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Louvor à prosa de Cardoso Pires

por Pedro Correia, em 22.08.19

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Ia lendo penosamente um laureado romance de um dos bonzos das letras pátrias, publicado na década de 80, e a cada página encalhava naquela prosa macilenta, mastigada e conselheiral, parida sem um pingo de emoção, com o intuito deliberado de vergar os basbaques ao "estilo" do autor.

A meio, enjoei - e pus o obeso livro de lado. Para desenjoar, peguei noutro. Com metade do tamanho e o dobro da qualidade: O Hóspede de Job, que já tinha lido há uns trinta anos, em edição da defunta Arcádia.

Não é o melhor romance de José Cardoso Pires, mas tem uma prosa vibrante, que ama o idioma e não trata o leitor com desdém. Reli-o em dois dias e deu-me grande prazer, em contraste com o calhamaço anterior.

 

«No largo de terra batida passeiam dois cavaleiros armados e perguntam com o olhar se é isto Cimadas - este terreiro, este poço.

Nem uma árvore. Tudo apagado, tudo branco; alto silêncio do meio-dia. Os cavaleiros, que trazem farda de cotim e carabina na sela, empinam as montadas ao sol. Fazem-nas rodar, movem-nas como uma arena deserta. Sabem muito bem que há gente na taberna e, a cada porta do largo, uma mulher muda a espiá-los.»

 

Confirmo nesta obra as maiores virtudes de Cardoso Pires enquanto ficcionista: criador de atmosferas envolventes e sugestivas, com notável economia verbal mas sem perder capacidade descritiva, enquanto mantém mão firme nos diálogos, que nunca soam a reprodução postiça.

Isto sim, é a literatura a que me apetece voltar sempre. Seja Verão ou seja Inverno.

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Leituras

por Pedro Correia, em 17.08.19

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«La literatura es también una forma de pensamiento, uns de las principales, y no creio que a eso pueda renunciar el mundo, sobre todo porque ese pensar literario - en forma de narraciones o historias o de versos o de diálogos y monólogos - nos viene acompañando desde hace demasiados siglos. Hay cosas que sabemos sólo porque la literatura nos las ha mostrado, o nos ha permitido tomar conciencia de ellas y reconocerlas.»

Javier Marías, Literatura y Fantasma (2007)p. 377

Ed. Penguin Random House, Barcelona, 2016

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Leituras

por Pedro Correia, em 03.08.19

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«A história é feita com meios, não com ideias; e tudo é modificado pelas condições económicas, arte, filosofia, amor, virtude - a própria verdade!»

Joseph Conrad, O Agente Secreto (1907)p. 45

Ed. Europa-América, 1997 Colecção Grandes Clássicos do Século XX, n.º 24 Tradução de Sara Gomes

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Leituras

por Pedro Correia, em 31.07.19

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«O bem verdadeiro é quando se escolhe fazê-lo porque se pode fazer o mal.»

Roberto Saviano, Gomorra, (2006)p. 100 (vol. 2)

Ed. Reverso/Sábado, 2018. Tradução de Carlos Aboim de Brito

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Leituras

por Pedro Correia, em 26.07.19

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«Se Churchill passou os primeiros anos da sua vida de adulto à procura do poder e da proeminência, Orwell passou os seus à procura de um tema central. E acabou por encontrá-lo: o abuso do poder. É o fio condutor de todos os seus escritos, desde as primeiras obras até ao fim.»

Thomas E. Ricks, Churchill e Orwell - A Luta Pela Liberdade (2017)p. 239

Ed. Edições 70, 2018. Tradução de Miguel Mata

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Leituras

por Pedro Correia, em 25.07.19

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«As mulheres só amam os valentes.»

V. Blasco Ibañez, Sangue e Arena (1908)p. 239

Ed. Círculo de Leitores, 1979. Tradução de João Costa

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Leituras

por Pedro Correia, em 24.07.19

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«Sabia que nunca mais fraquejaria perante o seu destino, fossem quais fossem os caminhos a seguir. Estivera em contacto com a morte e descobrira que, afinal, era tudo menos grande. Ele era um homem.»

Stephen Crane, A Insígnia Vermelha da Coragem (1895)p. 162

Ed. Vega, 2007. Tradução de Jorge Pinheiro

 

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Leituras

por Pedro Correia, em 23.07.19

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«Acho que Deus é todas as coisas. Tudo que é ou foi há-de ser sempre. E quando podes sentir isso, e sentir-te bem por o sentir, encontraste-O.»

