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Delito de Opinião

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 30.07.25

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Ainda não lemos Dan Brown: "O Segredo dos Segredos"

Esta é a sinopse, que qualquer um de nós pode ler: "Robert Langdon, prestigiado professor de simbologia, viaja até Praga para assistir a uma palestra inovadora de Katherine Solomon, uma cientista reconhecida no campo da noética, com quem começou recentemente um relacionamento amoroso. Katherine está prestes a publicar uma obra revolucionária, cujas explosivas revelações sobre a natureza da consciência humana ameaçam abalar séculos de crenças estabelecidas.

Quando um terrível assassinato provoca o caos, Katherine desaparece sem deixar rasto e o seu manuscrito é destruído. Desesperado por encontrar a mulher que ama, Langdon embarca numa corrida contra o tempo pela mística Praga, enquanto é implacavelmente perseguido por uma organização poderosa e um inimigo assustador saído das mais antigas lendas da cidade.

De Praga a Nova Iorque, passando por Londres, Langdon mergulha nos mundos da ciência mais avançada e da tradição histórica, navegando por um labirinto de códigos e símbolos, até finalmente desvendar uma verdade perturbadora sobre um projeto secreto que mudará para sempre a nossa visão da mente humana."

Li todos os livros de Dan Brown. Gostei mais de uns do que de outros, claro. Vi os três filmes adaptados de três das suas obras, assim como a série televisiva, e adorei as antíteses à unidade de lugar, principalmente quando todos os lugares me trouxeram tão gratas memórias. Os livros são bem construídos e de leitura fácil, muito apropriados para uma sombra fresca na calmaria de um qualquer paraíso muito nosso.

Dan Brown é um dos muitos autores que sigo online e admiro-lhe a precisão investigativa. Quer isto dizer que ele vai lá ver como é, como foi, e como pode ser contado. 

É verdade que " O Código DaVinci" é o seu " livro dos livros", com direito a menção em todas as outras capas de livros seus. É injusto.

Penso em Praga com muito carinho e saudade. É uma cidade linda, surpreendente e fabulosa, plena de alegria e mistério. Espero que seja tratada como merece e que a intriga do conteúdo seja excitante e em torno dos fabulosos e ancestrais mistérios, que envolvem a cidade e a sua história com a capa de muitos segredos ainda por desvendar.

Em Setembro se verá.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 26.07.25

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Hoje lemos Emilio Salgari : "Os Tigres de Mompracem"

Passagem a L' Azular: "Este homem, mais conhecido por Tigre da Malásia, que ensanguentava as costas do Mar Malaio há dez anos, tinha talvez trinta e dois ou trinta e quatro anos.

Era alto, bem constituído, com músculos tão fortes como se fossem feitos de aço, com feições enérgicas, uma alma imune a qualquer medo, ágil como um macaco, feroz como o tigre da selva malaia, generoso e corajoso como o leão dos desertos africanos.

Tinha um rosto ligeiramente bronzeado, de uma beleza incomparável, tornado sombrio por uma barba negra, com uma testa larga, emoldurada por cabelos crespos e fuliginosos que lhe caíam em pitoresca desordem sobre os seus ombros robustos. Dois olhos de brilho incomparável, que magnetizavam, atraíam, que ora se tornavam melancólicos como os de uma menina, ora faiscavam e disparavam como chamas. Dois lábios finos, característicos de homens enérgicos, dos quais, em momentos de batalha, saía uma voz estridente e metálica que se elevava acima do rugido dos canhões e que por vezes se curvava num sorriso melancólico, que gradualmente se transformou num sorriso trocista até se assemelhar ao sorriso do Tigre da Malásia, como se estivesse a saborear sangue humano.

De onde viera aquele homem terrível que, à frente de duas centenas de crias de tigre, não menos intrépidas do que ele, conseguira em tão pouco tempo ganhar uma reputação tão desastrosa? Ninguém saberia dizer. Nem mesmo os seus próprios homens fiéis o sabiam, pois não sabiam quem ele era."

