseca foi mestre da ficção curta, mais psicológica do que social. Esta é considerada a sua obra-prima.

 

O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO, de John Le Carré (1963). Mal foi publicado, tornou-se um clássico instantâneo. Cada vez mais revalorizado à medida que o tempo passa. Ponto cimeiro de um subgénero na literatura de espionagem - a que traça um retrato impiedoso dos meandros da Guerra Fria. Com o sinistro muro assombrando a noite de Berlim.

 

SAYONARA, de James Michener (1954). Singular romance sobre o Japão ocupado por forças dos EUA nos anos subsequentes à II Guerra Mundial, quando outro conflito bélico já se desenrolava, na península da Coreia. Neste cenário, um oficial norte-americano envolve-se com uma actriz nipónica. Desafiando convenções e preconceitos atávicos.

Os melhores livros do meu ano (2)

Pedro Correia, 14.02.22

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Como referi anteriormente, há muitos anos que não lia tantos livros. Este biénio marcado pela pandemia, tanto em 2020 como em 2021, devolveu-me aos dias da adolescência em matéria de leituras. Se há males que vêm por bem, este foi um deles.

Cada vez tenho menos dúvidas: ler é a actividade intelectual que mais nos permite contrariar tendências dominantes, rejeitar o espírito de rebanho ou alcateia e mergulhar na subjectividade - no fundo, aquilo que nos diferencia dos restantes mortais. A literatura faz-nos viajar a qualquer momento no tempo e no espaço, abrindo-nos horizontes de toda a espécie. Graças a ela, ficamos a saber o que nos antecedeu e a conhecer a face oculta do que nos rodeia. E passamos até a ser iluminados sobre nós próprios.

Ontem destaquei aqui dez obras entre as cem completas que pude ler no ano passado. Hoje trago outras dez, mas só de autores estrangeiros: sete romances ou novelas, uma biografia, um ensaio satírico e um volume de crónicas memorialísticas. Alinhados também por ordem alfabética, para maior facilidade de consulta.

 

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A LARANJA MECÂNICA, de Anthony Burgess (1962). Poderosa distopia situada num futuro talvez mais próximo do que possamos imaginar. Trabalho notável também ao nível da linguagem: Burgess criou dezenas de neologismos que serviam de senha aos jovens delinquentes, violentos por natureza num Estado destituído de princípios morais.

 

A PRAGA ESCARLATE, de Jack London (1912). Como sobreviverá o ser humano num mundo apocalíptico? London morreu muito antes da bomba atómica, mas pressentiu um vírus letal com efeitos pandémicos nesta novela que nos fala do fim da civilização e do regresso do homem ao estado de natureza mais selvagem. Obra-prima, no tema e no estilo.

 

A REBELIÃO, de Joseph Roth (1924). Um olhar realista e sem complacência sobre a ruína social que submergiu a Europa nos anos subsequentes à I Guerra Mundial. Tendo como protagonista um antigo combatente austríaco mutilado no conflito que passa a lutar pela sobrevivência diária. Num outro combate, ainda mais implacável do que o anterior.

 

HEMINGWAY EN CUBA, de Norberto Fuentes (1984). Uma das melhores biografias do autor de Adeus às Armas, centrada nas duas décadas em que se radicou numa quinta a 15 km de Havana e da qual só saiu pouco antes de Fidel Castro proclamar a sinistra divisa «socialismo ou morte». Uma obra lamentavelmente inexistente em português.

 

O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA, de Gabriel García Márquez (1985). Talvez o melhor romance do talentoso autor colombiano, à época já galardoado com o Nobel da Literatura. Uma atribulada história de amor que resistiu a todas as vicissitudes e todas as tempestades, comprovando que o fracasso pode ser só uma palavra no dicionário.

 

O CONSERVADOR, de Nadine Gordimer (1974). Meticulosa digressão ao quotidiano dos anos de chumbo do apartheid, numa África do Sul já condenada pela comunidade internacional mas que teimava em resistir aos «ventos da História». Quando um próspero proprietário rural branco se viu abandonado pela própria filha, avessa ao regime racista.

 

O REI FAZ VÉNIA E MATA, de Herta Müller (2003). Galardoada em 2009 com o Nobel da Literatura, esta escritora nascida numa comunidade germânica da Roménia sentiu na pele a repressão da ditadura comunista de Ceausescu. Fala-nos dessa amarga experiência nesta estimulante colectânea de crónicas e pequenos ensaios autobiográficos. 

 

OS TEUS PASSOS NAS ESCADAS, de Antonio Muñoz Molina (2019). Pode haver um romance português de um escritor espanhol? Sim. Eis a prova, nesta admirável declaração de amor a Lisboa, que já tinha figurado numa das suas primeiras obras. Cidade-refúgio num mundo assombrado pelas catástrofes climáticas e pelo terrorismo global.

 

SEMENTES DE VIOLÊNCIA, de Evan Hunter (1954). Um dos melhores romances sobre a delinquência juvenil, aqui centrada numa escola pública de um bairro pobre de Nova Iorque e nos desafios que coloca a um professor no início da profissão. Adaptado no ano seguinte ao cinema, com merecido êxito de público e de crítica.

 

WOKE, de Titania McGrath (2019). Demolidora denúncia do extremismo liberticida que vai lançando anátemas, impondo dogmas e ditando a censura em nome da correcção política. Titania é personagem inventada pelo comediante britânico Andrew Doyle, que ridiculariza o sectarismo destes novos talibãs que tudo querem proibir.

Os melhores livros do meu ano (1)

Pedro Correia, 13.02.22

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Já vem tarde, mas creio que ainda chega a tempo. Faço um balanço das minhas leituras feitas em 2021, Ano II da Pandemia, muito marcado pela imobilidade forçada, e que, entre as raras compensações, me permitiu usufruir de mais horas dedicadas à leitura. Como num regresso tardio à adolescência, quando tinha tempo para tudo - incluindo para devorar qualquer livro que me chegasse às mãos.

Tal como no ano anterior, em 2021 consegui ler cem livros completos. Dos mais diversos géneros, mas bastante centrados na literatura portuguesa de ficção do século XX - para tentar dar corpo a um projecto que gostaria de ver materializado em ensaio literário. Não custa tentar, veremos no que dá.

