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CDS e PSD foram ao tapete

por Pedro Correia, em 08.10.19

Uma boa análise da jornalista Helena Pereira, na edição do Público de hoje, elucida-nos sobre diversos aspectos da eleição legislativa de domingo.

Eis, com a devida vénia, alguns dos aspectos mais relevantes.

 

O PSD tem menos de 20% em 72 concelhos do País.

A lista inclui várias zonas urbanas, designadamente no litoral, com muitos eleitores. Exemplos: Almada, Amadora, Barreiro, Loures, Marinha Grande, Seixal, Setúbal, Sintra, Vila Franca de Xira.

 

Onde o PSD mais perde.

Eis os quatro distritos onde o partido laranja recua em maior extensão: Aveiro, Leiria, Lisboa e Viseu.

 

Quanto é que o PSD perde.

Em relação às legislativas de 2011, anterior escrutínio para a Assembleia da República em que tinha concorrido isolado, o PSD perde agora mais de 700 mil votos (concretamente, 739.189, mas ainda faltam apurar os resultados dos círculos da emigração).

 

CDS abaixo dos 3% em 73 concelhos.

A hecatombe eleitoral não ocorreu apenas nas zonas onde este partido nunca teve verdadeira implantação, nomeadamente no Alentejo. Também aconteceu em grandes municípios, como Amadora, Gondomar, Loures, Maia, Matosinhos e Odivelas. Mesmo em Coimbra, Leiria e Porto fica abaixo dos 4%. O CDS vale hoje apenas cerca de um terço do que valia eleitoralmente em 2011.

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Fora da caixa (27)

por Pedro Correia, em 07.10.19

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«O Bloco de Esquerda cresceu em tantos distritos deste país..

Catarina Martins, ontem à noite

 

Politicamente, a "geringonça" só foi um bom negócio para o PS. O Bloco de Esquerda recuou nas urnas e o PCP teve o pior resultado eleitoral de sempre em eleições legislativas.

Os números aí estão, para demonstrar.

 

Após quatro anos de acordo político entre o PS e os dois parceiros à esquerda, que viabilizaram todos os orçamentos concebidos por António Costa e Mário Centeno, o PCP recua de 8,3% para 6,5%. Perde cinco deputados (tinha 17, agora tem 12, dois dos quais cedidos ao partido-satélite PEV) e vê fugir mais de cem mil votos (em 2015 recolheu 445.900 boletins nas urnas e desta vez não chega aos 330 mil).

Para o BE, estranhamente eufórico na noite de ontem, este escrutínio também evidencia um recuo. Não em número de deputados (mantém os 19 representantes que já tinha), mas em percentagem (perde 0,5%, recuando de 10,2% para 9,7%) e sobretudo em número de eleitores (vê fugirem cerca de 60 mil, baixando dos 550.892 em 2015 para os actuais 492.487).

Só o PS cresce. Em percentagem (mais 4,4%), em número de votos (mais cerca de 120 mil) e sobretudo em deputados (para já são mais vinte, subindo de 86 para 106 ainda antes do apuramento dos círculos da emigração, que atribuem quatro lugares no hemiciclo).

 

Quando derrotou Freitas do Amaral na duríssima campanha presidencial de 1986, Mário Soares deu-se ao luxo de enviar no dia seguinte um enorme ramo de flores à esposa do seu antagonista. Um gesto galante que bem poderia ser agora imitado por António Costa: Catarina Martins não merece menos que isto. E Jerónimo de Sousa justifica pelo menos um generoso cabaz de frutos secos.

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Fora da caixa (26)

por Pedro Correia, em 07.10.19

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«Este resultado é positivo

Rui Rio, há pouco

 

O PSD proporcionou esta noite um espectáculo patético e deplorável aos portugueses, festejando uma pesada derrota eleitoral - a segunda em quatro meses, após as europeias - como se fosse o Real Madrid a vencer a Liga dos Campeões. Numa sala de hotel cheia de militantes a urrar vivas e a aplaudir calorosamente o derrotado.

