Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A literatura sobrevive a tudo

por Pedro Correia, em 18.06.18

No ano passado, antes de rumar às férias primaveris, comprei um livro de um autor muito recomendado em determinadas selectas - figura com presença regular nos ecrãs televisivos e incensada em solos de violino nas gazetas da praxe. Dispus-me a ler aquilo: era volume grosso, de quatrocentas e tantas páginas.

Deu-me para três horas de viagem de comboio. Chegado ao destino, apeei-me na página 100. E nunca mais retornei ao calhamaço. O romance - é de um livro de ficção que falo - permanece adormecido na prateleira de um armário. Não tenciono despertá-lo.

Lembro-me vagamente do fio do enredo: havia uma mulher fechada em casa, assombrada por fantasmas íntimos. Cem páginas adiante, nada sucedera de relevante, aquilo dava um passo em frente e outro atrás sem nunca sair do mesmo sítio.

O que não invalidou que a obra em causa recebesse hossanas em ritmo cadenciado. Certos autores têm este condão de suscitar coros afinados, sempre em estilo laudatório.

 

http___i.huffpost.com_gen_3357726_images_n-READ-BO

 

Ontem, ao entrar numa das livrarias que frequento com regularidade, deparei com dois romances de estreia, assinados por jovens autores. Uma menina e um rapaz.

Senti curiosidade em ler as frases iniciais.

Escreveu ele: «Se existe algo que eu aprendi é que a vida é estranha.»

Escreveu ela: «Adoro o cheiro dele quando chega perto de mim. Ele ainda não chegou e eu já sei que ele vem.»

 

Não sei o que mais me impressionou nestes parágrafos de abertura.

Talvez o monumento à irrelevância em letra impressa. Ou a vacuidade do estilo. Ou a profusão de pronomes pessoais, por clara influência da sintaxe brasileira hoje dominante nos circuitos digitais. Ou o culto narcísico tão característico destes dias em que o auto-retrato domina todas as modas.

Talvez a impressionante compressão vocabular nesta era em que há quem jure ser capaz de escrever romances no Twitter - algo equivalente a dançar o tango numa cabina telefónica.

Mas não duvido que ambos, com a rede de conhecimentos adequada, serão capazes de se tornarem "autores de sucesso". Talvez mesmo se elevem à condição de "bestas céleres", como dizia o arguto Alexandre O'Neill.

Espreito-lhes os perfis nas badanas: surgem-me como figuras exemplares desta época. Ele tem «45 mil seguidores no Facebook» - anoto as conotações quase litúrgicas do vocábulo seguidores. Ela é «formadora de softskills», expressão cujo significado ignoro mas que me soa a algo importante. Não me admirava que venham a cometer mais romances. Podem até fazê-lo a um ritmo semestral: há quem viva disto e seja sempre anunciado com laudatórias trombetas mediáticas. Como se estivéssemos perante uma Cartuxa de Parma ou uma Guerra e Paz.

 

Africa-Minha[1].jpg

 

Regresso a casa, retomo a leitura de um dos meus livros favoritos: Africa Minha, de Karen Blixen. E de novo me salta à vista aquela suave cadência das frases de abertura que logo nos convidam a viajar no tempo e no espaço. Recuando cem anos, ao Quénia colonial.

«Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. O equador passa 160 quilómetros a norte desta região e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-no mais perto do sol, mas as madrugadas e o fins de tarde eram límpidos e tranquilos e a noites frias. A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável.»

A melhor literatura sobrevive a tudo. Até ao inqualificável abuso das más práticas que se multiplicam invocando em vão o seu sagrado nome.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Outros quatro a ler no metro

por Pedro Correia, em 05.09.17

Entro na carruagem do metro, são quase 19 horas. A habitual multidão do fim da tarde: quase toda a gente - excepto turistas - de cabeça para baixo, mergulhada nos ecrãs dos telefones a que chamamos inteligentes apesar de fazerem de nós estúpidos. Questiono-me quantas destas pessoas alheadas de quem as cerca perdem tempo a ver vídeos de gatinhos ou a ler piadolas alarves ou a aprofundar "todos os pormenores" que jamais quiseram saber sobre celebridades da treta.

