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Postais de Lisboa (15)

por Pedro Correia, em 08.08.19

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Varanda da sede do Partido Socialista, no Largo do Rato

(foto minha, tirada esta tarde)

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Sotaques

por Maria Dulce Fernandes, em 07.08.19

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Não sou fã de abrir links, principalmente se desconheço a sua proveniência. Podem ter sido enviados por um amigo confiável e bem intencionado e mesmo assim estarem carregados de bicho, que a curto ou longo prazo seguramente me irão dar água pela barba, ou pelo buço, mais apropriado no meu caso específico.
Ontem recebi um link do Vortexmag e abri. Gosto de ler curiosidades e achei esta publicação bastante interessante, do meu ponto de vista alfacinha: trata do sotaque lisboeta.
Não pude deixar de sorrir e constatar a veracidade do texto. Não sei se lhe chamaria sotaque, se evolução da língua, consequência da lei do menor esforço, se calão, mas na verdade temos esta tendência de criar sonoridades homófonas que de algum modo nos facilitam a comunicação .
Fica o link e a pergunta: teremos nós, os alfacinhas ditadores de tendências, um sotaque lisboeta?

Sotaque

Imagem Vortexmag

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Assim se gere a coisa pública

por Pedro Correia, em 03.07.19

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Metro de Arroios, encerrado há dois anos

 

Faz agora dois anos, a 19 de Julho, que a estação de metropolitano de Arroios - numa das zonas mais movimentadas de Lisboa - fechou para obras de "remodelação e beneficiação". Um encerramento destinado, no essencial, a alargar a plataforma da estação para que pudesse receber mais carruagens.

Estas obras, especificou na altura o loquaz ministro do Ambiente, iriam durar 18 meses. Um prazo que parecia razoável, embora certamente demasiado longo para os utentes habituais daquela estação, com destaque para quem mora ou trabalha em Arroios. E, sobretudo, para os comerciantes ali estabelecidos.

Aproveitou-se a ocasião para a habitual sessão de propaganda, enfeitada com estatísticas futuras: «O alargamento do comboio deverá permitir um aumento de 37% dos lugares disponíveis por hora, 128% no corpo do dia e 49% na hora de ponta à tarde.»

 

Passaram os 18 meses, em Janeiro de 2019 - a promessa, como tantas outras, deu em nada. Nessa data, faltaria concluir 80% da obra. «Só para montar o estaleiro» a empreitada demorou «quatro ou cinco meses», como denunciou um deputado municipal comunista. Em Fevereiro foi lançado um novo concurso, face ao incumprimento do primeiro contrato, e anuncia-se agora que a estação não reabrirá antes de 2021. Com o consequente aumento da despesa para os contribuintes: curiosa noção de "serviço público". E de manifesto empobrecimento do comércio privado: até Maio de 2018, pelo menos dez estabelecimentos tinham ali encerrado as portas.

O loquaz ministro não se tem pronunciado sobre o tema. O presidente da Câmara de Lisboa limita-se a sacudir responsabilidades: «Esta é uma obra de uma empresa que é gerida pelo Estado, não pela câmara. Não posso mais do que partilhar o meu lamento quanto ao atraso.»

É o mínimo que Fernando Medina pode fazer, quando se demora quatro anos para remodelar só uma estação de metro. E já que proclama a intenção de proporcionar uma «verdadeira alternativa de mobilidade, assente na disponibilidade do transporte público» na capital, onde entram 370 mil veículos por dia. Como será isso possível, com uma oferta tão medíocre e limitada?

 

Felizmente para o Governo, passou a moda dos buzinões, das "marchas lentas" e dos cordões humanos: o ministro do Ambiente e o primeiro-ministro (que já foi presidente da Câmara de Lisboa) podem, portanto, dormir descansados. 

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 22.06.19

Eis o que chamo serviço público: o blogue Toponímia de Lisboa. Há quase sete anos a narrar-nos histórias relacionadas com as ruas, avenidas, praças, travessas e becos da nossa capital.

Elejo-o como blogue da semana.

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Castelos no ar

por Maria Dulce Fernandes, em 18.06.19

 As Minhas Casinhas*

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É muito vaga a minha recordação da Casa Onde Nasci, mas tenho a certeza que ali morei durante muitos meses a partir do momento em que respirei pela primeira vez, fora do ventre da minha mãe.  

Sei que era uma casinha alegre e mimosa, um T1, pelos padrões de hoje, género de aconchego onde noivos vão noivar. Tinha flores coloridas nos parapeitos das janelas e muito sol incrustado nos umbrais. 

Não me traz recordações. Lembro- me de ir lá com a minha mãe ver a “Avó Augusta", a senhoria, que me levou a ver onde nasci e, melhor ainda, ofereceu-me um cartuchinho de papel cheio de rebuçados de alteia e mel com o carimbo do confeiteiro. Desses lembro-me bem. 

A Casa da Avó era antiga, de tectos altos e soalho esfregado. Havia o quarto escuro da Avó Júlia onde sobressaíam os verdejantes números e ponteiros de grande despertador com duas campainhasA cozinha era enorme, com imensas talhas de barro que lembravam sarcófagos e uma walk-in chaminé, por onde o Avô Américo fazia subir no Natal, por artes lá muito dele, um boneco que eu acreditei durante muito tempo ser o Menino Jesus. As escadinhas para o sótão, onde o sol brincalhão bailava por entre as telhas, eram um mundo encantado de mistério e um caleidoscópio de cor. Encravada entre a Memória e o Restelo numa zona de quintas, compõe o quadro mais vivo das minhas lembranças.  

