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Os obituários de 2020 não deverão ter sido mais ricos e variados do que os dos anos anteriores. Mas talvez o ambiente pandémico me tenha feito mais atentar naqueles que findaram. Ou será da idade, isto de me ir vendo cada vez mais desprovido daqueles que me animam ou nos alumiam.

Um dos que morreram foi Artur Portela (Filho, como foi conhecido até ser avô e se ter insurgido contra a manutenção pública desse estatuto júnior). Oposicionista ao Estado Novo e depois julgo que próximo da área do PS. Nas estantes do meu pai estão alguns dos seus livros, dos quais trouxe 3 para este retiro confinado. Dois são volumes de “A Funda”, o 3º e o 4º (Arcádia, 1973 e 1974, respectivamente), recolhas de textos de opinião escritos entre 1972-4. São muito interessantes. É certo que são propositadamente textos de ocasião. Mas em muitos casos é espantosa a sua actualidade, e por mais do que por mera analogia (aliás, no 4º volume está o conhecido “O babygro político”, elogio a Marcelo Rebelo de Sousa – que aqui transcreverei se algum leitor o solicitar, pois não está disponível na internet). Mas também muito pelo que dá a conhecer, a nós mais-novos, do ambiente da “primavera marcelista” e das diferentes figuras que então assomavam.

Mas muito mais do que isso o que convoca é a verve, sarcástica, ferina de cruel. Sem quartel na sua elegância. Para usar este irritante termo que agora acampou na imprensa portuguesa, Portela (então Filho) “arrasava” ambientes e protagonistas – por exemplo José Hermano Saraiva, de tal forma que até me condoí do simpático celebrizado na tv.

Li os volumes neste final de Janeiro de 2021 – e, como sempre acontece quando lhe peço emprestados livros, em diálogo com o meu pai. É o período em que nos tornámos o país mais fustigado pelo Covid-19. Desapareceu o “milagre que é Portugal”. Expirou a imunidade promovida pela vacina da BCG. Descobriu-se que o governo não lê nem ouve as notícias internacionais, sobre “variantes inglesas” e outras … Explodiu uma corrida à célebre “atençãozinha”, umas vacinas para os amigos, tão mostrando o estado do nosso Estado … Ultrapassámos o Brasil de Bolsonaro mas a (tão competente) Mortágua não se indigna. Pior vamos que o reino da Suécia mas os próceres do PS calam a sua voz. Enchem-se os hospitais mas se em algum falta o oxigénio a culpa é do alarmismo da imprensa. Em suma, estamos confinados. E atrapalhados. E, tantos de nós, chorosos. Mas, dizem-nos, não nos cumpre criticar. Pois é hora de “unidade nacional”. E as críticas são “antipatrióticas”.

Pois durante este desatino, desnecessário, acima de tudo desnecessário…, tão fruto de incúria e incompetência, e tanto de inconsciência, fui dar uma volta ao rossio d’agora, o Facebook, a ver as modas. Ali encontro um enorme elogio – exactamente agora, quando isto está como está, depois de um ano disto – à nossa ministra da Saúde. “Super-Marta”, chamam-lhe! Chamou-lhe um, veterano bloguista. E logo a chamam milhares, todos os milhares, e muito são, que partilham o elogio, aplaudindo-o, aplaudindo-a.

Nem estupefacto fico. Pois logo me lembro de Portela – o tal que julgo ter sido próximo do PS, friso. O tal que sinto tão actual. Em Outubro de 1972 escreveu “O Príncipe da Rua do Século” (A Funda 3, Arcádia, pp. 161-163). O mote era um elogio publicado no “A Capital” ao Secretário de Estado da Informação e Turismo, a propósito do 4º aniversário da instauração dessa secretaria de Estado e da nomeação do seu responsável político. Deste, César Moreira Baptista, dizia o jornal tratar-se de príncipe que lá pontifica” e que “conquistou honras de generalato”, entre outras pérolas similares. Portela Filho – com uma nele inusitada placidez e até alguma simpatia (porventura irónica, seria necessário conhecer os meandros daquele tempo para descodificar por completo) pelo membro governamental – investiu impiedoso sobre o articulista:

O dr. César Moreira Baptista não é responsável pelo fundo de “A Capital”. É uma justiça que lhe devemos. Ponho até sérias dúvidas a que se sinta confortavelmente na moldura surrealista que “A Capital” lhe propõe – um Príncipe doublé de general que está servindo uma República.

E eu (…) que sou, definitivamente, contra toda e qualquer espécie de censura – imagino com alguma benevolência o esforço do Secretário de Estado em ultrapassar a tentação de fazer suprimir aquele editorial.

Esforço que resultava de duas contingências: o facto do Secretaria de Estado ser o homem que está levando por diante, no seu campo da Informação, a chamada política liberalizadora, e o facto de o editorial não ser contra mas, embaraçadoramente, dramaticamente, a favor.

É que o Secretário de Estado, seguramente homem de espírito, sabe que há uma coisa mais comprometedora do que um ataque bem feito – é um elogio grotesco.