Alice Walker, A Cor Púrpura (1982)p. 138

Ed. Círculo de Leitores, 1986. Tradução de Paula Reis

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Que livros ainda nos falta ler?

por Pedro Correia, em 19.07.19

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Audrey Hepburn no filme Guerra e Paz (1956)

 

Julgo que acontece a cada um de nós. Há livros que sempre quisemos ler mas por algum motivo nos foram fugindo - ou nós fugindo deles, o que acaba por dar no mesmo: um desencontro de longa duração entre a obra e o potencial leitor.  

No meu caso, confesso, a lista de leituras sempre adiadas é encabeçada por dois romances que se tornaram pedras basilares da literatura dos séculos XIX e XX: Guerra e Paz, de Tolstoi, e Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. No primeiro caso, até já vi o filme (com a bela Audrey Hepburn), no segundo nem sequer conheço qualquer adaptação filmada. 

Não tenho em casa nenhuma destas obras - a de Proust, desde logo, por ocupar muito espaço: são sete volumes. E nunca as li, reconheço, devido à dimensão dos textos. Um célebre ensaísta avaliou em quatro meses o tempo médio de leitura atenta da Guerra e Paz - o que excede, portanto, os dias bem contados de qualquer estação do ano. 

Mas ainda não perdi a esperança. Sabendo que alguns livros da minha vida resultaram de leituras que fui adiando durante anos até um dia me decidir enfim a chegar lá. E ainda bem que o fiz, em casos como O Som e a Fúria, de Faulkner, ou Lolita, de Nabokov. Obras-primas da literatura universal.

Permitam-me a curiosidade: e no vosso caso? Quais são os livros que há anos desejam ler mas por algum motivo foram sempre adiando sem nunca os riscarem das listas de prioridades? Esta caixa de comentários fica à vossa disposição para partilharem tais confidências.

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Leituras

por Pedro Correia, em 14.07.19

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«O Exército de D. Pedro I era comandado quase exclusivamente por generais portugueses. A informação diz muito sobre a independência do Brasil, instaurada de forma rápida e com poucos conflitos se comparada às lutas da América espanhola. Ela evidencia ainda a posição hegemônica do Rio de Janeiro, construída ao longo dos 13 anos em que abrigou a corte joanina (1808-1821), tornando-se sede do Império Português. Nesse sentido, esse perfil era previsível. O surpreendente é constatar o predomínio de portugueses no generalato entre os anos de 1837 e 1850, após a vigorosa política liberal de desmobilização do Exército. Os nascidos em Portugal constituíam, então, quase metade do corpo de generais.»

Adriana Barreto de Souza, num ensaio intitulado "O Exército e a Negociação da Ordem Monárquica no Brasil", incluído na obra colectiva Dois Países, um Sistema - A Monarquia Constitucional dos Braganças em Portugal e no Brasil (1822-1910)p. 237

Ed. D. Quixote, 2018

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Leituras

por Pedro Correia, em 13.07.19

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«A História é o relato das contradições humanas; capitalismo e comunismo fazem do indivíduo um insecto, o primeiro explora-o, o segundo escraviza-o.»

Olivier Guez, O Desaparecimento de Josef Mengele (2017)p. 28

Ed. Planeta, 2018. Tradução de Mário Dias Correia

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Ler em férias

por Pedro Correia, em 10.07.19

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O Sapo, muito simpaticamente, quis saber que livros levarei para estas férias e que leituras posso recomendar.

Respondi assim:

 

Este ano tracei como meta essencial ler autores portugueses – designadamente romances e novelas do século XX. Assim, na bagagem para férias levarei três livros que há muito constam da minha lista: A Casa Grande de Romarigães (Aquilino Ribeiro), A Torre da Barbela (Ruben A.) e Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde (Mário de Carvalho). Pena não encontrar em lado nenhum Trabalhos e Paixões de Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco – há muito esgotado. Seria o quarto volume a incluir na bagagem.

Seguindo o mesmo raciocínio, recomendo três romances de autores portugueses editados pela primeira vez no século XX: A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, e Hotel Lusitano, de Rui Zink. Cada qual a seu modo, são três livros em que o tema férias está presente. Férias no campo, com Eça. Férias na praia, com Sena. Férias em Lisboa, com Zink. Três formas de ver Portugal. E de aproveitar muito bem o tempo.

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Um longo e lindo feriado

por Pedro Correia, em 07.07.19

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Rua Nascimento Silva, 107. Este endereço é conhecido de melómanos do mundo inteiro. Foi aqui que um poeta e um compositor revolucionaram a música, alterando-a para sempre.

