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Não compreendem

por José Meireles Graça, em 15.07.20

A Câmara Municipal de Lisboa é um lugar mágico: Foi ali que, numa manhã gloriosa de Outubro de 1910, José Relvas proclamou a República a meia dúzia de basbaques, feliz iniciativa que o telégrafo se encarregou de comunicar ao resto do país.

O novo regime veio garantir que o Poder Moderador não mais seria exercido por quem derivasse a sua legitimidade de ser filho de seus pais, mas antes por uma litania de filhos da mãe, e que a bandeira do país “modesta e grave, como convém a quem viu tanto perigo e tanto mar”, seria substituída por uma pletora de símbolos e cores inspiradas nas bandeiras de países africanos ainda por nascer.

O lugar de presidente da Câmara do, na opinião dos locais, concelho mais importante do país, viria a ser do maior relevo. E, em nossas vidas, vimos dali sair para a presidência da República vultos como Sampaio, autor dos mais entediantes e esquecíveis discursos que a banalidade militante já produziu, ou para a presidência do Conselho de Ministros Santana Lopes, um conhecido apreciador de peças musicais que nem os respectivos autores reconheceriam, e António Costa, uma desgraça palavrosa e vácua que detém a suprema habilidade de convencer os magistrados da opinião de que nutre para o país outra ideia que não seja a sobrevivência do vasto exército de clientes que sentou à mesa do Orçamento.

Pois bem: quem hoje ostenta o colar de mayor é um tal Medina, que se distinguiu por beijar o chão que o seu antecessor pisava com as nédias patas e que, de um início tímido feito de discursatas de circunstância, desabrochou num atrevido político de mão cheia ao qual se augura um risonho futuro, na hipótese de no país haver condições para continuar a progredir o retrocesso.

Pois este portento teve a ideia (não me foi possível até ao momento apurar se original ou copiada de outras paragens progressistas) de pintar de cores garridas o piso de certas ruas lisboetas. Entrevistados pelas televisões, os locais dizem coisas, como é costume os locais dizerem, um achando que o azul era adequado à próxima vitória do FCP e outro que discordava daquele tom de verde; e nas redes sociais instalou-se a polémica. Há quem lembre que aquelas tintas vão poluir (com o atrito do trânsito a pintura vai à vida e as partículas alojam-se algures, esperando-se todavia que não nos pulmões dos senhores edis), que a manutenção vai custar uma pipa de nota, que isto beneficia o comércio ou que pelo contrário o prejudica, que a ideia é muito bonita ou horrível.

Neste artigo explica-se vagamente o que vai na cabeça destas luminárias municipais e percebe-se que as horrendas pinturezas fazem parte de um quadro mental que inclui ciclovias, proibições de trânsito automóvel, diminuição de lugares de estacionamento, promoção de uma vida saudável e “mudanças de comportamento a longo prazo”.

“A ideia da cor é só para delimitar o espaço, marcá-lo para que as pessoas saibam que, agora, podem andar no meio da rua. Sem constrangimentos. O alcatrão não proporciona essa segurança. Além disso, a tinta é autonivelante, o que facilita a estadia em esplanadas’, explica o gabinete do vereador Miguel Gaspar”.

(Fui ver, por curiosidade, quem era este Gaspar, confiante em que se tratava de um dos dementes do Bloco. Não, é oriundo das mesmas coudelarias do Presidente).

Que pensar?

A discussão é surpreendentemente mansa. Quarenta anos de socialismos sortidos tiveram este resultado: É possível uma manifestação para “lutar” pelos direitos da comunidade LBGT (o “T” é de turbo, salvo erro), ou dos pretos, ou dos palestinos, ou dos imigrantes, ou dos cães e gatos abandonados, ou dos brasileiros que Bolsonaro oprime, ou dos brancos que oprime Trump. E, não há muito tempo, dos reformados, dos desempregados, dos empregados explorados, das vítimas da austeridade e de todo o cidadão que odiasse Passos. Manifestações de ofendidos pela prepotência das mudanças e em nome dos legítimos interesses prejudicados, isso não. A Câmara é de esquerda, é do povo, e o povo não se manifesta contra si mesmo, não é verdade?

Números: Os números estão ausentes, seja quanto custam estas frescuras, seja a quem foram adjudicados os trabalhos, por quanto e de que forma, quanto tempo se aguentam as obras sem necessidade de renovação, e quanto custará o reforço do policiamento (se a Câmara pinta para se publicitar, os artistas de rua também quererão enriquecê-las pelo efeito de lhes imprimir, pintando, as suas mensagens para o mundo cruel e injusto).

Trânsito: A ideia de que, numa cidade como Lisboa,  onde se está sempre a subir ou a descer, salvo para quem se deslocar ao longo da frente ribeirinha e de mar, e onde há muito mais velhos do que jovens, se pode significativamente substituir o transporte automóvel por bicicletas, releva de delírio. E como, para o automóvel que vai sendo perseguido e acantonado, não se criam alternativas de transporte colectivo (nem se criarão: borrar umas ruas e expectorar uns discursos e palpites não tem o mesmo grau de dificuldade que criar uma rede de transportes eficiente) do que estamos a falar é de um crime de moda de pensamento moderninho.