Não me recordo de outro local onde, em toda a minha vida, fosse tão amada e tão feliz. 

Já a “Casa Velha" no número 21 da mesma rua onde moravam os meus avós e onde a minha mãe nasceutinha paredes grossas e pouca luz, um denso ninho de pássaros, tal qual o número 5 de Pollock, era como o quadro plena de texturarebuliço e contrastes. 

Foi ali que tive a primeira televisão e o primeiro irmão. Ambas ocasiões marcantes nos meus tenros 4 anos. Apesar de gostar mais da televisão e adorar a mira técnica e o Mascarilha, tenho que admitir que o meu irmão era um bebé encantador. Primeiro da sua espécie numa longa linhagem de fêmeas, fez as delícias da mãe, do pai e do avô, era o ai jesus de todas as anciãs genitoras, mas sem nunca ter chegado a atingir a entronização que me pertencia  

Numa época em que se criava um mundo com paus, pedras, folhas, papéis e terra, o meu irmão descobriu uma pequena fresta entre duas tábuas do soalho e pedia tostões para lá meter à laia de mealheiro. Nunca entendi bem qual a sensação de realização infantil em ver desaparecer dinheiro, tampouco porque é que tanta gente lho dava e achava aquilo o máximo. 

Pelos meus 6 anos mudámos para a “Casa Nova", um terceiro andar acabadinho de estrear no número 37 da mesma rua. Tinha - e tem ainda - uma das mais belas vistas sobre o Tejo, como um fantástico postal, da Ponte à Torre de Belém.  

A minha vista daquela varanda transbordou de confidências de estudante de primeira classe, irmã pela segunda vez, estudante de preparatória, de liceu, de faculdade, criança, menina, namorada, mulher, esposa e mãe. 

Casei cedo. A Casa do Cacém, comprada em 1980, num local com um ribeiro junto ao qual pastavam cabrinhas, tinha arvores frondosas e muito sossego, um verdadeiro cenário idílico para se criar um filho. Os fantásticos primeiros dois anos enovelaram-se num pesadelo de trânsito sufocado num inferno de betão. Foram 19 anos de muita luta. Era a minha casa. Foi lá que criei as filhas. Nunca foi mau, mas não me deixou saudades. Trocar Belém e Tejo por uma selva de pedra, claustrofóbica e poluída foi necessário, mas nunca definitivo. 

A Casa de Alfragide, actualmente, é o meu castelo no ar. Não tem prédios que enclausurem o olhar  que se perde até ao horizonte, no mar. Vê-se céu até fartar e pores do sol de arrepiar. À noite, lua e estrelas acenam para me saudar. Ao longe tem mil luzes a brilhar. Dá-me paz. Deixa-me respirar. 

Casei uma filha, tenho outra quase a casar. Tenho uma neta, e um neto quase a chegar. Dois gatos e salas imensas, prenhes de céu, serra e mar. Se será o meu derradeiro ninho, não sei, mas não anseio mudar. É o aconchego perfeito para poder descansar.  

 

*Repto deixado pelo Pedro Correia para escrevermos sobre as casas da nossa vida

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Postais da Feira (3)

por Pedro Correia, em 15.06.19

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A Feira do Livro encerra amanhã em Lisboa. Este ano fui lá quatro vezes, cumprindo um ritual antigo que renovo sempre com gosto. Pela atmosfera aprazível, pelo convívio, pelo passeio ao ar livre, pelas pechinchas (Evelyn Waugh e Martin Amis a dois euros o exemplar, caramba), pelas boas surpresas (Jorge Silva Melo a recitar Sophia, Jeffrey Archer a conceder-me um jovial autógrafo, o Joel Neto a lembrar-se de que ainda me deve um texto para o DELITO), pela sensação cíclica de regresso à adolescência, com quase tudo muito diferente mas algumas coisas espantosamente iguais (o pavilhão da Minerva, por exemplo).

Venho também pelo panorama. Soberbo, magnífico, incomparável. Uma das paisagens da minha vida. Nunca me canso de observar esta vista de Lisboa, com o Tejo azul lá ao fundo e a Outra Banda em vigília perpétua ao rio que nunca deixou de fascinar poetas, pintores e músicos. 

Houve uma época em que quiseram tirar daqui a Feira. Porque há dias com chuva, porque o vento às vezes é incómodo, porque há quem se canse de subir a ladeira, porque «não dá jeito» ir ao Parque. Pretendiam instalá-la num recinto qualquer, à porta fechada, sem ar livre nem luz solar. Ainda bem que o dislate não foi avante. Ainda bem que a cada mês de Junho regressamos ao local que no tempo de Eça de Queiroz se chamava Vale de Pereiro e era composto de terras de semeadura, quintas e olivais. 

«Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem pálida e rara. E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato – que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo com o fôlego curto, entre montes de cascalho», anota o grande escritor na sua obra-prima, Os Maias.

Se ainda por cá andasse, nestes incomparáveis dias da festa do livro, aposto que ele gostaria tanto de percorrer as alamedas do Parque como qualquer de nós.

