Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A visão estratégica e a capacidade de actuar num prazo alargado do regime autoritário chinês constituem a maior ameaça à liberdade do mundo ocidental.

A China é implacável na aniquilação da oposição interna e simultaneamente comporta-se nas relações internacionais de uma forma respeitável. Nestes tempos da caótica e imprevisível administração Trump, a ditadura chinesa chega por vezes a parecer o garante do multilateralismo.

Perante as inquestionáveis dificuldades que as democracias liberais atravessam, a aparente ordem e previsibilidade dos regimes autoritários consegue atrair simpatias. Uns sugerem que a democracia deveria ser suspensa por seis meses, outros chegam mesmo a suspender parlamentos. Pouco a pouco, o que há meia dúzia de anos seria impensável, já é um facto.

O sistema de crédito social chinês, que pune os cidadãos não conformes e premeia os restantes, constitui o mais sinistro sistema de controle de massas de que há memória.

Dezenas de milhares de chineses foram impedidos de adquirir bilhetes de comboio ou avião durante a celebração do ano novo chinês simplesmente porque, de uma forma ou de outra, tinham ultrapassado o limite que os donos da moral consideram que não pode ser pisado. Uns por terem sido críticos do regime, outros por terem sido desagradáveis durante uma viagem de comboio, por não pagaram um dívida ou por fizeram ruído no prédio fora de horas,... os desvios são punidos.

É sabido, embora desconhecido no detalhe, a dimensão do exército de fiscais do mundo virtual chinês. São conhecidas as dificuldades levantadas aos gigantes das novas tecnologias para terem acesso ao mercado chinês. Refiro-me à Google, Facebook, Amazon, etc. A questão resume-se a terem de ajustar as suas prácticas aos ditames dos donos da moral chinesa. Ou se flexiblizam ou perdem o acesso a um mercado de mais de mil milhões de consumidores.

São diversas as fontes que referem e descrevem em detalhe como tudo funciona assim como as consequências para os desalinhados.

Vem isto para enquadrar dois exemplos que passo a relatar.

i) Há poucos dias o Público veio-nos dizer que afinal talvez esse sistema não exista. A jornalista entrevistou alguém que por sua vez questionou alguns chineses que lhe disseram desconhecer ´essa coisa´, mas ... a ideia até lhes agrada por permitir livrar o país dos corruptos.

Ao ler isto cheira-me que alguém andou a fazer uma investigação sobre um assunto, mas já sabia a que conclusão iria chegar e isso poderá ter condicionado os dados que recolheu. Cheira-me a desinformação, talvez até involuntária, mas a desinformação.

ii) Não há muito tempo, na cavaqueira com alguém que tinha acabado de conhecer e que rapidamente entendi ter um profundo sentido da política, ouvi a enormidade de que a China tinha demasiada população para que alguma vez pudesse vir a ser uma democracia. Tive de lhe perguntar em quantos milhões é que ia esse limite, até porque a Índia que a médio prazo irá ultrapassar a China nessa variável tem uma democracia razoavelmente decente.

A conversa sofreu um pequeno e curto desvio mas pouco depois uma nova carta foi posta na mesa. O confucionismo, a base cultural chinesa, não era compatível com a democracia. Por desconhecer os pilares de tal doutrina não pude contra-argumentar e fiquei com a forte impressão que tinha assistido a um belo Ctrl+Alt+Del encapotado.

Logo depois começaram as anedotas sobre a coligação PAF. Essa gente, sim, era um hino à ditadura clerical de Salazar e uma ameaça à liberdade conquistada em Abril.

Todos estes assuntos foram abordados quase em sequência, de onde pude extrair que, para alguns pensadores da nossa esquerda, o regime chinês é aceitável e simultaneamente uma coligação da direita portuguesa pode ser uma sinistra ameaça. Chegamos a isto.

Julgo ser da natureza humana uma reacção relativamente frequente a que chamo o sindrome da esposa enganada (que também pode ser do marido). Há coisas em que não acreditamos simplesmente porque não queremos que sejam verdadeiras. Não as enfrentar é uma forma de negar que existam. Nada resolve, mas alivia.

