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Burrice apenas

por Pedro Correia, em 02.07.19

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Mania tão nossa esta, a de alterar os nomes às coisas. Como sucedeu com Uma Agulha no Palheiro, de Salinger, entretanto baptizada com um título horrível, À Espera no Centeio. E com a já clássica Cabra-Cega de Roger Vailland, que passou a um insípido Jogo Curioso. Ou - pior ainda - com o magnífico Monte dos Vendavais, de Emily Bronte, transformado sucessivamente em O Monte dos Ventos UivantesO Alto dos VendavaisA Colina dos Vendavais.

Ainda há dias vi dois destes títulos diferentes para crismar a mesma obra alinhados numa livraria em Lagos: surgem documentados nesta fotografia, como irmãos siameses. Interrogo-me se estaremos perante simples manha comercial para iludir uns incautos (que pensam adquirir uma obra diferente daquela que já terão lá por casa) ou mera vontade de mudar o que está bem, outra mania muito nossa. Sem absorver um salutar princípio colhido do futebol: em equipa que ganha não se mexe. Dos livros devemos dizer o mesmo.

Desonestidade intelectual, em qualquer dos casos. Ou nem isso: burrice apenas.

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Lamento

por Pedro Correia, em 09.01.19

Uma das melhores livrarias de Lisboa, de que fui durante anos visitante e cliente habitual, era a Bulhosa, situada no extremo sul do Campo Grande, já quase em Entre-Campos. Um dia, há pouco mais de um ano, encerrou "para inventário", como rezava o letreiro. Não voltou a abrir: morreu assim, ingloriamente, perante o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura.

Há dias passei por lá. Onde morou a Bulhosa está agora um desses estabelecimentos pindéricos que prometem "depilação total nas axilas e nas virilhas" em letras garrafais estampadas à entrada. É uma actividade em expansão, ao que parece. A malta preocupa-se com a fachada e marimba-se para o intelecto: os neurónios não propiciam fotos giras no Instagram.

Lamento, claro. Mas não estranho. Ainda há pouco, numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um. «Li por obrigação quando andava na escola, felizmente hoje já não preciso disso», respondeu um, sem sombra de ironia. Daí as livrarias - que também eram um espaço de convívio, de socialização, de buscas e descobertas - irem fechando, umas atrás das outras, por esse país fora. Pobre e frívolo país, tão mal instruído e tão bem depilado.

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Périplo de Livrarias em Nova Iorque

por Francisca Prieto, em 18.01.17

Na semana passada, a Livreira Acidental concretizou um velho sonho e, argumentando tratar-se de uma viagem de trabalho, fugiu para Nova Iorque para vasculhar todas as boas ideias que pudesse encontrar, por entre as livrarias da cidade.

Após quilómetros de quarteirões calcorreados e de opiniões tomadas, resolveu partilhar aquelas que considerou serem as quatro livrarias obrigatórias para um livrólico convicto.

 A McNally Jackson, na Prince Street, no Soho tem a característica de ter os livros organizados por zonas geográficas. Para além de ser um espaço com bastante personalidade, oferece uma variedade considerável de excelentes autores e revistas literárias.

 A 192 Books, em Chelsea, é uma livraria pequena mas tem uma selecção absolutamente excepcional de títulos. Percebe-se logo que o dono é alguém com um gosto literário apurado. À conversa, descobrimos que é gémeo de Fernando Pessoa - ambos nasceram a 13 de Junho - e que por isso tem o grande sonho de um dia vir a Portugal.

 A Housing Works é uma livraria solidária, onde todos os livros são doados, o staff é voluntário e 100% dos lucros revertem para uma instituição que oferece apoio a cidadãos com HIV e a sem abrigo. É aqui possível encontrar algumas raridades a óptimos preços.

 A Strand é a catedral do livro. Juntando livros novos e em segunda mão, é o paraíso para quem gosta destas andanças. Apesar de enorme, é uma livraria super personalizada, cheia de sugestões por todos os cantos e com secções temáticas de quilómetros.

