Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Negar o negacionismo

Pedro Correia, 26.03.21

_110668777_gettyimages-89277106-1.jpg

Sobreviventes de Auschwitz, um dos campos da morte nazis

 

Uma das características do nosso tempo é a contínua deturpação ou imprecisão da linguagem. Tenho pensado nisto a propósito da vulgarização da palavra negacionista. Abrangendo desde aqueles que classificam de mera epidemia os efeitos globais do novo coronavírus até aos que exprimem sérias dúvidas sobre as reiteradas restrições aos direitos, liberdades e garantias como os que experimentamos desde há um ano em Portugal, onde ontem o estado de emergência voltou a ser alargado, desta vez até 15 de Abril. Abrangendo desde aqueles que, por questão de princípio, recusam as vacinas até aos que advogam o direito de resistência - previsto na Constituição da Repúlica - a medidas tão diversas como o uso obrigatório de máscaras na via pública, a circulação entre concelhos vizinhos com índices de transmissão do vírus abaixo dos padrões de risco ou até a prática de pesca desportiva, que deve ser uma das actividades mais solitárias do mundo, como ontem lembrava José Gomes Ferreira na SIC.

 

Todos quantos fogem ao padrão dominante são hoje "negacionistas". O termo banalizou-se de tal maneira - e eu próprio, mea culpa, também já o utilizei aqui - que acaba por perverter o seu significado original, até no plano jurídico: o daqueles que negam expressamente o Holocausto, provocado pela barbárie nazi ou qualquer outro extermínio sistemático de populações inteiras. Por declarações negacionistas, Jean Marie Le Pen - pai de Marine Le Pen - foi condenado há cinco anos num tribunal de Paris. A negação do genocídio cometido pelo regime nacional-socialista está proibida na Alemanha, implicando sanções penais até aos cinco anos de prisão

Por cá, qualquer um é hoje apontado como "negacionista", até em títulos de jornal, por contestar a «existência de um facto documentado» ou propor «interpretações não fundamentadas de fenómenos históricos já estudados», como assinala o impreciso dicionário da Porto Editora, sempre pronto a acolher a última moda lexical.

A desconfiguração do significado genuíno da palavra produz um péssimo efeito: a proliferação de "negacionistas", conduzindo à negação do negacionismo. 

 

Por casualidade, ando a ler um excelente livro da escritora romeno-germânica Herta Müller, galardoada em 2009 com o Nobel da Literatura. Recorda ela, nestas páginas d'O Rei Faz Vénia e Mata (Texto Editora, 2011), que muitos presos políticos na Roménia de Ceausescu eram executados pela sinistra Securitate e atirados ao rio em simulação de afogamento. Em conversa com um amigo estrangeiro, já no exílio, ele questionou, aludindo ao idioma romeno: «Mas que língua é essa que nem tem uma palavra para cadáver de pessoa afogada?»

É este também o tempo de inventarmos novas palavras para novas situações. E de recusarmos com firmeza a perversão de outras, desviando-as do seu sentido original.

Como se fossem obscenidades

Pedro Correia, 22.03.21

John-Falter-oil-paintings-New-Litter-of-Kittens-92

Nova Ninhada de Gatinhos, óleo de John Falter (1954)

 

Sexta-feira foi Dia do Pai. Ou era, já não sei. Porque a cartilha politicamente correcta manda adoptar nova designação, que ouvi repetida várias vezes: agora é Dia dos Pais. Tal e qual, neste descafeinado e confuso plural pós-moderno. Como se fosse a mesma coisa.

Questiono-me se em Maio também será assinalado o Dia das Mães. Para combater aquela anacrónica noção de só haver uma mãe - tese que alguns de nós, impenitentes reaccionários, ainda perfilhamos.

Já falta pouco para saber.

 

As luminárias vanguardistas da Universidade de Manchester, no Reino Unido, resolveram entretanto este dilema adoptando uma cartilha de linguagem "inclusiva" que elimina palavras como mãe e pai. Manda a nova etiqueta que se diga guardiã ou guardião, como se a mãe fosse a baby sitter e o pai fosse pastor de cabras ou ovelhas.

