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O bom selvagem

por José Meireles Graça, em 05.02.20

A primeira vez que fui a Lisboa teria uns 17 anos. Gostei da cidade: tinha zonas com dimensão e monumentalidade da capital de império que efectivamente era, tinha aqui e além bairros sossegados e melhor clima que a região chuvosa de onde sou natural. Porém, não tinha praticamente vida nocturna, era difícil comer fora de horas, a baixa, e de modo geral a cidade para construções antigas,  estava degradada. Os habitantes eram frequentemente cómicos, na imaginária superioridade que se atribuíam por causa do cosmopolitismo que julgavam ser uma inerência da capital do país mais africano e periférico da Europa, e da vida cultural que, então como agora, mas provavelmente menos, era pobreta, patega e dependente do Estado e da Gulbenkian.

Lisboa e o país mudaram muito, e desde 2014 muitíssimo, por causa da realidade nova do turismo. Por aquele ano o mundo pé-rapado que viaja descobriu que havia uma cidade, e um país, onde os terroristas não faziam atentados, não havia criminalidade que se visse, não se comia mal, era barato e acessível pelas low-cost que então explodiram, e ainda tinha meia dúzia de monumentos que se podiam visitar e os turistas verem-se uns aos outros, que é o propósito da maior parte deles. Portugal ficou na moda, em suma.

A cidade começou a renovar-se e nasceram como cogumelos hotéis, apartamentos, alojamentos locais, restaurantes e toda uma parafernália de equipamentos destinados a aliciar o turista e aliviá-lo dos seus quase sempre magros estipêndios de viagem.

O país ganhou – muito. Tanto que o governo do dia se enfeitou com o maná para o qual não contribuiu e cedo começou a onerá-lo com impostos, taxas e taxinhas, por causa da pecha socialista de espoliar o cidadão que mexe para comprar o voto do que está parado, baseado no cálculo simples e eficaz de que os primeiros são sempre menos numerosos do que os segundos.

Ganhou o país, ganham muitos directamente e outros indirectamente, mas a mudança criou problemas – no preço da habitação, por compra ou arrendamento, na descaracterização da cidade (acirrada aliás por uma gestão do licenciamento da construção pilotado por autarcas que não conseguem decidir ao certo se são moderninhos vale-tudo, conservacionistas, empreendedores de pacotilha, visionários ou simplesmente corruptos) e na densidade de tráfego.

Para a gestão municipal os lisboetas elegeram um demagogo autoritário e inepto. E para resolver este último problema a personagem em questão sacou das profundas da sua mentalidade neo-rousseauniana um projecto de regresso a uma cidade sem automóveis individuais onde se pode andar despreocupadamente, os senhores de tanga e as senhoras libertas de constrições a seus interessantes seios.

A medida é uma tolice, como se defende na petição que assinei, e que está aqui.

Surpreendentemente, tem defensores – não há asneira e abuso que os não tenha, constata-se melancolicamente. Diz um deles, Daniel Oliveira: “… 400 mil carros por dia, muitos deles com apenas um ocupante. Com os dos lisboetas, são 600 mil. Não cabem”.

Não? Cada carro ocupa aí uns 10 m2, portanto todos (dando como bons estes números) caberão em 600 estádios de futebol, ou seja, 600 hectares, quer dizer 6 quilómetros quadrados, portanto 6% da área ocupada por Lisboa.

Impressionante, não é? Nem por isso, se nos lembrarmos que a razão por que se veem carros por toda a parte é que há muitíssimo poucos parques e o aparcamento é permitido nas ruas, embora pagando em muitos casos, o que dificulta a circulação. As pessoas ocupam mais espaço do que o automóvel (ninguém vive em 10 m2, excepto se for sem-abrigo) mas, precisamente porque assim é, construiu-se em altura, e cabem todas, não obstante serem quase tantas como os automóveis (quinhentas e tal mil).

Não se fez a mesma coisa para os automóveis porque havia alternativa – parar ao relento. Agora que essa solução bate na parede (uma parte da descrição que faz o bom do Daniel Oliveira baseia-se em factos) seria urgente construir parques em altura. Coisa que não parece excessivamente difícil se o estacionamento nas ruas for proibido sempre que contenda seriamente com a fluidez do tráfego, o que garantiria rendimento aos empreendedores. Não se me venha com o pé-ré-pé-pé da descaracterização e da fealdade porque a boa arquitectura integra, parques em altura ou qualquer outra coisa, a má choca – e disto Lisboa não tem falta de exemplos.

