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Leituras

por Pedro Correia, em 20.01.19

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«As estrelas são lindas, mas não podem tomar parte activa em coisa nenhuma; estão condenadas a olhar eternamente o mundo, sem nada fazer.»

J. M. Barrie, Peter Pan (1911)p. 32

Ed. Expresso/Visão, 2017

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Da resistência ao esquecimento

por Pedro Correia, em 17.01.19

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Todos os partidos têm as suas histórias inconfessáveis. Em Portugal, nenhum colecciona tantas como o PCP – desde logo pela sua antiguidade. Fundado em 1921 e alvo de diversas cisões, condenado quase à irrelevância em períodos de maior pujança do salazarismo, sujeito a sucessivos desvios de rota para se adaptar a circunstâncias tão diversas como o frentismo das esquerdas na segunda metade da década de 30, a política de não-beligerância adoptada de 1939 a 1941 pela URSS face à Alemanha nazi ou o degelo nas relações internacionais imposto pelos sucessores de Estaline no Kremlin, o Partido Comunista Português só ganhou robustez e consistência sob a liderança de Álvaro Cunhal já no exílio soviético, a partir de 1961, um ano após a sua espectacular fuga do presídio de Peniche.

Acossado pelos mecanismos repressores da ditadura, infiltrado repetidas vezes pela polícia política, o PCP mergulhado na clandestinidade entre 1926 e 1974 desenvolveu severas acções de escrutínio interno que conduziram à marginalização de militantes que tiveram comportamento corajoso e até heróico nos calabouços do regime. A «unidade inquebrantável» exigida por Cunhal determinou o afastamento de dirigentes por delito de opinião, como Francisco Paula Oliveira, Cândida Ventura, Cansado Gonçalves e Vasco de Carvalho. Mas nenhum foi tão causticado como Júlio Fogaça, que desempenhou um papel fundamental em dois períodos: o da reorganização partidária de 1940-1941, processo que liderou após quatro anos de detenção em duríssimas condições no campo prisional do Tarrafal, em Cabo Verde; e o da chamada «política de transição pacífica» - entre 1956 e 1959, com Cunhal detido em Peniche – que previa a convergência táctica com “forças burguesas” opostas à ditadura e até com sectores dissidentes do salazarismo, como sucedeu em 1958, na candidatura presidencial de Humberto Delgado.

 

Aristocrata vermelho

 

Fogaça nascera em 1907 no seio de uma abastada família de proprietários rurais do Cadaval, com raízes aristocráticas. Seduzido desde muito jovem pelo ideal comunista, viria a dedicar quase toda a vida adulta ao partido, a que aderiu no início da década de 30, e a sofrer longos anos de detenção (1936-1940; 1942-1945; 1960-1970), incluindo um segundo encarceramento no Tarrafal. Sujeito a torturas, jamais denunciou ninguém. Mas isto não o impediu de ser vítima simultânea da repressão salazarista e da fúria punitiva do partido.

Adelino Cunha, jornalista e historiador, traça este chocante paralelo numa detalhada biografia de Fogaça, resgatando do esquecimento uma figura apagada da lista oficiosa dos resistentes à ditadura.

«Júlio Fogaça foi condenado nos tribunais políticos do Estado Novo em Maio de 1961 pelo “exercício de actividades subversivas” e suspenso do PCP num tempo político paralelo, para que fossem “esclarecidos aspectos da conduta”. A resolução do Comité Central foi adoptada com carácter provisório, sem que seja possível determinar a data exacta da expulsão definitiva», assinala o autor, que em obras anteriores retratou Cavaco Silva, Álvaro Cunhal e António Guterres.

