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Delito de Opinião

Leituras

Pedro Correia, 18.05.24

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«O homem é magnífico nos seus extremos - na arte, na estupidez, no amor, no ódio, no egoísmo e até no sacrifício. Mas do que o mundo mais precisa é de uma bondade mediana e constante.»

Erich Maria Remarque, Desenraizados (1939), p. 374

Ed. Publicações Europa-América, 1960. Colecção Século XX, n.º 34. Tradução de Sacuntala de Miranda

Leituras

Pedro Correia, 12.05.24

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«É tão estranho descobrirmos e acreditarmos que somos amados, quando sabemos que ninguém há digno de amor, a não ser um pai ou um deus.»

Graham Greene, O Fim da Aventura (1951), p. 136

Ed. Estúdios Cor, 1965 (3.ª ed). Tradução de Jorge de Sena

Leituras

Paulo Sousa, 29.04.24

“Era a terra dos brandos costumes, a merda daquela terra e daquela gente de Lisboa, famílias que se conheciam, que tinham sempre um primo na oposição, outro na situação, um na esquerda, outro na direita. Era o Portugal d’Os Maias e d’A Capital, o Portugal queirosiano, dos «tipos muito meus amigos», dos Dâmasos e dos Acácios, daquela amálgama ou máfia que ficava sempre à superfície, mesmo no esgoto. O seu era mais o Portugal profundo, o Portugal rústico de carabina e navalha do Camilo.”

Jaime Nogueira Pinto, Os passageiros da sombra.

 

Ao contrário do que possa parecer, isto foi escrito antes da recente conversa de Marcelo Rebelo de Sousa com os jornalistas estrangeiros.

Leituras

Pedro Correia, 27.04.24

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«Não foi senão no começo de 1949 que as Nações Unidas conseguiram que o Egipto, o Líbano, a Jordânia e a Síria assinassem um armistício com Israel. Estes acordos, que consagravam o termo das hostilidades, não acabaram com o estado de guerra. Os estados árabes proclamaram, com persistência e determinação, a vontade de suprimir um país que se recusavam a aceitar e a reconhecer. No entanto, o conflito que os israelitas denominaram a Guerra da Independência terminou deste modo. A jovem nação tinha pago caro a sua sobrevivência. Cerca de seis mil israelitas tinham morrido durante os combates. Isto representava, proporcionalmente, mais perdas do que a França tinha sofrido durante a Segunda Guerra Mundial.»

Dominique Lapierre e Larry Collins, Oh Jerusalém (1971), p. 575

Ed. Bertrand, 1992 (4.ª ed). Tradução de José Luís Luna

Leituras

Pedro Correia, 26.04.24

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«A república tentou domesticar o movimento operário no quadro da democracia burguesa e travestiu-se na Carbonária para dar "caça ao sindicalista", tendo criado um ambiente de fortíssima repressão junto das camadas onde criara as maiores expectativas. O regime acabou por envelhecer rapidamente, defraudando irreversivelmente as expectativas dos sindicatos.»

Adelino Cunha, Para Que Serve o PCP?, p. 46

Ed. Desassossego, 2023

Leituras

Pedro Correia, 21.04.24

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«O destino não se deixa agarrar.»

Vitorino Nemésio, A Casa Fechada (1937), p. 418

Ed. Imprensa Nacional/Companhia das Ilhas, 2021. Colecção Obra Completa de Vitorino Nemésio, Ficção II

Leituras

Pedro Correia, 14.04.24

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«Nas terras pequenas sobra o tempo, talvez porque se poupa muito nas distâncias, e ninguém pensa em combinar encontros por fracções de horas. Diz-se: lá vou das 10 às 11, ou apareça de tarde, ou lá estarei à boca da noite, etc, e nunca: às dez e um quarto, ao meio-dia e meia hora, etc.»

Manuel Teixeira-Gomes, Maria Adelaide, p. 158

Ed. Seara Nova, 1938

Leituras

Pedro Correia, 13.04.24

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«Fazemos uma distinção clara entre vida pública e privada; e as coisas importantes, as coisas que nos tornam felizes ou infelizes são privadas. O amor é privado. A propriedade é privada. As partes do corpo são privadas.»

David Lodge, A Troca (1975), p. 199

Ed. ASA, 1999 (4.ª ed). Tradução de Helena Cardoso. Colecção Romance,  n.º 8

Leituras

Pedro Correia, 09.04.24

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«Quando a História começa a mexer-se debaixo de nós, o melhor é ver como havemos de montá-la, senão somos cuspidos.»

