Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Livro é para ler e não para ter

por Pedro Correia, em 22.07.20

thumbnail_20200722_114435[2].jpg

 

Parece que é, de momento, a professora mais conhecida do País. Chegou a ter 400 mil pessoas a segui-la em directo nas «lições de Português» da nova telescola e «passou a rivalizar nas audiências com a CMTV e o Programa da Cristina», como nos informa o Expresso, que lhe fez uma longa entrevista na edição do último sábado. Isa Gomes, docente do 1.º ciclo na Moita, não gosta da expressão «dar aulas e ensinar» e gostaria de «ir mais ao encontro daquilo que dizem os miúdos, os relatos orais, o que são suas próprias concepções», sem que a leitura e a escrita não estivessem «tão dependentes de um manual».

Eu nem sabia quem era, só agora a senhora me foi apresentada nesta entrevista. Admito que as lições de Português desta professora a quem criticam o «uso excessivo do "OK" no final das frases» sejam admiráveis. Nada admirável é, no entanto, a sua assumida falta de militância na leitura. Questiono-me até como pode uma docente do ensino básico ser apresentada como figura de referência quando, confrontada com a banal pergunta «O que anda a ler?», responde assim: «Não sou uma leitora. Nunca fui muito de ler livros, mas sempre adorei tê-los. (...) Estou a tentar ler os Contos de Cães e Maus Lobos, de Valter Hugo Mãe. Tenho de o terminar este Verão.»

 

Com exemplos destes, não admira que Portugal permaneça na cauda da Europa em matéria de hábitos de leitura: menos de um terço dos portugueses (32%) lê livros com regularidade, o que nos coloca muito atrás de Grécia (45%) e Espanha (47%), países que nos acompanham neste nada honroso pódio. Num continente onde o padrão médio de leitura se eleva a 60% - quase o dobro da cifra portuguesa.

Espero sinceramente que a professora agora célebre consiga terminar nos próximos dois meses o tal livrinho que anda a ler sem entusiasmo algum - e que consiga abrir outro até ao fim do ano.

Espero também que os alunos não sigam o exemplo dela. Um livro é para ler e não para ter.

Uma lição de vida

por Pedro Correia, em 30.06.20

6661254_OKK4Q[1].jpg

Por vezes, no mais inesperado dos lugares, despertam inimagináveis vocações. Aconteceu com José Saramago, o que é um - entre tantos outros - aspecto memorável da sua biografia. Impossibilitado de prosseguir os estudos para além do curso profissional de serralharia mecânica na escola industrial Afonso Domingues, o jovem Saramago passava os tempos livres recolhido na biblioteca municipal de Lisboa, no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno. Enquanto os seus parceiros de geração optavam por folguedos, bailaricos e comezainas, ele cultivava-se com esmero, persistência e determinação naquelas salas austeras que lhe propiciaram o equivalente à formação universitária que formalmente nunca chegou a ter.

O Nobel de 1998 recorda esse período num admirável prefácio escrito para o livro De Volcanas Llena: Biblioteca y Compromiso Social (Gijón, Trea, 2007). «Era um lugar em que o tempo parecia ter parado, com estantes que cobriam as paredes do chão até quase ao tecto, as mesas à espera dos leitores, que nunca eram muitos (...). Não posso recordar com exactidão quanto durou esta aventura, mas o que sei, sem sombra de dúvida, é que se não fosse aquela biblioteca antiga, escura, quase triste, eu não seria o escritor que sou. Ali começaram a escrever-se os meus livros», anotou Saramago, lembrando os dias, meses e anos ali passados.

Uma lição de vida.

Ler em tempo de pandemia

por Pedro Correia, em 26.05.20

Como quem me conhece sabe, há dias em que nem quero ouvir falar em política. Este é um deles. Apetece-me antes fazer-vos um desafio: partilhem connosco quais têm sido as vossas leituras desde que foi declarada a pandemia. E não me refiro às anedotas distribuídas por telemóvel nem às teses conspiranóicas que circulam nas redes à cata de novos cliques. Falo em leitura à moda clássica - a do "papel pintado", para recorrer à suave ironia pessoana.

