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Delito de Opinião

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 22.05.24

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Hoje lemos: Alain-Fournier, " O Tempo das Ilusões Perdidas".

Passagem a L-Azular:"Passaram-se semanas, depois meses. Estou falando de um tempo distante – uma felicidade desaparecida. Coube-me a mim fazer amizade, consolar com todas as palavras que conseguisse encontrar, aquela que havia sido a fada, a princesa, o misterioso sonho de amor da nossa adolescência - e coube-me a mim porque minha companheira havia fugido. Desse período... o que posso dizer? Guardei uma única imagem daquela época, e ela já está desaparecendo: a imagem de um lindo rosto emagrecido e de dois olhos cujas pálpebras caem lentamente enquanto olham para mim, como se o olhar dela fosse incapaz de se deter em nada além de um mundo interior.”

A realidade de muitos é triste e tão somente esta. Estão cá, mas encontram-se num lugar onde nada nem ninguém os poderá jamais alcançar.  Pergunto-me se terá sido ali que encontraram a verdadeira felicidade.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 18.05.24

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Hoje lemos: Erin Litteken, "A Guardiã da Memória de Kiev".

Passagem a L-Azular: “Não se trata de fazer com que produzamos mais alimentos”, disse ele, quando a impossibilidade de sobrevivência se tornou subitamente dolorosamente clara para ambos. “Eles querem que todos nós morramos.”

- “Execução pela Fome.”

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"A falta completa de alimentos causa sintomas que aparecem gradativamente e se agravam ao longo dos dias, sendo os principais:

  • Diminuição da barriga, principal região do corpo que armazena gordura;
  • Pele fria, seca, pálida, fina e sem elasticidade;
  • Redução da musculatura e aspecto envelhecido;
  • Ossos salientes devido à magreza;
  • Cabelos secos, quebradiços e que caem facilmente;

Um adulto pode chegar a perder até metade do seu peso antes de morrer de inanição."

Quando qualquer ser vivo deixa de se alimentar, neste caso particular os humanos, quando é negado ao corpo o  fornecimento  do essencial: a energia viabilizada pela glicose, pode existir o perigo da morte por inanição.

É necessária a ingestão de cerca de 1700 calorias diárias apenas para manter o metabolismo que produz essa energia. Sem as calorias dos alimentos, o organismo automaticamente procura nas suas reservas, fazendo praticamente com que as células se alimentem da glicose e  dos carboidratos do tecido gorduroso.

Com falta de glicose, ou seja, sem energia, o cérebro também vai perdendo a pouco e pouco as suas faculdades de orientar o corpo. A pessoa sente tonturas, enjoos, náuseas e tem dificuldade para raciocinar. Assim que percebe que tem pouco "combustível" para manter a máquina  em actividade, o cérebro começa a enviar sinais para que cada órgão economize energia e passe a trabalhar menos. 

No fim, se o organismo usar todos os seus próprios recursos até ao esgotamento e a inanição persistir, a máquina pára e a pessoa morre. 

Foi assim com milhões de pessoas. Inacreditavelmente continua a ser.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 15.05.24

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Hoje lemos: Luis Zueco, "O Mercador de Livros".

Passagem a L-Azular: “- Escusado será dizer que o talento não está relacionado com a fé, nem com a bondade, são coisas muito distintas. Por isso, há que ser prudente na hora de julgar um homem; o mais tonto pode ser um artista habilidoso ou o mais cruel ser um bom governante, o ser humano é assim... contraditório e incompreensível na sua história.”

É o mesmo que dizer que não se deve julgar um livro pela capa, porque todo o conteúdo encerrado naquelas páginas cheias de letras apensas, maiúsculas, minúsculas, direitas e tortas, só se poderá conhecer se lhe dermos a hipótese de o ler, de o descobrir letra a letra.

E depois é como tudo. Existem grandes livros em qualidade e quantidade de folhas, de autores consagrados, que são de leitura obrigatória, e existem romances humildes, únicos e singelos, que são de leitura de tal modo aprazível que, no final, nos sabem sempre a pouco.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 11.05.24

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Hoje lemos Leon Uris: "Exodus".