E isto porque o ataque bem feito enobrece – o elogio grotesco diminui. O ataque bem feito produz o diálogo – o elogio grotesco produz o rubor. O ataque bem feito suscita a atenção – o elogio grotesco suscita a gargalhada. O ataque bem feito merece-nos. O elogio grotesco – compromete-nos.

É que o Secretário de Estado, inevitavelmente homem do mundo, sabe que, se somos um pouco responsáveis pelos nossos adversários, somos muito responsáveis pelos nossos aliados.

O que se torna tremendo quando um dos nossos aliados é o autor do fundo de “A Capital”. Eu serei adversário político do dr. César Moreira Baptista, mas não creio que ele mereça a violência que é este fundo.

Não creio que ele mereça o título de Príncipe. (…)

pela razão, simples e definitiva, de que esse título pertence, inteiramente, ao autor do fundo de “A Capital”. O Príncipe do Jornalismo. O Príncipe da Rua do Século. Manuel José. Homem. De Mello.

Hoje, neste confinamento de facto doloroso, cumpre a cada um encontrar um Manuel José Homem de Mello, reconhecê-lo, reconhecê-los. E, infelizmente, a alguns (muitos, de facto) serem-no.

As (poucas) leituras de 2020

por João Campos, em 01.01.21

Ao contrário do Pedro, que pelos vistos se fartou de ler em 2020, eu tive um ano péssimo de leituras. Tão mau, aliás, que talvez tenha de recuar a 2007 para chegar a um ano em que tenha lido tão pouco. É possível que para algumas pessoas o confinamento e o teletrabalho tenham proporcionado mais tempo para ler, mas não foi esse o meu caso. Longe disso, aliás. Não por faltarem os livros para ler - as estantes estão bem abastecidas -, nem sequer por faltar o tempo. O que faltou foi mesmo a disponibilidade mental para me dedicar à leitura. Nunca tive o hábito de deixar leituras interrompidas, mas neste ano isso aconteceu em três ou quatro ocasiões - não por os livros não serem interessantes, mas porque pausas de um dia rapidamente davam lugar a várias semanas dominadas pelo cansaço. Como muita gente terá percebido durante 2020, as vantagens oferecidas pelo teletrabalho escondem alguns inconvenientes, como o esboroar progressivo dos horários e das rotinas; no final dos inúmeros dias intermináveis de trabalho apetecia-me com mais frequência transitar da secretária para o sofá e ficar a ver televisão, ou ligar a Playstation e perder-me por umas horas num videojogo mais ruidoso e colorido (salvaram-me o Horizon: Zero Dawn na primavera e o No Man's Sky no Outono).

Claro que sempre li alguma coisa - quanto mais não seja porque a banda desenhada é sempre mais apetecível quando falta a vontade de me embrenhar num livro mais denso. Aqui ficam então algumas sugestões das minhas leituras de 2020.

The Vanished Birds, de Simon Jimenez (Del Rey Books, 2020)

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Um dos aspectos mais fascinantes da ficção científica literária reside no diálogo constante entre o passado e o futuro do género. Aos leitores menos habituados o género oferece uma multitude temática capaz de agradar a todos os gostos (assim se supere o preconceito habitual), mas aos conhecedores um livro de ficção científica oferece pelo menos um nível de leitura adicional: o da descoberta (ou redescoberta) das múltiplas influências e referências que surgem a cada linha, que dão forma àquele mundo secundário, e que conferem ao texto coordenadas muito precisas na vasta cartografia do género.

The Vanished Birds, romance de estreia do escritor de ascendência filipina Simon Jimenez, é um exemplo perfeito desse diálogo. O seu primeiro capítulo, uma história autónoma que decorre num planeta remoto, recupera de The Forever War (e, vá, da Teoria da Relatividade) a noção de que viajar pelo espaço é também viajar pelo tempo, e com ela constrói um romance improvável. A trama principal, desenvolvida numa estrutura narrativa nem sempre sequencial, é reminiscente tanto das modernas space operas políticas da tradição de M. John Harrison ou de Iain M. Banks como das histórias de gente comum a fazer pela vida no vazio do espaço - recordemos Firefly na televisão, ou a série Wayfarers de Becky Chambers na literatura (ou a Expanse de James S.A. Corey em ambas). E uma das ideias fundamentais do texto é levantado de Alfred Bester e do eterno The Stars My Destination. Mas desengane-se quem julgar que The Vanished Birds é apenas uma amálgama de ideias já usadas, recentes ou antigas: Jimenez utiliza todas essas influências para criar um futuro espacial muito próprio, tão verosímil como fascinante, e para contar uma história envolvente e cativante, com personagens verdadeiramente humanas. E isto com uma prosa magnífica, que embala todo o texto.

Há largos meses que tencionava trazer The Vanished Birds para o Delito, mas o texto permanece inacabado nos rascunhos - a impressão que o livro me deixou foi tremenda (o primeiro capítulo é magnífico, e jamais esquecerei as imagens da longínqua memória romântica de uma das personagens principais no terceiro), e talvez por isso me seja tão difícil escrever sobre ele, por paradoxal que isso possa ser. Foi não só o melhor livro que li em 2020, como um dos melhores livros que li em muitos anos. Nada mau para um livro de estreia.

Transmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson (Vertigo/DC Comics, 1997-2002)

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Já tinha começado a ler Transmetropolitan há alguns anos (tenho até ideia de ter mencionado o primeiro volume numa conversa no último jantar do Delito a que fui - noutros tempos, quando ainda havia convívios e socialização fora dos espaços virtuais), mas por algum motivo deixei a colecção e a leitura a meio. A colecção foi concluída ao longo do ano e à leitura dediquei-me durante o mês de Dezembro.

O que mais impressiona em Transmetropolitan quando o lemos em 2020 talvez seja a presciência incrível da trama urdida por Warren Ellis, centrada numa eleição presidencial norte-americana disputada entre um incumbente péssimo e um candidato terrível - várias são as passagens que, se retiradas das pranchas, podiam perfeitamente descrever os círculos de Donald Trump, com um cinismo que há vinte e poucos anos talvez fosse excessivo. E no olho do furacão eleitoral está Spider Jerusalem, o infame jornalista que abandona o exílio auto-imposto nas montanhas para regressar à Cidade e ao jornalismo. Ao longo dos dez volumes trade paperback vamos acompanhando as reportagens de Jerusalem e conhecendo aquela metrópole futurista, na melhor tradição da ficção científica cyberpunk de William Gibson, com extrapolações tecnológicas e sociais mirabolantes (há gatos mutantes, humanos geneticamente modificados, publicidade invasiva, bowel disruptors, etc). A ilustração de Darick Robertson e o seu olho atento para o detalhe dão à Cidade uma textura palpável, e algumas pranchas pedem mais atenção pelas inúmeras referências e jogos de palavras que incluem (recordo-me sempre dos cigarros de marca "Carcinoma Angels", ao mesmo tempo um jogo de palavras macabro e uma alusão a um conto notável de Norman Spinrad, por exemplo). É uma banda desenhada intensa, violenta, a todos os níveis excessiva - toda a criação de Spider Jerusalem é inspirada em Hunter S. Thompson, pelo que os leitores podem ter uma ideia do que os espera. Mas por hiperbólica que possa ser, Transmetropolitan é também uma ode ao Jornalismo, à profissão que já foi considerada o quarto poder, e um alerta para a corrupção política. Nestes tempos de declínio da imprensa e de recrudescência do populismo político talvez esta mensgem seja mais relevante do que nunca.

Nausicaä of the Valley of the Wind, de Hayao Miyazaki (Viz Media, 1982-1994)

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Os leitores decerto conhecerão Hayao Miyazaki pelos extraordinários filmes de animação japonesa que realizou desde o início dos anos 80 (e se não conhecem, não sei que vos diga). O que talvez menos gente saiba é que o mestre da animação também fez algumas incursões pela banda desenhada, e que o seu prodigioso filme de 1984, Nausicaä of the Valley of the Wind, é na verdade uma adaptação de uma longa banda desenhada da sua autoria.

Com um traço espantoso, Miyazaki constrói um futuro pós-apocalíptico no qual uma guerra e o cataclismo ecológico que se lhe seguiu destruiram a civilização tal como a conhecemos - restam pequenos reinos e cidades dispersas por zonas costeiras que uma Natureza agressiva ainda não consumiu. E a trama segue Nausicaä, a jovem princesa do Vale do Vento, forçada pelas circunstâncias a envolver-se numa guerra que não é a sua enquanto tenta compreender e aplacar a violência do mundo natural. É uma história fascinante e surpreendentemente violenta quando desviamos o olhar daquelas pranchas lindíssimas e nos lembramos de que foram ilustradas pelo autor de My Neighbour Totoro ou Kiki's Delivery Service. Nela, porém, também reconhecemos alguns motivos e temas recorrentes na obra cinematográfica de Miyazaki, como a dualidade Natureza/Indústria, o protagonismo dado a personagens femininas inspiradoras, que em momento algum assumem o papel de damsel in distress (Miyazaki, como Atwood, também já era ecologista e feminista antes das modas), e o absoluto fascínio por máquinas voadoras e pelo desafio constante à gravidade. Existe uma edição antiga em português, salvo erro em seis volumes, que pode ser encontrada em algumas bibliotecas e, com sorte, em alfarrabistas. Mas a edição em inglês da Viz Media, com dois lindíssimos volumes em capa dura, ficará muito bem em qualquer estante de banda desenhada.

Sex Criminals, de Matt Fraction e Chip Zdarsky (Image Comics, 2013-2020)

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No final de 2019, quando todas as publicações se dedicaram a fazer as listas das melhores obras "da década", descobri esta banda desenhada invulgar, que já tinha visto em algumas lojas especializadas mas que por algum motivo não me tinha despertado a atenção. Não sei que expectativas tinha em relação a Sex Criminals, mas não esperava de todo o que encontrei: uma banda desenhada cómica e atrevida, com um twist inesperado às tramas de super-heróis: a protagonista, Suzie, descobre na adolescência o seu super-poder: quando atinge um orgasmo o tempo pára para toda a gente... menos para ela. Literalmente. E quando conhece Jon e descobre que ele tem o mesmo poder (digamos assim), o próximo passo torna-se lógico: parar o tempo com um orgasmo e assaltar um banco. Por uma boa causa, claro: salvar a biblioteca onde Suzie trabalha.

