Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Antigamente...

Cristina Torrão, 06.04.21

LIVRO.jpg

Imagem encontrada na net, sem indicação de autor

De vez em quando, lá oiço alguém afirmar convicto: antigamente, os Portugueses escreviam muito melhor (…) Estou em crer que quem tal afirma revela alguma ingenuidade. No fundo, está a deixar-se levar por uma imagem idealizada do «português de antigamente».

Aplaudo esta crónica do professor e tradutor Marco Neves. Hoje esquecemo-nos de que Portugal, até meados do século XX, era um país de analfabetos. Não só por me interessar por História, como por andar a consultar livros paroquiais antigos, a fim de fazer a crónica da família, estou em constante contacto com o passado. E, quando reflicto sobre questões destas, gosto de ir procurar casos concretos, precisamente, na minha família, uma típica família portuguesa, que, salvo raras excepções, não pertencia à “elite” frequentadora da escola.  

Apesar de ter tido a sorte de nascer num lar de professores primários e começado a juntar as primeiras letras com quatro anos, não preciso de ir muito longe, a fim de confirmar o analfabetismo que grassava no nosso país até meados dos anos 1980. Não tenho pejo em afirmar que, dos meus quatro avós, só o meu avô materno se sentou nos bancos escolares, concluindo o antigo quinto ano do liceu e tornando-se funcionário público.

O meu avô transmontano sabia ler e escrever por ser autodidacta. Começou a aprender durante a tropa e desenvolveu os conhecimentos ao longo da vida, tornando-se numa ajuda preciosa para os habitantes da sua aldeia. As minhas duas avós eram analfabetas, a materna pediu-me muitas vezes para lhe ler alto as legendas dos filmes (normalmente, era o meu avô que lhas lia). A minha avó transmontana nem sequer se habituou à televisão, apesar de os filhos lhe terem oferecido uma, tinha ela já quase setenta anos.

Se recuar ainda mais, até aos meus oito bisavós, penso que também só um deles estudou, era funcionário das Finanças, como o filho viria a ser. Casou com uma jovem de família conceituada da Mealhada, mas sinceramente não sei se essa minha bisavó sabia ler e escrever. Nascer num berço algo privilegiado, não era garante desse tipo de aprendizagem, para uma mulher. Todos os outros seis bisavós eram analfabetos.

Depois da Revolução de 1974, fez-se muito esforço para acabar com o analfabetismo. Sei isso igualmente por experiência pessoal: o meu pai preparou muitos adultos para o exame da 4ª classe.  Por isso, tal como o professor e tradutor Marco Neves, eu pergunto: quando foi essa época em que escrevíamos muito melhor?

No tal antigamente, a maior parte dos portugueses não escrevia. Haverá quem prefira que poucos escrevam — sempre evitam ler textos com erros. Mas até isso é uma ingenuidade: olhamos para o passado e, de todos os textos de quem escrevia (e eram poucos os que sabiam fazê-lo), só vemos os textos que sobreviveram ao turbilhão do tempo, só nos lembramos dos bons textos.

Este é aliás um erro comum, não só no que diz respeito à escrita. Como a memória não é perfeita, lembramo-nos mais facilmente daquilo de que gostámos do passado — e acabamos por idealizá-lo. A memória é uma peneira que, do passado, nos dá apenas os diamantes. A lama, essa, fica escondida na aridez dos números e de alguns livros de História.

Comparar a escrita dos dias de hoje apenas com os bons escritores do passado é um erro muito mais grave que qualquer cedilha fora do lugar.

Ler não é maçada

Pedro Correia, 15.03.21

Vamos ler EL.jpg

 

Num país onde 60% da população passa um ano sem abrir um livro, todos os incentivos à leitura são louváveis. É o caso desta iniciativa editorial da Guerra & Paz, que desafiou o poeta, ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa a escolher 50 títulos indispensáveis da nossa literatura, recomendando-os a esses compatriotas que só costumam ler legendas de séries televisivas e mensagens de telemóvel. Trabalho meritório do veterano escritor, nascido há quase 91 anos em Lourenço Marques e que privou com poetas como José Régio ou Reinaldo Ferreira, ambos aqui representados.

Autor do monumental diário Act Est Fabula, repartido por seis volumes (Opera Omni, 2012-2017), Lisboa seleccionou 35 escritores. Alguns aqui representados por mais de um título, em prosa e verso, como sucede com Mário de Sá Carneiro (A Confissão de LúcioPoemas), Miguel Torga (Novos Contos da MontanhaAntologia Poética) ou Jorge de Sena (Os Grão-CapitãesAntologia Poética). Recorda justamente nomes que andam esquecidos, como David Mourão-Ferreira (Gaivotas em TerraObra Poética), José  Rodrigues Miguéis (Onde a Noite se Acaba) e Domingos Monteiro (Contos e Novelas). Mas onde encontrá-los, se estão ausentes das livrarias e, pelo menos num caso, nem se encontram no circuito dos alfarrabistas digitais?

 

Do presente para o passado

 

Neste livrinho, que se lê num ápice e só peca por excesso de concisão, o autor começa por recomendar um prosador actual (Miguel Sousa Tavares, com Equador) e apenas no fim da lista sugere Oliveira Martins, Eça de Queiroz (ContosNotas Contemporâneas), Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Bocage e o padre António Vieira. Em cronologia regressiva que culmina nos Sonetos, de Camões.