 

Também à semelhança do que já sucedera em 2020, dediquei mais tempo à leitura do que ao cinema, contrariando um hábito há muito enraizado. Nos dias que correm, os filmes interessam-me bastante menos. Porque já vi grande parte do que gostaria de ver - incluindo a esmagadora maioria dos clássicos da Sétima Arte. E também porque nada me atrai hoje na chamada "indústria cinematográfica", precisamente a que domina os circuitos de exibição e comercialização. 

Como acontece com vários dos meus leitores, julgo, vi muito mais séries do que filmes. Não apenas nos canais por cabo mas numa das principais plataformas dedicadas ao género, a Netflix, de que sou assinante periódico. Mas também aqui é necessário peneirar bastante: a maioria da oferta não me agrada. 

 

Tenciono falar delas um dia destes. Agora venho partilho convosco o balanço das leituras, na expectativa de vos deixar sugestões úteis.

Durante três dias, revelarei aqui a lista dos dez melhores destes cem, multiplicada por três: a primeira, já de seguida, respeitante só a autores portugueses. Amanhã virão os autores estrangeiros. Depois de amanhã, recordo os dez que mais gostei de reler. Títulos sempre acompanhados por duas ou três frases sobre cada obra.

Cada lista fica por ordem alfabética. Podia ter sido outro o critério, mas prefiro este.

 

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A CAPITAL, de Eça de Queiroz (1925). Um dos romances menos conhecidos do autor d' Os Maias. E um dos mais cáusticos. Obra póstuma, escrita ainda na juventude, inclui já quase todos os temas dominantes no imaginário de Eça. Com uma personagem inesquecível: Artur Corvelo, homem que tenta tudo para subir na vida. Podia ser hoje.

 

A TORRE DA BARBELA, de Ruben A. (1964). Genial cruzamento dos romances de cavalaria com histórias de fantasmas e folhetins românticos, tudo polvilhado com sátira inteligente e diálogos surrealistas, numa espécie de revisitação burlesca da História de Portugal. Obra-prima de um autor desaparecido demasiado cedo. 

 

ANDANÇAS DO DEMÓNIO, de Jorge de Sena (1960). Mais conhecido como poeta e ensaísta, Sena foi igualmente magnífico prosador. Em formato longo, legando-nos o romance Sinais de Fogo, e também em pequenas mas marcantes narrativas. Este volume comprova-o em contos como "História do Peixe-Pato" e "A Janela da Esquina".

 

ERNESTINA, de J. Rentes de Carvalho (1998). Memórias? Crónica novelesca? Romance de não-ficção, ao jeito de Truman Capote? Pouco importam as etiquetas. Aqui estamos perante literatura digna de quadro de honra. Que é também um retrato impressivo e vívido de um Portugal que muitos não conheceram e já poucos recordam.

 

FELIZMENTE HÁ LUAR!, de Luís de Sttau Monteiro (1961). Teatro é para ver representado em palco, não para ler. Mas, quando o texto tem qualidade, até resulta em leitura proveitosa. É o caso deste drama em dois actos, centrado na execução do general Gomes Freire de Andrade em 1817 - símbolo de outras injustiças e outros tempos de opressão.

 

ÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE, de David Machado (2013). Um dos mais estimulantes romances portugueses surgidos na última década. Muito influenciado pelos road movies, transporta-nos por estrada de Lisboa a Barcelona na companhia de um heterogéneo grupo de amigos e conhecidos. Comovente e divertido: vale a pena seguir viagem com eles.

 

O ESPLENDOR DE PORTUGAL, de António Lobo Antunes (1997). Fulgurante romance que estabelece uma espécie de rima interna com uma das primeiras obras do autor, Os Cus de Judas. Também com Angola como cenário. Mas aqui fala-se de civis, não de militares. E das marcas que a descolonização deixou. Sem temores nem tabus.

 

O MILAGRE SEGUNDO SALOMÉ, de José Rodrigues Miguéis (1975). Injustamente esquecido, é um dos grandes textos de ficção do nosso século XX. Grande em vários sentidos - a começar no número de páginas, cerca de 700. Do final da monarquia ao início da ditadura pós-28 de Maio, com alusões óbvias a Fátima. Merece ser lido e divulgado.

 

O RETORNO, de Dulce Maria Cardoso (2011). Angola, de novo. Na perspectiva de adolescentes que lá nasceram e se viram forçados a embarcar para a distante Lisboa fugindo ao morticínio na Luanda de 1975, pré-independência. Os chamados "retornados". Será possível retornar a um lugar onde nunca se viveu? 

 

TERRAS DO DEMO, de Aquilino Ribeiro (1919). Um dos primeiros e melhores romances de mestre Aquilino, um dos nossos mais inconfundíveis prosadores. Em páginas que nos transportam ao esquecido Portugal do interior serrano, onde as paixões mais primárias e superstições de todo o género andavam à solta, longe de qualquer verniz citadino.

Os psicopatas americanos no Congresso

João Pedro Pimenta, 09.01.22

American Psycho, ou Psicopata Americano, é um romance, chamemos-lhe assim, escrito no início dos anos noventa por Bret Easton Ellis que retrata de forma crua, amoralmente ostensiva e exaustivamente descritiva a idade de ouro dos yuppies na segunda metade dos anos oitenta, no pré-crash de 1987. A narrativa centra-se no modo de vida de Patrick Bateman, um financeiro de Wall Street com menos de trinta anos, de início mais nas suas obsessões materiais - a casa, a decoração, os aparelhos de alta fidelidade, os produtos de beleza e de higiene, o culto do corpo, os fatos, as gravatas, os restaurantes de luxo, as drogas, as amantes e as prostitutas - e mais à frente na sua faceta (ainda) mais negra que justifica o título da obra, tudo entrecortado pelas detalhadas críticas musicais dos músicos favoritos da personagem, que surgem como curiosa Hybris normalmente em situações inesperadas.  

