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Delito de Opinião

Leitura recomendada

Pedro Correia, 08.07.23

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Foto: Lusa

 

«Hoje, o futuro é um vento que sopra a uma velocidade que o primeiro-ministro não controla. A seu favor ou contra a sua vontade, as suas criações têm vida própria, autonomia, ambições, força. (...) Pedro Nuno Santos e Marta Temido só têm tudo isso porque António Costa criou, inadvertidamente ou não, um ambiente onde a ressurreição é inevitável porque a morte política nunca é definitiva.

Temido deixou o Ministério da Saúde com o maior crescimento de mortalidade na União Europeia entre o pré-pandemia e o pós-pandemia ‒ 24% ‒ e o SNS com a maior dependência de sempre do setor privado. Pedro Nuno Santos indemnizou uma administradora de forma ilegal, nomeou-a para uma empresa pública de forma igualmente ilegal, nada disse ao vê-la tornar-se secretária de Estado do Tesouro, nada disse sobre lembrar-se ou não da indemnização, esqueceu-se de ter aprovado o valor da mesma, recordou-se ao dar milagrosamente com uma conversa eletrónica e demitiu-se. Mas nada disso importa ‒ ou importou ‒ e do relatório preliminar da comissão de inquérito à TAP ao ânimo do grupo parlamentar do PS quase dá ideia de que bom, bom, bom era o dr. João Galamba ser amanhã substituído pelo seu antecessor na pasta.»

 

Sebastião Bugalho, aqui.

Trocar o real pelo digital

Não há democracia verdadeira sem comércio de bairro

Pedro Correia, 03.04.23

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A relação cada vez mais desumanizada das pessoas com o espaço onde moram, sobretudo nas grandes cidades, acentua-se à medida que nelas proliferam os estafetas para todo-o-serviço. Gente que vem de fora, muitas vezes oriunda das periferias mais precárias de Bombaim, Calcutá, Daca, Catmandu ou Carachi, assegura a relação entre o comércio e os domicílios burgueses que por cá vão restando. A pandemia afugentou muitos de nós das ruas - alguns, mais velhos ou mais propensos à solidão, encerram-se quase como reclusos nos domicílios. Enquanto o pequeno comércio de bairro, tantas vezes pedra angular das relações de proximidade, encerra a um ritmo galopante neste país em que todos os dias há 14 restaurantes a fechar de vez

Dominam as "grandes plataformas" impessoais, sem rosto nem nome, manobradas do estrangeiro. Instauram um mandamento dos novos tempos: tudo deve processar-se por via digital. O que era outrora cenário distópico torna-se realidade. E muitos de nós somos coniventes, talvez convictos de que embarcamos na última carruagem de um admirável mundo novo. O mundo em que um paquistanês sem identidade, igual a qualquer outro, acaba por ser um dos nossos raros pontos de contacto com a rua.

 

Não vejo "progresso" algum nisto: só vislumbro retrocesso. Proletarização da sociedade, precarização dos laços humanos, troca do real que agrega pelo digital que segrega.

Daí aplaudir quem rema contra a corrente. Pessoas como o Henrique Raposo, que escreve estas admiráveis linhas na mais recente edição do Expresso:

«O declínio do comércio local não é apenas um problema do Excel da economia e do Estado, é um problema social no sentido mais profundo da palavra "social": o que está em causa é a própria ideia de sociedade que é feita no dia-a-dia na rua. Se compram tudo online, as pessoas estão a matar-se enquanto "vizinhos" da rua, estão a definir-se apenas como "consumidores" do mercado e como "contribuintes" do Estado. Eu não vivo nem do mercado nem no Estado, dois meros instrumentos; eu vivo na minha rua. Quando valorizam apenas o comércio online ou as grandes superfícies comerciais, essas naves espaciais que sugam a energia das cidades, a cultura e a política do nosso tempo estão mesmo a matar o velho conceito de bairro. E sem o bairro tocquevilliano não há democracia nem na América nem na Europa. Ou seja, a desmaterialização do comércio também é a desmaterialização da democracia. Ruas sem lojas e cafés de pequenos proprietários são ruas inseguras, para começar, e tristes, para acabar. Ou não se pode falar com os vizinhos porque há medo ou porque há uma enorme aridez e solidão.»

