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Delito de Opinião

A insuportável birra do derrotado

«Até breve» não, Pedro Nuno Santos: até nunca

Pedro Correia, 29.05.25

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Conduziu o PS à maior derrota de sempre, vendo o seu partido ultrapassado pelo Chega. Movido pelo ódio a Luís Montenegro, apostou tudo em derrubar o primeiro-ministro invocando o chamado "caso Spinumviva", que os portugueses olimpicamente ignoraram. Fez orelhas moucas aos avisados conselhos que os membros do seu próprio núcleo duro lhe deram para não precipitar o país em eleições antecipadas que ninguém desejava e que auguravam o pior para os socialistas.

Depois de perder 900 mil votos, 20 pontos percentuais e mais de metade dos deputados em duas eleições para a Assembleia  da República em anos sucessivos (o PS tinha 120 deputados em 2022, baixou para 78 em 2024 e só tem 58 agora), depois de ver a AD liderada por Montenegro ultrapassar em assentos no hemiciclo todos os partidos da esquerda, confirma-se desde ontem, com o apuramento dos votos da emigração: os socialistas foram ultrapassados pelo Chega, sendo relegados para um inédito terceiro posto na hierarquia parlamentar.

Nunca antes tinha acontecido - nem com Mário Soares, nem com Vítor Constâncio, nem com Jorge Sampaio, nem com António Guterres, nem com Ferro Rodrigues, nem com José Sócrates, nem com António José Seguro, nem com António Costa.

 

E no entanto como reagiu Pedro Nuno Santos na noite eleitoral, confrontado com esta hecatombe? Como insuportável menino birrento e mimado. Sem um mea culpa, sem o reconhecimento de um erro, sem admitir que falhou em toda a linha, conduzindo o partido para uma espécie de beco sem saída.

Enredou-se em patéticos auto-elogios. Incapaz sequer de pronunciar a palavra derrota.

 

Parecia vogar num universo paralelo, escutando apenas hossanas de vassalos e os solos de violino dos aduladores (incluindo vários jornalistas) que o elegeram como campeão dos debates eleitorais nas legislativas em que fracassou. Esta análise detalhada do Pedro Santos Guerreiro não deixa lugar a dúvidas: há uma discrepância cada vez maior, em Portugal, entre quem vota e quem comenta nas televisões

Vale a pena lembrar aqui, para memória futura, as palavras de Pedro Nuno Santos. Estava tão fora da realidade, na noite de 18 de Maio, que quase parecia ter sido ele a sair vitorioso destas eleições.

Recordo-as nos parágrafos que se seguem.

 

«Honrei a história do partido.»

«Tenho muito orgulho no trabalho que fizemos.»

«Foi uma campanha alegre, entusiasmada, com a participação dum partido que estava unido, a apoiar-me.»

«Nós não provocámos estas eleições. Fizemos tudo quanto estava ao nosso alcance.»

«Luís Montenegro não tem a idoneidade necessária para o cargo de primeiro-ministro e as eleições não alteraram esta realidade.»

«[Montenegro] lidera um governo que falhou a vários níveis no último ano.»

«Eu nunca poderia ser suporte deste Governo. Acho que o PS também não deveria apoiar alguém que não soube separar a política dos seus negócios.»

«Como disse Mário Soares, só é vencido quem desiste de lutar - e eu não desisti de lutar. Até breve e obrigado a todos.»

 

Em suma, levou com um piano de cauda em cima da cabeça e mesmo assim parece não ter aprendido nada. Merece, portanto, o que lhe aconteceu. Espero ao menos que no PS tenham aprendido com este fracasso.

Se assim for, terão de começar logo por isto: até breve, não. Até nunca.

As marés vão e vêm

Paulo Sousa, 21.05.25

Lembro-me bem da comédia que foi a geringonça para os socialistas. Então vocês não sabiam que o nosso regime é parlamentar? Não se vota para escolher o primeiro-ministro! Ah, vocês não sabiam! Mas pronto, agora já sabem. Cumprir as regras não escritas do regime? Para quê? O António Costa é que sabe andar nisto. Agora têm de amochar na oposição. É assim! Chama-se democracia. Embrulhem!

