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Falar muito e comer quase nada

por Pedro Correia, em 04.07.19

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Já aqui expressei a minha perplexidade pelo facto de haver tão escassas descrições de lautos manjares na literatura portuguesa. Perplexidade tanto maior quanto é sabido que gostamos de comer e encontramos uma apreciável variedade de opções gastronómicas no País, viajemos para onde viajarmos dentro das nossas fronteiras. Às vezes parece-me que os nossos escritores consideram o tema um assunto menor. Ou, para ser mais directo, que não apreciam mesmo os prazeres da mesa. Podemos percorrer a obra inteira de vários autores sem depararmos com um único repasto memorável. 

Há excepções, claro, e bem notáveis. Mas, certamente não por acaso, são aquelas que todos conhecemos - com destaque para a inesquecível ceia proporcionada a Jacinto na sua primeira noite em Tormes. 

 

Foi, portanto, com imenso agrado que deparei há dias com uma apetecível refeição descrita por Agustina Bessa-Luís na terceira e última parte do seu romance Fanny Owen. Abriu-me o apetite, confesso. De tal modo que não resisto a partilhar convosco esse excerto:

«Faziam-se bolachas de amêndoa e de cidrão, assim como refrescos de violeta e de bergamota. Servia-se peru à Cardeal, colorido com cascas de camarões pisados e assado no espeto, receita que só era ainda aviada nas cozinhas de Mesão Frio, assim como a empada de lombo de lebre, assim como leitão de javali com molho picante.»

 

Caramba, uma descrição destas até dá gosto. Sobretudo por ser tão rara nas nossas pomposas letras, jamais propícias a trocar a sala pela cozinha. Falta-nos um Rex Stout, falta-nos um Georges Simenon, falta-nos um Vázquez Montalbán - escritores que não tinham complexos em demonstrar a sua paixão pela arte culinária. Ao contrário do que sucede na literatura portuguesa, em que muito se fala e quase nada se come.

Mais um motivo para aqui lhe deixar a minha vénia grata enquanto seu leitor muito atento, Dona Agustina. 

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Burrice apenas

por Pedro Correia, em 02.07.19

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Mania tão nossa esta, a de alterar os nomes às coisas. Como sucedeu com Uma Agulha no Palheiro, de Salinger, entretanto baptizada com um título horrível, À Espera no Centeio. E com a já clássica Cabra-Cega de Roger Vailland, que passou a um insípido Jogo Curioso. Ou - pior ainda - com o magnífico Monte dos Vendavais, de Emily Bronte, transformado sucessivamente em O Monte dos Ventos UivantesO Alto dos VendavaisA Colina dos Vendavais.

Ainda há dias vi dois destes títulos diferentes para crismar a mesma obra alinhados numa livraria em Lagos: surgem documentados nesta fotografia, como irmãos siameses. Interrogo-me se estaremos perante simples manha comercial para iludir uns incautos (que pensam adquirir uma obra diferente daquela que já terão lá por casa) ou mera vontade de mudar o que está bem, outra mania muito nossa. Sem absorver um salutar princípio colhido do futebol: em equipa que ganha não se mexe. Dos livros devemos dizer o mesmo.

Desonestidade intelectual, em qualquer dos casos. Ou nem isso: burrice apenas.

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Sun Tzu escrevia em inglês?

por Pedro Correia, em 28.06.19

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Na minha livraria preferida, espreito as novidades literárias. Novos romances, por exemplo. Há sempre vários à disposição dos leitores.

Pego num deles, espreito a primeira página. Traz citação. Coisa fina: é de Sun Tzu. A Arte da Guerra, clássico com várias traduções em português. 

Mas esta citação surge em inglês, idioma que o admirável filósofo chinês, nascido no século VI antes de Cristo, não dominava. Desde logo porque a língua imortalizada por Shakespeare, Byron e Dickens só começou a generalizar-se, no seu figurino actual, cerca de mil anos depois.

Excluindo o chinês original, só faria sentido, portanto, que uma frase destas surgisse no nosso idioma como epígrafe de um romance escrito por um autor português e destinado a leitores portugueses. O inglês, aqui, indicia apenas aculturação bacoca e espúria. Algo digno de um pesca-frases em modo rápido nesse amplo mar da palha que é o Google.

Passei adiante, claro. Sem necessitar de ler mais nada.

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Com olhos de ler

por Pedro Correia, em 26.06.19

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No último mês e meio, li dez romances portugueses do século XX. Em quase metade desses livros, muito celebrados e enaltecidos, o trabalho está totalmente ausente. As personagens principais são homens, vagamente intelectuais, que nada fazem senão arrastar-se de restaurante em restaurante e de bar em bar em Lisboa enfardando e decilitrando, sem visíveis meios de subsistência. Intitulam-se escritores sem escreverem uma linha, denominam-se pintores sem um só quadro para amostra. Falam pelos cotovelos e só buscam o prazer fácil, embora não grátis: as mulheres, nestes marcos da nossa ficção, são todas putas ou para lá caminham. O que não parece depreciar tais obras aos olhos do feminismo contemporâneo. 

Em jeito de balanço provisório das mais recentes leituras, por contraste, concluo que a chamada corrente neo-realista, ao traçar uma clara demarcação não apenas ao nível das ideias mas também da escrita, foi um movimento mais importante do que o cânone dominante nas últimas décadas reconhece. Não tanto pelo seu inquestionável valor documental ou por haver enriquecido o registo escrito da nossa língua com as múltiplas tonalidades do vocabulário oral, mas por ter trazido o trabalho, como pilar da dignidade humana, para as ociosas páginas daquilo a que se convencionou chamar a nossa melhor literatura. As pessoas comuns, sem nomes brasonados, residentes na província ou na periferia da capital. Gente que irrompe nas páginas de obras-primas hoje injustamente esquecidas, como Casa na Duna, de Carlos de Oliveira, ou Cerromaior, de Manuel da Fonseca, que alguns omitem nas suas listas muito tendenciosas de títulos imprescindíveis do romance português do século XX. Uma delas, salvo erro, não consta sequer do copioso rol de títulos incluídos nas 788 páginas de recomendações do Plano Nacional de Leitura.

É tempo de livros como estes serem revalorizados. Sem anátemas ditados pelo preconceito estético ou político. E de os apreciarmos pelo seu valor intrínseco, não por constituírem armas de arremesso em ultrapassadas contendas ideológicas. 

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Chico Buarque: justa distinção

 

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Chico Buarque é o galardoado este ano com o Prémio Camões. Acho muito bem. Pelo menos três álbuns dele são discos da minha vida. Sei de cor dezenas de canções que ele compôs. E confesso-me admirador da ficção que tem publicado: vai fazer três anos, cheguei até a analisar no DELITO um desses livros, Leite Derramado, de que muito gostei.

Em 2016, quando foi anunciado o Nobel da Literatura a Bob Dylan, na caixa de comentários de um texto meu elogiando tal escolha, deixei esta observação: «Em português, elegeria sempre Chico Buarque.»

2

Recordo isto só para que fique bem claro: aplaudo o prémio a Chico, como aplaudi o de Dylan. Nada contra, tudo a favor.

Mas registo omissões nesta lista de premiados que já leva três décadas - algumas das quais considero chocantes.