Passagem a L-Azular: “Por que devemos lutar pelo direito de viver, incessante e repetidamente, cada vez que o sol nasce?”

O leitor descuidado lê a pergunta, perplexo, porque esta carece de fundamento e não  lhe faz qualquer sentido.

Terá o leitor de ter mais atenção ao modo como absorve a sua leitura, porque a pergunta, para além de constatar um facto, faz todo o sentido e é sempre pertinente.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 08.05.24

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Hoje lemos: Leïla Slimani, " O País dos Outros".

Passagem a L-Azular: "Mathilde adorava o cinema com tanta paixão que a fazia sofrer. Assistia aos filmes quase sem respirar, com todo o seu corpo voltado para os rostos em Technicolor. Quando, duas horas depois, deixou a sala e saiu da escuridão, a agitação da rua atingiu-a intensamente. Era a cidade que era falsa, incongruente, era a realidade que lhe parecia uma ficção trivial, uma mentira. Mathilde gostava da ideia do que seria a felicidade de ter vivido em outro lugar, de ter tacteado em paixões sublimes, mas ao mesmo tempo uma forma de raiva, uma amargura borbulhava dentro de si. Queria muito ter o poder de entrar na tela, de experimentar sentimentos que tivessem a mesma substância, a mesma densidade, a capacidade de ser reconhecida pela sua dignidade como personagem."

Um livro que trata de grandes diferenças. De todas as grandes diferenças. Uma europeia casa com um marroquino, e vai morar com ele para a sua terra. É racismo, xenofobia, fundamentalismo, etc. Mathilde ver-se obrigada a seguir as regras do país que a acolheu, com respeito a todas as pequenas e grandes coisas da sua vida como esposa do seu marido, ou existe apenas o bom senso de agir segundo a tradição vigente, que o respeito a essa mesma tradição exige?

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 04.05.24

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Hoje lemos Elif Shafak: "A Cidade nos Confins do Céu".

Passagem a L-Azular: "Sentado no pescoço de Chota, Jahan conseguia ver para baixo e para trás, surpreendido por se encontrar a olhar para um mar de corpos cujo fim não se distinguia. Viu os camelos que transportavam as provisões e os bois que puxavam canhões e catapultas; os albardeiros das tranças, com o cabelo a sair-lhes dos bonés; os dervixes entoando invocações; o agá dos janízaros orgulhosamente sentado em cima do seu cavalo; o sultão montando um puro-sangue árabe, rodeado por guardas os arqueiros canhotos à sua esquerda, os de destros à sua direita. À sua frente cavalgava um porta-estandarte, carregando a sua bandeira com as sete caudas de cavalo negras. Milhares de mortais avançavam erguendo estandartes e caudas de cavalo em estacas; levantando piques, cimitarras, machetes, arcabuzes, machados, lanças, escudos, arcos e flechas. Jahan nunca vira tantos homens juntos. O exército era menos uma horda de homens do que um gigante maciço. A batida em uníssono de pés e cascos era, simultaneamente, arrepiante e entorpecedora. Subiam as colinas contra o vento, rasgando a paisagem como uma faca a cortar carne."

É a guerra. É a adrenalina na pole position, é o anseio pelo cheiro a sangue, é o corpo a vibrar de expectativa e o peito a resfolgar de excitação em homens e em bestas, em todos eles  ténue é a diferença e nenhuma a distinção. Era "arrepiante e entorpecedora", mas era o caminho. Não conheciam outro modo de vida. Era matar ou morrer.

Pelo menos olhavam-se nos olhos e sabiam que iam morrer ou matar. Ali. Mesmo os poderosos tinham uma coragem diferente daquela que nasce nas mãos que manobram joysticks e da que espevita a dormência na  ponta dos dedos que carregam nos botões.

Mudando de assunto, qualquer livro no qual um dos heróis é o elefante branco, é de louvar e merece a pena ler. 

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 01.05.24

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Hoje lemos: Hermann Hesse, "Siddartha".

