Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Lamento

por Pedro Correia, em 09.01.19

Uma das melhores livrarias de Lisboa, de que fui durante anos visitante e cliente habitual, era a Bulhosa, situada no extremo sul do Campo Grande, já quase em Entre-Campos. Um dia, há pouco mais de um ano, encerrou "para inventário", como rezava o letreiro. Não voltou a abrir: morreu assim, ingloriamente, perante o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura.

Há dias passei por lá. Onde morou a Bulhosa está agora um desses estabelecimentos pindéricos que prometem "depilação total nas axilas e nas virilhas" em letras garrafais estampadas à entrada. É uma actividade em expansão, ao que parece. A malta preocupa-se com a fachada e marimba-se para o intelecto: os neurónios não propiciam fotos giras no Instagram.

Lamento, claro. Mas não estranho. Ainda há pouco, numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um. «Li por obrigação quando andava na escola, felizmente hoje já não preciso disso», respondeu um, sem sombra de ironia. Daí as livrarias - que também eram um espaço de convívio, de socialização, de buscas e descobertas - irem fechando, umas atrás das outras, por esse país fora. Pobre e frívolo país, tão mal instruído e tão bem depilado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue da semana

por Pedro Correia, em 24.11.18

Há blogues que prestam serviço público. Lisboa de Antigamente é um deles. Destaco-o desta vez, mas poderia destacá-lo noutra semana qualquer. Porque aprendo sempre alguma coisa ao visitá-lo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

In memoriam.

por Luís Menezes Leitão, em 01.11.18

 

Hoje é um dia em que recordo sempre a maior tragédia que alguma vez atingiu Portugal. Não apenas matou 60.000 pessoas num único dia, como também destruiu completamente o que era então a cidade de Lisboa, não nos deixando quase nenhum edifício para recordar os tempos passados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Uber agradece

por Pedro Correia, em 26.09.18

mw-860.jpg

 

No conflito que opõe as frotas de táxis às novas plataformas digitais, os partidos que dizem estar sempre solidários com os trabalhadores já assumiram o seu lado. Colocam-se contra os novos proletários da Uber, da Cabify e da Taxify,  muitos deles assalariados precários, e mostram-se a favor dos patrões dos táxis, que há uma semana condicionam fortemente ou paralisam até grande parte do trânsito na cidade de Lisboa.

Pelo oitavo dia consecutivo, a capital tem hoje os seus principais corredores destinados aos transportes públicos transformados em parques de estacionamento de táxis. Prejudicando assim os cidadãos mais desfavorecidos - aqueles que utilizam os autocarros nas suas deslocações pela cidade. Uma evidente ilegalidade que conta com o zeloso patrocínio da Polícia Municipal, enquanto os partidos que menciono na abertura deste texto assobiam para o lado.

É uma luta obviamente condenada ao insucesso. Fazendo lembrar os protestos dos cocheiros quando começaram a generalizar-se os primeiros veículos a motor nas grandes urbes. Tentar travar a roda do futuro com argumentos proteccionistas do século passado é um absurdo. 

Muitos taxistas andam por aí, envergonhados, a furar o protesto dos patrões circulando com as luzes externas dos taxímetros desligadas. Faço sinal a um. Pára, abre o vidro e pergunta para onde vou. «Pode entrar. Tudo bem, desde que não passe pela Avenida da República, pelo Saldanha, pela Fontes Pereira de Melo ou pela Avenida da Liberdade. Se for aí, sou insultado ou posso mesmo ser agredido por aqueles que se dizem meus colegas.»

Escuto estas palavras enquanto o veículo se vai cruzando com diversas viaturas das plataformas digitais, que por estes dias não têm mãos a medir, com autocarros panorâmicos cheios de turistas e até com os já pitorescos tuk-tuks alfacinhas. Todo um mundo de ofertas rodoviárias que nada têm a ver com a visão petrificada dos donos das frotas de táxis e dos partidos que os apoiam.

