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Delito de Opinião

A gravidez e o gato de Schrödinger

Diogo Noivo, 07.03.21

No nosso vizinho Estado Sentido, o Samuel de Paiva Pires assina um interessante 'postal' sobre a relação tortuosa de parte da direita nacional com o Partido Comunista Português. Muitas das razões aduzidas parecem-me acertadas, desde logo porque bem fundamentadas.

Contudo, creio que o argumento coxeia quando argui que o respeito dos comunistas pelas regras do jogo demoliberal basta como credencial democrática. Discordo: no quadro de um Estado de Direito, a aceitação das normas e procedimentos democráticos constitui um mínimo olímpico. De resto, os partidos e movimentos que os rejeitam são normalmente proibidos por disposições constitucionais.   

As democracias não se distinguem dos demais regimes por força dos procedimentos que adoptam, mas por via dos valores e princípios nos quais se sustentam. Dito de outro modo, o voto e os parlamentos não são exclusivos de regimes democráticos, mas os direitos, liberdades e garantias sim. Acresce que as convicções democráticas, tal como a gravidez, operam numa lógica binária: ou existem, ou não existem. Não dá para estar mais ou menos grávido.

O que nos leva de volta ao PCP. É evidente que os comunistas portugueses aceitam com zelo e escrúpulo os termos do jogo demoliberal, embora a forma como se pronunciam sobre violações gravosas de Direitos Humanos noutras latitudes nos faça duvidar da sua adesão aos valores e princípios nos quais se fundam as democracias. De facto, do comunismo português sobrevém o paradoxo de ser democrático dentro de portas e manifestamente autoritário noutras paragens. É o nosso gato de Schrödinger.

Tem razão o Samuel quando escreve que parte da direita portuguesa ainda não percebeu que o muro caiu. Porém, o “Fim da História” não foi exactamente o prometido. As democracias europeias estão sob acosso à esquerda e à direita, donde importa defender a adesão aos valores democráticos, pois a aceitação dos procedimentos resume-se muitas vezes a lip service. Há, de facto, muita gente que não percebeu 1989, mas não estão todos na direita.

Liberdade sobre rodas

Paulo Sousa, 06.03.21

O auto-caravanismo como modo de viajar livremente e fazer turismo em Portugal está definitivamente ameaçado.

O novo Código da Estrada, que entrou em vigor no início de 2021, proíbe no seu artigo 50.º-A a pernoita no interior de uma auto-caravana. Continua a ser permitido pernoitar dentro de um carro de passageiros, dentro de um pesado de mercadorias, sobre um veículo de tracção animal e até no chão em cima de uns cartões, mas passou a ser proibido fazê-lo dentro de um veiculo equipado para dormir no seu interior.

Na literatura juvenil dos meus tempos, lembro-me do livro “Os cinco e o circo”. É o quinto livro da colecção, que guardo com gosto, e que ando a ler, um capítulo por serão, à minha filha. Nessa história, que no dia que os donos do discurso correcto dela tiverem conhecimento não hesitarão em inclui-la no novo index, os quatro jovens e o seu cão passeiam em duas roulotes de tracção animal e cruzam-se com uma companhia de circo. No longínquo tempo em que a acção decorre, imagino que seja algures nos anos 50, a ausência de supermercados faz com que eles vão de quinta em quinta comprar comida. Mesmo sendo menores de idade, as personagens conduzem os animais que puxam pelas roulotes, decidem onde dormir e comer, e passam vários dias sem dar notícias à família. Nos dias de hoje, apenas pais irresponsáveis e potencialmente sinalizados pela Segurança Social permitiriam tal coisa.

Bem sabemos que o mundo mudou. Apenas o título do nono livro da colecção, “Os cinco e a ciganita”, tinha hoje potencial para abrir um telejornal. Durante a acção, o David – Dick no original – anda aos murros com o sujo e desgrenhado João, e só mais tarde entende que o João é afinal uma Maria João. Fica embaraçado porque não se deve bater em raparigas. O seu maior incómodo não resulta do facto de se tratar de uma cigana, mas sim o facto de ser uma rapariga. Enid Blyton, a autora, que hoje seria igualmente proscrita, consegue assim nesta personagem misturar vários ingredientes que agora exigem a maior delicadeza e pudor. Esse arrojo, certamente involuntário, ainda é mais central pela forma como trata a personagem principal que é a Zé, a Maria José - Georgina no original. Quem leu os livros recorda-se bem de que se trata de uma rapariga que, por se recusar à fragilidade associada ao sexo feminino, tenta passar-se por rapaz.

Nesse tempo longínquo uma pessoa com mau feitio e teimosa não era mais que uma pessoa com mau feitio e com forte personalidade. Saltando para actualidade, essa mesma pessoa foi reduzida a uma enciclopédia de psicologia dentro de umas peças de roupa.

Este é nosso tempo. É o tempo em que um governo gasta dinheiro suficiente para desenvolver um projecto espacial, numa empresa como a TAP, com o argumento de que é esta empresa que nos garante a entrada de turistas no país, e no mesmo dia defende a construção de um novo aeroporto porque o actual não é (não era) suficiente para a forte procura das companhias aéreas estrangeiras. Diz ainda que o turismo é tão importante para a nossa economia que é necessário proibir os auto-caravanistas de pernoitarem dentro das suas auto-caravanas, salvo em locais permitidos e formatados para tal efeito.

As queixas deste artigo 50.º-A tem sido muitas. Cristina Mendes da Silva, em nome do governo e do PS concorda que o auto-caravanismo é muito importante para o nosso país mas a lei que temos é esta. Com a honestidade intelectual a que estamos habituados, mistura o combate à pandemia com a nova lei, como se o auto-caravanismo não fosse, até em termos epidemiológicos, uma forma segura de passear.

Entende-se que a hotelaria não aprecie o turismo itinerante e que possa aplaudir esta nova lei, mas será que após o confinamento, o que restar da nossa excelente restauração, nomeadamente fora dos grandes centros turísticos, não lamentará que estas casas sobre rodas, nacionais ou estrangeiras, possam escolher ficar ou dirigir-se apenas para Espanha e para lá deixarem o IVA e ISP dos seus consumos?

Preocupados em salvar o turismo e em combater a pandemia, só no primeiro mês desta nova lei, as autoridades “detectaram” 60 infracções e arrecadaram uns bem pedagógicos 3.540€.

Para quem conhece o espírito de liberdade associado ao turismo itinerante, tudo isto não é mais que (mais) um atentado à liberdade.

Recompensa pela desilusão

Paulo Sousa, 16.01.21

A voz rouca do motor bicilíndrico quase que gritou quando enrolei o punho do acelerador. Em poucos metros já rolava velozmente numa sequência de curvas pela Estrada da Beira a fora. O sol estava esplendoroso, incidia de viés, sem perturbar a visibilidade, afinando quase ao máximo a intensidade das cores. O efeito pendular invertido da chamada força centrífuga, mudando de direção em cada curva, combinado com a velocidade e contrariado pela resistência aerodinâmica, era inebriante. Seria difícil melhorar aqueles instantes.

De repente tive a sensação que estava a conduzir na Capadócia, onde nunca estive.

Na primeira paragem, quando me apercebi, alguém tinha levado a mota. Como é que era possível? Adiei anos a aquisição daquela máquina. O acordo comigo próprio era que só o faria depois de ter os filhos criados. Pelo mesmo valor poderia adquirir um todo-terreno usado, talvez até um daqueles ingleses com uma personalidade vincada, e quando conseguisse inventar meia dúzia de horas livres, punha a malta toda lá dentro, subiríamos montes e atravessaríamos vaus com água até as rodas desaparecerem. Esse era o plano.