Critério controverso, como qualquer outro seria em idêntica limitação de espaço. Mas com a vantagem de incluir títulos fundamentais da nossa ficção literária do século XX que uma certa bem-pensância escolástica foi empurrando para a borda do prato, como A Selva (Ferreira de Castro, 1930), Nome de Guerra (Almada Negreiros, 1938) ou O Barão (Branquinho da Fonseca, 1942). 

Se os poetas surgem bem representados (Cesário, Nobre, Pessanha, Pessoa, Sophia, O' Neill, Eugénio de Andrade), já nos prosadores surgem óbvias omissões, à luz do livre critério do autor, que privilegia «os grandes contadores de histórias» em linguagem acessível ao cidadão português do século XXI. Isto levou-o a deixar de lado «figuras maiores da nossa literatura», como Aquilino ou o Nemésio de Mau Tempo no Canal. Outros estão ausentes por deliberada questão de (des)gosto - incluindo Gil Vicente, de quem o jovem Eugénio foi forçado a ler «o chatíssimo Auto da Alma» nas aulas do liceu, e Vergílio Ferreira (que bem poderia figurar com Manhã Submersa ou Cântico Final, já para não mencionar os contos).

 

A "desorientada" Agustina

 

Ao contrário do que proclama o verso de Pessoa, num dos seus mais célebres "fingimentos", ler não é maçada. Mas, como qualquer literato, o autor de Vamos Ler! tem as suas aversões bem vincadas. Com o mérito de assumi-las sem disfarces, investindo contra o «snobismo parolo» do cânone dominante. E vai deixando cair nomes: Maria Gabriela Llansol («toda aquela algaraviada vestida de pompas e significando nada») ou Agustina Bessa-Luís (cheia de «aforismos desorientados»). Com incursões além-fronteiras contra o James Joyce do Ulisses ou do «indecifrável Finnegans Wake, espécie de charada bizantina».

O melhor deste mais recente título da preciosa colecção Livros Vermelhos da Guerra & Paz acaba por ser a evocação memorialística: o laurentino Lisboa recorda os dias da suave infância e adolescência na cidade natal, à beira-Índico, quando ganhou o saudável vício da leitura. Em casa e nos bancos escolares. Nasceu aí este seu amor consumado pelos livros que está longe de se esgotar: «O gosto de ler nunca mais se perde.»

Há uma lista complementar que por questões de critério editorial ficou ausente deste assumido "cânone para o leitor relutante": a dos escritores estrangeiros que Eugénio Lisboa enaltece no seu panteão privado, como Stendhal, Dickens, Poe, Mark Twain, Oscar Wilde, Somerset Maugham ou Simenon. Daria matéria para um novo livro, em que discorresse sobre O Vermelho e o NegroO Tio GoriotOs Deuses Têm SedeOs Thibault Morte em Veneza, entre outras paixões literárias. Este, só com autores portugueses, cumpre o objectivo a que se propôs. Mas acaba por saber a pouco.

 

............................................................... 
 
Vamos Ler!, de Eugénio Lisboa (Guerra & Paz, 2021)
132 páginas.
 

Atrasados nisto também

Pedro Correia, 02.03.21

Amigos meus que gastam cinco ou seis horas diárias frente a um ecrã televisivo ou em navegações sem fim nas redes sociais juram não ter tempo para ler um livro. Num país onde se lê, em média, apenas um livro por ano. O que nos afasta dos padrões europeus e nos aproxima de outros continentes, com muito maior taxa de analfabetismo. Os franceses, por exemplo, lêem em média 21 livros por ano. Uma diferença brutal em relação a este povo quase vizinho.

Entre os diversos sintomas do nosso atraso estrutural que já se tornou endémico, este é um dos mais evidentes. E perdura, sem aparente censura social. Não falta por aí gente que se gaba de jamais ter lido um livro desde que abandonou os bancos escolares. Em vez de ouvir críticas, na maior das parte das vezes escuta palavras de incentivo e apreço. 

Atrasados em tanta coisa. Nisto também. 

Os melhores livros do meu ano(3)

Pedro Correia, 31.12.20

thumbnail_20201231_042819[1].jpg

 

À medida que vamos acumulando leituras, outro prazer os livros nos proporcionam. Refiro-me ao gosto da releitura, que em 2020 cultivei em doses adicionais.

Aproveitando o longo período de reclusão imposto pelas autoridades sanitárias e por força das circunstâncias, revisitei várias obras literárias, de autores muito diversos. Como se fosse um reencontro com velhos amigos, sem precisar de máscara.

Isto aconteceu-me tanto com autores portugueses como estrangeiros. Tratando-se, em certos casos, de uma leitura já em dose tripla. Mas nem por isso menos estimulante.

Fica a lista dos dez melhores livros que fui relendo no ano que agora acaba. Por ordem alfabética, como aconteceu aqui e aqui.

 

................................................................

 

A CIDADE E AS SERRAS, de Eça de Queiroz (1901). Já longe da estética realista, de que foi um dos principais cultores, Eça escreveu em França esta magnífica declaração de amor a Portugal. Com personagens, cenários e diálogos inesquecíveis, entre o luxo de Paris e a beleza rústica da paisagem duriense.