Se só puder visitar uma livraria, atire-se à Strand. É possível passar lá uma tarde inteira sem nunca se aborrecer.

 

Strand.jpg

 

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Aventuras de Uma Livreira Acidental

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Hoje, a propósito do Festival Internacional de Cultura, a Déjà Lu andou em polvorosa. A RTP tinha-nos pedido para filmar um par de entrevistas numa das nossas salas e nós não nos fizemos rogados. Estendemos a passadeira vermelha e vergámo-nos em vénia, mortinhos por assistir a tudo.

O primeiro entrevistado foi Andrew Morton, famoso biógrafo de várias personalidades, incluindo membros da família real inglesa. A conversa foi muitíssimo interessante, mas confesso que tinha o coração em pulgas. Sabia que o segundo convidado seria David Lodge. Ora, eu adoro o David Lodge, a tal ponto que já li três vezes o “Terapia” e sei várias passagens de cor.

De maneira que quando a equipa técnica, entre uma entrevista e outra, comentou que “o outro” ainda não tinha chegado, tive de me insurgir e de perguntar se se estavam a referir naqueles termos miseráveis a Sir David Lodge.

Lá chegou então o senhor, muitíssimo discreto, que se deixou entrevistar com toda a candura.

No final, convidei-o a visitar a livraria. Expliquei-lhe que se tratava de uma livraria solidária, cujos lucros eram destinados a 100% para projectos de profissionalização de jovens com Síndrome de Down. Neste momento fui interrompida: “Down Syndrome, you said? Do you know that I have a son with Down Syndrome?’”.

E foi assim que tive direito a uma prolongada cavaqueira com um dos meus escritores predilectos, que autografou com toda a boa vontade e simpatia uma data de exemplares que lhe fui pondo à frente com toda a lata do mundo.

Depois, convidei-o a voltar à livraria para passar pelas brasas num dos nossos cadeirões, prometendo que não o ia maçar nada, nada, nada. Mesmo nada.

A vida às vezes dá-nos cada presentão.

 

Eu e David Lodge.jpg

 

Eu, em estado de comoção apocalíptica. 

 

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Aventuras de Uma Livreira Acidental

por Francisca Prieto, em 29.01.16

Há dias em que o coração de uma livreira acidental fica à beira de um enfarte de felicidade.

Hoje, a equipa da caixotaria começou a jornada num dos nossos pontos de entrega de livros, com a missão de se lançar ao desbaste. Isto quer dizer que nos atiramos aos sacos e caixotes que os doadores por lá vão deixando e vamos separando a mercadoria por temas, títulos para seguirem directamente para a livraria, outros para armazém, outros ainda para restauro ou para serem vendidos na internet. Uma trabalheira dos diabos, mas que alguém tem de fazer.

Para o final restavam três enormes caixotes em que ainda não tínhamos tido coragem de pegar, pelo tamanho e pelo peso.

Abrimos à cautela e fomos retirando o espólio. À primeira remessa, o meu coração começou a palpitar: saltaram-me logo para as mãos uns quantos José Régio antigos, aos quais se seguiram Stau Monteiros de que nunca tinha ouvido falar, mais umas quantas primeiras edições de poesia de primeira.

Ao segundo caixote estava perto da taquicardia quando começaram a aparecer Luiz Pachecos, um Ary dos Santos autografado, mais um Herberto Hélder muito antigo e mais uma data de volumes de Brecht iguais aos que existiam em casa dos meus pais.

O nível dos livros era de primeiríssima e, para além da alegria, a raiar a comoção, de os ter a passar pelas mãos, não nos foi alheio o sentimento de que serão certamente uma excelente fonte de angariação de fundos para a nossa causa.

Depois desta trabalheira, e com o coração em transe de gratidão por quem lá deixou os caixotes, venho para casa. Sabia que tinham passado por cá a deixar uns quantos livros provenientes do Porto.