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Blogue da semana.

por Luís Menezes Leitão, em 09.06.19

Já uma vez destaquei aqui um blogue que há vários anos prossegue uma luta incansável contra a contínua destruição e descaracterização da cidade de Lisboa. Nesta altura em que temos uma Câmara Municipal mais preocupada em viabilizar a construção de monos do que em preservar e reabilitar a imagem de Lisboa, escolho o cidadanialx como blogue da semana.

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 27.04.19

A propósito de um vulgar carioca de limão (agora, pelos vistos, nada vulgar), pode nascer um boa crónica jornalística. Esta, de Marta Reis no jornal i, intitulada precisamente "Era um carioca de limão". Que nos conta uma história e nos apresenta ao mesmo tempo um quadro impressivo da realidade lisboeta. De um quotidiano onde uns hábitos se ganham e outros se perdem, onde umas tradições vão morrendo e um consumismo de importação vai ganhando raízes.

Isto numa linguagem acessível e escorreita, em que todas as palavras estão no seu lugar e em que nada fica por entender. Algo cada vez mais raro nos dias que correm. Pode parecer simples? Pode. Mas não é.

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(Cemitério do Alto de São João, Lisboa. Foto do blog 100 Anos, 100 Árvores)

 

Sabe-se que o cientista e ministro Augusto Santos Silva considera um extremo "parolismo" aludir ao viçoso feixe de relações familiares dos dirigentes do PS aboletado na administração pública. Mas fica-se "parolo" quando se vai conhecendo o rosário de despautérios dessa elite partidária. O que se passa é nitidamente a consagração do ideário "O Estado somos nós", corrupta corruptela de bem antigas (e absolutistas) concepções do exercício político.

A descrição do Expresso da  última sessão pública da Câmara de Lisboa mostra o putrefacto a que isto chegou, até pelo lado risível da questão: Fernando Medina, que tão falado foi há anos como mais-que-provável sucessor de Costa na liderança do seu partido, a propor um protocolo (financiador) da CML com uma Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa, esta animada em desenvolver actividades culturais em torno dos cemitérios - no que será, de facto, uma sub-contratação para o desempenho de actividades culturais, contornando os serviços camarários especializados nessa área (nos quais existe, pelo menos, uma empresa municipal, a EGEAC). E a qual já recebeu financiamento (parcos 10 000 euros, que dará para pouca coisa, como é óbvio), ainda sem protocolo que se veja.

O Expresso conta: da atrapalhação de Medina, o tal putativo futuro primeiro-ministro, a querer encerrar a apresentação do protocolo, pois a aprovação, afinal, não estava para passar sem debate (quem vai discutir contra quem quer o "bem dos cemitérios" e dos mortos que lá habitam no seu repouso eterno?). E de como o vereador do PSD desfiou o rol de parentes (e confrades) da elite partidária do PS que se aprestam, com total impudicícia, para sacar do orçamento municipal, a propósito de arranjos fúnebres. Aqui cito esse rol, em cúmulo de parolismo, para desgosto de Augusto Santos Silva, ministro de Sócrates&Costa: os órgãos da tal lúgubre associação com "fins culturais" são compostos, decerto que entre outra gente da mesma igualha, por "Jorge Ferreira, fotógrafo de campanhas do PS e de eventos da Junta de Freguesia do Lumiar; Pedro Almeida, funcionário do PS no Parlamento; Inês César, sobrinha de Carlos César; a sua mãe, Patrocínia Vale César (deputada municipal do PS) e o seu pai, Horácio Vale César (irmão de Carlos César e ex-assessor de João Soares quando ele foi ministro da Cultura); João Soares; Diogo Leão, deputado do PS; Filipa Brigola, assessora do grupo parlamentar do PS.". Isto é mais do que óbvio, alguém se lembrou que havia aqui uma área para sacar taco à câmara, juntou a rapaziada, têm os contactos certos (o "eterno" Sá Fernandes lá estava para os elogiar) com Medina e sus muchachos. Assina-se o protocolo, fazem-se umas "cenas", ganham-se umas massas, e nisso até se dão uns trabalhos a uns "sobrinhos" que andem um bocado desvalidos, e se calhar uns textos (pagos) a escrever a um desses painelistas socratistas que vão à TV. Uma mão lava a outra, ambas coçam as remelas e ainda se escarafuncham as narinas.

E isto tudo se passa a um mês das eleições, e quando fervilha na opinião pública e na imprensa a questão dos parentes socialistas nos postos estatais. A um mês das eleições! Esta gente, a elite PS, está sem qualquer tino. Em verdadeira roda livre.

E nós, que em breve habitaremos os cemitérios deles, somos "parolos".

Adenda: encontro o filme da sessão. Veja-se a cara de Medina, notoriamente atrapalhado, depois de ter tentado adiar a questão, diante do eleito do PSD - que pergunta, letal, ao BE se se revê neste lóbi familiar - enquanto este desvenda o rol de socialistas metidos nesta marosca:

 

 

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Lamento

por Pedro Correia, em 09.01.19

Uma das melhores livrarias de Lisboa, de que fui durante anos visitante e cliente habitual, era a Bulhosa, situada no extremo sul do Campo Grande, já quase em Entre-Campos. Um dia, há pouco mais de um ano, encerrou "para inventário", como rezava o letreiro. Não voltou a abrir: morreu assim, ingloriamente, perante o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura.