 

A ILHA DO TESOURO, de Robert Louis Stevenson (1883). Romance de aventuras para todas as idades - um dos mais célebres de sempre. Na sua galeria de personagens fabulosas destaca-se Long John Silver, o marinheiro renegado que abraça a pirataria, cruzando para sempre a linha divisória entre o bem e o mal.

 

A LINHA DE SOMBRA, de Joseph Conrad (1917). Um navio estagnado devido a uma imprevista calmaria oceânica, com dezenas de tripulantes infectados a bordo, parecendo alvo de uma insólita maldição. O protagonista jamais esquecerá esta sua viagem iniciática em mares orientais com galões de comandante.

 

A SELVA, de Ferreira de Castro (1930). Um dos raros romances portugueses com alcance universal. Castro transforma a sua experiência como jovem trabalhador braçal na Amazónia em material literário de inegável qualidade. Uma obra que tem como protagonista a floresta, com os seus mistérios e os seus terrores. 

 

ATÉ AO FIM, de Vergílio Ferreira (1987). Romance crepuscular do autor de Aparição, centrado num pai que vela o corpo do filho numa capela à beira-mar enquanto desfia memórias relacionadas com encontros e desencontros que mantiveram. Vigília povoada de interrogações e perplexidades sobre o homem e o seu destino.

 

CRIME IMPUNE, de Georges Simenon (1954). Obra capital entre os romances que o prolífico autor belga escreveu sem a presença tutelar do seu comissário Maigret. Ambientado numa pensão de Liège, com hóspedes de várias nacionalidades e oriundos de encruzilhadas diversas. Um deles terá um futuro trágico.

 

MAU TEMPO NO CANAL, de Vitorino Nemésio (1944). O melhor romance português do século XX. Imbatível como ficção literária no cenário açoriano - desenrolada em quatro ilhas: Faial, Pico, São Jorge e Terceira. Obra apropriada nestes tempos difíceis: a epidemia (aqui, de peste bubónica) é um dos temas centrais.

 

O MALHADINHAS, de Aquilino Ribeiro (1922). Obra-prima da nossa novelística, escrita na primeira pessoa do singular, com linguagem pícara e castiça, dando voz a um almocreve de meados do século XIX que percorria serranias beirãs no rescaldo da guerra entre liberais e miguelistas que dilacerou Portugal por muitos anos.

 

O TRIGO E O JOIO, de Fernando Namora (1954). A chamada escola neo-realista produziu romances de indiscutível qualidade. Talvez nenhum com tanta autenticidade como este, centrado num humilde camponês alentejano que ambiciona ser proprietário de uma burra e move tudo para concretizar tal sonho. 

 

VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS, de Júlio Verne (1870). Quinto romance mais traduzido em todo o mundo, tem encantado sucessivas gerações de leitores e mantém intacto o seu fascínio. Quantos de nós não desejámos embarcar no Nautilus - o primeiro submarino da literatura - sob o comando do enigmático capitão Nemo?

Os melhores livros do meu ano(2)

Pedro Correia, 30.12.20

thumbnail_20201228_133332[4].jpg

 

Como referi anteriormente, há muitos anos que não lia tantos livros como neste 2020 prestes a ficar para trás. Desde a adolescência, mais precisamente. O longo período de confinamento a que estive sujeito, à semelhança do que sucedeu com tantos de nós, incentivou-me a mergulhar ainda mais na leitura. E com proveito, devo confessar.

Ler, como alguém assinalava um dia destes, é a actividade intelectual que mais nos permite contrariar tendências dominantes, rejeitar o espírito de rebanho ou alcateia e mergulhar na subjectividade - no fundo, aquilo que nos diferencia dos restantes mortais.

Senti isso como nunca neste ano de pesadelo. Graças, em boa parte, a autores que escreveram sobre mundos e modas tão diferentes dos que agora experimentamos. Esta é uma conquista ímpar da literatura: fazer-nos viajar a qualquer momento no tempo e no espaço, abrindo-nos horizontes de toda a espécie. Graças a ela, ficamos a saber o que nos antecedeu e a conhecer a face oculta do que nos rodeia. E passamos até a ser iluminados sobre nós próprios.

Fica a lista dos dez melhores livros de autores estrangeiros que li no Ano da Pandemia. Por ordem alfabética, para facilidade de consulta.

 

................................................................

 

A IDADE DA INOCÊNCIA, de Edith Wharton (1920). Romantismo tardio cruzado com suave mas inequívoca denúncia social: eis alguns ingredientes desta fascinante viagem literária que nos apresenta a arrogante e pretensiosa classe dominante de Nova Iorque na década de 1870, com mais sombras do que luzes.

 

A MÃE, de Máximo Gorki (1907). O primeiro - e talvez o melhor - romance da escola do "realismo socialista", que mesclava ficção literária com cartilha política e produziu imensas cópias inferiores em que o talento se rendia ao proselitismo. Inesquecível, a personagem principal - figura cimeira da literatura.

 

A MENTE APRISIONADA, de Czeslaw Milosz (1953). Corajoso libelo contra o totalitarismo comunista a partir da experiência do autor, no auge da ditadura vermelha na Polónia, antes de rumar a um exílio que durou décadas e lhe custou a perda da cidadania. O equivalente em ensaio a O Zero e O Infinito em ficção.