Do lado brasileiro, destaco as três que me parecem mais gritantes: Nélida Piñon, Adélia Prado e Luís Fernando Veríssimo. Tanto mais que entre os distinguidos do Brasil figura pelo menos um, Raduan Nassar, que não tem obra nem currículo para merecer o Camões: publicou quatro títulos em 21 anos, não tem um original editado desde 1994 e a obra completa deste autor não excederá 500 páginas. Ele próprio, aliás, não escondeu a sua admiração no discurso de agradecimento, em 2016: «Tive dificuldade para entender o Prémio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri.»

Também eu tive.

 

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Graça Moura: esquecido pelo júri

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Quanto aos portugueses, o essencial do cânone está cumprido. Alguns até fora do cânone mais óbvio, como esse singular poeta das pequenas emoções quotidianas que foi o Manuel António Pina. 
Faltou Fernando Assis Pacheco, que já não foi a tempo: este prémio não é concedido a título postúmo. Vasco Graça Moura, infelizmente também já falecido, é uma omissão escandalosa. E (só por factores cronológicos) talvez seja ainda um pouco cedo para o meu amigo Francisco José Viegas, autor daquele que considero o melhor romance português da primeira década deste século: Longe de Manaus.

 

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Mário de Carvalho: prémio já tarda

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Por mim, não hesitaria em atribuir o Prémio Camões a Mário de Carvalho, de longe o melhor romancista (mas também contista e ensaísta) português vivo, autor de obras-primas como Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde e Era Bom que Trocássemos umas Ideias Sobre o Assunto. Omissão que também já começa a ser escandalosa. 

Caramba, alguém julgará que Pepetela (premiado em 1997) merece mais que ele?

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Fora dos trilhos canónicos, daria sem pestanejar o galardão a Vasco Pulido Valente, para mim o mais brilhante - desde logo porque controverso, iconoclasta - ensaísta, historiador e cronista português contemporâneo.

Muito mais merecido que certas "glórias" efémeras das letras lusófonas, condenadas num futuro pouco distante a dissolver-se como bolhas de sabão. 

 

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Vasco Pulido Valente: se pudesse, votava nele

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Há muitas coisas belas na terra

por Pedro Correia, em 14.05.19

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Às vezes é quanto basta. Abrimos um livro, lemos a frase inicial e logo ela nos agarra, despertando-nos a atenção para ler as frases seguintes, sem desgrudar da obra até ao fim.

Alegro-me cada vez que me acontece. Sucedeu há dias, ao abrir um exemplar do romance As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís, em boa hora regressado aos escaparates no âmbito do lançamento da obra completa da grande escritora que tem vindo a ser conduzido por Francisco Vale na editora Relógio d' Água.

«Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram.» Começa assim, da melhor maneira, este romance de Agustina, muito menos (re)conhecido do que merece. 

Superado o primeiro teste, logo avanço na leitura. Um grande escritor avalia-se, desde logo, pela sua capacidade de nos seduzir pela palavra, sua ferramenta de eleição. É o caso de Agustina. Tal como sucede com Jorge de Sena, na magnífica frase de arranque do seu Sinais de Fogo: «Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.º ano dos liceus.»

Ou Cardoso Pires, n' O Anjo Ancorado: «Num dia de Abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um automóvel aberto, rápido como o pensamento.» Ou Vergílio Ferreira, nesse fabuloso romance intitulado Alegria Breve: «Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher?»

Saber escrever, saber captar a atenção de quem nos lê - eis o desafio supremo, ao alcance de poucos. Aprendamos com os mestres da palavra a trabalhá-la. Como se fosse terra fértil lavrada por um camponês, como se fosse pedra esculpida por um escultor, como se fosse filigrana nas mãos de um ourives.

Escrever é muito mais do que alinhavar palavras. Como durante anos ensinei aos meus estagiários em jornalismo, para escrever bem nada melhor do que ler muito. Enquanto leitores, aprendamos com quem sabe. Com Camus, que nos introduz no reino mágico da ficção - «a mentira através da qual se diz a verdade». Com Simenon, que em apenas três palavras nos transmite uma das melhores lições: «Escrever é cortar.»

Para escrever bem, há que apelar à sensibilidade e ao intelecto em simultâneo, o que não está ao alcance de qualquer um. Como Agustina demonstra na obra que nos foi legando. «Há qualquer coisa de premonitório neste romance. Pelos costumes das pessoas, pelos sentimentos, pelas relações entre parentes e familiares, percebe-se que já muita coisa mudou ou está em mudança antes mesmo de a revolução acontecer», observa António Barreto no prefácio à novíssima reedição d' As Pessoas Felizes.

Há muitas coisas belas na terra. E algumas experiências sem substituição possível, como o prazer único que só a leitura nos proporciona. Ao rasgar-nos horizontes e ao elevar-nos vários palmos acima do chão.

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Gógol não era economista

por jpt, em 31.03.19

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Inúmeros políticos e assessores saíram à liça para defender o governo neste "affaire famigilia" (que já ecoa na imprensa estrangeira). Até o candidato socratista ao parlamento europeu veio, melífluo, dizer que "não mas enfim ..." (ler o texto ligado pelo Pedro Correia em postal abaixo). Os "comentadores" eixo-domaljugular já confirmaram que tudo está bem no reino. E, cerveja para cima do bolo, Pacheco Pereira reduz as críticas ao emaranhado do governo português à incapacidade geral em criticar as políticas económico-financeiras do PS. Ou seja, na visão do meu antigo professor, um tipo como eu, e nisso parecido com tantos outros, que não estudou economia não tem o direito a interrogar-se ou indignar-se. Mesmo que tenha a ideia de que alguma coisa não correrá bem, que tenha a sensação que este texto de Joaquim Miranda Sarmento é capaz de ser um bom diagnóstico da situação económica nacional, para Pacheco Pereira isso não chega: não sendo eu capaz de escrever a crítica e/ou melhorá-la ou sustentá-la, tenho que me ir calando. Nos tempos em que ele, Pacheco Pereira, nos ensinava a isto chamava-se "economicismo". Mas enfim, os tempos mudam, e há que adaptar as ideias aos novos ares. 

Portanto, irrito-me com coisas? Vejo-as como denotativas do actual "estado da arte", como aquilo do secretário de estado de defesa do consumidor continuar a exercer funções, apesar de querer o namorado capitão como motorista, decerto - é a única razão que consigo perspectivar para tal inaudita pretensão - para lhe possibilitar sexo durante as horas de expediente, tendo-o ali a pénis de semear, por assim dizer? Que me desirrite, dirá o professor Pacheco Pereira, que tivesse eu ido estudar Economia ...

Ocorre-me que Nikolai Gógol não era economista. E que está o meu país cheio de avatares de Tchítchikov. E, também, que o meu antigo e respeitado professor já desapareceu há muito tempo. Ficou só isto.