Há dias passei por lá. Onde morou a Bulhosa está agora um desses estabelecimentos pindéricos que prometem "depilação total nas axilas e nas virilhas" em letras garrafais estampadas à entrada. É uma actividade em expansão, ao que parece. A malta preocupa-se com a fachada e marimba-se para o intelecto: os neurónios não propiciam fotos giras no Instagram.

Lamento, claro. Mas não estranho. Ainda há pouco, numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um. «Li por obrigação quando andava na escola, felizmente hoje já não preciso disso», respondeu um, sem sombra de ironia. Daí as livrarias - que também eram um espaço de convívio, de socialização, de buscas e descobertas - irem fechando, umas atrás das outras, por esse país fora. Pobre e frívolo país, tão mal instruído e tão bem depilado.

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 24.11.18

Há blogues que prestam serviço público. Lisboa de Antigamente é um deles. Destaco-o desta vez, mas poderia destacá-lo noutra semana qualquer. Porque aprendo sempre alguma coisa ao visitá-lo.

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In memoriam.

por Luís Menezes Leitão, em 01.11.18

 

Hoje é um dia em que recordo sempre a maior tragédia que alguma vez atingiu Portugal. Não apenas matou 60.000 pessoas num único dia, como também destruiu completamente o que era então a cidade de Lisboa, não nos deixando quase nenhum edifício para recordar os tempos passados.

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A Uber agradece

por Pedro Correia, em 26.09.18

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No conflito que opõe as frotas de táxis às novas plataformas digitais, os partidos que dizem estar sempre solidários com os trabalhadores já assumiram o seu lado. Colocam-se contra os novos proletários da Uber, da Cabify e da Taxify,  muitos deles assalariados precários, e mostram-se a favor dos patrões dos táxis, que há uma semana condicionam fortemente ou paralisam até grande parte do trânsito na cidade de Lisboa.

Pelo oitavo dia consecutivo, a capital tem hoje os seus principais corredores destinados aos transportes públicos transformados em parques de estacionamento de táxis. Prejudicando assim os cidadãos mais desfavorecidos - aqueles que utilizam os autocarros nas suas deslocações pela cidade. Uma evidente ilegalidade que conta com o zeloso patrocínio da Polícia Municipal, enquanto os partidos que menciono na abertura deste texto assobiam para o lado.

É uma luta obviamente condenada ao insucesso. Fazendo lembrar os protestos dos cocheiros quando começaram a generalizar-se os primeiros veículos a motor nas grandes urbes. Tentar travar a roda do futuro com argumentos proteccionistas do século passado é um absurdo. 

Muitos taxistas andam por aí, envergonhados, a furar o protesto dos patrões circulando com as luzes externas dos taxímetros desligadas. Faço sinal a um. Pára, abre o vidro e pergunta para onde vou. «Pode entrar. Tudo bem, desde que não passe pela Avenida da República, pelo Saldanha, pela Fontes Pereira de Melo ou pela Avenida da Liberdade. Se for aí, sou insultado ou posso mesmo ser agredido por aqueles que se dizem meus colegas.»

Escuto estas palavras enquanto o veículo se vai cruzando com diversas viaturas das plataformas digitais, que por estes dias não têm mãos a medir, com autocarros panorâmicos cheios de turistas e até com os já pitorescos tuk-tuks alfacinhas. Todo um mundo de ofertas rodoviárias que nada têm a ver com a visão petrificada dos donos das frotas de táxis e dos partidos que os apoiam.

Oito dias de protestos encaminharam milhares de utentes habituais de táxis para a Uber e a Cabify: é uma via que já não tem retorno. Por aqui se mede também a estupidez deste protesto. Enquanto os autocarros continuam sem acesso aos seus corredores, contribuindo para engarrafar ainda mais o trânsito. Lá dentro vão humildes cidadãos trabalhadores: os partidos que dizem apoiá-los voltaram a esquecer-se deles.

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Hipocrisia

por Pedro Correia, em 23.08.18

O presidente da Câmara de Lisboa diz, repetidas vezes, que gostaria de retirar cada vez mais carros da cidade. É pura hipocrisia. Os veículos são uma fortíssima fonte de receitas da autarquia - nomeadamente através do estacionamento e das multas, por exemplo, já para não falar nos impostos indirectos que geram através dos combustíveis. 

De resto, sabendo nós como funciona a caótica rede de transportes públicos da capital, se por absurdo metade dos utentes que entram diariamente em Lisboa ao volante dos seus veículos particulares passassem a fazê-lo por transportes fluviais, rodoviários e ferroviários, o sistema entraria de imediato em colapso. Como bem sabem aqueles que, como eu, utilizam essa rede todos os dias.

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Agosto em Lisboa

por Pedro Correia, em 22.08.18

Agosto em Lisboa, num bairro afastado das enchentes turísticas. Almoço periódico com dois amigos, no restaurante do costume. Afinal está fechado, "para férias" - como reza o letreiro. Tentamos o restaurante alternativo, também nosso conhecido, quase porta ao lado: igualmente encerrado pelo mesmo motivo. Faz-me alguma confusão: porque não combinarão férias alternadas os responsáveis destes estabelecimentos concorrentes?