O livro, já de si um sucesso comercial e de crítica, foi adaptado ao grande ecrã em 2000, com Christian Bale a compor um impressivo Bateman num desempenho que projectou a sua carreira. Como já se percebeu, o protagonista espelha uma ganância e uma obsessão materialista tais (de que é exemplo o seu acesso de fúria só porque os correligionários têm cartões de apresentação mais caros e polidos que os dele, o que terá consequências funestas) que é capaz de transformar Gordon Gekko, outra personagem fictícia deste peculiar mundo dos yuppies, num voluntário caridoso. É claro que nem todas as partes das descrições torrenciais de Ellis puderam ser transpostas para o filme, mas o essencial manteve-se.

Uma das alusões na obra a figuras reais, mais presente no livro que na película, é o culto do peculiar universo que rodeia Bateman pelos bilionários ostensivos, em geral, mas com uma especial admiração: Donald Trump. Sim, Trump e as festas que ele dá, os locais que frequenta e os seus carros. Trump é o modelo, a bússola e farol, aquilo que esta mole de gente endinheirada, entediada e amoral pretende ser.

Recordei-me de novo do livro/filme e das suas alusões a propósito do primeiro aniversário da invasão do Capitólio por aquela horda estranhíssima e alucinada, que deixou como resultado cinco mortos e uma imagem de ultraje e vergonha à democracia americana, mais própria de um país do interior de África. Tinham vindo de vários pontos dos Estados Unidos, numa das alturas mais gélidas do ano, para ouvir o discurso de Trump em frente ao congresso. Um discurso aliás de acusação e de incitamento directo contra a câmara legislativa, na senda da não aceitação do resultado das eleições de dois meses antes e das alusões a supostas fraudes. As palavras eram demasiado explícitas para que não se possa ligá-las ao que sucedeu a seguir. Aliás, até parecia que alguns adoradores trumpistas, mesmo deste lado do Atlântico, já o estavam a pressentir, referindo-se a "demonstrações do triunfo do "America First" que iriam surgir em Washington. Até tinham razão, como se viu.

Trump flutua entre um instinto político eficaz e uma mitomania que se torna pública muitas vezes. Era sem dúvida este último sentimento que o dominava naquele dia. Provavelmente, no embalo daquele discurso a meio caminho entre um ditador sul-americano e o general Custer lançando ordens contra os índios, não previu que as consequências pudessem ser tão funestas. Mas foram (por pouco não o foram para o próprio Mike Pence) e são indissociáveis do seu discurso de raiva que levou aquela mole desvairada habituada a "informar-se" no Qanon a cometer um acto tão grotesco.


O contraste entre esta gente e a retratada em American Psycho é gritante, a começar pela forma de trajar e a acabar na capacidade económica. As respectivas mundividências também são abissalmente diferentes. O que as une é a admiração e a confiança quase ilimitada em Trump, embora por razões diversas. Mas é bem mais compreensível vinda dos segundos, já que Trump é ele próprio um símbolo do materialismo (e de muito exibicionismo, como se observa na sua Trump Tower e no seu avião, por exemplo) e da ganância de um lado mais perverso do "sonho americano", além de ser nova-iorquino e de ter vivido quase sempre na Big Apple. Já da parte dos invasores do Capitólio é bem menos lógico, pois falamos de gente mais proveniente do Midwest e do Deep South, menos cosmopolita e mais susceptível a propaganda e com muito menos poder económico. Trump e a fauna de Wall Street estão a anos-luz desta massa de proletários sem rumo, em muitos casos desprezando-os até, e são o oposto aos princípio cristãos (com uma interpretação muito própria do cristianismo, é certo, muito WASP) e aos modelos de família por eles defendidos.

Em suma, Patrick Bateman admira Trump não só pelas suas posses mas sobretudo por não olhar a meios para atingir os seus fins e por possuir um ego do tamanho do mundo - pela fortuna, antes de mais, e depois pelo poder político - o que o faz sentir-se quase uma divindade omnipotente perante os outros seres que o rodeiam. Combina o dinheiro, o poder e o sexo, a avaliar pelas suas bravatas. Aquela frase de que "podia dar um tiro a alguém na Quinta Avenida que não perdia um voto" seria certamente do agrado de Bateman e poderia perfeitamente ser dita por ele. Ao criar a personagem, Ellis pôs muito de Trump nela, embora não pudesse prever que uma tal levaria à invasão do Capitólio. Com a diferença de que Patrick sabe certamente muito mais de música popular contemporânea do que Donald.

O resumo da blogosfera lusa

João Pedro Pimenta, 31.12.21

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Nos últimos dias do ano entretive-me com este pequeno livro, da colecção Francisco Manuel dos Santos, que resume a história da blogosfera portuguesa. Trouxe-me à memória anos (sobretudo entre 2003 e 2011) de posts, leituras, discussões e personagens até então desconhecidas, muitas das quais chegaram a postos de grande visibilidade, seja nos jornais, na TV ou até no governo, como Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, Rui Tavares, João Galamba, Daniel Oliveira, Luís Aguiar Conraria, além dos já consagrados Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente, entre outros que se dignaram a blogar. Os blogues serviram para que quem tivesse alguém coisa a dizer, nem que fosse pela arte de bem escrever e não tinha acesso aos meios tradicionais, o pudesse fazer, com grande ganho de causa. Não vou agora enumerar nem "linkar" exemplos da blogosfera, que de resto o livro cumpre, mas para quem está dentro do meio é uma visita gratificante e um pouco nostálgica, além da escrita bem humorada do autor nos permitir alguns sorrisos e mesmo algumas gargalhadas.

Infelizmente as redes sociais tiraram muita da riqueza discursiva e um certo jargãoque existia na "comunidade blogosférica".Em todo o caso, recordei pessoas e discussões que há muito não me vinha à memória. O livro não é exaustivo mas é completo. O meu nome não consta da extensa lista de bloguistas enumerados, nem a minha vetusta A Ágora, quase a chegar à maioridade, mas o Delito de Opinião sim, na pág. 85, sendo classificado como "um excelente blogue colectivo (ou hipercolectivo)", com referência à "dedicação" do Pedro Correia e ao "sentido de humor" de Rui Rocha (que anda algo desaparecido, infelizmente para o Delito). Posso dizer que é um livro que gostaria de ter escrito, mas que o autor, Sérgio Barreto Costa, cumpre muito bem.