A dupla sanção a Fogaça não se deveu apenas a pretextos políticos, por colidir com a linha do “levantamento operário e camponês contra Salazar” advogada por Cunhal: decorreu também de uma censura moral, nunca oficialmente assumida pelo PCP. O ex-dirigente comunista, já a cumprir o último e mais longo período de prisão, viria a ser alvo de outra condenação, em 1962, como «pederasta passivo e habitual na prática de vícios contra a natureza», conforme referia a sentença emitida pelo Tribunal de Execução de Penas. «Se tivesse contado, contaria 211 meses de encarceramento, qualquer coisa como seis mil e tal dias. Se valesse a pena contar os minutos, - são os minutos que os presos contam -, Júlio Fogaça esteve preso dez milhões de minutos.» (p. 294)

Quando saiu enfim em liberdade, quatro anos antes da Revolução dos Cravos, estava alquebrado pela velhice prematura e pela exclusão política e social. Perdera o PCP, sua família de substituição. Restavam-lhe a mãe muito idosa, que faleceria pouco depois, e umas terras quase ao abandono que já não tinha possibilidade de gerir após quatro décadas longe do Cadaval. Ainda festejou a queda da ditadura e manteve-se próximo da ideologia que perfilhou, mas nunca o partido lhe reabriu a porta. Morreu em 1980. Hoje os jovens militantes comunistas, que encaram a homossexualidade sem tabus, não fazem a menor ideia de quem ele foi.

Júlio de Melo Fogaça visa também reparar esta injustiça. Suscitando questões e relatando factos, com base em testemunhos de quem os viveu (Carlos Brito, Carlos Costa, Domingos Abrantes e Edmundo Pedro, por exemplo), ampla consulta à documentação da época (incluindo os autos judiciais) e inéditas cartas pertencentes ao espólio epistolar e literário do biografado, depositado na Academia de Ciências de Lisboa. Ganharia a obra com um índice onomástico e uma súmula final dos dados biográficos daquele que foi, de facto, o mais poderoso dirigente do PCP na década de 50. Mas só a minuciosa descrição do infernal quotidiano a que eram sujeitos os prisioneiros do Tarrafal (pp.89-125) justificaria a leitura deste livro. Talvez Adelino Cunha venha a desenvolver o tema em futura obra neste seu justo combate para reavivar a memória colectiva.

 

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Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego, 2018). 317 páginas.
Classificação: ****
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

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Leituras

por Pedro Correia, em 13.01.19

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«É interessante ver como as maiorias se fazem e desfazem. Só as minorias são realmente estáveis

António José Saraiva, Maio e a Crise da Civilização Burguesap. 114

Publicações Europa-América, Lisboa, 1970. Colecção Obras de António José Saraiva, n.º 3

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Leituras

por Pedro Correia, em 06.01.19

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«Em toda a sua estranha aventura desenrolada no globo que gira entre as frias estrelas apressadamente para a eternidade, o homem não descobrira ainda um sintetismo, um ersatz, que substituísse a fé.»

Alan Burgess, A Pousada da Sexta Felicidade (1957)p. 205

Ed. Círculo de Leitores, Lisboa, 1974. Tradução de A. Costa Macedo

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Leituras

por Pedro Correia, em 05.01.19

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«- [As palavras] têm um feitio, algumas delas... Especialmente os verbos, são os mais orgulhosos... Com os adjectivos pode fazer-se o que se quer, mas não com os verbos...»

Lewis Carroll, Alice do Outro Lado do Espelho (1871)p. 89

Ed. Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988. Tradução de Maria Filomena Duarte. Colecção Biblioteca Juvenil Dom Quixote, n.º 3

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Leituras

por Pedro Correia, em 30.12.18

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«A vida tem um único significado: há que saboreá-la enquanto dura e tirar dela o maior partido, já que a morte mora em nós desde que nascemos.»

B. Traven, O Visitante da Noite & Outros Contosp. 49

Ed. Antígona, Lisboa, 2014. Tradução de Manuela Gomes

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Leituras

por Pedro Correia, em 28.12.18

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«Há quem morra novo e quem nasça velho.»

John Updike, Corre, Coelho (1960)p. 160

Ed. Civilização, Porto, 2006. Tradução de Carmo Romão

 

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Leituras

por Pedro Correia, em 22.12.18

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«Enquanto vivemos uma felicidade, sentimo-lo dificilmente. Só quando ela passou é que olhamos para trás e sentimos subitamente - por vezes com surpresa - como éramos felizes.»