Já chegam atrasadas. Pioneira nesta novilíngua foi uma escola novaiorquina - a Grace Church, em Manhattan - que se antecipou a decretar obsoleta, quiçá mesmo "fascista", qualquer alusão a pai ou mãe.

Como se fossem obscenidades. 

 

As meninas e os meninos agora só têm autorização para dizer adultos ou família. Aliás meninas meninos são vocábulos também banidos: agora diz-se amigos ou malta. É mais fixe, é cool

Em nome da "inclusão" que exclui. Na melhor lógica orwelliana: ignorância é força, paz é guerra, liberdade é escravidão.

Coiso e Coisa

Pedro Correia, 18.03.21

O Conselho Económico e Social, num país que sofre a maior queda do PIB de que há memória e regista a quarta maior contracção económica entre os 27 Estados da União Europeia, anda agora preocupado com a "linguagem inclusiva", visando a "neutralidade de género". Como se não lhe faltassem prioridades para emitir sinal de vida.

Quero participar neste debate. E desde já sugiro que a respeitável instituição comece por mudar de nome. Alterando o género masculino da sua designação - resquício da cultura falocêntrica e do normativo patriarcal ainda predominantes na sociedade portuguesa. Passando a designar-se Conselho e Conselha Económico e Económica e Social e Sociala.

Ou Coiso e Coisa, tanto faz.

Amen ... e Awoman

jpt, 06.01.21

Não são as lutas pela estrita igualdade de direitos e pela tendencial equidade de oportunidades que são erradas. Mas sim estes devaneios de roupagem interseccional, o "radicalismo pequeno-burguês de fachada identitária". Tralhas folclóricas originadas nos campi norte-americanos, e que por cá @s conselheir@s Acáci@s seguem em falsetes mui abespinhados. E nisso tudo o mais ridículo ainda serão os ademanes da "linguagem inclusiva".
 
Diante destes constantes dislates "interseccionais" estava hoje de madrugada a rir-me com  isto da cantora Sara Tavares - que dobra personagens de animação ciganas mas não quer que brancos dobrem personagens negras - e dou com isto.  Trata-se da oração na abertura do Congresso americano, já de si uma coisa risível. Enfim "americanices"... Mas o notável é como o parlamentar gringo, Cleaver, segue a cartilha multicultural do "politicamente correcto" - apelou à protecção de várias entidades, as aceitáveis lá no espectro dele. E depois termina a oração, prenhe de "linguajar inclusivo", com o sacramental "Amen ... e Awoman".
 
Awoman!!!
 
Que belo corolário desta tralha toda, desta gente tão ciosa das suas reflexões ... Perdão, dest@ gent@. Que patetas. E tão convictos deles-mesmos ...

«Dê a pata, não seja mau»

Pedro Correia, 28.09.20

beagle-walking-on-leash-looking-up.jpg

 

Até há poucos anos, era padrão corrente o excesso de formalismo no modo como as pessoas se dirigiam umas às outras na televisão. Recordo uma entrevista conduzida por Judite Sousa na RTP em que a jornalista tratou cerca de trinta vezes o seu convidado por sôtor. Sem ninguém a ter advertido, antes ou depois, que duas vezes já é de mais.

De repente, passámos para o extremo oposto. Hoje quase toda a gente se trata por tu. Ontem à noite, uma dessas jovens certamente mal pagas mas com "bom visual" postas à frente da pantalha para apresentar alegados espaços informativos tratava por tu um convidado com idade para ser seu avô enquanto este resistia à tendência, tratando-a respeitosamente por você

São sinais dos tempos. Por óbvia importação da televisão americana, onde as formas de tratamento "igualitário" se tornaram de uso corrente, facilitadas pela inexistência de diferença entre tuvocê (you, em ambos os casos) no idioma inglês.

 

Acho muito bem que se desengravate a linguagem. Andámos demasiado tempo amarrados a pompas retóricas, em parte relacionadas com supostos graus académicos de que se usava e abusava nas formas de tratamento verbal. Hoje nem no Parlamento se emprega a antiga excelência, salvo para uso sarcástico. 