Prognóstico: Os munícipes, de Lisboa e dos outros concelhos, não costumam fazer a ligação entre o custo de obras e o que lhes sai do bolso. Isto decorre da opacidade do sistema fiscal e das contas dos municípios, das transferências de subsídios da UE (com frequência disponíveis apenas para fantasias), da falta de rigor da gestão financeira (ainda que empalideça em confronto com o regabofe do poder central), e da isenção de IRS para mais de metade dos contribuintes. Se o munícipe acha que são os outros que pagam, haveria de preocupar-se com o custo porquê? Não preocupa. E assim Medina, e os outros medinas todos que enxundiam o país como uma praga de gafanhotos, têm de fazer. Fazer o quê? Qualquer merda, desde que pareça progresso. A comunicação social, um vasto depósito de patetas de cujas cabeças está ausente qualquer ideia séria e comedida de respeito pela coisa pública, que foi substituído por concertos, trincas e mincas da política caseira, ideias gerais sobre tudo, e sobretudo erróneas, além de piolhos e lêndeas, faz o resto. De modo que as ruas pintadas vieram para ficar, até serem substituídas por outro disparate.

Estética: O alcatrão é preto, o granito cinzento. Alterar a cor tradicional é uma ideia anti conservadora porque o conservador acha que a tradição não tem de ter imutabilidade, mas a sua alteração deve ser justificada com as vantagens, sob pena de gratuitidade. O espalhafato, o berrante ó-pra-mim, o mudamos porque sim, são pirosos. E a quem assim não entenda a demonstração não pode ser feita porque não a compreenderia. Medina e os outros, claro, são desses – não compreendem.

Até sempre, Barata

por Pedro Correia, em 29.05.20

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Sou há muitos anos cliente assíduo da Livraria Barata, na Avenida de Roma. Tenho até cartão de cliente, que permite um desconto residual em livros, de que ali me abasteço regularmente. Também nesta livraria lisboeta habituei-me a comprar com regularidade imprensa estrangeira há quase década e meia.

Desde que foi declarada a pandemia, a Barata fechou - como aconteceu com todos os estabelecimentos do ramo, que já atravessavam uma severa crise antes de o Presidente da República e o Governo - sabe-se lá porquê - terem considerado que as livrarias não mereciam ficar abertas durante o "estado de emergência". Ao contrário dos quiosques, das mercearias e das tabacarias. 

Na altura, não ouvi um sussurro de protesto dos chamados "agentes culturais". Todos acenaram, em sinal de concordância.

 

Entretanto, a Barata reabriu.

Acontece que desde então já tentei duas ou três vezes, mas ainda não consegui lá entrar. Motivo? Embora tenha uma área muito grande, só permitem um máximo de dez pessoas dentro do estabelecimento.

Em pelo menos duas ocasiões vi uma fila à porta, estendendo-se para o passeio: gente forçada a usar máscara, aguardando à torreira do sol, suando em bica, com notório desconforto.

Disse logo com os meus botões: nem pensar em aturar isto. E rumei a outras paragens.

 

Hoje, ao fim da manhã, tentei uma vez mais - talvez a última - entrar na Livraria Barata.

Não vi nenhuma fila à porta, fui avançando. Deparo-me então com o Presidente da República, mais a respectiva comitiva, acrescida de um batalhão de jornalistas. Todos juntos, perfaziam mais do dobro do limite máximo de pessoas estipulado. As regras "rigorosíssimas" haviam sido mandadas às malvas.

Disseram-me que Marcelo Rebelo de Sousa estava ali para "declarar o apoio" à livraria, que enfrenta sérias dificuldades de tesouraria, sem saber se conseguirá pagar os salários neste fim de mês. Aplaudo a generosidade do Chefe do Estado. E espero que Marcelo faça o mesmo com milhares de outras empresas deste país onde muita gente trabalha sem ver a remuneração a que tem direito. Pelo mesmíssimo motivo.

 

Tudo isto é muito bonito. Acontece, no entanto, que voltei a ver-me impedido de ali entrar. Escorraçado pelo sol, pelas filas, pelas absurdas regras de "confinamento" e hoje até pelo Presidente da República mais a sua comitiva.

Sem acesso à livraria, rumei ao talho mais próximo, onde me abasteci de imediato com 600 gramas de entrecosto, e vim para casa preparar o almoço. Despedindo-me da Barata, por prazo indefinido. Com um até para o mês que vem ou um até nunca mais, não faço ideia.

Há sempre um fim para tudo.

Liberdade que estais nos céus

por Pedro Correia, em 27.03.20

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Quinze dias de reclusão doméstica.

 

Foto minha. Título justificado aqui

Diário do coronavírus (2)

por Pedro Correia, em 15.03.20

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Não me recordo de ter visto a cidade tão vazia - nem nos feriados de Agosto, há cerca de dez anos, quando Lisboa estava fora dos circuitos turísticos. Hoje, a meio da manhã, eram assim as vistas na Praça de Alvalade e na Avenida de Roma: podíamos circular a meio do asfalto sem nos preocuparmos com os carros, ausentes em parte incerta. Há vírus por aí - o ameaçador coronavírus. Mas, seguramente, respiramos menos dióxido de carbono.

Junto às farmácias, que abundam nesta zona da capital, concentram-se pessoas em estrito respeito das distâncias de segurança. Muitas delas, no entanto, vão em busca do que já não há. Os letreiros nas fachadas esclarecem os incautos: «Não temos álcool, álcool-gel, luvas, máscaras.» Ou seja, tudo quanto é mais procurado de momento.

Apesar de ser um bem escasso, cruzo-me na rua com várias pessoas de máscara na cara. Numa paragem de autocarro, duas mulheres discutem em voz alta, gesticulando muito - ambas mascaradas, o que torna a situação ridícula. Dois fulanos circulam de máscara na testa - outra imagem caricata, tal como a desta jovem que suspende a máscara para fumar, sem suspeitar sequer que a zona do filtro do cigarro pode estar contaminada pois acabou de lhe tocar com os dedos.