Nikos Kazantzaki, Zorba, o Grego (1946)p. 68

Ed. Clube Português do Livro e do Disco/Ulisseia, Lisboa, s/d. Tradução de Fernando Soares. Colecção Romances do Nosso Tempo

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Leituras

por Pedro Correia, em 15.12.18

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«Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é preciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.»

Vergílio Ferreira, Contos (1976)p. 227

Ed. Quetzal, Lisboa, 2018. Colecção Obra Completa de Vergílio Ferreira

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Leituras

por Pedro Correia, em 01.12.18

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«A suposta grande angústia do nosso século é a falta de tempo; a consciência que dela temos e não um desinteressado amor pela ciência, e certamente que não a sabedoria, é a razão por que dedicamos uma tão grande porção do nosso engenho e dos rendimentos das nossas sociedades à descoberta de maneiras mais rápidas de fazer coisas - como se o objectivo da espécie humana fosse aproximar-se não de uma perfeita humanidade mas de um perfeito relâmpago.»

John Fowles, A Amante do Tenente Francês (1969)p. 19

Ed. Presença, Lisboa, 1983. Tradução de Paula Vitória Silva. Colecção Novos Horizontes, n.º 1

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Tudo em família

por Pedro Correia, em 23.11.18

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Durante grande parte do século XIX, Portugal e Brasil viveram já como países separados em termos formais mas ainda unidos pela mesma dinastia reinante e obedecendo a um texto constitucional quase idêntico.

Estes dois factores conjugados – fenómeno raro, para não dizer inédito – produziram, cá e lá, um dos períodos de maior estabilidade política, progresso material e prosperidade económica de que há memória em ambas as margens do vasto Atlântico.

Dois Países, um Sistema – obra colectiva, produzida por historiadores portugueses e brasileiros – é uma fascinante digressão por essas décadas irrepetíveis da monarquia constitucional, iniciada na década de 20 do século XIX, com a revolução liberal do Porto, e só terminada em 1910, quando o último Rei português, D. Manuel II, foi deposto pela insurreição republicana.

Rui Ramos, José Murilo de Carvalho, Isabel Corrêa da Silva (os três coordenadores) e restantes especialistas em História contemporânea pretendem traçar aqui «uma história paralela de Portugal e do Brasil depois da independência brasileira», ocorrida em 1822. Objectivo plenamente alcançado neste conjunto de 15 sucintos ensaios em torno dos frutuosos reinados do ciclo imperial brasileiro, sob as coroas de D. Pedro I (1822-1831) e do seu filho D. Pedro II (1831-1889), e a monarquia constitucional que triunfou sobre o miguelismo, vingando em Portugal após o fim da guerra civil, em 1834, também com a marca original do Rei Soldado (Pedro I do Brasil e IV de Portugal) e prolongada durante três quartos de século por cinco dos seus descendentes.

 

Pedro e Maria

 

Pedro de Alcântara, o futuro Pedro II, nasceu em 1825 no paço imperial de São Cristóvão, já no Brasil independente. Era o irmão mais novo de Maria da Glória, nascida no Rio de Janeiro e que aos 15 anos cruzou o oceano para suceder ao pai no posto cimeiro do reino português, coroada como D. Maria II: a família Bragança passou a ocupar dois tronos. Depois de Maria, falecida prematuramente em 1853, viriam D. Pedro V (1853-1861) e D. Luís (1861-1889), sobrinhos do imperador brasileiro. D. Luís morre menos de um mês antes da proclamação da república no Brasil e da chegada do idoso tio a Lisboa, primeira etapa de um exílio que seria definitivo. Por cá, ascendera já ao trono D. Carlos, nosso penúltimo Rei: o pano não tardaria a cair, pondo termo à dinastia fundada no 1.º de Dezembro de 1640 com a restauração da soberania lusitana. Brasil e Portugal conheceriam vias paralelas também nisto.