Passagem a L-Azular: A sabedoria não pode ser transmitida. A sabedoria que um homem sábio tenta transmitir sempre soa como tolice para outra pessoa... O conhecimento pode ser comunicado, mas não a sabedoria. Podemos encontrá-lo, vivê-lo, fazer maravilhas através dele, mas não podemos transmiti-lo e ensiná-lo.”

Saber que o conhecimento existe, que se vai renovando e progredindo ao longo dos tempos, é um facto. Daí a reconhecer que a sabedoria para usar todo o conhecimento adquirido durante anos e anos com justeza é uma falácia, vão centésimos de segundo.

"Só sei que nada sei" é uma frase de uma humildade extrema sobre o muito conhecimento e a sabedoria em reconhecer que afinal muito não é nada.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 27.04.24

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Hoje lemos: Yann Martel, "A Vida de Pi".

Passagem a L-Azular: “Devo dizer uma palavra sobre o medo. É o único verdadeiro adversário da vida. Somente o medo pode derrotar a vida. É um adversário inteligente e traiçoeiro, pelo que sei. Não tem decência, não respeita qualquer lei ou convenção, não demonstra piedade. Vai sorrateiro até ao teu ponto mais fraco, que consegue encontrar com uma facilidade enervante. Começa na tua mente, sempre... então deves lutar muito para expressá-lo a viva voz. Deves lutar muito para iluminar o medo com a luz das palavras. Porque se não o fizeres, se o teu medo se tornar numa escuridão sem palavras que tentas evitar, talvez até consigas esquecê-lo por algum tempo, mas ficas exposto a novos ataques de medo porque nunca lutaste verdadeiramente contra o oponente que te derrotou.”

Dizem que o Inferno não existe. No Antigo Testamento, a palavra traduzida como "inferno" é Sheol; no Novo Testamento é Hades (que significa "invisível") Sheol também é traduzido como "buraco" e "sepultura". 

Poderá depreender-se que a fonte de todos os medos é a morte? Ser sepultado e passar a ser invisível ao olhar de todos os que continuam a sua vida?

Desde tempos imemoriais que existe a crença na efemeridade dos dias que nos foram permitidos viver numa forma corpórea, preparando por pensamentos, palavras e obras a nossa ascensão à perpetuidade infinita da felicidade total. Podemos encontrar a essência da imortalidade da energia que flui na alma em todas a religiões, que cumprem os seus dogmas de um ou de outro modo, dependendo grandemente da sua interpretação doutrinal.

Então a pergunta que fica no ar é sobre a morte, a porta de transição para a total harmonia e a origem de todos os medos. Pessoalmente não acredito que haja quem não tema todo o processo que leva ao total e final oblívio.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 24.04.24

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Hoje lemos: Elie Wiesel, "Noite".

Passagem a L-Azular: "Há um longo caminho de sofrimento pela frente. Mas não percam a coragem. Vocês já escaparam do perigo mais grave: a selecção. Então agora, reúnam as vossas forças e não desanimem. Todos veremos o dia da libertação. Tenham fé na vida. Acima de tudo, tenham fé. Expulsem o desespero e manterão a morte longe de vós. O inferno não é para a eternidade. E agora uma oração – ou melhor, um conselho: que haja camaradagem entre vós. Somos todos irmãos de infortúnio e sofremos todos o mesmo destino. O mesmo fumo flutua sobre todas as nossas cabeças. Ajudai-vos uns aos outros. É a única maneira de sobreviver.”

Ler é viajar com a imaginação do autor até outras terras, ver outras gentes, conhecer novas culturas, em suma, encontrar uma experiência de vida  diferente nas páginas de um livro. Ler o que pessoas como o autor viveram não nos transporta a outras paragens que não as do horror, do sofrimento e da morte. E nós, leitores horrorizados, não fazemos a mais pálida ideia do que foi aquela realidade, porque por muito que as palavras no-lo transmitam, nunca o sentiremos na pele, na garganta, no estômago... o medo, aquele medo. Não se trata de um filme de terror, mas sim de uma circunstância impossível de absorver na íntegra, por melhor descrita que seja.