É uma leitura tão pouco convencional como divertida - logo na primeira parte, as passagens nas quais Suzie recorda a sua juventude e a descoberta da sua capacidade invulgar são hilariantes, sem no entanto deixarem de ter uma certa familiaridade para qualquer leitor que ainda tenha presente toda a estranheza da adolescência. E o humor mantém-se em algums momentos mais pueris, e na ilustração talentosa de Chip Zdarsky, repleta de alusões e de piadas que noutro contexto seriam demasiado juvenis, mas que ali funcionam na perfeição. Dito isto, Sex Criminals é mais do quem uma mera banda desenhada cómica com sexo como pano de fundo: é também uma história profundamente humana sobre relações, desenvolvida com duas personagens empáticas que Fraction desenvolve na perfeição.

Apesar de Sex Criminals ter chegado ao fim este ano, ainda não terminei a leitura da série - comecei por comprar as duas magníficas edições deluxe da Image, pelo que aguardarei até ao Verão para adquirir o terceiro volume e ler então esta excelente banda desenhada até ao fim.

Até lá, espero ler mais do que em 2020.

Os melhores livros do meu ano(3)

por Pedro Correia, em 31.12.20

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À medida que vamos acumulando leituras, outro prazer os livros nos proporcionam. Refiro-me ao gosto da releitura, que em 2020 cultivei em doses adicionais.

Aproveitando o longo período de reclusão imposto pelas autoridades sanitárias e por força das circunstâncias, revisitei várias obras literárias, de autores muito diversos. Como se fosse um reencontro com velhos amigos, sem precisar de máscara.

Isto aconteceu-me tanto com autores portugueses como estrangeiros. Tratando-se, em certos casos, de uma leitura já em dose tripla. Mas nem por isso menos estimulante.

Fica a lista dos dez melhores livros que fui relendo no ano que agora acaba. Por ordem alfabética, como aconteceu aqui e aqui.

 

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A CIDADE E AS SERRAS, de Eça de Queiroz (1901). Já longe da estética realista, de que foi um dos principais cultores, Eça escreveu em França esta magnífica declaração de amor a Portugal. Com personagens, cenários e diálogos inesquecíveis, entre o luxo de Paris e a beleza rústica da paisagem duriense.

 

A ILHA DO TESOURO, de Robert Louis Stevenson (1883). Romance de aventuras para todas as idades - um dos mais célebres de sempre. Na sua galeria de personagens fabulosas destaca-se Long John Silver, o marinheiro renegado que abraça a pirataria, cruzando para sempre a linha divisória entre o bem e o mal.

 

A LINHA DE SOMBRA, de Joseph Conrad (1917). Um navio estagnado devido a uma imprevista calmaria oceânica, com dezenas de tripulantes infectados a bordo, parecendo alvo de uma insólita maldição. O protagonista jamais esquecerá esta sua viagem iniciática em mares orientais com galões de comandante.

 

A SELVA, de Ferreira de Castro (1930). Um dos raros romances portugueses com alcance universal. Castro transforma a sua experiência como jovem trabalhador braçal na Amazónia em material literário de inegável qualidade. Uma obra que tem como protagonista a floresta, com os seus mistérios e os seus terrores. 

 

ATÉ AO FIM, de Vergílio Ferreira (1987). Romance crepuscular do autor de Aparição, centrado num pai que vela o corpo do filho numa capela à beira-mar enquanto desfia memórias relacionadas com encontros e desencontros que mantiveram. Vigília povoada de interrogações e perplexidades sobre o homem e o seu destino.

 

CRIME IMPUNE, de Georges Simenon (1954). Obra capital entre os romances que o prolífico autor belga escreveu sem a presença tutelar do seu comissário Maigret. Ambientado numa pensão de Liège, com hóspedes de várias nacionalidades e oriundos de encruzilhadas diversas. Um deles terá um futuro trágico.

 

MAU TEMPO NO CANAL, de Vitorino Nemésio (1944). O melhor romance português do século XX. Imbatível como ficção literária no cenário açoriano - desenrolada em quatro ilhas: Faial, Pico, São Jorge e Terceira. Obra apropriada nestes tempos difíceis: a epidemia (aqui, de peste bubónica) é um dos temas centrais.

 

O MALHADINHAS, de Aquilino Ribeiro (1922). Obra-prima da nossa novelística, escrita na primeira pessoa do singular, com linguagem pícara e castiça, dando voz a um almocreve de meados do século XIX que percorria serranias beirãs no rescaldo da guerra entre liberais e miguelistas que dilacerou Portugal por muitos anos.

 

O TRIGO E O JOIO, de Fernando Namora (1954). A chamada escola neo-realista produziu romances de indiscutível qualidade. Talvez nenhum com tanta autenticidade como este, centrado num humilde camponês alentejano que ambiciona ser proprietário de uma burra e move tudo para concretizar tal sonho. 