Conhecemos mal a nossa monarquia parlamentar, esse período histórico que sucedeu ao absolutismo e antecedeu o caos republicano – décadas de bem-sucedida solução política, em que o monarca reinava mas não governava, embora fosse o detentor nominal da função executiva. A sua influência derivava sobretudo do poder moderador, instituído na Constituição do recém-nascido Brasil, datada de 1824, e replicado na nossa Carta Constitucional de 1826. Estes dois textos foram as pedras basilares de um ciclo propício à ilustração e à estabilidade. A brasileira perdurou 65 anos, a portuguesa vigorou durante 68 anos consecutivos, após um interregno ocorrido no sexénio 1838-1842.

Este livro divide-se em sete capítulos: «Do Reino Unido de Portugal e Brasil às monarquias portuguesa e brasileira»; «Monarquia e poder moderador»; «Monarquia e poderes periféricos»; «Monarquia e poder militar»; «Monarquia e religião»; «Monarquia e aristocracia»; «Das monarquias às repúblicas». Destaco os ensaios de Rui Ramos (“Concepções do poder real na monarquia portuguesa”), Isabel Corrêa da Silva (“Monarquia secular e o ‘corpo místico’ do Rei constitucional”) e José Miguel Sardica (“Crise e queda da monarquia liberal portuguesa”). Mas todos são recomendáveis nesta colectânea que pode ser considerada um dos acontecimentos editoriais do ano em Portugal. Pela pertinência do tema, pelo inapelável rigor histórico e pela qualidade da escrita.

 

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Dois Países, Um Sistema A Monarquia Constitucional dos Braganças em Portugal e no Brasil (1822-1910), de Rui Ramos, José Murilo de Carvalho, Isabel Corrêa da Silva e outros (D. Quixote, 2018). 456 páginas.
Classificação: *****
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

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Leituras

por Pedro Correia, em 18.11.18

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«Se todos os casamentos do mundo fossem exclusivamente inspirados por sentimentos românticos, a que não se aliassem motivos de vantagens materiais, há muito já a raça humana teria deixado de existir.»

Lloyd C. Douglas, Sublime Obsessão (1929)p. 106

Ed. Minerva, Lisboa, s/d. Tradução de João Amaral Júnior

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Leituras

por Pedro Correia, em 10.11.18

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«O tempo e a paciência conseguem levar um caracol à América.»

Colm Tóibín, Brooklyn (2009)p. 39

Ed. Bertrand, 2017. Tradução de C. Santos

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Leituras

por Pedro Correia, em 04.11.18

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«No espaço as coisas tocam-se, no tempo afastam-se.»

E. M. Forster, Passagem Para a Índia (1924)p. 166

Ed. Relógio d' Água, 2017. Tradução de Bernadette Pinto Leite. Colecção Ficções

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Lugares nada comuns

por Pedro Correia, em 28.10.18

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Hoje usa-se e abusa-se da palavra “crónica”. Confunde-se com a habitual “coluna” reservada a opinadores com espaço fixo num jornal. Confunde-se até, mais surpreendentemente, com um vulgar artigo onde se debitam palpites ocasionais sobre a espuma dos dias.

Crónica é muito mais que isto. É uma disciplina literária com alojamento provisório num jornal mas que tem existência própria fora dele e longe do contexto temporal em que foi publicada. É um género que confina com o conto e a autobiografia. E que requer uma voz muito própria e um irrepetível registo estilístico, como demonstram grandes escritores brasileiros que foram e são mestres da crónica – de Drummond a Rubem Braga, de Nelson Rodrigues a Luís Fernando Veríssimo.

 

De jornal a livro

 

Pedro Mexia é, entre nós, um destes genuínos cronistas. A prova indesmentível faz-se na passagem de jornal a livro: textos que nos cativam no formato original ganham densidade e adquirem um significado ainda mais amplo quando lidos em conjunto. Mexia tem características inconfundíveis: uma irrepreensível elegância formal, sem concessões aos coloquialismos de turno; uma erudição que jamais se confunde com exibicionismo; um olhar interessado e atento ao “desconcerto do mundo”; e uma evidente vontade de ser lido, o que o faz depurar a prosa, limpando-a das adiposidades que muitos ainda confundem com boa escrita sem perceberem como estão errados.