Gore Vidal, Império (1987), p. 88

Ed. Presença/Público, 2002. Tradução de Paula Vitória e Manuela Madureira. Colecção Mil Folhas,  n.º  35

O meu livro Torna-Viagem

jpt, 01.04.24

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Torna-Viagem, de José Pimentel Teixeira (ligação com acesso ao livro no "sítio" de aquisição)
 

Escrevo em blogs há 20 anos - antes no ma-schamba e no Olivesaria, este um colectivo dedicado ao historial do meu bairro Olivais, depois também no sportinguista És a Nossa Fé. E agora no meu Nenhures e no colectivo Delito de Opinião. A um passo dos 60 anos, decidi publicar umas "memórias". "Presunção e água benta, cada um toma a que quer", e eu tomei a da ideia de talvez interessar a outros o que escrevi sobre o que vivi.

Retoquei uma centena de crónicas (de viagens e paragens), dois terços delas escritas em Moçambique, algumas sobre outros países onde trabalhei, o restante em Portugal no meu retorno após duas décadas de ausência. É uma espécie de "prova de vida"... Ao volume chamei-lhe "Torna-Viagem" e (auto)publico-o agora através da plataforma editorial Bookmundo. 

A impressão do livro é feita apenas por encomenda, tal como a sua venda. A quem tenha interesse bastar-lhe-á "clicar" nesta ligação directa ao livro, colocada no nome, e encomendar o Torna-Viagem

Os que quiserem "folhear" o livro poderão fazê-lo na minha conta na rede Academia.edu:  aqui, onde deixei capa, índice e os três primeiros textos.

Depois, como será óbvio, seguir-se-á o envio postal do(s) exemplar(es) comprado(s), processo que demorará alguns, poucos, dias. Ou seja, o livro não estará disponível nas livrarias físicas. Nem haverá futuros monos, sobras destinadas à célebre guilhotina de livros.

Finalmente, aqui replico a sinopse que apus no livro: Chegando agora aos sessenta anos deixo neste "Torna-Viagem" algo como se uma autobiografia. Faço-o através de uma centena de crónicas escritas durante as duas últimas décadas. Sessenta dessas agreguei-as na primeira parte do livro, à qual chamei "A Oeste do Canal", pois escritas sobre Moçambique, nelas ecoando viagens por aquele país afora, alguns pequenos episódios — trechos do real — que senti denotativos das transformações ali acontecidas, e memórias de personalidades que conheci durante os meus dezoito anos de permanência. Em algumas outras recordo momentos vividos em países onde trabalhei. E as restantes três dezenas formam a segunda parte do livro, na qual deixo excertos deste "Ocaso Boreal", a minha actual aventura de retornado pós-colonial defronte à "pátria amada".

Leituras

Pedro Correia, 30.03.24

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«O riso reflecte a disposição e o carácter, como o riso infantil, enfatuado, irónico, corajoso, libertador, desesperado, malicioso, coquete.»

Heinrich Böll, Retrato de Grupo com Senhora (1971), p. 97

Ed. Cavalo de Ferro, 2023. Tradução de Maria Adélia Silva Melo

Leituras

Pedro Correia, 24.03.24

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«Eu, eu, eu, eu... quatro repetições chegam para tornar esta palavra absurda.»

Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor (1978), p. 189

Ed. Marcador, 2022 (2.ª ed). Tradução de Afonso Cruz e Mélanie Wolfram

Rumor Civil

jpt, 19.03.24

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Cada vez menos leio ficção ou poesia. E vou lendo estas colectâneas do passado, crónicas ou (é este o caso) textos de opinião - a quem o novo cânone chama também "crónicas". Descubro agora nas estantes este "Rumor Civil", uma colecção de textos de Nuno Brederode dos Santos (1944-2017), publicada pela Relógio d'Água em 1990. Com ele cheguei a privar, escasso convívio intermediado por amigo comum em já enubladas noites no "Procópio", onde ele era figura predominante. Eu ainda jovem, cabelo azeviche, talvez exageradamente radical pois pouco atreito àquele que já então considerava um apparatichk das letras, ele já bastante velho - mais novo do que eu sou agora... Brederode era um fazedor de opiniões, colunista afamado do "Expresso" quando isso era relevante, fervororo paladino socialista, e disso tinha o perfil e o teclado. Escrevia bem e era caústico, alinhado mas caústico, justiça lhe seja feita. E culto, nota-se na leveza - por vezes irónica, outras sarcástica, mas também sensível - com que deixava transparecer o percurso de leituras havidas.

