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Leituras

por Pedro Correia, em 22.02.20

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«Em Portugal, as pessoas têm vergonha de ser felizes e mesmo quando, uma vez por outra, vivem alegrias, têm vergonha de as comunicar.»

António Alçada BaptistaOs Nós e os Laços, p. 80

Ed. Presença, Lisboa, 1985. Colecção Novos Continentes, n.º 8

Leituras

por Pedro Correia, em 16.02.20

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«Acharmo-nos em harmonia com o mundo é uma infecção mortal.»

António Lobo AntunesAuto dos Danados (1985), p. 301

Ed. Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1986 (6.ª edição). Colecção Obras de António Lobo Antunes

Cinquenta livros de 39 autores

por Pedro Correia, em 15.02.20

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Já tinha falado disto aqui, venho só fazer uma actualização ao tema. Em Maio do ano passado, quando tentei elaborar a lista dos dez melhores romances e novelas portugueses do século XX, verifiquei que para esse efeito ainda me faltava conhecer muitas obras. Elaborei então um ambicioso plano de leituras que me permitisse colmatar tal falha.

E assim foi. Nestes nove meses, no estrito cumprimento desse plano, li (ou reli) cinquenta livros. Aproveitando todos os momentos disponíveis - de manhã, à noite, ao fim de semana, em férias, em viagens de trabalho, nas deslocações quotidianas de transportes públicos pela cidade.

Consegui. Ampliei os meus horizontes literários, conheci autores que nunca havia lido, elegi umas quantas obras-primas que passam a integrar o meu panteão pessoal.

 

Foram estes os escritores que me acompanharam desde Maio: Eça de Queiroz, Raul Brandão, Judith Teixeira, Aquilino Ribeiro, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Henrique Galvão, Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis, Tomaz de Figueiredo, Miguel Torga, Joaquim Paço d'Arcos, Manuel da Fonseca, Alves Redol, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Isabel da Nóbrega, José Cardoso Pires, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Orlando da Costa, Rentes de Carvalho, Helena Marques, Fernando Assis Pacheco, Teolinda Gersão, Vasco Graça Moura, Américo Guerreiro de Sousa, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Teresa Veiga, Eduarda Dionísio, Lídia Jorge e Rui Zink. Trinta e nove, no total: ficam aqui anotados pela ordem de nascimento. Entre 1845 e 1961.

Reparo agora que a lista inclui nove escritoras, algumas das quais desconhecia por completo enquanto leitor. E autores do Minho (Tomaz de Figueiredo) ao Algarve (Lídia Jorge), não faltando naturais dos nossos antigos territórios ultramarinos (Orlando da Costa, moçambicano de ascendência goesa; Almada, nascido em São Tomé).

Li ou reli quatro livros de Agustina, quatro de Lobo Antunes, três de Aquilino, três de Miguéis, três de Vergílio: foram os autores que mais frequentei ao longo destes meses.

 

Hei-de falar mais em pormenor destas leituras que me sensibilizaram não apenas no plano intelectual e estético mas também no plano histórico e social, enquanto retratos da sociedade portuguesa no século em que nasci.

Mas queria anotar desde já alguns dos melhores romances, por ordem de publicação: Emigrantes (Castro, 1928), Vindima (Torga, 1945), A Sibila (Agustina, 1954), A Casa Grande de Romarigães (Aquilino, 1957), Quando os Lobos Uivam (Aquilino, 1958), A Escola do Paraíso (Miguéis, 1960), Barranco de Cegos (Redol, 1961), Sinais de Fogo (Sena, 1979), Os Cus de Judas (Antunes, 1979), Para Sempre (Vergílio, 1983), Auto dos Danados (Antunes, 1985), O Último Cais (Helena Marques, 1992), Trabalhos e Paixões de Benito Prada (Assis, 1993) e O Vale da Paixão (Lídia, 1998).

Se quiserem, digam-me quais são os romances de que mais gostam, entre todos quantos foram publicados em Portugal durante o século XX. Pela minha parte, prometo publicar aqui a tal lista dos dez melhores que me serviu de mote a tão gratificante empreitada.

Confesso: só não o faço já porque ainda me restam alguns livros para ler.

 

Leitura complementar:

Ler em férias

Louvor à prosa de Cardoso Pires

Vinte e oito

Do excelente ao execrável

Leituras

por Pedro Correia, em 08.02.20

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«A amizade é a única coisa que os deuses invejam nos homens.»