 

"Resumindo, eis o nosso herói [Tchítchíkov] em pessoa, tal como é! Mas talvez me exijam que o caracterize definitivamente com um único traço: quem é ele, em termos de moral? É claro que não é um herói cheio de perfeições e virtudes. Quem é então? Um canalha? Mas porquê canalha, logo assim de repente, por que teremos de ser tão severos para com o nosso próximo? Hoje em dia já não existem canalhas entre nós, há apenas pessoas bem-intencionadas, amáveis; talvez se encontrem só duas ou três susceptíveis de darem a cara ao opróbrio e à bofetada pública, e mesmo estas falam de virtude. A um homem assim seria mais justo dar-lhe outro nome: homem prático, homem granjeador. A aquisição é que tem culpa de tudo: por causa dela é que foram feitas as coisas que o mundo chama de pouco limpas. É verdade, há neste carácter qualquer coisa de repugnante, e ao mesmo leitor que, nos caminhos da sua vida, tem amizade com um homem assim, que come à mesma mesa com ele e partilha gostosamente com ele as suas horas de lazer, olhará para ele de esguelha se tal homem lhe aparecer na qualidade de herói de um drama ou de um poema. Ora sábio é aquele que não desdenha carácter nenhum, mas, fitando nele o olhar perscrutador, o investiga até às causas primeiras. São rápidas as metamorfoses do ser humano: de um momento para o outro cresce no seu íntimo um terrível verme que canaliza para si, arbitrariamente, todos os sucos vitais. Por mais de uma vez tem acontecido que não só uma forte paixão, mas mesmo uma minúscula paixoneta por uma insignificância qualquer cresça e invada todo o ser humano nascido para verdadeiras façanhas, fazendo com que esqueça as suas obrigações sagradas e veja em ninharias a sua grande e sagrada vocação. Não têm conta, como as areias do mar, as paixões humanas, e todas diferentes umas das outras; e todas elas, baixas ou nobres, no início obedecem ao homem e só depois se tornam os seus terríveis senhores. Bem-aventurado aquele que escolheu para si, de entre todas, a mais bela das paixões: a cada hora e a cada minuto que passa cresce e multiplica-se a sua desmedida bem-aventurança e cada vez ele entra mais fundo no infinito paraíso da sua alma. Há porém aquelas paixões que não são escolha do homem. Nasceram com ele e com ele hão-de morrer, o homem não tem forças para fugir delas. Guia-as uma vontade superior, existe nelas um princípio que perpetuamente nos chama, que não se cala em toda a nossa vida. São destinadas a cumprir uma grande missão na terra: seja na forma de uma imagem sombria, seja levantando voo como fenómeno radioso que alegrará o mundo - dos dois modos, foram chamadas à vida em prol de um bem que, para o homem, é incompreensível. Ora então, no nosso Tchítchikov a paixão que o move não depende dele e, na sua fria existência, talvez já durma aquilo que mais tarde ou mais cedo lança os homens de joelhos perante a sabedoria dos céus. (...)

 

Ora o que é penoso não é a possibilidade de alguém ficar desagradado com o nosso herói, mas, pelo contrário, a insuperável certeza, bem enraizada na alma, de que, com este mesmo herói, com este Tchítchikov, os nossos leitores poderiam ficar agradados. Se o autor não tivesse espreitado tão fundo na alma dele, se não tivesse içado do seu íntimo aquilo que, fugaz, se esconde da luz, se não lhe tivesse desvendado aqueles seus mais secretos pensamentos que a ninguém se confiam, se apenas o tivesse mostrado tal como ele se apresentou na cidade, ao Manílov e aos outros, ah, então toda a gente ficaria contentíssima e tomá-lo-ia por pessoa interessante. (...) Sim, meus bons leitores, não vos apetece ver a miséria humana a descoberto. Para quê, dizem os senhores, será que vale a pena? Não saberemos já que existem muitas coisas estúpidas e desprezíveis nesta vida? Já sem isso nos acontece muitas vezes assistir àquilo que não agrada a ninguém. É melhor mostrar-nos o belo, o admirável. Faça, antes, com que esqueçamos! "Para que me dizes, meu amigo, que as coisas andam mal na minha herdade?", diz o proprietário rural ao seu feitor. "Sei tudo isso muito bem, meu amigo, será que não tens mais nada do que falar? Deixa-me na ignorância, deixa-me esquecer, e então serei feliz." Sendo assim, aquele dinheiro que serviria para, de algum modo, corrigir as coisas, é gasto nos vários meios de procurar o esquecimento. A mente, que talvez pudesse descobrir ainda alguma fonte de grandes recursos, adormece e não tarda, toda a herdade é vendida em leilão e o proprietário, na miséria, vai por esse mundo fora em busca de esquecimento, com a alma pronta a cometer baixezas que, outrora, até o assustariam.

 

O autor ouvirá também acusações da parte dos assim chamados patriotas, desses que, até agora sossegadinhos nos seus recantos, se dedicam a coisas de outro género, amealhando o dinheirinho, assegurando o seu bem-estar à conta dos outros; ora, mal acontece alguma coisa insultuosa para a pátria, na opinião deles, mal aparece algum livro que revele uma verdade amarga, saltam de todos os seus cantinhos (...) e soltam o grito: "Admite-se trazer estas coisas à luz do dia, gritá-las aos quatro ventos? É que tudo isto nos diz respeito, é nosso - e então será bom alardeá-lo? O que dirão os estrangeiros?" (...) uma modesta resposta às acusações de alguns patriotas ardentes que, até determinado momento, se dedicam sossegadamente a uma qualquer filosofia ou a fazerem crescer os seus capitais à custa da pátria ternamente amada e que, em vez de pensarem em não fazer o mal, pensam só em que ninguém diga o que fazem mal. Mas não, não é o patriotismo a causa das acusações, há outras coisas por trás. Por que querem esconder a palavra?"

(Nikolai Gógol, Almas Mortas, Assírio & Alvim, 2017, 284-288. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

(Ilustração "A Chegada de Tchítchíkov à Cidade de N", de Marc Chagall, 1923).

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Nada recomendável

por Pedro Correia, em 26.03.19

É confrangedora a falta de talento literário revelada por alguns que se apresentam agora como novos expoentes da ficção portuguesa. Hoje os romances proliferam como cogumelos, sob o complacente beneplácito de algumas editoras ávidas por encontrar o "novo Saramago" ou o "novo Lobo Antunes". Tal como noutros tempos, no fado, se ansiava pela chegada da "nova Amália" ou, no futebol, se suspirava pela aparição do "novo Eusébio".

Ainda há dias folheei um livrinho de um destes candidatos a novelistas da nova vaga, com aquela linguagem sincopada e cheia de alusões a "situações comuns" que parece estar na moda. O arrazoado começa com esta frase, nada digna de um Stendhal ou um Tolstoi: «Não tinha, de momento, outra alternativa.»

Este génio adiado mostra-se incapaz de perceber, logo na frase inicial, que "outra alternativa" é pleonasmo. E dos mais grosseiros.

Fechei o volume. Com um adeus até nunca mais.

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Post-it

por Fernando Sousa, em 13.11.18

Agora sempre que vou à FNAC não encontro o (livro) que procuro. Tenho que andar nos alfarrabistas, e às vezes nem aqui tenho sorte, além de que é um lugar péssimo para a asma. Alguém tem por aí a Ilha dos Condenados, do Stig Dagerman?

 

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A literatura sobrevive a tudo

por Pedro Correia, em 18.06.18

No ano passado, antes de rumar às férias primaveris, comprei um livro de um autor muito recomendado em determinadas selectas - figura com presença regular nos ecrãs televisivos e incensada em solos de violino nas gazetas da praxe. Dispus-me a ler aquilo: era volume grosso, de quatrocentas e tantas páginas.

Deu-me para três horas de viagem de comboio. Chegado ao destino, apeei-me na página 100. E nunca mais retornei ao calhamaço. O romance - é de um livro de ficção que falo - permanece adormecido na prateleira de um armário. Não tenciono despertá-lo.

Lembro-me vagamente do fio do enredo: havia uma mulher fechada em casa, assombrada por fantasmas íntimos. Cem páginas adiante, nada sucedera de relevante, aquilo dava um passo em frente e outro atrás sem nunca sair do mesmo sítio.