Atravessamos a rua: em frente há outro. Este, aberto. Mal abancamos, a empregada ucraniana avisa: "Já não temos frango, nem carne de vaca." Mau indício, um restaurante deixar esgotar carne de frango. Bifana, também esgotou. Pedimos alheiras, descendo ao grau zero culinário, quase não resta alternativa. Azar para o terceiro elemento da tribo, que chega mais tarde: já não restou uma alheira para lhe matar a fome.

Sugiro-lhe, a brincar: «Pede um Cornetto. Deve haver.» Havia, sim. Foi o almoço dele.

Na fabulosa Lisboa "turística" desta segunda década do século XXI. Na Rua da Estefânia, passava um pouco das duas da tarde.

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Madonna em Cuba.

por Luís Menezes Leitão, em 02.08.18

Não tenho paciência nenhuma para estas vedetas que vêm para cá, abusando do deslumbramento dos indígenas, para depois compararem o país a uma Cuba ou acharem que parou no tempo de Salazar. Mas, de facto, desde que a geringonça chegou ao poder, está muito parecido com uma Cuba. Em que outro país europeu a câmara da capital lhe tinha oferecido 15 lugares de estacionamento a preços irrisórios para depois ouvir estas declarações? De facto, é graças ao fado, futebol e Fátima que os portugueses continuam a andar distraídos com a actuação dos nossos políticos.

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O corpo de bailarinos de Madonna (II)

por Diogo Noivo, em 01.08.18

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Parte da intelectualidade nacional defende que uma publicação de Madonna no Instagram faz mais por Lisboa do que mil estrangeiros anónimos que venham para cá viver. Tanto assim é que a mais recente entrevista à cantora, publicada na Vogue italiana, valerá bem os lugares de estacionamento que lhe foram atribuídos pelo município da capital. Pois bem, nessa entrevista Madonna diz que Lisboa se assemelha a Cuba e que Portugal “é governado por três 'Fs': Fado, Futebol e Fátima”. De facto, publicidade desta não tem preço. E a culpa não é de Madonna.

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Despejado com justa causa

por Pedro Correia, em 30.07.18

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Obviamente, demitiu-se. Despejado da vereação alfacinha com justa causa política: não se pode impunemente andar em contramão, dizendo uma coisa e praticando o seu inverso.

Sai três dias mais tarde do que devia. Após causar sérios danos reputacionais ao Bloco de Esquerda e de ter arrastado a imprevidente Catarina Martins para uma bizarra tentativa de bate-boca com Marcelo Rebelo de Sousa que a Casa Civil do Presidente da República esvaziou num ápice.

O BE vê estancar uma ferida que ameaçava infectar, os munícipes de Lisboa livram-se de um descarado  demagogo e o mercado imobiliário da capital ganha um dinâmico promotor imobiliário, capaz de comprar em 2014 à Segurança Social, por 347 mil euros, um prédio situado em plena zona histórica da cidade que três anos depois tinha um valor de mercado avaliado em 5,7 milhões, gerando uma mais-valia de 470%

Tudo está bem quando acaba bem. 

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Robles - Negócios Imobiliários Ldª

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.07.18

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"A sua avaliação foi feita por uma agência imobiliária, que o teve à venda por seis meses até [A]bril. Desde então, o imóvel não está a venda.

Esta compra não foi uma operação especulativa. Para o demonstrar, tomei com a minha família a decisão de colocar o imóvel em propriedade horizontal, de forma a poder dividir as fra[c]ções entre mim e a minha irmã. Não venderei a minha parte do imóvel e colocarei as minhas fra[c]ções no mercado de arrendamento. Não comprei este prédio para o vender com mais-valias e, pela minha parte, não o farei."

 

Não vou perder muito tempo a ler e a analisar as prestações imobiliárias do vereador Ricardo Robles, político do Bloco de Esquerda. Temos em Portugal bastantes exemplos, que cobrem todo o espectro político, de indivíduos que optando por uma carreira política são capazes de hoje dizer uma coisa e logo a seguir fazer exactamente o oposto do que acabaram de defender.

Não tenho nada contra, bem pelo contrário, tenho admiração por todos aqueles que são capazes de enriquecer de uma forma séria, justa, honesta, cumprindo as regras do exercício da sua profissão (quando as há), sem andarem a vigarizar, aldrabar, a contornar leis e regulamentos, cobrando por debaixo da mesa e contando com a ignorância dos incautos para irem progredindo.

E conheço muita gente séria, como também conheço aldrabões, chicos e vigaristas em barda. 

Em relação a todos eles o que faz a diferença é apenas uma coisa: o carácter. Com mais ou menos educação, com mais ou menos posses, é apenas isso que os distingue.

No caso de Ricardo Robles só sei quem é por andar nas lides da política, militando num partido, exercendo um cargo público. Nunca me foi apresentado, nunca convivi com o fulano, nunca trabalhei com o sujeito directa ou indirectamente. E, naturalmente, nada me move contra ele.

Mas exactamente por Robles ser um político é que escrevo estas linhas, tanto me fazendo para o caso que seja do Bloco de Esquerda ou de outro partido qualquer. O homem precisa de alguém que o defenda.

Ouvi as suas declarações na entrevista à SIC, depois li o comunicado que publicou na sua página do Facebook.  Fiquei elucidado.

Que tenha adquirido um imóvel em estado degradado, num processo público e transparente, tendo acesso a informação que todos podem ter, presumo eu, desde que a procurem, não me parece mal.