Agustina Bessa-LuísFanny Owen (1979), p. 58

Ed. Público, Lisboa, 2002. Colecção Mil Folhas, n.º 31

Leituras

por Pedro Correia, em 01.02.20

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«Não se fez o mel para a boca do asno.»

Tomaz de FigueiredoA Toca do Lobo (1947), p. 237

Ed. Verbo, Lisboa, 1984

Leituras

por Pedro Correia, em 26.01.20

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«Mesmo o mais feroz ateu, a prática confirma-o, tem a sua restiazinha de fé ou, se preferirem, de descrença na sua ausência de fé. E também o mais radical radical, o mais gauche e guedelhudo estudante guedelhudo, alberga em si o seu toquezinho nacionalista e reaccionário.»

Rui ZinkHotel Lusitano (1987), p. 83

Ed. Planeta, Lisboa, 2011

Leituras

por Pedro Correia, em 18.01.20

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«Amor à vida é saber ver.»

Nuno BragançaA Noite e o Riso, p. 123

Ed. Moraes, Lisboa, 1969. Colecção Círculo de Prosa, n.º 2

Leituras

por Pedro Correia, em 11.01.20

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«Para un golpe bueno de verdad que tuvo, que fue heredar Portugal entero (su  madre, la guapísima Isabel, era princesa de allí) tras hacer picadillo a los discrepantes en la batalla de Alcántara, Felipe II cometió, si me permiten una opinión personal e intransferible, uno de los mayores errores históricos de este putiferio secular donde malvivimos: en vez de llevarse la capital a Lisboa - antigua y señorial - y dedicarse a cantar fados mirando al Atlántico y a las posesiones de América, que eran el espléndido futuro (calculen lo que sumaron el Imperio español y el portugués juntos en una misma monarquía), nuestro timorato monarca se enrocó en el centro de la Península, en su monasterio-residencia de El Escorial, gastándose el dineral que venía de las posesiones ultramarinas hispanolusas, además de los impuestos con los que sangraba a Castilla en las contiendas (...), y en pasear a sua embajadores vestidos de negro, arrogantes y sobierbos, por una Europa a la que con nuestros tercios, nuestros aliados, nuestras estampitas de Vírgenes y santos, nuestra chulería y tal, seguíamos teniendo acojonada.»

Arturo Pérez-ReverteUna História de España, pp. 74-75

Ed. Alfaguara, Barcelona, 2019

Leituras

por Pedro Correia, em 04.01.20

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«Não existe vida sem paciência.»

Philip RothO Escritor Fantasma (1979), p. 32

Ed. D. Quixote, 2017. Tradução de Francisco Agarez

Do excelente ao execrável

por Pedro Correia, em 02.01.20

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Em 2019 apostei comigo mesmo que manteria níveis de leitura semelhantes aos que tinha no final da adolescência, quando devorava livros atrás de livros. No ano em que fiz 18, li 72. Nessas idades, o tempo parece sempre que nos sobra - ao contrário do que sucede nas décadas posteriores. Mas no ano passado levei muito a sério a meta que me impus, a tal ponto que acabei até por superá-la: 74 livros completos - não contabilizo, portanto, os três ou quatro que deixei a meio.

Em Maio, como já confidenciei aqui, verifiquei que me faltavam leituras para fazer uma lista consciente e convincente dos 25 melhores romances portugueses do século XX. Ou até dos dez melhores. Tinha acabado então de ler Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que funcionou como ignição para prosseguir nesse trilho. Seguiram-se outras 38 obras literárias só de autores nacionais do século passado, escritas entre as décadas de 10 e 90. Nesta sucessão de leituras e releituras, a mais antiga foi A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro (1914) e a mais recente O Vale da Paixão, de Lídia Jorge (1998).

Os escritores que mais li ou reli foram Agustina Bessa-Luís (quatro romances), António Lobo Antunes (quatro) e Vergílio Ferreira (três). E não li apenas romances: também visitei ou revisitei alguns livros de contos.

Além dos já mencionados, também frequentei estes - vários dos quais pela primeira vez: Almada Negreiros, Alves Redol, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, Aquilino Ribeiro, Eduarda Dionísio, Fernando Assis Pacheco, Fernando Namora, Ferreira de Castro, Helena Marques, Joaquim Paço d' Arcos, José Cardoso Pires, José Rodrigues Miguéis, José Saramago, J. Rentes de Carvalho, Manuel da Fonseca, Miguel Torga, Nuno Bragança, Raul Brandão, Rui Zink, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teolinda Gersão, Tomaz de Figueiredo e Urbano Tavares Rodrigues.