Encontro traços deste fenómeno nos dois casos.

Para quem duvidar que se vão criando condições para um recuo efectivo no leque de liberdades que exigimos ao nossos regimes, pode ainda escutar com atenção o silêncio dos senhores e senhoras que se emocionam na parada do feriado de Abril. Fecham os olhos ao discursar, para esconder a emoção, mas continuam em silêncio perante o combate que se trava em Hong Kong. É nesta antiga colónia britânica que neste momento está localizada a fronteira da liberdade.

Esta fronteira da liberdade vai de tempos a tempos mudando de região. Há 80 anos - faz hoje 80 anos - essa combate travou-se na fronteira da Polónia invadida pelas tropas nazis. Ao longo dos seis longos anos da Segunda Guerra Mundial, a fronteira da liberdade sempre coincidiu com a linha da frente da batalha. Passou por El Alamein, pela Sicília, pelas linhas Gótica e Gustav, pela Normandia, pelas Ardenas até ao histórico aperto de mão no Elba. Foi mudando de região e desde 25 de Abril de 1974 até ao 25 de Novembro do ano seguinte andou pelos nossos lados. Actualmete está em Hong Kong. Será que alguma vez passará por Macau? Qual seria a a reação dos nossos governantes? Será que os eventuais dissidentes se fariam representar com a nossa bandeira, tal como o fazem com a Union Jack em Hong Kong? Num cenário hipotético como esse, poderia ser a nossa bandeira um possível símbolo da liberdade?

O mundo ocidental continua a ser o refúgio preferido dos dissidentes de todo o mundo, porque, apesar de já não ser a região mais poderosa do globo, continua na linha da frente na garantia das liberdades individuais.

Não temos pessoalmente nenhum mérito nisso (eu pelo menos não tenho!) mas apenas temos a sorte de por aqui ter nascido. Alguém no passado lutou por isso e nós somos os seus beneficiários líquidos.

Perante tudo isto concluo que existe espaço na opinião pública no mundo ocidental para uma efectiva redução do respeito pelas liberdades individuais.

Dia após dia, entre a aparente ordem das ditaduras e a imprevisibilidade quase caótica dos parlamentos, o apego à liberdade vai adquirindo uma plasticidade que não augura nada de bom.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Censuras

por João André, em 05.10.18

Há um anónimo que, num post meu mais abaixo, perguntou «Quando é que o Delito de Escumalha vai parar de censurar comentários anti-fascistas?».

 

Não o aceitei e foi removido. Esclareço:

1. Sou de esquerda e detesto o fascismo ou outros totalitarismos.

2. Sou a favor da liberdade de expressão.

3. Sou a favor de trocas de ideias de forma honesta, france, e educada.

4. Não retiro a liberdade de expressão a ninguém.

5. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria retirar a liberdade de expressão a ninguém: não tenho poderes para tal.

6. Vejo o Delito de Opinião é uma casa, com cada pessoa responsável pela sua divisão.

7. Na minha divisão imponho eu as regras. Quais? Ver acima.

8. Quem não respeitar as regras da minha divisão não se expressa nela.

9. Quem quiser expressar-se de uma forma que eu não aceito, pode sempre fazê-lo noutras caixas de comentários (se os responsáveis o aceitarem), no seu próprio blogue, no Facebook, Twitter, etc, nas caixas de comentários de jornais, em artigos de jornais, em anúncios de jornal, com partidos políticos, em cima de uma caixa no Speakers' Corner, etc, etc, etc.

 

No post em questão aceitei comentários com os quais discordo de forma veemente, mas não os censurei porque não eram ofensivos. Considero os fascistas (não é o mesmo que dizer "a direita") essencialmente um nojo, mas igualmente o considero os "anti-fascistas" que julgam poder atropelar todas as regras de decência de uma sociedade normal.

 

Espero que esteja claro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Weburrice

por Pedro Correia, em 18.08.18

Martine Le Pen é criticada, e com razão, por ser defensora de ideias proto-totalitárias, presumível adversária da democracia liberal e suposta arauta de severas restrições à liberdade de expressão.