Concordo com o argumento de não se poder sempre utilizar um bem público, como é o espaço, quando a utilização contende com os direitos dos outros. Mas precisamente por isso – ofensa de direitos – é que algumas das medidas previstas no tal Plano celerado são intoleráveis: então agora os moradores das zonas fatídicas só podem receber mais de dez pessoas por mês se estas vierem a pé ou nos meios de transporte que os poderes públicos não vetam? E as autoridades ficam a saber quem recebe quem, e quando, se as visitas vierem de automóvel?

“… os condutores lisboetas passam, em média, 42 minutos por dia presos em filas de trânsito. 160 horas por ano. Perdem uma semana de trabalho por ano à procura de estacionamento, o que contribui ainda mais para o congestionamento da cidade”.

Este exórdio destina-se a pintar como deseconómica a situação actual, e é uma cedência ao ar do tempo: qualquer medida, não importa quão estúpida, não interessa quão abusiva, é apresentada como tendo efeitos benéficos para a economia. Na cultura é igual: torram-se milhões a sustentar parasitas e patrocinar bens sem procura e apresentam-se estudos sofisticados a demonstrar que o bodo teve uns efeitos multiplicadores milagrosos.

Claro que há inúmeras coisas que se podem fazer para minimizar os inconvenientes da densidade automóvel, a menor das quais não é o investimento, que não se faz, na expansão e melhoria do metropolitano. E é seguro que não há uma solução universal para todas as zonas da cidade, nem tudo é possível em toda a parte, e cada zona requer uma mistura de soluções diferentes. Mas escolher uns moradores certos para neles dependurar o ónus da reconversão da cidade, com o propósito de os daniéis desta vida lá poderem flanar a gosto? Juízo: é que nem me dou ao trabalho de desmontar o resto do artigo, que seria gastar cera com ruim defunto.

“O futuro pelo qual os nossos filhos se manifestam não se fará sem derrubar a ditadura do carro.”

Não perguntei às minhas filhas, que de toda a maneira não são dadas a manifestações. Mas adivinho que acham que, no futuro, as ditaduras dos engenheiros sociais é que não haverão de querer.

Não quererão engenheiros sociais mas também dispensam lírios compagnons de route. É que já depois de escrito este post tropecei no artigo de João Miguel Tavares, um entusiasta da gestão socialista de Lisboa que acha que “os carros afastam; as ruas aproximam”. Bonita frase, sem dúvida – acontece muito às frases significando nada. Porque as tais quase 400.000 pessoas que se deslocam diariamente a Lisboa não vão ver as vistas; quem faz isso são os turistas e Tavares. Vão lá por necessidade e, como não são masoquistas, nem andam a nadar em dinheiro, iriam de outra forma que não o automóvel individual se tivessem alternativa satisfatória.

Alternativas satisfatórias dão trabalho, requerem tempo, imaginação, opções acertadas e respeito pelas pessoas, que tendem a saber o que lhes convém – excepto, ao que parece, nas escolhas políticas.

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A beleza das coisas simples

por Paulo Sousa, em 04.02.20

O nosso colega jpt já aqui postou sobre o maravilhoso salto em frente que Lisboa está a dar.

A beleza das coisas simples, que circula nas veias da máquina do estado, merece hoje e aqui um destaque especial. Veja-se como são belas as regras de acesso à Zona de Emissões Reduzidas Avenida.

"Os residentes poderão receber visitas?

Sim, mesmo que o próprio residente não tenha automóvel e desde que esteja registados no sistema. Mas atenção que o carro tem se ser posterior a 2000. Cada residente pode receber até um máximo de dez visitantes por mês. Terão de avisar previamente, indicando a matrícula do respectivo veículo, o que poderá acontecer através de uma app criada para o efeito ou por telefone. Para estacionar, é que só poderão fazê-lo num dos parques da zona. Por outro lado, os cuidadores de residentes também podem entrar (tem de ser requerida uma autorização prévia), mas só poderão estacionar nos parques de estacionamento."

Qualquer sílaba, ou mesmo vírgula, a mais criaria um desequilíbrio na métrica desta quase poesia.

Não fosse a app, que dá um ar modernaço e não emite carbono, podia ser uma tradução de um edital na RDA.

Jardim Lisboa

por jpt, em 02.02.20

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Jardim Lisboa: vamos ter uma cidade mais ecológica, mais ajardinada, mais bilhete-postal. Como contestar?