 

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Não é de mais sublinhar que as máscaras devem ser usadas apenas por quem já está contaminado, como modo de precaução acrescido para esses doentes, ou para quem trabalha na área da saúde. O único meio seguro para travar a propagação do vírus é o gel desinfectante. Além, claro, do mais antigo, simples e acessível: água e sabão.

Boris Johnson recomendou aos britânicos que cantassem duas vezes os "parabéns a você" enquanto lavavam as mãos, cada vez que chegassem a casa. Boa recomendação: é precisamente isso o que faço. Enquanto vou sabendo que em Espanha o número de mortos já ultrapassa as duas centenas e a própria mulher do presidente do Governo, Pedro Sánchez, está contaminada. Há uma semana, irresponsavelmente, Begoña Gómez e as ministras da Igualdade, Irene Montero, e da Política Territorial, Carolina Darias, participaram num grande desfile em Madrid para assinalar o Dia Internacional da Mulher. Ignorando todos os avisos e as mais elementares medidas de precaução, distribuíram beijinhos e abraços durante horas: na quinta-feira, as ministras ficaram a saber que também são portadoras do vírus. Consequência de terem menosprezado as mais elementares normas de saúde pública.

 

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Com os péssimos exemplos a virem de onde vêm, não admira que Espanha seja já o segundo país na Europa e o quinto à escala mundial com mais vítimas mortais e mais infectados. Agora Sánchez e Pablo Iglesias - companheiro de Irene Montero e vice-presidente do Governo, que apesar de estar de quarentena compareceu ontem no Conselho de Ministros, noutra evidente demonstração de irresponsabilidade - correm atrás do prejuízo, declarando o estado de emergência e mandando aplicar as primeiras multas aos transgressores. 

Entretanto os espanhóis, sobretudo os residentes em Madrid, fogem para o nosso país. E vários deles, contaminados, estão a ser tratados nos nossos hospitais, tão carecidos de meios técnicos e recursos humanos. O que justifica este comentário de Miguel Sousa Tavares: «É inacreditável que o Governo nos recomende que fiquemos em casa enquanto a porta está aberta para os espanhóis virem para cá tratarem-se.»

Um desabafo compreensível, sem tropeçar nas palavras. E sem necessitar de máscara.

Havana? Caracas? Não: Lisboa

por Pedro Correia, em 13.03.20

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Parecia que passara por ali uma manada de bisontes. Ou que me via teletransportado para um "armazém do povo" em Cuba ou na Venezuela. Mas não: são imagens de um hipermercado num bairro residencial em Lisboa, captadas ontem, por volta das 11.30. A desenfreada corrida às grandes superfícies, como se estivéssemos na iminência de um bombardeamento aéreo, deixou neste estado as caixas e prateleiras do Continente em Alvalade. 

A população que adere com generosidade a iniciativas altruístas, como o Banco Alimentar Contra a Fome, é a mesma que vem revelando o mais desprezível comportamento, mal surgiram os primeiros temores e rumores relacionados com o coronavírus. Açambarcando o mais possível, comprando aquilo de que não necessita, acumulando víveres e produtos de higiene que ficarão esquecidos em armários e prateleiras lá de casa, usando a pandemia como pretexto para o consumismo mais obsceno e execrável.

Passei por lá e vi: os maiores estragos foram feitos nas zonas dos enlatados, cereais, bebidas, detergentes, iogurtes, rações para animais. Mas também nos frescos, sobretudo ao nível das frutas e legumes - bens perecíveis, não fazendo o menor sentido que sejam açambarcados.

Esta gente está mesmo a pedir a imposição de limites máximos de aquisição de bens por via administrativa. Ou, no limite, implora por senhas de racionamento - como aconteceu em Portugal, quando a Europa quase inteira estava mergulhada no pesadelo da II Guerra Mundial e os circuitos de abastecimento haviam sido torpedeados.

Mereciam viver em Havana. Ou em Caracas.

Propaganda com charada

por Pedro Correia, em 03.03.20

Acabo de ouvir esta frase, no lançamento de uma peça num telediário da hora do almoço: «Lisboa é uma das cidades europeias onde se pode envelhecer activamente com dignidade.»

Alguém consegue explicar-me o que isto significa?

O bom selvagem

por José Meireles Graça, em 05.02.20

A primeira vez que fui a Lisboa teria uns 17 anos. Gostei da cidade: tinha zonas com dimensão e monumentalidade da capital de império que efectivamente era, tinha aqui e além bairros sossegados e melhor clima que a região chuvosa de onde sou natural. Porém, não tinha praticamente vida nocturna, era difícil comer fora de horas, a baixa, e de modo geral a cidade para construções antigas,  estava degradada. Os habitantes eram frequentemente cómicos, na imaginária superioridade que se atribuíam por causa do cosmopolitismo que julgavam ser uma inerência da capital do país mais africano e periférico da Europa, e da vida cultural que, então como agora, mas provavelmente menos, era pobreta, patega e dependente do Estado e da Gulbenkian.

Lisboa e o país mudaram muito, e desde 2014 muitíssimo, por causa da realidade nova do turismo. Por aquele ano o mundo pé-rapado que viaja descobriu que havia uma cidade, e um país, onde os terroristas não faziam atentados, não havia criminalidade que se visse, não se comia mal, era barato e acessível pelas low-cost que então explodiram, e ainda tinha meia dúzia de monumentos que se podiam visitar e os turistas verem-se uns aos outros, que é o propósito da maior parte deles. Portugal ficou na moda, em suma.