 

A TIA JULIA E O ESCREVEDOR, de Mario Vargas Llosa (1977). Até que ponto a vida, tal como ela realmente é, pode funcionar como eficaz matéria literária? Desafio difícil, mas superado com brilhantismo neste divertidíssimo romance, aquele em que o Nobel de 2010 mais se desvenda sem biombos nem artifícios.

 

CORAÇÃO TÃO BRANCO, de Javier Marías (1992). Talvez o melhor romancista actual de Espanha, Marías elabora aqui uma teia de encontros e desencontros que se vão prolongando no tempo e no espaço, suscitando-nos interrogações sobre o destino humano. Basta o capítulo inicial para ascender ao patamar de obra-prima.

 

O AMANTE DE LADY CHATTERLEY, de D. H. Lawrence (1928). Muito mais do que um clássico da literatura erótica, é um estudo admirável da psicologia feminina e uma desassombrada denúncia dos preconceitos sociais vigentes na Inglaterra saída da I Guerra Mundial, ainda povoada de sombras atávicas.

 

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS (1997). O realismo mágico transposto para uma comunidade cristã na Índia com um arrojo e uma destreza literária em nada inferiores ao de Gabriel García Márquez. É também uma obra sobre as marcas da infância que permanecem para sempre inscritas nos sulcos da memória.

 

O MUNDO PERDIDO, de Conan Doyle (1912). Livro de aventuras, na mais genuína acepção do termo, esta obra-prima demonstra-nos que existem sempre novas fronteiras por desbravar, por vezes em desafio aberto à lógica cartesiana. Recomendável aos nostálgicos do género, que suscita fascínio em todas as idades.

 

RESSURGIR, de Margaret Atwood (1972). Admirável romance sobre o fascínio das raízes familiares, os precários laços afectivos que provocam cicatrizes e a atribulada relação entre o homem e a natureza, desenrolada em cenário florestal do Canadá. Ambientalista e feminista antes de estes conceitos se tornarem moda.

 

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM, de James Joyce (1916). Um dos melhores livros sobre as encruzilhadas da adolescência: Joyce conduz-nos à sua Dublin natal do final do século XIX em óbvia evocação autobiográfica. Tornando-nos testemunhas privilegiadas das suas crises de identidade e dos seus dilemas existenciais.

Mudar ou não mudar:eis a questão

Pedro Correia, 07.08.20

6871312_vBrOE.jpeg

 

Que literatura pode mudar a nossa vida? É matéria que dá pano para mangas: vivendo nós na civilização do Livro, nem poderia ser de outra forma. A simples frase “Não matarás”, impressa na Bíblia, mudou milhões de vidas.

Mas atenção: os livros que foram fundamentais para a nossa transformação interior raras vezes coincidem com aqueles que o critério académico – incluindo o da Academia de Estocolmo – consagra como decisivos. Conheço, por exemplo, muita gente que decidiu cursar Direito por influência do bom desempenho de Perry Mason como advogado de ficção – e ninguém incluirá decerto Erle Stanley Gardner entre os maiores escritores do século XX.

 

Gostar e admirar raras vezes coincidem.

Sei bem do que falo: gosto de toda a obra de Ernest Hemingway, incluindo vários títulos que estou longe de admirar. Gosto de tudo quanto me transmite George Orwell, ainda que possa estar longe de admirar a sua escrita. Gosto de todo o Graham Greene, talvez o autor que mais me ensinou como se deve escrever, embora não partilhe o essencial das suas ideias.

Basta a menção dos apelidos KafkaBorges ou Malraux para me fazer reviver o prazer da leitura – e no entanto nenhum destes escritores ganhou o Nobel, o que não altera um milímetro a minha devoção de leitor por eles.

Já o consagradíssimo Thomas Mann, pelo contrário, me faz bocejar de tédio perante o pedantismo da sua escrita, a que nunca aderi, por mais que entenda a importância que o cânone oficial lhe atribui como romancista de “ideias”. Vale a pena lê-lo por “dever” intelectual? Certamente que sim. Retiraremos daí algum prazer? Essa é uma questão muito diferente.

São insondáveis os caminhos que nos transportam nas mais diversas direcções literárias. No seu leito de morte, Lenine pedia que lhe lessem contos de Jack London: o grande autor americano teria mudado mais a vida do fundador da União Soviética do que alguém fora capaz de imaginar.

 

Tudo seria bem diferente se a literatura nada tivesse a ver com a vida. Mas felizmente que tem. E nenhum de nós gostaria que não tivesse.

Livro é para ler e não para ter

Pedro Correia, 22.07.20

thumbnail_20200722_114435[2].jpg

 

Parece que é, de momento, a professora mais conhecida do País. Chegou a ter 400 mil pessoas a segui-la em directo nas «lições de Português» da nova telescola e «passou a rivalizar nas audiências com a CMTV e o Programa da Cristina», como nos informa o Expresso, que lhe fez uma longa entrevista na edição do último sábado. Isa Gomes, docente do 1.º ciclo na Moita, não gosta da expressão «dar aulas e ensinar» e gostaria de «ir mais ao encontro daquilo que dizem os miúdos, os relatos orais, o que são suas próprias concepções», sem que a leitura e a escrita não estivessem «tão dependentes de um manual».