Escarnecer do adversário derrotado em democracia é muito mais civilizado do que o desmanche em postas em voga na Idade Média ou o fuzilamento como no caso da Fatah, mas as tradições de uma democracia decente devem ser respeitadas.

O apoucamento a que nos idos de 2015 a direita foi sujeita fez parte do jogo democrático, mas foi acrescido de uma taxa de arrogância razoavelmente elevada. Quantos dos que agora votaram Chega fazem parte dos que então tiveram de assistir à petulância dessa esquerda perante o montar da geringonça?

O algoritmo do Facebook de então ainda não o tinha tornado na rede social dos velhos. Lembro-me bem dos emojis sorridentes por todo o lado. O Passos para aqui, o Vítor Gaspar para ali, o escurinho até se portou bem, o irrevogável já foi, acabaram-se as maldades e a página da austeridade foi virada. Os resultados no estado dos serviços públicos e no estado do regime estão à vista

Não podemos despir ninguém da sua natureza humana, mas devíamo-nos lembrar que o pêndulo da história pode ser lento, mas é tão certo como a baixa-mar que se segue à maré cheia. Ventura e os seguidores da seita religiosa que fundou deviam lembrar-se disso. Importa saber perder, mas também é preciso saber ganhar, e isto não é exclusivo da política.

O espalhafato a que temos assistido nos últimos dias já está a render. Não sabemos quanto tempo durará a maré deles, mas lá chegará o dia em que os que agora escarnecem ficarão sem saber o que dizer às câmaras.

Confesso que também me alegrei com os afrontamentos do PS, não tanto pela menopausa em que parece ter entrado, mas pelo esbardalhamento do macho-alfismo que há muito exibiam - o wokismo que tanto proselitavam permite-me este jogo de palavras. É como se tivessem levantado voo no tempo de José Sócrates, conseguido fingir que iam em velocidade de cruzeiro com Costa e agora tivessem espetado os queixos no chão pela mão de Pedro Nuno Santos. Os resultados do dia 18, entre outras coisas, mostraram-nos que ripas a fingir que são tábuas nunca serão asas e as vacas nunca serão capazes de voar.

O caminho que o centrão agora enfrenta é muito estreito. Os erros acumulados durante décadas, em especial nos últimos anos, retirou-lhe qualquer margem de erro. Sem reformas substantivas e em prazo curto, tudo parece apontar para que o Chega venha a ser poder. Depois de Ventura mostrar que é tão incompetente como os outros e quão incapaz é o seu grupo parlamentar, rapidamente regressará à expressão que merece. Gostava de saber quem é que têm para preencher um Conselho de Ministros? É o tipo das malas para a Administração Interna? O Tânger Correia para os Negócios Estrangeiros? A Maria Vieira para a Cultura? O outro que angariava prostitutos menores on-line para a Educação? Espero estar enganado, mas cheira-me que aqueles que hoje batem com a mão no peito contra a privatização da RTP, um destes dias poderão ficar muito preocupados com o poder discricionário que o seu Conselho de Administração tem.

Esse dia chegando, o estrondo será inevitavelmente grande, mas já cá andamos vai para 900 anos e se já aguentámos (tivemos de aguentar por escolha de muitos) com José Sócrates, também aguentaremos com o “Escolhido por Deus para Salvar Portugal”. Livrar de isso coincidir com uma guerra.

A Mortágua

Pedro Correia, 21.05.25

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Acaba de conduzir o partido fundado em 1999 ao pior resultado de sempre, perdeu 80% dos deputados, viu desaparecer um grupo parlamentar que chegou a ocupar 19 lugares em 2011 e 2015, com Catarina Martins. E mesmo assim ela levanta o punho como se estivesse pronta a assaltar o Palácio de Inverno, a juntar-se aos barbudos na Sierra Maestra ou a erguer barricadas contra Franco em Madrid.