Que tenha procurado recuperá-lo, valorizá-lo e ganhar dinheiro com o dito, respeitando os inquilinos que lá estavam, tratando-os com decência, também não me parece mal.

E que quisesse aproveitar a oportunidade, quaisquer que fossem as suas razões para ganhar dinheiro com o prédio, como qualquer outro cidadão poderia fazer, desde que tivesse capital para investir ou lhe fosse concedido crédito, também me parece justo.

Um tipo deve ter o direito de viver com um mínimo de conforto. Na política, em Portugal, ganha-se pouco ou nenhum dinheiro, os salários são miseráveis para o trabalho produzido, nalguns casos, e miseráveis para a responsabilidade, também nalguns casos. Até aí tudo bem.

A parte que eu não percebi foi aquela em que o vereador Ricardo Robles, quadro e camarada bloquista, vem dizer à populaça que não tinha interesse em fazer uma operação do tipo das que ele e a sua malta do BE classificam como "especulativa".

Se não tinha interesse então para que o colocou à venda, é ele que o diz, durante seis meses numa agência imobiliária?

As agências e os agentes de mediação imobiliária não são cooperativas de habitação geridas por padres franciscanos. São sociedades comerciais e estabelecimentos propriedade de empresários, como ele também é, cujo objectivo é a realização de lucros. Lucros. Presumo que o vereador Ricardo Robles, que até tem uma licenciatura, como homem que se reclama de esquerda, saiba o que são lucros. Se não souber o Prof. Francisco Louçã poderá dar-lhe umas lições. Pro bono, evidentemente.

Depois, quando o vereador Ricardo Robles assina um contrato com uma agência de mediação imobiliária também deve ter a noção para que serve. Pode ser para vender, como também pode ser para arrendar. E em qualquer um dos casos sabe que pelo serviço que for prestado deverá pagar uma contrapartida. Um preço, uma comissão por essa actividade, desde que, em princípio, a venda ou o arrendamento sejam  concluídos com sucesso durante o prazo do contrato.

E o vereador Robles também sabe que esse preço, porque isso está lá no contrato e ele não o deverá ter assinado de cruz, pois que se o fizesse dessa forma isso seria uma irresponsabilidade que desde logo não o recomendaria nem sequer para guia de um clube de escuteiros, corresponde ou a um valor fixo ou a uma percentagem sobre o valor de venda do imóvel ou do seu arrendamento.

E também sabe que o preço acordado entre o vendedor ou senhorio e a agência de mediação imobiliária consta do contrato (estas coisas não são de boca), visto que é o proprietário do imóvel, e não a agência, por muito desregulado que esteja o mercado, quem fixa o preço e tem a palavra final sobre o valor por que o imóvel deverá ser colocado no mercado.

Ora, o vereador Robles sabia perfeitamente qual o valor pelo qual a dita imobiliária avaliou o imóvel. E só depois disso, da avaliação e do preço fixado, é que o colocou à venda. Isto é, no mercado. Não foi num jornal de parede de uma sede do Bloco de Esquerda para ver se havia algum camarada interessado (e abonado) que estivesse disposto a adquirir a sua propriedade.

Por acaso, talvez por erro da imobiliária, demasiado sôfrega, é que o prédio não foi vendido. Se tivesse encontrado comprador, certamente que o empreendedor Robles o teria vendido. Porque o vereador Robles sabia o preço. E iria vendê-lo se durante os seis meses do contrato se tivesse aparecido um interessado.

A não ser que depois de aparecer o interessado, que até poderia ter sido um desses capitalistas árabes, de uma dessas "democracias" do Golfo, que fazem investimentos imobiliários na Europa, ou um camarada do MPLA, o vereador Robles lhe dissesse que não, nem pensar em vender o imóvel por 5,7 milhões de euros. Certamente que o vereador Robles lhe teria dito, ao potencial interessado na aquisição, que isso é um absurdo, os tipos da mediadora estão doidos. Eu e a minha irmã decidimos vender-lhe por 1 milhão e pouco, ainda não fiz as contas mas vou fazer. Nós queremos apenas o valor que receberíamos se tivéssemos o dinheiro a prazo na Caixa Geral de Depósitos, naquele banco que agora parece o defunto Banco Popular e onde pontifica um tal de Paulo Macedo, um tipo de direita que se dá com muita gente do Opus Dei. Nem pensar em vender-lhe por 5,7 milhões. Eu e a minha irmã somos solidários com os reformados e aqueles palermas do Delito de Opinião que têm depósitos a prazo na CGD".

É claro que perante isto o investidor estrangeiro até convidaria o vereador Robles e a família toda para umas férias, à borla, no Mediterrâneo, a bordo do seu iate que está numa marina de Monte Carlo. Como outros convidaram o Durão Barroso. E faria muito bem, porque lá o facto de um tipo ser um remediado do BE não lhe retira o direito de ter umas férias decentes. E um gestor de conta como aquele que tratou de vender as acções da SLN do Prof. Cavaco Silva e da filha.

Para desgraça da menina Catarina e dos seus compinchas não foi isto que aconteceu. A mediadora não se esforçou o suficiente, o negócio gorou-se. Lá se foi o dízimo do BE. E o vereador Robles mais a mana optaram, ao fim de seis meses, por constituir a propriedade horizontal. Sempre é mais fácil vender ou arrendar assim. 