Posto etas memórias blogosféricas, um 2022 melhor que 2021 (e 2020) e que os blogues, mesmo que com menor importância que outrora, continuem a dar-nos textos de interesse.

 

PS: só depois é que vi esta recensão do JPT sobre o dito livro, logo que ele saiu, que vos aconselho até por ser bem mais completa do que este post.

Livros: dez sugestões de Natal

Pedro Correia, 23.12.21

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A BLOGOSFERA PORTUGUESA, de Sérgio Barreto Mota (Fundação Francisco Manuel dos Santos). Breve visita guiada aos anos de ouro dos blogues em Portugal, quando todos os dias nasciam dezenas de títulos, quase todos já desaparecidos. Com visão irónica e mordaz, confessando simpatias e antipatias sem pedir licença a ninguém.

 

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A REBELIÃO, de Joseph Roth (Cavalo de Ferro). Poderosa novela do autor de Hotel Savoy, descrevendo a impressionante penúria da sociedade austríaca no rescaldo imediato da I Guerra Mundial. Centrada na luta quotidiana pela sobrevivência de um antigo combatente, Andreas Pum - condecorado como militar, desprezado na vida civil.

 

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ALMANAQUE DA LÍNGUA PORTUGUESA, de Marco Neves (Guerra & Paz). Este autor ensina-nos a gostar ainda mais do nosso idioma numa prosa cativante, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor. Resulta em cheio. Todos aprendemos alguma coisa com ele. Num estilo coloquial, didáctico sem nunca ser pretensioso.

 

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AUTOS-DE-FÉ, de Michel Onfray (Guerra & Paz). Polemista inflamado difícil de catalogar, ateu militante e adversário encarniçado das cartilhas racialistas e da ideologia do género, o filósofo francês dispara neste livrinho em quase todas as direcções. Talvez demasiadas. Mas tem o condão de não deixar ninguém indiferente.

 

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DE MANEIRA QUE É CLARO..., de Mário de Carvalho (Caminho). Memórias do autor dos Contos da Sétima Esfera em fragmentos sincopados, com propositada desarrumação cronológica mas sem nunca perder o fio à meada. Exercício de prosa confessional que estabelece uma discreta corrente empática com o leitor.

 

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IDEIAS SEM CENTRO, de Alexandre Franco de Sá (D. Quixote). «Excelente e oportuno contributo para o debate político nacional num tempo em que, mais do que nunca, se torna necessário que os conceitos e as palavras esclarecidas e esclarecedoras estejam disponíveis para a batalha das ideias», assinala Jaime Nogueira Pinto no prefácio.

 

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ÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE, de David Machado (Leya). Recomendável em qualquer ano: continua disponível no nosso mercado editorial. É um dos romances portugueses mais originais deste século. No tema, na linguagem, no modo como o autor molda as personagens e lhes confere autenticidade. A ler ou a reler.

 

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INTEGRADO MARGINAL, de Bruno Vieira Amaral (Contraponto). Talvez a melhor biografia do ano em Portugal. Resgatando de um relativo esquecimento o autor de Jogos de Azar. Enquanto se evoca toda uma época irrepetível da boémia literária lisboeta, onde o romancista se sentia no seu habitat natural.

 

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UMA ESTRANHA AMIZADE, de Maria Filomena Mónica (Relógio d' Água). Fala-se muito de Eça de Queiroz, incomparavelmente menos de Ramalho Ortigão. Dois parceiros de lides literárias que nunca se trataram por tu: entre eles houve muitos encontros e alguns desencontros. Recordados em prosa enxuta, sem gongorismos académicos.

 

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VERA LAGOA - UM DIABO DE SAIAS, de Maria João da Câmara (Oficina do Livro). Uma das jornalistas mais polémicas das décadas de 70 e 80 alvo de minucioso retrato biográfico onde não falta um desfile de nomes conhecidos da política e da cultura - de Humberto Delgado a FranciscoSá Carneiro, de Alves Redol a Natália Correia. 

Um café (sem uísque)

jpt, 15.11.21

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O José Navarro de Andrade (nosso bloguista no Delito de Opinião e meu [e não só] co-bloguista no sportinguista És a Nossa Fé) estreou a semana passada o seu programa de entrevistas "Vamos Beber Um Café..." - que passa na RTP2 mas pode ser visto ad aeternum na RTP Play. O Navarro tem a coisa (muito) boa de ser um entrevistador que interpela os seus entrevistados, assim evitando a conversa mole e as proclamações autorais, até pomposas (estas muito em especial habituais nos consagrados). Vi durante este fim-de-semana o primeiro programa: tem uma entrevista muito interessante com a escritora Djaimilia Pereira de Almeida (que acaba de publicar o romance "Maremoto"), a qual nunca li mas que decerto irei ler depois de a ver aqui. Pois é uma entrevistada como deve ser, sem poses, sem "atitudes", e cheia de pertinência e entusiasmo a falar do seu livro e da sua escrita. Segue-se uma entrevista com o escritor Jaime Rocha, a propósito da sua peça versão da "Filoctetes" de Sófocles - e de repente um tipo pode ver uma interessante e animada conversa sobre tragédia grega e sua refracção actual. Coisa rara e preciosa nos tempos actuais.

Deixo as entrevistas para quem tenha vagar...

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Djaimilia Pereira de Almeida)

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Jaime Rocha)

O Prémio Camões vai para Moçambique

jpt, 21.10.21

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Alguns patrícios perguntam-me a opinião sobre o Prémio Camões atribuído hoje à moçambicana Paulina Chiziane. Repito-lhes aquilo que sempre digo sobre este prémio:
 
1) trata-se de um produto político, que procura através da premiação anual sedimentar uma comunidade internacional assente na partilha linguística. Não vem grande mal ao mundo por isso, mas subalterniza critérios literários;
 
2) o costume de alternar a premiação entre Portugal e Brasil - polvilhando o ritmo com algumas atribuições a escritores africanos - sublinha essa secundarização de considerações literárias (porque não sucessivos prémios dados a escritores da mesma nacionalidade, por exemplo?).
 