Aproveito para abrir o livro que por estes dias me acompanha. São seis estações até ao meu destino: à média habitual, dá para avançar umas dez páginas. Aproveitando todos os momentos disponíveis ao longo de fragmentos do dia, consegui ler 44 livros completos desde o início do ano até ao fim de Agosto. Era uma aposta muito pessoal para 2017: igualar ou superar agora enquanto leitor o ritmo veloz dos meus tempos de adolescente e jovem adulto, quando cheguei a ler 72 no ano em que passei dos 17 aos 18.

 

Guardo na mochila o Equador, de Miguel Sousa Tavares (sim, é deste romance que se trata), quando se anuncia a estação onde vou sair. E reparo então que nos lugares circundantes vão quatro pessoas também a ler. Duas mulheres, dois homens: paridade absoluta.

O que lêem elas? A Rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami (edição Casa das Letras), e Filhos da Fortuna, de Jeffrey Archer (Europa-América).

O que lêem eles? A Game of Thrones, de George RR Martin (um paperback na versão original), e O Islão Político Ontem e Hoje, de John Owen (Bertrand).

 

Não deixo de sorrir: eis quatro parceiros de carruagem totalmente desconhecidos e que talvez nunca volte a ver mas a que me sinto de imediato ligado por um inesperado elo de cumplicidade.

Somos poucos mas não deixamos de remar contra a maré dominante, transformando o transporte de um livro num singelo acto de resistência. Demonstrando aos outros e a nós próprios esta evidência: é possível escapar ao vício dos telemóveis que cada vez mais nos uniformiza no espaço público.

Por mim, continuarei. Até ao fim deste ano e no outro que vier. Sem unicidade, sem uniformes, sem vídeos de gatinhos. Como escreveu o poeta, "só vou por onde / me levam meus próprios passos".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leituras para 2017

por Pedro Correia, em 14.01.17

2017-01-13 10.02.59.jpg

 

Não deixes tudo ao sabor do acaso. Organiza um plano de leitura. Abdica de parte do tempo diário que dedicas a um sem-fim de futilidades. Não espreites mais vídeos de gatinhos nem repliques graçolas alarves nas “redes sociais”. Imagina 2017, no plano cultural, como uma montanha que ambicionas escalar e não como uma ladeira que vais descer.

Elege elevação como palavra de ordem. E nunca esqueças que a leitura será sempre a tua maior aliada neste caminho.

 

Põe de lado uns quantos livros que pretender ler. Coloca-os num lugar acessível, de modo a que consigas espreitar-lhes as capas a todo o momento. Estarão ali, chamando por ti, manhã após manhã, semana após semana.

Canaliza meia hora, todos os dias, do precioso tempo que gastas com aquilo que não interessa para mergulhares numa primeira leitura. Se ela te prender, a meia hora irá ampliar-se quase sem dares por isso. Mas convence-te que terás de concentrar-te nessa meta. Nada se alcança sem um esforço mínimo.

Não escutes aqueles que escutas há anos nas televisões papagueando as mesmas coisas: antes de abrirem a boca já sabes o que irão dizer. Deixa o telemóvel noutra divisão, mostra-lhe que és tu a mandar nele e não ele a dispor de ti. Não caias na tentação de trocar amizades reais por amizades virtuais.

Pensa num livro como um amigo real, disponível a todos os momentos e capaz de te acompanhar nos melhores percursos – aqueles que te abrem horizontes, aqueles que são capazes de fazer de ti uma pessoa com mais cultura, com maior conhecimento, com melhor capacidade de entender os mistérios da vida e desvendar os enigmas do mundo.

 

Organiza uma lista de leituras. Eu já fiz isso, nos primeiros dias do ano. Tenho estes livros à cabeceira, desafiando-me a todo o momento para ir ao encontro deles: O Agente Secreto, de Joseph Conrad, A Cidade e os Cães, de Mario Vargas Llosa, San Camilo, 1936, de Camilo José Cela, O Tio Goriot, de Honoré de Balzac, Batalha Incerta, de John Steinbeck, Revolta na Bounty, de John Barrow, Desconhecidos, de Anita Brookner, O Mundo de Fora, de Jorge Franco, Sartoris, de William Faulkner, Manhattan Transfer, de John dos Passos.