Com o advento de muitos remakes de antigos exitos do cinema e televisão,  chega a vez de um ícone de uma geração, que juntava famílias inteiras à volta da luminosa caixa mágica, aguardando ansiosamente mais um episódio d' As Aventuras de Sandokan. O Tigre da Malásia não era apenas um justiceiro que lutava contra os malvados, ingleses e holandeses, invasores e dominadores que pilhavam e escravizavam populações inteiras, ele era um Zorro, um Robin Hood da Malásia, um pirata e um homem muito bonito. Assim o diz o autor, e assim o vimos e sonhámos na nossa mocidade.

Dizem que o actor escolhido para encarnar o personagem que habita o nosso imaginário com a figura de Kabir Bedi não será malaio, tampouco indiano como o seu antecessor. Ao que parece, no casting o turco Can Yaman deu cartas, ou não tivessem os turcos, já há algum tempo,  invadido os canais de TV de muitos países.

Mas não podemos esquecer o lugar-tenente do valoroso pirata, que era português. Para o papel de Yanez de Gomera... também não escolheram um actor português. Que novidade...

Será que se pode dizer que estas injustiças são roubo de identidade cultural?

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 23.07.25

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Hoje lemos Juan Rulfo: "Pedro Páramo"

Passagem a L' Azular: "De vez em quando, ouvia o som das palavras e notava a diferença. Porque as palavras que até então ouvira, até então sabia, não tinham som, não soavam; eram sentidas; mas sem som, como as que se ouvem em sonhos."

Nos dias que correm, não são apenas as palavras faladas que soam a diferença. As palavras escritas gritam a angústia e a tristeza de quem é continuamente trucidado e estilhaçado à luz de um acordo feticida e de uma novilíngua obtusa, concebida para retardados.

Temo pelo futuro das nossas crianças, pequenas ilhas rodeadas por um mar bravio de uma ignorância extrema.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 19.07.25

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Hoje lemos Hugo Pratt: "A Balada do Mar Salgado"

Passagem a L' Azular: “Quando era pequeno, percebi que não tinha linha da sorte, por isso, com a lâmina de barbear do meu pai, fiz uma como queria.”

Usar do livre arbítrio para enfrentar o destino que vem escrito desde o nascimento em cada palma da mão, é um direito e seguramente um dever. Porque afinal o futuro somos nós e as nossas decisões. 

Um livro fantástico (aliás como todos os do autor) com um início fantástico e auspicioso:

"Sou o Oceano Pacífico e sou o Maior. É assim que me chamam há já muito tempo, embora não seja verdade que eu seja sempre pacífico." Como toda a gente, aliás.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 16.07.25

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Hoje lemos Mario Vargas Llosa: "A Tia Júlia e o Escrevedor"

Passagem a L' Azular: "Escrevo. Eu escrevo que escrevo. Mentalmente, vejo-me a escrever que escrevo, e também me consigo ver a ver que escrevo. Lembro-me de já estar a escrever e também de me ver a escrever. E vejo-me a lembrar que me vejo a escrever, e lembro-me de me ver a lembrar que estava a escrever, e escrevo a ver-me a escrever que me lembro de me ter visto a escrever que me vi a escrever que me lembrava de me ter visto a escrever que estava a escrever, e que estava a escrever que escrevo que estava a escrever. Também me consigo imaginar a escrever que já tinha escrito que me imaginaria a escrever que tinha escrito que me imaginei a escrever que me vejo a escrever que escrevo."

Ler Vargas Llosa é bom. Este livro é espectacular, mesmo que, segundo a minha e outras opiniões,  não seja o melhor. 