Livros mesmo. Dos antigos, dos bons. Dos que resistem a todos os embates, superam todas as adversidades e contrariam qualquer certidão de óbito. Cem vezes declarados mortos, mil vezes renascidos geração após geração - inesgotáveis fontes de emoção, infindáveis transmissores de sabedoria. Borges confessava sentir orgulho não dos livros que havia escrito, mas dos livros que havia lido. Que livros poderão produzir o mesmo efeito em cada um de nós?

Política e literatura

por Pedro Correia, em 27.11.19

   thumbnail_20191125_151029-1[2].jpg thumbnail_20191125_151018-1[1].jpg

 

Passo por cá só para vos chamar a atenção para o meu trabalho publicado na edição n.º 155 da revista Ler: Dez romances sobre política, três dos quais de autores portugueses (Eça de Queiroz, Agustina Bessa-Luís e José Saramago).

Chegou esta semana às bancas.

Que livros ainda nos falta ler?

por Pedro Correia, em 19.07.19

large.jpg

Audrey Hepburn no filme Guerra e Paz (1956)

 

Julgo que acontece a cada um de nós. Há livros que sempre quisemos ler mas por algum motivo nos foram fugindo - ou nós fugindo deles, o que acaba por dar no mesmo: um desencontro de longa duração entre a obra e o potencial leitor.  

No meu caso, confesso, a lista de leituras sempre adiadas é encabeçada por dois romances que se tornaram pedras basilares da literatura dos séculos XIX e XX: Guerra e Paz, de Tolstoi, e Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. No primeiro caso, até já vi o filme (com a bela Audrey Hepburn), no segundo nem sequer conheço qualquer adaptação filmada. 

Não tenho em casa nenhuma destas obras - a de Proust, desde logo, por ocupar muito espaço: são sete volumes. E nunca as li, reconheço, devido à dimensão dos textos. Um célebre ensaísta avaliou em quatro meses o tempo médio de leitura atenta da Guerra e Paz - o que excede, portanto, os dias bem contados de qualquer estação do ano. 

Mas ainda não perdi a esperança. Sabendo que alguns livros da minha vida resultaram de leituras que fui adiando durante anos até um dia me decidir enfim a chegar lá. E ainda bem que o fiz, em casos como O Som e a Fúria, de Faulkner, ou Lolita, de Nabokov. Obras-primas da literatura universal.

Permitam-me a curiosidade: e no vosso caso? Quais são os livros que há anos desejam ler mas por algum motivo foram sempre adiando sem nunca os riscarem das listas de prioridades? Esta caixa de comentários fica à vossa disposição para partilharem tais confidências.

Sun Tzu escrevia em inglês?

por Pedro Correia, em 28.06.19

thumbnail_20190623_120436-1.jpg

 

Na minha livraria preferida, espreito as novidades literárias. Novos romances, por exemplo. Há sempre vários à disposição dos leitores.

Pego num deles, espreito a primeira página. Traz citação. Coisa fina: é de Sun Tzu. A Arte da Guerra, clássico com várias traduções em português. 

Mas esta citação surge em inglês, idioma que o admirável filósofo chinês, nascido no século VI antes de Cristo, não dominava. Desde logo porque a língua imortalizada por Shakespeare, Byron e Dickens só começou a generalizar-se, no seu figurino actual, cerca de mil anos depois.

Excluindo o chinês original, só faria sentido, portanto, que uma frase destas surgisse no nosso idioma como epígrafe de um romance escrito por um autor português e destinado a leitores portugueses. O inglês, aqui, indicia apenas aculturação bacoca e espúria. Algo digno de um pesca-frases em modo rápido nesse amplo mar da palha que é o Google.

Passei adiante, claro. Sem necessitar de ler mais nada.

A literatura sobrevive a tudo

por Pedro Correia, em 18.06.18

No ano passado, antes de rumar às férias primaveris, comprei um livro de um autor muito recomendado em determinadas selectas - figura com presença regular nos ecrãs televisivos e incensada em solos de violino nas gazetas da praxe. Dispus-me a ler aquilo: era volume grosso, de quatrocentas e tantas páginas.

Deu-me para três horas de viagem de comboio. Chegado ao destino, apeei-me na página 100. E nunca mais retornei ao calhamaço. O romance - é de um livro de ficção que falo - permanece adormecido na prateleira de um armário. Não tenciono despertá-lo.