É por isso que não se deve usar levianamente a palavra Liberdade. Milhões de pessoas sofreram e sofrem abusos e atrocidades, sevícias que quem vive em democracia e lê nos jornais ou vê nas TVs jamais saberá dar o valor, pois na verdade nunca as sentiu na pele, apenas ouviu falar e viu o que foi proposto mostrar.

A Liberdade não é para desrespeitar, conspurcar, amachucar, escarrar em cima, usá-la em vão e abusivamente.  Quem a tem, tem a obrigação de a defender contra abusos e mordaças agonizantes. E estime-a bem, pois nunca sabe por quanto tempo poderá afirmar a viva voz "Eu sou livre".

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 20.04.24

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Hoje lemos: Jeannette Walls, "O Castelo de Vidro".

Passagem a L-Azular: "Quando o pai não nos estava a contar sobre todas as coisas incríveis que ele já tinha feito, estava a contar-nos sobre todas as coisas maravilhosas que ainda iria fazer. Como por exemplo, construir o Castelo de Vidro. Todas as habilidades de engenharia e o génio matemático do nosso pai estavam concentrados num projecto especial: a casa enorme que iria construir para todos nós, no deserto. A Casa iria ter um tecto de vidro,  grossas paredes de vidro e até uma escada de vidro. O Castelo de Vidro teria também painéis solares no topo que captariam os raios do sol e convertê-los-iam em electricidade, tanto para aquecimento como para arrefecimento e também para o funcionamento de todos os aparelhos. Teria até o seu próprio sistema de purificação de água! O pai tinha planeado a arquitetura, as plantas, com todos os diagramas e tratados e a maior parte dos cálculos matemáticos. O pai levava consigo as plantas do Castelo de Vidro onde quer que fôssemos, e por vezes deixava-nos estudá-las e trabalhar no projecto dos nossos próprios quartos. Tudo o que precisávamos fazer seria apenas encontrar ouro, dizia o pai, e estávamos mesmo à beira disso. Assim que ele terminasse o "Prospector" e ficássemos ricos, começariam as obras do nosso Castelo de Vidro".

É a sorte, o karma, o destino, maktub, tudo o que lhe queiram chamar, que decide o culminar desta ventura, deste projecto, deste sonho?

Quantas pessoas como este pai de família conhecemos nós, saltando de emprego em emprego durante toda a sua vida? Não lhes retiro um milímetro ao valor. Não roubam, trabalham. Mas têm sempre um projecto que "está a dar", que se "paga a ele prôprio" e que "este é que é"... sonham apenas. Que nunca se lhes acabem os sonhos, os tais que comandam a vida, e acordem para esta triste realidade que nada vale. Deixou até de ser o único sítio onde se comem bons bifes.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 17.04.24

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Hoje lemos: Pearl S. Buck: "Terra Abençoada".

Passagem a L-Azular: "Ora, desde tempos imemoriais que se diz que todas as mulheres que choram podem ser divididas em três tipos. Há aquelas que levantam a voz enquanto as lágrimas escorrem e a isso pode chamar-se choro; há aquelas que se exprimem por altas lamentações, mas cujas lágrimas não fluem e a isso pode chamar-se uivo; há aqueles cujas lágrimas fluem, mas não emitem qualquer som e isso pode ser chamado lamento. De todas aquelas mulheres que seguiram em cortejo o ferétero de Wang Lung, as suas esposas e as esposas dos seus filhos e as suas criadas e os seus escravos e os seus enlutados contratados, só houve uma que chorou e foi Pear Blossom."

É certo que o sentimento pode ou não exteriorizar a emoção do momento. Há quem faça barulho por tudo, outros fazem um escarcéu por nada. Há quem se sinta dilacerado por dentro mas a voz não sai, fica presa na garganta. Pontualmente solta um aulido baixo e prolongado como se fera fosse e farpas lhe rasgassem o ser. E há quem não chore, não soluce, não solte sequer um vagido ou uma lágrima. Essa passa pelo tormento como se lá não estivesse. A adrenalina libertada pela dor confere-lhe uma força sobre-humana. Mesmo mecanicamente, faz tudo aquilo que tem de ser feito. 