Mas há o risco de cair no exagero contrário. Reparem, uma vez mais, no que sucede nas televisões: quase todos os intervenientes num debate ou numa entrevista se tratam hoje pelo nome próprio. Como se fossem velhos conhecidos e estivessem a dialogar em ameno convívio nos sofás lá de casa. Também aqui por óbvio mimetismo dos EUA.

Já temos o "Presidente Marcelo", as bloquistas Catarina e Marisa, o comunista Jerónimo e até o cê-dê-esse Chicão. Nisto o partido fundado por Freitas do Amaral e Amaro da Costa tornou-se precursor: não tarda muito, teremos a proliferação dos diminutivos (embora Chicão pretenda ser aumentativo). Uma vez mais, seguindo o exemplo dos States, onde já houve um presidente chamado Jimmy e outro chamado Bill - que assinavam assim até em documentos oficiais. Não custa vaticinar que também por cá surgirão um Jaiminho ou um Gui na caça ao voto.

 

Enquanto isto sucede, inversamente, a forma de tratamento dos animais torna-se mais solene, grave e reverente. Verifico isso agora com frequência, quando caminho nas ruas do meu bairro. Não faltam damas e cavalheiros a tratar por você os cães que levam a passear, o que para mim constitui novidade absoluta. Nunca tinha ouvido nada semelhante, nem na Lisboa mais snobe.

«Sente-se aí, dê a pata, não seja mau, mostre como é bonito.» São exemplos de frases que vou escutando, reveladoras da fulgurante ascensão canídea na hierarquia urbana deste nosso século XXI. Por vezes atrevo-me pensar que anda tudo um bocado às avessas. Mas é capaz de ser defeito meu, por absoluta incapacidade de acompanhar a marcha imparável do progresso. 

Como qualquer de nós, vou-me adaptando. Há dias, pedi ao canário: «Canta para mim, Caruso.» Mas logo emendei: «Cante para mim.» E ele cantou.

Assim medra a novilíngua

Pedro Correia, 18.05.20

 

O novo normal que nos espera

Recuperação da economia: o "novo normal"

O novo normal nos hotéis e unidades de enoturismo

O novo normal em educação

A pandemia e o "novo normal" da distopia

 

Vivemos no reino dos eufemismos. Passamos o tempo a inventar expressões para não ferir susceptibilidades alheias. A cada passo que se dá, em cada calhau onde se tropeça, logo surge alguém aos berros, reivindicando reparação pública. 

De repente, a linguagem comum encheu-se de interditos. Patrulhas ideológicas fiscalizam a todo o momento o que dizemos, condicionando a comunicação verbal, lançando anátemas sobre inúmeros vocábulos de uso corrente e assumindo-se como poder fáctico, enquanto polícia do pensamento. 

Assim nasce e medra a novilíngua - cheia de contorcionismos semânticos, cada vez mais desligada da realidade. O mais recente é também o mais ridículo: "novo normal". Dois adjectivos que alguns pretendem elevar a substantivo. Para ocultar o significado, que é de teor oposto. 

A moda pegou - e eis que esta aberração lexical já vai sendo papagueada de boca em boca, até por jornalistas credenciados na condução de telediários. Numa espécie de mote destes tempos de linguagem fofinha e neutra, politicamente correcta: se a realidade perturba, logo se inventa um suave antónimo para a designar. 

O que em nada altera os factos, na sua evidência iniludível. Anormal. Bastam sete letras.

Plural masculino genérico

Pedro Correia, 22.04.20

Tudo quanto é mau tem um lado bom, sempre ouvi dizer.

Quase nada de bom consigo associar a esta pandemia que destrói vidas, poupanças, empresas e empregos. Excepto no linguajar oficial imposto pela correcção política, que confunde sexo com género. Acabaram, ao que parece, as incontáveis duplicações de substantivos ignorando a norma gramatical que entende como genérico o plural masculino. Andámos anos a ouvir certos políticos matraquearem a pleonástica fórmula «portugueses e portuguesas, trabalhadores e trabalhadoras, funcionários e funcionárias, todos e todas».