Lembro-me vagamente do fio do enredo: havia uma mulher fechada em casa, assombrada por fantasmas íntimos. Cem páginas adiante, nada sucedera de relevante, aquilo dava um passo em frente e outro atrás sem nunca sair do mesmo sítio.

O que não invalidou que a obra em causa recebesse hossanas em ritmo cadenciado. Certos autores têm este condão de suscitar coros afinados, sempre em estilo laudatório.

 

http___i.huffpost.com_gen_3357726_images_n-READ-BO

 

Ontem, ao entrar numa das livrarias que frequento com regularidade, deparei com dois romances de estreia, assinados por jovens autores. Uma menina e um rapaz.

Senti curiosidade em ler as frases iniciais.

Escreveu ele: «Se existe algo que eu aprendi é que a vida é estranha.»

Escreveu ela: «Adoro o cheiro dele quando chega perto de mim. Ele ainda não chegou e eu já sei que ele vem.»

 

Não sei o que mais me impressionou nestes parágrafos de abertura.

Talvez o monumento à irrelevância em letra impressa. Ou a vacuidade do estilo. Ou a profusão de pronomes pessoais, por clara influência da sintaxe brasileira hoje dominante nos circuitos digitais. Ou o culto narcísico tão característico destes dias em que o auto-retrato domina todas as modas.

Talvez a impressionante compressão vocabular nesta era em que há quem jure ser capaz de escrever romances no Twitter - algo equivalente a dançar o tango numa cabina telefónica.

Mas não duvido que ambos, com a rede de conhecimentos adequada, serão capazes de se tornarem "autores de sucesso". Talvez mesmo se elevem à condição de "bestas céleres", como dizia o arguto Alexandre O'Neill.

Espreito-lhes os perfis nas badanas: surgem-me como figuras exemplares desta época. Ele tem «45 mil seguidores no Facebook» - anoto as conotações quase litúrgicas do vocábulo seguidores. Ela é «formadora de softskills», expressão cujo significado ignoro mas que me soa a algo importante. Não me admirava que venham a cometer mais romances. Podem até fazê-lo a um ritmo semestral: há quem viva disto e seja sempre anunciado com laudatórias trombetas mediáticas. Como se estivéssemos perante uma Cartuxa de Parma ou uma Guerra e Paz.

 

Africa-Minha[1].jpg

 

Regresso a casa, retomo a leitura de um dos meus livros favoritos: Africa Minha, de Karen Blixen. E de novo me salta à vista aquela suave cadência das frases de abertura que logo nos convidam a viajar no tempo e no espaço. Recuando cem anos, ao Quénia colonial.

«Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. O equador passa 160 quilómetros a norte desta região e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-no mais perto do sol, mas as madrugadas e o fins de tarde eram límpidos e tranquilos e a noites frias. A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável.»

A melhor literatura sobrevive a tudo. Até ao inqualificável abuso das más práticas que se multiplicam invocando em vão o seu sagrado nome.

Outros quatro a ler no metro

por Pedro Correia, em 05.09.17

Entro na carruagem do metro, são quase 19 horas. A habitual multidão do fim da tarde: quase toda a gente - excepto turistas - de cabeça para baixo, mergulhada nos ecrãs dos telefones a que chamamos inteligentes apesar de fazerem de nós estúpidos. Questiono-me quantas destas pessoas alheadas de quem as cerca perdem tempo a ver vídeos de gatinhos ou a ler piadolas alarves ou a aprofundar "todos os pormenores" que jamais quiseram saber sobre celebridades da treta.

Aproveito para abrir o livro que por estes dias me acompanha. São seis estações até ao meu destino: à média habitual, dá para avançar umas dez páginas. Aproveitando todos os momentos disponíveis ao longo de fragmentos do dia, consegui ler 44 livros completos desde o início do ano até ao fim de Agosto. Era uma aposta muito pessoal para 2017: igualar ou superar agora enquanto leitor o ritmo veloz dos meus tempos de adolescente e jovem adulto, quando cheguei a ler 72 no ano em que passei dos 17 aos 18.

 

Guardo na mochila o Equador, de Miguel Sousa Tavares (sim, é deste romance que se trata), quando se anuncia a estação onde vou sair. E reparo então que nos lugares circundantes vão quatro pessoas também a ler. Duas mulheres, dois homens: paridade absoluta.