Como é que, depois de a ter, eu tinha deixado que alguém me levasse a mota?

 

Alguns instantes depois tomei consciência que estava apenas a sonhar.

Fonix! Ainda não foi desta que comprei a bike!

Que desespero! Que desapontamento!

 

E agora quem é que me compensa deste prejuízo?

Guardo esta frase de uma reportagem televisiva feita num inverno em que o repórter informava o país que em Dezembro estava frio. Serviço público, portanto.

Ao entrevistar uma senhora que se tinha espetado contra uma árvore depois de ter travado no alcatrão gelado, ela, indignadíssima, quase gritou aquela frase: “E agora quem é que me compensa deste prejuízo?” Aquilo soou-me como sendo um apelo a um subsídio qualquer, na senda do que é habitual ouvirmos após cada cheia ou vendaval.

Se achamos que cabe ao estado compensar-nos destes infortúnios, é porque frequentemente "eles" acabam por garantir que sim, que nos irão compensar. Se de facto o prometem e o fazem ou não, isso agora não interessa, mas na lógica aceite criou-se uma espécie de jurisprudência que obriga o estado a compensar-nos por azelhices, infortúnios e outras desgraças.

Na mesma lógica, quem é que me compensaria pela mota que me tinham roubado durante o meu sonho? É que não fazem ideia do meu desespero! Ficar apeado depois daquelas maravilhosas curvas era coisa para me fazer lembrar o Hulk quando começa a ficar verde, a dar murros no chão e a rasgar as vestes.

 

Isto é tudo um bocado ridículo. Os sonhos obedecem a regras que não entendemos. Relatar sonhos é enfadonho e por isso espero que me desculpem o abuso.

 

Antes de voltar a adormecer, dei por mim a reparar que o Estado já assume, e há muito, o dever de compensação pelos sonhos destruídos. O que é o Rendimento Social de Inserção senão uma compensação pela incapacidade do país em criar condições para que as pessoas se possam realizar, serem autónomas e felizes? Se a escola de quem pode pagar por um bom colégio é bem melhor que aquela destinada às classes médias e baixas, se a chamada escola pública não permite que os filhos dos pobres possam aspirar a coisa diferente, se a nossa titânica carga fiscal e o armagedão de regulamentos afasta os investidores internacionais para outras paragens, o que sobra para os pobres é viverem dependentes do RSI.

E o Estado, talvez sem dar por isso, o que faz mesmo é compensar esses cidadãos pela desilusão e esvaziamento que, com tanta regra, impediu que fossem evitados.

Os meios e os fins

Pedro Correia, 22.10.20

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O pior da sociedade portuguesa começa a vir à superfície neste oitavo mês de pandemia: refiro-me ao inaceitável clima de delação, a pretexto do combate às infecções, que ameaça deteriorar as relações humanas, enquanto cada qual se encerra no seu casulo, desconfiando de tudo e todos. E nem a malha familiar está livre disto, quando já tivemos o Presidente da República advertindo contra os habituais reencontros natalícios, enquanto milhares de velhos vivem em efectiva reclusão dentro de supostos "lares" que se tornam antecâmaras de morte. Com os entes queridos mantidos à distância, como ontem o JPT nos relatava aqui, em texto de leitura obrigatória.

Inverte-se o ónus da prova, transforma-se em letra morta a garantia constitucional: todos somos culpados até prova em contrário. 

 

O que sucedeu há dias a um professor universitário comprova isto. Este docente da Faculdade de Arquitectura, em Lisboa, foi abordado à saída de uma aula, em pleno estabelecimento de ensino, por agentes da PSP, que lhe impuseram uma coima de cem euros por não ter usado máscara durante parte da sua exposição aos alunos, em que permanecera sentado. Apesar de só haver 20 estudantes na sala, cada um estar separado dos restantes por uma distância mínima de cinco metros e todos se encontrarem afastados do professor. Apesar de este só não ter usado máscara durante a primeira das quatro horas de duração da aula.

Denúncia anónima e cobarde. Incentivo à bufaria, vício de péssima memória na sociedade portuguesa. Inaceitável intromissão da PSP em instalações universitárias para punir comportamentos de professores ou alunos. Tudo isto devia causar indignação. Mas, a pretexto do respeitinho absoluto pelas normas sanitárias, que aliás vão mudando ao sabor das circunstâncias, acabamos por tolerar todas as prepotências, todas as arbitrariedades, toda a desproporção de meios sempre justificados pelos fins.

Começam assim, com casos isolados e em pequena escala. Mas sabemos muito bem onde podem desembocar. 

Ler os outros (sobre a pandemia)

Pedro Correia, 17.10.20

Rodrigo Adão da Fonseca, O Insurgente:

«É importante monitorar a evolução da doença, e rastrear é fundamental; sou totalmente a favor da testagem massiva. Os testes são uma componente essencial da gestão duma pandemia. Agora, estar diariamente a endeusar estes números e a difundi-los de forma alarmista e até à náusea, sem os interpretar à luz de outros dados bem mais relevantes – como o número de mortos, a sua faixa etária, morbilidade, internados, internados em UCI – é próprio de uma sociedade masoquista dominada pelo pânico.»

 

Eduardo Louro, Quinta Emenda:

«A ideia de obrigar a instalar um determinado software no telemóvel de cada um não lembraria a ninguém. A não ser nos regimes totalitários da China ou da Coreia do Norte. Uma coisa é fazer uma campanha, como o primeiro-ministro de resto já tinha feito, para convencer as pessoas a usarem uma aplicação – uma app, como se diz – de livre vontade. Outra é fazer uma lei a obrigar ao seu uso! Isto não é um abanão. É um empurrão para o escuro. E é, do ponto de vista da democracia e da liberdade, o absurdo.»

 

Sofia Loureiro dos Santos, Defender o Quadrado:

«Não podemos continuar a condenar a sociedade a uma crise sanitária gravíssima no que diz respeito a todas as outras patologias não COVID-19, à continuação de uma crise económica gravíssima de cujas consequências ainda não nos apercebemos bem, a um desmantelamento das redes sociais e familiares que são a essência da vivência dos seres humanos. Não é possível manter as comunidades transidas de medo, procurando afincadamente notícias de alarme.»

 

Helena Araújo, 2 Dedos de Conversa:

«Há dias li um comentário sobre uma jovem berlinense que participou numa festa rave dizendo que para ela era uma questão essencial de selfcare. Os jovens estão fartos da disciplina, dizem os jornais, e os resultados estão à vista: em Berlim, cerca de 60% dos infectados com covid têm idade entre os 10 e os 40 anos. Berlim deixou de receber turistas, os berlinenses não podem viajar livremente pelo resto do país, e a cidade está a um passo de novo lockdown: 3,7 milhões de pessoas obrigadas a regime de confinamento. Era bom que trocássemos umas ideias sobre a questão da liberdade individual.»

 

João Mendes, Aventar:

«Faz-me imensa confusão, esta comparação disparatada entre a possibilidade do governo nos enfiar uma app telefone adentro, transformando agentes de segurança em monitorizadores de telemóveis, e os dados que entregamos voluntariamente aos Facebooques da vida. Será assim tão difícil de perceber a diferença entre uma imposição coerciva e uma decisão pessoal e voluntária? Sejamos sérios: se eu, ou qualquer um de vocês, decide entregar informação pessoal a uma plataforma digital, bem ou mal, é de uma escolha livre que se trata. Uma escolha que pode ser revertida a qualquer momento. Se um governo decide impor uma aplicação, fazendo uso de multas e de patrulhamento policial, é o espírito da democracia que está a ser posto em causa.»