Isto parece pertencer já ao passado. 

Tenho escutado mais conferências de imprensa neste mês de reclusão forçada do que em todo o ano que ficou para trás. Até ao momento não ouvi ninguém dizer «infectados e infectadas, desalojados e desalojadas, detidos e detidas, hospitalizados e hospitalizadas, recuperados e recuperadas, falecidos e falecidas». O velho plural masculino afinal sempre continua a revelar utilidade na comunicação política.

Antes assim.

Ética

Pedro Correia, 13.12.17

Usa-se e abusa-se, por estes dias, da expressão "ética republicana". Ora ética, salvo melhor opinião, é daqueles substantivos que não requerem adjectivo modificativo ou valorativo.

Não existe uma ética republicana ou monárquica ou da esquerda ou da direita ou de cima ou de baixo.

Palavra de cinco letras que se basta a si própria. Ética, apenas. E fica tudo dito.

Penso rápido (86)

Pedro Correia, 07.12.17

Não gosto de ver termos que estiveram ligados a um passado de ignomínia transpostos para a linguagem comum nas redes sociais. Termos como genocídio, holocausto, nazi, colaboracionista, "solução final": tudo isto se vulgariza, no debate político actual, como quem diz que amanhã estará de chuva. Tais rótulos vão-se banalizando ao ponto de perderem por completo o significado e a sua precisão histórica. E tornando-nos cada vez mais imunes à sua verdadeira acepção, como símbolo concreto do horror absoluto.

Ponham-se a pau, Eça e Camões

Pedro Correia, 28.08.17

image[1].jpg

 

Era o que faltava à Porto Editora para se actualizar: após mais de sete décadas ao serviço da excelência do serviço público, passou a receber lições de pedagogia do poder político.

Pedagogia censória, passe o oxímoro, em nome de valores respeitáveis, como a igualdade e a liberdade. E com solene chancela oficial, que manda - utilizando o eufemismo "recomenda" - retirar duas publicações dos postos de venda. O fantasma do doutor Salazar deve emitir uns sopros irónicos lá entre os vetustos reposteiros de São Bento.

Com a diligente brigada dos bons costumes apostada em pôr multidões ordeiras e ululantes a entoar a novilíngua deste admirável mundo novo, condenando sem cuidar sequer do rigor dos factos, o vocabulário comum em democracia torna-se policiado como se vivêssemos em ditadura. E não tenhamos ilusões: esses patrulheiros não tardarão a exercer censura com carácter retrospectivo, pois só quem controla o passado é capaz de controlar o futuro. Atenção, misógino Pessoa. Toma cuidado, falocrático Eça - reles perpetuador de "estereótipos de género". Põe-te a pau, racista e islamófobo Camões.

Haja cuidadinho com as cores também. Os daltónicos, coitados, é que se tramam.

A missão do jornalismo

Pedro Correia, 16.08.17

Há dias, na primeira página de um jornal, li o seguinte título: "Dona da MEO convida mais de 50 trabalhadores a rescindir contratos".

Adoro estes doces eufemismos dos tempos modernos. Eufemismos como o dos recentes "furtos" de Tancos, pondo de lado a rude palavra "roubo", que ainda há pouco ouvíamos proferir a torto e a direito a propósito das mais diversas situações. Ou até a despropósito.

A MEO quer despedir mais de 50 trabalhadores. Tão simples como isto. E tão incómodo, compreendo. Nada que um jornal deva ocultar. Porque a missão do jornalismo é relatar a verdade, não silenciar ou camuflar factos incómodos.

Ao nível do estábulo

Sérgio de Almeida Correia, 09.12.15

A raiva é uma doença grave que ocorre, em regra, em cães e gatos, embora seja transmissível aos humanos. Manifesta-se, ao que aprendi, embora seja naturalmente um leigo em matéria de medicina, seja veterinária ou para humanos, por acessos furiosos e ataques de cólera, a que se seguem momentos de paralisia. Também pode ser o nome de uma doença das gengivas que se manifesta nas crianças.