Li um pouco de tudo - do excelente ao execrável. Mas sinto-me agora capacitado para elaborar a tal lista dos dez melhores romances portugueses do século XX: irei divulgá-la aqui em breve, pondo-a em debate.  E eis-me também quase pronto a concluir a dos 25 melhores.

Hoje, primeiro dia deste promissor ano bissexto, quero destacar apenas alguns dos que mais gostei de ler ou reler em 2019, sem cuidar do lugar que lhes estará reservado no nosso cânone académico. Ei-los, por ordem cronológica de publicação: A Sibila, Barranco de Cegos, Montedor, Sinais de Fogo, Para Sempre, Auto dos Danados, O Último Cais e O Vale da Paixão. Cada um por seu motivo, foram dos que mais gostei.

Fica este breve balanço, na expectativa de fornecer boas pistas a quem visita o DELITO e funcionando como incentivo suplementar a mim próprio. Tenciono prosseguir em 2020 o meu plano de leitura: falta-me ainda conhecer cerca de duas dezenas de relevantes obras do século XX. Depois transitarei enfim para este século, mantendo-me ainda na ficção literária portuguesa. Nessa altura será a minha vez de vos pedir sugestões.

 

Leitura complementar:

Com olhos de ler

Ler em férias

Louvor à prosa de Cardoso Pires

Vinte e oito

Leituras

por Pedro Correia, em 28.12.19

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«Pode-se amar totalmente sem tudo compreender.»

Norman MacleanPassa Lá um Rio (1976), p. 143

Ed. Teorema, 1981. Tradução de Telma Costa

Leituras

por Pedro Correia, em 25.12.19

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«Esquecer é não ter sido.»

Mário de Sá-CarneiroA Confissão de Lúcio (1914), p. 110

Ed. 11/17, 2011. Colecção Biblioteca Mário de Sá-Carneiro, n.º 1

Leituras

por Pedro Correia, em 23.12.19

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«A esperança tem de ser colhida na devida hora.»

Miguel TorgaVindima (1945), p. 64

Ed. Círculo de Leitores, 2001. Colecção Obras Completas de Miguel Torga

Leituras

por Pedro Correia, em 21.12.19

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«Se houvesse só uma estrela no céu, os homens matavam-se todos uns aos outros cá em baixo.»

Almada NegreirosNome de Guerra (1938), p. 240

Ed. Edições Europa, Lisboa, 1.ª ed, 1938. Colecção de Autores Modernos Portugueses, n.º 1

Que livros mais gostaram de ler?

por Pedro Correia, em 17.12.19

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Um ano está quase a chegar ao fim.

É o momento de vos perguntar que livros gostaram mais de ler em 2019. De qualquer género - ficção, ensaio, poesia, memórias, biografia.

Depois de saber que títulos elegeram, também eu vos darei nota das minhas melhores leituras entre Janeiro e Dezembro.

Leituras

por Pedro Correia, em 16.12.19

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«A sorte é um vento que sopra sempre a favor do mais forte.»

Alves RedolBarranco de Cegos (1961), p. 139

Ed. Portugália, 1.ª ed, 1961. Colecção Contemporânea, n.º 29

Leituras

por Pedro Correia, em 14.12.19

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«A vida, ainda que nos espante, é um misto incompreensível de amor e ódio.»

José Rodrigues MiguéisA Escola do Paraíso (1960), p. 172

Ed. Estampa, 6.ª ed, 1984

Uma fenda na muralha

por Pedro Correia, em 11.12.19

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Há trabalhos académicos a que falta a fluidez e a capacidade narrativa do bom jornalismo. E há textos jornalísticos a que falta o rigor e o aprofundamento temático que costumamos associar à investigação académica. O ideal é que rigor e fluidez de escrita surjam em simultâneo, embora isto suceda muito menos vezes do que se imagina.

Joana Reis, jornalista de política da TVI e doutorada em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica, supera este duplo desafio com assinalável sucesso num ensaio sobre a figura de Humberto Delgado centrado na campanha presidencial de 1958 sob o título Uma Campanha Americana. Arguta definição de um momento irrepetível na política portuguesa, quando a aparente solidez do salazarismo foi abalada até aos alicerces por uma figura que servira o regime nas três décadas anteriores.