É quando olho para o primeiro saco que o coração me cai aos pés. Não era nenhum Herberto Hélder, nem tão pouco um Luiz Pacheco. Era uma colectânea de peças de teatro infantil, compilada em 1948, onde constam duas peças escritas pelo meu pai, que foram levadas a cena vezes sem conta, mas de cujo livro original só temos um exemplar na família.

Não sei qual é o valor de mercado. Baixo, provavelmente. Mas no rating do meu coração, foi a melhor surpresa do dia. Foi a única que me levou às lágrimas.

 

livro pai.jpg

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Projectos Que Deviam Ser Divulgados Por Todo o Lado

por Francisca Prieto, em 06.10.14

Ouvi falar do Sr. Teste de uma vez que ocorria uma tragédia na biblioteca cá de casa: havia um título essencial que se encontrava esgotadíssimo há vários anos. Uma amiga assegurou-me ser missão para o Sr. Teste, o especialista da arqueologia livreira lisboeta, a quem recorria várias vezes em casos com o mesmo grau de seriedade.

Fui seguindo o meticuloso trabalho do Sr. Teste, ora mais de perto, ora mais de longe, através do blogue (agora meio parado) e da página do facebook (cada dia melhor) onde o tom espirituoso e as nuances humorísticas foram fazendo as minhas delícias.

Há umas semanas tive o prazer de ficar a saber que o Sr. Teste já tem casa, e que casa, meu Deus. Um r/c alto, cheio de charme, no edifício da Sociedade Guilherme Cossoul, na Av. D Carlos I, nº61, em Lisboa. De maneira que o fui logo visitar e tive o prazer de conhecer o Ricardo, uma daquelas pessoas meia tímidas, simpaticíssimas, que se percebe logo que têm um coração que desata a palpitar quando dá de caras com um título bestial.

O stock da loja é bom, com muita poesia, bons autores brasileiros, arte e fotografia. Há livros novos e usados, mas há sobretudo uma enorme vontade de nos sentarmos naquele recanto a passar um bom bocado.

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Tresleituras

por José Navarro de Andrade, em 18.07.13

 

A propósito do recém-anunciado encerramento da Livraria Sá da Costa uma venerável critica literária & jornalista cultural recorda o fecho da Livraria Portugal e a sua substituição por uma pastelaria, para imprecar com amargura: “nunca passo pela Rua do Carmo sem um abalo e nunca resisto a desejar que as pessoas que estão sentadas a comer brioches e queques coloridos no lugar onde antes havia um balcão de livros, pessoas que recomendavam leituras, memórias de tanta gente – minhas também – e de uma cidade, se engasguem com as migalhas.”

Em jovem cheguei a supor que os livros e o amor por eles nos tornariam pessoas melhores, mais cultas e cosmopolitas, mais tolerantes e generosas. Mas conforme fui lendo um pouco mais (curiosa contradição), também fui percebendo que as maiores maldades que a humanidade perpetrou foram inspiradas em livros, uns sagrados, outros idolatrados.

Confesso que me impressiona bastante que alguém deseje a infelicidade ou o mal dos outros como forma de compensar a dor que sente. Mas esta cultura do lamento, que tão candidamente a autora expõe, procede de uma ética altiva, em que faz prova de refinamento o sentimento de superioridade intelectual e o despeito pelos miseráveis ignaros que não partilham os meus inteligentíssimos gostos. Todavia, quem diz viver rodeado de bestas talvez devesse ponderar se foi ali parar por engano ou se não fará parte da manada.

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Este país não é para livros

por Ivone Mendes da Silva, em 01.03.12

Faz uns meses, fui à livraria de uma grande superfície sita a dois passos de minha casa para comprar Um mundo iluminado de Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly. Queria oferecê-lo para comemorar efeméride cuja data já passara e daí a pressa. Não tenho o hábito de fazer lá compras, prefiro a pequena e antiga Gil Pais, no centro de Torres Novas, onde digo o título e mo põem nas mãos em segundos. Se não houver, mandam vir e é rápido.