Esta colecção abarca de 1985 a 1990, o primeiro quinquénio do "cavaquismo", e é nisso muito interessante, fazendo recordar o acinte de então. E se alguns textos envelheceram por "de ocasião" em demasia, outros são relevantes por demonstrarem o ambiente cultural (e de cultura política) daquela época, e que tanto persistiu e persiste. Por exemplo, foi de Brederode o abjecto elitismo do "socialismo" maçónico - tão continuado pelos adeptos PS até ao final do mandato de presidencial de Cavaco Silva, e que continuam a repetir em formato avatar, sem pudor e sem abdicarem da caraça "esquerda" - "foi fácil tirar o homem de boliqueime, mas agora não conseguem tirar boliqueime do homem" (121). E é até engraçado ver como em plenos finais dos 80s o reaccionarismo da "esquerda" encartada era tão impante que lhe aplaudiam um texto aviltando a CEE por regulamentar a criação avícola - hoje o homem seria lapidado como CHEGA pelo PAN, mas será conveniente recordar que aquela década foi a da disseminação europeia da sensibilidade política ecológica... mas que no "Portugal da CEE", à Lisboa que abominava "boliqueime" e lia o "Expresso", isso ainda não tinha chegado.

Mas não quero exagerar os remoques diante do livro. Pois ele é precioso não só no que denota como também no que explicita e recorda. Como quando Brederode aponta os que então queriam controlar o acesso às fotocopiadoras, por serem uma tecnologia estratégica... Parece-nos ridículo, agora, essas preocupações em finais dos anos 80s, dos descendentes dos tempos da "outra senhora", os antepassados do socialista José Magalhães, coisas de que nos esquecemos...

Mas mais interessante será recordar, em particular aos agora adeptos do PS, o que dizia em 1987 o socialista Brederode dos Santos no "Expresso". Tão interessante que deixo a longa citação: "Aquilo que, de 1985 [eleição de Cavaco Silva] para cá, mudou foi o modelo de relacionamento entre o poder político e o poder económico - que passou do piropo avulso e do apalpão furtivo a algo de qualitativamente diverso que nos ameaça com a mancebia incestuosa. (...)

Não foi a corrupção que nasceu: já havia. Não foi o compadrio incidental deste alto funcionário ou daquele político - já havia também. Foi a descoberta, por alguns dos grupos económicos que ganharam entretanto peso e dimensão, da lógica e da valia instrumental dos lobbies: é possível antecipar, inflectir, protelar ou impedir as decisões políticas por forma a melhor corresponder aos nossos interesses. Mais vale uma boa cumplicidade política do que um bom investimento. O jogo é legislativo, administrativo, contabilístico - mas nunca económico, que é do interesse geral. Por isso o lobby não é desenvolvimentista, mas apenas corruptor. Por isso o lobby não visa criar riqueza, mas apenas distribuir melhor em seu proveito aquela que já existe.  O lobby parasita o Estado e o património público, tal como o fazia o empresário afilhado da ditadura..." (114-115).

Para Brederode dos Santos a "esquerda" - entenda-se, principalmente o PS - era virtuosa e a "direita" vil, presa ao "populismo" de Cavaco. Que o PS estivesse incrustado na administração das participações (económicas) do Estado e, então, na governação do "boom" macaense não surge nesta colecção de textos, assim parecendo que irrelevante para o autor. Alguns anos depois deste textos, lá para 1995, deixei de comprar o "Espesso" como então se dizia, não mais acompanhei os ríspidos (vénia) textos do autor. E depois emigrei, deixei de seguir o seu percurso. Não sei assim se alguma vez ele veio a abandonar esta dicotomia, virtude vs vilania, se conseguiu "tirar boliqueime de dentro dele próprio", por assim dizer.

Mas sei uma coisa, os seus camaradas de partido e os seus sucessores na produção de opinião não o leram. Ou, vá lá, não acreditam nele.

Leituras

Pedro Correia, 16.03.24

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«Embora seja possível pensar tais pensamentos, do nada para o nada, a coisa não se resume a isso, há muito mais do que isso, mas que tudo o mais é esse? o céu azul, as árvores onde as folhas crescem? o verbo que era no princípio, como diz a Sagrada Escritura, que permite a uma pessoa compreender coisas profundas e coisas superficiais, que tudo o mais é esse? »

Jon Fosse, Manhã e Noite (2000), p. 14

Ed. Cavalo de Ferro, 2022 (2.ª ed). Tradução de Manuel Alberto Vieira