O que lêem elas? A Rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami (edição Casa das Letras), e Filhos da Fortuna, de Jeffrey Archer (Europa-América).

O que lêem eles? A Game of Thrones, de George RR Martin (um paperback na versão original), e O Islão Político Ontem e Hoje, de John Owen (Bertrand).

 

Não deixo de sorrir: eis quatro parceiros de carruagem totalmente desconhecidos e que talvez nunca volte a ver mas a que me sinto de imediato ligado por um inesperado elo de cumplicidade.

Somos poucos mas não deixamos de remar contra a maré dominante, transformando o transporte de um livro num singelo acto de resistência. Demonstrando aos outros e a nós próprios esta evidência: é possível escapar ao vício dos telemóveis que cada vez mais nos uniformiza no espaço público.

Por mim, continuarei. Até ao fim deste ano e no outro que vier. Sem unicidade, sem uniformes, sem vídeos de gatinhos. Como escreveu o poeta, "só vou por onde / me levam meus próprios passos".

Leituras para 2017

por Pedro Correia, em 14.01.17

2017-01-13 10.02.59.jpg

 

Não deixes tudo ao sabor do acaso. Organiza um plano de leitura. Abdica de parte do tempo diário que dedicas a um sem-fim de futilidades. Não espreites mais vídeos de gatinhos nem repliques graçolas alarves nas “redes sociais”. Imagina 2017, no plano cultural, como uma montanha que ambicionas escalar e não como uma ladeira que vais descer.

Elege elevação como palavra de ordem. E nunca esqueças que a leitura será sempre a tua maior aliada neste caminho.

 

Põe de lado uns quantos livros que pretender ler. Coloca-os num lugar acessível, de modo a que consigas espreitar-lhes as capas a todo o momento. Estarão ali, chamando por ti, manhã após manhã, semana após semana.

Canaliza meia hora, todos os dias, do precioso tempo que gastas com aquilo que não interessa para mergulhares numa primeira leitura. Se ela te prender, a meia hora irá ampliar-se quase sem dares por isso. Mas convence-te que terás de concentrar-te nessa meta. Nada se alcança sem um esforço mínimo.

Não escutes aqueles que escutas há anos nas televisões papagueando as mesmas coisas: antes de abrirem a boca já sabes o que irão dizer. Deixa o telemóvel noutra divisão, mostra-lhe que és tu a mandar nele e não ele a dispor de ti. Não caias na tentação de trocar amizades reais por amizades virtuais.

Pensa num livro como um amigo real, disponível a todos os momentos e capaz de te acompanhar nos melhores percursos – aqueles que te abrem horizontes, aqueles que são capazes de fazer de ti uma pessoa com mais cultura, com maior conhecimento, com melhor capacidade de entender os mistérios da vida e desvendar os enigmas do mundo.

 

Organiza uma lista de leituras. Eu já fiz isso, nos primeiros dias do ano. Tenho estes livros à cabeceira, desafiando-me a todo o momento para ir ao encontro deles: O Agente Secreto, de Joseph Conrad, A Cidade e os Cães, de Mario Vargas Llosa, San Camilo, 1936, de Camilo José Cela, O Tio Goriot, de Honoré de Balzac, Batalha Incerta, de John Steinbeck, Revolta na Bounty, de John Barrow, Desconhecidos, de Anita Brookner, O Mundo de Fora, de Jorge Franco, Sartoris, de William Faulkner, Manhattan Transfer, de John dos Passos.

Diz para ti próprio: vou ler mais em 2017. E põe em prática este objectivo. Verás que se concretiza: basta saberes organizar melhor o calendário. A vida é feita de escolhas: prescinde de parte do tempo desperdiçado em irrelevâncias e chegarás ao fim com a certeza de teres aproveitado bem o ano.