Eu nem sabia quem era, só agora a senhora me foi apresentada nesta entrevista. Admito que as lições de Português desta professora a quem criticam o «uso excessivo do "OK" no final das frases» sejam admiráveis. Nada admirável é, no entanto, a sua assumida falta de militância na leitura. Questiono-me até como pode uma docente do ensino básico ser apresentada como figura de referência quando, confrontada com a banal pergunta «O que anda a ler?», responde assim: «Não sou uma leitora. Nunca fui muito de ler livros, mas sempre adorei tê-los. (...) Estou a tentar ler os Contos de Cães e Maus Lobos, de Valter Hugo Mãe. Tenho de o terminar este Verão.»

 

Com exemplos destes, não admira que Portugal permaneça na cauda da Europa em matéria de hábitos de leitura: menos de um terço dos portugueses (32%) lê livros com regularidade, o que nos coloca muito atrás de Grécia (45%) e Espanha (47%), países que nos acompanham neste nada honroso pódio. Num continente onde o padrão médio de leitura se eleva a 60% - quase o dobro da cifra portuguesa.

Espero sinceramente que a professora agora célebre consiga terminar nos próximos dois meses o tal livrinho que anda a ler sem entusiasmo algum - e que consiga abrir outro até ao fim do ano.

Espero também que os alunos não sigam o exemplo dela. Um livro é para ler e não para ter.

Uma lição de vida

Pedro Correia, 30.06.20

6661254_OKK4Q[1].jpg

Por vezes, no mais inesperado dos lugares, despertam inimagináveis vocações. Aconteceu com José Saramago, o que é um - entre tantos outros - aspecto memorável da sua biografia. Impossibilitado de prosseguir os estudos para além do curso profissional de serralharia mecânica na escola industrial Afonso Domingues, o jovem Saramago passava os tempos livres recolhido na biblioteca municipal de Lisboa, no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno. Enquanto os seus parceiros de geração optavam por folguedos, bailaricos e comezainas, ele cultivava-se com esmero, persistência e determinação naquelas salas austeras que lhe propiciaram o equivalente à formação universitária que formalmente nunca chegou a ter.

O Nobel de 1998 recorda esse período num admirável prefácio escrito para o livro De Volcanas Llena: Biblioteca y Compromiso Social (Gijón, Trea, 2007). «Era um lugar em que o tempo parecia ter parado, com estantes que cobriam as paredes do chão até quase ao tecto, as mesas à espera dos leitores, que nunca eram muitos (...). Não posso recordar com exactidão quanto durou esta aventura, mas o que sei, sem sombra de dúvida, é que se não fosse aquela biblioteca antiga, escura, quase triste, eu não seria o escritor que sou. Ali começaram a escrever-se os meus livros», anotou Saramago, lembrando os dias, meses e anos ali passados.

Uma lição de vida.

Ler em tempo de pandemia

Pedro Correia, 26.05.20

Como quem me conhece sabe, há dias em que nem quero ouvir falar em política. Este é um deles. Apetece-me antes fazer-vos um desafio: partilhem connosco quais têm sido as vossas leituras desde que foi declarada a pandemia. E não me refiro às anedotas distribuídas por telemóvel nem às teses conspiranóicas que circulam nas redes à cata de novos cliques. Falo em leitura à moda clássica - a do "papel pintado", para recorrer à suave ironia pessoana.

Livros mesmo. Dos antigos, dos bons. Dos que resistem a todos os embates, superam todas as adversidades e contrariam qualquer certidão de óbito. Cem vezes declarados mortos, mil vezes renascidos geração após geração - inesgotáveis fontes de emoção, infindáveis transmissores de sabedoria. Borges confessava sentir orgulho não dos livros que havia escrito, mas dos livros que havia lido. Que livros poderão produzir o mesmo efeito em cada um de nós?

Que livros ainda nos falta ler?

Pedro Correia, 19.07.19

large.jpg

Audrey Hepburn no filme Guerra e Paz (1956)

 

Julgo que acontece a cada um de nós. Há livros que sempre quisemos ler mas por algum motivo nos foram fugindo - ou nós fugindo deles, o que acaba por dar no mesmo: um desencontro de longa duração entre a obra e o potencial leitor.  

No meu caso, confesso, a lista de leituras sempre adiadas é encabeçada por dois romances que se tornaram pedras basilares da literatura dos séculos XIX e XX: Guerra e Paz, de Tolstoi, e Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. No primeiro caso, até já vi o filme (com a bela Audrey Hepburn), no segundo nem sequer conheço qualquer adaptação filmada. 

Não tenho em casa nenhuma destas obras - a de Proust, desde logo, por ocupar muito espaço: são sete volumes. E nunca as li, reconheço, devido à dimensão dos textos. Um célebre ensaísta avaliou em quatro meses o tempo médio de leitura atenta da Guerra e Paz - o que excede, portanto, os dias bem contados de qualquer estação do ano. 

Mas ainda não perdi a esperança. Sabendo que alguns livros da minha vida resultaram de leituras que fui adiando durante anos até um dia me decidir enfim a chegar lá. E ainda bem que o fiz, em casos como O Som e a Fúria, de Faulkner, ou Lolita, de Nabokov. Obras-primas da literatura universal.