Oito dias de protestos encaminharam milhares de utentes habituais de táxis para a Uber e a Cabify: é uma via que já não tem retorno. Por aqui se mede também a estupidez deste protesto. Enquanto os autocarros continuam sem acesso aos seus corredores, contribuindo para engarrafar ainda mais o trânsito. Lá dentro vão humildes cidadãos trabalhadores: os partidos que dizem apoiá-los voltaram a esquecer-se deles.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Hipocrisia

por Pedro Correia, em 23.08.18

O presidente da Câmara de Lisboa diz, repetidas vezes, que gostaria de retirar cada vez mais carros da cidade. É pura hipocrisia. Os veículos são uma fortíssima fonte de receitas da autarquia - nomeadamente através do estacionamento e das multas, por exemplo, já para não falar nos impostos indirectos que geram através dos combustíveis. 

De resto, sabendo nós como funciona a caótica rede de transportes públicos da capital, se por absurdo metade dos utentes que entram diariamente em Lisboa ao volante dos seus veículos particulares passassem a fazê-lo por transportes fluviais, rodoviários e ferroviários, o sistema entraria de imediato em colapso. Como bem sabem aqueles que, como eu, utilizam essa rede todos os dias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Agosto em Lisboa

por Pedro Correia, em 22.08.18

Agosto em Lisboa, num bairro afastado das enchentes turísticas. Almoço periódico com dois amigos, no restaurante do costume. Afinal está fechado, "para férias" - como reza o letreiro. Tentamos o restaurante alternativo, também nosso conhecido, quase porta ao lado: igualmente encerrado pelo mesmo motivo. Faz-me alguma confusão: porque não combinarão férias alternadas os responsáveis destes estabelecimentos concorrentes?

Atravessamos a rua: em frente há outro. Este, aberto. Mal abancamos, a empregada ucraniana avisa: "Já não temos frango, nem carne de vaca." Mau indício, um restaurante deixar esgotar carne de frango. Bifana, também esgotou. Pedimos alheiras, descendo ao grau zero culinário, quase não resta alternativa. Azar para o terceiro elemento da tribo, que chega mais tarde: já não restou uma alheira para lhe matar a fome.

Sugiro-lhe, a brincar: «Pede um Cornetto. Deve haver.» Havia, sim. Foi o almoço dele.

Na fabulosa Lisboa "turística" desta segunda década do século XXI. Na Rua da Estefânia, passava um pouco das duas da tarde.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Madonna em Cuba.

por Luís Menezes Leitão, em 02.08.18

Não tenho paciência nenhuma para estas vedetas que vêm para cá, abusando do deslumbramento dos indígenas, para depois compararem o país a uma Cuba ou acharem que parou no tempo de Salazar. Mas, de facto, desde que a geringonça chegou ao poder, está muito parecido com uma Cuba. Em que outro país europeu a câmara da capital lhe tinha oferecido 15 lugares de estacionamento a preços irrisórios para depois ouvir estas declarações? De facto, é graças ao fado, futebol e Fátima que os portugueses continuam a andar distraídos com a actuação dos nossos políticos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O corpo de bailarinos de Madonna (II)

por Diogo Noivo, em 01.08.18

madonnaok-k6kE-U40769406739HN-624x385@El Norte.jpg

 

Parte da intelectualidade nacional defende que uma publicação de Madonna no Instagram faz mais por Lisboa do que mil estrangeiros anónimos que venham para cá viver. Tanto assim é que a mais recente entrevista à cantora, publicada na Vogue italiana, valerá bem os lugares de estacionamento que lhe foram atribuídos pelo município da capital. Pois bem, nessa entrevista Madonna diz que Lisboa se assemelha a Cuba e que Portugal “é governado por três 'Fs': Fado, Futebol e Fátima”. De facto, publicidade desta não tem preço. E a culpa não é de Madonna.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Despejado com justa causa

por Pedro Correia, em 30.07.18

image[1].jpg

 

Obviamente, demitiu-se. Despejado da vereação alfacinha com justa causa política: não se pode impunemente andar em contramão, dizendo uma coisa e praticando o seu inverso.

Sai três dias mais tarde do que devia. Após causar sérios danos reputacionais ao Bloco de Esquerda e de ter arrastado a imprevidente Catarina Martins para uma bizarra tentativa de bate-boca com Marcelo Rebelo de Sousa que a Casa Civil do Presidente da República esvaziou num ápice.