O que não invalidou que a obra em causa recebesse hossanas em ritmo cadenciado. Certos autores têm este condão de suscitar coros afinados, sempre em estilo laudatório.

 

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Ontem, ao entrar numa das livrarias que frequento com regularidade, deparei com dois romances de estreia, assinados por jovens autores. Uma menina e um rapaz.

Senti curiosidade em ler as frases iniciais.

Escreveu ele: «Se existe algo que eu aprendi é que a vida é estranha.»

Escreveu ela: «Adoro o cheiro dele quando chega perto de mim. Ele ainda não chegou e eu já sei que ele vem.»

 

Não sei o que mais me impressionou nestes parágrafos de abertura.

Talvez o monumento à irrelevância em letra impressa. Ou a vacuidade do estilo. Ou a profusão de pronomes pessoais, por clara influência da sintaxe brasileira hoje dominante nos circuitos digitais. Ou o culto narcísico tão característico destes dias em que o auto-retrato domina todas as modas.

Talvez a impressionante compressão vocabular nesta era em que há quem jure ser capaz de escrever romances no Twitter - algo equivalente a dançar o tango numa cabina telefónica.

Mas não duvido que ambos, com a rede de conhecimentos adequada, serão capazes de se tornarem "autores de sucesso". Talvez mesmo se elevem à condição de "bestas céleres", como dizia o arguto Alexandre O'Neill.

Espreito-lhes os perfis nas badanas: surgem-me como figuras exemplares desta época. Ele tem «45 mil seguidores no Facebook» - anoto as conotações quase litúrgicas do vocábulo seguidores. Ela é «formadora de softskills», expressão cujo significado ignoro mas que me soa a algo importante. Não me admirava que venham a cometer mais romances. Podem até fazê-lo a um ritmo semestral: há quem viva disto e seja sempre anunciado com laudatórias trombetas mediáticas. Como se estivéssemos perante uma Cartuxa de Parma ou uma Guerra e Paz.

 

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Regresso a casa, retomo a leitura de um dos meus livros favoritos: Africa Minha, de Karen Blixen. E de novo me salta à vista aquela suave cadência das frases de abertura que logo nos convidam a viajar no tempo e no espaço. Recuando cem anos, ao Quénia colonial.

«Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. O equador passa 160 quilómetros a norte desta região e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-no mais perto do sol, mas as madrugadas e o fins de tarde eram límpidos e tranquilos e a noites frias. A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável.»

A melhor literatura sobrevive a tudo. Até ao inqualificável abuso das más práticas que se multiplicam invocando em vão o seu sagrado nome.

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O inimigo da literatura

por Alexandre Guerra, em 20.04.18

Mario Vargas Llosa escreveu há umas semanas, na coluna que assina regularmente no El País, um texto que, sem ser um rasgo de brilhantismo literário, é um statement arrojado e corajoso nos dias que correm, desafiando os cânones de um certo fanatismo moral e ético instalado no pensamento mainstream destas novas sociedades. Sociedade, essas, que parecem ser cada vez mais assépticas nos seus comportamentos sociais e, consequentemente, mais limitadas nas liberdades da criação intelectual e artística. É quase como se estivéssemos perante as tais “nuevas inquisiciones” de que Vargas Llosa fala. As novas “fogueiras”, metamorfoseadas em headlines e redes sociais, para “queimar” aqueles que, na sua arte e intelecto, desafiam o status quo ou o pensamento predominante que é passiva e acriticamente aceite pela maioria (o muitas vezes chamado "politicamente correcto"). Llosa foca-se naquilo que vê como uma autêntica castração da liberdade literária, na qual esta é descontaminada das imoralidades, dos vícios, dos machismos, das perversidades, no fundo, desprovida daquilo que torna os homens pequenos, mesquinhos, vis, é certo, mas igualmente humanos e não meros seres utópicos.

 

Para Vargas Llosa, o “feminismo”, enquanto movimento radical (não todas as “feministas”, como ele próprio refere), é uma fonte destruidora da literatura. Percebe-se a sua ideia, porque a literatura, aquela que vale a pena ler e conforta a alma, tem que ser vista como um refúgio para, através da pena do criador, serem descritas, sem constrangimentos e amarras, todas as aventuras e ideais protagonizados por todos os homens, sejam os bons ou os maus, os virtuosos ou os iníquos, os valentes ou os cobardes, os inteligentes ou os ignorantes, os santos ou os pecadores, os justos ou os injustos... os feministas ou os machistas. A literatura, como qualquer forma de arte, deve ter espaço para contemplar o belo e o horrível, o perfeito e o imperfeito, o harmonioso e o chocante, o aceitável e o inaceitável, o moral e o imoral...

 

O princípio sustentado por Vargas Llosa, de que uma literatura, uma cultura, realmente creativas, "de alto nivel, tiene que tolerar en el campo de las ideas y las formas, disidencias, disonancias y excesos de toda índole”, é um bastião que deve ser preservado com todas as nossas convicções e forças. Não apenas por ser uma condição natural para a criação artística e intelectual, mas, sobretudo, por ser um direito humano inalienável, o da diferença de opinião, o de podermos expressar numa folha, numa tela ou numa pauta o que nos vai na alma, por mais chocante que seja para o próximo. Os tempos estão perigosos no campo das ideias verdadeiramente livres, porque há quem, muitas vezes subtilmente, as queira asfixiar ou condicionar, os mesmos que fazem novos Índex, os mesmos que tendem para o revisionismo com a sua “verdade” e “moral” absolutas. Os mesmos que não hesitarão em “queimar” os livros que repudiam, em vez de aprenderem com eles.  

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Os livros, as listas e nós

por Pedro Correia, em 14.03.18

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As listas valem o que valem. Há quem goste muito delas, há quem as deteste. Confesso-me cultor de listas: elas permitem-nos ir aferindo conhecimentos adquiridos e atrair-nos para paragens ainda incógnitas. Com a descontracção de um passatempo.

Vêm estas linhas a propósito de uma lista que encontrei há dias, difundida pelo jornal britânico Guardian, elegendo as cem melhores obras de ficção literária publicadas até hoje em língua inglesa. Uma lista organizada por ordem cronológica, que inclui títulos como Robinson Crusoe (1719), As Viagens de Gulliver (1726), Frankenstein (1818), David Copperfield (1850), Moby Dick (1851), Alice no País das Maravilhas (1865), Três Homens num Bote (1889), O Retrato de Dorian Gray (1891), O Apelo da Selva (1903), Servidão Humana (1915), Ulisses (1922), As Vinhas da Ira (1939), Debaixo do Vulcão (1947), Lolita (1955), A Curva do Rio (1979) ou Desgraça (1999).

A lista completa pode ser consultada aqui. Deixo-a com uma pergunta à espera de encontrar respostas: quantos destes cem livros já despertaram a atenção dos nossos leitores e dos meus caros colegas de blogue?

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Penso rápido (89)

por Pedro Correia, em 13.03.18

Até que ponto os textos se tornam impessoais ao perdermos o rasto da sua carpintaria?
O que seria do nosso entendimento da obra de um Eça ou de um Pessoa, por exemplo, sem o acesso aos manuscritos de cada um, nomeadamente às cartas que escreveram?
Li há tempos que as crianças finlandesas deixaram de ter noções elementares de caligrafia. Nas escolas, só aprendem a escrever com letras de imprensa - ou de computador. A moda vai pegar, não tenho dúvida.

Acontece que a nossa capacidade de interpretar textos antigos diminui drasticamente com estas novas tendências pedagógicas, de duvidoso mérito. E também a possibilidade de desvendarmos personalidades alheias, na medida em que a caligrafia diz muito do que somos. Ou do que éramos.