Ora os liberalíssimos mentores daquela coisa chamada Web Summit, que a tinham convidado a palestrar na edição deste ano e logo receberam críticas dos censores de turno, sempre prontos a soltar prantos de indignação nas redes, apressaram-se a desconvidá-la. Perdendo assim uma excelente oportunidade de demonstrar de viva voz, à dita senhora e a cada um de nós, a superioridade da democracia liberal em vigor no espaço comunitário europeu, que permite e fomenta o salutar confronto de ideias.

Ao cultivarem o pensamento unidimensional, fechando a porta a quem contesta as sociedades abertas, exibem assim um comportamento similar àquele de que acusam a antiga candidata presidencial francesa. E acabam por lhe dar um inesperado trunfo.

Weburrice, portanto. Passe o neologismo de ocasião, que visa afinal algo quase tão velho como o mundo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Morte de Estaline não passa em Moscovo

por João Pedro Pimenta, em 05.02.18
Se alguém tinha dúvidas quanto ao carácter da "democracia musculada" russa pode perder qualquer ilusão. É demasiado músculo para tão pouca democracia. Depois do principal candidato da oposição, Alexei Navalny, ser afastado da corrida por ter recebido ordem de prisão (por duvidosos desvios de fundos, uma coisa que por coincidência acontece sempre aos opositores de Vladimir Putin quando se tornam mais mediáticos), as autoridades russas proibiram a distribuição do filme "A Morte de Estaline", uma comédia sobre o desaparecimento do Pai dos Povos" e os dias atribulados que se lhe seguiram. Parece que o filme "promove o ódio" e  é "extremista e ofensivo".
 
Ainda só tive acesso ao trailer do filme, que ainda não chegou a Portugal. Pelo que se vê e lê, a obra, com realização do escocês de nome improvável Armando Ianucci e elenco onde constam Steve Buscemi, Michel Palin e Olga Kurylenko, é uma sátira descabelada e truculenta ao regime soviético e muito particularmente ao estalinismo e à luta pela sucessão, que não ficou muito a dever ao que se passava  na Rússia dos boiardos. Como é óbvio neste tipo de filmes, há grande ridicularização de personagens e de situações reais e exageros constantes. Por isso é que é uma sátira.
 
Não o entenderam políticos, cineastas, historiadores e demais autoridades culturais russas, que consideraram que o filme era insultuoso e conseguiram impedir a sua exibição. O único cinema que se atreveu a fazê-lo, em Moscovo, viu-se invadido pela polícia que pôs logo ali termo à sessão.
 
Sempre me intrigou a ausência de cinematografia sobre o período soviético e o estalinismo, em contraponto aos que existem sobre o nazismo e o Holocausto. De certa forma percebe-se: o material necessário, incluindo fontes de arquivo e mesmo alguns cenários, estão na Rússia. A ideia de Estaline como vencedor da "Grande Guerra Patriótica" ainda está muito presente, e não é de bom tom passar filmes que o critiquem explicitamente, e menos ainda que o ridicularizem. Mas isso também mostra o desapego à liberdade de expressão que parece não afectar a maioria dos russos. Imagine-se que filmes que ridicularizassem Hitler e o nazismo eram censurados na Alemanha, ou mesmo aquela cena do Untergang, satirizada vezes sem conta no Youtube, com legendas diferentes consoante o objectivo. Ou que o Capitão Falcão, comédia recente sobre um super-herói do Estado Novo, em que até vemos um Salazar em habilidades culinárias, era considerado "insultuoso" e por isso proibido de ir às telas. Pergunto-me o que se diria nestes países. Ou o que pensariam os admiradores locais de Putin e das "democracias musculadas" (ou "iliberais") se tais coisas acontecessem.
 
Por mim, tenciono ir ver A Morte de Estaline quando chegar às salas portuguesas. Pela curiosidade que graças às autoridades russas me despertou. E porque tem Michael Palin no elenco (como Molotov), que é razão mais que válida para comprar o bilhete.