Se eu substituir nesta passagem a palavra escrever pela palavra ler, sou capaz de me encontrar, completamente descomplicada no meio de tanta complicação, que poderia até complicar a leitura.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 12.07.25

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Hoje lemos Henry David Thoreau: "Andar a Pé"

Passagem a L' Azular: "Cada pôr-do-sol que presencio inspira-me o desejo de ir para um oeste tão distante e belo como aquele onde o Sol se põe. Parece migrar para oeste diariamente e tenta-nos a segui-lo. É o Grande Pioneiro do Oeste a quem as nações seguem. Sonhamos toda a noite com aquelas cadeias de montanhas no horizonte, embora sejam apenas vapor, que foram douradas pelos seus raios."

Caminhar faz bem ao corpo e ao espírito. Fazer caminhadas cedo no dia, ou naquele lusco-fusco, na hora mágica antes do sol se pôr e antes dos pirilampos acenderem o brilho com que atraem as fêmeas, é um enlevo e um bálsamo.

Um dos meus percursos pedestres favoritos é o do Paredão de Cascais. Belo e selvagem no Inverno, apolíneo e doce no Verão, tem apenas três quilómetros desde a Praia da Azarujinha até à Praia da Ribeira em Cascais, podendo ser complementado até à Boca do Inferno e o regresso conforme as pernas ordenarem.

Se caminhar ajuda a manter o corpo activo, o deslumbre das paisagens, sendo cruas ou douradas, faz a mente divagar em fantasias mil e bem longe das amarguras da vida, mesmo se forem apenas feitas de vapor dourado pelos raios do sol poente.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 09.07.25

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Hoje lemos Stephen King: "Rita Hayworth and Shawshank Redemption"

Passagem a L' Azular: "Eu começava a gostar do seu estilo tranquilo e discreto. Depois de dez anos no rebuliço, como eu já tinha na altura, pode um tipo sentir-se cansado dos fanfarrões, dos berrantes e dos fala-barato. Sim, acho que seria justo dizer que gostei do Andy desde o início".

E, como canta o artista, dez anos é muito tempo, principalmente se forem passados a aturar dislates "dos fanfarrões, dos berrantes e dos fala-barato."

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 05.07.25

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Hoje lemos Bernhard Schlink: "O Leitor".

Passagem a L' Azular: "As camadas tectónicas das nossas vidas repousam tão firmemente umas sobre as outras que nos deparamos sempre com acontecimentos anteriores em acontecimentos posteriores, não como matéria totalmente formada e posta de lado, mas absolutamente presente e viva. Eu entendo isso."

Eu também entendo. O passado acaba sempre por nos alcançar, de muitas formas, em diferentes percursos, numa miríade de destinos que apenas o são porque de algum modo já o foram.

Quem diz que a história nunca existiu, não sabe do que está a falar.

O livro é excelente e o filme é muito bom.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 02.07.25

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Hoje lemos Manuel Vásquez Montalbán: "Os Mares do Sul".

Passagem a L' Azular: "O prazer de comer é um prazer que deve ser descoberto aos trinta anos. É a idade em que o ser humano deixa de ser idiota e, em troca, paga o preço de começar a envelhecer."

Estou plenamente de acordo com esta ideia de que, entre outros prazeres que têm mais sabor na idade mais adulta, o prazer de saborear a comida adquire um nível superlativo. Não falo da acção de comer. Comer é uma necessidade do corpo. Saborear a comida é um enlevo da alma. Só não concordo com a idade mínima indicada pelo autor: Trinta anos. Com esta idade, na presente conjuntura social, a rapaziada ainda mora com os pais, trabalha pouco e com horário preferencial das nove às cinco, e à noite vai beber um copo com o grupo de amigos. Têm cama, mesa e roupa lavada, contribuiem pouco para a sociedade, comem fast food porque, como o nome indica, é rápido (e barato) e guardam o que sobra para as "jolas" que, essas sim, são obrigatórias e em grande quantidade. Passeiam-se pelas ditas redes sociais e sabem tudo da vida de todos quantos as escarrapacham nos feeds. 

Com tanta actividade "sociocultural", nem têm tempo para apreciar a vida, quanto mais a comida.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 28.06.25

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Hoje lemos Yaa Gyssi "Rumo a Casa"

Passagem a L' Azular: "A família é como a floresta: se se está fora, é densa; se estiver dentro, vê que cada árvore tem a sua própria posição.”