O poeta era Vinícius de Moraes, o compositor era Antonio Carlos Jobim, o ano era 1958: desta genial parceria nasceu o disco Canção do Amor Demais, na voz de uma cantora de segunda linha chamada Elizete Cardoso. A diferença estava na qualidade das canções, que rompiam com a banalidade do samba-canção então em voga. E sobretudo em dois temas acompanhados ao violão por um tal de João Gilberto (que no disco figura apenas como instrumentista): “Outra Vez” e “Chega de Saudade”.

Nessa altura nenhum deles imaginava que estava a fazer história. Era o tempo das vozes potentes, cheias de vibrato, próprias para serem escutadas ao fundo de salões de baile – ninguém supunha que se cantasse de outra forma. Mas o baiano João Gilberto insistia em cantar “baixinho”, o que causava urticária nos especialistas do sector. Quando gravou “Chega de Saudade”, logo após a versão de Elizete, um desses especialistas, em São Paulo, partiu o disquinho de 78 rotações bradando: “Esta é a merda que o Rio nos manda!” 

 

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Como tantas vezes acontece, na música e não só, este “especialista” nada percebia do assunto. “Chega de Saudade”, com a voz e violão de João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, inaugurou uma era na música popular. A partir daí todos passaram a querer cantar assim. “Baixinho”, como quem sussurra ao ouvido.
Nascia a Bossa Nova. A origem da expressão permanece obscura. Noel Rosa usara a palavra bossa num samba de 1932 (“O samba, a prontidão e outras bossas / são nossas coisas, são coisas nossas”). E à entrada de um espectáculo realizado no auditório do Grupo Universitário Hebraico, ainda em 1958, uma funcionária escreveu a giz num quadro: “Hoje, Sylvinha Telles e um grupo bossa nova.” Sylvinha cantava em sintonia com João Gilberto. A expressão pegou, hoje todos a conhecem, usa-se e abusa-se dela. Mas a funcionária permaneceu anónima: se tivesse patenteado o rótulo, ganharia uma fortuna.
Estas e muitas outras histórias desfilam no delicioso livro Chega de Saudade, do brasileiro Ruy Castro. Ao longo de mais de 400 páginas, assistimos ao encontro de Vinícius e Jobim, somos apresentados a Dick Farney, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Luís Bonfá, o malogrado Newton Mendonça, Nara Leão, Elis Regina... Descemos aos botequins da Lapa, flanamos pelos bares de Ipanema. Começamos num Brasil onde “In the Mood” e “On the Sunny Side of the Street” eram êxitos nas rádios do Rio com títulos traduzidos foneticamente – “Edmundo” e “O Sobrinho da Judite”. E acabamos num Brasil rendido à sofisticada batida da bossa nova que conquistava os maiores nomes da canção universal: Lena Horne, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Peggy Lee, Andy Williams, Perry Como, Tony Bennett, Violeta Parra.
E até Frank Sinatra se rendeu.

 

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Em Dezembro de 1966, quando tomava um chope no seu bar predilecto – o Veloso, onde há quem jure que nasceu a sua “Garota de Ipanema” –, Jobim recebeu uma chamada telefónica. “Ligação dos Estados Unidos”, avisou o proprietário do botequim. Era Sinatra. Convidava-o a gravar um disco com ele. Sinatra/Jobim, como viria a chamar-se o disco, mostra-nos um Sinatra muito diferente do registo habitual, cantando à maneira de João Gilberto temas imortais como “Corcovado”, “Dindi”, “Insensatez” e “O Amor em Paz”.
“A última vez que cantei tão baixo foi quando tive laringite”, gracejou o intérprete de “Strangers in the Night” após as gravações. Valeu a pena: o disco foi um monumental sucesso de público e de crítica, ganhando vários prémios Grammy.
Outras gerações foram conquistadas pela magia brasileira: Eric Clapton proclama a sua adoração incondicional por João Gilberto, Sting nunca se cansa de enaltecer Jobim, Diana Krall e Karrin Allyson incluem temas de Vinícius e Jobim nos seus novíssimos reportórios.
A era da bossa nova, num mundo marcado pela guerra fria e pelo terror nuclear, foi “um longo e lindo feriado”, na síntese feliz de Ruy Castro. Quem diria que tudo começou no fio de voz de João Gilberto que enfureceu o tal expert de São Paulo?