Humberto Delgado fora um dos tenentes do 28 de Maio, pioneiro da Força Aérea portuguesa, o mais jovem general do seu tempo e um salazarista devoto. O fundador do Estado Novo confiou-lhe missões importantes e delicadas, como a negociação com Londres para a cedência da pista das Lajes, nos Açores, às forças aliadas em plena guerra mundial e a criação da TAP no ano em que o conflito bélico terminou. A troca de correspondência entre ambos revela uma relação próxima e até de relativa cumplicidade ao longo dos anos, com Salazar no papel de confidente das frequentes queixas do irrequieto oficial-general, em tudo oposto à deliberada placidez do ditador.

Por interesse próprio ou conveniência política, Salazar manteve Delgado longe do País durante os decisivos anos do pós-guerra. Primeiro no Canadá, onde representou Portugal na Organização da Aviação Civil Internacional, depois nos Estados Unidos, onde exerceu funções de adido militar e aeronáutico na nossa embaixada em Washington, membro do Comité de Representantes da NATO e chefe da missão militar nacional junto da Aliança Atlântica. Nessa década que decorreu entre 1947 e 1957, o antigo comissário-adjunto da Mocidade Portuguesa e ex-adjunto militar do Comando Geral da Legião Portuguesa alargou os horizontes políticos e converteu-se à democracia liberal. Esta metamorfose teria tradução prática no inesperado anúncio da sua candidatura à Presidência da República, em Abril de 1958 – a maior fenda jamais registada na muralha salazarista, que não voltou a ser a mesma.

 

28 dias na estrada

 

Joana Reis fez uma meticulosa investigação para sustentar a tese da “campanha americana” que dá título à obra. E fundamenta-a após ter passado em revista os discursos, as palestras e os apontamentos do general, as listas dos seus apoiantes em todas as regiões do País e até nas então chamadas províncias ultramarinas. Correspondência, relatórios, panfletos, artigos e recortes da imprensa portuguesa e estrangeira forneceram também base documental ao livro.

Salazar viria a chamar «génio da agitação» a Delgado, que virou o País do avesso nos 28 dias em que andou na estrada, ganhando o cognome de “General sem medo”. Nada comparável às anteriores campanhas da oposição, protagonizadas por vetustos militares que acabavam por desistir antes do escrutínio, alegando falta de condições políticas para chegar às urnas.

Uma Campanha Americana descreve em pormenor o contexto nacional e internacional da época, as complexas negociações de bastidores nas fileiras da oposição até o nome de Delgado se tornar consensual e a determinação do candidato para superar as infindáveis barreiras impostas pelo regime, incluindo a detenção de vários dos seus apoiantes às ordens da polícia política e a proibição do registo das acções de campanha na Emissora Nacional e na RTP. Ao ponto de não haver arquivos sonoros dos comícios captados por microfones jornalísticos e a única imagem televisiva do general, sem som, ser a do próprio momento em que votou, a 8 de Junho de 1958.

 

Campanha «de ar livre»

 

Mesmo com todas estas restrições, ele soube fazer a diferença. Enquanto o candidato oficial do regime, Américo Thomaz, se confinava a três sessões de esclarecimento à porta fechada no decurso da campanha, em Lisboa, Porto e Coimbra, Delgado percorria cidades em automóvel aberto ou de comboio, com paragens em diversas estações onde falava de modo espontâneo a quem acorria ao seu encontro.

Foi «uma campanha de ar livre, de estilo quase incendiário», como anota a autora, remetendo o leitor para a fonte de inspiração: as presidenciais norte-americanas de 1952 e 1956, protagonizadas com êxito pelo candidato republicano, Dwight Eisenhower – ele próprio um general. Delgado acompanhou estes processos eleitorais, enquanto residente nos Estados Unidos: foram momentos fundacionais do marketing político moderno, onde não faltavam banhos de multidão concebidos para a propaganda em cartazes, fotografias, filmes e programas televisivos.

Isto aconteceu então à modesta escala portuguesa. E a originalidade do livro – que tem por base a tese de doutoramento da autora, em 2018 – é detalhar a paradoxal influência americana num movimento em que socialistas e até comunistas ocupavam lugares de destaque. Estes últimos, cumpre sublinhar, só após ultrapassarem a aversão inicial que lhes merecia alguém a quem chegaram a chamar “General Coca Cola”.