O turbilhão que arrasta a dor chegará sim, mas depois. Só chora no fim. E o fim pode demorar tanto tempo a chegar.

 

PS. Um beijinho de saudade de a ler aqui, D. Helena Sacadura Cabral.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 13.04.24

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Hoje lemos: Madeleine L'Engle, "Um Atalho no Tempo".

Passagem a L-Azular: "Um livro também pode ser uma estrela, “material explosivo, capaz de despertar vida nova indefinidamente”, um fogo vivo para iluminar a escuridão, conduzindo ao universo em expansão”.

Basta ao livro ser a luz que ilumina um propósito de vida que põe ao léu as formas amorfas que se escondem nas sombras, mostra o brilho dos olhos que se abrem, indica o caminho à mãos para se poderem tocar. Antes de atingir o universo, o leitor precisa alcançar o seu próprio horizonte e constatar que afinal não há linha, não existe limite para aquele escopo que se propôs alcançar. E sabe que é verdade, porque leu.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 10.04.24

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Hoje lemos: William Golding, "O Deus das Moscas".

Passagem a L-Azular: "Houve tantas interpretações da história que não vou escolher entre elas. Faz tu tua própria escolha, porque todas as  interpretações se contradizem. A única escolha que realmente importa, a única interpretação da história, se quiseres, é a tua. Nem do teu professor, nem do meu, nem do crítico, nem de alguma autoridade. A única coisa que importa é, primeiro, a experiência de estar dentro da história, de percorrê-la. Então aí decides qual a interpretação que quiseres. Se for a tua, então é o livro certo, porque o que está num livro não é apenas o que o autor pensou e escreveu, mas a versão  que o leitor dele deve extrair."

Quantas vezes em conversa com familiares e amigos, surge a pergunta "nem parece que viste o mesmo filme, caramba"! Mas é perfeitamente plausível. Já me aconteceu ler um livro quando tinha 17 ou 18 anos, revisitá-lo anos mais tarde e ficar incomodada por não fazer ideia de ler a história assim.

Se a mesma situação vivida por pessoas diferentes, com diferentes estados de espírito, é relatada de modo diverso se não completamente oposto, porque não a leitura de um livro que se adorou ler numa década da nossa vida, passados uns pares de anos deixar um amargo de boca?

São os livros que mudam no sentido de se tornarem bizarros em relação à presente realidade, é essa realidade que muda e com ela os sentidos que orientavam as nossas competências, ou somos nós que mudamos, e por muito devagar que se processe essa suave metamorfose, acabamos, mais tarde ou mais cedo, por nos surpreender com ela?

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 06.04.24

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Hoje lemos: C.S.Lewis, "Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa".

Passagem a L-Azular: "A cada momento as manchas verdes ficavam maiores e as manchas de neve diminuíam. A cada momento, mais e mais árvores sacudiam as suas vestes brancas de neve. Assim, para onde quer que olhassem, em vez de formas brancas sobressaía o verde escuro dos abetos ou os galhos pretos, espinhosos e nus dos carvalhos, faias e olmos. Então a névoa passou de branca a dourada e rapidamente se dissipou por completo. Deliciosos raios de luz solar incidiram sobre o chão da floresta e acima podia vislumbrar-se um céu azul por dentre as copas das árvores.
E, num ápice, mais coisas maravilhosas continuavam a acontecer. Ao dobrar repentinamente uma esquina, entrando numa clareira de bétulas prateadas, Edmund viu o chão coberto em todas as direcções por ciledónias, pequenas flores amarelas. O barulho da água ficou mais alto. Tinham acabado de atravessar um riacho e para além dele encontraram os flocos de neve .”

Que as manchas verdes se sobreponham às outras manchas de outras cores, é uma ideia reconfortante.

