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Delito de Opinião

Leituras

Pedro Correia, 19.08.22

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«O menino Jesus só cresce e se faz homem quando os outros meninos crescem e julgam que se fazem homens.»

Jorge de Sena, Andanças do Demónio, p. 15

Ed. Estúdios Cor, 1960. Colecção Latitude, n.º 47

Leituras

Pedro Correia, 12.08.22

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«Esta revolução morta, este marxismo morto, este proletariado morto, esta esquerda morta, este socialismo morto, todos contribuem para inverter o curso da história, outrora orientado em direcção ao céu das ideias leninistas. Doravante, o novo horizonte inultrapassável é o da regressão no sentido das hordas primitivas de que Darwin falava n'A Origem do Homem: lugar às tribos, às etnias, às raças, ao sangue, às pigmentações.»

Michel Onfray, A Arte de Destruir Livros (2021), p. 170

Ed. Guerra & Paz, 2021. Tradução de André Morgado. Colecção Livros Vermelhos

Leituras

Pedro Correia, 06.08.22

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«O problema é essencialmente económico, mas tudo depende da fórmula política. Se não for dentro da geringonça parlamentar, há que ir buscá-la fora dela.»

José Rodrigues Miguéis, O Milagre Segundo Salomé, vol. 1 (1975), p. 285

Ed. Estampa, 2000 (4.ª ed)

Manguitos de Rafael Bordalo Pinheiro

jpt, 23.07.22

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Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, edição do Museu Bordalo Pinheiro, 2022.

Rafael Bordalo Pinheiro é muito invocado, dito "fundador da caricatura nacional" - para além de minudências cronológicas que lhe encontram "antecessores" - respeitado, amado até, como "cidadão pleno e libertário" e nisso precioso "coleccionador de fraquezas" (como disse João Paulo Cotrim), dessas que lhes eram coevas e as quais dizemos ainda actuantes nesta nossa (gasta) Pátria.

Mas, na realidade, Bordalo é-nos algo desconhecido, até mesmo obscuro. Um pouco como aquele avoengo presente em tantas famílias, evocado em convívios sazonais através de episódios que se querem risonhos ou verdadeiros exempla, historietas mais ou menos inventadas acontecidas nos Dembos e Angónias, entre os seringueiros amazónicos, baleeiros atlânticos, filões de volfrâmios ou, também, naqueles das andanças "a salto", tudo isso sem que nós, a sobrinhada, de facto perceba quem foram tais estranhos aventureiros "tios-avôs" e o que lhes foi acontecendo e como se fizeram acontecer.

Muito desse afastamento se deve a que as obras de Bordalo eram contextualmente enraizadas, raras as personagens por ele criadas - e estas sempre simbólicas -, pois se tratava de um universo centrado na vida política e social portuguesa do fim do século XIX. E, sendo aqueles quadros quase sempre de uma rica encenação, pela pluralidade de elementos expostos, a sua fruição convoca vários níveis de leitura, apelando a um conhecimento mais amplo, seja das personalidades caricaturadas seja dos contextos de cada uma das investidas de Bordalo Pinheiro. Digo-o também por mim, herdeiro de três volumes da "Pontos nos ii" oriundos de bisavô paterno, cuja leitura exige uma nada apressada decifração.

E é devido a essa distância para com o mundo de Bordalo Pinheiro, encapuçada pela aparente similitude das invectivas aos poderes que dele queremos recuperar, que são preciosos os livros a ele dedicados, pela descodificação daqueles contextos, afinal mais diferentes deste hoje do que poderá parecer a leituras de mera adesão. Através deles poderemos perceber bem melhor as suas obras, e, sem juizos anacrónicos (auto)punitivos - como esses que tanto estão na moda -, fruir do verdadeiro encanto que a compreensão permite. Por exemplo, apreender a profusão das suas referências a África e às putativas colónias portuguesas percebendo-o também como "Romântico, positivista e mação, agarrado às colónias como a um simbólico pé-de-meia, boémio, sexista, sentimental e altivo, cioso da dignidade nacional, intuitivo e de repentes, Raphael Bordallo Pinheiro é de facto "o português tal e qual"", como, há mais de três décadas, escreveu Ângela Guimarães em "Bordallo: Face a um Mundo em Turbilhão"*, uma investigação dedicada à refracção no autor da mentalidade colonial e dos anseios africanistas da época, algo que Guimarães cumpriu sem se desviar por bacocos dislates punitivos mas sim olhando Bordalo como uma voz trangressora no seu tempo. Ou essa reedição aquando do centenário da sua morte (2005), com textos de João Paulo Cotrim, do "Álbum de Glórias", que é preciosa para a identificação de inúmeras personalidades caricaturadas e, também, por fazer reviver a prosa de Bordalo e seus corrosivos colaboradores (em particular a de Guilherme Azevedo e a de Ramalho Ortigão).