A cidade começou a renovar-se e nasceram como cogumelos hotéis, apartamentos, alojamentos locais, restaurantes e toda uma parafernália de equipamentos destinados a aliciar o turista e aliviá-lo dos seus quase sempre magros estipêndios de viagem.

O país ganhou – muito. Tanto que o governo do dia se enfeitou com o maná para o qual não contribuiu e cedo começou a onerá-lo com impostos, taxas e taxinhas, por causa da pecha socialista de espoliar o cidadão que mexe para comprar o voto do que está parado, baseado no cálculo simples e eficaz de que os primeiros são sempre menos numerosos do que os segundos.

Ganhou o país, ganham muitos directamente e outros indirectamente, mas a mudança criou problemas – no preço da habitação, por compra ou arrendamento, na descaracterização da cidade (acirrada aliás por uma gestão do licenciamento da construção pilotado por autarcas que não conseguem decidir ao certo se são moderninhos vale-tudo, conservacionistas, empreendedores de pacotilha, visionários ou simplesmente corruptos) e na densidade de tráfego.

Para a gestão municipal os lisboetas elegeram um demagogo autoritário e inepto. E para resolver este último problema a personagem em questão sacou das profundas da sua mentalidade neo-rousseauniana um projecto de regresso a uma cidade sem automóveis individuais onde se pode andar despreocupadamente, os senhores de tanga e as senhoras libertas de constrições a seus interessantes seios.

A medida é uma tolice, como se defende na petição que assinei, e que está aqui.

Surpreendentemente, tem defensores – não há asneira e abuso que os não tenha, constata-se melancolicamente. Diz um deles, Daniel Oliveira: “… 400 mil carros por dia, muitos deles com apenas um ocupante. Com os dos lisboetas, são 600 mil. Não cabem”.

Não? Cada carro ocupa aí uns 10 m2, portanto todos (dando como bons estes números) caberão em 600 estádios de futebol, ou seja, 600 hectares, quer dizer 6 quilómetros quadrados, portanto 6% da área ocupada por Lisboa.

Impressionante, não é? Nem por isso, se nos lembrarmos que a razão por que se veem carros por toda a parte é que há muitíssimo poucos parques e o aparcamento é permitido nas ruas, embora pagando em muitos casos, o que dificulta a circulação. As pessoas ocupam mais espaço do que o automóvel (ninguém vive em 10 m2, excepto se for sem-abrigo) mas, precisamente porque assim é, construiu-se em altura, e cabem todas, não obstante serem quase tantas como os automóveis (quinhentas e tal mil).

Não se fez a mesma coisa para os automóveis porque havia alternativa – parar ao relento. Agora que essa solução bate na parede (uma parte da descrição que faz o bom do Daniel Oliveira baseia-se em factos) seria urgente construir parques em altura. Coisa que não parece excessivamente difícil se o estacionamento nas ruas for proibido sempre que contenda seriamente com a fluidez do tráfego, o que garantiria rendimento aos empreendedores. Não se me venha com o pé-ré-pé-pé da descaracterização e da fealdade porque a boa arquitectura integra, parques em altura ou qualquer outra coisa, a má choca – e disto Lisboa não tem falta de exemplos.

Concordo com o argumento de não se poder sempre utilizar um bem público, como é o espaço, quando a utilização contende com os direitos dos outros. Mas precisamente por isso – ofensa de direitos – é que algumas das medidas previstas no tal Plano celerado são intoleráveis: então agora os moradores das zonas fatídicas só podem receber mais de dez pessoas por mês se estas vierem a pé ou nos meios de transporte que os poderes públicos não vetam? E as autoridades ficam a saber quem recebe quem, e quando, se as visitas vierem de automóvel?

“… os condutores lisboetas passam, em média, 42 minutos por dia presos em filas de trânsito. 160 horas por ano. Perdem uma semana de trabalho por ano à procura de estacionamento, o que contribui ainda mais para o congestionamento da cidade”.

Este exórdio destina-se a pintar como deseconómica a situação actual, e é uma cedência ao ar do tempo: qualquer medida, não importa quão estúpida, não interessa quão abusiva, é apresentada como tendo efeitos benéficos para a economia. Na cultura é igual: torram-se milhões a sustentar parasitas e patrocinar bens sem procura e apresentam-se estudos sofisticados a demonstrar que o bodo teve uns efeitos multiplicadores milagrosos.

Claro que há inúmeras coisas que se podem fazer para minimizar os inconvenientes da densidade automóvel, a menor das quais não é o investimento, que não se faz, na expansão e melhoria do metropolitano. E é seguro que não há uma solução universal para todas as zonas da cidade, nem tudo é possível em toda a parte, e cada zona requer uma mistura de soluções diferentes. Mas escolher uns moradores certos para neles dependurar o ónus da reconversão da cidade, com o propósito de os daniéis desta vida lá poderem flanar a gosto? Juízo: é que nem me dou ao trabalho de desmontar o resto do artigo, que seria gastar cera com ruim defunto.

“O futuro pelo qual os nossos filhos se manifestam não se fará sem derrubar a ditadura do carro.”

Não perguntei às minhas filhas, que de toda a maneira não são dadas a manifestações. Mas adivinho que acham que, no futuro, as ditaduras dos engenheiros sociais é que não haverão de querer.