Leio que haverá ciclovia na Almirante Reis. Já vejo os lisboetas pedalando avenida acima, uns virando à Graça, outros do Areeiro descendo (e subindo) a Moscavide e por aí ... Acho muito bem. Muito saudável. Muito moderno. Muito Medina, digamos assim.

Entretanto: anteontem, sexta-feira, eram 19.57 quando entrei na estação de metro dos Anjos. 6 minutos para comprar bilhete, pois apenas duas máquinas e meia dúzia de pessoas na habitual atrapalhação de quem não as conhece. Depois 9 minutos para o comboio. Saí na Baixa-Chiado. Aguardei 7 minutos pelo comboio. Chegou, entrei. E aguardei que arrancasse. 2/3 minutos. Na estação seguinte idem, estancado. Na estação seguinte idem. Saí no Marquês. Esperei 7 minutos pelo comboio. Lá aportei ao Rato. Entrei no restaurante, passando já do "um quarto para as nove" e os amigos a protestarem, risonhos, com o meu atraso. Ansiosos por me verem? Ou, como eu, a resmungarem: a pé tinha(s) chegado mais depressa? Pois dos Anjos ao Rato de metro levei mais de três quartos de hora ...

Jardim Lisboa, como contestar o iluminismo do dr. Medina, a cidade-bilhete-postal? As ciclovias avenidas acima e abaixo? Os eixos pedonais? Os etc. e tal?

Lisboa e Porto

por Cristina Torrão, em 26.01.20

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Ontem, um canal regional alemão, pertencente ao 1.º canal público ARD, mostrou um pequeno programa sobre duas cidades portuguesas. A revista televisiva que costumo comprar, porém, fez uma imensa confusão entre as duas. Traduzindo o texto acima: «Lisboa conta-se entre as "boomtowns" turísticas na Europa. Mais de seis milhões de visitantes anuais - para apenas 500.000 habitantes. A reportagem guia-nos às grandes Praças do Rossio e do Comércio, ao lindíssimo bairro de Alfama e ao Mercado da Ribeira. Depois, segue para o Porto, na margem do Douro».

Presumo que os «500.000 habitantes» deviam pertencer ao Porto. E a legenda da imagem vai ainda mais longe: «Arquitectura imponente: a ponte Dom Luís I em Lisboa»!

Um texto destes é capaz de pôr os cabelos em pé de qualquer português. Para os mais radicais, aqueles que levam a um nível muito pessoal a rivalidade (que se quer saudável) entre as duas maiores cidades do nosso país, um texto destes pode ser mesmo caso para insultos aos responsáveis da revista.

Apesar de também criticar a falta de cuidado com que este pequeno texto foi escrito, aconselho um respirar fundo aos mais indignados. Afinal, se uma revista televisiva portuguesa fizesse uma confusão destas entre Berlim e Hamburgo, não nos merecia mais do que um encolher de ombros (quando muito... e só para quem estivesse em condições de detectar os erros). E eu, que vi o programa, garanto que não se misturaram as duas cidades. Foi uma pequena reportagem interessante, que é bem capaz de atrair ainda mais turistas ao nosso país. Se isso é bom, ou mau, fica ao critério de cada um.

Lisboa: há coisas que não mudam

por Pedro Correia, em 30.12.19

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Jardim do Campo Grande, 28 de Dezembro de 2019

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A história é simples: a Câmara de Lisboa decidiu instalar a EMEL na freguesia de Olivais. Escolhendo um modelo todo desatento às características urbanísticas (espaciais e sociológicas) do "bairro". A presidente da Junta (PS) desde há anos garantira que sob sua presidência a EMEL nunca seria instalada, e disso também fez argumento de campanha eleitoral. Tudo isso foi varrido, e aí já está o processo de instalação do parqueamento pago. Com efeitos brutais na mobilidade/sociabilidade dos habitantes de tão peculiar freguesia. Para se justificar diz a presidente Rute Lima (entretanto candidata à AR por Lisboa) que os opositores à EMEL são "comunistas", e assim segue ufana no desdizer-se.
 
Não se trata apenas da rapina económica (impostos e taxas) estatal. Nem só do alijar das responsabilidades camarárias na situação automóvel - nas últimas três décadas a construção imobiliária, de estações de metro, e o crescimento do aeroporto, nunca foram conjugados com o do estacionamento (parques ou silos).
 
