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Delito de Opinião

Leituras

Pedro Correia, 10.04.21

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«O que se chama saber assemelha-se a outra qualquer moeda corrente: pode depreciar-se. O saber sólido e valioso de hoje talvez não valha amanhã o papel em que está impresso.»

D. H. Lawrence, Canguru (1923), p. 189

Ed. Portugália, s/d. Colecção Os Romances Universais, n.º 18. Tradução de Cabral do Nascimento

Leituras

Pedro Correia, 26.03.21

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«Aprende-se tarde de mais que até as vidas mais dilatadas e úteis não chegam para mais nada senão para aprender a viver.»

Gabriel García Márquez, O Outono do Patriarca (1975), p. 219

Ed. Público, 2002. Tradução de José Teixeira de Aguilar. Colecção Mil Folhas, n.º 4

Leituras

Pedro Correia, 19.03.21

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«Parece estúpido ter descoberto a América só para fazer cópia de outro país.»

Edith Wharton, A Idade da Inocência (1920), p. 216

Ed. Público/Publicações Europa-América, 2003. Tradução de Teresa de Sousa Gomes. Colecção Mil Folhas, n.º 46

Ler não é maçada

Pedro Correia, 15.03.21

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Num país onde 60% da população passa um ano sem abrir um livro, todos os incentivos à leitura são louváveis. É o caso desta iniciativa editorial da Guerra & Paz, que desafiou o poeta, ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa a escolher 50 títulos indispensáveis da nossa literatura, recomendando-os a esses compatriotas que só costumam ler legendas de séries televisivas e mensagens de telemóvel. Trabalho meritório do veterano escritor, nascido há quase 91 anos em Lourenço Marques e que privou com poetas como José Régio ou Reinaldo Ferreira, ambos aqui representados.

Autor do monumental diário Act Est Fabula, repartido por seis volumes (Opera Omni, 2012-2017), Lisboa seleccionou 35 escritores. Alguns aqui representados por mais de um título, em prosa e verso, como sucede com Mário de Sá Carneiro (A Confissão de LúcioPoemas), Miguel Torga (Novos Contos da MontanhaAntologia Poética) ou Jorge de Sena (Os Grão-CapitãesAntologia Poética). Recorda justamente nomes que andam esquecidos, como David Mourão-Ferreira (Gaivotas em TerraObra Poética), José  Rodrigues Miguéis (Onde a Noite se Acaba) e Domingos Monteiro (Contos e Novelas). Mas onde encontrá-los, se estão ausentes das livrarias e, pelo menos num caso, nem se encontram no circuito dos alfarrabistas digitais?

 

Do presente para o passado

 

Neste livrinho, que se lê num ápice e só peca por excesso de concisão, o autor começa por recomendar um prosador actual (Miguel Sousa Tavares, com Equador) e apenas no fim da lista sugere Oliveira Martins, Eça de Queiroz (ContosNotas Contemporâneas), Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Bocage e o padre António Vieira. Em cronologia regressiva que culmina nos Sonetos, de Camões.

Critério controverso, como qualquer outro seria em idêntica limitação de espaço. Mas com a vantagem de incluir títulos fundamentais da nossa ficção literária do século XX que uma certa bem-pensância escolástica foi empurrando para a borda do prato, como A Selva (Ferreira de Castro, 1930), Nome de Guerra (Almada Negreiros, 1938) ou O Barão (Branquinho da Fonseca, 1942). 

Se os poetas surgem bem representados (Cesário, Nobre, Pessanha, Pessoa, Sophia, O' Neill, Eugénio de Andrade), já nos prosadores surgem óbvias omissões, à luz do livre critério do autor, que privilegia «os grandes contadores de histórias» em linguagem acessível ao cidadão português do século XXI. Isto levou-o a deixar de lado «figuras maiores da nossa literatura», como Aquilino ou o Nemésio de Mau Tempo no Canal. Outros estão ausentes por deliberada questão de (des)gosto - incluindo Gil Vicente, de quem o jovem Eugénio foi forçado a ler «o chatíssimo Auto da Alma» nas aulas do liceu, e Vergílio Ferreira (que bem poderia figurar com Manhã Submersa ou Cântico Final, já para não mencionar os contos).