Não quererão engenheiros sociais mas também dispensam lírios compagnons de route. É que já depois de escrito este post tropecei no artigo de João Miguel Tavares, um entusiasta da gestão socialista de Lisboa que acha que “os carros afastam; as ruas aproximam”. Bonita frase, sem dúvida – acontece muito às frases significando nada. Porque as tais quase 400.000 pessoas que se deslocam diariamente a Lisboa não vão ver as vistas; quem faz isso são os turistas e Tavares. Vão lá por necessidade e, como não são masoquistas, nem andam a nadar em dinheiro, iriam de outra forma que não o automóvel individual se tivessem alternativa satisfatória.

Alternativas satisfatórias dão trabalho, requerem tempo, imaginação, opções acertadas e respeito pelas pessoas, que tendem a saber o que lhes convém – excepto, ao que parece, nas escolhas políticas.

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A beleza das coisas simples

por Paulo Sousa, em 04.02.20

O nosso colega jpt já aqui postou sobre o maravilhoso salto em frente que Lisboa está a dar.

A beleza das coisas simples, que circula nas veias da máquina do estado, merece hoje e aqui um destaque especial. Veja-se como são belas as regras de acesso à Zona de Emissões Reduzidas Avenida.

"Os residentes poderão receber visitas?

Sim, mesmo que o próprio residente não tenha automóvel e desde que esteja registados no sistema. Mas atenção que o carro tem se ser posterior a 2000. Cada residente pode receber até um máximo de dez visitantes por mês. Terão de avisar previamente, indicando a matrícula do respectivo veículo, o que poderá acontecer através de uma app criada para o efeito ou por telefone. Para estacionar, é que só poderão fazê-lo num dos parques da zona. Por outro lado, os cuidadores de residentes também podem entrar (tem de ser requerida uma autorização prévia), mas só poderão estacionar nos parques de estacionamento."

Qualquer sílaba, ou mesmo vírgula, a mais criaria um desequilíbrio na métrica desta quase poesia.

Não fosse a app, que dá um ar modernaço e não emite carbono, podia ser uma tradução de um edital na RDA.

Jardim Lisboa

por jpt, em 02.02.20

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Jardim Lisboa: vamos ter uma cidade mais ecológica, mais ajardinada, mais bilhete-postal. Como contestar?

Leio que haverá ciclovia na Almirante Reis. Já vejo os lisboetas pedalando avenida acima, uns virando à Graça, outros do Areeiro descendo (e subindo) a Moscavide e por aí ... Acho muito bem. Muito saudável. Muito moderno. Muito Medina, digamos assim.

Entretanto: anteontem, sexta-feira, eram 19.57 quando entrei na estação de metro dos Anjos. 6 minutos para comprar bilhete, pois apenas duas máquinas e meia dúzia de pessoas na habitual atrapalhação de quem não as conhece. Depois 9 minutos para o comboio. Saí na Baixa-Chiado. Aguardei 7 minutos pelo comboio. Chegou, entrei. E aguardei que arrancasse. 2/3 minutos. Na estação seguinte idem, estancado. Na estação seguinte idem. Saí no Marquês. Esperei 7 minutos pelo comboio. Lá aportei ao Rato. Entrei no restaurante, passando já do "um quarto para as nove" e os amigos a protestarem, risonhos, com o meu atraso. Ansiosos por me verem? Ou, como eu, a resmungarem: a pé tinha(s) chegado mais depressa? Pois dos Anjos ao Rato de metro levei mais de três quartos de hora ...

Jardim Lisboa, como contestar o iluminismo do dr. Medina, a cidade-bilhete-postal? As ciclovias avenidas acima e abaixo? Os eixos pedonais? Os etc. e tal?

Lisboa e Porto

por Cristina Torrão, em 26.01.20

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Ontem, um canal regional alemão, pertencente ao 1.º canal público ARD, mostrou um pequeno programa sobre duas cidades portuguesas. A revista televisiva que costumo comprar, porém, fez uma imensa confusão entre as duas. Traduzindo o texto acima: «Lisboa conta-se entre as "boomtowns" turísticas na Europa. Mais de seis milhões de visitantes anuais - para apenas 500.000 habitantes. A reportagem guia-nos às grandes Praças do Rossio e do Comércio, ao lindíssimo bairro de Alfama e ao Mercado da Ribeira. Depois, segue para o Porto, na margem do Douro».

Presumo que os «500.000 habitantes» deviam pertencer ao Porto. E a legenda da imagem vai ainda mais longe: «Arquitectura imponente: a ponte Dom Luís I em Lisboa»!

Um texto destes é capaz de pôr os cabelos em pé de qualquer português. Para os mais radicais, aqueles que levam a um nível muito pessoal a rivalidade (que se quer saudável) entre as duas maiores cidades do nosso país, um texto destes pode ser mesmo caso para insultos aos responsáveis da revista.

Apesar de também criticar a falta de cuidado com que este pequeno texto foi escrito, aconselho um respirar fundo aos mais indignados. Afinal, se uma revista televisiva portuguesa fizesse uma confusão destas entre Berlim e Hamburgo, não nos merecia mais do que um encolher de ombros (quando muito... e só para quem estivesse em condições de detectar os erros). E eu, que vi o programa, garanto que não se misturaram as duas cidades. Foi uma pequena reportagem interessante, que é bem capaz de atrair ainda mais turistas ao nosso país. Se isso é bom, ou mau, fica ao critério de cada um.