Não sei se o deputado Duarte Marques sabe o que é a raiva para, referindo-se ao primeiro-ministro e a José Pacheco Pereira, dizer que "António Costa é menos raivoso contra o PSD do que Pacheco Pereira".

Confesso que nem queria acreditar no que li.

Duarte Marques, sendo deputado da nação, não passa de um fedelho. De nada lhe serviu ser aos 21 anos, de acordo com o seu brilhante currículo, assessor de Morais Sarmento, visto que não conseguiu aprender a escrever decentemente e a ter boas maneiras com o então ministro, como também de nada lhe serviu que Marco António Costa, vice-presidente do seu partido, se tivesse queixado do uso de linguagem imprópria e excessiva por parte do PS, acusando este partido de ter uma linguagem própria de partidos extremistas. Que dirá agora Marco António Costa da linguagem do seu colega de bancada ao referir-se ao primeiro-ministro e a Pacheco Pereira? Será linguagem própria de quem? De um rufia? De um estábulo? Do "putedo", como diria Arnaldo Matos?

Eu, que já por várias vezes me manifestei contra o tipo de linguagem usada em São Bento por alguns senhores deputados, de todas as bancadas, sublinhe-se, não gostei de ler as declarações de Duarte Marques. Bem sei que alguns dos senhores deputados, apesar de não serem asininos se comportam algumas vezes como se usassem arreios, em sentido figurado, evidentemente, mas nunca pensei que um deputado se referisse ao primeiro-ministro e a Pacheco Pereira nos termos em que o fez, como de se animais raivosos se tratassem, e ele próprio não fosse um deputado e conselheiro nacional (!) do PSD.

Nenhum dos visados me passou procuração. Nem é isso que está aqui em causa. Mas o baixo nível de que o deputado Duarte Marques volta a dar mostras, aliado à projecção que tem, pelos vistos, no seu partido com a consequente amplificação que lhe é dada pela comunicação social, não podia passar em branco.

Pela linguagem que usa, Duarte Marques revela não ter categoria nem para servir como mainato do primeiro-ministro ou de Pacheco Pereira, esquecendo-se de que são os impostos dos portugueses, incluindo os dos visados, que lhe pagam o salário para que possa dizer os dislates que diz nos termos em que o faz.

O Dr. Passos Coelho, que em matéria de educação é pessoa correcta e que não usa linguagem desbragada, devia dar uma reprimenda ao sujeito e obrigar o senhor deputado a pedir desculpas públicas aos portugueses pela linguagem que usa. E, se possível, aproveitar para lhe enfiar uma rolha e dar-lhe qualquer coisa para fazer. De preferência uma ocupação que não o obrigue a escrever e a falar em público.

Penso rápido (77)

Pedro Correia, 16.11.15

O primeiro combate ao terrorismo começa na linguagem. Não chamar "estado islâmico" ao Daesh, por exemplo.

Porque aquilo não é Estado algum: é um bando terrorista que se apropriou ilegitimamente de largas faixas de território no norte de África e no Médio Oriente, onde mutila, tortura e mata todos os "infiéis", submete as mulheres a uma opressão tirânica e tem provocado danos irreparáveis ao património cultural da Humanidade.

Além disso só por macabra ironia estes terroristas podem intitular-se islâmicos: o maior número das suas vítimas professa essa mesma fé.

Ao chamar-lhes "estado islâmico" estamos a perder a primeira batalha, reconhecendo ao bando criminoso um estatuto que não tem nem nunca terá. Porque nesta guerra também as palavras equivalem a munições.

Decifre se quiser

Pedro Correia, 07.02.14

Escrever bem, de acordo com a técnica jornalística, é adoptar a regra dos três C: de forma clara, concisa e compreensível.

O leitor não tem tempo nem paciência para voltar atrás porque não entendeu o significado daquilo que acabou de ler nem paga um jornal para decifrar charadas que lhe são servidas em forma de notícia.