 

Figuras tão diferentes como o jornalista Raul Rêgo, o escritor Manuel Mendes e a locutora da RTP Maria Armanda Falcão (mais tarde muito conhecida pelo pseudónimo Vera Lagoa) ocuparam postos destacados nesta campanha, inédita a vários títulos: foi a primeira em Portugal a incluir serviços de imprensa com ligação permanente aos jornais, a produzir comunicados a um ritmo diário e a contar com especialistas em escrever discursos, a que Delgado punha depois o seu cunho muito pessoal. Teve ainda sedes localizadas em locais estratégicos das maiores cidades (a de Lisboa estava a meio da Avenida da Liberdade, com um enorme retrato do general na fachada), edição de bilhetes-postais propagandísticos e pagamento de tempos de antena no Rádio Clube Português – neste caso de curta duração, devido às pressões políticas. Além de popularizar slogans de campanha, como «O medo acabou».

Tudo isto alicerçado em acções de angariação de fundos que já prenunciavam os movimentos actuais de crowdfunding para financiar movimentos sociais e políticos. Apesar de o candidato contar com donativos de conhecidos empresários e personalidades ligadas à banca, como Tomé Feteira, de Vieira de Leiria, e Cupertino de Miranda, de Famalicão.

«Para fazer as refeições ou pernoitar, Delgado escolhe ficar no melhor e mais conhecido hotel da região, o que indicia que se está perante um candidato de prestígio. (…) O facto de aparecer nas localidades num carro aberto, descapotável, a acenar à multidão, é também uma imagem recorrente nos líderes do século XX», anota a jornalista. Em certas cidades e vilas, esta imagem foi tão marcante que décadas depois o rasto da sua passagem ainda por lá perdurava na memória colectiva.

 

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Humberto Delgado votando em 1958: único momento que a RTP documentou

 

No seu estilo impetuoso e teatral, Delgado jogava aqui a cartada de uma vida, surdo aos apelos à precaução. Em seu redor não faltava quem o aconselhasse a «manter um tom cauteloso e não radicalizar o discurso»: ele procedeu ao contrário, como ficou visível na conferencia de imprensa – também à americana – no café Chave d’ Ouro, a 10 de Maio, perante um batalhão de repórteres portugueses e correspondentes estrangeiros. Quando apontou, alto e bom som, a porta de saída a Salazar: se fosse eleito, «obviamente», iria demiti-lo.

Nada voltaria a ser o mesmo na vida deste homem tocado pela tragédia. De tudo isto nos fala também Joana Reis ao conduzir-nos estrada fora pela campanha que electrizou um país atónito. Contra ventos e marés – desde a oposição deliberada de governadores civis em ceder espaços para as concentrações políticas até à impossibilidade de fiscalizar cadernos eleitorais na maioria das mesas de voto. Onde o braço do regime afrouxou, os resultados reais vieram à tona: foi o caso do distrito de Santarém, onde Delgado obteve a melhor média percentual a nível nacional e até a vitória em vários concelhos (Alcanena, Almeirim, Alpiarça, Cartaxo, Rio Maior e a sede do distrito). Bastou o governador civil, engenheiro Castro Reis, ter cumprido o dever de isenção que a consciência lhe ditou, em raro exemplo de cidadania.

 

Como salienta a autora, num registo que permanece imune à tentação de proselitismo político ou ideológico, «não é possível determinar com exactidão os resultados oficiais das eleições presidenciais, dada a amplitude da fraude», iniciada no próprio recenseamento eleitoral. Mesmo assim, os números oficiais atribuíram a Delgado quase 25% neste escrutínio. No ano seguinte, com uma revisão constitucional de emergência, Salazar punha fim às eleições presidenciais por sufrágio directo. Já Delgado se exilara no Brasil.

«Eu ando sempre num carro descoberto, a mostrar-me. Não tenho medo de ser assassinado», declarou o general em entrevista ao Daily Mail publicada no auge da campanha, a 3 de Junho de 1958. Havia algo de premonitório nestas palavras de aparente desassombro. Como se adivinhasse que tombaria vítima de uma cilada cobarde, longe da multidão que o vitoriara nas ruas, menos de sete anos depois.

 

............................................................... 
 
Uma Campanha Americana, de Joana Reis (Tinta da China, 2019). 310 páginas.
Classificação: ****

Leituras

por Pedro Correia, em 10.12.19

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«A generosidade não é própria dos ricos, mas dos felizes.»