Selecção Nacional - 6

por Inês Pedrosa, em 09.07.16

19760876_AW75w[1].jpg

 

"A cama flutuante eleva-se agora sobre as nuvens, as chaminés, e os telhados encanecidos. A cama dirige-se para o Criador. E é uma auto-estrada fluida, a que liga a Terra, onde Cristina se encontra, ao infinito, onde está o Criador. A cama sobe até às estrelas, e Cristina sente que está quase a atingir o seu destino. Tem tantas perguntas, nem sabe por onde começar. Quando encontrar Deus, promete, tentará não desatar logo em invectivas, a insultá-lo violentamente, que é o que lhe apetece. É o que lhe apetece, mas controla-se. Será esperta, melíflua, cínica mesmo. Irá com calma. Oferecer-Lhe-á os seus favores, se for caso disso, para melhor O enganar. O coração de Cristina devia estar a bater com força, à medida que se aproxima do ente supremo, mas o que acontece é precisamente o contrário, vai ficando cada vez mais calma, serena, senhora de si própria. " 

Rui Zink, O Suplente, 2000, 344 pp, p. 86. 

Tags:

Selecção Nacional - 5

por Inês Pedrosa, em 07.07.16

19757841_atBYT[1].jpg

 

"A chuva ia e vinha como uma cortina que ora se fecha ora se esgarça, e ele acrescentou, com o candeeiro levantado e os olhos cravados nos dela — «Nunca te dei nada». E ela continuava completamente surpreendida, pois sabia que não era assim, e quis mostrar como não era assim, como estava rodeada de objectos e seres deixados por ele, imagens, ideias e fundamentos, tecidos e desenhos, os suficientes e adequados, provenientes dele, e se tinha desejado aquele encontro, era só para lhe explicar como vivia com ele, na ausência dele, por tudo isso que possuía. Queria dizer-lhe que não lhe devia nada, pelo contrário, que tudo estava certo como uma conta de multiplicar bem contada, que até ao fim da lógica e dos séculos sempre resiste à mesma prova real. Mas nessa noite era impossível explicar, pois talvez ela não tivesse as palavras, ou tivesse mas não as soubesse unir, ou pelo menos assim acontecia, naquele momento de surpresa em que ele a visitava." 

Lídia Jorge, O Vale da Paixão, 1998, p. 16. 

 

Tags:

Selecção Nacional - 4

por Inês Pedrosa, em 06.07.16

19755071_sbIrm[1].jpg

 

"Não amo a desgraça nem o excesso de graça, mas posso contá-los. Era um salão com lustres e de gente com duzentos milhões, pelo menos, de renda anual em angolares e francos suíços. O meu coração não é duro, porque nesse tempo eu não faria contas dessas. Ao princípio fascinaram-me as relações exemplares. Depois apercebi-me que essa raridade era uma ofensa, como uma desmesurada conta na Suíça e, felizmente, muito mais rara. Os amores únicos e a sua crónica devem ser deixados a escritores menores, os agiotas da ilusão. Ou pervertores de consciências. Ah, se o amor é fulminante e arbitrário, porque não preferir o poder ou a sua prima triste - o conhecimento?" ( pp. 92-93) 

Maria Velho da Costa, Missa in Albis, 1988, 465 pp.

Tags:

Selecção Nacional -3

por Inês Pedrosa, em 04.07.16

19750344_j7jkp[1].jpg

 

"Há quem me considere perigosa e também quem me diga visionária por querer salvar a Pátria portuguesa, mas há igualmente quem se ria nas minhas costas, querendo colar-me a imagem daquela a quem não se pode dar crédito, devendo por isso ser afastada.

As sombras adensam-se em torno da minha casa da Rua da Boa Morte. Assustada, vejo-me a esbracejar em vão, sem poder deixar de lutar por aquilo em que acredito, tentando encontrar o caminho mais hábil para combater o despotismo que sempre sufocou as nações.

Só a poesia me dá algum alento, pois mesmo com as minhas amigas e meu irmão brigo, desconcertando-me comigo própria. E apesar de muitos serem os motivos desencorajadores, todos os dias persisto: saio de casa cedo e fico esquecida, esperando inutilmente nas antecâmaras dos ministérios, sentindo-me transparente aos olhos de quem se recusa a receber-me.

Sabendo-me considerada uma ameaça.

Afinal, em nada do que pretendo se acoita o perigo."

Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, 2011, p. 957.

Tags:

Selecção Nacional - 2

por Inês Pedrosa, em 03.07.16

19746141_rb2Fi[1].jpg

"Maria suspeitou que ele se exprimia em verso ou como tal. Com efeito falava sem a olhar mas rindo-se para não dar importância ao que dizia e que apenas lhe saía da boca porque o tinha escrito dentro dele. «Estás aqui comigo à sombra do sol e tenho pena de ser só isto», disse a certa altura. E dói-me um braço, e sei que sou o pior aspecto do que sou.»