Com Rui Rio ao leme, o partido laranja obtém o pior resultado deste século em eleições legislativas: 27,9%, só acima das percentagens obtidas em 1976, na primeira eleição para a Assembleia da República (24,4%), e em 1983, no escrutínio que originou o breve Executivo do bloco central (27,2%).

Ao contrário de outra derrotada, Assunção Cristas, que ao princípio da noite anunciou que irá abandonar a presidência do CDS, Rui Rio tenta improvisar uma jangada a partir das tábuas que sobraram do naufrágio do navio. Vai ficar, claro, em desesperada fuga para a frente. Com alguns militantes em delírio idolátrico, proclamou-se vencedor. Derrotou as sondagens, derrotou os jornalistas, derrotou os comentadores, derrotou os piores augúrios. Nivelando-se por baixo a um ponto que mesmo alguns dos seus mais fanáticos seguidores certamente não imaginariam. «O PSD teve o pior resultado de sempre? Não teve», ufanou-se, entre palmas delirantes dos apaniguados que enchiam a sala. Eis o perfeito equivalente, em política, às vitórias morais no futebol.

Tendo alcançado agora o triunfo nas urnas que lhe fugiu há quatro anos, embora distante da maioria absoluta que alguns dos seus panegiristas imaginavam, António Costa só pode ter recebido com imenso agrado a notícia de que Rio permanece imune à devastação no PSD. Com um parlamento atomizado e previsíveis reivindicações acrescidas do Bloco de Esquerda (que, mesmo recuando 0,5%, mantém 19 deputados), o líder socialista precisará provavelmente do aconchego daquele que já foi o maior partido português e hoje se configura como o mais firme aliado a prazo dos socialistas em matérias decisivas da governação.

Se pudesse, também ele estaria naquela sala aplaudindo com fervor o derrotado que agora se agarra ao umbral da porta.

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Sondagens

por João Sousa, em 06.10.19

A TVI começou por anunciar que a abstenção iria ficar entre os 35,41% e 39,41% (como ainda se pode ver pelo endereço do link). Agora mudou: já garante que irá estar entre 43,4% e 47,49%. Das duas, uma: ou alguém na redacção da TVI estava com falta de cafeína, ou alguém da Católica, preocupado com a diferença entre os números que apresentou e os das outras empresas de sondagens, telefonou à pressa para a TVI e inventou outros em cima do joelho para não destoar tanto.

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Fora da caixa (25)

por Pedro Correia, em 06.10.19

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«Em seguida, o eleitor entra na câmara de voto situada na assembleia e aí, sozinho, marca uma cruz no quadrado respectivo da lista em que vota e dobra o boletim em quatro.»

Lei Eleitoral da Assembleia da República, art. 96.º, n.º 4

 

Há dez anos estava no auge a paranóia com a gripe A. Já ninguém se lembra: a memória das pessoas é curtíssima.

Apareciam por toda a parte aqueles desinfectantes de mãos que agora (vá lá saber-se porquê) quase só subsistem na Assembleia da República e as autoridades repetiam até à náusea que havia necessidade imperiosa de termos as mãos sempre desinfectadas. A mania - que sempre considerei absurda - do "passou bem" de mão estendida a qualquer um tornou-se obsoleta.

Furtar canetas era há dez anos actividade de risco. Não de risco policial mas de risco sanitário.

Eu - e nada tem a ver com a gripe, seja de que letra for - recorro à caneta que sempre me acompanha. Nada de confiar em esferográfica alheia: nem imagino que imprestáveis forças políticas aquilo já favoreceu antes de eu lá chegar.

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Fora da caixa (24)

por Pedro Correia, em 05.10.19

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«Aquele que no dia da eleição ou no anterior fizer propaganda eleitoral por qualquer meio será punido com prisão até seis meses.»