Mais do que uma árvore com raízes profundas, a família é na realidade a floresta que cresceu e enraizou a partir de um pé comum a todas as árvores. Cada árvore com as suas ramificações, está ligada a todas as outras num subsolo de radículas enoveladas em labirínticos ramais que se perdem na memória do tempo. É na floresta que cada árvore busca a força para crescer, florir e frutificar. A densidade promove a união mas não pode retirar a visão do que circunda a floresta, para que esta continue a crescer e que os seus ramos sejam frondosos e não sombrios.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 25.06.25

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Hoje lemos Ramiro Calle: "O Faquir".

Passagem a L' Azular: "[ ]São poder, e o poder traz sempre corrupção. Aqueles que detêm o poder são aqueles que alimentam o ódio e a divisão, porque é assim que lucram. A situação da humanidade é triste. Fala-se muito em qualidade de vida, mas ninguém aborda a qualidade da consciência."

Pôr a mão na consciência é perigoso e pode ser destrutivo, principalmente se a mão tactear uma e outra vez e não conseguir encontrar coisa alguma. 

Acredito cada vez mais que a consciência se está a tornar numa abstracção colectiva, vazia da forma e conteúdo individual, que algures no tempo, foi propriedade dos seres pensantes. 

É perigoso e destrutivo, porque aquilo que tu conscientemente pensas é apenas aquilo em que tu acreditas que pensas, mas não o que na realidade querias pensar.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 21.06.25

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Hoje lemos Amin Maalouf: "Leão Africano".

Passagem a L' Azular: "Onde quer que estejas, alguns vão querer fazer perguntas sobre a tua pele ou as suas orações. Cuidado para não satisfazeres os seus instintos, meu filho, cuidado para não te curvares perante a multidão! Muçulmano, judeu ou cristão, devem aceitar-te como és, ou perder-te. Quando a mente dos homens te parecer pequena, diz a ti mesmo que a terra de Deus é ampla; amplas são as Suas mãos e amplo é o Seu coração. Nunca hesites em ir mais longe, para além de todos os mares, de todas as fronteiras, de todos os países, de todas as crenças."

A verdade é que as pessoas simples, que vivem no seu dia a dia para o seu trabalho, para a sua família e para as suas orações e que não se deixam radicalizar por cães raivosos, aceitam o vizinho como seu semelhante, sem juízos de crença ou cor de pele. Isso foi algo que eu própria verifiquei. Não existe tolo maior do que aquele que se deixa ir na manada furiosa de touros desembolados. Não existe tolo maior do que aquele que se deixa engolir pela mentalidade de turba, sem lhe entender sequer a intenção. 

Não existe tolo maior do que aquele que acredita no que ouve, sem escutar com atenção. 

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 18.06.25

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Hoje lemos Ildefonso Falcones: "Os Herdeiros da Terra".

Passagem a L' Azular: "O mar... é uma imensidão que não pensa. Apenas se move uma e outra vez, e de novo, e de novo.

E de novo. Ano após ano, século após século. Majestoso, sim, mas morre sempre aqui, aos pés de quem o vem contemplar. Amanhã será igual. E no dia em que devastar, matar e semear a destruição, não sabe porque o faz. Se estivermos a falar de sons, prefiro o riso de uma criança ou o estertor de um velho."

O mar. Crescemos com o mar. Alguns a saber do mar desde pequenos, por histórias ou pela maravilhosa história deste país. Outros, mais afortunados, foram embalados pelo mar desde o berço, ouvindo-lhe o murmurar até dormir. 

O nosso mar confunde-se com o país. Pai e padrasto, berço e túmulo. Muito dá e tudo leva. 

De qualquer modo, e se estivermos a falar em sons, prefiro sempre o do marulhar vagaroso das ondas a qualquer outro de que me possa lembrar. 

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 14.06.25

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Hoje lemos David Baldacci: "A Memória".