 

Vital Moreira, Causa Nossa:

«Como é que seria? A polícia teria o poder de exigir às pessoas a exibição dos seus aparelhos e a prova de instalação da app? E teria também o poder de consultar as listas de infectados e exigir-lhes a prova de que registaram a infeção na app? E a fiscalização policial seria feita na rua, nos cafés e noutros lugares públicos? Poderia entrar nas escolas e locais de trabalho para esse efeito? E quantos efectivos seriam precisos para uma fiscalização razoavelmente ampla?»

 

Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória:

«Se a obrigação de usar a tal app, para a qual não foi possível sequer inventar um nome em português, vier a se chumbada na AR (como espero e julgo que acabará por acontecer), Costa bem pode comprar alguns sapatinhos novos porque o tiro no pé vai furar alguns.»

 

Helena Matos, Blasfémias:

«Nesta história da obrigatoriedade da aplicação, a que ao menos podiam ter dado um nome em português, há um detalhe básico: desde quando são os portugueses obrigados a ter telemóvel? Por mim, preparo-me para regressar ao velho Nokia. E se for necessário às cabines telefónicas. Aplicação Stayaway Covid? “Jamé” como dizia o outro!»

Andar à boleia

Paulo Sousa, 03.09.20

Andar à boleia, no seu sentido literal, está fora de moda, diria mesmo em vias de extinção.

Um tio meu que estudou em Lisboa era assim que ia e regressava. Esta foi durante décadas uma forma comum de um jovem se deslocar pelo país. Viajava-se sem despesa e em troca fazia-se companhia ao condutor que assim tinha alguém com quem conversar. Com o seu apurado sentido estético, o meu tio deixou-nos um incrível espólio fotográfico, no qual consta uma fotografia que nos transporta para os anos 60, ali à beira da estrada para Lisboa que na altura ainda passava à frente do Mosteiro de Alcobaça.

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Foto Rafael Coelho de Sousa

Várias décadas mais tarde, a boleia continuava a ser uma forma regular de transporte para gente mais nova. O meu irmão e o meu primo, uns anos mais velhos do que eu, quando estudaram em Lisboa era também assim que iam e vinham a casa no fim de semana. De cada boleia traziam uma história diferente, quase sempre divertida. Pelo menos era divertida a forma como a relatavam.

Num verão, no final dos anos 80, fizeram-se à estrada em direção à Suíça. Iriam apanhar morangos para depois gastar o dinheiro dos morangos num Interrail pela Europa. Esse era o plano. O que aconteceu foi diferente e, apesar de terem chegado a Geneve, a oportunidade de emprego não se concretizou. Os morangos, esses, foram apanhados por outras mãos ou então comidos pelos pássaros. As parcas poupanças que levavam mal lhes permitiu chegar a casa, cheios de saudades de um prato de sopa, de um banho e de, finalmente, poderem dormir descalços. Trouxeram dois ou três rolos de 24 fotografias para revelar e inúmeras horas de relatos de episódios que me fizeram concluir que já conhecia todos os cruzamentos de nossa casa até ao Lago Leman. Importa lembrar que neste tempo ainda não existiam telemóveis e, durante a viagem, as notícias que chegavam a casa tinham a forma de um postal ilustrado com uma semana de atraso. Além disso terão feito dois ou três telefonemas a partir de cabines telefónicas, ávidas sorvedoras de moedas de elevado valor cambial.

No dia em que eles partiram, já depois de terem apanhado a primeira boleia de casa até à EN1, lembro-me do meu pai ter dito que eles iriam viver uma aventura, o que foi uma insuficiente tentativa de conforto das preocupações da minha mãe. Não sei quando ouvi isso lá por casa, mas mais que uma vez foi assunto a máxima de que os filhos são, ou devem ser, criados para o mundo e não para os seus pais, o que pode parecer um detalhe mas não o é.

Uns anos mais tarde chegou a minha vez de ir e vir à boleia para Lisboa. A distante aura de aventura de ir para a beira da estrada nacional de polegar estendido tornou-se realidade. De cada viagem sobrava uma estória completamente diferente da anterior. Era como tirar bombons coloridos à sorte de dentro de um pote. Os sabores variavam mas eram sempre agradáveis. Desde automóveis topo de gama até carros que hoje seriam imediatamente apreendidos na inspecção, passando por camiões de mercadorias, posso dizer que me calhou de tudo um pouco. Apanhei boleias de dia, de noite, à chuva e com sol e, literalmente, do Norte ao Algarve.

Ninguém que circule a 120 km/h pára para dar boleia, por isso importa escolher uma zona onde os carros circulam devagar. Essa lógica torna (ou tornava…) as portagens num bom local. Normalmente no final da semana quando regressava a casa apanhava o 45 da Carris até ao Prior Velho, e seguia a pé até à extinta portagem de Sacavém, onde todos os carros que seguiam para norte tinham de parar.

Quando o destino final de quem apanha boleia era diferente do de quem a dava, importava saber o sitio onde sair. Por vezes a ligação a pé até chegar a uma zona onde se pudesse apanhar a boleia seguinte poderia demorar algum tempo e obrigar a caminhar uns quilómetros adicionais. Ao andar à boleia não se pode ter um horário rígido. Pode ser comparado a um velejar pela estrada fora, em que tanto se apanha vento pela alheta e mar direito como vagas altas e marés contrárias. Tenho saudades de não ter uma hora para chegar ao destino.

Um dia, antes de um período de exames, saí de casa pela manhã para ir para Lisboa começar um daqueles retiros que quem adia o estudo para a semana anterior às frequências bem conhece. Antes de almoço já tinha chegado ao destino que era São Domingos de Benfica, a poucos metros da Buraca. Quando tentei abrir a porta reparei que tinha deixado a chave em casa. Azar do caraças. Regressei ao Rossio pela linha de Sintra, meti uma bucha num tasco na estação, apanhei o 45 até ao fim da linha no Prior Velho, segui a pé até à portagem, novamente boleia até casa onde tinha ficado a chave do apartamento. Repeti depois o trajecto da manhã e cheguei finalmente a casa, à hora de jantar. Com 400 km distribuídos por três boleias podia finalmente começar a estudar.

Um dos episódios mais memoráveis que tenho com boleias passou-se durante uma ida ao Porto para assistir ao concerto que os Pixies deram no Coliseu nos idos de 1991. O Blitz classificou-o então como o concerto do ano.

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O concerto foi de facto incrível mas não consigo desligar as memórias que dele guardo do bouquet dos diferentes imprevistos que adoçam a boca de quem aprecia sentir-se como uma rolha a flutuar no oceano que é a vida.

Desta vez éramos três e o local que escolhemos para pedir boleia não era nada favorável. Após algum tempo lá parou um carro mas só podia levar um de nós. Não quisemos perder a oportunidade e por isso seguimos separados. Tínhamos assim o desafio adicional de nos encontrarmos no Porto, cidade que desconhecíamos. Neste tempo os telemóveis eram ainda coisa de ficção científica.

Os dois restantes, eu e o outro companheiro, conseguimos seguir viagem um pouco mais tarde. A nossa boleia terminou logo no final da ponte da Arrábida. O carro seguiu para Braga e nós seguimos a pé. À hora marcada lá entramos no Coliseu dos Recreios e, quase como se tivéssemos combinado, encontramos o nosso tresmalhado companheiro de viagem no centro da plateia, mesmo durante a hora do tormento. Não consigo deixar de ouvir Pixies sem recordar as vagas alterosas daquelas horas.