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O Prémio Camões

por jpt, em 03.02.18

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O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político). Mostra-o o "costume", que é orientação explícita, da alternância anual luso-brasileira da premiação (e não me venham com coisas, que conheço um punhado de ex-jurados, e isto é uma verdade factual). Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica. O que o pode indignificar é o que os Estados podem fazer dele. Morreu, "de morte matada", nessa sua condição política, no ano passado com o silêncio português (é um prémio luso-brasileiro) aquando do inaceitável discurso do ministro da cultura brasileiro quando o gigante Nassar o recebeu. Estou a falar de política e de representação do Estado: o ministro brasileiro, um fascistóide agredindo de modo inaceitável o premiado, também reclamou (como se en passant) para o seu Estado o monopólio da premiação. A apatetada representação portuguesa calou-se. E o "campo literário" português nem tugiu nem mugiu. Não veio mal ao mundo. Mas mostrou a tralha em questão, a do prémio e a das gentes do tal "campo". Adiante.
 
O Camões vale assim o que vale. Sendo, como é, e repito-me, um prémio político, consta no seu pacote, e nisso extravasando critérios literários, de quando em vez ser atribuído a um escritor "africano", vulgo "lusófono". Nesse estreito âmbito o facto de um monstro como o polissémico, múltiplo, ambivalente, grandioso, único, verdadeiramente único, sublinho, uma lente solitária na literatura em português, Ruy Duarte de Carvalho nunca ter sido premiado mostra totalmente a irrelevância dos "cordatos" critérios que premeiam. E não me venham dizer que eu não sou especialista: sou leitor. Ou seja, o mais especialista que a literatura pede, e assumo o populismo do dito. E só me posso rir com um prémio dado aos angolanos Vieira e Pepetela e que não lhe foi atribuído - sublinhando que para a "África lusófona" se premeia fundamentalmente segundo critérios da história política da literatura. E nem história social é, porque então outras coisas haveria para dizer sobre Xitu ou sobre as magníficas páginas da desequilibrada obra do Khosa (e que mais pedir a um demiurgo do que ser desequilibrado?). Mas isto já me faz entrar em Moçambique, num corpo literário que me convoca o riso, entristecido, diante do Camões atribuído neste XXI antes de o ser a Borges Coelho, mas enfim, são os critérios da "africana" lusófona .... Inenarrável. E letal para qualquer vontade prestigiadora do prémio CPLP da literatura, vulgo "Camões", nome do desgraçado poeta, que morreu miserável e 430 anos depois ainda é assim aviltado.
 
Dito tudo isto, que desagradará alguns amigos queridos, ex-jurados, escritores e, mais do que tudo, leitores militantes (os "grandes leitores" como se disse em milénios passados), o Camões só me serve para me convocar às livrarias ("ihh, o Trevisan!!!", exclamei há anos, envergonhando-me do esquecido que andava, embrenhado noutros assuntos). Por isso nem me choca que agora tenha sido dado a Alegre. Um prémio político para um político que é poeta menor e ficcionista irrelevante, o corolário da cultura do funcionalismo público português (e, muito provavelmente, do silêncio dos académicos brasileiros agora jurados, envergonhados com a horrorosa cena do ano passado). Um prémio político para um político, qual a surpresa?
 
Agora o que me choca é estas patetas declarações (o "discurso") do premiado aquando da recepção da honraria, que decerto serão indiscutidas pelo tal "campo" da literatura, desistido e cúmplice, na ânsia das prebendas, pois o prémio e o passado político convocam à sacralização das suas doutas (não "santas" que o homem é socialista, republicano e laico) palavras. Diz Alegre, sobre o estrado da premiação (e da inconcebível proposta para o Nobel), que a poesia é o território da "resistência", assim não só postulando a sua mundividência mas também legitimando-se como laureável.
 
Francamente ...!, estamos em 2018.E ainda temos que ouvir isto e até anuir ao dislate. A poesia é o lugar da desistência, da rendição, do desabar, da desgraça, do triunfo, do júbilo, da ejaculação, da resistência (sim, também), do tudo e do nada. E vem-me este homem tonitruar o vazio. Demagógico? Apenas pobre. De facto aquilo que alhures se diz (desvaloriza) como poesia de combate.
 
E mais, pior ainda, fazendo jus ao epíteto de "Pateta Alegre" (que saudades do meu pai António) na converseta "lusófona", que nem ideologia (aquilo da "falsa consciência" a la Marx) é. Nisso das ruas africanas, americanas, asiáticas (os PALOPs) que "falam Camões". Não ó Alegre, não falam. Fala-se, não só mas também, português. Não "Camões". Que é aquele, como me diziam agora mesmo na Ilha, com candura, o "monstro que está a pedir dinheiro", aquela estátua do Camões na Ilha, incompreendida no hiato que existe. Essa estátua, essa Ilha, esse mundo, e o próprio Camões que nele andou, que Jorge de Sena (um verdadeiro "Prémio Camões" avant la lettre) soube interpretar e que estes laureados e seus sequazes incompreendem. Tal como incompreendem o mundo. Para eles de "Camões". Lusófono. Enfim, o "destes" prémios.

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O saber é aquilo que não se esquece

por Alexandre Guerra, em 30.01.18

É com bastante entusiasmo que estou a ler o último livro de Jaime Nogueira Pinto, Bárbaros e Iluminados (D. Quixote). Algumas das passagens relembram-me as aulas dadas pelo autor numa das cadeiras do meu curso de Relações Internacionais, na segunda metade dos anos 90. Ao contrário de muitos dos meus colegas da altura – mais interessados em fazer “ditados” do que era dito –, provavelmente, eu era dos poucos que via naquelas aulas uma fonte de verdadeiro conhecimento, o saber que não esquecemos e que nos ajuda a perceber as forças dinâmicas da História e a antecipar algumas das imprevisibilidades do sistema internacional. Jaime Nogueira Pinto nunca foi do estilo professoral e dizia sempre, para aqueles que estavam mais obcecados em fazer “sebentas”, que datas e conteúdos factuais podiam ser encontrados num qualquer manual. O importante era perceber as motivações dos actores da História e saber interpretar as consequências das suas acções. Neste aspecto, Jaime Nogueira Pinto preferia ter como ponto de partida as histórias e estórias da História para depois lhes dar o devido enquadramento político e ideológico.

 

Foi nestas aulas que comecei a interessar-me seriamente pela relação íntima entre a dimensão literária de Dostoievsky (e outros) e o movimento histórico subsequente. Comecei a entender a obra deste escritor de outra maneira, vendo nela uma amostra sociológica de uma Rússia aburguesada e intelectual asfixiada pelo regime czarista e ansiosa por um admirável mundo novo. Escreve Jaime Nogueira Pinto que “não era de estranhar que as novas gerações intelectuais e técnicas, oriundas das classes médias e da burocracia estatal […]” se atirariam para os “braços dos grupos revolucionários”. Em romances como O Idiota, Os Irmãos Karamazov ou Os Demónios, “Dostoievsky antevira o tipo de pessoas em que [esses burgueses] se transformariam”. Apesar dessa ânsia de mudança, Dostoievsky nunca teve dúvidas quanto aos “riscos do moralismo e do construtivismo utópicos dos intelectuais, fundamentados numa versão optimista da condição humana”. Pelo contrário, toda a literatura de Dostoivesky é marcada pela imperfeição humana, pelo conflito, pela injustiça. O mundo idílico dos utopistas para uma nova Rússia não cabia na visão de Dostoievsky e, para mim, depois daquelas aulas, isso passou a ser tão evidente nos textos daquele escritor.