Diz para ti próprio: vou ler mais em 2017. E põe em prática este objectivo. Verás que se concretiza: basta saberes organizar melhor o calendário. A vida é feita de escolhas: prescinde de parte do tempo desperdiçado em irrelevâncias e chegarás ao fim com a certeza de teres aproveitado bem o ano.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Selecção Nacional - 6

por Inês Pedrosa, em 09.07.16

19760876_AW75w[1].jpg

 

"A cama flutuante eleva-se agora sobre as nuvens, as chaminés, e os telhados encanecidos. A cama dirige-se para o Criador. E é uma auto-estrada fluida, a que liga a Terra, onde Cristina se encontra, ao infinito, onde está o Criador. A cama sobe até às estrelas, e Cristina sente que está quase a atingir o seu destino. Tem tantas perguntas, nem sabe por onde começar. Quando encontrar Deus, promete, tentará não desatar logo em invectivas, a insultá-lo violentamente, que é o que lhe apetece. É o que lhe apetece, mas controla-se. Será esperta, melíflua, cínica mesmo. Irá com calma. Oferecer-Lhe-á os seus favores, se for caso disso, para melhor O enganar. O coração de Cristina devia estar a bater com força, à medida que se aproxima do ente supremo, mas o que acontece é precisamente o contrário, vai ficando cada vez mais calma, serena, senhora de si própria. " 

Rui Zink, O Suplente, 2000, 344 pp, p. 86. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Selecção Nacional - 5

por Inês Pedrosa, em 07.07.16

19757841_atBYT[1].jpg

 

"A chuva ia e vinha como uma cortina que ora se fecha ora se esgarça, e ele acrescentou, com o candeeiro levantado e os olhos cravados nos dela — «Nunca te dei nada». E ela continuava completamente surpreendida, pois sabia que não era assim, e quis mostrar como não era assim, como estava rodeada de objectos e seres deixados por ele, imagens, ideias e fundamentos, tecidos e desenhos, os suficientes e adequados, provenientes dele, e se tinha desejado aquele encontro, era só para lhe explicar como vivia com ele, na ausência dele, por tudo isso que possuía. Queria dizer-lhe que não lhe devia nada, pelo contrário, que tudo estava certo como uma conta de multiplicar bem contada, que até ao fim da lógica e dos séculos sempre resiste à mesma prova real. Mas nessa noite era impossível explicar, pois talvez ela não tivesse as palavras, ou tivesse mas não as soubesse unir, ou pelo menos assim acontecia, naquele momento de surpresa em que ele a visitava." 

Lídia Jorge, O Vale da Paixão, 1998, p. 16. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Selecção Nacional - 4

por Inês Pedrosa, em 06.07.16

19755071_sbIrm[1].jpg

 

"Não amo a desgraça nem o excesso de graça, mas posso contá-los. Era um salão com lustres e de gente com duzentos milhões, pelo menos, de renda anual em angolares e francos suíços. O meu coração não é duro, porque nesse tempo eu não faria contas dessas. Ao princípio fascinaram-me as relações exemplares. Depois apercebi-me que essa raridade era uma ofensa, como uma desmesurada conta na Suíça e, felizmente, muito mais rara. Os amores únicos e a sua crónica devem ser deixados a escritores menores, os agiotas da ilusão. Ou pervertores de consciências. Ah, se o amor é fulminante e arbitrário, porque não preferir o poder ou a sua prima triste - o conhecimento?" ( pp. 92-93) 

Maria Velho da Costa, Missa in Albis, 1988, 465 pp.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Selecção Nacional -3

por Inês Pedrosa, em 04.07.16

19750344_j7jkp[1].jpg

 

"Há quem me considere perigosa e também quem me diga visionária por querer salvar a Pátria portuguesa, mas há igualmente quem se ria nas minhas costas, querendo colar-me a imagem daquela a quem não se pode dar crédito, devendo por isso ser afastada.

As sombras adensam-se em torno da minha casa da Rua da Boa Morte. Assustada, vejo-me a esbracejar em vão, sem poder deixar de lutar por aquilo em que acredito, tentando encontrar o caminho mais hábil para combater o despotismo que sempre sufocou as nações.

Só a poesia me dá algum alento, pois mesmo com as minhas amigas e meu irmão brigo, desconcertando-me comigo própria. E apesar de muitos serem os motivos desencorajadores, todos os dias persisto: saio de casa cedo e fico esquecida, esperando inutilmente nas antecâmaras dos ministérios, sentindo-me transparente aos olhos de quem se recusa a receber-me.