Permitam-me a curiosidade: e no vosso caso? Quais são os livros que há anos desejam ler mas por algum motivo foram sempre adiando sem nunca os riscarem das listas de prioridades? Esta caixa de comentários fica à vossa disposição para partilharem tais confidências.

Sun Tzu escrevia em inglês?

Pedro Correia, 28.06.19

thumbnail_20190623_120436-1.jpg

 

Na minha livraria preferida, espreito as novidades literárias. Novos romances, por exemplo. Há sempre vários à disposição dos leitores.

Pego num deles, espreito a primeira página. Traz citação. Coisa fina: é de Sun Tzu. A Arte da Guerra, clássico com várias traduções em português. 

Mas esta citação surge em inglês, idioma que o admirável filósofo chinês, nascido no século VI antes de Cristo, não dominava. Desde logo porque a língua imortalizada por Shakespeare, Byron e Dickens só começou a generalizar-se, no seu figurino actual, cerca de mil anos depois.

Excluindo o chinês original, só faria sentido, portanto, que uma frase destas surgisse no nosso idioma como epígrafe de um romance escrito por um autor português e destinado a leitores portugueses. O inglês, aqui, indicia apenas aculturação bacoca e espúria. Algo digno de um pesca-frases em modo rápido nesse amplo mar da palha que é o Google.

Passei adiante, claro. Sem necessitar de ler mais nada.

A literatura sobrevive a tudo

Pedro Correia, 18.06.18

No ano passado, antes de rumar às férias primaveris, comprei um livro de um autor muito recomendado em determinadas selectas - figura com presença regular nos ecrãs televisivos e incensada em solos de violino nas gazetas da praxe. Dispus-me a ler aquilo: era volume grosso, de quatrocentas e tantas páginas.

Deu-me para três horas de viagem de comboio. Chegado ao destino, apeei-me na página 100. E nunca mais retornei ao calhamaço. O romance - é de um livro de ficção que falo - permanece adormecido na prateleira de um armário. Não tenciono despertá-lo.

Lembro-me vagamente do fio do enredo: havia uma mulher fechada em casa, assombrada por fantasmas íntimos. Cem páginas adiante, nada sucedera de relevante, aquilo dava um passo em frente e outro atrás sem nunca sair do mesmo sítio.

O que não invalidou que a obra em causa recebesse hossanas em ritmo cadenciado. Certos autores têm este condão de suscitar coros afinados, sempre em estilo laudatório.

 

http___i.huffpost.com_gen_3357726_images_n-READ-BO

 

Ontem, ao entrar numa das livrarias que frequento com regularidade, deparei com dois romances de estreia, assinados por jovens autores. Uma menina e um rapaz.

Senti curiosidade em ler as frases iniciais.

Escreveu ele: «Se existe algo que eu aprendi é que a vida é estranha.»

Escreveu ela: «Adoro o cheiro dele quando chega perto de mim. Ele ainda não chegou e eu já sei que ele vem.»

 

Não sei o que mais me impressionou nestes parágrafos de abertura.

Talvez o monumento à irrelevância em letra impressa. Ou a vacuidade do estilo. Ou a profusão de pronomes pessoais, por clara influência da sintaxe brasileira hoje dominante nos circuitos digitais. Ou o culto narcísico tão característico destes dias em que o auto-retrato domina todas as modas.

Talvez a impressionante compressão vocabular nesta era em que há quem jure ser capaz de escrever romances no Twitter - algo equivalente a dançar o tango numa cabina telefónica.

Mas não duvido que ambos, com a rede de conhecimentos adequada, serão capazes de se tornarem "autores de sucesso". Talvez mesmo se elevem à condição de "bestas céleres", como dizia o arguto Alexandre O'Neill.

Espreito-lhes os perfis nas badanas: surgem-me como figuras exemplares desta época. Ele tem «45 mil seguidores no Facebook» - anoto as conotações quase litúrgicas do vocábulo seguidores. Ela é «formadora de softskills», expressão cujo significado ignoro mas que me soa a algo importante. Não me admirava que venham a cometer mais romances. Podem até fazê-lo a um ritmo semestral: há quem viva disto e seja sempre anunciado com laudatórias trombetas mediáticas. Como se estivéssemos perante uma Cartuxa de Parma ou uma Guerra e Paz.

 

Africa-Minha[1].jpg

 

Regresso a casa, retomo a leitura de um dos meus livros favoritos: Africa Minha, de Karen Blixen. E de novo me salta à vista aquela suave cadência das frases de abertura que logo nos convidam a viajar no tempo e no espaço. Recuando cem anos, ao Quénia colonial.

«Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. O equador passa 160 quilómetros a norte desta região e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-no mais perto do sol, mas as madrugadas e o fins de tarde eram límpidos e tranquilos e a noites frias. A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável.»

A melhor literatura sobrevive a tudo. Até ao inqualificável abuso das más práticas que se multiplicam invocando em vão o seu sagrado nome.