É a Mortágua. Protagonista de um filme do qual não entende o essencial do enredo: o Bloco de Esquerda acabou. 

Amores e ódios de Ana Gomes

Pedro Correia, 20.05.25

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SIC Notícias, 9 de Maio de 2025

 

Quando se fala em vencedores e derrotados nesta eleição legislativa, não devem ficar esquecidas aquelas figuras que pontificam na tribo comentadeira debitando frases ao sabor da clubite mais fanática. Até pode ter graça de vez em quando, mas nunca em período eleitoral.

Infelizmente aconteceu. Na noite de 9 de Maio, por exemplo, foi possível vermos a socialista Ana Gomes brindar o líder do seu partido com submissa vénia em forma de nota máxima (dez) enquanto varria a zeros Luís Montenegro e Rui Rocha, adversários políticos desta frenética "activista" da pantalha. 

Nada disto é sério. Nada disto credibiliza a informação televisiva, que tem no comentário um dos seus pilares. Nada deste comportamento de claque futebolística forma e estimula a cidadania. Pelo contrário, estas notas enviezadas e movidas pelo ódio mais rasteiro a quem pensa de maneira diferente são uma fraude. Que devem merecer esta palavra, não qualquer outra, mais suave e fofinha. 

Derrotados

Sérgio de Almeida Correia, 19.05.25

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(créditos: Meiline Gonçalves, Madre Media)

PS: É o maior derrotado destas eleições. No curto espaço de dois anos o PS passa de uns confortáveis 41,37%, que correspondiam a um grupo parlamentar de 120 deputados e a mais de 2 milhões e 300 mil votos, para 23,38%, que são menos de 1 milhão e 400 mil votos e apenas 58 deputados. Na melhor das hipótese ainda irá aos 59 depois de se apurarem os resultados da emigração. Em 2024 o PS  havia perdido 489 mil votos. Ontem perdeu mais 417 mil. Em Lisboa livraram-se de mais de 65 mil votos. Em Setúbal voaram mais de 35 mil. Em Aveiro, por onde entrava o líder, desapareceram cerca de 27 mil votos. Em Faro foram mais de 13 mil votos que se evaporaram em 12 meses sob a liderança daqueles crânios e daquela brilhante lista que se apresentou a eleições. Provou-se que um partido capturado pelo moribundo, e mais do que sinistro, aparelho de funcionários, apparatchiks e fedayins incompetentes, vindos da JS e do socratismo, não tinha nada para apresentar ou oferecer aos portugueses. Não havia discurso, propostas credíveis e actuais, um mínimo de inteligência e um discurso coerente. De norte a sul levaram nas lonas. No Algarve voltaram a ser humilhados pelo Chega. Levaram bordoada da grossa. Levaram bem. Pode ser que aprendam e tenham a humildade de passar a ouvir os outros, de aprender alguma coisa. Pedro Nuno Santos, Augusto Santos Silva, Carlos César, estavam todos a precisar, há muito tempo, de uma boa esfrega. Desta vez levaram com uma escova de piaçaba no lombo. Pode ser que o partido e os seus militantes agora acordem, se livrem desta gentinha que tomou conta dele. A "golpada" para evitar directas abertas na escolha do líder e afastar José Luís Carneiro da liderança, mantendo a tralha, obtém agora o justo prémio. O próximo líder vai ter muito que fazer para limpar a casa e reabilitar o PS, começando por correr com o actual presidente que, violando os estatutos e o seu dever de isenção, apoiou o líder derrotado nas eleições internas. A alternativa será prosseguir o percurso para a insignificância e dar cabo do que resta da herança de Soares. E nas próximas eleições o PS precisará de se descartar daquele arremedo de bancada parlamentar feito de chicos e flausinas à imagem do líder derrotado e que é de meter medo ao susto. Há que mandá-los, à maioria, estudar e trabalhar. E quanto a Mariana Vieira da Silva, Ana Catarina Mendes ou Alexandra Leitão, se têm, ainda, veleidades quanto à liderança do partido, o melhor é ganharem juízo. Quem trouxe o PS para este miserável atoleiro político e ideológico não pode ter lugar em qualquer direcção. A não ser para atrapalhar.