Para além disso há as minhas inclinações pessoais:
 
 
 

Na Feira do Livro

jpt, 30.08.21

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Como já disse, fui ontem à Feira do Livro. Atrevi-me a isso tanto para seguir a sugestão do Pedro Correia como para assistir à sessão de apresentação de um livro de amigo meu. Encontrei o recinto bastante animado, apinhado de gentes que espero terem sido (estarem a ser) boas clientes. A sessão a que assisti foi simpática, e nela encontrei algumas pessoas que não via há décadas e outras que não tenho o costume de ver. Depois percorri uma das alas da feira. Jurara que não compraria livros, pois vivo sob a pressão de uma tripla escassez: espaço nas estantes, capacidade de concentração e, sobretudo, papel-moeda. Como tal nada vasculhei, de facto deixando distraídos soslaios aos pavilhões e nada ansiosas grandes angulares sobre a mole humana: mas apenas reconheci um afamado ex-bloguista, com o qual convivi em Maputo. Mas, não tendo nada para dizer, eximi-me a ir cumprimentá-lo: é destes recolhimentos, silêncios, que é feita a velhice, já me dizia o meu pai António. Chamava-lhes, lembro-me bem, "falta de paciência". E nada louvava isso, ainda que o praticasse sem rebuço.

Ainda assim não resisti ao velho hábito de comprar livros, e disso deixo registo. Já perto do final da ala, em sentido descendente, atentei numa banca de monos - as que sempre mais atraíam quando era cliente habitual da Feira. E, ao preço de um euro cada, de lá trouxe estes três volumes da colecção ABC da Cozinha, editada por Bárbara Palla e Carmo (Abril/Controljornal Editora, 1999): Tudo Sobre Arroz, Tudo Sobre Peixe, Tudo Sobre Vitela.

Quando regressado a casa percebi que voltara contente.

Sair da Estrada, de Paulo Dentinho

jpt, 29.08.21

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(Paulo Dentinho, Sair da Estrada, Caminho, 2021)

Deste Sair da Estrada deixo apenas as minhas impressões, nada procurando fazer-lhe uma recensão. Nele está como se uma autobiografia do Paulo Dentinho, 30 anos mundo afora com recordações de reportagens em 13 países, algumas sendo trabalhos únicos, outras com visitas sequenciadas e ainda as resultantes de estadas prolongadas, como correspondente da RTP. Nestas 400 páginas ficou um retrato do mundo das últimas décadas, do qual algumas memórias tão significantes se vão esfumando dado o constante turbilhão noticioso: a atenção às guerras e seus efeitos nas nossas antigas colónias (Angola, Moçambique, Timor-Leste), ao início da que viria a ser a maior guerra africana (actual Congo), aos conflitos do sul europeu, com a crise grega, a dissolução da Jugoslávia e o já esquecido projecto de agregação da Turquia à União Europeia. E, claro, no omnipresente conflito do Médio Oriente (Israel, Líbano), nas ondas de choque pós-2001 (Paquistão, França), e nas refracções da que foi chamada "Primavera Árabe" (Síria, Líbia). 

Realço três dimensões que muito me agradam no livro. Conheci o Paulo Dentinho em Moçambique, e ali muito interagimos. Foi-lhe uma estada difícil, tendo saído do país sob uma incessante corrente de ameaças de morte (e recordei isso neste postal). Recordo-me muito bem desse período e afianço que o capítulo agora dedicado a essa época é mesmo fidedigno, diria mesmo que "sem tirar nem pôr". Mais, muito me lembro da ida em 1997 do Paulo ao então Zaire - logo após o frenesim profissional que ambos vivêramos na visita de Jorge Sampaio ao país - e de como ele a contava quando regressado a Maputo. Narrativa que está agora, ressuscitada, no livro. Presumo pois que nos outros 11 capítulos seja também assim, uma colecção de memórias sem quaisquer adornos, reconstruções embelezadoras ou engrandecedoras do autor ou das situações. 

Outro agrado é forma como o Dentinho apresenta breves enquadramentos das situações em cada país. Pois em nenhum momento se deixa tentar pelo diabo ensaístico, nessas habituais resenhas históricas com intuitos explicativos ou nas recorrentes deambulações sobre um qualquer fio condutor que explique a miríade de males do mundo, qual filosofia de história de pacotilha ou atrevido estipular de cadeias de causas-efeitos, esse pobre efeito sob verniz intelectual que nada mais é do que reflexo das agendas das causas em voga. Pelo contrário, ele dá-nos ágeis contextos do que se passava, bem inscritos no que lhe é fundamental: como trabalhou. Pois este é um livro sobre jornalismo. E nisso - e é este o meu terceiro agrado imediato - o Dentinho, profissional do audiovisual, veio, e sem qualquer "escritor-fantasma", com uma escrita lesta e veemente,  a prender-nos. 

O livro traz-nos o modo de trabalho em "grande reportagem". O Sair da Estrada, escapar-se aos hotéis internacionais onde pululam as informações padronizadas, oficiais e oficiosas, fugir ao asfalto (mais ou menos) seguro, arriscando-se, muito mesmo, nas vielas e subúrbios, pelas veredas e picadas. E nessas andanças encontrar o rumo das notícias, essas de abertura televisiva ou primeira página de jornal, mas também quem lá está, exulta ou sofre. E é muito desses que o livro fala, os que cruzaram o repórter e lhe possibilitaram o trabalho, vários intérpretes ou motoristas, quantas vezes quais pisteiros, colegas, alguns já tombados em acção, bem como uma ou outra colega mais cativante cujos vislumbres acalentaram dias difíceis e excitantes, até combatentes ou meros passantes. E tudo isso sem requebros de romance de correspondente de guerra mas num muito mais relevante "é assim!". E, acima de tudo, traz-nos os seus camaradas de percurso, os homens da câmara, sempre invisíveis no ecrã e treslidos no genérico, correndo os mesmos riscos - até mais, pois mais visíveis -, sofrendo as mesmas ansiedades, co-autores das reportagens. 