 

Neste processo revolucionário, Jaime Nogueira Pinto volta ao incontornável Yevgeny Zamyatin, um autor de que ouvi falar pela primeira vez precisamente nas suas aulas. Desde então tornou-se uma espécie de referência bibliográfica em livros ou textos que escrevo. Talvez pela irreverência própria da juventude, Zamyatin tinha o sonho de mudar a sociedade russa, à semelhança de qualquer revolucionário que se prezasse, no entanto, o seu “ímpeto foi decrescendo à medida que crescia a propensão autoritária e controladora do Partido Comunista e a censura das Letras e das Artes”. De eufórico revolucionário, Zamyatin passou a um dos mais críticos do regime de Estaline, tendo sido preso e, mais tarde, com a ajuda dos bons ofícios de Gorky junto de Estaline, conseguiu exilar-se em França. Sem ilusões quanto ao carácter virtuoso da nova sociedade e do “novo homem” soviético, em 1920 publica “a primeira obra utópica, depois da implantação da utopia”. Nós é um livro fascinante, que conta a história, num futuro muito distante, de uma sociedade perfeita, orientada por um Estado único, onde tudo é eficaz e as pessoas vivem felizes. O único problema é que esse poder organizativo é totalitário e tudo assenta numa aparente ilusão e numa “alteração forçada da condição humana”, tal como aconteceu com o bolchevismo nos primeiros anos.

 

Desde as aulas de Jaime Nogueira Pinto, nunca mais esqueci a importância de Zamyatin na tradição literária da “distopia política” do século XX. E, sobretudo, aprendi a olhar para algumas obras, não apenas como ferramentas de enquandramento social e político de fenómenos do sistema internacional, mas também como elementos prospectivos daquilo que possa estar para vir.

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 Ursula K. Le Guin em 1985 (fotografia de Brian Drake para o The Times, via Los Angeles Times)

 

In reading a novel, any novel, we have to know perfectly well that the whole thing is nonsense, and then, while reading, believe every word of it. Finally, when we're done with it, we may find - if it's a good novel - that we're a bit different from what we were before we read it, that we have been changed a little, as if by having met a new face, crossed a street we never crossed before. But it's very hard to say just what we learned, how we were changed.

Ursula K. Le Guin, na introdução a The Left Hand of Darkness (1969)

 

Para a ficção científica literária, a morte de Ursula K. Le Guin representa o desaparecimento de toda uma época: Le Guin começou a publicar no início dos anos 60, já nos derradeiros anos da famosa "Golden Age" do género; atravessou a revolução da "New Wave" no final dessa década, e continuou pelas décadas de 70 e 80. Seria talvez a última autora clássica do género: no tributo que lhe presta nas páginas do Los Angeles Times, o escritor John Scalzi descreve Le Guin como "a supporting column of the genre, on equal footing and bearing equal weight to Verne or Wells or Heinlein or Bradbury." Mas talvez seja mais do que isso. Verne, Wells e Heinlein (e Clarke, e Asimov) são clássicos pela fundação e pelo desenvolvimento do género, mas Le Guin não seguiu as pisadas dos homens que a antecederam: a sua obra tornou-se clássica não pela continuidade que deu ao cânone da ficção científica, mas pela rejeição desse cânone, pelo expandir dos horizontes de todo o género, e pela forma exemplar como demonstrou que a Ideia, pedra angular da ficção científica, pode não lhe bastar. 

 

E demonstrou-o pela palavra, em contos e livros excepcionais. Diria ser impossível esquecer The Ones Who Walk Away From Omelas, uma parábola poderosíssima escrita em poucas páginas. Ou a ambiguidade de The Dispossessed, com a sua trama dividida entre a sociedade anarquista de Anarres e a sociedade capitalista de Urras, uma reflexão pertinente num terreno pantanoso onde autores menores se afundariam aos primeiros passos. Ou The Left Hand of Darkness, com a sua desconstrução da identidade de género e o seu estudo meticuloso sobre a importância, e a irrelevância, da diferença. Ou - provavelmente o meu preferido - The Lathe of Heaven, livro-tributo a Philip K. Dick, no qual Le Guin leva até às últimas consequências a ideia de que de boas intenções está o Inferno cheio. Sempre com uma prosa excepcional e uma humanidade ímpar, que contribuíram para a elevação e afirmação de um género literário sempre considerado marginal. Para todos os efeitos, a literatura de ficção científica teve em Le Guin mais do que uma das suas maiores vozes - teve nela também uma das suas mais ferozes defensoras. 

 

Mas não se ficou pela ficção científica: a série Earthsea figura entre a melhor fantasia literária já publicada, espantosa pela sua diversidade natural e pela subtileza das suas influências orientais, que representaram uma lufada de ar fresco para um género à época dominado pela sombra de Tolkien e pelo sem-número de imitadores que se lhe seguiram. A aventura de Ged ao longo da trilogia original, em A Wizard of EarthseaThe Tombs of Atuan, e The Farthest Shore, conta com quase cinqueta anos, e não perdeu nem um pouco da sua força. 

 

Cá em casa, na biblioteca que temos vindo a construir, nenhum autor surge tantas vezes. Se tivesse de nomear o meu livro preferido de ficção científica, provavelmente não escolheria um título de Le Guin; mas se tivesse de escolher um escritor ou escritora preferido, não hesitaria na resposta. Ocorrem-me vários livros que me mudaram de alguma forma, mas apenas Le Guin o conseguiu tornar a fazer a cada novo livro ou conto que li. Ainda tenho alguns por ler, tal como a poesia, os ensaios, as inúmeras crónicas - textos dispersos felizmente compilados e editados em anos recentes. Mais do que nunca, aguardo por essas leituras com muita expectativa.

 

Ursula Kroeber Le Guin faleceu anteontem na sua casa de Portland, nos Estados Unidos. Tinha 88 anos, e escreveu livros extraordinários. 

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Outras galáxias muito distantes (6)

por João Campos, em 11.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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Ancillary Justice

A irrelevância do género

 

Como penúltima sugestão de leitura nesta série sobre a space opera moderna deixo um dos livros mais falados nos círculos da ficção científica literária dos últimos anos: Ancillary Justice, o romance de estreia da norte-americana Ann Leckie que em 2013 conquistou críticos, leitores, e praticamente todos os prémios relevantes do género. E fê-lo com uma mistura muito bem sucedida de alguns dos mais convencionais elementos narrativos que associamos à space opera - impérios galácticos, alienígenas, inteligências artificiais, aventuras em planetas exóticos - com reflexões pertintenes sobre a natureza humana e sobre um tema muito em voga: a identidade de género. 

 

Nesse sentido, é possível vermos em Ancillary Justice uma continuação lógica da desconstrução da identidade e dos papéis de género que Ursula K. Le Guin (é inevitável: regressamos sempre a ela) desenvolveu no longínquo ano de 1968: em The Left Hand of Darkness Le Guin imagina no planeta remoto de Gethen uma civilização onde os seres humanos são efectivamente andróginos (simplifico), cujas características sexuais fluídas fazem com que as diferenças de género que conhecemos não tenham lugar. Leckie, admita-se, não chega a ir tão longe como Le Guin na imaginação de fisiologias alternativos e de ritos sociais elaborados. A pergunta que coloca, sendo bem mais simples do que as questões e os problemas que o contacto do terráquio Genly Ai com os seres humanos de Gethen suscitam, nem por isso é menos intrigante: se numa sociedade não existem diferenças práticas entre géneros, faz sentido manter uma pré-determinação masculina na linguagem? Para descobrir a resposta, Leckie desenvolveu toda uma trama na qual apenas se conhece o género de uma das personagens numa referência fugaz, colocando todos os pronomes e todos os indicadores linguísticos de género no feminino.