 

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(créditos: João Relvas/LUSA)

BE: O BE andou a discutir com o PS o primeiro lugar da estupidez política. Os seus eleitores não o pouparam. A sua liderança ainda se lembrou, à vigésima quinta hora, de ir buscar a brigada dos gerontes vermlehos para as listas – Louçã, Rosas, Fazenda –, sem perceber que o país se cansara deles e que não acrescentavam nada para a resolução dos seus problemas. Ficaram reduzidos a um deputado, pouco mais de 100 mil votos. Tiveram o fim que mereciam para a sua pesporrência. Em 2023, Mariana Mortágua queria “Levar o país a sério”. Dois anos depois os portugueses não a levaram a sério. Os eleitores não são estúpidos.

 

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(créditos: Manuel de Almeida/LUSA)

CDU:  Pouco há a dizer da CDU. Continua a sua irreversível descida rumo à total insignificância. Não aprendeu nada em democracia e ainda anda à procura do que resta do Muro de Berlim. António Filipe deve voltar à assessoria parlamentar. Nos seus antigos bastiões alentejanos mandam agora os “fascistas” e “latifundiários” do Chega. Com o voto popular. Será certamente doloroso para a maioria das suas aventesmas, apesar de poder servir como despertador para a realidade, o que, em todo o caso, duvido. Quem não aprendeu até agora, nunca irá aprender. Menos ainda com os exemplos dos seus amigos cubanos, venezuelanos ou norte-coreanos.

 

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Manuel Castro Almeida:  O PSD voltou a não conseguir eleger nenhum deputado em Portalegre, onde a lista era liderada pelo ministro-Adjunto e da Coesão Territorial. Foi um dos rostos que mais vigorosamente defendeu Montenegro nas trapalhadas da Spinumviva. Pode continuar no Governo, não se livra desta pesada derrota numas eleições em que o seu partido e a coligação que integrava conseguiram em Portalegre cometer a proeza de ficar atrás do Chega e de um PS que perdeu em toda a linha.

 

SIC - Taxa de abstenção nas eleições legislativas foi a mais baixa dos  últimos 30 anos | Facebook

ABSTENÇÃO: Foi uma lição dos eleitores que normalmente não vão às urnas. Uma redução de 40,16% para 35,62% é sinal de que ainda há quem se interesse por Portugal. Apáticos só até certo ponto. [Actualização: na redacção desta nota baseei-me nos dados disponiblizados pela LUSA, SIC, Público. No entanto, os valores diferem do que consta do site da CNE. acho estranho que haja uma diferença tão grande. Se a CNE estiver correcta, a abstenção subiu. Todavia, aguardarei pelos resultados finais já com os círculos da emigração]

Vencedores

Sérgio de Almeida Correia, 19.05.25

111.webp(créditos: Tiago Miranda/Expresso)

AD (PSD/CDS-PP): Venceu duas vezes as eleições legislativas no espaço de um ano, aumentando em mais de 137 mil os seus eleitores. Estão agora à beira dos 2 milhões quando ainda faltam contar os votos dos círculos da emigração. Não é um grande resultado, e é ilusório, visto que continua a depender de terceiros para governar com condições estáveis. De qualquer modo, a coligação reforçou a sua base eleitoral, saindo com legitimidade acrescida das trapalhadas do último ano. Não será garantia de boa governação, do fim dos problemas de Montenegro, nem da introdução de melhorias substanciais no que já estava mal, atenta a equipa que se apresentou a votos. Mais um ano de governo pode ajudar a consolidar ganhos eleitorais e permitirá ganhar algum tempo em termos governativos, tanto na formação da nova equipa como na prossecução das políticas anteriormente definidas e que não deverão ser alvo de grandes mudanças. Entretanto, o homem da gasolineira pode aumentar a avença da “pequena empresa familiar” e Montenegro reabilitar o amigo Hernâni Dias. Há negócios que vêm por bem. Quanto ao mais logo se verá até onde irá a navegação à vista de costa.