É pior ainda: pois as instâncias camarárias foram forçadas a aprovar a realização de um referendo aos fregueses para decisão sobre a instalação da EMEL. E estão a protelar a sua realização enquanto vão instalando o parqueamento pago. Ou seja, não é pura irresponsabilidade camarária, não é pura demagogia dos políticos. É mesmo violação dos procedimentos legais democráticos. O partido do poder, no centro de Lisboa, a comportar-se assim. E o (empobrecido) cidadão que pague, cada vez mais. Sem qualquer racionalidade, sem considerações do impacto social destas medidas punitivas, sem procurar desenhar modalidades menos agressivas.
 
Hoje, sexta-feira, depois do horário de trabalho, às 19 horas, é de ir até ali à Encarnação/Olivais Norte, diante da sede da Junta. Para exigir a realização do referendo. E depois que a população freguesa diga do seu entender: se sim, se não, e como. Mas, acima de tudo, para recusar que o poder político continue a tentar fintar o povo. Demagogicamente.
 
Por isso clamo: "De pé, ó vítimas da fome"! E lá estarei, ombreando com o "sal da terra". Contra esta gente.

Postais de Lisboa (16)

por Pedro Correia, em 23.08.19

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No interior da sede do Bloco de Esquerda, na Rua da Palma 

(foto minha, ontem à tarde)

O Demónio e Mr. Prim

por Maria Dulce Fernandes, em 22.08.19

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Quase todos os meses de Abril, de há alguns anos a esta parte, saímos para recarregar baterias, coisa que toda a gente que trabalha muito, tem gatos, filhos e netos, deveria fazer para manter a sanidade mental. Desligar... não totalmente... só um bocadinho, mas desligar sim, e recuperar a vida a dois, nem que seja por apenas três ou quatro dias.

Há três anos, calhou escolhermos a República Checa. Calhou também decidirmos fazer uma caminhada de cerca de 30 km pelo Bohemian Saxon Switzerland National Park.

Partimos de Lisboa com tudo organizado ao pormenor e fomos informados na véspera do passeio que Mr. Prim, o melhor guia para aquele tour em particular, nos iria buscar ao hotel às 8:00h.
Fantástico! Estávamos realmente expectantes.
Aconteceu como previsto. Durante a viagem de automóvel demo-nos a conhecer e ficámos a conhecer Mr. Prim na medida do possível.

Escusado será dizer que a meio do caminho para Pravčická Brána tive que fazer uma pausa para me reunir com as minhas pernas, que tinham entretanto resolvido entrar em greve devido a exigências não regulamentadas na ACT.
Após as promessas da praxe, chegámos a acordo, para o que muito contribuiu a chegada ao Falcons Nest, com descanso e um bom almoço a acompanhar.

Como não podia deixar de ser, convidámos Mr. Prim para nos fazer companhia.
A meio da refeição, dei a volta à conversa e em vez de fazer as habituais perguntas sobre a República Checa, resolvi perguntar o que sabia Mr. Prim sobre Portugal.

Mr. Prim, que já tinha estado em Lisboa há cerca de cinco anos, não gostou. A cidade era feia, suja e sentia sinceramente pelos portugueses, porque viviam em condições de extrema pobreza…
É certo que as notícias sobre o País não têm sido fabulosas, mas seguramente Portugal tem uma qualidade de vida superior à da República Checa, retorqui. Sorriu condescendente e respondeu que lá (na Rep. Checa) não viviam em casas de madeira sem saneamento básico (!!).

Não pude deixar de rir, mas rir mesmo. Onde, pelo amor da santa, terá o Mr. Prim ficado hospedado e por que caminhos terá andado para se deparar com aquela dantesca realidade?
Não consegui saber muitos pormenores. Acredito que a visita de Mr. Prim fosse coisa tipo relâmpago, pois pouco ou nada sabia de Lisboa, para além da anunciada pobreza e más condições sanitárias. Que o hotel não ficava longe do rio e passava pelas tais "barracas" para chegar à margem.

Quem me conhece minimamente sabe que quando acredito que tenho razão não me calo, e o pobre Mr. Prim passou mais de 10km, até às Edmund Gorges, a ouvir sobre a minha terra e a história das pseudo-casas de madeira.
Castigou-me com a descida mais íngreme e escorregadia da minha vida, mas apesar de ter uma preparação física a anos-luz da nossa, garanto que acabou mais cansado, tal não foi a injecção sobre Lisboa que lhe ministrei.

Mas por muito que tentasse, foi impossível contornar aquela impressão negativa de uma cidade salobra e escura que Mr. Prim tinha gravada nos recônditos do seu disco rígido.

O meu passeio ao Parque foi estupendo. Aconselho vivamente.