Assino por baixo.

Um ponto de luz rodeado de noite

Pedro Correia, 25.12.22

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Cada vez gosto mais de ler cronistas e colunistas da imprensa espanhola. E cada vez mais admiro a qualidade da escrita deles na comparação com os congéneres portugueses - salvo raras e muito honrosas excepções.

Ao ler o El Mundo de ontem, deparei com três crónicas notáveis, que assinalo aqui: "Consolo e tristeza na Noite de Natal", de Lucía Méndez. "A superioridade da neve face à chuva", de Andrés Trapiello. E "Luz na noite", de Jorge Bustos.

Qualquer destas peças jornalísticas merecia figurar numa antologia do género sem favor algum.

Do texto de Bustos destaco uma das melhores definições que já li sobre o sortilégio desta quadra, diferente das restantes que desfilam no calendário: «O Natal nada mais é do que um ponto de luz rodeado de noite.»

Acontece em larga medida, assinala Trapiello, porque a data de hoje nos traz contínuas reminiscências de tempos idos, ligadas ao assombroso mistério da existência. Como um episódio que narra da sua infância, à saída da Missa do Galo de mão dada com a mãe, ao ver a neve que cobria de branco a pequena cidade de província onde cresceu. Daí o brilho natalício ser tão decisivo para as crianças: estamos agora a forjar nelas «o que um dia será o seu passado»

Ponto de luz rodeado de noite. Eis o supremo desafio da vida, ainda mais nítido nesta noite de Natal, segundo observa Lucía Méndez: algo digno de nos deixar «a alma em paz».

Candidatas às frases mais ridículas do ano

Pedro Correia, 06.05.22

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«Da guerra. Trata-se de uma tragédia, sobretudo para os ucranianos, e para a esquerda também não é boa.»

«Quem sente em si anticomunismo deve verificar se não encontra também fascismo.»

«Devo criticar uma pessoa racializada em frente a alguém que sei ser racista? Diria que não.»

«Ninguém de esquerda pode sentir prazer em assistir ao linchamento de um partido como o PCP.»

«O PCP, contrariamente ao que seria previsível, pode sair daqui com vigor.»

«O que querem os anticomunistas? Acabar com o PCP. O que vão conseguir? Talvez dar-lhe um novo alento.»

 

Carmo Afonso, colunista da última página do Público de hoje

Os cães da guerra

Pedro Correia, 08.03.22

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«Não sei porque o César de Shakespeare grita "devastação" e solta os cães da guerra. Nem porque se dirá que uivam os cães da guerra, ofendendo os animais, quando o homem é o único ser que organiza matanças para exterminar a sua própria espécie. Em cada século algum paranóico aspira a conseguir um império universal, algo que no passado foi possível por não haver bombas atómicas.»

Raúl del Pozo, no El Mundo

Ler os outros (sobre a pandemia)

Pedro Correia, 17.10.20

Rodrigo Adão da Fonseca, O Insurgente:

«É importante monitorar a evolução da doença, e rastrear é fundamental; sou totalmente a favor da testagem massiva. Os testes são uma componente essencial da gestão duma pandemia. Agora, estar diariamente a endeusar estes números e a difundi-los de forma alarmista e até à náusea, sem os interpretar à luz de outros dados bem mais relevantes – como o número de mortos, a sua faixa etária, morbilidade, internados, internados em UCI – é próprio de uma sociedade masoquista dominada pelo pânico.»