 

222.webp (créditos:  Pedro Nunes/Reuters)

CHEGA: É segundo vencedor destas eleições. Em relação a 2022, o Chega passou de menos de 400 mil votos para mais de 1.345.000. É uma subida impressionante e com expressão a nível nacional. Do ano passado para este ano aumenta em 8 o número de deputados e atingiu praticamente a dimensão eleitoral do PS. O reforço eleitoral não é apenas o resultado do voto de protesto, representando antes uma opção consciente do eleitorado que entendeu dever continuar a castigar, pese embora a ausência de alternativas de governo, os partidos e forças tradicionais e subscrever o seu apelo. Não será pelo facto de lá terem no rebanho algumas ovelhas pouco recomendáveis que o seu eleitorado voltará, alguma vez, a render-se às actuais lideranças do PS ou do PSD. E enquanto assim for André Ventura poderá seguir tranquilo e continuar a fazer o que sempre fez, lançando a confusão e capitalizando com ela.

 

Imagem do historiador e político Rui Tavares

(créditos: FFMS)

LIVRE:  Aumenta em 50% o seu grupo parlamentar, ganha quase 50 mil novos eleitores. Rui Tavares continua a fazer passar a sua mensagem, sem que tal constitua qualquer garantia de futuro e de crescimento. Noutras condições, com um PS forte poderia ter uma voz em termos governativos. Assim, de pouco serve, apesar de se esperar uma intervenção parlamentar mais forte, mais esclarecida, europeia, civilizada e equilibrada, o que será sempre de saudar e se pode revelar muito importante na criação de pontes dentro de um parlamento crispado e ainda mais fragmentado.

 

333.jpg(créditos: Homem de Gouveia/LUSA)

JPP:  Conquistou um deputado em S. Bento. O resultado não tem qualquer relevância. O partido representa 0,34% dos votos que contam; são 20 mil eleitores perfeitamente localizados e sem expressão nacional. Contribuirá para o charivari parlamentar, acentuando a sua vertente regional.

Velocidade furiosa rumo ao abismo

Pedro Correia, 18.05.25

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«Temos de fazer a preparação imediata para eleições para o ano. Isso é bem possível. Não me parece que haja uma solução de durabilidade.»

Ana Gomes, esta noite, na SIC. Comentando o resultado da eleição legislativa em que o PS sofre a maior derrota eleitoral em 40 anos. A tentação de caminhar em velocidade vertiginosa rumo ao abismo é fortíssima entre vários socialistas - a começar por ela.

O Almirante

Pedro Correia, 15.05.25

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Henrique Gouveia e Melo deu uma entrevista à Rádio Renascença em que anuncia o lançamento formal da sua candidatura a Presidente da República para o próximo dia 29. Desatou tudo aos gritos na tribo comentadeira. Porque esse anúncio «perturba a campanha eleitoral» em curso. Gritam até os membros dessa tribo que passam os dias a clamar contra a campanha, brindada com epítetos pejorativos - "vazia", "inútil", "folclórica", "nada esclarecedora", etc.

Ontem nem faltou quem se alarmasse com a data, associando-a ao 28 de Maio de 1926, algo que roça o delírio conspiranóico. Oiço e leio coisas como estas e concluo, cada vez com menos dúvidas cinco anos depois da pandemia: o covid-19 causou sérios transtornos à saúde mental dos compatriotas.

 

Enquanto rasgam as vestes perante o lacónico anúncio de Gouveia e Melo, não esboçam o menor reparo ao pré-candidato presidencial Marques Mendes por fazer declarações quase diárias sobre a situação política.

Parecem incapazes de reparar na evidente duplicidade de tratamento mediático: chumbo para um, afago para outro.

É tiro que faz ricochete: sem querer, estes comentadores ampliam a popularidade do visado. Enquanto lhe recomendam, com soberba intelectual, que leia a Constituição da República, sobretudo no capítulo dos poderes do Chefe do Estado. Como se ele precisasse.