Lamento apenas que o nosso País, tão bonito, tão brilhante, N vezes ao quadrado mais simpático do que a República Checa, seja tão erroneamente interpretado.
Estes turistas que nos chegam, em Fam Trips, vêm tantas vezes "comprar" o destino para o poder incluir nos seus pacotes de tours.

Chegados cá, a que demónio será entregue a organização da sua estadia? Não acredito que o Turismo de Lisboa, que normalmente dá a conhecer a nossa capital com tanta clareza e desvelo, tenha transformado mais uma oportunidade de "vender" Lisboa num passeio à timberland...

Postais de Lisboa (15)

por Pedro Correia, em 08.08.19

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Varanda da sede do Partido Socialista, no Largo do Rato

(foto minha, tirada esta tarde)

Sotaques

por Maria Dulce Fernandes, em 07.08.19

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Não sou fã de abrir links, principalmente se desconheço a sua proveniência. Podem ter sido enviados por um amigo confiável e bem intencionado e mesmo assim estarem carregados de bicho, que a curto ou longo prazo seguramente me irão dar água pela barba, ou pelo buço, mais apropriado no meu caso específico.
Ontem recebi um link do Vortexmag e abri. Gosto de ler curiosidades e achei esta publicação bastante interessante, do meu ponto de vista alfacinha: trata do sotaque lisboeta.
Não pude deixar de sorrir e constatar a veracidade do texto. Não sei se lhe chamaria sotaque, se evolução da língua, consequência da lei do menor esforço, se calão, mas na verdade temos esta tendência de criar sonoridades homófonas que de algum modo nos facilitam a comunicação .
Fica o link e a pergunta: teremos nós, os alfacinhas ditadores de tendências, um sotaque lisboeta?

Sotaque

Imagem Vortexmag

Assim se gere a coisa pública

por Pedro Correia, em 03.07.19

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Metro de Arroios, encerrado há dois anos

 

Faz agora dois anos, a 19 de Julho, que a estação de metropolitano de Arroios - numa das zonas mais movimentadas de Lisboa - fechou para obras de "remodelação e beneficiação". Um encerramento destinado, no essencial, a alargar a plataforma da estação para que pudesse receber mais carruagens.

Estas obras, especificou na altura o loquaz ministro do Ambiente, iriam durar 18 meses. Um prazo que parecia razoável, embora certamente demasiado longo para os utentes habituais daquela estação, com destaque para quem mora ou trabalha em Arroios. E, sobretudo, para os comerciantes ali estabelecidos.

Aproveitou-se a ocasião para a habitual sessão de propaganda, enfeitada com estatísticas futuras: «O alargamento do comboio deverá permitir um aumento de 37% dos lugares disponíveis por hora, 128% no corpo do dia e 49% na hora de ponta à tarde.»

 

Passaram os 18 meses, em Janeiro de 2019 - a promessa, como tantas outras, deu em nada. Nessa data, faltaria concluir 80% da obra. «Só para montar o estaleiro» a empreitada demorou «quatro ou cinco meses», como denunciou um deputado municipal comunista. Em Fevereiro foi lançado um novo concurso, face ao incumprimento do primeiro contrato, e anuncia-se agora que a estação não reabrirá antes de 2021. Com o consequente aumento da despesa para os contribuintes: curiosa noção de "serviço público". E de manifesto empobrecimento do comércio privado: até Maio de 2018, pelo menos dez estabelecimentos tinham ali encerrado as portas.

O loquaz ministro não se tem pronunciado sobre o tema. O presidente da Câmara de Lisboa limita-se a sacudir responsabilidades: «Esta é uma obra de uma empresa que é gerida pelo Estado, não pela câmara. Não posso mais do que partilhar o meu lamento quanto ao atraso.»

É o mínimo que Fernando Medina pode fazer, quando se demora quatro anos para remodelar só uma estação de metro. E já que proclama a intenção de proporcionar uma «verdadeira alternativa de mobilidade, assente na disponibilidade do transporte público» na capital, onde entram 370 mil veículos por dia. Como será isso possível, com uma oferta tão medíocre e limitada?

 

Felizmente para o Governo, passou a moda dos buzinões, das "marchas lentas" e dos cordões humanos: o ministro do Ambiente e o primeiro-ministro (que já foi presidente da Câmara de Lisboa) podem, portanto, dormir descansados. 

Blogue da semana

por Pedro Correia, em 22.06.19

Eis o que chamo serviço público: o blogue Toponímia de Lisboa. Há quase sete anos a narrar-nos histórias relacionadas com as ruas, avenidas, praças, travessas e becos da nossa capital.