Autoria e outros dados (tags, etc)

mapa.jpg 

(Assinalados a vermelho os países com regime comunista em que foi respeitada a liberdade de expressão)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estão a ver como é fácil? Tanta conversa e afinal não precisamos de recorrer ao "marreco", ao "coxo" e ao "mariconço" para fazer piadas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Fernanda está cheia de razão

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.16

Calculo que sei ao que ela se está a referir. Aquela coisa miserável a que um fulano tão presunçoso quanto egocêntrico deu o nome de livro para poder trair a confiança que terceiros lhe depositaram pensando que estavam a falar com uma pessoa de bem. Se, agora, aquilo que a Fernanda conta for o que estou a pensar, há magistrados que deviam estar a tratar do batatal. Uma filha da putice será sempre uma filha da putice, qualquer que seja o destinatário e por muito que eu possa não gostar dele, e não se confunde com a liberdade de expressão. Era só o que faltava.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Food for thought (2)

por José Maria Gui Pimentel, em 02.09.16

Partilhei aqui, recentemente, um retrato dos EUA enquanto "post-genocidal society", uma análise muito útil à compreensão da reemergência do racismo na América contemporânea.

 

Mas há outro tema, tangencial a essa questão, que me tem invadido cada vez mais o espírito: as novas ameaças à liberdade de expressão. Se, historicamente, o inimigo por excelência da liberdade de expressão era a censura activa imposta pela minoria no poder, actualmente a manifestação livre das opiniões encontra-se ameaçada por um fenómeno mais suave, mas crescente: uma maioria - ou minoria ruidosa - politicamente correcta, cada vez mais vocal, sobretudo, nas redes sociais. Têm sido recorrentes episódios, mais ou menos triviais, de comentários que suscitam a indignação geral, desde a piada de Jose Cid* sobre os transmontanos, ao comentário de Quintino Aires sobre os ciganos, passando pelas inenarráveis diatribes de Pedro Arroja, entre outros.

 

É uma questão que tem gerado mais debate no mundo anglo-saxónico, mas que reencontrei a propósito de um debate que juntou Fernanda Câncio, Daniel Oliveira (o que não ouve olhos) e Ricardo Araújo Pereira, a propósito do livro Trigger Warning: Is the Fear of Being Offensive Killing Free Speech?, de Mick Hume. Um debate tão acalorado – o que é particularmente interessante dada a presença de três incontestáveis esquerdistas – que de uma primeira versão na Feira do Livro gerou um encore na Antena 3

 

Ricardo Araújo Pereira defendia (apaixonadamente, diga-se) a posição do autor, jornalista britânico, que vem insurgir-se nesta polémica essencialmente contra a percepção crescente da existência de um direito à indignação maciça contra afirmações consideradas "ofensivas" proferidas por um indivíduo. Argumenta Hume que esse direito à ofensa extravasa aquilo que a legislação que protege a liberdade de expressão prevê, podendo, por conseguinte, ao mesmo tempo que impede a disseminação dos 9 em cada 10 comentários imbecis e ofensivos, coarctar o debate livre de problemas e ideias, bem como a própria criatividade.

 

O efeito da mordaça identificada por Mick Hume não é, evidentemente, comparável com a situação da liberdade de expressão noutros tempos e, mesmo actualmente, noutras geografias. No entanto, o autor identifica uma tendência - agudizada pela conspicuidade das redes sociais - que não deixa de dar que pensar.

 

Finalmente, vejo nesta questão uma ramificação mais premente: a emergência de políticos radicais, como Donald Trump nos EUA (daí a tangente deste tema ao primeiro). Com efeito, a ditadura do politicamente correcto vinha forçando, nos últimos anos, os candidatos a um discurso artificial e redondo. Trump veio contrariar abertamente esse discurso, com uma retórica sem freio mas que é vista por muitos apoiantes como genuína.