Um excelente exemplo surgiu esta segunda-feira, no diário espanhol El Mundo, em texto assinado pela correspondente do jornal em Nova Iorque, María Ramírez, a propósito da súbita morte de um dos mais célebres nomes popularizados por Hollywood.

O primeiro parágrafo da notícia é um modelo de concisão e limpidez: "O actor Philip Seymour Hoffman, de 46 anos, foi encontrado morto este domingo no seu apartamento de Manhattan com uma seringa espetada no braço."

 

Pelo contrário, são cada vez mais frequentes as frases incompreensíveis na nossa imprensa - até em títulos. Frases codificadas, oriundas de um jargão tecnicista ou empresarial e polvilhadas de estrangeirismos que certos jornalistas pretendem à viva força incorporar no vocabulário comum. Esquecendo que devem ser eles a descodificar a mensagem e não o leitor a esforçar-se por tentar decifrar aquilo que se pretende comunicar.

 

 

Deparo todos os dias com frases em que prevalece o tom charadístico, numa espécie de caricatura involuntária do que não deve ser a escrita usada em jornalismo: opaca, inexpressiva, indecifrável.

Ao falar-se na crise do jornalismo contemporâneo omite-se com frequência este aspecto: a falta de capacidade para comunicar. Quando iniciei a actividade jornalística, na década de 80, os velhos tarimbeiros da redacção costumavam dizer aos novatos como eu: "Escreve de maneira a que possas ser entendido não pelo físico nuclear mas pela empregada doméstica." Utilizando, desde logo, um vocabulário acessível a todos. Precisamente ao contrário daquilo em que que tantas vezes reparo agora. Como se o mais difícil fosse escrever de forma simples.

 

Às vezes dou por mim a pensar que fazem falta esses tarimbeiros nas redacções actuais - pessoas dotadas não com títulos académicos mas com o bom senso que deriva da sabedoria comum.

Muitos dos erros que costumo anotar seriam evitados pelo olhar atento e experiente de um bom editor. Mas como evitar a propagação do erro se quem tantas vezes o comete são profissionais do jornalismo investidos das funções de direcção ou editoria?

Voltarei a este assunto, raras vezes ou nunca debatido no espaço público. Para já, ficam 50 exemplos que fui colhendo da nossa imprensa:

 

 

"falta cada vez menos para o kick-off deste jogo"

"alternar entre o aceleramento, o giroscópio e os dois joysticks"

"a proposta tem vários regimes e vários períodos de phasing out"

"o processo devia ter sido muito mais friendly user para os utilizadores"

"o event designer conta como gere a profissão"

"podia ser um storyboard"

"temos de buscar clusters de desenvolvimento"

"não se consegue compreender porque é que há este delay"

"as teorias de agenda-setting"

"criámos todo um sistema de back up"

 "downgrade sobre a dívida portuguesa"

 "o presidente fez o takeover"

"ele estaria a causar twitter storms constantemente"

"o mercado de credit default swaps atribui a Portugal uma possibilidade de default"

"case study na habitação"

"retalhistas omnichannel"

"hotel em Armação de Pêra é All inclusive"

"reestruturação de programas do daytime da SIC"

"se o governo quiser fazer um restyling, tudo bem"

"acessórios must have da estação"

"ficámos a saber o breakdown dos chumbos"

economic adviser do Governo"

"este país adora quick fixes"

"seria um trabalho de accountabillity útil"

"os estúdios a olharem ao espelho num blacklot em Hollywood"

"os respectivos artwork e streaming

"Portugal tem de descer os salários em relação ao core da zona euro"

"o partido funciona por key words"

"livrarias queer migram para a Net"

"a última filosofia para superar crises conjugais é o coaching familiar"

"sou uma fashion victim"

"vai ser criada uma safe house em Lisboa"

"poderá utilizar o crowdfunding"

"o governo não pode ceder nos valores core"

"tentativa de criação de um catch-all party"

"Ucrânia e Polónia preparam-se para o seu close-up"

"as contas são o nosso bottom line"

"Bolsa alvo de ataque de short-selling"

"ao Chelsea sai quase sempre bem o papel de underdog"

"um daft punk em pose de artes marciais"

"receio de ficar fora do loop"

"ex-ministro recomenda a criação de um imposto one shot"

"o percurso foi feito para ser TV-friendly"

"o investidor segue uma estratégia passiva de buy-and-hold"

"a dialéctica entre believers e haters"

"o cinema teve outros provocadores e outros pranksters"

"há muito ganhou o gosto do gimmick"

"anunciada por uma espécie de cliffhanger"

"este projecto é um wake up call fenomenal"

"o back-to-basics está para ficar"

 

Decifre quem quiser. E quem puder.