Terminada esta provação seguimos, em modo de bola de flippers, batendo aqui, acendendo luzes ali, uns finos acoli, um petisco acolá, quase até desaguar junto ao Douro. Importa lembrar que isto se passou num tempo em que não havia voos low cost, nem booking, nem camones. A onda não era má mas em alguns recantos também não era muito boa.

E para lá andamos, noite fora até que chegou a hora de procurar um canto para pernoitar, o que é sempre uma matéria paracientífica. Não podia ser num canto muito central, porque isso não existe, nem muito obscuro, porque já estavam ocupados. Após várias tentativas, acabámos por nos estender ali à frente, dentro de uma embarcação estacionada numa das rampas de acesso ao rio. Não me recordo do frio, mas da humidade sim.

Para o regresso, calhou-me seguir a solo. Por desconhecimento do terreno não sabia onde pedir boleia. Alguém me deixou na última saída antes da portagem dos Carvalhos e segui a pé. Depois de um bom bocado de polegar esticado sem conseguir o merecido transporte de regresso avistei um camionista sozinho a mudar um pneu, tarefa que é sempre mais fácil quando feita por dois. Depois de me ter voluntariado a dar uma ajuda não há como negar uma boleia. E assim, foi dentro de um TIR de 20 toneladas acabado de carregar no porto de Leixões, que terminou a aventura.

Um minuto antes de um carro parar para nos dar boleia é impossível antecipar qual será o nível e o tema da conversa que se irá desenrolar, e nessa incerteza encerra-se parte da magia. Sem se confiar num desconhecido nada disto é possível. Actualmente somos todos muito mais desconfiados, e também isso explica que andar à boleia esteja em vias de extinção. Há para aí umas aplicações de partilha de trajectos mas mais não são que uma vaquinha das despesas com avaliação mútua dos respectivos users. São coisas diferentes.

Quem já teve o privilégio de, em locais recônditos, sair fora dos circuitos turísticos e tropeçou nos acasos das viagens concordará com uma das mais repetidas conclusões dos viajantes do improviso. A esmagadora maioria das pessoas são boas. É da natureza humana sentir empatia por um estranho que viaje em paz e que necessite de ajuda. É claro que todos somos diferentes, e isso é positivo. Mas para uma imensa parcela da humanidade o conforto, a previsibilidade das rotinas e do planeamento é imprescindível. Não só, mas também por isso a minha conclusão é que existe demasiada gente que teme a liberdade.

A liberdade de desmentir

Paulo Sousa, 07.08.20

Pela primeira vez o Facebook removeu uma publicação do Presidente Trump com a justificação que a mesma não era verdadeira.

Faço parte do imenso grupo de vários biliões de seres humanos que desprezam o sujeito Donald Trump. Mas este grupo tem uma grande diversidade. Nele junta-se quem ache que os EUA pelo que representam, e pelo que contribuíram para o actual concerto das nações, nunca tiveram um representante de tão baixo nível, em termos humanos inclusivamente. Mas este grupo inclui também os que apoiam regimes autoritários e até totalitários. Esses odeiam Trump pelo que é, mas acima de tudo pelo que os EUA representam.

Uns e outros, com maior ou menor contenção, alegraram-se pela remoção desta publicação de Trump. Mas, pergunto eu, em que outro país com dimensão para ter uma rede social própria (seja a Qzone, a Weibo, a VK, a Odnoklassniki, a TikTok, ou outras) seria possível desmentir desta forma o líder do próprio país?

Dia da Liberdade

Pedro Correia, 25.04.20

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Estado de emergência a vigorar até 2 de Maio, data em que será presumivelmente substituído por um estado de calamidade pública. Supressão parcial ou total da liberdade de circulação, da liberdade de reunião, da liberdade de manifestação, do direito à greve, do direito de resistência, do direito de emigração, do direito de  iniciativa económica privada. Centenas de pessoas detidas por crime de desobediência. Selos sanitários em hotéis e restaurantes - deixando implícito que os restantes serão pestíferos ou purulentos. Medição de temperatura a futuros clientes à entrada de restaurantes e de trabalhadores nas empresas. Praias com lotação limitada - algo jamais visto neste país, nem sequer em períodos de ditadura. Interdição da prática de cultos religiosos, em flagrante contraste com o culto dos rituais do Estado, que continuam a praticar-se. Perseguição a velhos nos jardins públicos e a jovens surfistas nas águas do mar. "Cercas sanitárias" decretadas em vários perímetros municipais, mesmo em concelhos com apenas dez casos de infecção por coronavírus detectados. Mecanismos de "reconhecimento facial" em avaliação para possível réplica local dos métodos que já são correntes na China. Câmaras térmicas para detectar trabalhadores com febre. Drones com altifalantes exigindo às pessoas para recolherem a casa, como cães-pastores empurrando ovelhas para o curral. Desenvolvimento de tecnologias intrusivas para "medir o nível de confinamento" e "analisar a mobilidade dos cidadãos". Preparação para a chamada "geolocalização de contágios" por aplicação em telemóvel. Monolitismo de opiniões, a pretexto da obediência às autoridades sanitárias, transformando qualquer crítica em delito de lesa-patriotismo

Dia da liberdade. Festejemos, pois. 

Absurdo, chocante, inaceitável

Pedro Correia, 21.04.20

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«A forma como se comemora o 25 de Abril na Assembleia da República está a dar cabo da imagem do 25 de Abril.»

Miguel Sousa Tavares, ontem, na TVI



É absurdo que o Estado festeje a liberdade num momento em que os direitos, liberdades e garantias estão severamente restringidos - o que sucede pela primeira vez desde a instauração do actual regime constitucional - e há pessoas a ser detidas por "crime de desobediência".



É chocante que os deputados fechem os olhos à dor que alastra na sociedade, com um português a morrer de Covid-19 a cada hora que passa, e prefiram celebrar efemérides em flagrante violação das regras de confinamento que eles próprios impuseram aos compatriotas ao aprovarem o estado de emergência.

 

É totalmente inaceitável que alguns políticos e comentadores pretendam passar atestados de lesa-democracia a quem, precisamente em nome da liberdade de discordar, ousa contestar a inadequada e descabida cerimónia celebrativa que teimam em levar avante num momento de luto nacional.

O Estado vs a Vida, segundo Torga

Paulo Sousa, 11.04.20

Lembrei-me de um dos Novos Contos da Montanha de Miguel Torga, que fui reler.

Fala da vida em Fronteira, uma terra que apenas dava à sua gente a água da fonte. Tudo o resto vinha de Fuentes, em Espanha.

Ali a vida era vivida de noite a tentar escapar aos guardas, que, de espingarda em riste, guardavam o ribeiro como podiam. Os contrabandistas, por seu lado, com carga às costas, passavam o ribeiro como conseguiam.

“E se por acaso se juntam na venda do Inácio uns e outros – guardas e contrabandistas –, fala-se honradamente de melhor maneira de ganhar o pão: se por conta do Estado a vigiar o ribeiro, se por conta da Vida a passar o ribeiro.”

O conto não é extenso, fala dos aldeões, dos guardas do Estado, de disparos a matar e também de amor.

Mas foi esta dualidade que me prendeu a atenção. Trabalhar por conta do Estado, neste caso a matar, ou por conta da Vida, a tentar escapar.

Esta pequena história é uma metáfora da relação entre o Estado, que quer controlar a população, e os aldeões, que apenas desejam sobreviver.