 

* Cid tem, ironicamente, pouco de que se queixar; há anos que diz as maiores enormidades à frente de microfones (lembro-me de um comentário semelhante sobre os chineses, povo felizmente menos dado a protestos). 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Charlie à água

por João Campos, em 22.06.16

Contaram-me o episódio cedo, mas só há pouco vi as imagens de Cristiano Ronaldo a tirar o microfone da mão do jornalista da Correio da Manhã TV e a atirá-lo para um lago (ao microfone, não ao jornalista). Ligo o computador e, nas poucas redes sociais que frequento, vejo gente a delirar com o acto do capitão da selecção portuguesa. Que foi bem feito (perante tão atrevida pergunta: Ronaldo, preparado para este jogo hoje?). Que a CMTV merece isso e pior. Que mesmo bom seria ver Ronaldo a atirar todos os microfones da CMTV para a água. Que o Correio da Manhã "comete crimes todos os dias" (a sério). E o meu facebook é muito restrito; nem faço ideia do que se andará a dizer nos twitters, nos comentários do youtube ou das notícias dos jornais online. 

 

Lembra-me aquela ocasião em que tanta gente aplaudiu de pé Marinho e Pinto pela "repreensão" a Manuela Moura Guedes há uns anos na TVI. Porque a emissora de Queluz praticava um mau jornalismo, porque Moura Guedes era agressiva, porque - pecado capital! - tinha "opiniões" (só os mais distraídos terão ficado surpreendidos quando o herói de tanta gente naquela noite acabou por se revelar num demagogo de primeira ordem, felizmente reduzido à sua irrelevância numa eleição recente).

 

Seria decerto interessante saber quantos destes maduros que hoje aplaudem Cristiano Ronaldo pelo arremesso do microfone também aplaudiram Marinho e Pinto naquela ocasião. Mas mais interessante ainda seria saber quantos dos que hoje verberam um jornal e um canal de televisão nas redes sociais foram "Charlie" nas mesmas redes sociais, manifestando-se pela liberdade de imprensa e de expressão perante um ataque atroz a ambas. É que são justamente estas liberdades que, afinal, defendem de forma tão cínica como selectiva: se for aquilo que consideram ser "bom jornalismo" (e isto é tão subjectivo!), deve ser protegido de tudo e de todos; já se for mau jornalismo, merece ser silenciado por demagogos e futebolistas, merece escárnio na irrelevância dos púlpitos virtuais, merece uma extinção que só peca por tardia. Sem perceberem que a liberdade de imprensa abrange tanto tablóides como os ditos "jornais de referência", ou que a liberdade de expressão não é compatível com os humores variáveis das trincheiras onde toda a gente se enfia em fúria hoje em dia: é aceitarmos ouvir palavras com que concordamos e palavras das quais discordamos. 

 

No fundo, sem perceberem que só dão força àqueles que mais desprezam estas e outras liberdades.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em flagrante dislate

por Pedro Correia, em 01.06.16

Vivemos submersos em diluviões de retórica suscitada pelos mais irrelevantes temas. Ontem, ao  que me dizem, o dia nas redes sociais foi preenchido por refregas verbais em torno das declarações de um popular cantor a um canal de televisão que ninguém ouve nem ninguém vê. Rasgaram-se as vestes e flagelaram-se as carnes a propósito de uma frase polémica da pessoa em causa como se tivesse sido proferida na véspera. Acontece que eram extraídas de uma entrevista de 2010. Os responsáveis do dito canal, em concorrência directa com a RTP Memória e conscientes de que bastam duas semanas bem preenchidas com política e futebol para dissolver lembranças colectivas, decidiram ressuscitar o morto – isto é, recuperar a entrevista de há seis anos e devolver-lhe honras de antena, fomentando a ilusão de que se tratava de matéria nova.

E tudo aconteceu como se assim fosse. Alguém por engano espreitou aquilo e lembrou-se de incendiar as redes com afrontamentos de indignação. Logo as labaredas varreram essa pradaria que a todo o momento perverte o nobre adjectivo “social”, sem ninguém se interrogar sequer se havia justificação para envolver palavras velhas com erupções de fúria nova.