Entrei, pois, na referida livraria e dirigi-me ao local onde vira a obra numa anterior passagem. Pensei que, não estando na prateleira dos destaques, o local indicado seria a estante da temática respectiva. Procurei, procurei e nada. Procurei também uma funcionária. Andavam por lá duas ou três com um ar azafamado que se transformou num ar enfadado quando perguntei pela obra a uma delas:

- Isso é sobre o quê?

Há caras que não enganam. Decidi que seria melhor dizer que não o encontrava na estante onde repousavam os livros de temática congénere.

- Ah! E viu bem?

- Sim, tenho o hábito de ver bem, não quero é estar a desarrumar tudo, há livros por detrás de livros …

Respirou fundo:

- Vou ver.

Viu, remexeu, viu. Nada. Já andava pela zona dos livros de Gestão, quando lhe travei as manobras.

- Desculpe, não têm uma base de dados onde possam verificar as existências?

- Base?

-Sim. Por exemplo: um computadorzinho onde possa escrever o título e obter a informação. Ou há ou não há.

Passou outra empregada:

- Algum problema?

- Esta senhora queria um livro.

- E sabe o título?

Se eu não lhe dei um par de estalos ali mesmo, é porque nunca na vida baterei em alguém.

- Claro que sei.

Deve ter sido qualquer coisa no meu olhar (não faço ideia do quê …) que fez a segunda empregada caminhar em direcção ao computador.

- Como é o título?

Procurou.

- Sabe como é capa? Veja lá se é este?

Sim, eu sabia. Sim, era aquele.

- Há dois!

- Óptimo. Basta-me um.

Não deu sinais de se querer mexer. Chegou a terceira empregada. As pontas dos meus cabelos deviam estar a ficar verdes e as unhas tinham pensamentos nefastos.

- Esta senhora queria este livro.

- Já procuraram?

- Não há nenhum aqui em cima.

- Então deve estar lá em baixo.

Ninguém se mexeu para ir lá abaixo. Perguntei:

- Não estou a perceber uma coisa: há pouco tempo o livro estava ali em destaque. Neste momento há dois exemplares lá em baixo, seja lá isso o que for…

- Sim, ainda não vieram para cima.

- Desculpe, qual é a vossa política de reposição de livros nas estantes?

- Política??

- Pronto, não se incomodem mais. Eu vou comprá-lo a um sítio onde vendam livros.

Saí porta fora perante a mais completa indiferença daquelas duas pessoas. Quinze minutos depois, saí novamente. Desta vez da Gil Pais, com livro, embrulho e lacinho.

Lembrei-me disto há pouco, quando vi na SIC a Livraria Portugal a fechar. Sei, infelizmente sei muito bem, que há coisas mais tristes na vida do que o encerramento de uma livraria. Mas o encerramento de uma livraria é uma coisa triste. Lentamente, vamos ficando reduzidos a espaços onde não cheira a livros, onde não se respira o pó dos livros (é para o Jaime, claro), onde dois ou três exemplares da mais esplendorosa iliteracia nacional circulam por ali como podiam circular pela charcutaria. Eu sei que a vida está difícil. A minha também.

(também aqui)

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Trocadilhos & Proporções

por Rui Rocha, em 30.01.12

 

Os Maias estão para a Meyer como a Livraria Portugal está para a FNAC.

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Livraria Portugal vai fechar

por Teresa Ribeiro, em 23.01.12

Foi a livraria da minha infância e adolescência. Depois comecei a traí-la. Parava sempre diante da montra quando passava pela Rua do Carmo, mas já não entrava, sei lá porquê. Agora foi-se e sinto-me culpada por me ter deixado manipular pelo marketing da concorrência, eu que até tenho a mania que sei resistir a essas coisas.

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O nosso livro






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