O guarda Robalo, atraído para tais funções pela garantia de ordenado certo e a reforma por inteiro, sem disso dar conta vive dentro de uma bolha. E isso aumenta-lhe o empenho. Afirma que dispararia até contra a sua própria mãe, que fosse.

Com o correr da acção a bolha onde vive irá rebentar, mas esta visão maniqueísta de que servir o Estado é atacar os prevaricadores faz por ignorar que do outro lado desenrola-se a Vida, e Vida, escrita por Torga, com V maiúsculo.

Do alto da sua ofuscada visão do mundo, o guarda Robalo, ignora que existe Vida para além do que a sua curta vivência lhe permite enxergar. E essa curta vivência e visão serve ao Estado que o alimenta e veste. Sem disso dar conta, ele é apenas um instrumento, bem instruído, que tem a Vida por adversária. No fim de contas, o Robalo é apenas um intermediário entre os seus donos que lhe tolheram a vontade e a sua bala que em brasa é disparada contra a Vida.

Este confronto é uma parábola cheia de metáforas escrita por um rebelde que viveu, e escreveu, incomodado com a capacidade dos que conseguem reduzir a realidade a um binómio de bons e maus, e de caminho asseguram o conforto próprio. Se sempre existiram desigualdades, para quê mudar isso, especialmente se se está do lado vantajoso?

Ignoram que a Vida já existia antes do Estado e que este lhe é apenas um acrescento, e não o contrário.

No regime actualmente em vigor em Portugal, a liberdade está refém do Estado. A liberdade de Abril não é a efectiva liberdade dos cidadãos, mas apenas a liberdade que o Estado entende dar aos cidadãos. O Estado, e os que por ele falam, decide a amplitude das escolhas possíveis. Os que por ele falam sabem que há opções, que mesmo que funcionem noutras paragens, cá seria uma irresponsabilidade escolhê-las, especialmente porque isso colocaria os cidadãos fora da sua esfera.

Várias décadas depois dos contos de Torga, as fardas e as balas são diferentes, mas o confronto ente o Estado e a Vida mantêm-se e nunca terminará. Cabe a cada um de nós escolher o lado onde se deve viver a Vida.

Jornais, jornalistas e relações fiduciárias

Diogo Noivo, 01.04.20

A imprensa e os jornalistas dependem da relação fiduciária que estabelecem com leitores, ouvintes e espectadores. Uma vez quebrado o laço de confiança, não há injecções de capital nem ajudas de Estado que os salvem.

Vem isto a propósito de três episódios ocorridos nas últimas semanas. Primeiro, a SIC emitiu uma peça sobre tumultos em Londres motivados pelo coronavírus. Ora esses motins nunca aconteceram e as imagens que ilustravam a ‘notícia’ eram de um protesto ocorrido em 2011. Depois, vários órgãos de comunicação social publicaram um documento falso que se fazia passar por decreto do governo com as medidas para o estado de emergência. Hoje, parte da imprensa voltou a cair no truque do documento oficial falso, desta feita sobre o alegado cancelamento do projecto do aeroporto no Montijo.

O caso do motim em Londres espelha inépcia grosseira e falta de profissionalismo no seu máximo esplendor. Já a publicação dos documentos falsificados revela pelo menos falta de atenção, uma vez que era fácil suspeitar da sua veracidade – recebi o suposto decreto do estado de emergência através das redes sociais e mal terminei de ler a primeira página já estava a franzir o sobrolho.

Pede-se mais, sobretudo num momento de crise e ansiedade. Todos erramos, evidentemente, mas este tipo de erros não são justificáveis. Convidam-nos a assinar jornais, a ajudar a imprensa, mas não se garante a lisura e o rigor na produção de conteúdos. Suspeito que, a continuar por este caminho, a decadência será inevitável, com elevado prejuízo para a qualidade da democracia e para o direito (e necessidade imperiosa) de estar informado.

Oiçam este tipo

Paulo Sousa, 11.03.20

Ao ouvir esta excelente intervenção do Carlos Guimarães Pinto no âmbito das Convenções do Movimento Europa e Liberdade, lembrei-me da Escola da Minha Terra, de que já aqui vos falei, e das voltas que foram dadas até ser necessário o seu alargamento.
O caso que ele relata é de maior gravidade e por isso deveria causar mais vergonha aos nossos governantes. Mas isso só seria possível se a tivessem.
Recomendo que oiçam todo o discurso, mas este é o excerto em que CGP fala da escola da terra dele.

 

O dia da metadona

Paulo Sousa, 24.09.19

A entrada do estado na esfera individual no nosso país é uma tendência ainda em crescimento mas que um dia terá de ser travada.

A invasão começou sem esse propósito e era então justificada pela vontade de limitar as assimetrias sociais que existiam em proporções diferentes entre as regiões do país. O aumento dos impostos foi vestido com um fatinho domingueiro de forma a acrescentar ao estado a responsabilidade de tratar dos pobres e desvalidos. Quem é que de boa consciência humanista poderia questionar tal propósito?

A esquerda, à falta de operários, adoptou os pobres e fez-se dona da assistência social, e passou a classificar as ajudas organizadas pela Igreja como caridadezinha, como se quem recebesse ajuda se preocupasse de onde ela vem.

Até um certo ponto tudo funcionou dentro do benevolente espírito inicial, mas ano após ano as garantias dadas a todos e a cada um foram sendo alargadas. Era preciso ser-se criativo e fazia sentido alargar a caridade pública ao ritmo da frequência das eleições. Pouco a pouco chegou-se a pontos em que os encargos (e regulamentos) a quem cria riqueza e a quem cumpre horários, e dessa maneira alimenta financeiramente o sistema, eram tais que deixou de compensar correr riscos e a ser a pontual, e passou a ser mais racional mudar da coluna dos que contribuem para a dos que recebem. Alguns passaram a ser exclusivamente contribuintes e outros exclusivamente beneficiários.

Ao longo dos anos os exclusivamente beneficiários tem aumentado significativamente. No nosso país mais de 50% da população aufere de transferências directas do estado.

À minha volta isso demorou a ser notório, ou então fui eu que demorei a reparar. Sabia que no interior do país, num mundo social e economicamente deprimido, era o estado que ia mantendo a permanência de pessoas. Sabía que no interior havia menos empresas e negócios e por isso o peso do estado era superior ao das zonas mais dinâmicas. Câmaras e Juntas eram ali os principais empregadores. Aqui no centro do país e perto da costa, graças às cerâmicas, fábricas de moldes e outras industrias, tudo era diferente.

Ano após ano a relação de dependência ao estado foi-se aprofundando. Os políticos para sobreviver precisam de se mostrar agradáveis e os cidadãos reagem positivamente a estímulos positivos. Esta simbiose manteve-se mesmo quando o ponto de equilíbrio foi ultrapassado, e no caso português já foi ultrapassado tantas quantas vezes falimos nos últimos 40 anos.

Tudo isto já era para mim um facto, mas no passado dia 10 voltei a aperceber-me da dimensão da coisa. E é nesse dia que são pagas as pensões e, por isso, é também nesse dia que a economia local acelera com a nova injeção de liquidez. No dia 10 os balcões bancários estão apinhados de gente desde a abertura até ao final do expediente. O quadro de pessoal não pode tolerar folgas e, mesmo assim, as filas chegam à porta. Neste dia, por mim batizado pelo dia da metadona, não se pode ir ao banco por outro motivo que não seja ir levantar a reforma. De inverno chegam a tremer de frio, tal como tremem os drogados na fila da metadona.