Maria: «Não é nada pior. Eu até tenho os seus livros todos.»

O poeta Ruy Belo se a ouviu não se mostrou entusiasmado. Mergulhou na caneca de cerveja e ficou por lá a pensar. Ao cabo de alguns instantes levantou a boca cheia de espuma:

«Acabo de inventar um advérbio: helenamente.» Acenou para o copo: «É isso. A maneira mais triste de estar contente.»

Voltou-se para a Maria: Helenamente, a maneira mais triste de estar contente não tinha nada a ver com estóicos nem com filosofias gregas, a boa menina que não pensasse. Aquilo vinha do nome duma mulher que só ele sabia, e queria dizer o mar, a terra, o fumo e a pedra simultaneamente. Helenamente, simultaneamente.“

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, 1987, pp 425-426.

Tags:

Selecção Nacional -1

por Inês Pedrosa, em 02.07.16

19744873_786rF[1].jpg

 

"Só é estável o que nos parece perecível. Busco, volto, abandono e chamo de novo. É isto amor. Trago no meu seio irmãos e horas, luzes, palavras, mitos; o caldeiro cheio de corações humanos onde cozem as suas ervas as feiticeiras do tempo; a roça e a espada, a flor e a poeira. Isto é amor. Quem pode obstar a esta torrente, quem vem, com pé leviano e peca sombra, interceptar o sentido dalguma coisa que nasce no seio do seu próprio sentido? Vou, volto, danço de roda das trípodes e das fogueiras, devasso os corações lívidos dos vivos e o seu frágil comércio sentimental. E percebo que tudo o que foi criado muda, que a alma corre como o vento em busca da sua guarida que é por momentos alguém, depois um projecto, uma dor do lado esquerdo ou o jornal da manhã, o dinheiro, a fama ou o desdentado riso dum mendigo. Que são romances? Histórias fingidas, presenças estudadas, um coro de actividades morais, a burocracia da personalidade. Não é tempo talvez de tais jogos mais ou menos argutos e meditabundos. Cada voz reclama a sua parte de luz, não há heróis, já que tão bem sabemos que o convívio com eles se torna funesto e nos absorve. Cada voz está só e é única, e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa."

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, 1957, pp 38-39.

Ler e não ler

por Pedro Correia, em 02.07.16

CAF[1].jpg

 

Não sei se convosco acontece o mesmo. Comigo há um padrão imutável: em dois meses, Dezembro e Junho, leio tanto como nos restantes. Ou perto disso. É assim de há muito tempo para cá. E ainda não consegui arranjar uma explicação satisfatória. Mas acontece ano após ano.

Será que os dias de maior exposição solar convidam à leitura? Mas, se assim for, essa regra não deve prevalecer também para Julho?

Será que o aconchego natalício favorece a companhia de um bom livro? Mas Janeiro e Fevereiro, meses mais frios, não deveriam impor ainda maior retraimento doméstico?

A verdade é que tudo se repetiu, em obediência a uma regra insólita, neste Junho agora terminado. Pego no caderno onde vou anotando as minhas leituras e verifico que li nove livros completos - sem saltar páginas, sem interrupções, do princípio ao fim. À média de um título diferente de três em três dias, como sucedia nos meus anos de adolescência em que o tempo parecia durar infinitamente mais. Mas em Maio - lá está - tinha sido bem diferente. Aí cada livro demorou-me dez dias: só consegui ler três. Em Abril, outros três.

De todas essas leituras irei dando nota aqui. Adianto que em Junho foram cinco romances, um ensaio, uma memória, uma colectânea de entrevistas e uma peça teatral. Quatro destas obras mereceram-me cinco estrelas, confirmando que 2016 está a ser ano de boa colheita para o leitor voraz que continuo a ser. E sempre sorrio ao recordar o professor de Direito Constitucional quando nos dizia no anfiteatro da faculdade: "Espero que os senhores já tenham lido muito antes de chegar à Universidade. Porque, se não leram até agora, também não lerão. Eu li o essencial até aos 18 anos."