O BE vê estancar uma ferida que ameaçava infectar, os munícipes de Lisboa livram-se de um descarado  demagogo e o mercado imobiliário da capital ganha um dinâmico promotor imobiliário, capaz de comprar em 2014 à Segurança Social, por 347 mil euros, um prédio situado em plena zona histórica da cidade que três anos depois tinha um valor de mercado avaliado em 5,7 milhões, gerando uma mais-valia de 470%

Tudo está bem quando acaba bem. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A torre dos anúncios

por jpt, em 27.07.18

lefties.jpg

Já é noite e saio do centro comercial, aqui dito xópingue, sotaque do dialecto local, e rumo a casa, mesmo defronte. Quando me chego ao atravessar da rua noto que debaixo da torre de anúncios, falha de iluminação e com cromos em falta, espaços vazios que anunciam a pobreza que circunda, desavergonhada, encostado ao canteiro que lhe é base está um tipo deitado, protegido por um velho guarda-sol de praia, branco na noite. Vou até ele a perguntar-lhe “vai dormir aqui?” e ele que sim, “que é o meu lugar”, conclusão que será só dele, que nunca vi vagabundos por aqui aboletados. Está mal preparado, deitado num pequeno cartão, só um saco de plástico com um qualquer não sei o quê. Pergunto-lhe se já comeu, ele agita-se, sobreergue-se no cotovelo, e que sim e abana na mão esquerda um nota de dez euros, dobrada em quatro, como se ma quisesse dar, “não quero o teu dinheiro”, digo-lhe, abismado, “é o meu lugar este”, reafirma-me, até frenético, tartamudeia e nem o percebo, aterrado vendo-o vendo-me dele concorrente, eu ali, hirsuto todo já branco, uma t-shirt desbotada se calhar já não de hoje, calças de ganga sujas que federão a tabaco, que quando a adolescente nem está até esqueço de tudo isso e do resto, pois para quê?,

 

fujo dele, reentro no tal xópingue, estou teso demais para comprar uísque mas andarei um pouco, e ao meu encontro vem a minha amiga, afinal ainda ali, jantámos mesmo agora numa espelunca vizinha, eu nem comia há quatro dias, dieta dos achaques, pagou-me ela um qualquer sucedâneo de polvo, intragável e morno, que me soube às mil maravilhas, e toca música no centro, pretenders talvez, nem atento, e diz-me ela, risonha, ainda miúda, sempre bonita, nestes nossos 50s, “zézé, apetece-me dançar contigo” e logo a rodopio mesmo ali, pois claro, enlaçados, e os poucos clientes daquilo do pingo doce olham-nos estranhos, e quem são eles?, apenas clientes, nem sabem que onde são as caixas eram já as hortas dos Olivais bem antes destas construções, ali nos escaparates fui o King of the Pirates do Defoe, o Capitão Morgan e o Corsário Negro e, mais do que tudo,  naqueles carreiros de esconder tesouros, onde estão talho padaria e peixaria, fui Jim Hawkins, sou aqui dono da terra, vão-se foder clientes de xópingue, posso bem dançar com as beldades locais, manas que sejam, e por esta o ser, enquanto nos meneamos conto-lhe a história vagabunda e ela ri-se, muito, e nisso perdemos o ritmo, que entre nós os dois também nunca foi muito do aconchegar mas muito mais do ombrear,

 

e segue ela à sua vida, ainda a rir-se, naquilo do “só a ti, zézé”, e eu, assim, no carinho dela, amornado, regresso a casa. Subo-me à gruta, ao meu quarto andar, a resmungar com o vagabundo e não descanso enquanto não o esqueço. Meia hora depois, filhodamãe do tipo, vou lá abaixo, levo-lhe uns cobertores, almofada e farnel. O gajo desconfia-me, estou irritado e digo-lhe, como se veterano, “estás mal preparado, não podes dormir na pedra”, que o homem está deitado na calçada portuguesa, ele agradece agora, “obrigado pai”, “pai é o caralho” respondo-lhe, que o gajo tem a minha idade, ou até mais, e insisto para que use os cobertores, e “já comeste? Trouxe comida”, mas isso agradece e recusa, diz que comeu e que tem mais, no tal saco de plástico, “trouxe cervejas”, desafio e ele nada, prefere vinho e tem-no. Mas está grato, pergunta-me agora se pode dormir ali e “sei lá eu, que não sou polícia” e nem lhe digo que ali tão exposto está mesmo à mão que o venham expulsar,

 

e começa ele na arenga dele, que vem de não sei de onde, de um abrigo onde lhe arranjaram uma complicação qualquer, querem-no matar, e bate no braço esquerdo para o realçar, com tal afinco que até o julgo prótese, que homem de braço de prata é muito provável que tenha sido, e queixa-se, que o expulsaram sem razão, e eu que não quero saber a história dele, e ele insiste que o querem matar, que isto é a “quinta guerra mundial”, já vai desabrido, e eu digo-lhe que não, que é mesmo a primeira, só que ainda não acabou.