Passagem a L' Azular: "Cinzento. Para ele, como para muitas pessoas, era uma cor confusa. Não se prestava a nenhuma interpretação específica. Era uma cor que podia ir para um lado ou para o outro. As pessoas queriam desesperadamente que o mundo estivesse bem definido, a preto e branco. Tornava a vida muito mais fácil: as decisões difíceis desapareciam; tudo estava bem organizado e catalogado. E as pessoas também. Mas o mundo não era assim. E as pessoas que o habitavam também não. Pelo menos para aqueles que se deram ao trabalho de explorar a sua complexidade. As áreas cinzentas."

Diz-se que, apesar de podermos descrever um sonho em todo o seu esplendor, a verdade é que cerca 75% dos humanos sonham a preto e branco. Esta afirmação também não é de todo correcta. Se tivermos em atenção uma fotografia antiga, o preto está lá, o branco também,  mas mais do que a luz e a sua ausência,  existem todas as possíveis e imaginárias nuances de cinzento. 

Como o sonho comanda a vida, compreendemos a cor e todas as nuances do espectro cromático e daí tiramos as ilações necessárias ao entendimento das áreas cinzentas e daqueles tons que nos escapam a olho nu, mas que, fugazmente, vamos descobrindo por detrás do ângulo cego no disco óptico da retina, e que nos deixam com a sensação de termos visto algo aterrador que não sabemos explicar.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 11.06.25

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Hoje lemos Henry Morton Stanley: "How I Found Livingstone"

Passagem a L' Azular: "Eu teria corrido para ele, só que me acobardei na presença daquela multidão. Tê-lo-ia abraçado, mas não sabia como ele me receberia. Fiz então o que a cobardia moral e o falso orgulho sugeriram ser a melhor coisa a fazer — caminhei deliberadamente até ele, tirei o meu chapéu e disse: "DR. LIVINGSTONE, PRESUMO?"

Chegou-me esta passagem à ideia, quando a um conhecido, grande admirador de um político nacional e seguidor da sua entourage em campanha eleitoral sempre que acontecia passar perto de casa, aconteceu dar de caras com o candidato, num frente-a-frente praticamente chocante, e embevecido (creio eu), tirou o boné e estendeu a mão (que o outro apertou fortemente), dizendo: "É o Dr. V, creio. Boa sorte." Mais palavras não houve...

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 07.06.25

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Hoje lemos Julia Navarro: "O Menino que Perdeu a Guerra".

Passagem a L' Azular: "Não temos qualquer poder sobre o passado. Ninguém o tem. Por isso não faremos muito mais do que sofrer, se insistirmos em rever o que fizemos e o que poderíamos ter feito."

Assim é. O que fizemos ou deixámos de fazer, ficou feito, é definitivo. Aconteceu num momento no tempo ao qual é impossível voltar. Deixámos lá a marca da nossa decisão, do livre arbítrio que comanda a nossa vida, pensada ou impensadamente. Não chorar sobre o leite derramado é uma frase feita, mas vera. Podemos sim tentar minimizar o impacto das decisões tomadas, mas para isso é preciso admitir que erramos e admitir o erro é de tudo o mais difícil.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 04.06.25

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Hoje lemos Leslie Wolfe, "A Cirurgiã"

Passagem a L' Azular: "O coração é apenas um músculo, uma bomba que trata de fazer circular o sangue. Já tive corações na mão e é o que são, músculo e tendões, tecido fibroso e impulsos elétricos que lhes dizem quando e como bater. Sabemos que a dor tem lugar no nosso cérebro, mas a culpa é atribuída ao nosso coração, porque é nele que sentimos. Há uma explicação científica para isso, que tem a ver com a adrenalina, o cortisol e a noraepinefrina, e como estas hormonas têm impacto na função do coração, mas não é isso que as pessoas querem ouvir quando têm um desgosto. Não se importam com o porquê de terem o coração partido; sentem apenas que é assim mesmo que ele está".