Eu tinha 18 anos à época e nunca mais esqueci a solene advertência do professor Jorge Miranda (que por estes dias costumo encontrar à entrada ou à saída de salas de cinema). Acreditei nele e preparei-me para viver o resto dos meus dias mergulhado numa irremediável e desprezível ignorância.

Sei hoje que quase nunca devemos interpretar uma frase pelo seu inteiro valor facial. Esta é uma das lições que aprendi tanto por experiência própria como enquanto leitor atento. Já nem sei por que ordem. Mas também não interessa. Como assinalou Marguerite Yourcenar, num dos romances da minha vida, "a palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana".

O fascínio da literatura

por Pedro Correia, em 21.05.16

Leggere-per-curare-lanima[1].jpg

 

Até que ponto uma obra literária pode alterar um percurso humano? Não falta quem menorize o tema, mas eu incluo-me entre os que são capazes de acreditar que um livro pode mudar uma vida - ou até as vidas de milhões de pessoas. Acredito que alguém queira voar após ler Vol de Nuit, de Saint-Exupéry. Ou navegar depois de ler Lord Jim, de Conrad. Ou viajar a Ferrara só por ter lido O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani. Ou conhecer Pamplona à boleia de Hemingway - e permanecer em Navarra para sempre.

São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão - dizem - nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da existência. Inácio de Loyola abandonou a carreira das armas ao ler uma biografia de Cristo. Marx, para o bem e para o mal, alterou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também - ao ponto de ter alucinado um certo cabo austríaco que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon marcaram tantos de tal forma que até personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais célebres do que os autores, gerando romagens a Baker Street em Londres e ao Boulevard Richard-Lenoir em Paris. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia...
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto - é sobretudo isto - que faz o fascínio da literatura.

Ler (sobre o massacre em Paris)

por Pedro Correia, em 16.11.15

Paris sous l' attaque. Do João Pedro Pimenta, n' A Ágora.

La Palice. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

La nausée. De António Araújo, no Malomil.

A guerra explicada às criancinhas. De Vítor Cunha, no Blasfémias.

Paris. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Medo. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Surrealismo... De Rita Carreira, n' A Destreza das Dúvidas.

Popper e Cristo em Paris. De Pedro Norton, no Escrever é Triste.

Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam. Da Daniela Major, no Aventar.

Carry on. Do Luís M. Jorge, na Vida Breve.

um bilhete de avião chamado livro

por Patrícia Reis, em 20.10.15

12087679_10207913220139099_5910294062074534162_o.j

O meu tio-avô, homem de múltiplos talentos, deu-me os livros. Disse-me que podia viajar e conhecer o mundo sem sair de casa, a única ferramenta necessária não seria um bilhete de avião, mas um livro. Desde então ando com livros atrás, creio mesmo que há momentos na minha vida em que existem mais livros dentro do meu carro do que em muitas livrarias. Podia aborrecer-me e querer navegar nas redes sociais, prefiro um livro. Posso ir à Rússia, ao espaço, à terra do nunca e não tenho de sair do sítio, não preciso de fazer as malas. Acresce que ler é das poucas situações que, socialmente, nos protege. As pessoas tendem a não incomodar quem está a ler, têm um certo pudor. Fica-lhes bem e eu agradeço. Há alturas em que se decide seguir a máxima do filho, da árvore, do livro e quando se tenta escrever todos os outros livros se alinham na nossa cabeça, como um exército, e dizem: estamos aqui, estás a escrever, mas estamos aqui. Há uma esquizofrenia pura na escrita, digo-vos. Nada de gavetas padronizadas, o rótulo "normal" desfaz-se. Seja como for, ninguém é escritor sem ser leitor, portanto deixo o exército à porta e vou para dentro. 

Ler

por Pedro Correia, em 13.02.15

Eles já estão aí. Do Gabriel Silva, no Blasfémias.

A entusiástica estupidez suicida da UE governada pelo medo. Do Miguel Serras Pereira, no Vias de Facto.

Comprimidos para a memória. Do Filipe Nunes Vicente, no Nada os Dispõe à Acção.

Destruição criativa. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Olho. Da Ana Cássia Rebelo, na Ana de Amsterdam.

De que falamos quando falamos de Birdman? De Carlos Natálio, no Ordet.

Bénard: "There was never a man like my Johnny". Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

Tags:


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D