Das ironias

Rui Rocha, 23.11.12

Há, pelo menos, duas formas de ironia. A primeira socorre-se da linguagem, embora a tome muito para lá do seu valor facial. Quando Aníbal pede na cerimónia de entrega dos prémios Gazeta que digam que esteve mas não falou, o que propõe é um jogo que pressupõe o desvio do sentido literal das palavras que profere. É um tipo de ironia em que o proponente está aos comandos. Para que a ironia funcione é indispensável, é claro, que os destinatários participem. Que desviem o olhar interpretativo do valor facial das palavras para inquirir sobre aquilo que se quis dizer. Neste tipo de ironia há sempre algum risco. Se o proponente não tiver habilidade ou se os destinatários apresentarem uma qualquer barreira ao processo de comunicação (conhecimento deficiente da língua, desconhecimento do contexto ou segundas intenções, por exemplo) o efeito pretendido pode não verificar-se ou acontecer mesmo que a ironia acabe por residir no facto de esta se virar contra quem pretendia ser irónico. Em todo o caso, quando alguém utiliza a linguagem para produzir um significado oposto ou diferente do que decorre do sentido literal das palavras utilizadas temos sempre um proponente que aspira a controlar a informação transmitida, ainda que na prática as coisas possam, como vimos, descontrolar-se. Outras vezes, todavia, a ironia revela-se na descontinuidade entre um efeito e aquilo que seria de esperar que determinada acção viesse a desencadear. Aqui, a ironia não tem nada de voluntário. Surge sem que exista um proposta irónica inicial e intencional. A estas costumamos designá-las ironias do destino, expressão que traduz com a proximidade possível a irrupção de uma situação irónica inesperada e não controlada. Na entrega dos prémios Gazeta, a ironia que Aníbal quis produzir funcionou enquanto tal (outra coisa é saber se beneficia ou não o proponente). O sentido literal de estou calado foi transformado, remetendo para a interpretação do significado dos silêncios de Aníbal. Não deixa de ser irónico, todavia, que o Presidente tenha nesta mesma semana sido protagonista do outro tipo de ironia de que aqui se falou. Quando Aníbal refere a necessidade de regressar ao mar, à agricultura e à indústria, sendo ele quem foi, parece não se dar conta de que foi apanhado a jeito por uma ironia que surge de forma não provocada. É por essas e por outras que, mais do que ironias do destino, prefiro chamar-lhes supremas ironias.