Sabendo-me considerada uma ameaça.

Afinal, em nada do que pretendo se acoita o perigo."

Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, 2011, p. 957.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Selecção Nacional - 2

por Inês Pedrosa, em 03.07.16

19746141_rb2Fi[1].jpg

"Maria suspeitou que ele se exprimia em verso ou como tal. Com efeito falava sem a olhar mas rindo-se para não dar importância ao que dizia e que apenas lhe saía da boca porque o tinha escrito dentro dele. «Estás aqui comigo à sombra do sol e tenho pena de ser só isto», disse a certa altura. E dói-me um braço, e sei que sou o pior aspecto do que sou.»

Maria: «Não é nada pior. Eu até tenho os seus livros todos.»

O poeta Ruy Belo se a ouviu não se mostrou entusiasmado. Mergulhou na caneca de cerveja e ficou por lá a pensar. Ao cabo de alguns instantes levantou a boca cheia de espuma:

«Acabo de inventar um advérbio: helenamente.» Acenou para o copo: «É isso. A maneira mais triste de estar contente.»

Voltou-se para a Maria: Helenamente, a maneira mais triste de estar contente não tinha nada a ver com estóicos nem com filosofias gregas, a boa menina que não pensasse. Aquilo vinha do nome duma mulher que só ele sabia, e queria dizer o mar, a terra, o fumo e a pedra simultaneamente. Helenamente, simultaneamente.“

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, 1987, pp 425-426.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Selecção Nacional -1

por Inês Pedrosa, em 02.07.16

19744873_786rF[1].jpg

 

"Só é estável o que nos parece perecível. Busco, volto, abandono e chamo de novo. É isto amor. Trago no meu seio irmãos e horas, luzes, palavras, mitos; o caldeiro cheio de corações humanos onde cozem as suas ervas as feiticeiras do tempo; a roça e a espada, a flor e a poeira. Isto é amor. Quem pode obstar a esta torrente, quem vem, com pé leviano e peca sombra, interceptar o sentido dalguma coisa que nasce no seio do seu próprio sentido? Vou, volto, danço de roda das trípodes e das fogueiras, devasso os corações lívidos dos vivos e o seu frágil comércio sentimental. E percebo que tudo o que foi criado muda, que a alma corre como o vento em busca da sua guarida que é por momentos alguém, depois um projecto, uma dor do lado esquerdo ou o jornal da manhã, o dinheiro, a fama ou o desdentado riso dum mendigo. Que são romances? Histórias fingidas, presenças estudadas, um coro de actividades morais, a burocracia da personalidade. Não é tempo talvez de tais jogos mais ou menos argutos e meditabundos. Cada voz reclama a sua parte de luz, não há heróis, já que tão bem sabemos que o convívio com eles se torna funesto e nos absorve. Cada voz está só e é única, e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa."

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, 1957, pp 38-39.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ler e não ler

por Pedro Correia, em 02.07.16

CAF[1].jpg

 

Não sei se convosco acontece o mesmo. Comigo há um padrão imutável: em dois meses, Dezembro e Junho, leio tanto como nos restantes. Ou perto disso. É assim de há muito tempo para cá. E ainda não consegui arranjar uma explicação satisfatória. Mas acontece ano após ano.

Será que os dias de maior exposição solar convidam à leitura? Mas, se assim for, essa regra não deve prevalecer também para Julho?

Será que o aconchego natalício favorece a companhia de um bom livro? Mas Janeiro e Fevereiro, meses mais frios, não deveriam impor ainda maior retraimento doméstico?

A verdade é que tudo se repetiu, em obediência a uma regra insólita, neste Junho agora terminado. Pego no caderno onde vou anotando as minhas leituras e verifico que li nove livros completos - sem saltar páginas, sem interrupções, do princípio ao fim. À média de um título diferente de três em três dias, como sucedia nos meus anos de adolescência em que o tempo parecia durar infinitamente mais. Mas em Maio - lá está - tinha sido bem diferente. Aí cada livro demorou-me dez dias: só consegui ler três. Em Abril, outros três.