 

Eduardo Louro, Quinta Emenda:

«A ideia de obrigar a instalar um determinado software no telemóvel de cada um não lembraria a ninguém. A não ser nos regimes totalitários da China ou da Coreia do Norte. Uma coisa é fazer uma campanha, como o primeiro-ministro de resto já tinha feito, para convencer as pessoas a usarem uma aplicação – uma app, como se diz – de livre vontade. Outra é fazer uma lei a obrigar ao seu uso! Isto não é um abanão. É um empurrão para o escuro. E é, do ponto de vista da democracia e da liberdade, o absurdo.»

 

Sofia Loureiro dos Santos, Defender o Quadrado:

«Não podemos continuar a condenar a sociedade a uma crise sanitária gravíssima no que diz respeito a todas as outras patologias não COVID-19, à continuação de uma crise económica gravíssima de cujas consequências ainda não nos apercebemos bem, a um desmantelamento das redes sociais e familiares que são a essência da vivência dos seres humanos. Não é possível manter as comunidades transidas de medo, procurando afincadamente notícias de alarme.»

 

Helena Araújo, 2 Dedos de Conversa:

«Há dias li um comentário sobre uma jovem berlinense que participou numa festa rave dizendo que para ela era uma questão essencial de selfcare. Os jovens estão fartos da disciplina, dizem os jornais, e os resultados estão à vista: em Berlim, cerca de 60% dos infectados com covid têm idade entre os 10 e os 40 anos. Berlim deixou de receber turistas, os berlinenses não podem viajar livremente pelo resto do país, e a cidade está a um passo de novo lockdown: 3,7 milhões de pessoas obrigadas a regime de confinamento. Era bom que trocássemos umas ideias sobre a questão da liberdade individual.»

 

João Mendes, Aventar:

«Faz-me imensa confusão, esta comparação disparatada entre a possibilidade do governo nos enfiar uma app telefone adentro, transformando agentes de segurança em monitorizadores de telemóveis, e os dados que entregamos voluntariamente aos Facebooques da vida. Será assim tão difícil de perceber a diferença entre uma imposição coerciva e uma decisão pessoal e voluntária? Sejamos sérios: se eu, ou qualquer um de vocês, decide entregar informação pessoal a uma plataforma digital, bem ou mal, é de uma escolha livre que se trata. Uma escolha que pode ser revertida a qualquer momento. Se um governo decide impor uma aplicação, fazendo uso de multas e de patrulhamento policial, é o espírito da democracia que está a ser posto em causa.»

 

Vital Moreira, Causa Nossa:

«Como é que seria? A polícia teria o poder de exigir às pessoas a exibição dos seus aparelhos e a prova de instalação da app? E teria também o poder de consultar as listas de infectados e exigir-lhes a prova de que registaram a infeção na app? E a fiscalização policial seria feita na rua, nos cafés e noutros lugares públicos? Poderia entrar nas escolas e locais de trabalho para esse efeito? E quantos efectivos seriam precisos para uma fiscalização razoavelmente ampla?»

 

Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória:

«Se a obrigação de usar a tal app, para a qual não foi possível sequer inventar um nome em português, vier a se chumbada na AR (como espero e julgo que acabará por acontecer), Costa bem pode comprar alguns sapatinhos novos porque o tiro no pé vai furar alguns.»

 

Helena Matos, Blasfémias:

«Nesta história da obrigatoriedade da aplicação, a que ao menos podiam ter dado um nome em português, há um detalhe básico: desde quando são os portugueses obrigados a ter telemóvel? Por mim, preparo-me para regressar ao velho Nokia. E se for necessário às cabines telefónicas. Aplicação Stayaway Covid? “Jamé” como dizia o outro!»