Lei Eleitoral, art. 141.º

 

Cá estamos todos a "reflectir". Excepto os 60 mil compatriotas que optaram pela votação antecipada, há uma semana: esses não tiveram direito a reflexão com chancela oficial e 24 horas para o efeito inscritas no granito da lei - confirmando assim que aquele verso da cantiga, «em cada rosto igualdade», é pura treta.

Se o sol nascesse para todos, cada um de nós disporia dum dia inteirinho para reflectir, votasse quando votasse. Verifico que, em flagrante violação dos princípios constitucionais, aqueles mais se apressam a cumprir este relevante dever cívico são afinal penalizados: o Estado que nos pastoreia com os seus códigos e o seu fisco esquece-se deles, trata-os como eleitores de segunda, forçando-os a votar sem o período de reflexão legal que assegura aos restantes cidadãos.

 

Dizem-nos também que este é um dia de abstinência política, em evidente sucedâneo dos ancestrais jejuns de estrita obediência religiosa. Na era das redes sociais, este sacrossanto mandamento tornou-se ainda mais obsoleto: só a força da inércia tem impedido os doutos legisladores cá do burgo de o remeterem para o caixote do lixo da História - medida que só pecaria por tardia. Há desde logo uma clara correspondência etimológica entre abstinência e abstenção, o que não me parece muito estimulante enquanto factor de incentivo ao voto.

Mas todas as tradições acabam por ser quebradas. Também esta, a da interdição da propaganda política em véspera do exercício generalizado do direito a eleger quem nos governará na legislatura que vai seguir-se.

Bastou percorrer os telediários de hoje, mal soaram as badaladas da meia-noite.

 

Abertura do Jornal da Meia-Noite, na SIC Notícias:

«A DBRS subiu o rating da dívida soberana de Portugal, que está agora no terceiro nível acima do lixo. A agência canadiana explica a decisão com a melhoria persistente em vários indicadores-chave do rating. A DBRS espera ainda um compromisso com uma gestão orçamental prudente, independentemente do resultado das eleições de domingo.»

Quarta notícia do 24 Horas, na RTP 3:

«A agência de notação financeira DBRS subiu o rating de Portugal. Passou agora para o nível estável. É o terceiro acima de lixo e é o mais elevado dos últimos oito anos. A SBRS é a agência que tem a classificação mais elevada para a dívida portuguesa.»

Notícia igualmente destacada na 25.ª Hora, da TVI 24:

«A agência canadiana de notação financeira DBRS subiu o rating de Portugal. Uma notícia divulgada seis meses depois de a agência ter dito que ponderava rever em alta a notação de Portugal e em vésperas de eleições legislativas. De acordo com a agência de notação financeira canadiana, o risco do crédito de Portugal tem agora a classificação de BBB+, um nível acima da avaliação feita no início de Abril. Entenda-se que esta avaliação é aplicada à capacidade de um país pagar a sua própria dívida. A letra A indica a melhor classificação e a C ou a D considera o risco especulativo, também designado como "lixo". Também a perspectiva sobre a dívida portuguesa melhorou de estável para positiva.»

 

Bingo! Até uma agência financeira com sede no outro lado do Atlântico contribui para a ponderação do nosso voto.

Dá que pensar neste dia de reflexão.

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Fora da caixa (23)

por Pedro Correia, em 04.10.19

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«Entre o conhecimento do bem e do mal há uma grande diferença: o mal conhece-se quando se tem e o bem quando se teve; o mal, quando se padece, o bem, quando se perde.»

Padre António Vieira

 

Mário Soares fundou o PS em Maio de 1973. Sá Carneiro fundou o PPD (depois PSD) em Maio de 1974. Diogo Freitas do Amaral, agora falecido, fundou o CDS em Julho de 1974. Álvaro Cunhal, de algum modo, refundou o PCP na década de 40 e foi seu dirigente histórico durante quatro décadas. Fernando Rosas, Francisco Louçã, Luís Fazenda e Miguel Portas fundaram o Bloco de Esquerda em 1999.