O resultado não tardou: muitos daqueles que em Janeiro de 2015 se apressaram a pôr a mão no peito dizendo que eram “Charlie” estiveram agora na primeira linha do apedrejamento em rede ao tal cantor, esquecendo as efémeras juras de fidelidade eterna à liberdade de expressão formuladas há menos de ano e meio também em coro afinadinho. Na linha daquele sindicalista que, confrontado há dias pela primeira vez com uma farpa análoga às saraivadas de palavras que costuma disparar contra terceiros, ergueu o dedo virginal em riste mandando anunciar que iria recorrer aos tribunais para reparar o orgulho ferido.

A este, que também andou armado em "Charlie", recomendo a leitura de um estimulante artigo de Francisco Teixeira da Mota sobre a amplitude do direito à crítica nas democracias liberais. Aos outros, que apelam ao linchamento reputacional de figuras públicas apanhadas em flagrante dislate, limito-me a sugerir que apliquem a estas questões a banalíssima regra dos iogurtes: reparar na data antes de consumir. Evitando palrar primeiro e só pensar depois.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesos e medidas

por Ana Vidal, em 25.05.16

"Não gosto de fanatismos, porque nos cegam. Quem defendeu como nós a total liberdade da imprensa e pintou na cara a bandeira francesa quando surgiu a tragédia do Charlie Hebdo, porque se indigna agora ao rubro com um anódino cartaz em que Mário Nogueira vestido de Estaline puxa os cordelinhos a um ME marioneta? Porque o cartaz é da JSD? Porque Mário Nogueira é sacrossanto, intocável e sagrado? Porque é proibido fazer humor com políticos e com sindicatos? Afinal não queremos liberdade de imprensa? E é proibido rir?"

 

(Teolinda Gersão, na sua página do facebook)

 

A verdade é que muita gente ainda não integrou bem o conceito de liberdade de expressão, por isso lida mal com ela quando não é praticada pelos "seus". E quando a esta se associa o humor, tudo piora ainda mais.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Charlie

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.01.16

charlie_hebdo_aF1GJdW.jpg

On n'oublie jamais. On ne peut pas oublier. É preciso lembrá-lo, hoje e sempre, em qualquer lugar e a qualquer hora. A provocação é um direito que importa defender. Longa vida ao Charlie Hebdo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ponto de ordem à mesa

por Rui Rocha, em 14.10.15

Afirma-se por aí uma corrente de opinião que, sob a capa da proclamação sempre bem intencionada da abertura de espírito e da promoção da diversidade de opinião, mais não é do que uma tentativa não assumida de condicionar a liberdade de expressão e de pensamento. De acordo com a dita corrente, as vozes que questionam soluções governativas suportadas no PCP são provenientes de homens das cavernas, de gente ressabiada, de ratazanas que se movimentam nas profundezas da ignomínia e que agora, dizem, saem da toca e se revelam na sua ignóbil dimensão. Pois bem. Aqui vai, para que fique claro. Não admito, a quem quer que seja, onde quer que seja, que limitem a minha liberdade de manifestar a minha profundíssima objecção às soluções preconizadas pelo Partido Comunista Português, ao longo da história e hoje que estamos a falar (pouco mudaram como sabemos e aí estão o seu programa e os seus órgãos oficiais que não me deixam mentir). Não me revejo, para não ir mais longe, no planeamento econonómico central, no esmagamento do indivíduo pela linha do partido, no colectivismo opressivo, no igualitarismo falso e castrador ou em modelos politicos como os que são impostos na Venezuela, em Cuba ou na Coreia do Norte. Respeito, naturalmente, o exercício democrático expresso no voto livre e sempre, sempre, a liberdade de expressão. Exijo não menos respeito pelo direito de pensar e de dizer o que penso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