Agustina Bessa-LuísAs Pessoas Felizes (1975), p. 172

Ed. Relógio d' Água, 2019

Livros que inspiram viagens (1)

por Paulo Sousa, em 10.12.19

No ano de 2017 juntamente com o meu irmão e dois outros amigos adquirimos um carro com várias décadas de existência para fazer uma viagem da qual dificilmente regressaria. A elevada cilindrada movida a gasolina era uma combinação que o tornava desinteressante do uso diário mas perfeito para ser usado durante pouco mais de uma semana por ano.
A ideia inicial era visitar os países da ex-Jugoslávia, deixa-lo estacionado num local a definir, regressar a casa e, no ano seguinte continuar a viagem para leste. Sem destino final estabelecido.
Olhando para a ideia que conseguiu agregar as vontades suficientes, como se fosse difícil aliciar as pessoas em causa para mais uma viagem, fazia sentido começar o projecto na extremidade ocidental da Eurasia.
Assim, umas semanas antes do dia em que seguimos definitivamente para leste, fomos experimentar a máquina e visitar o Cabo da Roca. O primeiro almoço foi na Ericeira, na Tasca da Boa Viagem, que nos pareceu adequada à situação.
Faltava apenas um nome para o projecto e esse foi inspirado no JR da matricula. Podia ter sido a viagem do Júnior, mas acabou por ser a viagem do Jairzinho – e aqui importa sublinhar que neste tempo a presidenta ainda não tinha sido impichada, pelo que não se ponham a interpretar afinidades com o actual presidente do país irmão.
O grande dia chegou e seguimos sem paragens nem dormidas até entrar na Eslovénia. Aqui rumamos para sul tentando passar pelos clássicos de cada um destes países, grutas de Škocjan, Ljubliana, Plitvice já na Croácia, Krka (menos conhecido mas mais espectacular e muito menos lotado que Plitvice), Mostar e Sarajevo, já na Bósnia.
Pouco a pouco confirmava-se a espessura histórica e cultural destas paragens. Num jantar bem regado com vinho da Dalmácia e com acabamento de várias demãos de rakia – uma irreverente aguardente balcânica – concluímos que estávamos numa região que tinha história a mais e vogais a menos. Bastava tentar ler o nome da federação Srpska da Bósnia para concordar com esta tirada.
A paragem seguinte foi especial, Visegrado. A ponte desta cidade inspirou o nobel jugoslavo Ivo Andić no seu livro “A ponte sobre o Drina”. Foi após este livro ter circulado pelas mãos dos quatro companheiros de aventuras que a ideia da viagem surgiu. O livro desencadeou a viagem assim como o post do Pedro de há dias desencadeou este texto.

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Por mais cortes que tivéssemos de fazer na viagem para a ajustar ao calendário e às vicissitudes que surgissem, teríamos de atravessar esta ponte a pé e de nos sentar na sua esplanada. A ponte mandada construir pelo Grão-Vizir Mehmed-Paxá foi, ao longo dos seus mais de quatro séculos de existência, palco de inúmeros episódios históricos e de figuras soberbamente descritas por Andrić.
Este livro, que recomendo, cujo relato termina antes da constituição da Jugoslávia, mostra quão elaborada e turbulenta foi a história por estas paragens. Quantos impérios por aqui passaram, quantas etnias subjugaram e foram subjugadas e também coexistiram, mas também quantas religiões, alfabetos e ideologias aqui deixaram a sua marca. Para nós foi graças a este livro que a percepção desta realidade se revelou. Mostar e Sarajevo, não só mas também pela sua história recente, são testemunhas disso.

Uns quilómetros mais adiante foi na Macedónia que encontramos a maior mistura de identidades, religiões e alfabetos. Não foi por casualidade que os chefs franceses escolheram o nome deste país para dar o nome à salada que mais ingredientes tem misturados. Ali encontramos outdoors publicitários em alfabeto cirílico, grego e até em latino, assim como templos muçulmanos, ortodoxos de obediência grega, russa, sérvia e até católicos. Tudo isto numa capital, Skopje, em que parece haver mais estátuas que habitantes. Se há um sítio, agora país, que se pode dizer parecer ter saído da máquina de lavar da história, esse país é a Macedónia.

Mas antes disso, ainda no Montenegro, vivemos um episódio que merece outro post que um destes dias escreverei.


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