 

VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS, de Júlio Verne (1870). Quinto romance mais traduzido em todo o mundo, tem encantado sucessivas gerações de leitores e mantém intacto o seu fascínio. Quantos de nós não desejámos embarcar no Nautilus - o primeiro submarino da literatura - sob o comando do enigmático capitão Nemo?

Os melhores livros do meu ano(2)

por Pedro Correia, em 30.12.20

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Como referi anteriormente, há muitos anos que não lia tantos livros como neste 2020 prestes a ficar para trás. Desde a adolescência, mais precisamente. O longo período de confinamento a que estive sujeito, à semelhança do que sucedeu com tantos de nós, incentivou-me a mergulhar ainda mais na leitura. E com proveito, devo confessar.

Ler, como alguém assinalava um dia destes, é a actividade intelectual que mais nos permite contrariar tendências dominantes, rejeitar o espírito de rebanho ou alcateia e mergulhar na subjectividade - no fundo, aquilo que nos diferencia dos restantes mortais.

Senti isso como nunca neste ano de pesadelo. Graças, em boa parte, a autores que escreveram sobre mundos e modas tão diferentes dos que agora experimentamos. Esta é uma conquista ímpar da literatura: fazer-nos viajar a qualquer momento no tempo e no espaço, abrindo-nos horizontes de toda a espécie. Graças a ela, ficamos a saber o que nos antecedeu e a conhecer a face oculta do que nos rodeia. E passamos até a ser iluminados sobre nós próprios.

Fica a lista dos dez melhores livros de autores estrangeiros que li no Ano da Pandemia. Por ordem alfabética, para facilidade de consulta.

 

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A IDADE DA INOCÊNCIA, de Edith Wharton (1920). Romantismo tardio cruzado com suave mas inequívoca denúncia social: eis alguns ingredientes desta fascinante viagem literária que nos apresenta a arrogante e pretensiosa classe dominante de Nova Iorque na década de 1870, com mais sombras do que luzes.

 

A MÃE, de Máximo Gorki (1907). O primeiro - e talvez o melhor - romance da escola do "realismo socialista", que mesclava ficção literária com cartilha política e produziu imensas cópias inferiores em que o talento se rendia ao proselitismo. Inesquecível, a personagem principal - figura cimeira da literatura.

 

A MENTE APRISIONADA, de Czeslaw Milosz (1953). Corajoso libelo contra o totalitarismo comunista a partir da experiência do autor, no auge da ditadura vermelha na Polónia, antes de rumar a um exílio que durou décadas e lhe custou a perda da cidadania. O equivalente em ensaio a O Zero e O Infinito em ficção.

 

A TIA JULIA E O ESCREVEDOR, de Mario Vargas Llosa (1977). Até que ponto a vida, tal como ela realmente é, pode funcionar como eficaz matéria literária? Desafio difícil, mas superado com brilhantismo neste divertidíssimo romance, aquele em que o Nobel de 2010 mais se desvenda sem biombos nem artifícios.

 

CORAÇÃO TÃO BRANCO, de Javier Marías (1992). Talvez o melhor romancista actual de Espanha, Marías elabora aqui uma teia de encontros e desencontros que se vão prolongando no tempo e no espaço, suscitando-nos interrogações sobre o destino humano. Basta o capítulo inicial para ascender ao patamar de obra-prima.

 

O AMANTE DE LADY CHATTERLEY, de D. H. Lawrence (1928). Muito mais do que um clássico da literatura erótica, é um estudo admirável da psicologia feminina e uma desassombrada denúncia dos preconceitos sociais vigentes na Inglaterra saída da I Guerra Mundial, ainda povoada de sombras atávicas.

 

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS (1997). O realismo mágico transposto para uma comunidade cristã na Índia com um arrojo e uma destreza literária em nada inferiores ao de Gabriel García Márquez. É também uma obra sobre as marcas da infância que permanecem para sempre inscritas nos sulcos da memória.

 

O MUNDO PERDIDO, de Conan Doyle (1912). Livro de aventuras, na mais genuína acepção do termo, esta obra-prima demonstra-nos que existem sempre novas fronteiras por desbravar, por vezes em desafio aberto à lógica cartesiana. Recomendável aos nostálgicos do género, que suscita fascínio em todas as idades.

 

RESSURGIR, de Margaret Atwood (1972). Admirável romance sobre o fascínio das raízes familiares, os precários laços afectivos que provocam cicatrizes e a atribulada relação entre o homem e a natureza, desenrolada em cenário florestal do Canadá. Ambientalista e feminista antes de estes conceitos se tornarem moda.

 

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM, de James Joyce (1916). Um dos melhores livros sobre as encruzilhadas da adolescência: Joyce conduz-nos à sua Dublin natal do final do século XIX em óbvia evocação autobiográfica. Tornando-nos testemunhas privilegiadas das suas crises de identidade e dos seus dilemas existenciais.