Que se lixem as eleições

Rui Rocha, 25.07.12

Pedro Passos Coelho tem utilizado uma linguagem colorida em diversas ocasiões. Desde a referência ao pote ainda em campanha eleitoral, passando pelos piegas ou pela porcaria na ventoinha e acabando no mais recente que se lixem as eleições. Em geral, não parece um tipo de discurso apropriado à responsabilidade que lhe cabe. Não existe qualquer necessidade de acrescentar a erosão do nível da linguagem à evidente degradação da imagem das instituições. E a linguagem própria da conversa de café é absolutamente de evitar quando existe o risco de ser interpretada como um rótulo negativo que se cola à generalidade dos portugueses. É provável que nenhum erro governativo tenha afectado tanto a imagem de Pedro Passos Coelho como o célebre episódio dos piegas. Isto dito, há momentos em que a utilização de linguagem não institucional faz todo o sentido. Em situações em que o país ou os governantes se encontram extremamente pressionados e perante escolhas fundamentais, não tem o mesmo efeito utilizar termos redondos como o país está acima dos interesses particulares ou encher o peito para dizer que se lixem as eleições. No primeiro caso, trata-se de uma fórmula estafada, utilizada por todos, a propósito de tudo e de coisa nenhuma. No segundo, a coloquidalidade da linguagem introduz uma nota de novidade e tem o efeito de um murro na mesa. Aqui, a linguagem é o contexto de um subtexto que incorpora uma intenção de ruptura, um corte com práticas e políticas cansadas. Daí que o problema dessas declarações de Passos Coelho não esteja no tipo de linguagem utilizada. Pelo contrário, desaconselhável noutras circunstâncias, esta apresenta-se como totalmente adequada à crise que vivemos, à necessidade de profunda mudança e de corte com o passado. A questão está por isso na vinculação à mensagem.  A expressividade das palavras confere-lhe a natureza de um grito. Que todos ouvimos. Gritada como foi, a mensagem vincula Passos Coelho a cumpri-la nas suas acções. E vincula-nos a nós como juízes do seu cumprimento. Não há decisão que Passos Coelho venha a tomar que possa escapar do pano de fundo desse que se lixem as eleições. E não há juízo que possamos formular que não deva tê-lo em conta. Em caso de incumprimento, Passos Coelho está bem lixado.

Houaiss te pego

José Navarro de Andrade, 01.03.12

 

Acabei de ler através do site blogtailors, que recolhe a notícia no Correio da Manhã e no Diário Digital (tudo muito em rede, portanto) que o digníssimo (será este o tratamento protocolar?) procurador regional Cléber Eustáquio Neves (contém-te Zé, os nomes no Brasil são diferentes…) deu entrada no Ministério Público Federal de Uberlândia (MG) uma acção em que solicita a imediata retirada de circulação, venda e distribuição do Dicionário Houaiss.

Sendo eu possuidor de um exemplar em 7 tomos da referida obra, dei atenção à noticia, até por razões assaz egoístas e perversas, com vista ao lucro fácil, pois podia ser que os calhamaços se pudessem valorizar nos alfarrabistas.

De que se queixa o dr. Neves? Do verbete relativo a “ciganos” cujo §5 reza: “que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e §6: “que ou aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina.”

Após arrumar o tomo II "Bat-Cza", onde recolhi a citação supra, corri a verificar no tomo IV "Fre-Mer" se à apoquentação do dr. Neves não teria escapado o verbete relativo a “judeu” e “judiaria”, tendo constatado – e não vos maço mais com citações – que a ira dele poderia ir muito mais além, tendo matéria de sobra para reforçar a queixa de que o Houaiss colabora para “semear a intolerância étnica”. Será que o dr. Neves, ele próprio, sofre de preconceito, saindo em defesa dos ciganos mas negligenciando a proteção linguística dos hebreus?

Ora aqui está um caso chapado desta espécie de fascismo linguístico, que no seu puritanismo e nas suas certezas ideais, intende rasurar a utilização mundana da língua, em nome de uma adequação perfeita aos supinos conceitos que a deve informar. A minha avó, na sua profunda e rústica ignorância teológica, apodava-me de judeu cada vez que eu atirava pedras aos gatos, o que era, no dizer dela, cheia de piedade pelos felinos, uma "judiaria”. Para o procurador de Uberlândia este linguajar eticamente errado (digo eu hoje, ignorava ela, coitada, então), como não deveria ter existido, não deve ser cientificamente registado.

Pior do que o soneto do causídico é a emenda do Instituto Huaiss, que embora lá vá explicando que o dicionário deve ser o “espelho” das “ocorrências da fala”, acaba prostrando-se em desculpas e jurando que na próxima edição da obra tudo estará conforme.

Pobre avó, nunca disseste o que te ouvi dizer, e do teu desaparecido mundo rural não ficará uma vírgula que seja.

Da importância das palavras

Pedro Correia, 20.08.11

 

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de "antimuçulmano". Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de "islamófobos" e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.

Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser "laicos", nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de "Papa nazi", "assassinos", "ignorantes", "pedófilos" e "filhos da puta" com que nestes dias alguns destes "laicos" têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de "islamófobos".

Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.