Não acredito que alguém  possa odiar sem motivos muito fortes. O ódio é em si um sentimento portentoso, demasiado forte para alguém  o poder sentir sem ser por uma razão igualmente portentosa.

Pessoalmente, não odeio ninguém. Se existem pessoas que eu gostaria que não existissem? Existem sim, mas não lhes desejo qualquer mal, apenas que desapareçam. 

Ter o coração partido, no sentido sentimental da coisa, desconheço o que seja. Desapontamentos ou até desilusões, quem nunca teve? Mas ficar a carpir um infortúnio amoroso é tão ou mais triste do que qualquer outra tristura e não nos leva a lado nenhum. 

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 31.05.25

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Hoje lemos Jane Austen: "Orgulho e Preconceito"

Passagem a L' Azular: "Tenho defeitos suficientes, mas acredito que não sejam de entendimento. Não me atrevo a garantir o meu temperamento. Creio que é pouco dócil — certamente pouco para a comodidade do mundo. Não consigo esquecer as loucuras e os vícios dos outros tão facilmente como deveria, nem as suas ofensas contra mim. Os meus sentimentos não se inflamam a cada tentativa de os modificar. O meu temperamento talvez pudesse ser chamado ressentido, mas não o é. A minha boa opinião, uma vez perdida, está perdida para sempre."

Quase que subscrevo esta descrição. Quase. Há alguns anos atrás, tê-la-ia subscrito na íntegra, mas o sangue na guelra esmorece com o tempo e presentemente vou comprando cada vez menos guerrinhas de bate-boca. Já bastam as grandes batalhas que temos de vencer e ajudar a vencer todos os dias, essas sim, de importância vital.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 28.05.25

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Hoje lemos Nikolai Gógol: "Contos de São Petersburgo"

Passagem a L' Azular: "Por vezes, as coisas que mais tememos são aquelas que nos libertam."

Quem entre nós não teme a mudança? O status quo, o dado adquirido, a rotina, tudo que nos rodeia e nos faz confortáveis, confere-nos a tranquilidade e a normalidade tão necessárias ao nosso dia a dia. 

Cristo foi destruído porque pensava diferente e falava de mudança e nós, humanos, sempre tivemos tendência para "destruir" tudo o que é diferente e foge ao entendimento que possuímos das coisas como elas são.

A mudança não é um medo que nos assalta de noite, é o pavor em que vivemos ante a possibilidade de termos de redefinir a vida como a conhecemos. E em vez de nos libertar, pensar na mudança agrilhoa-nos cada vez mais à nossa condição.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 24.05.25

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Hoje lemos Joseph Campbell, "O Herói de Mil Faces"

Passagem a L' Azular: "O ego insuflado do tirano é uma maldição para ele e para o seu mundo – por mais que os seus negócios prosperem. Aterrorizado, assombrado pelo medo, alerta a cada o momento, pronto para enfrentar e lutar contra as agressões previsíveis no seu ambiente, agressões essas que são principalmente reflexos dos incontroláveis impulsos ​​de aquisição dentro de si mesmo. O gigante da independência auto-conquistada é o mensageiro do desastre para o mundo, mesmo que, na sua mente, se possa entreter com intenções humanas."

De egos insuflados anda o mundo cheio em todas as latitudes e longitudes e muito afastados de boas "intenções humanas" que não lhes rendam homenagens ou lhes  tragam benefícios numa primeira instância.

Mensagens de infortúnios, tais como desastres naturais, guerras, assassínios ou derrocadas pessoais de alguém que resvalou de uma posição confortável, também são notícia todos os dias e quanto mais sumarentos e menos naturais, melhor, pois prendem a atenção dos ávidos bebedores das opiniões e teorias mirabolantes que explicam o mundo à luz das considerações pessoais de cada "entendido" na matéria. Já ninguém pára para pensar com seriedade. Basta escolher a opção que se encontra por detrás de cada uma das cortinas de sabedoria que se apresentam e não se discutem. Os dogmas da actualidade são incontestáveis apesar de construídos sobre braças de palha.