De todas essas leituras irei dando nota aqui. Adianto que em Junho foram cinco romances, um ensaio, uma memória, uma colectânea de entrevistas e uma peça teatral. Quatro destas obras mereceram-me cinco estrelas, confirmando que 2016 está a ser ano de boa colheita para o leitor voraz que continuo a ser. E sempre sorrio ao recordar o professor de Direito Constitucional quando nos dizia no anfiteatro da faculdade: "Espero que os senhores já tenham lido muito antes de chegar à Universidade. Porque, se não leram até agora, também não lerão. Eu li o essencial até aos 18 anos."

Eu tinha 18 anos à época e nunca mais esqueci a solene advertência do professor Jorge Miranda (que por estes dias costumo encontrar à entrada ou à saída de salas de cinema). Acreditei nele e preparei-me para viver o resto dos meus dias mergulhado numa irremediável e desprezível ignorância.

Sei hoje que quase nunca devemos interpretar uma frase pelo seu inteiro valor facial. Esta é uma das lições que aprendi tanto por experiência própria como enquanto leitor atento. Já nem sei por que ordem. Mas também não interessa. Como assinalou Marguerite Yourcenar, num dos romances da minha vida, "a palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana".

Autoria e outros dados (tags, etc)

O fascínio da literatura

por Pedro Correia, em 21.05.16

Leggere-per-curare-lanima[1].jpg

 

Até que ponto uma obra literária pode alterar um percurso humano? Não falta quem menorize o tema, mas eu incluo-me entre os que são capazes de acreditar que um livro pode mudar uma vida - ou até as vidas de milhões de pessoas. Acredito que alguém queira voar após ler Vol de Nuit, de Saint-Exupéry. Ou navegar depois de ler Lord Jim, de Conrad. Ou viajar a Ferrara só por ter lido O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani. Ou conhecer Pamplona à boleia de Hemingway - e permanecer em Navarra para sempre.

São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão - dizem - nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da existência. Inácio de Loyola abandonou a carreira das armas ao ler uma biografia de Cristo. Marx, para o bem e para o mal, alterou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também - ao ponto de ter alucinado um certo cabo austríaco que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon marcaram tantos de tal forma que até personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais célebres do que os autores, gerando romagens a Baker Street em Londres e ao Boulevard Richard-Lenoir em Paris. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia...
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto - é sobretudo isto - que faz o fascínio da literatura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ler (sobre o massacre em Paris)

por Pedro Correia, em 16.11.15

Paris sous l' attaque. Do João Pedro Pimenta, n' A Ágora.

La Palice. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

La nausée. De António Araújo, no Malomil.

A guerra explicada às criancinhas. De Vítor Cunha, no Blasfémias.

Paris. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Medo. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Surrealismo... De Rita Carreira, n' A Destreza das Dúvidas.

Popper e Cristo em Paris. De Pedro Norton, no Escrever é Triste.

Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam. Da Daniela Major, no Aventar.

Carry on. Do Luís M. Jorge, na Vida Breve.

Autoria e outros dados (tags, etc)

um bilhete de avião chamado livro

por Patrícia Reis, em 20.10.15

12087679_10207913220139099_5910294062074534162_o.j

O meu tio-avô, homem de múltiplos talentos, deu-me os livros. Disse-me que podia viajar e conhecer o mundo sem sair de casa, a única ferramenta necessária não seria um bilhete de avião, mas um livro. Desde então ando com livros atrás, creio mesmo que há momentos na minha vida em que existem mais livros dentro do meu carro do que em muitas livrarias. Podia aborrecer-me e querer navegar nas redes sociais, prefiro um livro. Posso ir à Rússia, ao espaço, à terra do nunca e não tenho de sair do sítio, não preciso de fazer as malas. Acresce que ler é das poucas situações que, socialmente, nos protege. As pessoas tendem a não incomodar quem está a ler, têm um certo pudor. Fica-lhes bem e eu agradeço. Há alturas em que se decide seguir a máxima do filho, da árvore, do livro e quando se tenta escrever todos os outros livros se alinham na nossa cabeça, como um exército, e dizem: estamos aqui, estás a escrever, mas estamos aqui. Há uma esquizofrenia pura na escrita, digo-vos. Nada de gavetas padronizadas, o rótulo "normal" desfaz-se. Seja como for, ninguém é escritor sem ser leitor, portanto deixo o exército à porta e vou para dentro. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ler

por Pedro Correia, em 13.02.15

Eles já estão aí. Do Gabriel Silva, no Blasfémias.