António Costa por quem o conhece

por Rui Rocha, em 02.05.15

Ascenso Simões


João Tiago Silveira


José António Cerejo


João Tocha

Nada disto é novo, nem deve espantar, portanto. Como dizia o outro, habituem-se. Se quiserem... E, a propósito, o Quixote da ERC e a classe jornalística andam distraídos a banhos por estes dias? É que nem sequer está bom tempo...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Desnorte e hipocrisia

por Rui Rocha, em 24.01.15

Pelo visto, um gajo com 16 anos foi detido em França sob a acusação de defender o terrorismo. O delito que cometeu foi a publicação no Facebook do cartoon que podemos ver à direita. É preciso ser claro. O pior que pode acontecer na sequência da carnificina de Paris é trilhar de forma acéfala um caminho de restrição das liberdades. O lugar dos criminosos é na prisão. O dos idiotas, insensíveis, desbocados, escabrosos, blasfemos ou javardos, só por o serem, e por muito que o sejam, não.

charlie hebdo.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Paixão segundo Francisco

por Rui Rocha, em 21.01.15

Naquele tempo, enquanto os soldados romanos o crucificavam, Jesus olhou os Céus e disse:

Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que fazem.

Mas logo ali continuou:

Agora, em verdade Te digo; se estes cabrões dos romanos abrirem o bico para dizer uma palavra que seja sobre minha Mãe, estrelinha que os guie, que deslargo-me da cruz e acerto-lhes um arraial de porrada naquelas trombas que ainda ficam todos roídinhos de saudades do Obelix.

 

(Os mais atentos constatarão que o post é repetido. Pois é. O ponto é que o Papa Francisco também veio dizer outra vez o que já antes tinha dito. Apesar de alguns lhe chamarem esclarecimento. Na verdade, nem sequer é bem a mesma coisa. É pior. Porque na versão inicial sempre estava em causa, em sentido figurado, a senhora sua mãe. E agora, se virmos bem, o que está em causa é uma formulação geral dirigida a qualquer tipo de sátira ou provocação. Perante a carnificina de inocentes, o Papa, em lugar de dedicar o seu tempo e o seu verbo a condenar radicalmente a bárbarie, prefere teorizar sobre a liberdade de expressão. Este relativismo moral de quem professa a crença no absoluto é francamente inadmissível. A insistência na ideia de provocação, num contexto destes é, ela sim, uma verdadeira blasfémia contra o valor sagrado da vida humana. Que cresce com a reiteração intencional do que já tinha sido dito. Perante inocentes trucidados, o Papa opta pela via corporativa de defesa do edifício intocável das religiões e investe na elaboração de uma tese que, queira ou não, acaba sempre na cedência à ideia da responsabilidade da vítima. Perante a bárbarie só pode existir condenação sem mas nem meios mas. Se virmos bem, a repetição do post é coisa bem pouca perante uma posição que é, falando sem rodeios, uma vergonha).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Je suis Bordalo

por Pedro Correia, em 20.01.15

800px-Os_Messias,_caricatura_de_João_Franco_e_Ber

 

d. carlos e ranha vitoria[1].jpg

 

1314768317854_f[1].jpg

 

07381.040.015[1].jpg

 

10617701_PCBCu[1].jpg

 

finança[1].jpg

 

10617711_iYoOD[1].jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Oxford University Press, uma das maiores editoras do mundo, começou a avisar os autores de livros escolares para banirem a palavra “porco” ou qualquer referência ao animal. O objetivo é não ofender judeus e muçulmanos, já que para ambas as religiões o porco é considerado um animal impuro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Islão e a Europa (1)

por João André, em 10.01.15

E pronto. Bastaram uns dias e a esquerda já tem culpas no cartório. Até me admirei isto não ter aparecido mais cedo. A esquerda são aqueles tipos que comem criancinhas (não muçulmanas) ao pequeno almoço e que cometem esse pecado incrível de querer compreender as causas dos actos de indivíduos. Que disparate. Como se atrevem? Deviam era exercer o seu "direito ao silêncio" (adoro esta expressão novolinguística). Nem vale a pena explicar porque razão tais comentários seriam em si mesmos uma tentativa camuflada de limitar aquilo que pretendem defender.

 

O princípio de quem ataca esse tipo de declarações parece ser simples: os atacantes eram terroristas com ódio à liberdade de expressão do jornal e cartoonistas pelas suas aparentes injúrias ao Islão. Porque razão o fizeram? Porque eram terroristas. Porque razão eram terroristas? Porque o fizeram. O argumento anda, mais ramificação menos ramificação em torno des lógica (sic).