 

Iludidos com a espuma dos dias, mostram-se incapazes de vislumbrar o essencial: o quadro contemporâneo, português e mundial, favorece mutações no xadrez político. Se os actuais impasses persistirem, uma candidatura vitoriosa do Almirante propiciará a formação de um partido presidencial a partir do Palácio de Belém.

Não faltam precedentes, nacionais e estrangeiros. Ramalho Eanes fez o mesmo na recta final do seu mandato, na década de 80, entre acusações de bonapartismo que hoje já quase ninguém recorda. Em 2017 Macron protagonizou, com sucesso, algo semelhante em França. A propósito, convém prevenir os mais distraídos: as mudanças no quadro partidário português estão em marcha há uma década. Mais de um quarto dos actuais deputados (27,3%) integram forças políticas de formação recente.

Apertem os cintos de segurança. Pode haver muita turbulência.

Extrema-esquerda pseudo-ambientalista

Pedro Correia, 13.05.25

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Campanha eleitoral para as legislativas. Um líder partidário - Rui Rocha, da Iniciativa Liberal - discursa num comício. De repente sobem ao palco duas pessoas que o interpelam, despejando-lhe pó verde na cara e na roupa.

São «jovens activistas ambientais», apressam-se a escrever os periódicos. Em uníssono. Em tom fofinho.

«Rui Rocha atingido com pó verde por activistas climáticos», titula o Público.

«Rui Rocha atingido com pó verde por a(c)tivistas ambientais», assegura o Jornal de Notícias.

«A(c)tivistas climáticos invadem palco da IL e atiram pó verde a Rui Rocha», diz o Observador.

 

Nenhum jornal usa o termo adequado: extremistas. Da extrema-esquerda pseudo-ambientalista que perverte a nobre causa ecológica pondo-a ao serviço de cartilhas climáticas ultra-radicais. Mesmo com graves atropelos à vida democrática, que implica a livre expressão de ideias, sem coacção de qualquer espécie. 

A defesa do ambiente não pode justificar actos deste género nem atenuá-los no folclore mediático. Enquanto uns encolhem os ombros e outros exibem sorrisos de condescendência. Sem a firme condenação que se impõe.

O primeiro passo para normalizar extremismos é tolerá-los. Sob a capa da juventude. Sob o pretexto do «activismo». Sob a alegação de que agredir e silenciar terceiros se justifica em certas circunstâncias. Com a ilusão de que existem extremismos maus e extremismos bons. Como se nem todos fossem péssimos.

Não se enxerga

Pedro Correia, 06.05.25

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No início da campanha oficial das legislativas, o Presidente da República, passeando despreocupado por Beja, deixou-se fotografar e filmar com André Ventura, que já lhe chamou "traidor à Pátria" e alimentou durante longos meses uma comissão de inquérito na Assembleia da República em que o acusou de "abuso de poder" no chamado caso das gémeas (entretanto morto e enterrado).

Não existem acasos na política. Sabendo isto, observo a indecorosa foto e concluo: este homem não se enxerga. O outro, sem surpresa para ninguém, também não.

Separados pela distância

Pedro Correia, 13.04.25

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Pedro Nuno Santos (ontem, no Porto): «É fundamental que consigamos conciliar quem está preocupado com o fim do mundo com quem está preocupado em chegar ao fim do mês. A transição climática e energética não pode ser feita contra as pessoas, contra as famílias.»

 

Inês Sousa Real (ontem, em Queluz de Baixo): «De repente achei que estava a debater com o Bloco de Esquerda e não com o PS. Vimos Pedro Nuno Santos quase a diabolizar as empresas e a encostar-se mais uma vez à extrema-esquerda.»

Separadas à nascença?

Pedro Correia, 11.04.25

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Mariana Mortágua e Inês de Sousa Real no debate de ontem na CNN Portugal. Mais do que um frente-a-frente, foi um tête-a-tête.

 

O mais relevante diálogo que travaram ocorreu logo a abrir.