A entusiástica estupidez suicida da UE governada pelo medo. Do Miguel Serras Pereira, no Vias de Facto.

Comprimidos para a memória. Do Filipe Nunes Vicente, no Nada os Dispõe à Acção.

Destruição criativa. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Olho. Da Ana Cássia Rebelo, na Ana de Amsterdam.

De que falamos quando falamos de Birdman? De Carlos Natálio, no Ordet.

Bénard: "There was never a man like my Johnny". Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O sortilégio da literatura

por Pedro Correia, em 20.12.14

quot-3c[1].gif

 

Estas coisas nunca acontecem exactamente como as planeamos - aliás, os imprevistos fazem parte do fascínio da leitura.

No final do ano passado tracei um objectivo para 2014: só leria de Janeiro a Dezembro livros da autoria de escritores galardoados com o Nobel. Defini esta meta após concluir que apenas conhecia, enquanto leitor, menos de um terço desses autores: era uma lacuna que urgia colmatar.

 

As coisas correram como planeei, mas só em parte.

Este desafio que lancei a mim próprio foi-me útil, sem dúvida. Li pela primeira vez obras destes 11 escritores que receberam o Nobel: Pär Lagerkvist (vencedor em 1951), Juan Ramón Jiménez (1956), Günter Grass (1999), Anatole France (1921), Luigi Pirandello (1934), Kenzaburo Oe (1994), Ivo Andric (1961), Naguib Mahfouz (1988), Mikail Cholokov (1965), William Golding (1983) e Yasunari Kawabata (1968). Além disso li ou reli romances, novelas ou contos de outros escritores também galoardoados com o Nobel mas cuja obra já conhecia: José Saramago (distinguido em 1998), François Mauriac (1952), William Faulkner (1949) e Ernest Hemingway (1954).

 

Mas a dada altura quebrei a regra que impusera a mim próprio. E acabei por alterar o plano inicial, mudança de que não me arrependo. Como poderia? Sem ela, neste ano que agora acaba não me teriam passado pelas mãos livros de Chesterton, Cortázar, Jack London, Simenon, Ray Bradbury, Joseph Roth, Conrad, Cardoso Pires, Remarque, Rubem Fonseca, Graham Greene, Jane Austen, Virginia Woolf, Scott Fitzgerald e John Le Carré, entre vários outros.

Livros de autores que não se cruzaram com o Nobel, mas que contribuíram para prestigiar, dignificar e engrandecer a literatura. E que, à distância de décadas ou de séculos, mantêm o condão de nos emocionar, de nos dar asas, de nos rasgar horizontes, de nos ensinar a decifrar as encruzilhadas do mundo ou os abismos da alma humana.

 

Nunca considero perdida qualquer parcela do tempo que dou por mim rendido, enquanto leitor grato e arrebatado, ao infindável sortilégio da literatura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Penso rápido (59)

por Pedro Correia, em 06.11.14

Aos 18 anos comecei a anotar todos os livros que ia lendo. É uma lista que sempre me acompanhou de então para cá. Já são mil e muitas anotações. Com nome do livro, autor, data e local em que terminei a leitura. E as estrelinhas da praxe.

Ajuda sempre na releitura. Como tenho verificado nestes últimos meses dedicados a revisitar alguns dos livros que mais me marcaram.
Ajuda também a lembrar quais foram os anos mais férteis em leituras. No ano em que fiz 20, por exemplo, li setenta e tal livros completos. Algo impensável nos tempos que correm, pelos mais diversos motivos.
Ajuda ainda a recordar que livro líamos quando nos ocorreram determinados factos que marcaram as nossas vidas, para bem ou para mal.
Ajuda enfim a pontuar a nossa memória. Como uma espécie de GPS para consumo próprio.
Dá jeito, muito mais vezes do que possamos imaginar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os labirintos da memória

por Pedro Correia, em 11.10.14

imagem[1].jpg

Não sei se convosco acontecem coisas destas. Na quinta-feira, quando soube que o escritor francês Patrick Modiano era o vencedor do Nobel, lembrei-me logo que tinha uma obra dele: Domingos de Agosto, editada pela D. Quixote, na sua efémera colecção de livros de bolso.