Enfim, várias obras têm sido dedicadas ao autor. Mas ainda assim é muito atractiva esta nova colecção que o Museu Bordalo Pinheiro começou agora a publicar, pequenos volumes (de pequenas tiragens, 250 exemplares) com incursões temáticas àquelas obras. Comecei por este Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, apresentado este mês. O qual comporta uma bem conseguida mescla entre a importância da gestualidade como comunicação não-verbal intra-comunitária e a a genealogia do carismático "Zé Povinho", "[Essa] criança que tem hoje perto de cinquenta anos de idade! (...) Nele concorrem em conjunto todas as partes que nos enlevam e encantam no bom menino - casta inocência, temor de Deus, obediência a seus mestres, humildade, nariz por assoar, dor de barriga às segundas-feiras e santíssima ignorância. Aos carinhosos desvelos de sua extremosa mãe, a Carta, e de seu galhofeiro pai, o Parlamentarismo, se deve o estado miraculoso de infantilidade que tão vantajosamente recomenda este vulto à simpatia e ao espanto de todo o mundo" (Ramalho Ortigão, dito João Ribaixo no "Álbum de Glórias"), descrição bem apropriada a um "Zé Povinho" que Bordalo, apesar da simpatia que lhe votava, invectivava por não se erguer como Povo, preguiça que considerava desamor à Pátria.

Ora vem esta sopesada mescla a propósito do célebre gesto do manguito, o qual sempre associamos, no nosso real afastamento à obra de Bordalo Pinheiro, a uma prática regular, desabafo até contestatário, do "Zé Povinho". Para depois, neste livro, percebermos que, afinal, "No que diz respeito aos gestos obscenos, Rafael Bordalo Pinheiro é muito discreto, evitando representá-los de modo explícito" (49). Ou seja, e contrariamente à nossa ideia feita, não há manguitos (literais, no sentido gestual) nas caricaturas - esse registo mais brejeiro apenas veio a surgir na cerâmica de Bordalo. E foi esta, torna-se assim evidente, que veio a moldar a nossa apreensão, a nossa memória, do trabalho gráfico do autor.

Fosse apenas por isso, por este desvendar, este livro seria já precioso. Mas há bem mais assuntos de interesse - até porque profusamente ilustrado (como não poderia deixar de ser), com explanações sobre o conteúdo de cada uma das ilustrações. E o mesmo se aplicará, presumo, aos outros exemplares desta colecção, um fio que será uma constante "reintrodução" a Rafael Bordalo Pinheiro, esse filão de entendimento sobre, 

"N'este país de compadres; / E de ministros d'estado, / E de vates trovadores, / E de tocadores do fado, / E de casas de penhores, / E de grandes orçamentos, / E de namoros aos centos, / E de parvonezes todos, / E de cem milhões de alferes, / E de homens que são mulheres, / E de eleitoraes engodos; (...)" ["Neste país de compadres e d'eleitoraes engodos", em O António Maria, 28 de Junho de 1883, reproduzido na p. 50), 

pois, se difererenças há em relação àquela época, e imensas há, as semelhanças também vigoram. E muito as incompreendemos quando não conseguimos perceber os detalhes da obra de Bordalo, na tal descodificação. Ou seja, urge ir ler os pequenos volumes desta colecção, a preço bastante acessível.

* Eu só tenho uma fotocópia de texto prévio, "O Riso e a Angústia", que não tenho a certeza de corresponder totalmente ao livro publicado em 1997.

Leituras

Pedro Correia, 26.06.22

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«Às vezes a moral e a lei excluem-se. É isso a condição humana. Os gregos chamavam a isso tragédia. E dela não há saída.»

Fernando Sobral, A Grande Dama do Chá, p. 167

Ed. Arranha-Céus, 2020

Leituras

Pedro Correia, 24.06.22

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«Eu assisti (deixemo-nos de partes - eu também fui presa da crença...) a pessoas altamente qualificadas a fazer o elogio da União Soviética e das maravilhas que lá pululavam. Difícil saber onde, que não estavam patentes ao visitante ocasional, mas, porventura, atrás de quaisquer montanhas, atravessados infindáveis desertos.»

Mário de Carvalho, De maneira que é claro..., pp. 156-157

Ed. Porto Editora, 2021

Leituras

Pedro Correia, 18.06.22

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«Infelizmente, em Portugal, o amor à liberdade não encontrou um solo onde medrar. Basta recordar que, desde o fim da Monarquia Absolutista em 1820, todas as mudanças de regime resultaram de golpes militares que, após a vitória, escreveram Constituições a seu bel-prazer: foi assim em 1822, foi assim em 1826, foi assim em 1910, foi assim em 1926 e foi assim sob o regime em que vivemos.»

Maria Filomena Mónica, Uma Estranha Amizade, p. 215

Ed. Relógio d'Água, 2021

Leituras

Pedro Correia, 16.06.22

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«Um estúpido impõe mais respeito do que um desertor.»

Evan Hunter, Sementes de Violência (1954), p. 209

Ed. Publicações Europa-América, 1971. Tradução de Rita Salgado. Colecção Livros de Bolso Europa-América, n.º 15

Leituras

Pedro Correia, 28.05.22

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«O nosso mundo está sempre a tempo de ser mudado se agirmos em vez de o lamentarmos...»

Augusto AbelairaA Cidade das Flores (1959), p. 60

Editores Associados, s/d. Colecção Unibolso, n.º 113

Leituras

Pedro Correia, 20.05.22

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«Não creio que haja na História exemplo igual ao da Grécia, que desapareceu em plena mocidade. Foi uma nação que morreu sem ter envelhecido. (..) Nação adolescente, que revelou o supremo cânone de beleza plástica e intelectual; que tudo soube só pelo gosto de saber; que foi a maior lição de dignidade física e espiritual que a Humanidade registou.»

Manuel Teixeira-Gomes, Agosto Azul (1904), p. 182

Ed. Portugália, 1958 (3.ª ed)