Não tenho qualquer preconceito colorístico e como tal abraço igualmente qualquer cor do espectro. A hereditariedade pintou-me o genoma de azul céu para poder ver a luz, mas se o verde for predominante, basta pensar que é também composto por azul. Decompor a luz em todas as suas cores e nuances é algo bonito e pacífico de ver. Quem sabe, em vez de pacemakers não devêssemos implantar prismas ópticos, que seguramente não endureceriam as imagens que os olhos dão a conhecer ao centro de informação?

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 03.04.24

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Hoje lemos: E.B. White, "A Teia de Carlota".

Passagem a L-Azular: “O que queres dizer com menos do que nada? Não creio que exista menos do que nada. Nada é absolutamente o limite do nada. É o mais baixo que se pode ir. É o fim da linha. Como pode algo ser menos do que nada? Se houvesse algo que fosse menos que nada, então nada não seria nada, seria alguma coisa - mesmo que fosse apenas um pedacinho de alguma coisa. Mas se nada é nada, então nada nada tem, que seja menos do que é.”

Será que menos do que nada existe? Não é possível, nada é nada. Foge a toda a lógica classificar seja o que for como menos do que nada. 

Os homens e os seus juízos de valor, sempre a encontrar dilemas, indecisões e impasses filosóficos para embrulhar mais ainda os dias que passam, e passam com a ligeireza da gravidade que lhes arrasta os pés.

Mas na verdade se tu julgas algo ou alguém como nada e tens, no teu parecer, outrém ou outra coisa qualquer num nível muito inferior, que valor lhe atribui a tua escala pessoal? Menos do que nada? 

Mas, em assim sendo, menos do que nada tem valor. Tem esse valor, é, é menos do que nada. 

Mas se é, existe, certo? 

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 29.03.24

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Hoje lemos: Padre António Vieira, " Sermão da Sexagésimo e Sermões da Quaresma".

Passagem a L-Azular: "Paremos a esta porta ainda das telhas abaixo. Andam os homens cruzando as cortes, revolvendo os reinos, dando voltas ao mundo, cada um em demanda das suas pretensões, cada um para se introduzir ao fim dos seus desejos, todos aos encontrões uns sobre os outros, os olhos abertos, a porta à vista, e ninguém atina com a porta. Andais buscando a honra com olhos de lince, e sendo que para a verdadeira honra não há mais que uma porta, que é a virtude, ninguém atina com a porta. Andais-vos desvelando pela riqueza, com mais olhos que um Argos, e sendo que a porta certa da riqueza não é acrescentar fazenda, senão diminuir cobiça, ninguém atina com a porta. Andais-vos matando por achar a boa vida, e sendo que a porta direita por onde se entra à boa vida, é fazer boa vida, ninguém atina com a porta. Andais-vos cansando por achar o descanso, e sendo que não há nem pode haver outra porta para o verdadeiro e seguro descanso, senão acomodar com o estado presente, e conformar com o que Deus é servido, não há quem atine com a porta. Há tal desatino! Há tal cegueira! Mas ninguém vê o mesmo que está vendo, porque todos, desde o maior ao menor, somos como aqueles cegos: Percusserunt eos caecitate, a maximo usque ad minorem"

 

Desejo a todos uma Páscoa Feliz. Que possa ser a alvorada de um tempo mais consciente, um tempo de paz e de alegria, pela esperança renovada.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 27.03.24

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Hoje lemos: Stephen King , "The Shining".

Passagem a L-Azular: "O amor acabou e o seu homem estava a dormir ao seu lado. O "seu" homem. Ela sorriu levemente na escuridão, sentindo a semente dele, ainda gotejante, lenta e quente entre as suas coxas ligeiramente abertas. O seu sorriso era ao mesmo tempo triste e satisfeito, porque a frase "o seu homem" evocava uma centena de sentimentos. Cada sentimento examinado isoladamente era uma perplexidade. Juntos, nesta escuridão flutuando para dormir, eram como uma melodia distante de blues ouvida num nightclub quase deserto, melancólica, mas agradável.”