Os melhores livros do meu ano(1)

por Pedro Correia, em 29.12.20

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É sempre assim. Chego a Dezembro e elaboro o meu balanço de livros e filmes. Neste ano de pesadelo, como muitos de nós classificamos 2020, os meus livros ganharam por larga vantagem aos meus filmes. Apesar do confinamento, ou talvez até por isso, apeteceu-me muito mais mergulhar na leitura do que assistir a filmes. Ler e cozinhar foram, aliás, os meus passatempos favoritos no ciclo de 12 meses que agora chega ao fim.

Os filmes foram ficando para trás. Sendo com frequência trocados também por séries, vistas ou revistas - dos clássicos Columbo e Uma Família às Direitas até ficções televisivas contemporâneas de inegável qualidade, como a intrigante Shetland, a devastadora Hinterland, a negra Absolvição, a sombria Linha Invisível, a desbragada Narcos, a tensa Os Crimes de Valhalla, a cáustica Barão Negro, a surpreendente Hierro, a empolgante Salvação, a imprescindível The Crown

 

Pois desta vez os livros venceram por larga margem: 100-40. Uma goleada, como se diz em linguagem futeboleira. Refiro-me apenas aos livros lidos integralmente neste 2020 que nos virou a vida do avesso: os que abandonei a meio, fosse por que motivo fosse, não entram nesta contabillidade. 

Durante três dias, começando hoje, deixarei aqui a lista dos dez melhores destes cem, multiplicada por três: a primeira, já de seguida, respeitante só a autores portugueses. Amanhã virão os autores estrangeiros. Depois de amanhã, recordo os dez que mais gostei de reler. Títulos sempre acompanhados por duas ou três frases sobre cada obra.

Cada lista fica por ordem alfabética. Podia ter sido outro o critério, mas prefiro este.

 

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A PAZ DOMÉSTICA, de Teresa Veiga (1999). Romance de estreia desta escritora avessa a protagonismo mediático, mais conhecida como contista. Relato sincopado do singular percurso de uma mulher ao longo de um quarto de século de convulsões políticas em Portugal, com drama e comédia entrelaçados.

 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de José Saramago (1995). Ponto culminante da literatura portuguesa de ficção em matéria de distopias. Lúcida descrição de um mundo sem fronteiras espaciais ou temporais convulsionado pela cegueira colectiva. De leitura quase obrigatória em tempo de pandemia.

 

GAIBÉUS, de Alves Redol (1939). O neo-realismo português entrava em cena neste romance, trocando as personagens individuais pelo protagonismo colectivo de humildes trabalhadores agrícolas das Beiras que desciam ao Ribatejo para ganhar a vida em tempo de ceifas e colheitas. Quase como escrita de repórter.

 

GAIVOTAS EM TERRA, de David Mourão-Ferreira (1959). Quatro novelas que marcaram a estreia em ficção deste grande poeta. À sua maneira, cada uma celebrando com nostalgia a Lisboa burguesa de meados do século XX. Duas delas originaram filmes, realizados por Jorge Brum do Canto e José Fonseca e Costa.

 

KURIKA, de Henrique Galvão (1944). Muitos ignoram que o futuro opositor de Salazar se distinguira antes como escritor, sobretudo de temática africana, como reflexo dos anos vividos em Angola. Este é um romance em que os animais surgem em surpreendente destaque, num contraponto português a Lassie ou Bambi

 

QUANDO OS LOBOS UIVAM, de Aquilino Ribeiro (1958). Romance-libelo sobre a luta dos camponeses da Beira Alta pelo cultivo de baldios que valeu ao autor um processo judicial e a ameaça de prisão. Inesquecível, a longa cena desenrolada num Tribunal Plenário, com palavras desassombradas em desafio à ditadura.

 

SILÊNCIO PARA 4, de Ruben A. (1973). Quatro personagens em diálogo neste romance incompreendido à época. Obra imediatamente anterior à revolução, ganha em ser lida à distância de quase meio século. Por ser sinal evidente de um fim de ciclo: a mudança de costumes antecipava o vendaval político.

 

TERRA MORTA, de Castro Soromenho (1949). Houve um tempo em que a literatura portuguesa não se circunscrevia ao continente europeu. Entre o legado dos nossos escritores africanistas distingue-se este apaixonado e pungente retrato da gente e do espaço em zonas remotas de Angola na era colonial. 

 

VIVER COM OS OUTROS, de Isabel da Nóbrega (1964). Um prodígio formal, este romance escrito da primeira à última linha num discurso directo que nunca soa a artifício. Na Lisboa privilegiada em que se anteviam os primeiros sinais de desagregação das classes sociais que funcionaram como âncora do Estado Novo. 

 

VOLFRÂMIO, de Aquilino Ribeiro (1943). Romance escrito quase em tempo real, no auge da guerra, quando ingleses e alemães disputavam as riquezas minerais do interior português, aproveitando a nossa neutralidade no conflito. Com personagens credíveis e uma impressionante riqueza vocabular, marca distintiva do autor.

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Abaixo aludi à necessidade de repensar as celebrações do dia de São Martinho - meu modesto contributo à proposta presidencial de reflexão sobre os convívios familiares natalícios durante este Covidoceno.