E nisto o livro torna-se não apenas uma memória para "contar aos netos" - para que os filhos o venham a ler, como se justifica o autor em entrevista. Mas um verdadeiro livro de cabeceira para futuros jornalistas - pois se a indústria está em crise, a reconfigurar-se, a vocação jornalística estará em crescendo. Nele não poderão os aprendizes receber o "como fazer" manualesco mas avisarem-se da necessidade do improviso, de seguir a intuição própria e perseguir o risco. O trejeito próprio. Com os quais o Paulo Dentinho seguiu ao longo das décadas, conseguindo belas reportagens - ainda me lembro de o ver com José Mattoso nas montanhas de Timor e rir-me num "só este gajo para tornar aventurosa uma pesquisa arquivística", episódio que aflora agora no livro. E entre elas algumas reportagens de eco mundial, raríssimos feitos na imprensa portuguesa, de facto no país apenas comparáveis em eco internacional a algumas conquistas no mundo do futebol, do atletismo ou, em modo mais discreto, da diplomacia.

Mas há um outro país presente ao longo do livro, o nosso, pois subjacente capítulo a capítulo. São várias as notas sobre a radical incompreensão, mesmo desrespeito, que os repórteres de terreno (e que terrenos!) vão sofrendo pelos colegas e administrações, estes apoucando (até desperdiçando) notícias e peças, desvalorizando riscos, efeitos do peso do "modo funcionário" que vigora. O que se traduz em coisas inenarráveis, por vezes fruto de ignorância mas outras sendo mera pesporrência: a equipa detida por milícias em sítio ermo, o repórter telefonando para a RTP identificando o líder da  patrulha que os prende e deste lado recebendo um enfastiado "que é que queres que eu faça com isso?"; ou a equipa preparada para o sacrossanto "directo" no telejornal das 8, sita em local fustigado por fogo algo errático e esperando que decorra a cinzenta agenda dos "passos perdidos" (ouvir, sob fogo há meia hora, "aguenta mais um bocadinho, que o Jorge Lacão está a falar" é de bradar aos céus!), entre tantos outros desaforos e até malevolências. Um contexto laboral que leva o autor a desabafar, entre outros trechos similares (e dolorosos de ler): "Apetece-me vociferar contra estes tipos que construíram as carreiras quase sem fazer uma única reportagem. O único risco deles é gerir favores, fazer salamaleques aos poderes para se irem mantendo de direcção em direcção. Pobre país o meu." (62).

O livro termina no 2015 parisiense, no ataque ao Charlie Hebdo e subsequente captura dos terroristas, emotivamente narrado. Dentinho associa-o, como tem de ser, à perseguição ao dinamarquês Jylland-Posten em 2006, numa total defesa, sem rodeios nem escusas, da liberdade de imprensa, do humor, da blasfémia, dos que fazem "a provocação sistemática de tudo e todos, da extrema-direita aos meios católicos, dos políticos em geral aos jornalistas. "Rire, bordel de Dieu!" contra a apregoada "razão de Estado", agora dita multiculturalista pois respeitadora, sempre desejosa de controlar a imprensa, de facto "uma engrenagem em que a primeira etapa é a autocensura e a última a capitulação" (399). Gosto muito deste final, de cabeça erguida no meio do terror fanático e do censório "democrata". E ainda mais porque vem do Paulo Dentinho, homem de esquerda neste nosso país em que essa tal esquerda no último ano apoiou para Presidente da República uma candidata que reiteradamente atacou essa liberdade, apoucando de modo até soez as vítimas do terrorismo fanático. Esquerda essa que também propôs para o Tribunal Constitucional um candidato que segue a mesma mundivisão, dizendo serem iguais os fundamentalistas terroristas e os artistas/jornalistas democratas. Sem que tal cause qualquer repúdio, mero sobressalto que seja, no seio do tal "modo funcionário" de pensar e actuar, tão dominante este segue.

Os últimos anos já não surgem no livro. Dentinho foi director de informação da RTP [repito-me, escrevo sobre ele e esse processo excêntrico neste postal]. Os postos de chefia não são eternos e ele foi substituído - disse-se que por desconforto da comunidade futebolística devido a um postal seu no Facebook. Mas ninguém disse na época que o desconforto da malta do futebol, de Lisboa e Porto até La Valleta, advinha da sua imediata oposição a outras futebolices. Enfim, ele seguiu o seu rumo, menos agitado desde então. Com o seu renome ainda conseguiu um "furo" (como antes se dizia), uma entrevista a Lula da Silva, então preso. Lá foi, mas privado de um homem de câmara, e para in loco se deparar que lhe tinha sido atribuído um material de recolha audio e visual... danificado. Enfim, o tal "modo funcionário" mau demais, sempre capaz de surpreender pela... negativa.

Ou seja, se o Dentinho passou 30 anos a Sair da Estrada está agora fora da estrada, emprateleirado. Tem o programa "Mundo sem Muros", convenientemente alojado na noite longa da RTP3 (e na RTP Play, claro). Nele se fala sobre o mundo. Ali ele não entrevista políticos no activo, travestidos de "comentadores", nem ex-políticos feitos correias de transmissão de órgãos de soberania, partidos políticos ou grupos de interesse, nem tão pouco académicos catedráticos de "Tudologia". Pois ali o Paulo Dentinho aborda as situações do mundo, sentando-se com .... outros colegas, correspondentes. Faz jornalismo, com jornalistas, como jornalista. E, acima de tudo, como um homem livre.

Paulo, o livro ficou bom. Espero que os teus filhos o venham a ler, como desejas. E que a minha filha o faça. E que os jovens jornalistas e os ainda aprendizes o leiam, inebriando-se até, se possível. E sonho que alguns dos da nossa geração o façam. Entusiasmando-se com o teu meneio nas letras. Divertindo-se com as memórias das nossas vidas que nos trazes. E, ainda mais, que um ou outro de nós te possamos ler, homem livre que seguiste e continuas, concluindo: "como acabei assim?!". E que nisso, nessa amargura, possamos melhorar um bocadito, fazer por aligeirar a nossa canga. Graças a ti.

Enfim, Dente tens estado bem. E no livro estiveste mesmo bem. Abraço.