Lisboa: há coisas que não mudam

por Pedro Correia, em 30.12.19

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Jardim do Campo Grande, 28 de Dezembro de 2019

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A história é simples: a Câmara de Lisboa decidiu instalar a EMEL na freguesia de Olivais. Escolhendo um modelo todo desatento às características urbanísticas (espaciais e sociológicas) do "bairro". A presidente da Junta (PS) desde há anos garantira que sob sua presidência a EMEL nunca seria instalada, e disso também fez argumento de campanha eleitoral. Tudo isso foi varrido, e aí já está o processo de instalação do parqueamento pago. Com efeitos brutais na mobilidade/sociabilidade dos habitantes de tão peculiar freguesia. Para se justificar diz a presidente Rute Lima (entretanto candidata à AR por Lisboa) que os opositores à EMEL são "comunistas", e assim segue ufana no desdizer-se.
 
Não se trata apenas da rapina económica (impostos e taxas) estatal. Nem só do alijar das responsabilidades camarárias na situação automóvel - nas últimas três décadas a construção imobiliária, de estações de metro, e o crescimento do aeroporto, nunca foram conjugados com o do estacionamento (parques ou silos).
 
É pior ainda: pois as instâncias camarárias foram forçadas a aprovar a realização de um referendo aos fregueses para decisão sobre a instalação da EMEL. E estão a protelar a sua realização enquanto vão instalando o parqueamento pago. Ou seja, não é pura irresponsabilidade camarária, não é pura demagogia dos políticos. É mesmo violação dos procedimentos legais democráticos. O partido do poder, no centro de Lisboa, a comportar-se assim. E o (empobrecido) cidadão que pague, cada vez mais. Sem qualquer racionalidade, sem considerações do impacto social destas medidas punitivas, sem procurar desenhar modalidades menos agressivas.
 
Hoje, sexta-feira, depois do horário de trabalho, às 19 horas, é de ir até ali à Encarnação/Olivais Norte, diante da sede da Junta. Para exigir a realização do referendo. E depois que a população freguesa diga do seu entender: se sim, se não, e como. Mas, acima de tudo, para recusar que o poder político continue a tentar fintar o povo. Demagogicamente.
 
Por isso clamo: "De pé, ó vítimas da fome"! E lá estarei, ombreando com o "sal da terra". Contra esta gente.

Postais de Lisboa (16)

por Pedro Correia, em 23.08.19

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No interior da sede do Bloco de Esquerda, na Rua da Palma 

(foto minha, ontem à tarde)

O Demónio e Mr. Prim

por Maria Dulce Fernandes, em 22.08.19

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Quase todos os meses de Abril, de há alguns anos a esta parte, saímos para recarregar baterias, coisa que toda a gente que trabalha muito, tem gatos, filhos e netos, deveria fazer para manter a sanidade mental. Desligar... não totalmente... só um bocadinho, mas desligar sim, e recuperar a vida a dois, nem que seja por apenas três ou quatro dias.

Há três anos, calhou escolhermos a República Checa. Calhou também decidirmos fazer uma caminhada de cerca de 30 km pelo Bohemian Saxon Switzerland National Park.

Partimos de Lisboa com tudo organizado ao pormenor e fomos informados na véspera do passeio que Mr. Prim, o melhor guia para aquele tour em particular, nos iria buscar ao hotel às 8:00h.
Fantástico! Estávamos realmente expectantes.
Aconteceu como previsto. Durante a viagem de automóvel demo-nos a conhecer e ficámos a conhecer Mr. Prim na medida do possível.

Escusado será dizer que a meio do caminho para Pravčická Brána tive que fazer uma pausa para me reunir com as minhas pernas, que tinham entretanto resolvido entrar em greve devido a exigências não regulamentadas na ACT.
Após as promessas da praxe, chegámos a acordo, para o que muito contribuiu a chegada ao Falcons Nest, com descanso e um bom almoço a acompanhar.

Como não podia deixar de ser, convidámos Mr. Prim para nos fazer companhia.
A meio da refeição, dei a volta à conversa e em vez de fazer as habituais perguntas sobre a República Checa, resolvi perguntar o que sabia Mr. Prim sobre Portugal.

Mr. Prim, que já tinha estado em Lisboa há cerca de cinco anos, não gostou. A cidade era feia, suja e sentia sinceramente pelos portugueses, porque viviam em condições de extrema pobreza…
É certo que as notícias sobre o País não têm sido fabulosas, mas seguramente Portugal tem uma qualidade de vida superior à da República Checa, retorqui. Sorriu condescendente e respondeu que lá (na Rep. Checa) não viviam em casas de madeira sem saneamento básico (!!).

Não pude deixar de rir, mas rir mesmo. Onde, pelo amor da santa, terá o Mr. Prim ficado hospedado e por que caminhos terá andado para se deparar com aquela dantesca realidade?
Não consegui saber muitos pormenores. Acredito que a visita de Mr. Prim fosse coisa tipo relâmpago, pois pouco ou nada sabia de Lisboa, para além da anunciada pobreza e más condições sanitárias. Que o hotel não ficava longe do rio e passava pelas tais "barracas" para chegar à margem.

Quem me conhece minimamente sabe que quando acredito que tenho razão não me calo, e o pobre Mr. Prim passou mais de 10km, até às Edmund Gorges, a ouvir sobre a minha terra e a história das pseudo-casas de madeira.
Castigou-me com a descida mais íngreme e escorregadia da minha vida, mas apesar de ter uma preparação física a anos-luz da nossa, garanto que acabou mais cansado, tal não foi a injecção sobre Lisboa que lhe ministrei.

Mas por muito que tentasse, foi impossível contornar aquela impressão negativa de uma cidade salobra e escura que Mr. Prim tinha gravada nos recônditos do seu disco rígido.

O meu passeio ao Parque foi estupendo. Aconselho vivamente.