E o PAN, que parece ter caído do céu há quatro anos, ungido por André Silva? Este partido tem um fundador, do qual todos os actuais dirigentes parecem demarcar-se, vá lá saber-se porquê. É o professor Paulo Alexandre Esteves Borges, budista praticante após ter sido entusiasta do Quinto Império: primeiro presidente do partido, em 2011, afastou-se da liderança três anos depois e desfiliou-se em 2015. Entre «divergências profundas quanto ao rumo que alguns comissários [pretendiam] dar ao PAN».

 

Seria interessante recordar a cascata de convulsões internas que levaram ao seu afastamento.

Seria interessante saber se André Silva se revê nos princípios doutrinários de Paulo Borges, discípulo espiritual do padre António Vieira e do professor Agostinho da Silva.

Seria interessante indagar se o professor Borges tenciona votar no partido que fundou.

Já agora, também teria interesse saber por que motivo o deputado do PAN preferiu votar em Fernando Negrão em vez de Ferro Rodrigues para presidente da Assembleia da República em Outubro de 2015.

Eis questões com relevância pública e que mereciam tratamento jornalístico se o PAN fosse encarado pelo mesmo prisma acutilante reservado à maioria das forças partidárias representadas no Parlamento.

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Fora da caixa (22)

por Pedro Correia, em 04.10.19

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«Poucos deram tanto a Portugal, à liberdade e à democracia.»

António Costa, ontem, sobre Freitas do Amaral 

 

A campanha eleitoral terminou ao princípio da tarde de ontem. Precisamente quando foi conhecida a triste notícia do falecimento de Freitas do Amaral, o último fundador civil do nosso regime democrático - resta o general Ramalho Eanes, ilustre sobrevivente desta estirpe já com lugar na História.

Este infeliz acontecimento relegou para segundo plano tudo quanto vinha a ser discutido no espaço mediático, o que muito jeito dá a António Costa - confirmando que o secretário-geral socialista é o político com mais sorte em Portugal. A campanha corria-lhe razoavelmente mal: Costa está longe de ser brilhante nas caravanas de propaganda eleitoral, para as quais tem pouco jeito e quase nenhuma paciência. A nova dimensão dada ao lamentável caso de Tancos, centrada na acusação deduzida pelo Ministério Público ao ex-titular da pasta da Defesa Azeredo Lopes, fragilizou o primeiro-ministro numa das dimensões que mais cultiva: a sua faceta de homem de Estado.

O desaparecimento de Freitas, senador da democracia, e as cerimónias fúnebres que lhe serão devidas hoje e amanhã, dia de reflexão eleitoral, encerram simbolicamente um capítulo da nossa vida colectiva. E põem fim prematuro a uma campanha que se revelou mais incómoda para o PS do que alguns responsáveis socialistas previam.

Recordo-me da dramática recta final das legislativas de 1999, marcada pelo súbito falecimento de Amália Rodrigues, que gerou comoção nacional. Foi a 6 de Outubro, vai fazer 20 anos depois de amanhã - quatro dias antes de os portugueses irem então a votos.

Também a campanha terminou nesse dia. E dela saiu uma vitória pírrica do PS: António Guterres ficou a um escasso lugar da maioria absoluta e acabou por nunca recuperar desse trauma. Nascia uma legislatura condenada ao fracasso desde o vagido inicial.

Embora com protagonistas diversos, a História tem tendência a repetir-se.

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Fora da caixa (21)

por Pedro Correia, em 03.10.19

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«Quero levar os portugueses a viver habitualmente.»

Salazar (1938) 

 

Não sei se mais alguém pensou como eu. Mas achei refrescante a intervenção da candidata do MRPP no debate organizado pela RTP com os representes dos pequenos partidos. Não pelas ideias, claro: são mais antigas do que o animatógrafo, a grafonola, o hidroavião e o zepelim. Mas pela sinceridade: vê-la defender abertamente o «modo de produção comunista» revela-nos, por contraste, até que ponto o PCP se tornou um partido reformista, longe de qualquer ideal revolucionário. Há quanto tempo não ouvimos Jerónimo de Sousa advogar os dogmas do marxismo-leninismo? É possível um partido verdadeiramente comunista votar quatro orçamentos de Estado em estrita obediência às normas do pacto de estabilidade e aplaudir a maior contracção do investimento público de que há memória na democracia portuguesa?