Elejo-o como blogue da semana.

Castelos no ar

por Maria Dulce Fernandes, em 18.06.19

 As Minhas Casinhas*

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É muito vaga a minha recordação da Casa Onde Nasci, mas tenho a certeza que ali morei durante muitos meses a partir do momento em que respirei pela primeira vez, fora do ventre da minha mãe.  

Sei que era uma casinha alegre e mimosa, um T1, pelos padrões de hoje, género de aconchego onde noivos vão noivar. Tinha flores coloridas nos parapeitos das janelas e muito sol incrustado nos umbrais. 

Não me traz recordações. Lembro- me de ir lá com a minha mãe ver a “Avó Augusta", a senhoria, que me levou a ver onde nasci e, melhor ainda, ofereceu-me um cartuchinho de papel cheio de rebuçados de alteia e mel com o carimbo do confeiteiro. Desses lembro-me bem. 

A Casa da Avó era antiga, de tectos altos e soalho esfregado. Havia o quarto escuro da Avó Júlia onde sobressaíam os verdejantes números e ponteiros de grande despertador com duas campainhasA cozinha era enorme, com imensas talhas de barro que lembravam sarcófagos e uma walk-in chaminé, por onde o Avô Américo fazia subir no Natal, por artes lá muito dele, um boneco que eu acreditei durante muito tempo ser o Menino Jesus. As escadinhas para o sótão, onde o sol brincalhão bailava por entre as telhas, eram um mundo encantado de mistério e um caleidoscópio de cor. Encravada entre a Memória e o Restelo numa zona de quintas, compõe o quadro mais vivo das minhas lembranças.  

Não me recordo de outro local onde, em toda a minha vida, fosse tão amada e tão feliz. 

Já a “Casa Velha" no número 21 da mesma rua onde moravam os meus avós e onde a minha mãe nasceutinha paredes grossas e pouca luz, um denso ninho de pássaros, tal qual o número 5 de Pollock, era como o quadro plena de texturarebuliço e contrastes. 

Foi ali que tive a primeira televisão e o primeiro irmão. Ambas ocasiões marcantes nos meus tenros 4 anos. Apesar de gostar mais da televisão e adorar a mira técnica e o Mascarilha, tenho que admitir que o meu irmão era um bebé encantador. Primeiro da sua espécie numa longa linhagem de fêmeas, fez as delícias da mãe, do pai e do avô, era o ai jesus de todas as anciãs genitoras, mas sem nunca ter chegado a atingir a entronização que me pertencia  

Numa época em que se criava um mundo com paus, pedras, folhas, papéis e terra, o meu irmão descobriu uma pequena fresta entre duas tábuas do soalho e pedia tostões para lá meter à laia de mealheiro. Nunca entendi bem qual a sensação de realização infantil em ver desaparecer dinheiro, tampouco porque é que tanta gente lho dava e achava aquilo o máximo. 

Pelos meus 6 anos mudámos para a “Casa Nova", um terceiro andar acabadinho de estrear no número 37 da mesma rua. Tinha - e tem ainda - uma das mais belas vistas sobre o Tejo, como um fantástico postal, da Ponte à Torre de Belém.  

A minha vista daquela varanda transbordou de confidências de estudante de primeira classe, irmã pela segunda vez, estudante de preparatória, de liceu, de faculdade, criança, menina, namorada, mulher, esposa e mãe. 

Casei cedo. A Casa do Cacém, comprada em 1980, num local com um ribeiro junto ao qual pastavam cabrinhas, tinha arvores frondosas e muito sossego, um verdadeiro cenário idílico para se criar um filho. Os fantásticos primeiros dois anos enovelaram-se num pesadelo de trânsito sufocado num inferno de betão. Foram 19 anos de muita luta. Era a minha casa. Foi lá que criei as filhas. Nunca foi mau, mas não me deixou saudades. Trocar Belém e Tejo por uma selva de pedra, claustrofóbica e poluída foi necessário, mas nunca definitivo. 

A Casa de Alfragide, actualmente, é o meu castelo no ar. Não tem prédios que enclausurem o olhar  que se perde até ao horizonte, no mar. Vê-se céu até fartar e pores do sol de arrepiar. À noite, lua e estrelas acenam para me saudar. Ao longe tem mil luzes a brilhar. Dá-me paz. Deixa-me respirar. 