É um caso raro entre nós, o de um cronista consagrado nas páginas dos jornais (Diário de Notícias, Público, Expresso) mas também com apreciável sucesso em livro – como demonstra este notável Lá Fora, com duas edições em apenas três meses. A obra faz jus ao título, na medida em que está polvilhada de topónimos e referências exteriores ao habitual registo do jornalismo-em-pacote, em que todos parecem esforçar-se por plagiar os restantes.

Mexia segue por vias alternativas, contornando o óbvio, conservando-se a uma profiláctica distância dos lugares-comuns, polvilhando os textos de sucintas notas confessionais – não por acaso, são estas, para mim, as melhores crónicas deste volume. Logo com destaque para a primeira, intitulada “Mais uma Volta”, a propósito de algo tão banal como o desaparecimento da Feira Popular, que lhe faz desfiar um novelo de recordações.

 

Eixo Figueira-Lousã

 

Na mesma linha, destaco outras: “Liberdade 266” (quando o Diário de Notícias morreu, de algum modo, ao abandonar a sua sede histórica na melhor zona de Lisboa, presságio mais que simbólico do fim do jornalismo tal como o conhecemos), o acutilante “O Chiado”, o divertido “Um Cavalo nas Olaias”, o quase pungente “Santo António dos Cavaleiros”.

Destaco, acima de todas, as crónicas que incluiria no eixo Figueira-Lousã – nostálgicas digressões do autor pelas paisagens da infância e adolescência: “Combay”; “O Fim da Linha”; “Os Bonecos Animados”; “A Minha Riviera”. Parcelas de um proto-romance que talvez um dia venha a ser escrito.

«Eu tenho um continente inteiro de felicidade a que raramente volto: a infância» (p. 54), assinala o cronista, quase sussurrando ao ouvido do leitor, numa destas notas confessionais que sugerem mais do que desvendam e têm valor acrescido por serem esparsas. Sempre envoltas num discreto pudor, tão dissonante dos ventos actuais, que fazem escancarar postigos e janelas.

 

De leitor a confidente

 

Mas está certo. Porque a verdadeira crónica – faltava-me anotar isto – implica sempre alguma partilha de intimidade, promovendo o leitor à condição de confidente. É o que sucede em “Londres Chama”, singular visita guiada à capital britânica – outro dos melhores textos deste livro.

«A minha cidade estrangeira favorita é chuvosa, desagradável à noite, e goza-se melhor portas adentro, educada e tranquilamente, com fleuma quase infalível e aquecimento central.» (p. 81)

Pedro Mexia fala de Londres, mas também fala de si. É isto, uma verdadeira crónica. É isto, a boa literatura.

 

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Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China, 2018). 187 páginas.
Classificação: ****
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

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Leituras

por Pedro Correia, em 20.10.18

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«O luar torna o homem mais civilizado no homem mais primitivo.»

Frederick Forsyth, Chacal (1971)p. 265

Ed. Livros do Brasil, 1998. Tradução de Alexandre Costa. Colecção Dois Mundos, n.º 242

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Leituras

por Pedro Correia, em 05.10.18

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«A tristeza anda muito próxima do ódio. (...) Se bebes o veneno de outra pessoa - julgando que podes curá-la se o partilhares - só vais conseguir acumulá-lo dentro de ti

Michael Ondaatje, O Doente Inglês (1992)p. 53

Ed. Público, 2003. Tradução de Ana Luísa Faria. Colecção Mil Folhas, n.º 68

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O exercício da liberdade

por Pedro Correia, em 01.10.18

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O liberalismo não é uma ideologia, não é uma doutrina fechada que suscite aplausos acéfalos ou seguidores incondicionais. Em tempo de trincheiras, potenciadas pelas chamadas redes sociais, um liberal à moda antiga – cultor da tolerância, da moderação, da justa medida, da liberdade apenas condicionada ao império da lei – é menos mobilizador do que um populista incendiário apelando ao encerramento das fronteiras. Mas nem por isso deixa de ter a razão do seu lado.