Numa relação duradoura, se juntarmos o conjunto de perplexidades que contém cada sentimento isolado, obtemos uma equação difícil de resolver, mas apenas por quem está de fora. Basta apenas saber que existe um lugar para todos os números e que todos os números são iguais entre si, não existindo elementos neutros ou elementos absorventes. Não temos todos de ser π, pois cada um de nós tem a sua razão de existir e saber estar.

É por isso mesmo que existem equações com soluções infinitas. Basta saber escolher aquela  que acreditamos poder resolver melhor.

 

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Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 23.03.24

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Hoje lemos: Samuel Beckett, "À Espera de Godot".

Passagem a L-Azular: "Façamos alguma coisa, enquanto temos oportunidade! Não é todos os dias que somos necessários. Na verdade, não é que sejamos pessoalmente necessários. Outros enfrentariam o caso igualmente bem, se não melhor. Aqueles gritos de socorro que ainda ressoam nos nossos ouvidos, foram dirigidos a toda a humanidade! Mas neste lugar, neste momento, gostemos ou não, toda a humanidade somos nós. Aproveitemos ao máximo, antes que seja tarde demais! Iremos representar condignamente para alguém, a sórdida ninhada a que um destino cruel nos confiou! O que dizes? É verdade que quando pesamos os prós e os contras de braços cruzados, não somos nada menos que um crédito para a nossa espécie. O tigre recorre à ajuda dos seus congéneres sem a menor reflexão, ou então foge para as profundezas dos matagais. Mas essa não é a questão. O que estamos aqui a fazer, essa sim,  essa é a questão. E somos abençoados por sabermos a resposta. Sim, na imensa confusão só uma coisa é clara. Estamos à espera da chegada de Godot - ”

Quem é afinal Godot, por quem os vagabundos Estragon e Vladimir esperam em vão à beira de uma estrada deserta? Será alguém real ou talvez uma forma imaginária de Deus (God+ot) que crêem ter ouvido as preces dos que deambulam por onde os sonhos são interditos e a sorte é ignota e obscura?

É que segundo a interpretação de Daniel do sonho de Nabucodonosor II, os deuses (ou ídolos pagãos, no caso) têm pés de barro, e quando caem,  caem com estrondo.

(Imagem Google)

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 20.03.24

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Hoje lemos: Mario Vargas Llosa, "O Falador".

Passagem a L-Azular: "O tipo de decisão a que chegam os santos e os loucos não é revelada aos outros. Forja-se aos poucos, nas dobras do espírito, tangencialmente à razão, protegida dos olhares indiscretos, sem procurar a aprovação dos outros – que jamais a concederiam – até que finalmente seja posta em prática. Imagino que no processo – a concepção de um projeto e seu amadurecimento em ação – o santo, o visionário ou o louco se isolam cada vez mais, fechando-se na solidão, a salvo da intrusão de outros."

Imaginemos que o cérebro é uma lata de feijão frade. Está fechada, inviolada, estanque. Ninguém sabe o que o dono da matéria que reside no interior desse crânio/lata de feijão pensa na realidade, pois nada, nem um laivo de um átomo conseguiu dali transpirar. É um mistério para todo o mundo. E muito provavelmente para o próprio "santo, visionário ou louco", porque duvido que depois de todo o suspense consiga entender, como se tivesse seis anos de idade, o que está dentro da lata de feijão frade, e regozijar com o alcance da sua realização, como se a vida não passasse de uma constante Primavera.

(Imagem Google)

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 16.03.24

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Hoje lemos: Frank Herbert, "Dune".

Passagem a L-Azular: “Bem no fundo do inconsciente humano existe a necessidade difundida de um universo lógico que faça sentido. Mas o universo real está sempre um passo além da lógica.”

O mundo em geral e Portugal em particular necessitam urgentemente de um Kwisatz Haderach. Pensando melhor, d' "aquele que pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo", diz-se que o Kwisatz Haderach possui presciência absoluta, o que significa que este messias é capaz de ver todos os futuros possíveis do universo e escolher qual perseguir.

Pois, creio que já tivemos algo parecido, e durante demasiado tempo...

(Imagem Google)