 

A muita gente dá jeito manter uma imagem monstruosa dos atacantes. Não são verdadeiramente humanos, são monstros com noções de cultura completamente díspares das nossas. Deveríamos era construir muros/deportá-los/prendê-los/massacrá-los (riscar o que não interessa). Quem são eles? Pois... eles, os terroristas. São muçulmanos, não é? Esses. Pois.

 

A desumanização do outro lado é truque tão antigo como a humanidade. Essa desumanização pode ser feita pelo lado da cor, cultura, raça, religião, ideologia, idade, etc. É a melhor forma de garantir a hostilidade. Infelizmente é também falsamente execrável. Qualquer ataque às tentativas de entender os possíveis motivos dos terroristas/assassinos (não riscar nenhuma opção) é não só um mau serviço à liberdade que se pretende defender, é também altamente contraproducente. As teorias para explicar o racismo ideológico, o ódio religioso ou a rejeição cultural de um grupo ou indivíduos podem estar completamente erradas. Sousa Santos poderá estar a dizer disparates atrás de disparates. Só que isso não sucede por tentar explicar.

 

Infelizmente ainda domina um conceito estranho que parece defender que é possível ser-se inatamente racista (seja lá qual for a forma que o racismo assuma) e que impede a análise destas mentalidades. Infelizmente não o somos (as coisas seriam mais simples) e há sempre razões sociais e individuais para os actos como os desta semana em França. A melhor forma de impedir a sua repetição é precisamente compreender aquilo que lhes deu origem. Não estamos a desculpar os terroristas, estamos a tentar evitar que outros surjam. Não o fazer seria o mesmo que condenar o virús do ebola por ser mau e não tentar compreender como evitar novos surtos.

 

Como o Pedro escreveu, não somos todos Charlie. Evitei tais facilitismos no meu texto por isso mesmo. Somos humanos. E, por muito que muitos o queiram ignorar colocando a cabeça na areia, os terroristas também o eram. Por isso são perigosos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quanto mais me matas, mais me rio de ti

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Wolinski sale con, esta nem de encomenda...

Educado numa dieta de Tintin e Pilote, quando nos fervores de 74 me caiu nas mãos o voluminho “Ils ne pensent qu’à ça” de Wolinski, recuámos horrorizados, eu e o meu puritanismo revolucionário de então. Um tarado que se dizia de esquerda, como toda a gente à época, publicava (e logo na esmerada In Folio da Gallimard) um punhado de cartoons verdadeiramente ordinários e meramente provocatórios, abusadores da “liberdade burguesa” mas sem uma “perspectiva” (como se dizia) de libertação, vinhetas machistas, onanistas e solipsistas, repletas de mulheres-objecto e homens falocratas.

Mais tarde dei conta dos antecedentes desta pouca vergonha: o efémero pasquim “L’Enragé”, nascido nos contra-tudos do Maio de 68 de parceria com outros delinquentes da estirpe de Siné, Cabu, Topor e Williem. Um radicalismo quase niilista, à margem de qualquer disciplina, com o fito exclusivo de irritar o burguês francês (e, mon Dieu, nunca houve burguês como o francês), ou seja, sem apontar “alternativas”, “atitude indispensável” para uma “política consequente e transformadora” – estão a ver pelas aspas no que deu hoje a esquerda de antanho?

Pois este Wolinski nunca desde então moveu uma palha para cá dos limites da ordinarice, dos ataques pessoais, da piada porca, do insulto rasca, ou seja dos indefinidos confins da liberdade de expressão.

Morrer desta maneira aos 80 anos foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. Abençoados terroristas que transformaram Wolinski no produto supremo da nossa civilização, a única – sim é etnocentrismo – capaz de aceitar com simples um c’est la vie a obra deste genial bandalho.

Wolinski, a partir de hoje serás o meu herói e quando me vierem falar de liberdade, terei um argumento atómico: "permitirias um Wolinski?" Menos que isto não interessa.

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D