Disto nos fala Mario Vargas Llosa num livro já transformado num marco editorial deste ano em Espanha, onde foi originalmente publicado. La Llamada de la Tribu [“O Apelo da Tribo”] é a autobiografia intelectual do escritor hispano-peruano, galardoado em 2010 com o Nobel da Literatura, desde a sua inicial sedução pelo marxismo até ao seu presente combate contra as tiranias de todos os matizes. Passando pela ruptura com o Partido Comunista, em que chegou a militar durante um ano, na década de 50, enquanto estudante universitário em Lima.

 

As ideias contam

 

O autor de obras-primas da literatura universal como Conversa na Catedral e A Guerra do Fim do Mundo é daqueles para quem as ideias contam. E não se inibe de confessar que o seu ideário político foi modificado por influência de um conjunto de pensadores, todos afins ao liberalismo clássico: Adam Smith, Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. Rende-lhes homenagem num conjunto de ensaios aqui reunidos sob um fio condutor comum, sem esquecer o contributo de escritores antitotalitários que, como ele, foram mestres da ficção enquanto mantinham intervenção cívica e política: Albert Camus, Arthur Koestler e George Orwell.

«O liberalismo é uma doutrina que não tem respostas para tudo, como pretende o marxismo, e admite no seu seio a divergência e a crítica, a partir de um corpo pequeno mas inequívoco de convicções. Por exemplo, que a liberdade é o valor supremo, sem ser divisível nem fragmentária, que é una e deve manifestar-se em todos os domínios – económico, político, social e cultural – numa sociedade genuinamente democrática.» Palavras do Nobel no prefácio a esta obra de leitura imprescindível (tradução minha, a partir do original em castelhano, aguardando-se para breve a edição portuguesa).

 

Popper e Berlin

 

O autor de Como Peixe na Água presta especial tributo a dois vultos desta galeria de referências máximas do pensamento liberal: Popper (1902-1994), nascido no Império Austro-Húngaro, naturalizado cidadão do Reino Unido, e Berlin (1909-1997), judeu russo nascido na Letónia nos anos crepusculares do império czarista, igualmente convertido à cidadania britânica na idade adulta.

Chegou a conhecer ambos pessoalmente. Elogia o primeiro por «fazer do exercício da liberdade crítica o fundamento do progresso». Destaca o segundo por lhe ter ensinado que «a tolerância e o pluralismo são, mais do que imperativos morais, necessidades práticas para a sobrevivência da espécie humana». De ambos reteve o conceito de justa medida na relação do indivíduo com a sociedade. Sem esquecer, como lhe ensinou Berlin, que a irrestrita liberdade económica, no século XIX, «encheu de crianças as minas de carvão».

Afastado das cartilhas que o empolgaram na juventude, Vargas Llosa insurge-se hoje contra a ascensão – com novo nomes – do velho «espírito tribal, fonte do nacionalismo», que foi, a par do fanatismo religioso, uma das causas dos mais sangrentos morticínios que a História registou. O melhor antídoto contra as tentações totalitárias, a seu ver, está plasmado em obras como A Riqueza das Nações (de Smith), A Rebelião das Massas (de Ortega), O Caminho da Servidão (de Hayek), A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos (de Popper), O Ópio dos Intelectuais (de Aron) Quatro Ensaios Sobre a Liberdade (de Berlin) ou Como Acabam as Democracias (de Revel).

Autores incómodos, impopulares, que ousaram navegar contra a corrente. Mas a reler sempre, até por isso.

 

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La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara, Barcelona, 2018). 313 páginas.
Classificação: *****
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

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Leituras

por Pedro Correia, em 23.09.18

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«O tédio é um bom antídoto para o medo.»

Daphne du MaurierRebeca (1938), p. 9

Círculo de Leitores, Lisboa, 1989. Tradução de Alda Rodrigues

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Leituras

por Pedro Correia, em 08.09.18

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«Pode ser que as fadas existam, pode ser que os duendes existam, mas Deus ajuda aqueles que se ajudam a si próprios

Stephen King, Misery (1987) p. 121

Ed. 11x17, 2017. Tradução de Magda Viana. Colecção Biblioteca Stephen King, n.º 3

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