Lamento apenas que o nosso País, tão bonito, tão brilhante, N vezes ao quadrado mais simpático do que a República Checa, seja tão erroneamente interpretado.
Estes turistas que nos chegam, em Fam Trips, vêm tantas vezes "comprar" o destino para o poder incluir nos seus pacotes de tours.

Chegados cá, a que demónio será entregue a organização da sua estadia? Não acredito que o Turismo de Lisboa, que normalmente dá a conhecer a nossa capital com tanta clareza e desvelo, tenha transformado mais uma oportunidade de "vender" Lisboa num passeio à timberland...

Postais de Lisboa (15)

por Pedro Correia, em 08.08.19

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Varanda da sede do Partido Socialista, no Largo do Rato

(foto minha, tirada esta tarde)

Sotaques

por Maria Dulce Fernandes, em 07.08.19

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Não sou fã de abrir links, principalmente se desconheço a sua proveniência. Podem ter sido enviados por um amigo confiável e bem intencionado e mesmo assim estarem carregados de bicho, que a curto ou longo prazo seguramente me irão dar água pela barba, ou pelo buço, mais apropriado no meu caso específico.
Ontem recebi um link do Vortexmag e abri. Gosto de ler curiosidades e achei esta publicação bastante interessante, do meu ponto de vista alfacinha: trata do sotaque lisboeta.
Não pude deixar de sorrir e constatar a veracidade do texto. Não sei se lhe chamaria sotaque, se evolução da língua, consequência da lei do menor esforço, se calão, mas na verdade temos esta tendência de criar sonoridades homófonas que de algum modo nos facilitam a comunicação .
Fica o link e a pergunta: teremos nós, os alfacinhas ditadores de tendências, um sotaque lisboeta?

Sotaque

Imagem Vortexmag

Assim se gere a coisa pública

por Pedro Correia, em 03.07.19

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Metro de Arroios, encerrado há dois anos

 

Faz agora dois anos, a 19 de Julho, que a estação de metropolitano de Arroios - numa das zonas mais movimentadas de Lisboa - fechou para obras de "remodelação e beneficiação". Um encerramento destinado, no essencial, a alargar a plataforma da estação para que pudesse receber mais carruagens.

Estas obras, especificou na altura o loquaz ministro do Ambiente, iriam durar 18 meses. Um prazo que parecia razoável, embora certamente demasiado longo para os utentes habituais daquela estação, com destaque para quem mora ou trabalha em Arroios. E, sobretudo, para os comerciantes ali estabelecidos.

Aproveitou-se a ocasião para a habitual sessão de propaganda, enfeitada com estatísticas futuras: «O alargamento do comboio deverá permitir um aumento de 37% dos lugares disponíveis por hora, 128% no corpo do dia e 49% na hora de ponta à tarde.»

 

Passaram os 18 meses, em Janeiro de 2019 - a promessa, como tantas outras, deu em nada. Nessa data, faltaria concluir 80% da obra. «Só para montar o estaleiro» a empreitada demorou «quatro ou cinco meses», como denunciou um deputado municipal comunista. Em Fevereiro foi lançado um novo concurso, face ao incumprimento do primeiro contrato, e anuncia-se agora que a estação não reabrirá antes de 2021. Com o consequente aumento da despesa para os contribuintes: curiosa noção de "serviço público". E de manifesto empobrecimento do comércio privado: até Maio de 2018, pelo menos dez estabelecimentos tinham ali encerrado as portas.

O loquaz ministro não se tem pronunciado sobre o tema. O presidente da Câmara de Lisboa limita-se a sacudir responsabilidades: «Esta é uma obra de uma empresa que é gerida pelo Estado, não pela câmara. Não posso mais do que partilhar o meu lamento quanto ao atraso.»

É o mínimo que Fernando Medina pode fazer, quando se demora quatro anos para remodelar só uma estação de metro. E já que proclama a intenção de proporcionar uma «verdadeira alternativa de mobilidade, assente na disponibilidade do transporte público» na capital, onde entram 370 mil veículos por dia. Como será isso possível, com uma oferta tão medíocre e limitada?

 

Felizmente para o Governo, passou a moda dos buzinões, das "marchas lentas" e dos cordões humanos: o ministro do Ambiente e o primeiro-ministro (que já foi presidente da Câmara de Lisboa) podem, portanto, dormir descansados. 

Blogue da semana

por Pedro Correia, em 22.06.19

Eis o que chamo serviço público: o blogue Toponímia de Lisboa. Há quase sete anos a narrar-nos histórias relacionadas com as ruas, avenidas, praças, travessas e becos da nossa capital.

Elejo-o como blogue da semana.

Castelos no ar

por Maria Dulce Fernandes, em 18.06.19

 As Minhas Casinhas*

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É muito vaga a minha recordação da Casa Onde Nasci, mas tenho a certeza que ali morei durante muitos meses a partir do momento em que respirei pela primeira vez, fora do ventre da minha mãe.  

Sei que era uma casinha alegre e mimosa, um T1, pelos padrões de hoje, género de aconchego onde noivos vão noivar. Tinha flores coloridas nos parapeitos das janelas e muito sol incrustado nos umbrais. 

Não me traz recordações. Lembro- me de ir lá com a minha mãe ver a “Avó Augusta", a senhoria, que me levou a ver onde nasci e, melhor ainda, ofereceu-me um cartuchinho de papel cheio de rebuçados de alteia e mel com o carimbo do confeiteiro. Desses lembro-me bem. 