Foi assim:

Mariana - Muito boa noite, Inês. Cumprimento-a pela escolha da roupa, que é muito parecida com a minha. Ainda bem, quer dizer que temos bom gosto.

Inês - Cumprimento também a Mariana e felicito-a também pela escolha.

 

Uma de amarelo e preto, a outra de preto e amarelo. Mal se deu pela diferença.

E se as pensões em Portugal fossem geridas por um sucedâneo da dona Branca?

Paulo Sousa, 25.03.25

Charles Ponzi foi um vigarista italiano que ficou famoso por criar um esquema financeiro fraudulento. Nascido em 1882 na Itália, emigrou para os Estados Unidos no início do século XX. Em 1919, lançou um “modelo de negócio” que garantia o reembolso total do valor investido em 90 dias, continuando depois disso a gerar rendimentos. Em vez de investir o dinheiro, os fundos arrecadados aos novos "investidores" serviam para pagar os antigos, criando a ilusão de ser um negócio lucrativo. Não demorou muito até as autoridades descobrirem que ali não existia qualquer investimento, mas apenas uma fraude. Depois de condenado, Charles Ponzi foi preso e mais tarde deportado para a Itália. Ao longo dos anos, muitos casos idênticos foram surgindo, provando que é infinita a capacidade dos crédulos em serem enganados. Por cá, ficou bem conhecido o caso da senhora "muito séria" que dá o nome ao postal.

O sistema de financiamento das reformas em Portugal é designado como sendo contributivo, uma vez que as pensões dos reformados são financiadas pelas contribuições dos trabalhadores activos e assim como pelas respectivas entidades empregadoras. A alternativa seria um sistema de capitalização onde cada indivíduo acumularia uma poupança própria para a sua reforma. O modelo português depende por isso do que é designado por solidariedade intergeracional, uma vez que os trabalhadores actuais financiam as pensões dos aposentados, esperando que no futuro, as próximas gerações façam o mesmo.

Tal e qual como no esquema Ponzi, o sistema contributivo da Segurança Social em Portugal depende da entrada contínua de novos participantes para sustentar as reformas aos mais antigos. Tivéssemos nós uma pirâmide etária efectivamente em forma de pirâmide, ou seja com bastantes mais jovens do que idosos, e o Ponzi poderia respirar fundo durante muitos anos. Como isso não se verifica, não faltarão muitos anos até que o vigarista seja desmascarado.

Os mais crédulos poderão considerar como certas as garantias de António Costa em que a sustentabilidade da segurança social está assegurada por muitos e muitos anos. Mas apesar destas promessas, o Tribunal de Contas, no seu Relatório sobre a Sustentabilidade Financeira da Segurança Social apresentado em Dezembro de 2024, afirma que “a diferença entre as receitas futuras e responsabilidades futuras do sistema de pensões em Portugal é negativa em mais de 228 mil milhões de euros”.

De forma a adiar o dia em que o senhor Ponzi será desmascarado, é inevitável que a idade de reforma seja cada vez mais tardia e os rendimentos auferidos sejam cada vez menores. Segundo a Comissão Europeia, até 2045, os pensionistas portugueses passarão a receber menos da metade do seu último salário!

Este será o legado da geração que instituiu o actual regime aos já nascidos depois daquele dia inicial inteiro e limpo. Setenta anos depois de Abril, a miséria a que os reformados serão relegados envergonhará o país e, não duvido, abalará o regime.

É necessário reformar o sistema de pensões. Em 1999, a Suécia e a Polónia implementaram sistemas mistos, que combinam a vertente de contribuição e de capitalização. Existem outros exemplos internacionais, com diferentes combinações destas duas vertentes, mas antes disso é necessário enfrentar-se o problema e deixar de tratar os portugueses como crianças incapazes de entender a realidade.

Gostaria de ver este assunto debatido na próxima campanha eleitoral. O que pensa cada partido sobre a necessidade de reformar o sistema de pensões? Só se conseguem entender sobre a desagregação de freguesias?