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Delito de Opinião

O que ficou; o que se espera

Sérgio de Almeida Correia, 06.06.11

- Um grupo parlamentar talhado à medida da débâcle e do tenebroso "aparelho" que o manteve à tona, iludido e convencido de si;

 

- Um partido centralizado, acomodado, manietado, silencioso e acrítico, do tipo "Maria vai com as outras", que não honra a tradição republicana e socialista;

 

- Um núcleo subserviente, agarrado como uma lapa à figura do líder e onde qualquer olhar crítico é visto como um acto de rebeldia, de falta de solidariedade e de lealdade para com quem manda;  

 

- Um futuro líder agrilhoado a um conjunto de deputados (nem todos) eleitos em 5 de Junho, que tudo fará para que qualquer alternativa à sucessão saia de um dos seus, obrigando o futuro líder, se quiser aspirar a uma liderança efectiva, a ter de contar com eles, com as suas manobras de bastidores, cliques e egoísmos para reconstruir o partido na Oposição. 

 

É isto que torna tudo mais difícil. E desafiante.

 

Vai haver muito trabalho, muito trabalho mesmo, para quem queira trabalhar, limpar a casa e espera um dia poder voltar a ver uma liderança competente e prestigiada, que saiba ouvir, dialogar e comunicar para dentro e para fora do partido usando a mesma linguagem. Em suma, um líder à altura da tradição e dimensão do partido, capaz de dar esperança aos portugueses e aos militantes anónimos que nele confiam, exigente e responsável.

Um primeiro balanço

Rui Rocha, 05.06.11

Os resultados eleitorais abrem a porta a um Portugal melhor. José Sócrates tornou-se, por demérito próprio, uma presença nociva para o país. Ele é, evidentemente, o principal derrotado nestas eleições. Com ele, Francisco Louçã, um líder que parece ter um promissor passado à sua frente. E estas duas derrotas desanuviam o ambiente político, abrindo agora (no caso de Sócrates) ou mais tarde (no caso de Louçã), espaço para novas lideranças e para a indispensável renovação. Mas estas são umas eleições especiais. Em rigor, o grande vencedor, Passos Coelho, tal como o país, não têm nada para festejar. Para lá do ruído das claques partidárias, está lá fora um Portugal devastado. E um desastre não se festeja. O esforço no sentido de controlar os danos e de reconstruir sobre as ruínas não se compadece com foguetório e espectáculos de variedades. Neste cenário, o próximo governo não terá, desta vez, um minuto de estado de graça. Na verdade, o que o espera, e a nós com ele, é um estado de desgraça que vai exigir que todos sejamos capazes de nos transcendermos.

Votarei Passos Coelho

Rui Rocha, 03.06.11

Ao longo dos últimos meses, José Sócrates, o PS que ele lidera (que não confundo com muitos socialistas) e o seu governo foram alvos sistemáticos dos meus textos.  Não me arrependo de nada do que disse em seu desfavor e penitencio-me por não ter sido ainda mais incisivo. José Sócrates representa muito do que não suporto num ser humano. As dezenas de posts que escrevi sobre o assunto dispensam-me de o aprofundar neste momento. Acredito na honestidade, no trabalho, na exigência, no estudo, na aprendizagem permanente, na colaboração, na responsabilidade, no importância do erro e do seu reconhecimento como forma de superação, na empatia, na compaixão e numa solidariedade efectiva, mas exigente. Não tenho a certeza que Passos Coelho possa conduzir o país no sentido de valorizar estes princípios. Sei que Sócrates nunca o faria. E sei também que Passos Coelho é o único que está em posição de o fazer. Desejo-lhe sorte. Porque a sorte dele será a do país. E exijo-lhe mérito. Pois que o mérito é condição indispensável para quem, por direito, assume a obrigação de servir o país. E daqui lhe prometo que as mãos que o aplaudirem por cada medida acertada serão as mesmas que o hão-de vergastar, tal como aconteceu com Sócrates, se, para nossa miséria, escolher um caminho diferente daquele que o interesse do país impõe. Depois das eleições, a minha vida será a mesma, independentemente do resultado. Portugal, infelizmente, não pode já dar-se ao luxo de continuar a ser o que tem sido até aqui.

A rela

João Campos, 03.06.11

Disse há algum tempo não querer votar no PSD. O pretexto era Nobre, mas não só: apesar de não ter nenhum preconceito contra Passos Coelho (creio que a sua "inexperiência" pode mesmo ser uma vantagem), não gosto particularmente de alguns dos seus acompanhantes - em muitos casos, não me parecem substancialmente melhores que os acólitos de Sócrates. Para além disso, aborrecem-me as oscilações constantes, mesmo reconhecendo que a comunicação social é, em termos gerais, muito sacaninha com o candidato do PSD. Já no CDS, passa-se exactamente o contrário: não simpatizo por aí além com Portas, abomino-lhe a demagogia fácil, mas simpatizo bastante com o partido, e com algumas (excelentes) pessoas que por lá estão. Em circunstâncias normais, nestas eleições o meu voto iria direitinho para o CDS.

Acontece que para mim estas eleições estão condicionadas, digamos assim, por uma particularidade geográfica: o meu círculo eleitoral é em Beja. Com muito gosto, acrescento, pois mesmo vivendo em Lisboa, o Alentejo continua a ser a minha casa. No entanto, Beja elege apenas três deputados. A menos que algo de extraordinário aconteça - algo como um fenómeno do Entroncamento, versão política, situado entre Vila Nova de Milfontes e Mértola -, um deputado neste círculo está garantido para a CDU, outro para o PS; e o terceiro será certamente disputado entre estes dois partidos.

Se a possibilidade de o PSD eleger um deputado por Beja é reduzida - mas existente, os tempos estão estranhos -, então a probabilidade de o CDS conseguir tal feito é tão pequena que nem o acelerador de partículas do CERN seria capaz de a detectar. Se é certo que não votarei à esquerda (a única excepção a esta regra são as eleições para a minha junta de freguesia), resta-me decidir entre um voto útil - no PSD, na vaga esperança de "roubar" um deputado ao PS (e à CDU) - ou um voto mais convicto (falta-me uma palavra melhor, desculpem), mas inútil, no CDS. 

No fundo, o que está em causa nestas eleições não é tanto a eleição dos deputados como a remoção, higiénica e tardia, de Sócrates. Este é o critério fundamental. Obviamente que, para tal, o voto mais lógico em Beja seria na CDU, mas não conseguiria engolir tão grande batráquio. Ficarei com um mais pequeno - uma daquelas relas cor-de-laranja, que espero não se revelar muito venenosa.