Nos comentários a esse meu postal João Lisboa colocou ligação a uma interessantíssima série de 3 postais no seu Provas de Contacto, dedicados às origens e conteúdos das celebrações do São Martinho, frutos da leitura do livro L'Ours/Histoire d'un Roi Déchu de Michel Pastoureau (La Librairie du XXIème Siècle/Seuil, 2007). Os três (breves e sumarentos) textos são acessíveis nesta ligação. Muito aconselho a sua leitura.

Born a Crime. (Audio)li e recomendo

por Marta Spínola, em 08.09.20

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Tiremos isto do caminho desde já: eu audioleio. Leio, e-leio, audioleio. Gosto de um livro, do seu peso e cheiro, mas quando preciso de andar e desandar, o audiobook releva-se extremamente útil e o e-book muito leve. 

Recomendo a versão audio e original deste livro de Trevor Noah, por ser um extraordinário contador de histórias, no caso a da sua infância e adolescência numa África do Sul onde o Apartheid não tinha lugar para um rapaz nascido de mãe negra e pai branco - o tal crime do título. É um ponto de vista muito pessoal, a sua avó castigava os primos de uma forma diferente por não saber como educar com um rapaz branco (que nem ele nem nós hoje vemos como branco). Contado pelo próprio é como estar à mesa com um amigo que nos conta as suas memórias. 

Não é um livro que pretenda mudar o mundo, mas é um relato muito franco - pois se o viveu -, muito claro e vivo de um dia a dia dos anos 90 em Joanesburgo. 

Destaco o maior comic relief, o capítulo "Go Hitler" - não esse Hitler, um amigo de Noah, mas contar mais estraga esta passagem. É cómico e triste ao mesmo tempo: dois mundos que chocam sem que se percebam um ao outro.

Era isto, é um bom livro e se o puderem ouvir na versão original, tanto melhor, garanto que compensa começar a "audioler" por este. 

 

(adaptado de um post no Da Vida de Pi)

Uma História da ETA | Pub

por Diogo Noivo, em 05.09.20

O Diário de Notícias publica hoje uma entrevista conduzida pela Valentina Marcelino onde falamos do passado, do presente e do futuro.

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No Expresso, o Hugo Franco escreve sobre a primeira grande aquisição de armas feita pela ETA - que lhe permitiu dar "o salto" de movimento para organização terrorista -, intermediada pelos portugueses da LUAR. 

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São partes de um trabalho de dois anos que chegou hoje em forma de livro à Feira do Livro de Lisboa - e que chegará às livrarias no dia 13 de Setembro. A propósito de partes, o Observador publica parte de um capítulo no seu site (não percebo bem porquê, mas é apenas para assinantes).

Espero que os leitores do DO e os meus camaradas delituosos encontrem nestas páginas - dos jornais e do livro - algo de interesse.

Uma História da ETA | Pub

por Diogo Noivo, em 01.09.20

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Chegam ao fim dois anos de trabalho nos dois lados da fronteira. Com base em documentação de arquivo - muita dela inédita - e algumas entrevistas, este livro traça a história política da organização terrorista ETA, extinta em 2018. É uma história de nacionalismo, nativismo e violência política. Pelo meio, faz-se a primeira análise sistematizada da presença e relações do terrorismo nacionalista basco em Portugal (1960-2010).

Estará disponível na Feira do Livro de Lisboa no próximo fim-de-semana. E chegará às livrarias de todo o país em meados de Setembro. Até lá, os interessados podem encontrá-lo na página web da editora E-Primatur / Bookbuilders com desconto de pré-lançamento. Darei notícias.

Botar Abaixo o Hemingway?

por jpt, em 28.06.20

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Há em várias cidades um punhado de estátuas de Hemingway. Deixo um excerto do autobiográfico "As Verdes Colinas de África", escrito em 1935. Talvez seja um exemplo apropriado para uma era em que as sensibilidades pretéritas andam a ser avaliadas. A preto e branco ...

"M'Cola foi, aos saltos, pela montanha abaixo e, através do riacho, mesmo no lado oposto ao nosso, surgiu um rinoceronte a correr, num trote ligeiro, pela parte de cima da margem. Quando o observávamos, apressou o passou e correu, em trote rápido, perpendicularmente à beira da estrada. Era de um vermelho sujo, o chifre muito visível, e não havia nada de pesado nos seus movimentos, rápidos e deliberados. Ao vê-lo, senti-me excitado. 

- Vai atravessar o regato - observou Pop - Está ao alcance do tiro.

M'Cola pôs-me a Springfield na mão. Abri-a para me certificar de que estava carregada. O rinoceronte estava fora da minha vista, mas distinguia-se o agitar do capim alto. 

- A que distância julga que pode estar?

- A uns quatrocentos metros.

- Hei-de apanhar esse malandro.

Conservei-me alerta, procurando deliberadamente acalmar-me, fazendo cessar a excitação como quem fecha uma válvula, entrando naquele estado impessoal que se atinge ao fazer pontaria. 