 

Depois pergunta-me se pode confiar em mim, e eu que experimente ele, e não é que experimenta?, puxa outra vez da nota de dez euros, e pede-me que lhe vá comprar um maço de tabaco, e “porque não vais tu?”, que não pode, senão roubam-lhe os haveres, o tal guarda-sol, o saco de plástico e o cartão, porra, e afinal era isso que ele queria ao princípio, uma pobre alma que lhe fosse comprar cigarros. E eu lá vou, mas é para trazer um “camel dos verdadeiros, dos amarelos”, sim, dos genuínos, que não me engane eu. Sigo à tabacaria, ainda aberta, ao Camel original, 4, 70 euros. Volto e dou-lho, e ao troco, a nota dos 5 euros e as moedas dos trinta cêntimos. Despeço-me, regresso a casa com o farnel recusado mas o tipo insiste em dar-me os 30 cêntimos, e eu que “não quero o teu dinheiro” e ele empurra-o, quase já em pé, que lho aceite que é “para lhe dar sorte à casa”, àquele recanto de canteiro.

 

Vou para casa, envergonhado, cabrão de burguês, um poucochinho preocupado, é o que se arranja, uma caridadezinha, mas incapaz de dar tecto ao homem, uma noite que seja, e sei bem que se o levar para casa as mulheres que me visitam me matarão o juízo, e até eu, se num dia menos deprimido, não me perdoarei. A meio da noite estou mesmo lixado com o gajo, que não me deixa dormir, vou à janela, que o tipo está mesmo à frente do meu prédio, e lá está ele, o cabrão, se calhar a dormir, e nem sei onde estão os meus binóculos, aqueles para o Kruger, nem a colecção das velharias, dos avós, militares, mais o de ópera de uma qualquer avoenga, porcelana e isso, onde estarão os binóculos, agora que eu preciso deles?, para o espreitar, que se lixe, vou mas é lá abaixo, desço e “ouve lá” e ele acorda, estremunhado, “quero as minhas coisas, dá-mas de volta”, estou lixado com o gajo, não aceitou o meu farnel, não bebeu as minhas cervejas, “mas porquê?, deste-mas …”,  resmunga, até assustado, “não quero o teu dinheiro”, resmungo, e quero devolver-lhe as duas moedas, e ele “é para dar sorte”, e eu, ateu, “não te dá sorte nenhuma” mas já desisti, não quero as coisas de volta, os cobertores e a puta da almofada, mas “quero um Camel dos teus”, e isso já está bem, puxa ele do maço e dá-me um cigarro, e outro para ele, eu sento-me na laje do canteiro e ele alumia-nos com fósforos.  Fumo ávido, se calhar como quem já não fuma, e ele “estás doente?” e eu que sim, que “querem-me matar” mas não bato no braço. “Ya!”, e solavanca, “é uma guerra mundial”. “A quinta!, caralho, é a quinta guerra mundial”, respondo-lhe, veemente, irritado, como se ele não perceba tudo isto, vagabundo distraído. “É isso mesmo, é o que eu digo”, defende-se.