 

Texto reeditado, a propósito da morte de João Gilberto, ontem, aos 88 anos

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Leituras

por Pedro Correia, em 06.07.19

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«O que é errado é esquecermo-nos de que não somos os únicos seres vivos na terra.»

Arthur Herzog, O Enxamep. 228

Ed. Círculo de Leitores

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Leituras

por Pedro Correia, em 05.07.19

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«O Homem é o mais fraco e indefeso de todos os seres vivos.»

Rudyard Kipling, O Livro da Selva (1894)p. 8

Ed. Público, 2004. Colecção Geração Público, n.º 9. Tradução de Alexandra Ribeiro

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Leituras

por Pedro Correia, em 04.07.19

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«O número médio de filhos por mulher [em Portugal] é desde 1982 inferior ao valor mínimo necessário para assegurar a renovação das gerações. (...) De acordo com o último recenseamento geral (2011), só 45 dos 308 concelhos possuíam mais jovens que idosos.»

Teresa Rodrigues, Envelhecimento e Políticas de Saúdepp. 20/23

Ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2018. Colecção Ensaios da Fundação, n.º 85

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Leituras

por Pedro Correia, em 28.06.19

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«Um homem que não trabalha tem demasiado tempo disponível, tempo de sobra para se fechar consigo próprio e com os seus problemas.»

Raymond Carver, Queres Fazer o Favor de te Calares? (1976)pp. 129/130

Ed. Teorema, 2004. Colecção Outras Estórias. Tradução de Carlos Santos

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Com olhos de ler

por Pedro Correia, em 26.06.19

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No último mês e meio, li dez romances portugueses do século XX. Em quase metade desses livros, muito celebrados e enaltecidos, o trabalho está totalmente ausente. As personagens principais são homens, vagamente intelectuais, que nada fazem senão arrastar-se de restaurante em restaurante e de bar em bar em Lisboa enfardando e decilitrando, sem visíveis meios de subsistência. Intitulam-se escritores sem escreverem uma linha, denominam-se pintores sem um só quadro para amostra. Falam pelos cotovelos e só buscam o prazer fácil, embora não grátis: as mulheres, nestes marcos da nossa ficção, são todas putas ou para lá caminham. O que não parece depreciar tais obras aos olhos do feminismo contemporâneo. 

Em jeito de balanço provisório das mais recentes leituras, por contraste, concluo que a chamada corrente neo-realista, ao traçar uma clara demarcação não apenas ao nível das ideias mas também da escrita, foi um movimento mais importante do que o cânone dominante nas últimas décadas reconhece. Não tanto pelo seu inquestionável valor documental ou por haver enriquecido o registo escrito da nossa língua com as múltiplas tonalidades do vocabulário oral, mas por ter trazido o trabalho, como pilar da dignidade humana, para as ociosas páginas daquilo a que se convencionou chamar a nossa melhor literatura. As pessoas comuns, sem nomes brasonados, residentes na província ou na periferia da capital. Gente que irrompe nas páginas de obras-primas hoje injustamente esquecidas, como Casa na Duna, de Carlos de Oliveira, ou Cerromaior, de Manuel da Fonseca, que alguns omitem nas suas listas muito tendenciosas de títulos imprescindíveis do romance português do século XX. Uma delas, salvo erro, não consta sequer do copioso rol de títulos incluídos nas 788 páginas de recomendações do Plano Nacional de Leitura.

É tempo de livros como estes serem revalorizados. Sem anátemas ditados pelo preconceito estético ou político. E de os apreciarmos pelo seu valor intrínseco, não por constituírem armas de arremesso em ultrapassadas contendas ideológicas. 

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Leituras

por Pedro Correia, em 23.06.19

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«As palavras gastam-se. Nascem, ganham novos sentidos, novos sons, algumas morrem em velhos dicionários e esquecidas no silêncio. Vejamos a palavra nobreza. Envolve múltiplos e até ideológicos, éticos e psicológicos sentidos. Socialmente indica a ordem laica dominante na Idade Média europeia. Mas foi necessário esclarecer a palavra com diferentes adjectivos: nobreza feudal, nobreza de linhagem, nobreza de corte, nobreza urbana, nobreza cidadã.»

António Borges Coelho, Portugal Medievop. 337

Ed. Caminho, 2010. História de Portugal, volume II

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A revolução anterior

por Pedro Correia, em 22.06.19

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Há livros assim, capazes de nos seduzir só pela frase de abertura. Já aconteceu com qualquer de nós, leitores. E não faltam exemplos clássicos – desde o Quixote aos Cem Anos de Solidão, passando pela Metamorfose, de Kafka. Aconteceu-me com este romance de Agustina Bessa-Luís, publicado em 1975, quando o nosso país, em trânsito da ditadura para a democracia, se abeirou da guerra civil.

«Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram.» Assim começa este livro quase ignorado à época em que surgiu. Compreende-se porquê: Portugal estava imerso em acontecimentos convulsos, a História escrevia-se dia a dia, às vezes hora a hora, qualquer rastilho poderia alterá-la num rumo ou noutro. Restava pouca disponibilidade mental – e até física – para reflectir sobre as subtis transformações sociais ocorridas nas décadas que haviam ficado para trás.

As Pessoas Felizes é um romance em que Agustina rende homenagem ao seu Porto adoptivo, trespassando-o com olhar arguto, capaz de distinguir uma vasta gama de luzes e sombras nesse burgo que «sacrifica o maravilhoso ao necessário». Enquanto presta tributo a Tolstoi, um dos seus escritores de eleição. O próprio título do livro constitui, aliás, paráfrase das também célebres linhas iniciais de Anna Karénina: «As famílias felizes parecem-se todas umas com as outras; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.»

 

O enredo é por vezes sugerido só em esboço. Os diálogos são esparsos, servindo quase sempre para sublinhar o que o rasto descritivo já determinara pela pena da narradora omnisciente, que tudo ouviu, tudo observou e foi capaz até de decifrar os mais impenetráveis pensamentos de personagens que vão surgindo a um ritmo imparável e tão depressa chegam como partem. Esta forma de narrar com um recurso estilístico deliberadamente anacrónico presta afinal homenagem ao romance clássico do século XIX, tornada aqui ainda mais evidente na intertextualidade com a obra-prima de Tolstoi, cerca de vinte vezes citada.

A modernidade, como é usual na ficção de Agustina, irrompe na profusão de aforismos e parábolas que se integram no fluxo narrativo e a todo o momento lhe travam o passo, orientando-o até com frequência noutra direcção. Alguns leitores sentir-se-ão desencorajados a prosseguir perante esta torrente de pensamentos que quase funcionam como um livro dentro deste livro desprovido de capítulos. Outros poderão perder-se na propositada diluição dos fios cronológicos que parece resultar de lembranças desenroladas de supetão. Agustina, com a sua peculiar arte de escrita, não atrai pela facilidade: seduz por ser complexa. Mesmo que incomode quem não se reveja na sua tendência por vezes irritante de etiquetar no colectivo: «As mulheres instalam-se na infelicidade; os homens vivem-na, mesmo quando menos a aceitam.»

 

Mundo de aparências

 

As Pessoas Felizes surge agora em terceira edição (a segunda foi de 2006, ainda com a chancela Guimarães), valorizada por um esclarecido prefácio de António Barreto, que em poucas palavras capta o essencial da obra, escrita em grande parte antes do 25 de Abril e concluída a 7 de Outubro de 1974 (anotação final da própria Agustina), atribuindo-lhe um carácter premonitório. «A revolução é o coroar de um processo de mudança, mais do que o seu começo», escreve Barreto, lembrando os seus conturbados tempos de deputado constituinte, no auge do processo revolucionário, quando este livro o iluminou sobre a erosão da atmosfera social que entrara em declínio muito antes da queda do Estado Novo. Aqui simbolizada na plácida burguesia portuense, envolta no seu mundo de aparências, amarrada a convencionalismos atávicos, aparentemente desprovida de conflitos interiores.

A protagonista, Manuela Torri, simboliza essa era de mutação social que precedeu a ruptura política – na sua atribulada relação com o clã familiar, no seu desprezo pelas «burguesas de clausura», na sua indizível nostalgia pela quinta do Douro que lhe ficara impressa nas memórias mais remotas. Ainda vigorava o salazarismo e já «a mudança andava no ar, enquanto tudo parecia minuciosamente preservado».

Num Porto-metáfora-do-País de algum modo tocado pela predestinação: nestas páginas vigora um determinismo que impregna os lugares e contagia as pessoas. Não por acaso, “sempre” e “nunca” são advérbios que parecem fascinar a escritora: Agustina utiliza-os imoderadamente. E “destino” é a palavra que encerra o romance. Completa-se o ciclo: a felicidade estava condenada a esfumar-se.

 

............................................................... 
 
As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís (Relógio d' Água, 2019). 184 páginas.
Classificação: ***
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

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