Outros quatro a ler no metro

Pedro Correia, 05.09.17

Entro na carruagem do metro, são quase 19 horas. A habitual multidão do fim da tarde: quase toda a gente - excepto turistas - de cabeça para baixo, mergulhada nos ecrãs dos telefones a que chamamos inteligentes apesar de fazerem de nós estúpidos. Questiono-me quantas destas pessoas alheadas de quem as cerca perdem tempo a ver vídeos de gatinhos ou a ler piadolas alarves ou a aprofundar "todos os pormenores" que jamais quiseram saber sobre celebridades da treta.

Aproveito para abrir o livro que por estes dias me acompanha. São seis estações até ao meu destino: à média habitual, dá para avançar umas dez páginas. Aproveitando todos os momentos disponíveis ao longo de fragmentos do dia, consegui ler 44 livros completos desde o início do ano até ao fim de Agosto. Era uma aposta muito pessoal para 2017: igualar ou superar agora enquanto leitor o ritmo veloz dos meus tempos de adolescente e jovem adulto, quando cheguei a ler 72 no ano em que passei dos 17 aos 18.

 

Guardo na mochila o Equador, de Miguel Sousa Tavares (sim, é deste romance que se trata), quando se anuncia a estação onde vou sair. E reparo então que nos lugares circundantes vão quatro pessoas também a ler. Duas mulheres, dois homens: paridade absoluta.

O que lêem elas? A Rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami (edição Casa das Letras), e Filhos da Fortuna, de Jeffrey Archer (Europa-América).

O que lêem eles? A Game of Thrones, de George RR Martin (um paperback na versão original), e O Islão Político Ontem e Hoje, de John Owen (Bertrand).

 

Não deixo de sorrir: eis quatro parceiros de carruagem totalmente desconhecidos e que talvez nunca volte a ver mas a que me sinto de imediato ligado por um inesperado elo de cumplicidade.

Somos poucos mas não deixamos de remar contra a maré dominante, transformando o transporte de um livro num singelo acto de resistência. Demonstrando aos outros e a nós próprios esta evidência: é possível escapar ao vício dos telemóveis que cada vez mais nos uniformiza no espaço público.

Por mim, continuarei. Até ao fim deste ano e no outro que vier. Sem unicidade, sem uniformes, sem vídeos de gatinhos. Como escreveu o poeta, "só vou por onde / me levam meus próprios passos".

Leituras para 2017

Pedro Correia, 14.01.17

2017-01-13 10.02.59.jpg

 

Não deixes tudo ao sabor do acaso. Organiza um plano de leitura. Abdica de parte do tempo diário que dedicas a um sem-fim de futilidades. Não espreites mais vídeos de gatinhos nem repliques graçolas alarves nas “redes sociais”. Imagina 2017, no plano cultural, como uma montanha que ambicionas escalar e não como uma ladeira que vais descer.

Elege elevação como palavra de ordem. E nunca esqueças que a leitura será sempre a tua maior aliada neste caminho.

 

Põe de lado uns quantos livros que pretender ler. Coloca-os num lugar acessível, de modo a que consigas espreitar-lhes as capas a todo o momento. Estarão ali, chamando por ti, manhã após manhã, semana após semana.

Canaliza meia hora, todos os dias, do precioso tempo que gastas com aquilo que não interessa para mergulhares numa primeira leitura. Se ela te prender, a meia hora irá ampliar-se quase sem dares por isso. Mas convence-te que terás de concentrar-te nessa meta. Nada se alcança sem um esforço mínimo.

Não escutes aqueles que escutas há anos nas televisões papagueando as mesmas coisas: antes de abrirem a boca já sabes o que irão dizer. Deixa o telemóvel noutra divisão, mostra-lhe que és tu a mandar nele e não ele a dispor de ti. Não caias na tentação de trocar amizades reais por amizades virtuais.

Pensa num livro como um amigo real, disponível a todos os momentos e capaz de te acompanhar nos melhores percursos – aqueles que te abrem horizontes, aqueles que são capazes de fazer de ti uma pessoa com mais cultura, com maior conhecimento, com melhor capacidade de entender os mistérios da vida e desvendar os enigmas do mundo.

 

Organiza uma lista de leituras. Eu já fiz isso, nos primeiros dias do ano. Tenho estes livros à cabeceira, desafiando-me a todo o momento para ir ao encontro deles: O Agente Secreto, de Joseph Conrad, A Cidade e os Cães, de Mario Vargas Llosa, San Camilo, 1936, de Camilo José Cela, O Tio Goriot, de Honoré de Balzac, Batalha Incerta, de John Steinbeck, Revolta na Bounty, de John Barrow, Desconhecidos, de Anita Brookner, O Mundo de Fora, de Jorge Franco, Sartoris, de William Faulkner, Manhattan Transfer, de John dos Passos.

Diz para ti próprio: vou ler mais em 2017. E põe em prática este objectivo. Verás que se concretiza: basta saberes organizar melhor o calendário. A vida é feita de escolhas: prescinde de parte do tempo desperdiçado em irrelevâncias e chegarás ao fim com a certeza de teres aproveitado bem o ano.