Casei uma filha, tenho outra quase a casar. Tenho uma neta, e um neto quase a chegar. Dois gatos e salas imensas, prenhes de céu, serra e mar. Se será o meu derradeiro ninho, não sei, mas não anseio mudar. É o aconchego perfeito para poder descansar.  

 

*Repto deixado pelo Pedro Correia para escrevermos sobre as casas da nossa vida

Postais da Feira (3)

por Pedro Correia, em 15.06.19

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A Feira do Livro encerra amanhã em Lisboa. Este ano fui lá quatro vezes, cumprindo um ritual antigo que renovo sempre com gosto. Pela atmosfera aprazível, pelo convívio, pelo passeio ao ar livre, pelas pechinchas (Evelyn Waugh e Martin Amis a dois euros o exemplar, caramba), pelas boas surpresas (Jorge Silva Melo a recitar Sophia, Jeffrey Archer a conceder-me um jovial autógrafo, o Joel Neto a lembrar-se de que ainda me deve um texto para o DELITO), pela sensação cíclica de regresso à adolescência, com quase tudo muito diferente mas algumas coisas espantosamente iguais (o pavilhão da Minerva, por exemplo).

Venho também pelo panorama. Soberbo, magnífico, incomparável. Uma das paisagens da minha vida. Nunca me canso de observar esta vista de Lisboa, com o Tejo azul lá ao fundo e a Outra Banda em vigília perpétua ao rio que nunca deixou de fascinar poetas, pintores e músicos. 

Houve uma época em que quiseram tirar daqui a Feira. Porque há dias com chuva, porque o vento às vezes é incómodo, porque há quem se canse de subir a ladeira, porque «não dá jeito» ir ao Parque. Pretendiam instalá-la num recinto qualquer, à porta fechada, sem ar livre nem luz solar. Ainda bem que o dislate não foi avante. Ainda bem que a cada mês de Junho regressamos ao local que no tempo de Eça de Queiroz se chamava Vale de Pereiro e era composto de terras de semeadura, quintas e olivais. 

«Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem pálida e rara. E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato – que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo com o fôlego curto, entre montes de cascalho», anota o grande escritor na sua obra-prima, Os Maias.

Se ainda por cá andasse, nestes incomparáveis dias da festa do livro, aposto que ele gostaria tanto de percorrer as alamedas do Parque como qualquer de nós.

Blogue da semana.

por Luís Menezes Leitão, em 09.06.19

Já uma vez destaquei aqui um blogue que há vários anos prossegue uma luta incansável contra a contínua destruição e descaracterização da cidade de Lisboa. Nesta altura em que temos uma Câmara Municipal mais preocupada em viabilizar a construção de monos do que em preservar e reabilitar a imagem de Lisboa, escolho o cidadanialx como blogue da semana.

Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 27.04.19

A propósito de um vulgar carioca de limão (agora, pelos vistos, nada vulgar), pode nascer um boa crónica jornalística. Esta, de Marta Reis no jornal i, intitulada precisamente "Era um carioca de limão". Que nos conta uma história e nos apresenta ao mesmo tempo um quadro impressivo da realidade lisboeta. De um quotidiano onde uns hábitos se ganham e outros se perdem, onde umas tradições vão morrendo e um consumismo de importação vai ganhando raízes.

Isto numa linguagem acessível e escorreita, em que todas as palavras estão no seu lugar e em que nada fica por entender. Algo cada vez mais raro nos dias que correm. Pode parecer simples? Pode. Mas não é.

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(Cemitério do Alto de São João, Lisboa. Foto do blog 100 Anos, 100 Árvores)

 

Sabe-se que o cientista e ministro Augusto Santos Silva considera um extremo "parolismo" aludir ao viçoso feixe de relações familiares dos dirigentes do PS aboletado na administração pública. Mas fica-se "parolo" quando se vai conhecendo o rosário de despautérios dessa elite partidária. O que se passa é nitidamente a consagração do ideário "O Estado somos nós", corrupta corruptela de bem antigas (e absolutistas) concepções do exercício político.

A descrição do Expresso da  última sessão pública da Câmara de Lisboa mostra o putrefacto a que isto chegou, até pelo lado risível da questão: Fernando Medina, que tão falado foi há anos como mais-que-provável sucessor de Costa na liderança do seu partido, a propor um protocolo (financiador) da CML com uma Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa, esta animada em desenvolver actividades culturais em torno dos cemitérios - no que será, de facto, uma sub-contratação para o desempenho de actividades culturais, contornando os serviços camarários especializados nessa área (nos quais existe, pelo menos, uma empresa municipal, a EGEAC). E a qual já recebeu financiamento (parcos 10 000 euros, que dará para pouca coisa, como é óbvio), ainda sem protocolo que se veja.