 

Os cigarros acabam e o sacana diz-me que “agora vou dormir”, despacha-me, assim sem mais, e eu fico ali, sem-jeito, ainda a insistir no “toma lá o teu dinheiro”. E ele que nada, que lhe dê eu sorte. Uma nesga que seja, penso, e desisto, todo eu ainda mais. E subo. Para a insónia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A geringonça da hipocrisia.

por Luís Menezes Leitão, em 27.07.18

37904315_10216972937899197_7291739615357042688_n.j

O que caracteriza a geringonça é de facto a sua refinada hipocrisia. Dizem que andam a tentar combater a especulação imobiliária, enquanto se dedicam a ela nos seus negócios privados. Depois de António Costa ter conseguido o enorme prodígio de ganhar 100% na venda de um imóvel no prazo de um ano, enquanto exerce as funções de primeiro-ministro, agora é este rapaz que ultrapassa todos os recordes, comprando um imóvel por 347 mil euros e a seguir pondo-o no mercado por 5,7 milhões. Isto por parte de quem andava a dizer à boca cheia, que Lisboa é uma cidade cada vez mais para ricos e menos para lisboetas. Ele lá saberá do que fala. Estranha-se é que não tenha apresentado o seu passado como investidor imobiliário quando se candidatou no programa do Bloco de Esquerda a Lisboa, onde seguramente teria tido um resultado eleitoral diferente. A hipocrisia e a fraude política estão de facto no coração da geringonça.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Amor e Vistos Gold

por Diogo Noivo, em 26.07.18

Instalou-se a ideia de que Lisboa cria condições de excepção para estrangeiros europeus ou endinheirados que desejem residir na capital. Comprovei ontem que a percepção é completamente falsa. Embora, lamentavelmente, nada possa dizer sobre os endinheirados, vi que o calvário ao qual os cidadãos europeus são submetidos pela Câmara Municipal de Lisboa é pior do que aquele sofrido pelos portugueses residentes.

Apesar de qualquer cidadão europeu ter um Cartão do Cidadão ou um passaporte que atestam a sua condição europeia, Portugal exige-lhes um certificado de cidadania europeia, emitido pelo município competente. Reitero, para que não sobrem dúvidas: não se trata de um certificado de residência, mas sim de certificar que alguém com documentos oficiais emitidos por um Estado-Membro da União Europeia é, de facto, europeu. A tautologia custa 15€ por cabeça. Fui informado que “é assim em todo o lado”, embora não me recorde de ter sido obrigado a uma certificação semelhante quando residi noutros países do espaço comunitário. Adiante.

Chegados ao serviço de atendimento do município de Lisboa por volta das 10 da manhã, o número da senha, o 003, augurava um tempo de espera curto. Apenas duas pessoas à nossa frente, e uma já estava a ser atendida. Mas às 13h20 continuávamos à espera. Enquanto as senhas para tratar de outros assuntos – EMEL, execuções fiscais, urbanismo – se sucediam a uma média de onze por hora (havia tempo livre e tinha de me entreter), para tratar do certificado europeu a média era inferior a um. As pessoas entravam e saíam, enquanto nós e um simpático casal alemão olhávamos para o monitor, ansiosos pela nossa vez.

Às 14h15, quando finalmente fomos atendidos, a funcionária informou-nos que Lisboa não é o município competente (aliás, a falta de competência era evidente há mais de duas horas), mas sim um outro. Portanto, de nada serviu ter ligado na véspera para aquele mesmo serviço, ter facultado toda a informação, e me ter sido confirmado que sim, que era ali que me deveria dirigir para tratar do malfadado certificado. Valeu-nos a simpatia da pacata funcionária – que contrastava com a hiperactividade de um negreiro que por lá andava disfarçado de polícia municipal.

Moral da história: os estrangeiros só se mudam para Lisboa com Vistos Gold ou por amor à cidade – e porventura a um lisboeta. Pela competência dos serviços não é certamente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O corpo de bailarinos de Madonna

por Diogo Noivo, em 05.07.18

madonna-dancers-02-800.jpg

 

Fernando Medina esteve bem ao facilitar estacionamento para a frota automóvel de Madonna porque, segundo se lê nas redes sociais de alguns comentadores, uma publicação da artista no Instagram faz mais pela cidade em receitas e em reputação do que mil estrangeiros anónimos que venham para cá viver. Descontando o deslumbramento patego subjacente à ideia, que institui como desejável a criação de gente de primeira e de segunda perante o Estado (o Poder Local também é Estado), o curioso é que o essencial do assunto permanece ausente do debate.

Graças ao INE, soubemos esta semana que quem anda de transportes públicos demora o dobro do tempo do que quem vai de carro ou mota. Se a isto juntarmos os atrasos constantes nos transportes públicos, o aumento do preço dos títulos de transporte, a sobrelotação, a supressão de comboios, a degradação do equipamento circulante, e os tempos de espera absurdos no Metro não surpreende que o automóvel seja o principal meio de transporte dos residentes nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. É a prova da absoluta ineficiência, se não mesmo da inutilidade, dos transportes públicos, cuja missão é também a de reduzir a entrada de veículos particulares nas cidades.