 

O resultado é uma experiência invulgar de leitura que coloca em evidência as ideias pré-concebidas dos leitores, sejam conscientes ou inconscientes, sobre pos papéis de género: o conhecimento de algo tão elementar como o género de uma personagem influencia de forma decisiva o modo como lemos essa personagem. A ausência de algo tão elementar torna a leitura algo desorientante no início - sabemos que a protagonista, Breq, tem de facto um corpo feminino, mas o facto de não sabermos isso de qualquer outra personagem induz a um jogo constante de adivinhação pelos maneirismos e pelas atitudes. No entanto, mais interessante do que descobrir a resposta é perceber que a resposta não tem qualquer relevância ou significado - que aquelas personagens são importantes pelas suas acções e pelas suas palavras, e não por características biológicas pré-determinadas. 

 

Só por isto, a leitura de Ancillary Justice seria sempre um exercício intrigante e pertinente, mas poder-se-ia argumentar que este exercício, por interessante que possa ser, não chega para fazer um bom livro. Leckie sabia-o bem, e por isso apresentou-o não pela teoria mas pela prática, enquandrando-o numa aventura ritmada e conceptualmente estimulante. Breq, outrora uma inteligência artificial multifacetada ao comando da nave militar Justice of Toren, viu-se traída e destruída, reduzida a um derradeiro corpo biológico - e durante anos procura recuperar toda a informação sobre o que aconteceu nos últimos dias da Justice of Toren, para se vingar de quem a destruiu a si e eliminou as suas tripulantes. Convenhamos: naves espaciais há muitas na ficção científica, mas poucas foram aquelas que assumiram o protagonismo das suas histórias...

 

A história de Breq/Justice of Toren tem continuidade - ao romance inaugural de 2013 seguiram-se Ancillary SwordAncillary Mercy, em 2014 e 2015. Sabendo que a surpresa do primeiro livro se esbate nas sequelas, Leckie encaminha a trama para caminhos menos percorridos no género. Mas os leitores que não se queiram comprometer com uma série mais vasta ficam muito bem servidos só com Ancillary Justice - a sua narrativa funciona de forma autónoma, a experiência de leitura é inesquecível e, no contexto das conversas da actualidade, será difícil encontrar na ficção científica literária algum livro mais pertinente. 

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Outras galáxias muito distantes (5)

por João Campos, em 04.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Hyperion / The Fall of Hyperion

Chaucer e Keats no espaço

 

Ao contrário do que se possa pensar, a produção literária da ficção científica na década de 80 não se resumiu ao neo-noir tecnológico do cyberpunk (por mais vasta que tenha sido a sombra de Neuromancer). Na sombra das especulações cibernéticas de William Gibson, Bruce Sterling e Pat Cadigan a vetusta space opera ia sendo recuperada e reinventada, com títulos como The Snow Queen de Joan D. VingeDownbelow Station de C.J. Cherryh (ambos premiados com o prémio Hugo em 1981 e 1982 respectivamente), e com o início de sagas que marcaram o género, como a Culture de Iain M. Banks ou a Vorkosigan Saga de Lois McMaster Bujold. Mas é já na transição dos anos 80 para a década de 90 que foi publicado um dos textos mais ambiciosos e bem conseguidos que o género já conheceu: o díptico HyperionThe Fall of Hyperion, do norte-americano Dan Simmons.

 

O título soará familiar a quem conhecer a poesia de Keats - e, de facto, o poeta romântico é uma presença constante na trama que Simmons tece num futuro no qual a Humanidade alcançou a Singularidade e expandiu-se por inúmeros planetas da galáxia com a ajuda das inteligências artificiais conhecidas como Technocore (serei intencionalmente vago em alguns momentos - é difícil falar destes dois livros revelar demasiado). Mas essa expansão não foi pacífica - e, de facto, no momento em que a trama arranca a Humanidade prepara-se para a guerra com os enigmáticos Ousters. Nas vésperas dessa guerra, sete peregrinos são seleccionados para fazer a derradeira peregrinação a Hyperion, um planeta remoto e que não teria nada de extraordinário se não possuísse duas coisas únicas: as lendárias "Time Tombs", um conjunto de monumentos localizados num vale onde o tempo se desloca do futuro para o passado, e o seu guardião, o não menos lendário Shrike, uma monstruosidade bio-mecânica feita de metal e coberto de espinhos. Reza a lenda que o Shrike responderá à questão de um dos peregrinos, e matará os restantes...

 

Os sete peregrinos não se conhecem, nem sabem por que motivo foram seleccionados, mas cada um tem um motivo para estar naquele lugar naquele momento - e Simmons evoca Chaucer para construir em Hyperion um mosaico fascinante ao estilo dos célebres Canterbury Tales. Cada peregrino (excepto um) contará a sua história individual durante a longa viagem até às Time Tombs de Hyperion, formando um vasto puzzle do qual o Shrike será uma peça fundamental. Simmons, porém, leva mais longe a ideia do mosaico, desenvolvendo cada história de forma muito particular em termos temáticos. Um dos peregrinos narra uma história de horror; outro, um conto de ficção científica militar a aludir a Starship Troopers. Há um drama familiar, uma intriga política, uma aventura cyberpunk e até uma história época que abarca vários séculos e várias etapas da expansão da Humanidade pelas estrelas. Hyperion não terá sido o primeiro romance de ficção científica a empregar uma estrutura narrativa em mosaico, mas poucos o terão feito com a mesma ambição e com o mesmo engenho, conseguindo mostrar múltiplas facetas do género enquanto desenvolve uma trama intensa com o arrojo conceptual que faz parte da matriz da space opera.

 

Se Hyperion olha para o passado separado das várias personagens para contextualizar o presente da trama, The Fall of Hyperion encarrega-se de desenvolver essa trama - de forma inevitavelmente mais linear, é certo, mas nem por isso menos interessante. Cada uma das histórias do primeiro volume suscitou mais perguntas do que respostas, e cabe a esta segunda parte explorar o destino dos peregrinos e da sua visita ao Shrike. Simmons faz esta exploração com mestria, polvilhando-a de referências literárias e religiosas que convidam à releitura, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. O resultado é aquela que será talvez a minha obra preferida dentro do género: um par de livros excepcionais tanto para os leitores mais experientes como para quem ainda não se aventurou na ficção científica. 

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Outras galáxias muito distantes (4)

por João Campos, em 28.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

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The Culture

A utopia ambígua*

 

Se considerarmos a distância a que a Humanidade se encontra de estabelecer uma presença permanente e relevante fora do planeta Terra, será porventura inevitável que qualquer noção de civilização de escala galáctica ganhe contornos utópicos. O que não impediu a ficção científica, nas suas várias vertentes, de imaginar um sem-número de impérios e de sociedades interestelares, quase sempre povoadas por aventureiros destemidos e alienígenas exóticos, mais ou menos hostis. Ainda assim, e por mais anos-luz que estes impérios abarquem, a maioria das sociedades galácticas clássicas permanece estranhamente semelhante aos paradigmas políticos, económicos e sociais da Terra: as mesmas estruturas de poder, os mesmos problemas económicos, as mesmas classes sociais. Em suma, os mesmos problemas de sempre. Talvez por isso a Culture de Iain M. Banks continue a ser tão relevante.