Heróis

Pedro Correia, 06.09.20

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«Vem aí a segunda vaga ou a segunda onda de medo. A segunda oportunidade para a coragem e para conhecer os verdadeiros heróis. Ouvi que Mário Nogueira já começou a colocar entraves aos professores nas aulas, que os magistrados do Ministério Público acham que ainda não há acrílicos suficientes nos tribunais para os proteger, que os médicos estão reticentes em voltar aos hospitais e que os funcionários públicos que não ficarem de baixa mas sim em teletrabalho querem aumento de ordenado pelos "custos acrescidos" de trabalhar em casa. Sim, tivemos muitos "heróis" na primeira vaga. Professores em casa, tribunais fechados meses a fio, médicos e enfermeiros (tirando os que, de facto, atendiam os doentes covid, uma minoria) resguardados em casa enquanto lhes batiam palmas às janelas. Mas os verdadeiros heróis foram outros: os trabalhadores dos supermercados, os camionistas e os trabalhadores dos armazéns que traziam os produtos para os supermercados, os pescadores e os trabalhadores agrícolas, a maior parte deles imigrantes, vivendo em contentores, trabalhando sem máscaras nem distanciamento social. Enquanto todos estiveram trancados em casa, foram eles que garantiram o confinamento, foram eles os ignorados heróis. Agora, que vamos ensaiar a normalidade, vamos ver como se portam os outros.»

 

Miguel Sousa Tavares, ontem, no Expresso

Um dos melhores textos que tenho lido desde que isto começou

Pedro Correia, 21.04.20

 

«Acabei de ler mais um daqueles textos virais nas redes sociais que juntam na mesma frase palavras como “covid-19” e “gratidão” e confesso que estou, neste exacto momento, a martelar em fúria as teclas do computador. Já dei dezenas de voltas à cabeça e continuo sem conseguir perceber como é que alguém pode achar que devemos estar gratos por estar a viver uma situação de pandemia que nos obriga a medidas de isolamento social extremas.»

 

«A infecção por covid-19, para a esmagadora maioria da população, é uma experiência essencialmente de medo e há milhares de pessoas a braços com uma terrível e angustiante ansiedade. E não, o mundo não está a meter nada no lugar quando há cidades italianas onde os mortos são tantos que os caixões têm de ser recolhidos em camiões do exército. É verdade que a poluição atmosférica diminuiu e que os canais de Veneza estão mais limpos mas, pergunto eu, a que custo?»

 

«Depois lemos que devemos agarrar esta oportunidade para olhar para dentro e crescer… Como é que se olha para dentro numa altura destas é coisa que não faço ideia, confesso desde já. Pessoalmente só tenho olhado para fora, para lá dos muros do meu quintal, para lá das fronteiras do meu país. E tenho medo do que vejo e daquilo que ainda vou ver. Mesmo sem perceber nada de economia tenho medo do que aí vem, tenho medo do aumento do número de desempregados, tenho medo dos pequenos empresários que vão levar a estocada final com esta pandemia que outros parecem querer fazer-nos acreditar que chegou para bem da humanidade.»

 

Carmen Garcia, Podem parar de romantizar a pandemia? (excertos) 

Público, 21 de Março

Ler

Pedro Correia, 11.01.20

 

Números imaginários. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Música. De Sofia Loureiro dos Santos, no Defender o Quadrado.

Carta aberta aos coitadinhos dos sofridos. De Rita Monteiro, no Talvez Outro Dia.

Joker. Da Maria João Caetano, n' A Gata Christie.

Viver à pressa. De Joana Rita, n' All About Little Lady Bug.

Nova Iorque em família. Da Sónia Morais Santos, no Cocó na Fralda.

 

Leitura recomendada

Pedro Correia, 21.09.19

«Senhor Reitor, tenho a agradecer-lhe chamar a atenção para a importância dos mercados públicos para as políticas ambientais e de gestão do território, mas tenho pena, francamente pena, que a vontade de surfar a onda de tanta gente mal informada o tenha levado a pôr a Universidade de Coimbra na posição de um agente pouco sofisticado e ignorante, ignorando, por exemplo, o bom exemplo do Instituto Politécnico de Bragança, que nas suas cantinas apenas serve carne de vaca mirandesa com Denominação de Origem Protegida.»

 

Fraca carne. De Henrique Pereira dos Santos, no Observador.