Selecção Nacional - 6

Inês Pedrosa, 09.07.16

19760876_AW75w[1].jpg

 

"A cama flutuante eleva-se agora sobre as nuvens, as chaminés, e os telhados encanecidos. A cama dirige-se para o Criador. E é uma auto-estrada fluida, a que liga a Terra, onde Cristina se encontra, ao infinito, onde está o Criador. A cama sobe até às estrelas, e Cristina sente que está quase a atingir o seu destino. Tem tantas perguntas, nem sabe por onde começar. Quando encontrar Deus, promete, tentará não desatar logo em invectivas, a insultá-lo violentamente, que é o que lhe apetece. É o que lhe apetece, mas controla-se. Será esperta, melíflua, cínica mesmo. Irá com calma. Oferecer-Lhe-á os seus favores, se for caso disso, para melhor O enganar. O coração de Cristina devia estar a bater com força, à medida que se aproxima do ente supremo, mas o que acontece é precisamente o contrário, vai ficando cada vez mais calma, serena, senhora de si própria. " 

Rui Zink, O Suplente, 2000, 344 pp, p. 86. 

Selecção Nacional - 5

Inês Pedrosa, 07.07.16

19757841_atBYT[1].jpg

 

"A chuva ia e vinha como uma cortina que ora se fecha ora se esgarça, e ele acrescentou, com o candeeiro levantado e os olhos cravados nos dela — «Nunca te dei nada». E ela continuava completamente surpreendida, pois sabia que não era assim, e quis mostrar como não era assim, como estava rodeada de objectos e seres deixados por ele, imagens, ideias e fundamentos, tecidos e desenhos, os suficientes e adequados, provenientes dele, e se tinha desejado aquele encontro, era só para lhe explicar como vivia com ele, na ausência dele, por tudo isso que possuía. Queria dizer-lhe que não lhe devia nada, pelo contrário, que tudo estava certo como uma conta de multiplicar bem contada, que até ao fim da lógica e dos séculos sempre resiste à mesma prova real. Mas nessa noite era impossível explicar, pois talvez ela não tivesse as palavras, ou tivesse mas não as soubesse unir, ou pelo menos assim acontecia, naquele momento de surpresa em que ele a visitava." 

Lídia Jorge, O Vale da Paixão, 1998, p. 16. 

 

Selecção Nacional - 4

Inês Pedrosa, 06.07.16

19755071_sbIrm[1].jpg

 

"Não amo a desgraça nem o excesso de graça, mas posso contá-los. Era um salão com lustres e de gente com duzentos milhões, pelo menos, de renda anual em angolares e francos suíços. O meu coração não é duro, porque nesse tempo eu não faria contas dessas. Ao princípio fascinaram-me as relações exemplares. Depois apercebi-me que essa raridade era uma ofensa, como uma desmesurada conta na Suíça e, felizmente, muito mais rara. Os amores únicos e a sua crónica devem ser deixados a escritores menores, os agiotas da ilusão. Ou pervertores de consciências. Ah, se o amor é fulminante e arbitrário, porque não preferir o poder ou a sua prima triste - o conhecimento?" ( pp. 92-93) 

Maria Velho da Costa, Missa in Albis, 1988, 465 pp.

Selecção Nacional -3

Inês Pedrosa, 04.07.16

19750344_j7jkp[1].jpg

 

"Há quem me considere perigosa e também quem me diga visionária por querer salvar a Pátria portuguesa, mas há igualmente quem se ria nas minhas costas, querendo colar-me a imagem daquela a quem não se pode dar crédito, devendo por isso ser afastada.

As sombras adensam-se em torno da minha casa da Rua da Boa Morte. Assustada, vejo-me a esbracejar em vão, sem poder deixar de lutar por aquilo em que acredito, tentando encontrar o caminho mais hábil para combater o despotismo que sempre sufocou as nações.

Só a poesia me dá algum alento, pois mesmo com as minhas amigas e meu irmão brigo, desconcertando-me comigo própria. E apesar de muitos serem os motivos desencorajadores, todos os dias persisto: saio de casa cedo e fico esquecida, esperando inutilmente nas antecâmaras dos ministérios, sentindo-me transparente aos olhos de quem se recusa a receber-me.

Sabendo-me considerada uma ameaça.

Afinal, em nada do que pretendo se acoita o perigo."

Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, 2011, p. 957.

Selecção Nacional - 2

Inês Pedrosa, 03.07.16

19746141_rb2Fi[1].jpg

"Maria suspeitou que ele se exprimia em verso ou como tal. Com efeito falava sem a olhar mas rindo-se para não dar importância ao que dizia e que apenas lhe saía da boca porque o tinha escrito dentro dele. «Estás aqui comigo à sombra do sol e tenho pena de ser só isto», disse a certa altura. E dói-me um braço, e sei que sou o pior aspecto do que sou.»

Maria: «Não é nada pior. Eu até tenho os seus livros todos.»

O poeta Ruy Belo se a ouviu não se mostrou entusiasmado. Mergulhou na caneca de cerveja e ficou por lá a pensar. Ao cabo de alguns instantes levantou a boca cheia de espuma:

«Acabo de inventar um advérbio: helenamente.» Acenou para o copo: «É isso. A maneira mais triste de estar contente.»

Voltou-se para a Maria: Helenamente, a maneira mais triste de estar contente não tinha nada a ver com estóicos nem com filosofias gregas, a boa menina que não pensasse. Aquilo vinha do nome duma mulher que só ele sabia, e queria dizer o mar, a terra, o fumo e a pedra simultaneamente. Helenamente, simultaneamente.“

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, 1987, pp 425-426.