Há muito que o PCP deixou de amedrontar as "classes dominantes": tornou-se um partido fofo, respeitador da moral burguesa e dos bons costumes. Isto explica-se, em parte, por já não ser acossado pela defunta "esquerda radical" que se acoitava sob a bandeira do BE: Catarina Martins deu uma guinada ao Bloco, tornando-o um movimento "eco-socialista", quase pós-ideológico, new age. Por muito que isso incomode o professor Fernando Rosas, a "renegociação da dívida" e a saída de Portugal do sistema monetário europeu deixaram de figurar entre as proclamações bloquistas, agora mais embaladas por jazz de hotel do que pelos estridentes acordes d' A Internacional.

Música para os ouvidos de António Costa, que nestes quatro anos reduziu os partidos à sua esquerda a caricaturas de si próprios. Enquanto se encarregava de seduzir largas parcelas da classe média com duas percepções dominantes: contas certas e ordem nas ruas.

Esquerda radical neutralizada e direita sociológica despojada das principais bandeiras: eis o balanço político de quatro anos de "geringonça", eis o contributo de António Costa para sedimentar o regime instaurado com a Constituição de 1976, alterando-lhe o eixo dominante ao leme de um partido socialista que há muito deixou de o ser.

Os antigos pregoeiros da revolução andam hoje mais preocupados com a extinção das focas do que com a extinção da classe operária. E quem ainda sonhar com a revolução comunista pode sempre votar no MRPP.

 

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Fora da caixa (20)

por Pedro Correia, em 02.10.19

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«Neste momento nenhum homem cava a terra. Daqui a pouco vai ser a terra a cavar o homem.»

Tino de Rans (anteontem, na RTP) 

 

Segue-se uma antologia sumária de frases proferidas no debate da televisão pública, segunda-feira à noite, pelos líderes dos partidos sem representação parlamentar que concorrem à Assembleia da República. São 15 - nada menos. Dez dos quais fundados nesta década e nove surgidos nos últimos cinco anos - pormenor que justifica alguma reflexão. Quando se diz que a política está em crise (sempre ouvi esta frase, tal como «o jornalismo está em crise», «o teatro está em crise», «o ensino está em crise», etc, etc.), ninguém diria ao ver os partidos multiplicarem-se como cogumelos.

Dois destes participantes não são líderes dos respectivos partidos: o Livre fez-se representar não pelo seu fundador e porta-voz, Rui Tavares, mas por Joacine Moreira, cabeça de lista por Lisboa; e o MRPP, decano dos partidos portugueses, esteve representado pela candidata Maria Cidália Guerreiro pois neste momento «não tem líder». A extrema-esquerda portuguesa já não é o que era: antigamente podiam faltar-lhes as bases, mas candidatos a líderes até sobravam...

 

Amândio Madaleno (Partido Trabalhista Português):

«Nós temos um símbolo que representa dois golfinhos à volta do povo a protegê-lo dos tubarões.»

 

André Ventura (Chega):

«Hoje temos 230 deputados. Uns estão a jogar no casino on line, outros estão a pintar unhas, outros estão a fazer o que lhes passa pela cabeça. Nós a pagar, sempre a pagar, os portugueses só servem para pagar.»

 

António Marinho Pinto (Partido Democrático Republicano):

«Se houver algum agricultor digno desse nome em Portugal, não votará PS depois das declarações que o primeiro-ministro fez que nos jantares oficiais, a partir de agora, só comem peixe e não comem carne. Se houver um agricultor digno desse nome, não vote no PS, que é o partido do oportunismo nestas eleições.»

 

Carlos Guimarães Pinto (Iniciativa Liberal):

«Eu estou na política há muito pouco tempo, não estou muito habituado a estas lides televisivas. Ainda para mais pertenco à mesma minoria que a Joacine: também gaguejo.»