Eu compreendo.

É óbvio que o vereador Robles não queria ganhar nenhum dinheiro com o investimento que fez com a sua irmã. Ele estava só a reeditar os tempos de infância quando ambos jogavam Monopólio. Coisa de garotos.

No final, ouvida a entrevista à SIC, lido o comunicado que publicou, chego à conclusão que o vereador Robles e os camaradas do BE têm toda a razão, todas as condições políticas para continuarem a sua luta contra a especulação imobiliária. Sim, porque quando os apartamentos estiverem em propriedade horizontal vão ser todos arrendados (com excepção de dois dos mais pequenos que servirão, respectivamente, para habitação do agregado familiar do vereador Robles e como casa de férias da irmã durante as suas passagens pela capital) a preços de habitação social. Nada de rendas especulativas. E actualizações de renda só se os inquilinos pedirem. Não há nisto nada de errado.

O Robles devia actuar como um capitalista e especulador. Fazer uma sociedade denominada "Robles — Negócios Imobliárias, Ldª". Ainda tentou durante seis meses. A coisa falhou e os invejosos da comunicação social, mais o sonso do Adolfo (Adolfo, não sei se a mana Mortágua te voltará a falar depois do que disseste na televisão, isso não se faz a ninguém), caíram-lhe logo em cima. Eu vi logo a jogada.

Afinal, o Robles saiu-me um patusco que anda a ver se consegue que os portugueses se sintam ainda mais estúpidos do que aquilo que são quando votam em gajos como ele (e como o Prof. Marcelo que não tarda está aí a ir à missa com a Catarina Martins e o Francisco Assis). E mais indefesos contra esses cabrões dos capitalistas que enriquecem com a especulação imobiliária.

Lamento que a Coordenadora do BE não veja isso. Aliás, ela não vê nada. Está ceguinha de todo. Nota-se que anda a precisar, há vários anos, de um colírio que lhe permita ver com a mesma definição e visão biónica com que vê o que se passa na casa dos outros o que se passa dentro de sua casa.

Mas, ainda assim, se eu fosse ao Luís Menezes Leitão, enquanto não aviam a receita do colírio da Catarina, dava uma mãozinha ao Robles e mandava-lhe uma ficha de inscrição. Sim, um formulário daqueles que ele lá tem às resmas. Para o tipo se poder inscrever na Associação Lisbonense de Proprietários. Ele há-de vir a precisar de apoio jurídico quando os tipos da Musgueira decidirem fazer uma marcha sobre Lisboa, começarem a pedir "casas com especulação controlada" e desatarem a ocupar os apartamentos e os condomínios dos camaradas do Bloco de Esquerda. Só para lhes lixarem (apetecia-me dizer f....) os negócios, evidentemente. E darem cabo da cabeça ao Costa.

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A torre dos anúncios

por jpt, em 27.07.18

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Já é noite e saio do centro comercial, aqui dito xópingue, sotaque do dialecto local, e rumo a casa, mesmo defronte. Quando me chego ao atravessar da rua noto que debaixo da torre de anúncios, falha de iluminação e com cromos em falta, espaços vazios que anunciam a pobreza que circunda, desavergonhada, encostado ao canteiro que lhe é base está um tipo deitado, protegido por um velho guarda-sol de praia, branco na noite. Vou até ele a perguntar-lhe “vai dormir aqui?” e ele que sim, “que é o meu lugar”, conclusão que será só dele, que nunca vi vagabundos por aqui aboletados. Está mal preparado, deitado num pequeno cartão, só um saco de plástico com um qualquer não sei o quê. Pergunto-lhe se já comeu, ele agita-se, sobreergue-se no cotovelo, e que sim e abana na mão esquerda um nota de dez euros, dobrada em quatro, como se ma quisesse dar, “não quero o teu dinheiro”, digo-lhe, abismado, “é o meu lugar este”, reafirma-me, até frenético, tartamudeia e nem o percebo, aterrado vendo-o vendo-me dele concorrente, eu ali, hirsuto todo já branco, uma t-shirt desbotada se calhar já não de hoje, calças de ganga sujas que federão a tabaco, que quando a adolescente nem está até esqueço de tudo isso e do resto, pois para quê?,

 

fujo dele, reentro no tal xópingue, estou teso demais para comprar uísque mas andarei um pouco, e ao meu encontro vem a minha amiga, afinal ainda ali, jantámos mesmo agora numa espelunca vizinha, eu nem comia há quatro dias, dieta dos achaques, pagou-me ela um qualquer sucedâneo de polvo, intragável e morno, que me soube às mil maravilhas, e toca música no centro, pretenders talvez, nem atento, e diz-me ela, risonha, ainda miúda, sempre bonita, nestes nossos 50s, “zézé, apetece-me dançar contigo” e logo a rodopio mesmo ali, pois claro, enlaçados, e os poucos clientes daquilo do pingo doce olham-nos estranhos, e quem são eles?, apenas clientes, nem sabem que onde são as caixas eram já as hortas dos Olivais bem antes destas construções, ali nos escaparates fui o King of the Pirates do Defoe, o Capitão Morgan e o Corsário Negro e, mais do que tudo,  naqueles carreiros de esconder tesouros, onde estão talho padaria e peixaria, fui Jim Hawkins, sou aqui dono da terra, vão-se foder clientes de xópingue, posso bem dançar com as beldades locais, manas que sejam, e por esta o ser, enquanto nos meneamos conto-lhe a história vagabunda e ela ri-se, muito, e nisso perdemos o ritmo, que entre nós os dois também nunca foi muito do aconchegar mas muito mais do ombrear,