Cidade Suspensa

jpt, 23.08.21

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, Lisboa 2020)

No início de Março de 2020, mesmo que nos poderes fácticos ruminassem ainda os flâneurs flanantes, muitos de nós - angustiados com o que se passava nos países vizinhos - nos apressámos a retirar os petizes das escolas e a encerrá-los em casa, enquanto começávamos a evitar os avoengos. Em meados do mês o governo cedeu à evidência e declarou o confinamento - enfim, o Primeiro-Ministro haveria depois de proclamar que isso nunca existira mas essa sua proposta de "narrativa" não teve sucesso.

Fechámo-nos então todos em casa - com as consabidas excepções laborais -, desvanecendo o bulício de cidades e vilas. E logo no dia seguinte saiu à rua o Miguel Valle de Figueiredo, diariamente a fotografar o vácuo humano que o circundava. Calcorreou Lisboa e fez este "Cidade Suspensa", grande livro em formato de bolso, colecção de fotos a preto-e-branco, essa cor do silêncio. Guardou assim a memória da confinada Baixa monumental, do seu Tejo então desguarnecido, com vislumbres das míticas colinas e laivos dos bairros antigos ainda de tez popular, aquilo que sempre nos surge como o identitário da grande Lisboa e do vetusto alfacinha. E a das avenidas em tempos "novas", esse restos sempre apreciados do Estado Novo, tal como a da marca d'água desta II República, as fileiras de edifícios de serviços e as plataformas de transportes. Todos esses sedimentos da cidade unidos pela escassez de gente, tal como os diferentes templos, estes numa ecuménica solidão. Mas também aos lisboetas o fotógrafo perseguiu, mostrando-nos que não estavam eles desaparecidos, devastados, mas apenas acoitados, assomando às varandas, resistindo sarcásticos (decerto que ficará lendária a sua fotografia do lençol pendurado clamando "My husband is for sale"). Demorando-se, cruzou os parcos transeuntes nos seus inadiáveis, submersos nestas máscaras sanitárias, então polémicas, feitas veros cabrestos das almas. Bem como as restantes crianças ainda assim brincando. E, porque de saúde tanto se falava, fixou alguns desportistas a solo. Trouxe ainda médicos e enfermeiros afadigados, esconsos pois no securitário exigido, além de trabalhadores avulsos num desapoiado vai-e-vem pedonal, ainda mais exaustos do que no antes desta toda angústia. Foi assim em Março e Abril de 2020, durante a unânime suspensão. E termina o livro no 1º Maio, na visão da encenação pública da Alameda, pobre festa que tão resmungada foi, quando a tal momentânea congregação se cindiu.

Passou já um ano e meio sobre este início. E naquela época não se esperaria que tudo isto demorasse tanto tempo. Foi uma cesura, no tempo. Mas, mais do que tudo, nos ritmos. Nas nossas mentes, até bem mais do que nos hábitos, e quanto estes mudaram... Cesura que tanto perdura. Releio este livro, refolheio-o. E diante do preto-e-branco, de todo aquele silêncio que ecoa nas páginas, parece-me que urge cerzir o tão esgarçado. Pois, de facto, e por muito que o tenhamos alvitrado ou mesmo sonhado, nada de épico aconteceu.

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Cidade Suspensa: Lisboa em Estado de Emergência, Miguel Valle de Figueiredo (fotografias), Bruno Vieira Amaral (texto), Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020.

 

 

 

 

(Com este postal comecei no  meu blog uma série sobre os meus "livros do covid". Como vem aí a Feira do Livro deixarei também aqui no DO alguns desses postais, que nada mais serão do que "apelos à leitura" desses livros com os quais dialoguei sobre esta era).

Sobre o Afeganistão

jpt, 18.08.21

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Sobre esta coisa do Afeganistão deparo-me com vários conhecedores da situação. Desde um ex-deputado e agora candidato em Loures pelo BE que surge no reflexo típico de culpabilizar o Ocidente, cujos governos "bombardeiam (...) governos progressistas". Para outros - decerto que "progressistas" - aquilo é ab ovo culpa dos EUA, pois descobrem que estes apoiaram a guerrilha anti-soviética [note-se que há um já velho filme sobre isso, "Charlie Wilson's War" (Jogos do Poder) com o actual Jimmy Stewart, o grande Philip Seymour Hoffman e a divindade Julia Roberts, não estando assim estes investigadores a dar-nos grandes novidades]. Mas nenhum desses aborda os motivos da invasão soviética, decerto que por os considerarem irrelevantes.
 
Muitos, até não interseccionalistas, lamentam o destino das mulheres afegãs - mas poucos (não leio sequer um) se preocupa com a gente afegã qual eu. Outros, mais interseccionalistas e nisso paladinos da etnicização de Portugal e restante pérfido Ocidente, anunciam que o decadente governo afegão pró-ocidental descurou uma etnia (os pastós), deixando assim entender que a etnicidade é algo problemática, mas estarão certos que apenas nos longínquos vitimizados transeuropeus. Outros ainda, que leio há anos defendendo o status quo luso, apontam que a derrocada do poder de Cabul se prendeu a ter sido muito corrupto, assim anunciando que - decerto que apenas fora de Portugal - a corrupção estatal enfraquece as vias democráticas. E outros ainda, de recorte mais intelectual, concluem que os ocidentais nada percebem sobre o Afeganistão.
 
Continuo a crer que está (quase) tudo nos livros, e só lamento não ter a militância, a disciplina e, acima de tudo, a inteligência para ler o que me falta e, acima de tudo, reler o que me fez. Enfim, daquilo que me passou pela frente deixo um aviso e uma memória: o aviso, superficial, é sobre o que virá aí naquelas bandas. Será de ler "As Novas Rotas da Seda" do Frankopan. Quem o ler poderá fazer postais no FB, e nos blogs. E, alguns, até irão à TV botar faladura.
 
A memória, que é a coisa importante: está tudo no "O Americano Tranquilo" (há várias edições portuguesas) de Graham Greene (1955). Li-o aos 16 anos e descobri-me Thomas Fowler. Não como alter ego, como acontece nas leituras juvenis. Mas como reconhecimento, num "eu sou este gajo". Ainda hoje me surpreendo como me conheci tão cedo. Reli-o três vezes até aos 25 anos e não mudei de ideias. Depois aos 40s e sorri, na comprovação desse reconhecimento. Quando for à capital, às estantes do meu pai, relerei de novo, agora quase aos 60, usando este exemplar paterno, aquele com o qual descobri Fowler (jpt). Não me dará para postais de FB ou de blog. Mas, claro, e como sempre, dá-me para encolher os ombros diante dos convictos a la carte.