Numa segunda linha de efeito é o comércio local que acelera para fornecer os bens essenciais a um ritmo que só voltará a fornecer no mês seguinte. Talvez em Lisboa e nos grandes meios urbanos seja menos notório mas não será muito diferente.

Isto é real, silencioso e é uma forma de pobreza. Nos telejornais despejam-se baldadas de alegria pelo crescimento PIB mas o país continua refém de um estado omnipresente que tudo quer controlar e taxar, para poder engordar e as sobras distribuir. Quem recebe, tal como antigamente, sabe que não pode morder a mão de quem o alimenta e, sem dar conta, continua a trocar dignidade por côdeas. Ao fim e ao cabo os vizinhos, primos e enteados também recebem e isso alivia o eventual ónus da desconsideração social. Soube há dias que ter um filho com astigmatismo visual dá direito a subsídio. Mas recebê-lo não dá estigma social aos seus pais. Se o filho da vizinha recebe, porque é que eu não tenho direito?

Será possível interromper este ciclo?

As mudanças que resultaram do dinheiro descarregado na economia após adesão à UE não alteraram a relação do cidadão com o estado. Antes não se podia afrontar porque fazia doer, e agora porque dá de comer. A subserviência mantém-se.

A liberdade é uma música que põem a tocar no 25 de Abril, mas se antes não existia, agora está refém dos donos do regime.

A liberdade de escolha não está interiorizada no modo de agir dos portugueses. Tal como a sobrecarga que se colocava nos selos quando se mudava de regime, e ainda não se tinha tido tempo de fazer uma nova emissão, a liberdade ainda se esgota num carimbo da Constituição.

Quando é a maioria que decide, mais de 50% dos eleitores escolherá sempre de forma a que as transferências directas de que aufere não sejam interrompidas. O benefício imediato é um apelo lógico de quem quer maximizar o seu bem-estar. Arriscar as formulas que criaram riqueza noutras paragens é demasiado diferente, e os portugueses arrojados partiram de caravela há muito e nunca mais regressaram.

De que forma se poderá interromper esta trajectória? Será mesmo este o nosso fado?

Nas próximas eleições só não votarei Iniciativa Liberal porque o nosso sistema eleitoral foi feito para complicar a vida às ideias diferentes. Espero sinceramente que consigam eleger pelo menos um deputado num dos círculos eleitorais mais populosos onde há mais opções eleitorais. O nosso sistema eleitoral precisa de ser revisto. Portalegre, por exemplo, elege dois deputados. Que opções têm os seus eleitores? A nossa democracia é diferente por isso em Portalegre, em Leiria e em Lisboa. Não duvido que se aos actuais círculos eleitorais fosse acrescentado um circulo nacional a abstenção diminuiria.

Independentemente dos resultados que venha a conseguir, a Iniciativa Liberal tem o mérito de apresentar um alternativa ideológica ao marasmo do socialismo que nos governa desde 1974. Sem o dinheiro da UE seríamos hoje uma Venezuela sem petróleo.

No dia em que deixar de haver dinheiro, favores, cargos e prebendas para distribuir regime cairá. Será possível reforma-lo antes disso?

A liberdade está no programa quente da máquina de lavar

Paulo Sousa, 01.09.19

A visão estratégica e a capacidade de actuar num prazo alargado do regime autoritário chinês constituem a maior ameaça à liberdade do mundo ocidental.

A China é implacável na aniquilação da oposição interna e simultaneamente comporta-se nas relações internacionais de uma forma respeitável. Nestes tempos da caótica e imprevisível administração Trump, a ditadura chinesa chega por vezes a parecer o garante do multilateralismo.

Perante as inquestionáveis dificuldades que as democracias liberais atravessam, a aparente ordem e previsibilidade dos regimes autoritários consegue atrair simpatias. Uns sugerem que a democracia deveria ser suspensa por seis meses, outros chegam mesmo a suspender parlamentos. Pouco a pouco, o que há meia dúzia de anos seria impensável, já é um facto.

O sistema de crédito social chinês, que pune os cidadãos não conformes e premeia os restantes, constitui o mais sinistro sistema de controle de massas de que há memória.

Dezenas de milhares de chineses foram impedidos de adquirir bilhetes de comboio ou avião durante a celebração do ano novo chinês simplesmente porque, de uma forma ou de outra, tinham ultrapassado o limite que os donos da moral consideram que não pode ser pisado. Uns por terem sido críticos do regime, outros por terem sido desagradáveis durante uma viagem de comboio, por não pagaram um dívida ou por fizeram ruído no prédio fora de horas,... os desvios são punidos.

É sabido, embora desconhecido no detalhe, a dimensão do exército de fiscais do mundo virtual chinês. São conhecidas as dificuldades levantadas aos gigantes das novas tecnologias para terem acesso ao mercado chinês. Refiro-me à Google, Facebook, Amazon, etc. A questão resume-se a terem de ajustar as suas prácticas aos ditames dos donos da moral chinesa. Ou se flexiblizam ou perdem o acesso a um mercado de mais de mil milhões de consumidores.

São diversas as fontes que referem e descrevem em detalhe como tudo funciona assim como as consequências para os desalinhados.

Vem isto para enquadrar dois exemplos que passo a relatar.

i) Há poucos dias o Público veio-nos dizer que afinal talvez esse sistema não exista. A jornalista entrevistou alguém que por sua vez questionou alguns chineses que lhe disseram desconhecer ´essa coisa´, mas ... a ideia até lhes agrada por permitir livrar o país dos corruptos.

Ao ler isto cheira-me que alguém andou a fazer uma investigação sobre um assunto, mas já sabia a que conclusão iria chegar e isso poderá ter condicionado os dados que recolheu. Cheira-me a desinformação, talvez até involuntária, mas a desinformação.

ii) Não há muito tempo, na cavaqueira com alguém que tinha acabado de conhecer e que rapidamente entendi ter um profundo sentido da política, ouvi a enormidade de que a China tinha demasiada população para que alguma vez pudesse vir a ser uma democracia. Tive de lhe perguntar em quantos milhões é que ia esse limite, até porque a Índia que a médio prazo irá ultrapassar a China nessa variável tem uma democracia razoavelmente decente.

A conversa sofreu um pequeno e curto desvio mas pouco depois uma nova carta foi posta na mesa. O confucionismo, a base cultural chinesa, não era compatível com a democracia. Por desconhecer os pilares de tal doutrina não pude contra-argumentar e fiquei com a forte impressão que tinha assistido a um belo Ctrl+Alt+Del encapotado.

Logo depois começaram as anedotas sobre a coligação PAF. Essa gente, sim, era um hino à ditadura clerical de Salazar e uma ameaça à liberdade conquistada em Abril.

Todos estes assuntos foram abordados quase em sequência, de onde pude extrair que, para alguns pensadores da nossa esquerda, o regime chinês é aceitável e simultaneamente uma coligação da direita portuguesa pode ser uma sinistra ameaça. Chegamos a isto.

Julgo ser da natureza humana uma reacção relativamente frequente a que chamo o sindrome da esposa enganada (que também pode ser do marido). Há coisas em que não acreditamos simplesmente porque não queremos que sejam verdadeiras. Não as enfrentar é uma forma de negar que existam. Nada resolve, mas alivia.

Encontro traços deste fenómeno nos dois casos.