Em Lisboa, a situação deverá piorar. Uma vez que o preço dos imóveis torna proibitivo residir na cidade, mais gente morará nas periferias e, consequentemente, maior pressão sobre os transportes públicos e mais viaturas particulares a entrar e sair do centro urbano diariamente. Com este cenário, nem com um silo de estacionamento por bairro teremos lugares suficientes. 

No entanto, calva de ideias e grávida de certezas, parte da intelectualidade pública que se desdobra em intervenções nos jornais, nas rádios e nas televisões prefere abordar o assunto dançando à volta de Madonna, dando colo ao autarca de Lisboa, defendendo o indefensável, e perdendo-se em argumentos que ignoram olimpicamente o cidadão comum. A culpa não é de Madonna.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um país onde se lê pouco e mal

por Pedro Correia, em 19.06.18

portugal_asdfshf67sdf67std7f6ts76dfsdfsdf[1].gif

 

Portugal é dos países da Europa onde menos se lê: só compramos, em média, 1,3 livros por ano. Estes péssimos índices, que não merecem qualquer tipo de censura social, ajudam a explicar por que motivo 45% dos alunos do 5.º ano de escolaridade são incapazes de identificar Portugal no mapa da Europa Ocidental - algo que se justifica pelo facto de o ensino, entre nós, estar cada vez mais desprovido de exigência, privilegiando-se o carácter "lúdico" da aprendizagem, que deve merecer a "adesão emocional" das crianças enquanto o esforço se ausenta das salas de aula.

Há tempos, num grupo de cerca de dezena e meia de pessoas da chamada classe média-alta reunidas em Lisboa, perguntei a cada uma delas se tinha comprado algum livro no ano anterior. Excepto num caso, as respostas foram todas negativas. A nossa chamada elite vive divorciada de leituras: é incapaz de comprar um romance ou um jornal, por exemplo. Sai de casa para abancar num restaurante, mesmo caro, mas nem lhe ocorre deslocar-se a um teatro ou um cinema, a um concerto ou a uma exposição.

 

londres[1].jpg

Em Novembro de 2013, fechou em Lisboa o cinema King. Foi durante anos o que mais frequentei. Lá vi alguns filmes inesquecíveis - vários de Pedro Almodóvar, por exemplo. Em diversas ocasiões não havia praticamente mais ninguém na sala: era fácil antever que acabaria por encerrar. Como encerrara o Londres, em Fevereiro desse ano - outro cinema da capital de que fui visitante assíduo. Nos últimos meses o seu estado de degradação tornara-se de tal modo evidente que não custava antecipar-lhe o fim.

Depois de fechado, muitos do que o votaram ao abandono lembraram-se de pôr a circular um abaixo-assinado entre os moradores da zona exigindo à câmara que não autorizasse a abertura de uma loja chinesa no seu lugar. Ainda me lembro do ar de espanto da senhora que me pôs o papel à frente, pedindo a minha assinatura, quando lhe respondi que me recuso a subscrever petições xenófobas. A loja abriu em 2014 e lá está, sempre cheia, no preciso local onde existia o antigo cinema, quase sempre vazio. Os mesmos que viraram as costas à sala de espectáculos passaram a acorrer ao estabelecimento comercial - incluindo ex-promotores do tal abaixo-assinado prontamente esquecido.

 

Somos assim: deixamos encerrar jornais, cinemas, livrarias. No momento em que fecham, logo surge o habitual coro de carpideiras lamentando o sucedido. Em regra, quem mais chora é quem menos contribui para evitar em tempo útil que o deserto cultural vá alastrando entre nós numa escalada galopante.

Quantos pais, incluindo na petulante Lisboa, nunca oferecem um livro aos filhos? Quantos já os levaram a visitar um monumento ou um museu? Quantos reagem com um resignado encolher de ombros à notícia de que um filho de dez anos é incapaz de apontar Portugal no mapa?