 

Não é que Banks rejeite o antropomorfismo tradicional das space operas - optou, sim, por extrapolá-lo na melhor tradição da ficção científica, interrogando-se sobre como seria uma sociedade cujo domínio científico e tecnológico a libertasse das limitações do mundo que conhecemos. Eis que surge a Culture, um vasto território espacial (seria impreciso designá-lo por impérioreino, ou qualquer outra designação territorial humana) governado por inteligências artificiais (Minds) tão benevolentes como matreiras, e dotadas de um sentido de humor peculiar. As Minds convivem com uma humanidade profundamente alterada pelas possibilidades infinitas abertas pela ciência, e integrada numa sociedade que não conhece o conceito de escassez. Assim, cada indivíduo é livre de se dedicar aos seus gostos pessoais como bem entender (não existe trabalho no sentido habitual do termo, e não existindo leis escritas, as normas assentam num contrato social implícito) e de viver onde quiser - num planeta, num vasto anel orbital ao estilo de Ringworld, numa esfera de Dyson, ou até num dos tremendos Global Systems Vehicles.

 

Como é bom de ver, uma sociedade idílica e hedonista parece um péssimo cenário para uma space opera rocambolesca, dada a inexistência de um conflito de sirva de motor narrativo. Não por acaso, as tramas que Banks explora não se centram tanto no dia-a-dia dos cidadãos no centro da Culture, mas nos intercâmbios que esta estabelece com a sua vizinhança galáctica - e é aqui que entram os elementos do Contact, o corpo diplomático da Culture, e as Special Circumstances, que na prática funciona como uma agência de espionagem e inteligência para intervenções mais ou menos subtis entre outros povos. É, portanto, na orla da Culture que Banks coloca a acção das suas histórias - nas histórias dos agentes das Special Circumstances, nos contactos estabelecidos entre civilizações tão distintas, na diplomacia necessária e nos conflitos inevitáveis. Mas também nos seus inimigos - a título de exemplo, o protagonista de Consider Phlebas é um mercenário contratado por uma civilização em guerra declarada com as Minds. E é essa abordagem que dá a Banks um ponto de vista único para a civilização que ele próprio concebeu. Através das suas persoangens e das odisseias em que as coloca, consegue mostras as engrenagens da sua utopia galáctica enquanto questiona os seus princípios basilares e a justiça das suas acções.

 

Mais do que uma série literária, a Culture é um universo ficcional desenvolvido entre 1987 e 2012 em nove romances e uma colectânea de contos. A ordem de leitura não será por isso relevante - Use of Weapons, o livro cuja capa ilustra este texto, é o terceiro romance da Culture publicado, e será uma introdução perfeita. Mas por notáveis que sejam os seus textos - e são -, aqui estamos perante um dos casos em que o cliché de o todo ser maior do que a soma das suas partes se revela verdadeiro: mais do que um ou dois livros, o legado de Banks para a space opera moderna reside na forma como pegou nas aventuras frenéticas que fizeram escola no género e as extrapolou com uma criatividade e um arrojo conceptual ímpares, mostrando que há vida para além dos impérios galácticos de outros tempos. E - seria inevitável referi-lo - reside ainda na nomenclatura bem humorada das Minds: não é todos os dias que podemos ler uma aventura espacial cujas naves têm nomes como No More Mr. Nice Guy, Unfortunate Conflict of Evidence, ou Just Another Victim of the Ambient Morality (entre muitos outros). Infelizmente, a morte prematura de Iain M. Banks em 2013 colocou um fim abrupto às suas histórias - mas as que cá deixou mantém toda a sua imaginação e pertinência.

 

*E sim, antes que alguém pergunte, sei que o subtítulo foi "pedido" à Ursula K. Le Guin.

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Outras galáxias muito distantes (3)

por João Campos, em 21.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 The Centauri Device

Sem heróis ou vilões

 

Em 1974 estávamos ainda a três anos da estreia de Star Wars e já longe da época dourada do género nos anos 50, do sucesso da série original de Star Trek nos anos 60, e do entusiasmo pelo espaço que as missões norte-americanas e soviéticas tinham trazido pouco tempo antes. Na ficção científica literária, persistiam ainda os ecos da "New Wave" que no final da década de 60 trouxera para o género um experimentalismo estilístico, narrativo e temático que até então fora escasso. Não surpreende, portanto, que também as fórmulas testadas da space opera, com os seus heróis ousados, vilões impiedosos, rebeldes com coração de ouro e aventuras em proporções quase mitológicas, tenham sido colocadas em causa por alguns autores. Um deles foi o britânico M. John Harrison, com um livro notável, ainda que imperfeito: The Centauri Device

 

O propósito de Harrison foi declarado: a desconstrução dos elementos basilares da space opera, como o herói faz a narrativa progredir e que que serve para o leitor nele se projectar, um universo compreensível e reconhecível para os seres humanos, e, na sua essência, antropocêntrico. Assim, o protagonista, John Truck, não é um herói predestinado a salvar a galáxia, mas um camionista espacial vagamente indiferente ao que o rodeia; a humanidade expandiu-se para o espaço e projectou até lá as suas piores tendências e atitudes; e, no vazio interestelar, toda a sorte de bizarrias humanas e pós-humanas floresceu. Inevitavelmente, surge o clássico macguffin - o tal Centauri Device do título -, entram em jogo várias facções políticas em conflito por ele, e emerge por fim Truck, ligado ao tal macguffin por um detalhe que escapa ao seu controlo. 

 

Uma narrativa mais convencional traçaria uma linha clara entre bonsmaus, lançaria Truck na demanda pelo bem, colocaria alguns obstáculos no seu percurso, e resolveria a coisa de forma mais ou menos satisfatória. Harrison, porém, nunca quis ser convencional, e em momento algum posiciona o seu protagonista como herói ou escapa para a desconstrução fácil pela via do anti-herói. Truck não quer salvar o mundo ou lixar o mundo; quer apenas que o mundo o deixe em paz. As várias facções em conflito não são maniqueístas - cada uma delas reclama a sua causa como justa, e em nome dessa causa estão dispostas a todo o tipo de atrocidades. E o mundo onde se movimentam está muito longe dos universos limpos, estilizados e optimistas de outras histórias; é, sim, um universo sujo, caótico e, na melhor das hipóteses, indiferente.

 

Apesar da sua prosa excepcional, de várias passagens memoráveis e de um desenlace atrevido, The Centauri Device estará longe de ser uma das melhores space operas que podemos ler hoje em dia - o próprio Harrison considera-o o pior livro que já escreveu (o que talvez diga muito dos seus romances posteriores). Mas a sua importância não pode ser desprezada, e é por isso que o trago aqui: o seu exercício de desconstrução não só demonstrou quão gastas estavam as fórmulas clássicas do género, como lançou as sementes para o seu ressurgimento, uma década mais tarde. Dito de outra forma: é muito provável que sem a pedrada no charco que foi The Centauri Device não tivessem surgido autores como Iain M. Banks, Alastair Reynolds ou Ken MacLeod, entre muitos outros que modernizaram a vetusta space opera e a trouxeram para o século XXI. Qualquer leitor que queira explorar estes temas terá inevitavelmente de passar por este livro. E decerto não dará a viagem por perdida. 

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