 

Fernando Loureiro (Partido Unido dos Reformados e Pensionistas):

«Eu estava lá, com um grupo de quatro pessoas. Não temos mais, infelizmente. Os outros estão todos doentes.»

 

Filipe Sousa (Juntos Pelo Povo):

«Sou presidente de câmara há seis anos e não tenho motorista.»

 

Gil Garcia (Movimento Alternativa Socialista):

«Há praias que já desapareceram. Todo o nosso litoral pode ficar... algumas cidades podem ficar debaixo de água.»

 

Gonçalo Câmara Pereira (Partido Popular Monárquico):

«Ontem foi domingo, foi dia de eu ir à missa, estive com a família, que é a minha primeira preocupação. Como sou católico apostólico romano, fui à missa e passei o dia todo com a família. Fiz 45 anos de casado com a mesma mulher. Foi a minha campanha eleitoral: convencer a família a votar.»

 

Joacine Katar Moreira (Livre):

«Não é necessário nós estarmos no Executivo para nós identificarmos o que é útil e o que é urgente.»

 

José Pinto Coelho (Partido Nacional Renovador):

«Se não nascerem portugueses, Portugal acaba por morrer.»

 

Manuel Ramos (MPT - Partido da Terra):

«O aeroporto de Beja tem apenas um voo por semana actualmente. E tem as moscas, que vão lá também.»

 

Maria Cidália Guerreiro (MRPP-Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses):

«Nós apresentamo-nos com duas palavras significativas: por um novo rumo e por uma sociedade operária e comunista.»

 

Mendo Castro Henriques (Nós, Cidadãos):

«A nossa campanha não é dizer o que nós pensamos: é escutar o que nos dizem.»

 

Pedro Santana Lopes (Aliança):

«Criou-se em Portugal, depois da tróica, esta obsessão: mesmo quadros qualificados saem das universidades, vão ao primeiro emprego - 650, 700 euros, seja o que for... E as pessoas vão-se embora.»

 

Vitorino Silva (Reagir-Incluir-Reciclar):

«O homem é apenas uma espécie. O homem tem de se humildar. O homem pensa que é o dono disto tudo, mas não é. Temos de respeitar as outras espécies.»

 

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Como puderam?

por Pedro Correia, em 01.10.19

Cerca de 60 mil eleitores já votaram na eleição legislativa de 6 de Outubro, tendo optado pelo exercício antecipado desse direito.

Interrogo-me como puderam votar em consciência se não dispuseram do famigerado dia de reflexão.

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Fora da caixa (19)

por Pedro Correia, em 01.10.19

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«Temos de libertar a comunicação social da tutela dos partidos políticos, sobretudo do cartel de partidos políticos dominantes na Assembleia da República.»

António Marinho Pinto, do Partido Democrático Republicano (ontem, na RTP) 

 

A RTP cumpriu ontem a sua vocação de serviço público. Dando voz aos chamados "pequenos partidos" que concorrem à eleição do próximo dia 6.

Eram 15, no total: recorde absoluto em debates deste género. Nada fácil de conduzir, numa emissão que durou mais de duas horas e esteve a cargo da jornalista Maria Flor Pedroso.

Uma emissão verdadeiramente democrática. Que juntou candidatos da extrema-direita (como José Pinto Coelho, do PNR) e da extrema-esquerda (como Cidália Guerreiro, do MRPP). Que pôs o antigo primeiro-ministro Pedro Santana Lopes (em representação da Aliança) ao lado do antigo calceteiro Tino de Rans (do novo partido RIR).

É vergonhoso que os canais privados de televisão - infestados de doutos comentadores que lançam anátemas ao sistema político e costumam criticar a perpetuação dos mesmos protagonistas na cena partidária portuguesa - tenham abdicado de organizar debates com partidos que não estão representados na Assembleia da República.