 

e segue ela à sua vida, ainda a rir-se, naquilo do “só a ti, zézé”, e eu, assim, no carinho dela, amornado, regresso a casa. Subo-me à gruta, ao meu quarto andar, a resmungar com o vagabundo e não descanso enquanto não o esqueço. Meia hora depois, filhodamãe do tipo, vou lá abaixo, levo-lhe uns cobertores, almofada e farnel. O gajo desconfia-me, estou irritado e digo-lhe, como se veterano, “estás mal preparado, não podes dormir na pedra”, que o homem está deitado na calçada portuguesa, ele agradece agora, “obrigado pai”, “pai é o caralho” respondo-lhe, que o gajo tem a minha idade, ou até mais, e insisto para que use os cobertores, e “já comeste? Trouxe comida”, mas isso agradece e recusa, diz que comeu e que tem mais, no tal saco de plástico, “trouxe cervejas”, desafio e ele nada, prefere vinho e tem-no. Mas está grato, pergunta-me agora se pode dormir ali e “sei lá eu, que não sou polícia” e nem lhe digo que ali tão exposto está mesmo à mão que o venham expulsar,

 

e começa ele na arenga dele, que vem de não sei de onde, de um abrigo onde lhe arranjaram uma complicação qualquer, querem-no matar, e bate no braço esquerdo para o realçar, com tal afinco que até o julgo prótese, que homem de braço de prata é muito provável que tenha sido, e queixa-se, que o expulsaram sem razão, e eu que não quero saber a história dele, e ele insiste que o querem matar, que isto é a “quinta guerra mundial”, já vai desabrido, e eu digo-lhe que não, que é mesmo a primeira, só que ainda não acabou.

 

Depois pergunta-me se pode confiar em mim, e eu que experimente ele, e não é que experimenta?, puxa outra vez da nota de dez euros, e pede-me que lhe vá comprar um maço de tabaco, e “porque não vais tu?”, que não pode, senão roubam-lhe os haveres, o tal guarda-sol, o saco de plástico e o cartão, porra, e afinal era isso que ele queria ao princípio, uma pobre alma que lhe fosse comprar cigarros. E eu lá vou, mas é para trazer um “camel dos verdadeiros, dos amarelos”, sim, dos genuínos, que não me engane eu. Sigo à tabacaria, ainda aberta, ao Camel original, 4, 70 euros. Volto e dou-lho, e ao troco, a nota dos 5 euros e as moedas dos trinta cêntimos. Despeço-me, regresso a casa com o farnel recusado mas o tipo insiste em dar-me os 30 cêntimos, e eu que “não quero o teu dinheiro” e ele empurra-o, quase já em pé, que lho aceite que é “para lhe dar sorte à casa”, àquele recanto de canteiro.

 

Vou para casa, envergonhado, cabrão de burguês, um poucochinho preocupado, é o que se arranja, uma caridadezinha, mas incapaz de dar tecto ao homem, uma noite que seja, e sei bem que se o levar para casa as mulheres que me visitam me matarão o juízo, e até eu, se num dia menos deprimido, não me perdoarei. A meio da noite estou mesmo lixado com o gajo, que não me deixa dormir, vou à janela, que o tipo está mesmo à frente do meu prédio, e lá está ele, o cabrão, se calhar a dormir, e nem sei onde estão os meus binóculos, aqueles para o Kruger, nem a colecção das velharias, dos avós, militares, mais o de ópera de uma qualquer avoenga, porcelana e isso, onde estarão os binóculos, agora que eu preciso deles?, para o espreitar, que se lixe, vou mas é lá abaixo, desço e “ouve lá” e ele acorda, estremunhado, “quero as minhas coisas, dá-mas de volta”, estou lixado com o gajo, não aceitou o meu farnel, não bebeu as minhas cervejas, “mas porquê?, deste-mas …”,  resmunga, até assustado, “não quero o teu dinheiro”, resmungo, e quero devolver-lhe as duas moedas, e ele “é para dar sorte”, e eu, ateu, “não te dá sorte nenhuma” mas já desisti, não quero as coisas de volta, os cobertores e a puta da almofada, mas “quero um Camel dos teus”, e isso já está bem, puxa ele do maço e dá-me um cigarro, e outro para ele, eu sento-me na laje do canteiro e ele alumia-nos com fósforos.  Fumo ávido, se calhar como quem já não fuma, e ele “estás doente?” e eu que sim, que “querem-me matar” mas não bato no braço. “Ya!”, e solavanca, “é uma guerra mundial”. “A quinta!, caralho, é a quinta guerra mundial”, respondo-lhe, veemente, irritado, como se ele não perceba tudo isto, vagabundo distraído. “É isso mesmo, é o que eu digo”, defende-se.

 

Os cigarros acabam e o sacana diz-me que “agora vou dormir”, despacha-me, assim sem mais, e eu fico ali, sem-jeito, ainda a insistir no “toma lá o teu dinheiro”. E ele que nada, que lhe dê eu sorte. Uma nesga que seja, penso, e desisto, todo eu ainda mais. E subo. Para a insónia.

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