Para quem duvidar que se vão criando condições para um recuo efectivo no leque de liberdades que exigimos ao nossos regimes, pode ainda escutar com atenção o silêncio dos senhores e senhoras que se emocionam na parada do feriado de Abril. Fecham os olhos ao discursar, para esconder a emoção, mas continuam em silêncio perante o combate que se trava em Hong Kong. É nesta antiga colónia britânica que neste momento está localizada a fronteira da liberdade.

Esta fronteira da liberdade vai de tempos a tempos mudando de região. Há 80 anos - faz hoje 80 anos - essa combate travou-se na fronteira da Polónia invadida pelas tropas nazis. Ao longo dos seis longos anos da Segunda Guerra Mundial, a fronteira da liberdade sempre coincidiu com a linha da frente da batalha. Passou por El Alamein, pela Sicília, pelas linhas Gótica e Gustav, pela Normandia, pelas Ardenas até ao histórico aperto de mão no Elba. Foi mudando de região e desde 25 de Abril de 1974 até ao 25 de Novembro do ano seguinte andou pelos nossos lados. Actualmete está em Hong Kong. Será que alguma vez passará por Macau? Qual seria a a reação dos nossos governantes? Será que os eventuais dissidentes se fariam representar com a nossa bandeira, tal como o fazem com a Union Jack em Hong Kong? Num cenário hipotético como esse, poderia ser a nossa bandeira um possível símbolo da liberdade?

O mundo ocidental continua a ser o refúgio preferido dos dissidentes de todo o mundo, porque, apesar de já não ser a região mais poderosa do globo, continua na linha da frente na garantia das liberdades individuais.

Não temos pessoalmente nenhum mérito nisso (eu pelo menos não tenho!) mas apenas temos a sorte de por aqui ter nascido. Alguém no passado lutou por isso e nós somos os seus beneficiários líquidos.

Perante tudo isto concluo que existe espaço na opinião pública no mundo ocidental para uma efectiva redução do respeito pelas liberdades individuais.

Dia após dia, entre a aparente ordem das ditaduras e a imprevisibilidade quase caótica dos parlamentos, o apego à liberdade vai adquirindo uma plasticidade que não augura nada de bom.

Ser saloio

Diogo Noivo, 08.07.19

Em miúdo sempre me fez confusão ouvir o meu pai dizer que era saloio. Ainda para mais porque o dizia com algum orgulho. Referia-se, percebi anos mais tarde, ao facto de ser natural de Santa Iria da Azóia. Recordei o significado benigno da palavra a propósito de um texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias.

Comecemos pelo princípio. A historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicou um artigo de opinião com laivos de racismo no jornal Público este fim-de-semana. Igualmente grave, pelo menos na óptica de um espaço de opinião, escreveu um texto cujos argumentos são francamente débeis e desadequados para sustentar uma opinião perfeitamente atendível – a saber, a oposição à criação de quotas para minorias étnicas. Não gostei do texto. Não o subscrevo.

Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes enfatiza o racismo do texto de Bonifácio. Mais, Ferreira Fernandes recorre ao seu percurso de vida para evidenciar a fragilidade dos argumentos da historiadora. Defende, contudo, o jornal onde a opinião foi publicada, lembrando os leitores que sem o Público seríamos “uns saloios”. Avocando a minha costela saloia, é aqui que a porca torce o rabo.

Não me custa nada admitir que a leitura do Público foi parte importante dos meus anos formativos. Acontece, porém, que o Público dos meus tempos de faculdade desapareceu. A secção de Internacional forte, bem informada e bem escrita mirrou, desinformou-se e é actualmente quase um pro forma nas páginas do jornal. As ‘causas’ e o cosmopolitismo do Público, que sempre apreciei, sustinham-se em argumentos, mas hoje sustêm-se em militância. São opções legítimas, mas é um jornal diferente, mais saloio.

Porventura a maior prova dessa diferença é o editorial assinado por Manuel Carvalho. Além de demonstrar arrependimento pela publicação do artigo de Maria de Fátima Bonifácio, Carvalho afirma que “as reacções e episódios associados a esta polémica obrigam-nos a reforçar os critérios de exigência e selectividade”. E aqui reside o verdadeiro problema. Os arrependimentos são legítimos – que atire a primeira pedra quem não os tem –, mas subordinar o rumo do jornal a “reacções” e “episódios” não se coaduna com um periódico que pretende converter saloios em gente informada. É navegação de cabotagem.

Gosto de Manuel Carvalho e ainda mais de Ferreira Fernandes. E de Maria de Fátima Bonifácio também. Leio-os sempre, mesmo quando discordo do que defendem – o que acontece com alguma frequência. Jamais em circunstância alguma, mesmo perante textos escabrosos e tontos, apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”. Penso desta forma por várias razões, entre as quais ter lido o Público nos meus anos de faculdade. Mas esse Público desapareceu e esta polémica com Maria de Fátima Bonifácio é prova disso. O meu pai é saloio, eu tenho uma costela saloia, não nos livramos disso.  O Público é saloio por opção.

 

ADENDA: muito recomendável a leitura do ‘postal’ do José Pimentel Teixeira aqui, no DELITO, sobre o mesmo assunto.

Muros

Maria Dulce Fernandes, 05.07.19

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Muros são sempre limitações, seja quais forem os objectivos a que se propôs o seu construtor. Muros servem para delimitar, para fechar, para prender.

Seja de fora para dentro, como a Grande Muralha da China, a Muralha de Adriano ou a delimitação fronteiriça EUA-México, cujo propósito foi (e ainda é ) manter os invasores e ilegais afastados, ou de dentro para fora, como o Muro de Berlin ou a Safety Wall (irónico o nome...) na Cisjordânia, fortificações que isolam países inteiros e que circunscrevem o espaço e a vida das pessoas que neles habitam.

Depois há os muros das prisões, tantos e tão longos, que postos em linha dariam a volta ao globo terrestre.
O ser humano é o único animal que encarcera outros animais de diferentes espécies; encarcera também o seu semelhante, o bípede homo sapiens. A questão deontológica da aplicação da justiça dos homens nunca há-de ser pacífica nem conforme em igualdade, o que não significa que seja errada.

Deixei para o fim os outros muros, aqueles mais altos, mais fortes,  horrendos e intransponíveis, que são os muros psicológicos da intolerância.

Em pleno século XXI, igualdade de  cor, credo, raça e género continuam sem o reconhecimento que tanto criacionistas como evolucionistas lhes conferiram.

São séculos de segregacionismo, preconceito de género, xenofobia, homofobia, intolerância religiosa, em suma e numa só palavra ignorância, obscena e simples.

A história dos homens tem milhões de páginas que descrevem os horrores, a indignidade,  as atrocidades a que os seres humanos sujeitaram os seus iguais, em nome da pureza da raça, da verdadeira profissão de fé, da ginecofobia machista ou simplesmente da diferença.

A palavra Tolerância: Tolerância para mim é um exercício constante, para que eu possa ser uma pessoa melhor no trato com o meu semelhante,  todos os homens e mulheres de espírito aberto e vontade férrea. Se cada um de nós é um grão de areia no espaço infinito do universo, muitos grão de areia poderão formar o areal por onde poderemos correr em liberdade impolutos de corpo e espírito aos olhos de um  mundo que se quer renovar.

Somos  prisioneiros do preconceito que se manifesta diariamente em tantos aspectos das vidas de todos nós e, mesmo sem nos apercebermos, procuramos incessantemente abrir a gaiola e sair em liberdade, porque a felicidade de todos é a soma da felicidade de cada um.

 

O meu aplauso

Pedro Correia, 25.04.19

Abril no feminino?