Que modelo de exigência estamos a proporcionar à geração que vai seguir-se?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adeus Camões, olá "camones"

por Pedro Correia, em 31.05.18

20180529_151554-1.jpg

 

As farmácias devem ser um excelente negócio. Só perto da minha casa, na Avenida da Igreja, há seis. Uma delas, mais modernaça, deixou agora de chamar-se farmácia. Fez obras para «modernizar as instalações» e ressurgiu baptizada como chemist store - assim mesmo à "amaricana", como se em vez de Lisboa estivéssemos em Seattle, Portland, Omaha ou Minneapolis.

Sinal dos tempos: eis o nosso idioma em recuo acelerado nos mais diversos tabuleiros, com a anuência generalizada das entidades públicas, a bocejante indiferença dos nossos putativos "agentes culturais" e o aplauso contentinho dos basbaques que imaginam podermos atrair "resmas de turistas" cá para o torrão se substituirmos a língua materna de Vieira, Eça e Pessoa pelo esforçado vernáculo do senhor Trump.

O estúpido "acordo ortográfico" já tinha funcionado como sinal de alerta: o português necessita de cuidados intensivos. Não apenas na versão escrita, com a abertura da época de caça às supostas consoantes mudas, mas na própria oralidade, com a progressiva atonalidade de sílabas e a contínua condenação das vogais abertas à reforma antecipada. Agora somos colonizados culturalmente pelos "camones". Cada vez mais longe de Camões.

Receio que isto já não se cure com uma simples ida à farmácia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Bairro

por Diogo Noivo, em 26.03.18

Não conheço o António Rolo Duarte. O blogue dele só conheci hoje. Tem três entradas despretensiosas, bem escritas e bem pensadas. Na mais recente, a propósito da morte de Manuel Reis, há uma frase que me ficou a ressoar no crânio: “Não é difícil ser saudosista em relação a esse Bairro Alto que nunca foi meu”. O meu Bairro, que existiu entre o ocaso dos 90 e os primeiros anos deste jovem século, era um zoo. Góticos, skinaria, betos do sapato de vela, aspirantes a artistas plásticos, gente que tinha lido umas coisas e outros que nem pelos folhetos de supermercado passavam os olhos. Todos diferentes, todos despreocupados – tontos, confiávamos na mobilidade social pátria, convencidos que viveríamos melhor do que a geração dos nossos pais. Esse era o ambiente do meu Bairro: confiança e inconsequência de quem olhava para o futuro como uma recta ascendente de progressão linear. Ao contrário da geração anterior, a minha não sentia a necessidade de ser cosmopolita porque o país já era europeu e cada vez mais desempoeirado. O tempo, esse desgraçado, encarregou-se de nos mostrar o quão errados estávamos sobre a progressão linear e sobre a limpeza da poeira. Aquele Bairro vivia dos restos da geração fundada pelo Manuel Reis. Era uma época de transição. A avaliar pelo que é o Bairro Alto de hoje, não acrescentámos nada. Como escreve o António Rolo Duarte, “o Bairro Alto há muito que perdeu o charme e o único sítio que poderia realmente ser nosso, o novo Cais do Sodré, foi tomado por uma mistura de turistas, hipsters que têm “uns projectos” e CEO’s de start-ups com muito start e pouco up”. Tem razão quando refere que “nós, os jovens de hoje, não temos um Frágil. Não há um Targus onde possamos encontrar a versão jovem do meu pai e dos amigos dele”. É isso mesmo, António. Com tudo o que daí resulta. E tudo isto para dizer que passarei a seguir o Dorminhoco com assiduidade. Venham de lá mais textos nessa “página aborrecedora”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Apontamentos sobre um mundo paralelo

por Diogo Noivo, em 21.03.18

casas lisboa.png

Retirado do Facebook

Embora não seja especialista no mercado imobiliário, creio que o preço do metro quadrado em Lisboa é formado pela conjugação de dois factores: (i) o normal funcionamento da lei da oferta e da procura; (ii) a sofreguidão do Zé Tuga que, sem a mais pequena noção do país onde vive, e vendo o mercado do imobiliário em alta, decidiu que ficará rico do dia para a noite, custe o que custar. Caso não concorde com este ponto (ii), caro leitor, atente no anúncio que ilustra este post: o arrendamento de uma maravilhosa cave com 25m2 está ao seu alcance pelo módico valor de 800€ por mês. Top!