O Expresso conta: da atrapalhação de Medina, o tal putativo futuro primeiro-ministro, a querer encerrar a apresentação do protocolo, pois a aprovação, afinal, não estava para passar sem debate (quem vai discutir contra quem quer o "bem dos cemitérios" e dos mortos que lá habitam no seu repouso eterno?). E de como o vereador do PSD desfiou o rol de parentes (e confrades) da elite partidária do PS que se aprestam, com total impudicícia, para sacar do orçamento municipal, a propósito de arranjos fúnebres. Aqui cito esse rol, em cúmulo de parolismo, para desgosto de Augusto Santos Silva, ministro de Sócrates&Costa: os órgãos da tal lúgubre associação com "fins culturais" são compostos, decerto que entre outra gente da mesma igualha, por "Jorge Ferreira, fotógrafo de campanhas do PS e de eventos da Junta de Freguesia do Lumiar; Pedro Almeida, funcionário do PS no Parlamento; Inês César, sobrinha de Carlos César; a sua mãe, Patrocínia Vale César (deputada municipal do PS) e o seu pai, Horácio Vale César (irmão de Carlos César e ex-assessor de João Soares quando ele foi ministro da Cultura); João Soares; Diogo Leão, deputado do PS; Filipa Brigola, assessora do grupo parlamentar do PS.". Isto é mais do que óbvio, alguém se lembrou que havia aqui uma área para sacar taco à câmara, juntou a rapaziada, têm os contactos certos (o "eterno" Sá Fernandes lá estava para os elogiar) com Medina e sus muchachos. Assina-se o protocolo, fazem-se umas "cenas", ganham-se umas massas, e nisso até se dão uns trabalhos a uns "sobrinhos" que andem um bocado desvalidos, e se calhar uns textos (pagos) a escrever a um desses painelistas socratistas que vão à TV. Uma mão lava a outra, ambas coçam as remelas e ainda se escarafuncham as narinas.

E isto tudo se passa a um mês das eleições, e quando fervilha na opinião pública e na imprensa a questão dos parentes socialistas nos postos estatais. A um mês das eleições! Esta gente, a elite PS, está sem qualquer tino. Em verdadeira roda livre.

E nós, que em breve habitaremos os cemitérios deles, somos "parolos".

Adenda: encontro o filme da sessão. Veja-se a cara de Medina, notoriamente atrapalhado, depois de ter tentado adiar a questão, diante do eleito do PSD - que pergunta, letal, ao BE se se revê neste lóbi familiar - enquanto este desvenda o rol de socialistas metidos nesta marosca:

 

 

Lamento

por Pedro Correia, em 09.01.19

Uma das melhores livrarias de Lisboa, de que fui durante anos visitante e cliente habitual, era a Bulhosa, situada no extremo sul do Campo Grande, já quase em Entre-Campos. Um dia, há pouco mais de um ano, encerrou "para inventário", como rezava o letreiro. Não voltou a abrir: morreu assim, ingloriamente, perante o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura.

Há dias passei por lá. Onde morou a Bulhosa está agora um desses estabelecimentos pindéricos que prometem "depilação total nas axilas e nas virilhas" em letras garrafais estampadas à entrada. É uma actividade em expansão, ao que parece. A malta preocupa-se com a fachada e marimba-se para o intelecto: os neurónios não propiciam fotos giras no Instagram.

Lamento, claro. Mas não estranho. Ainda há pouco, numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um. «Li por obrigação quando andava na escola, felizmente hoje já não preciso disso», respondeu um, sem sombra de ironia. Daí as livrarias - que também eram um espaço de convívio, de socialização, de buscas e descobertas - irem fechando, umas atrás das outras, por esse país fora. Pobre e frívolo país, tão mal instruído e tão bem depilado.

Blogue da semana

por Pedro Correia, em 24.11.18

Há blogues que prestam serviço público. Lisboa de Antigamente é um deles. Destaco-o desta vez, mas poderia destacá-lo noutra semana qualquer. Porque aprendo sempre alguma coisa ao visitá-lo.

In memoriam.

por Luís Menezes Leitão, em 01.11.18

 

Hoje é um dia em que recordo sempre a maior tragédia que alguma vez atingiu Portugal. Não apenas matou 60.000 pessoas num único dia, como também destruiu completamente o que era então a cidade de Lisboa, não nos deixando quase nenhum edifício para recordar os tempos passados.


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