Cristina Torrão, 24.04.19

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Imagem: Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra

Lisboa, Calçada de Carriche; mural do PCP

 

Estava eu sem inspiração nenhuma para escrever sobre o 25 de Abril, quando deparei com um post da jornalista Helena Ferro de Gouveia no Facebook:

«Mulheres de Abril

A história da Revolução ainda é contada no masculino deixando na sombra aquelas que foram chamadas de “companheiras na sombra”. Seja Maria Barroso, a retaguarda familiar de Soares, sejam as mulheres no partido comunista, sejam escritoras, artistas, professoras, sejam as mulheres de alguns movimentos católicos, sejam as mulheres-mães-noivas-namoradas dos que combateram na guerra colonial ou dos que pensaram o derrube do regime.

Mesmo após o fim da ditadura, no período quente, elas não viveram tempos fáceis. A escritora Maria Teresa Horta recorda que ajudou a organizar uma manifestação de luta pelos direitos das mulheres. Nessa manifestação previa-se a queima de símbolos da opressão feminina: vassouras, grinaldas de noiva… Porém, centenas de homens juntaram-se em redor das mulheres e começaram a bater-lhes. "Eram murros, despiam as mulheres, tentavam violá-las", conta a escritora.

Quarenta e cinco anos depois de Abril muito mudou para as mulheres em matéria de direitos e liberdades, há ainda um longo caminho a percorrer para mudar mentalidades e falta cumprir a igualdade. E foi também para isso que se fez Abril.»

 

Interessa-me o papel da mulher nos vários momentos da História e comecei a ler Mulheres da Clandestinidade, de Vanessa de Almeida. O que mais me surpreendeu, até agora, foi a forma de como as mulheres comunistas eram discriminadas no próprio partido, um partido que, já durante o salazarismo, fazia da igualdade uma das suas bandeiras.

Porém, os nossos comunistas não são caso único. Vi, há tempos, um documentário na TV alemã sobre as mulheres do Kremlin e fiquei igualmente abismada como elas eram usadas, mas “escondidas”, a fim de dar protagonismo aos homens. Muito poucos saberão o nome das mulheres que estiveram ao lado de personalidades como Lenine ou Estaline, por exemplo. Ainda hoje, a Rússia não lida bem com a figura da “primeira dama” (para não falar de uma mulher à frente dos destinos da nação). Nesse programa, dizia-se que Raíssa Gorbachev foi muito criticada por constantemente surgir ao lado do marido. Putin surge sempre sozinho. É verdade que se separou da mulher, mas, mesmo quando ainda eram casados, a sua actuação era idêntica. Ou alguém se lembra da mulher de Putin?

Regressando à nossa Revolução: é sabido que o 25 de Abril abalou os costumes, porquanto o vendaval causado pelos chaimites de Salgueiro Maia coincidiu com a revisão da Concordata, por parte do Vaticano, permitindo o divórcio civil para casais unidos pela Igreja. Mesmo sendo criança (entre os oito e os doze anos, se englobarmos o Verão Quente e o período que se lhe seguiu), não fiquei indiferente à confusão de certos adultos, perante tanta liberdade. Há uns anos, escrevi as minhas memórias do 25 de Abril, que acabei por misturar com comentários da adulta que hoje sou. Ainda não consegui publicá-las em livro, mas não resisto a transcrever um pequeno excerto:

«Muitos pais de família romperam com as amarras que os haviam levado ao casamento apenas para terem sexo à disposição. Partiram à procura das Emanuelles* e das gargantas fundas*, o que aliás está longe de implicar que as tenham encontrado. Sá Carneiro acabou por personalizar esta nova ordem, ao divorciar-se para se juntar a outra mulher. É curioso constatar que foi um homem de direita, que muitos apelidavam ainda de fascista, que acabou por se tornar na personificação da nova ordem.

Porém, o desaparecer de muitas convenções sociais e de outras fachadas foi, em parte, aparente. À semelhança de outros momentos da História, as liberdades a nível individual eram pensadas sobretudo para os homens. Naqueles anos imediatos ao 25 de Abril, ainda não se aceitava bem a ideia de que a esposa, a mãe divorciada, que ficava com os filhos a seu cargo, fosse à procura de novo parceiro. Ela própria se escusava a tal comportamento. A sua atitude de protesto passava, paradoxalmente, pela defesa dos valores tradicionais».

 

* Expressões baseadas em títulos de filmes mais ou menos pornográficos que, na altura, se mantiveram meses (talvez até anos) em exibição nos cinemas e se transformaram em verdadeiros símbolos da nova era.

Na Catalunha nem bons ventos nem bom senso

João André, 30.03.18

Há muito que penso que a "questão catalã" teria sido resolvida mais ou menos satisfatoriamente se tanto o governo de Rajoy como o anterior governo regional de Puigdemont tivessem tido juízo. Rajoy só teria que ter resolvido as questões do novo Estatut de forma a satisfazer o Tribunal Constitucional para o barulho se reduzir. Puigdemont, por seu lado, forçou uma questão com decisões para as quais não tinha o menor mandato. Até anunciar os resultados do dito cujo referendo, Puigdemont estava claramente a infringir a lei e qualquer lógica democrática liberal. Após ele e os seus correlegionários serem lançados aos calabouços, foi Rajoy (e Madrid) quem perdeu muita da sua força moral.

 

Neste momento não me pronuncio sobre a independência da Catalunha. É óbvio que não existem condições para a mesma. Nos melhores dias, os independentistas chegam no máximo a 50% e nunca me parece ter havido discussão sobre que tipo de sistema constitucional existiria no novo país. Seria simplesmente uma espécie de "República". Isto não chega.

 

Só que, sendo isto verdade, não faz qualquer sentido Madrid persistir na sua perseguição a Puigdemont e outros. É óbvio que não estão em risco de iniciar uma insurreição, nada na Catalunha nos dá essa impressão. Há tensão, mas ainda não vi uma única reportagem a dar a ideia de um barril de pólvora pronto a explodir. Os dirigentes independentistas infringiram a lei, mas o princípio da razoabilidade deveria dominar aqui: o procurador geral (ou equivalente em Espanha) deveria simplesmente pedir a liberdade condicional para os dirigentes enquanto esperam pelo julgamento. E, a não ser que de facto se dê como provada, num julgamento justo e imparcial, a conspiração para cometer actos verdadeiramente insidiosos (a vontade de independência ainda não o é), a máxima pena a que estes dirigentes deveriam ser condenados seria uma suspensão de cargos públicos por um determinado período.

 

Andar a lançar mandatos de captura internacionais só vem dar fogo à lenha dos independentistas, que aproveitam para insistir (com base na sua leve maioria no Parlamento Catalão) na escolha desses dirigentes para presidente da Generalitat. É uma insistência algo parva, mas estão no seu direito. Aquilo em que dará será novas eleições após Maio (se bem entendi, é esse o limite para a formação do governo), as quais poderão dar resultados que ninguém conseguirá prever.

 

Há muitas coisas que vão faltando no caso catalão: fúria independentista, repressão autoritária, e essencialmente bom senso, em Barcelona e Madrid. E, mais que Puigdemont e outros dirigentes, quem vai sofrendo com isto tudo são os catalães, independentistas ou não, que vêem a incerteza diária complicar-lhes a vida.

 

 

PS - no entanto isto não se compara nem de perto nem de longe à Turquia ou à Rússia como o Luís quer fazer passar. A comparação é tão disparatada que nem vale a pena falar no assunto. Comparar com Hungria ou Polónia ainda compreenderia, mas com dois autocratas que nunca irão ser votados para fora do cadeirão? Não gozem comigo.