Autoria e outros dados (tags, etc)

O delfim.

por Luís Menezes Leitão, em 12.02.18

Há muito que se sabe que Fernando Medina é o delfim de António Costa e que o PS o anda carinhosamente a preparar para assumir uma futura liderança. Precisamente por esse motivo Medina beneficia de um espaço televisivo semanal e o parlamento está sempre disponível para aprovar todos os disparates que ele propõe, como a lei de salvaguarda de lojas históricas à custa dos proprietários dos imóveis. A verdade, no entanto, é que quem decide a viabilidade dos estabelecimentos, históricos ou não, é o mercado, como o parlamento acaba de comprovar ao assistir ao encerramento da sua própria papelaria. Mas, como é típico de qualquer socialista, desde que sejam os outros a pagar está tudo bem. Como bem salientou Margaret Thatcher, o problema do socialismo é que ele acaba quando acaba o dinheiro dos outros.

 

É por isso que Fernando Medina, que à sua responsabilidade decidiu inventar uma absurda e inconstitucional taxa de protecção civil, que o Tribunal Constitucional prontamente chumbou, agora diz que quer processar o Estado pela taxa que ele mesmo decidiu criar. Para Fernando Medina, uma lei que lhe permite lançar taxas por serviços prestados na protecção civil é uma lei que lhe permite cobrar uma taxa mesmo sem prestar serviço algum. E é óbvio que a responsabilidade pelo que aconteceu é do Estado, uma vez que a lei tinha sido criada "ad usum delphini", pelo que o delfim nunca pode ser responsabilizado pelo (mau) uso que dela faz.

 

E assim se consegue atingir o esplendor do socialismo. Se a Câmara de Lisboa abusou dos seus munícipes, cobrando-lhes uma taxa ilegal e inconstitucional, é óbvio que a responsabilidade por esse buraco de 80 milhões de euros tem que ser passada para o Estado. E até é provável que o parlamento e o governo, tão amigos que são de Fernando Medina, lhe venham a dar razão, fazendo assim com que sejam os munícipes de todo o país, desde o Corvo a Bragança, e incluindo o Porto, Coimbra, Faro, etc., etc., cujos municípios nunca lançaram qualquer taxa de protecção civil, a pagar as pseudo-taxas inventadas pelo autarca de Lisboa. É por isso que Fernando Medina é o melhor candidato a futuro líder do PS, uma vez que sabe ficar com o dinheiro dos outros como ninguém. Se os munícipes de Lisboa, que o elegeram para presidir à sua câmara, não estão dispostos a pagar as suas pseudo-taxas, chamem-se os munícipes do resto do país para pagar a factura. O delfim Fernando Medina é um verdadeiro socialista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Lisboa que interessa a um outro tipo de "turistas"

por Alexandre Guerra, em 08.02.18

 

A equipa de skaters da Globe, marca australiana mundialmente conhecida e que se dedica à produção de material para as modalidades de skate, snowboard e surf, esteve em Lisboa numa sessão fotográfica para a histórica Thrasher Magazine. O anúncio está em destaque na homepage da marca e, do que se pode ver no trailer, a acção desenrola-se longe dos (insuportáveis e já pouco imaginativos) locais turísticos da capital portuguesa. Aqui, os pontos de interesse são outros, ou não fosse esta uma sessão bem fiel ao espírito street... Aquilo que os prós do skate gostam, sítios com pouco glamour, mas cheios de alma urbana e, se formos a ver bem, genuinamente lisboetas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Reavaliação do consenso fiscal.

por Luís Menezes Leitão, em 17.01.18

Lisboa nunca deve ter tido um presidente pior do que Fernando Medina, que coloca a cidade permanentemente em obras inúteis que, depois de realizadas, só complicam a vida aos lisboetas. Como se isso não bastasse, os lisboetas são constantemente esmifrados com impostos e falsas taxas, que só a muito custo conseguem eliminar, como se viu com a tardia declaração de inconstitucionalidade da taxa de protecção civil, que toda a gente sabia ser inconstitucional. Agora, com um rombo de 80 milhões em perspectiva, Medina diz que "quer reavaliar o consenso fiscal em Lisboa". E se ele reavaliasse antes a sua própria presidência da Câmara?

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D