A Casa da Avó era antiga, de tectos altos e soalho esfregado. Havia o quarto escuro da Avó Júlia onde sobressaíam os verdejantes números e ponteiros de grande despertador com duas campainhasA cozinha era enorme, com imensas talhas de barro que lembravam sarcófagos e uma walk-in chaminé, por onde o Avô Américo fazia subir no Natal, por artes lá muito dele, um boneco que eu acreditei durante muito tempo ser o Menino Jesus. As escadinhas para o sótão, onde o sol brincalhão bailava por entre as telhas, eram um mundo encantado de mistério e um caleidoscópio de cor. Encravada entre a Memória e o Restelo numa zona de quintas, compõe o quadro mais vivo das minhas lembranças.  

Não me recordo de outro local onde, em toda a minha vida, fosse tão amada e tão feliz. 

Já a “Casa Velha" no número 21 da mesma rua onde moravam os meus avós e onde a minha mãe nasceutinha paredes grossas e pouca luz, um denso ninho de pássaros, tal qual o número 5 de Pollock, era como o quadro plena de texturarebuliço e contrastes. 

Foi ali que tive a primeira televisão e o primeiro irmão. Ambas ocasiões marcantes nos meus tenros 4 anos. Apesar de gostar mais da televisão e adorar a mira técnica e o Mascarilha, tenho que admitir que o meu irmão era um bebé encantador. Primeiro da sua espécie numa longa linhagem de fêmeas, fez as delícias da mãe, do pai e do avô, era o ai jesus de todas as anciãs genitoras, mas sem nunca ter chegado a atingir a entronização que me pertencia  

Numa época em que se criava um mundo com paus, pedras, folhas, papéis e terra, o meu irmão descobriu uma pequena fresta entre duas tábuas do soalho e pedia tostões para lá meter à laia de mealheiro. Nunca entendi bem qual a sensação de realização infantil em ver desaparecer dinheiro, tampouco porque é que tanta gente lho dava e achava aquilo o máximo. 

Pelos meus 6 anos mudámos para a “Casa Nova", um terceiro andar acabadinho de estrear no número 37 da mesma rua. Tinha - e tem ainda - uma das mais belas vistas sobre o Tejo, como um fantástico postal, da Ponte à Torre de Belém.  

A minha vista daquela varanda transbordou de confidências de estudante de primeira classe, irmã pela segunda vez, estudante de preparatória, de liceu, de faculdade, criança, menina, namorada, mulher, esposa e mãe. 

Casei cedo. A Casa do Cacém, comprada em 1980, num local com um ribeiro junto ao qual pastavam cabrinhas, tinha arvores frondosas e muito sossego, um verdadeiro cenário idílico para se criar um filho. Os fantásticos primeiros dois anos enovelaram-se num pesadelo de trânsito sufocado num inferno de betão. Foram 19 anos de muita luta. Era a minha casa. Foi lá que criei as filhas. Nunca foi mau, mas não me deixou saudades. Trocar Belém e Tejo por uma selva de pedra, claustrofóbica e poluída foi necessário, mas nunca definitivo. 

A Casa de Alfragide, actualmente, é o meu castelo no ar. Não tem prédios que enclausurem o olhar  que se perde até ao horizonte, no mar. Vê-se céu até fartar e pores do sol de arrepiar. À noite, lua e estrelas acenam para me saudar. Ao longe tem mil luzes a brilhar. Dá-me paz. Deixa-me respirar. 

Casei uma filha, tenho outra quase a casar. Tenho uma neta, e um neto quase a chegar. Dois gatos e salas imensas, prenhes de céu, serra e mar. Se será o meu derradeiro ninho, não sei, mas não anseio mudar. É o aconchego perfeito para poder descansar.  

 

*Repto deixado pelo Pedro Correia para escrevermos sobre as casas da nossa vida

Postais da Feira (3)

por Pedro Correia, em 15.06.19

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A Feira do Livro encerra amanhã em Lisboa. Este ano fui lá quatro vezes, cumprindo um ritual antigo que renovo sempre com gosto. Pela atmosfera aprazível, pelo convívio, pelo passeio ao ar livre, pelas pechinchas (Evelyn Waugh e Martin Amis a dois euros o exemplar, caramba), pelas boas surpresas (Jorge Silva Melo a recitar Sophia, Jeffrey Archer a conceder-me um jovial autógrafo, o Joel Neto a lembrar-se de que ainda me deve um texto para o DELITO), pela sensação cíclica de regresso à adolescência, com quase tudo muito diferente mas algumas coisas espantosamente iguais (o pavilhão da Minerva, por exemplo).

Venho também pelo panorama. Soberbo, magnífico, incomparável. Uma das paisagens da minha vida. Nunca me canso de observar esta vista de Lisboa, com o Tejo azul lá ao fundo e a Outra Banda em vigília perpétua ao rio que nunca deixou de fascinar poetas, pintores e músicos. 

Houve uma época em que quiseram tirar daqui a Feira. Porque há dias com chuva, porque o vento às vezes é incómodo, porque há quem se canse de subir a ladeira, porque «não dá jeito» ir ao Parque. Pretendiam instalá-la num recinto qualquer, à porta fechada, sem ar livre nem luz solar. Ainda bem que o dislate não foi avante. Ainda bem que a cada mês de Junho regressamos ao local que no tempo de Eça de Queiroz se chamava Vale de Pereiro e era composto de terras de semeadura, quintas e olivais. 

«Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem pálida e rara. E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato – que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo com o fôlego curto, entre montes de cascalho», anota o grande escritor na sua obra-prima, Os Maias.

Se ainda por cá andasse, nestes incomparáveis dias da festa do livro, aposto que ele gostaria tanto de percorrer as alamedas do Parque como qualquer de nós.


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