O animal surgiu no regato baixo e pedregoso. Naquele momento apenas pensava em que era perfeitamente possível alvejá-lo, mas que para isso era necessário alcançá-lo e ultrapassá-lo. Alcancei-o, ultrapassei-o e disparei. Ouvi o ruído da bala e, como animal seguia a trote, esta pareceu-me ter explodido mais à frente. Com um resfolegar sibilante, caiu prostrado, esparrinhando água e roncando. Disparei de novo, levantando uma coluna de água atrás dele. Como tentasse escapar-se para a relva, voltei a disparar. (...)

Droopy correu. Carreguei a espingarda e corri atrás dele. Metade dos homens do acampamento estavam espalhados pelas colinas (...). O rinoceronte tinha-se dirigido precisamente para debaixo do lugar onde eles se encontravam e subia o vale em direcção ao sítio onde se perdia na floresta. (...)

O rinoceronte estava no capim alto, atrás de uma qualquer moita. Enquanto avançávamos, ouvimos um roncar surdo, quase um gemido. O ruído voltou a ouvir-se, terminando desta vez com um suspiro sufocado pelo sangue. Droopy ria.  (...) Sabíamos onde estava o animal e, ao aproximarmo-nos, lentamente, abrindo passagem pelo mato alto, descobrimo-lo. Estava morto, caído sobre um dos flancos. (...)

Quando chegou o grupo todo, voltámos o rinoceronte de forma a ficar como que numa posição de ajoelhado e cortámos o capim em volta para tirarmos fotografias. (....) ali estava com a sua comprida carcaça, pesados flancos, de aspecto pré-histórico, a pele como borracha vulcanizada e vagamente transparente, com a cicatriz de uma ferida causada por uma cornada e depois picada pelos pássaros, a cauda grossa, redonda e aguçada, carraças de mil patas formigando-lhe no corpo, as orelhas franjadas de pêlos, olhinhos de porco, com musgo na base do chifre, que lhe saía da parte de frente do focinho. (...) Era um animal dos diabos! (...)

- Estou louco de satisfação - confessei."

(Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África, Livros do Brasil, 77-81. Tradução de Guilherme de Castilho. Edição original em inglês de 1935)

 

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 10.06.20

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Páginas Esquecidas, de Agostinho da Silva

Fixação do texto, selecção, introdução e notas de Helena Briosa e Mota

(edição Quetzal, 2019)

"Por decisão da organizadora, este livro mantém a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990"

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Sete anos

por Pedro Correia, em 10.06.20

Mais logo publicarei a última nota inserida na rubrica "Sugestão: um livro por dia" . Faço-o após sete anos consecutivos, colocando assim um ponto final naquela que é, porventura, a mais antiga série ininterrupta de postais subordinada ao mesmo título e ao mesmo tema da blogosfera portuguesa. Desde Maio de 2013, trouxe aqui mais de 2500 pistas de leitura - dos mais diversos géneros, das mais diversas proveniências, dos mais diferentes autores. Tendo como fio condutor, salvo muito esporádicas excepções que só serviram para confirmar a regra, a recusa da escrita acordística, cheia de consoantes mutiladas, que continua a ser rejeitada pela larga maioria dos nossos escritores.

Termino por cansaço natural e porque tudo tem necessariamente de chegar ao fim. Assim farei, simbolicamente, neste 10 de Junho - um Dia de Portugal em formato minimal, outra experiência inédita deste ano que tem sido fértil em inovações. Fica desde já o aviso porque os leitores do DELITO - que durante tanto tempo me incentivaram a prosseguir - merecem esta atenção.

Falta acrescentar que, dos títulos que aqui fui destacando ao longo de todo este tempo, só menos de 5% me chegaram às mãos por ofertas espontâneas de autores ou editoras. Nem nunca solicitei o envio de obra alguma - para reforçar a minha independência de critério e a minha integral liberdade de escolha.

Espero que tenham gostado. Este extenso inventário aqui permanecerá, para memória futura. Agora é tempo de virar a página.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 09.06.20

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As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis

Romance

(reedição Guerra & Paz, 2019)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 08.06.20

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Acordo Ortográfico: um Beco Com Saída, de Nuno Pacheco

Língua portuguesa

(edição Gradiva, 2019)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 07.06.20

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A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle

Tradução de Ivan Figueiras

Ensaio

(edição Guerra & Paz, 2020)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 06.06.20

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Mente e Consciência, de Artur Azul

Filosofia e neurociência

(edição Guerra & Paz, 2019)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 05.06.20

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O Livro dos Gatos Práticos do Velho Gambá, de T.S. Eliot

Tradução de Daniel Jonas

Poesia

(edição Assírio & Alvim, 2019)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 04.06.20

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Não Pai, de Daniel Blaufuks

Relato

(edição Tinta da China, 2019)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 03.06.20

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Homenagem à Catalunha, de George Orwell

Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

Reportagem

(reedição Antígona, 2019)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 02.06.20

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À Beira do Mar de Junho, de João Miguel Fernandes Jorge

Poesia

(edição Relógio d'Água, 2019)

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O nosso livro



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