Ao chegar a casa, e como tenho a biblioteca arrumada, fui logo direito ao livro disposto a lê-lo nos próximos dias. Lá estava a anotação inicial: comprei-o a 27 de Maio de 2000 (certamente na Feira do Livro, por coincidir com a data). A surpresa aconteceu ao espreitar a última página, onde vinha outra inscrição: 11 de Junho de 2000. A data em que terminei de lê-lo, duas semanas depois de o ter comprado.

Lembro-me perfeitamente de livros que li muito antes deste. Acontece que nada retive desta obra. Nada mesmo. Irei (re)lê-la como se fosse a primeira vez. Certamente sem dificuldade, até porque só tem 160 páginas.

Gosto de sublinhar um livro que vou lendo. Quando isso não acontece é sinal inequívoco de que a leitura não está a impressionar-me. Folheio este exemplar e verifico: tem apenas dois sublinhados.

Um na página 33: «É da Primavera que eu tenho medo. Chega sempre como uma vaga de fundo, e eu pergunto-me sempre se não vou desequilibrar-me e sair borda fora.»

Outro na página 107: «Porque é que certas pessoas são como as pastilhas elásticas que em vão tentamos desprender dos saltos dos sapatos, esfragando-os na borda de um passeio?»

Foi uma leitura tão etérea que passou por mim sem deixar rasto. Ao contrário da pastilha elástica mencionada no parágrafo anterior. Já conhecia, portanto, Patrick Modiano. Mas na quinta-feira recebi a notícia do Nobel como se nunca me tivesse sido apresentado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O melhor é oferecer livros

por Pedro Correia, em 31.12.13

Este ano, por efeitos acumulados da crise no meu orçamento pessoal, as prendas natalícias que ofereci aos familiares mais chegados resumiram-se a livros que fui comprando ao longo do semestre. Estas são aliás, para mim, as melhores prendas. As mais intemporais, as mais persistentes, as que mais nos acompanham vida fora.

 

Que livros foram esses?

 

 

O Quinto Livro de Crónicas, de António Lobo Antunes, com chancela editorial da Dom Quixote. É um género em que o autor de Memória de Elefante se revelou um dos maiores cultores de sempre em Portugal, produzindo textos que são autênticas obras-primas do engenho literário.

 

 

Os Contos Completos, de Fernando Pessoa. Enfim um volume que reúne supostamente na íntegra -- supostamente porque com Pessoa nunca se sabe -- ficções do criador de Mensagem, capaz de ser pontualmente tão brilhante em prosa como foi na poesia. Uma edição com a qualidade a que a Antígona nos habituou.

 

 

Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Uma reedição muito cuidada deste grande clássico da dramaturgia de todos os tempos inserido numa colecção de obras do genial autor britânico que a Relógio d'Água, a preços muito convidativos, põe agora à disposição dos leitores portugueses. A isto chamo serviço público.

 

 

A Bibliotecária de Auschwitz, de António G. Iturbe. Com a chancela da Planeta, uma das melhores narrativas que nos chegou de Espanha nos últimos anos, cruzamento de reportagem com ficção, originalmente editada em 2012. Uma admirável história de resistência baseada em factos reais que passou com distinção no exigente crivo crítico espanhol.

 

 

As Grandes Batalhas da História de Portugal, de Rui Natário. Um livro de consulta permanente, ideal para quem gosta de conhecer ou recordar alguns dos factos mais decisivos da nossa história política e militar, sem os quais Portugal não seria o que é. Da batalha de São Mamede (1128) à batalha de La Lys (1918), quase 800 anos em revista nesta obra da editora Marcador.

 

....................................................................................

 

Nota suplementar: todos estes livros, impressos em 2012 ou 2013, estão escritos em português não-acordista. Sem mutilação de consoantes, portanto. O que os torna ainda mais recomendáveis.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um texto que chega do Brasil

por Patrícia Reis, em 20.12.13

O amor acaba

 

Por Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Leituras

por Pedro Correia, em 10.12.13

 

«Ler não é só comer palavras com os olhos. Ler tem de implicar acção.»

Baptista-Bastos, O Secreto Adeus, p. 101

Ed. Portugália, Lisboa, 1963

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D