 

A "desorientada" Agustina

 

Ao contrário do que proclama o verso de Pessoa, num dos seus mais célebres "fingimentos", ler não é maçada. Mas, como qualquer literato, o autor de Vamos Ler! tem as suas aversões bem vincadas. Com o mérito de assumi-las sem disfarces, investindo contra o «snobismo parolo» do cânone dominante. E vai deixando cair nomes: Maria Gabriela Llansol («toda aquela algaraviada vestida de pompas e significando nada») ou Agustina Bessa-Luís (cheia de «aforismos desorientados»). Com incursões além-fronteiras contra o James Joyce do Ulisses ou do «indecifrável Finnegans Wake, espécie de charada bizantina».

O melhor deste mais recente título da preciosa colecção Livros Vermelhos da Guerra & Paz acaba por ser a evocação memorialística: o laurentino Lisboa recorda os dias da suave infância e adolescência na cidade natal, à beira-Índico, quando ganhou o saudável vício da leitura. Em casa e nos bancos escolares. Nasceu aí este seu amor consumado pelos livros que está longe de se esgotar: «O gosto de ler nunca mais se perde.»

Há uma lista complementar que por questões de critério editorial ficou ausente deste assumido "cânone para o leitor relutante": a dos escritores estrangeiros que Eugénio Lisboa enaltece no seu panteão privado, como Stendhal, Dickens, Poe, Mark Twain, Oscar Wilde, Somerset Maugham ou Simenon. Daria matéria para um novo livro, em que discorresse sobre O Vermelho e o NegroO Tio GoriotOs Deuses Têm SedeOs Thibault Morte em Veneza, entre outras paixões literárias. Este, só com autores portugueses, cumpre o objectivo a que se propôs. Mas acaba por saber a pouco.

 

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Vamos Ler!, de Eugénio Lisboa (Guerra & Paz, 2021)
132 páginas.
 

Leituras

Pedro Correia, 05.03.21

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«Os enredos do mundo levam o mais santo às caldeiras do Inferno.»

Ramón del Valle-Inclán, Tirano Banderas (1926), p. 207

Ed. Teorema, 1990. Colecção Terra Nostra, n.º 35. Tradução de Carlos da Veiga Ferreira

Leituras

Pedro Correia, 19.02.21

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«O verdadeiro amor torna-nos sempre melhores, qualquer que seja a mulher que o inspira.»

Alexandre Dumas Filho, A Dama das Camélias (1848), p. 153

Ed. Publicações Europa-América, 3.ª ed, 2003. Colecção Livros de Bolso Europa-América, n. º 163. Tradução de Sampaio Marinho

Rapariga, mulher, outra

Cristina Torrão, 16.02.21

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Há pessoas brancas e pessoas negras, certo? Sim, mas… onde se ordenam os outros matizes? Mesmo sem falar daqueles que apelidamos de peles-vermelhas ou amarelos, sem falar de ciganos ou indianos, há toda uma paleta de cores entre o branco e o negro. Há os mestiços de todas as etnias e feitios, há os mulatos e as mulatas e, entre estes, há mulatos escuros, mulatas claras, mulatos e mulatas propriamente ditos (assim cor de café com leite). Há mulatos quase brancos, há mesmo mulatos que não se distinguem dos brancos. E há brancos morenos, bem mais escuros do que os mulatos, incluindo senhoras brancas da socialite que investem muito num bom bronzeado, durante a época balnear. Andam muitas pessoas pela Europa convencidas de que são brancas e têm antecedentes negros, porque houve famílias negras que, com a miscigenação, se tornaram cada vez mais brancas. Até há louras e louros descendentes de negros sem o saberem.