O assassinato nunca prescreve ("Mord verjährt nie")

Cristina Torrão, 30.04.21

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No passado dia 17 de Abril, o canal alemão ZDF transmitiu um policial sobre a tentativa de resolução de um assassinato acontecido há trinta anos ("30 Jahre", no texto em baixo).

 

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Tratava-se de um telefilme, mas, na Alemanha, investigações deste tipo não são ficcionais. O assassinato nunca prescreve. Sobretudo, quando existem meios de identificar um assassino, mesmo passada uma eternidade sobre o crime (como a descodificação do ADN). Já em Portugal, não se investiga um assassinato que tenha ocorrido há quinze anos ou mais. Porque, se os crimes não prescrevem, a possibilidade de instauração ou continuação de um processo penal ou ainda, noutros casos, a execução da sanção aplicada, prescrevem.

 

Vem isto a propósito de mais um policial de Mario Lima, o pseudónimo de um escritor alemão que vive em Portugal e do qual já aqui falei. Neste seu terceiro livro, cujo título Die Mauern von Porto é um pouco difícil de traduzir (talvez “Emparedadas no Porto”), ele ocupa-se precisamente com a prescrição de um assassinato.

 

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Um incêndio num prédio do Bairro da Sé, mais precisamente, na Rua da Bainharia, provoca estragos numa casa ao lado, vazia há várias décadas. Bombeiros e polícia penetram na casa, a fim de melhor avaliarem os estragos e, na mansarda, deparam com uma parede que, tudo indica, foi levantada à pressa e não tem qualquer passagem para o resto da divisão. Resolve-se mandar deitar a parede abaixo e surgem dois esqueletos, um deles ainda com restos de roupa.

 

A PJ é accionada e os exames de peritagem revelam tratar-se dos restos mortais de duas mulheres, mais precisamente, de uma adulta e de uma jovem de treze ou catorze anos. Porém, quando a equipa do inspector Fonseca se prepara para investigar o caso, a peritagem revela ainda que, apesar de os restos mortais indiciarem morte violenta, o crime terá acontecido há cerca de vinte anos. É um duro golpe, principalmente, para as duas investigadoras da equipa, que logo suspeitam que se trataria de mãe e filha e são firmes no pressuposto de que a culpa nunca prescreve.

 

Nunca me tinha ocupado do assunto e confesso que não sabia que um assassinato prescreve ao fim de quinze anos. O que são quinze anos? Nada! Neste livro, através de uma agente que é inserida na equipa do inspector Fonseca depois de ter trabalhado no departamento de combate à corrupção, o autor aflora ainda a prescrição de crimes de corrupção, alguns já ao fim de dois anos, assim como o enriquecimento ilícito de pessoas à frente de uma Fundação. E não é esquecido o facto de estas leis favorecerem os poderosos e os ricos, que, além de terem influência, estão em condições de contratarem advogados capazes de protelarem a investigação, até que os crimes prescrevam. Como se vê, Mario Lima aborda um tema bem actual. Já por isso, se aconselha a tradução deste seu livro.

 

A equipa do inspector Fonseca vai ser dada enfim a possibilidade de encontrar o culpado, pois um crime perpetrado há um tempo não tão longo assim despoleta acontecimentos fatais. O assassino fica nervoso com a descoberta dos esqueletos das suas vítimas. E há quem ainda não tenha digerido o desaparecimento de duas familiares, embora lhe tenha sido dada uma explicação plausível para a ausência delas. Porém, há sempre dúvidas que não se esclarecem, causando discussões, chantagens. E, numa hora de aperto, um assassino bem pode cometer novo crime...

 

Excelente policial de Mario Lima, que criou uma bela equipa de investigadores da PJ e que, como de costume, descreve na perfeição a atmosfera da cidade do Porto.

 

 

Adenda: o post estava programado há alguns dias e soube hoje, dia 30/04, que o ZDF vai transmitir um documentário, às 00:30 horas, sobre novas técnicas de investigação criminal, apresentando o exemplo de um especialista em ADN que ajudou a localizar o assassino de um rapazinho desaparecido em 1996.

Enamorada

Teresa Ribeiro, 28.04.21

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Há livros pelos quais nos apaixonamos e que lemos já não com prazer, mas com volúpia. Adiando no último terço o seu desfecho, sofrendo por antecipação o momento em que temos de os devolver à prateleira. Com "Coração Tão Branco", senti um desses enamoramentos - para citar outro título do autor, o espanhol Javier Marias. Dele li com entusiasmo outros títulos. Todos me revelaram talento para urdir enredos e construir  personagens complexas, que página a página se retratam, num striptease delicado. Mas este romance, amplamente premiado, coloco-o no meu pequeno altar privado, porque me revelou o que eu sabia e não sabia, mas por palavras que jamais conseguiria juntar, tal a subtileza, inteligência e elegância da escrita. 

 

Estou para aqui a falar de forma, mas o conteúdo é o melhor. Passo a citar:

"Guarda silêncio quem já tem alguma coisa e corre o risco de a perder ou está prestes a conquistá-la";

"Há muitos homens que julgam que as mulheres têm necessidade de se sentir muito queridas e aduladas, inclusive mimadas, quando o que mais nos interessa é que nos entretenham, isto é, que nos impeçam de pensar demasiado em nós próprias. Esta é uma das razões porque costumamos querer ter filhos";

"Abdicamos da linguagem da infância, abandonamo-la por ser demasiado esquemática e simples, todavia aquelas frases descarnadas e absurdas não nos abandonaram por completo, mas subsistem nos olhares, nas atitudes, nos sinais, nos gestos e nos sons".

 

A tentação é continuar, mas chega. São bons exemplos do que o autor consegue fazer. Através das personagens introduz com habilidade inúmeros pontos de reflexão e vai fundo, nós a reboque, inebriados pela sofisticação musical de cada frase. 

Sim, estou enamorada, mas não sou egoísta e partilho: se não leu este romance que Javier Marias escreveu em 1992, ainda vai a tempo.