Mas não é só a cor da pele a tornar difícil ordenar as pessoas. Também o sexo. Há mulheres e homens, certo? Sim, mas… há pessoas que não se sentem nem um nem outro. Há mulheres bissexuais e outras que se sentem atraídas apenas por mulheres. Entre estas, há as que não têm dúvida de que são mulheres, mas outras que se sentem homens e gostariam de mudar de sexo. Mas também há as que gostam de se vestir “à homem”, que adoptam atitudes masculinas, mas que se sentem bem sem mudar de sexo. E nem todas as mulheres que gostam de se vestir “à homem” e adoptar atitudes masculinas são lésbicas. Também há quem não se consiga decidir. Com os homens é igual.

É justo sermos ordenados e julgados pela nossa cor de pele, ou pelas nossas preferências sexuais, que nem nós sabemos explicar, apenas sabemos que nascemos assim? Este livro de Bernardine Evaristo, vencedor do Man Booker Prize 2019, é, desde já, um dos livros da minha vida (por isso, falo dele aqui). Porque nos torna mais humanos e nos ajuda a compreender muitos fenómenos. É impressionante a maneira como Bernardine Evaristo faz desfilar toda uma série de personagens, com as mais diversas formas de vida, sem julgar, nem ser tendenciosa.

O livro centra-se mais na mulher negra, a última da hierarquia social, aquela que só vem depois de todos os homens e todas as outras mulheres. Mas não pensemos que a autora faz o seu elogio,  apresentando estas mulheres como se não tivessem mácula, ou fossem apenas vítimas da sociedade branca e machista. Bernardine Evaristo mostra-nos igualmente como uma lésbica narcisista pode manipular e subjugar a sua companheira ao melhor estilo machista (independentemente da sua cor). E também nos mostra como os negros podem ser racistas. Não se trata igualmente de um livro de ódio aos homens, mostra-nos inclusive como um homem pode ser a salvação na vida de uma mulher, como lhe pode dar autoestima e proporcionar-lhe uma vida decente, de forma desinteressada e incondicional, depois de essa mulher ter sido discriminada e humilhada no seio da própria família.

Retratos de mulheres fortes e fracas, de lésbicas, bissexuais, transexuais, heterossexuais e outras que tais, de mulheres negras e brancas, mulatas, mestiças, de brancas, uma delas loura e racista, que não fazem ideia do sangue negro que lhes corre nas veias.

Este livro é um tesouro. É assim que o vejo. Naturalmente, recomendo-o. Abram as vossas mentes! A vida é colorida, não a preto e branco. Somos todas e todos humanos.

 

Nota: são livres de expor as vossas ideias, mas qualquer comentário que, mesmo contendo opiniões válidas, eu considere degradante em relação a certas pessoas, ou me ataque pessoalmente (tentando explicar a minha psique, me acuse de ódio, ignorância, ou tente desvalorizar* o meu modo de pensar), será apagado.

 

* digo "desvalorizar", não "discordar"

Leituras

Pedro Correia, 12.02.21

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«Diz-se que a cobardia é contagiante; mas por outro lado, quando se gera uma discussão, os ânimos enchem-se de coragem.»

Robert Louis Stevenson, A Ilha do Tesouro (1883), p. 34

Ed. Público, 2004. Colecção Geração Público, n.º 3. Tradução de Lúcia Harris

Leituras

Pedro Correia, 07.02.21

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«Ninguém sabe, exactamente, quando deixa de se amar alguém. Deve haver um rumor qualquer, algumas discussões triviais sobre assuntos também triviais; depois o rosto que julgámos que iria habitar ao nosso lado, para sempre, deixa de ser apenas um rosto e passa a ser uma presença, por vezes indesejável, muitas vezes desnecessária, na maior parte das vezes apenas uma coisa que nos oprime.»

Francisco José Viegas, Crime em Ponta Delgada (1989), p. 105

Ed. Publicações Europa-América, 1989 (2.ª ed)