Apostar só no consagrado é assumir uma opção editorial de vistas curtas. E com manifesta falta de sensibilidade democrática. Lamento que Ricardo Costa (da SIC), Sérgio Figueiredo (da TVI) e Octávio Ribeiro (da CMTV) tenham sido incapazes de dar voz aos que falam e pensam de modo diferente. Ao menos por uma vez em quatro anos.

Fossem estes candidatos jogadores de futebol ou treinadores da bola e teriam todo o tempo e todo o espaço nos canais que aqueles jornalistas dirigem. Dá que pensar. Depois não venham pregar-nos sermões sobre défice democrático. Poupem-nos, ao menos, a tamanha hipocrisia.

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Fora da caixa (17)

por Pedro Correia, em 28.09.19

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«A justiça trata da justiça e os políticos tratam da política.»

António Costa, ontem, no Porto 

 

O Ministério Público já interveio pelo menos duas vezes nesta campanha eleitoral: a 18 de Setembro, ao constituir arguido o secretário de Estado da Protecção Civil, forçado a demitir-se; e a 26 de Setembro, ao deduzir acusação contra o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes.

Felizmente, sucessivos responsáveis têm tranquilizado a opinião pública, assegurando não existir gestão política dos processos judiciais. Ficamos, naturalmente, todos muito mais descansados.

 

O Instituto Nacional de Estatística já interveio pelo menos duas vezes nesta campanha eleitoral: a 23 de Setembro, ao anunciar a revisão das cifras macro-económicas de 2017 e 2018 devido a uma oportuna «combinação de alterações metodológicas com a incorporação de novos dados»,  propiciando títulos como este, do Público: «PIB mais alto e défice mais baixo»; e ontem, ao antecipar estimativas sobre o desemprego referentes ao mês de Agosto que permitem títulos como este, da TSF: «Valor mais baixo desde 2002.»

Felizmente, sucessivos responsáveis têm tranquilizado a opinião pública, assegurando não existir instrumentalização dos organismos do Estado para efeitos de propaganda governamental. Ficamos, naturalmente, todos muito mais descansados.

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Fora da caixa (16)

por Pedro Correia, em 26.09.19

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«É fundamental aumentar as infraestruturas de transportes colectivos, nomeadamente ferrovia da área metropolitana... metropolitana... da área... da área metropolitana de Lisboa, estender a rede... a rede de metro para várias... para várias zonas... assim como... assim como na... também... aaa... no Porto...»

André Silva, na RTP (23 de Setembro) 

 

Tenho acompanhado com a atenção possível as intervenções do solitário deputado do PAN nesta campanha eleitoral. Dele direi que é um dos candidatos mais previsíveis: quando abre a boca é seguramente para advogar novas interdições ou um acréscimo da carga fiscal. E é também um dos que preenchem mais tempo de antena, recorrendo a um velho truque popularizado por certos treinadores de futebol: repete as palavras que vai dizendo, em jeito de falso gago. (Se fosse gago a valer não seria candidato do PAN, mas do Livre.)

Assim foi, uma vez mais, no debate que segunda-feira reuniu na RTP os seis líderes dos partidos com representação parlamentar. André Silva não defraudou as expectativas: mal a moderadora, Maria Flor Pedroso, lhe pediu que especificasse «medidas concretas» sobre o combate às alterações climáticas, o porta-voz do PAN anunciou sem rodeios, naquele seu estilo muito peculiar, que quer extorquir dinheiro dos portugueses. Para o remeter a outros continentes.

 

Segui com tanto interesse a oratória do deputado que acabei por transcrever na íntegra o que ele disse:

«Eu gostava de… dizer… algo sobre aquilo que Portugal pode fazer… aquilo que Portugal pode fazer… aaa… relativamente a todo o impacto mundial. Está estabelecido que devemos criar um fundo mundial de combate às alterações climáticas para ajudar os países menos ricos, chamados menos desenvolvidos, para fazer esse combate, essa adaptação, às alterações climáticas. Ainda só conseguimos cerca de 25%. Portugal… aaa… deverá… contribuir com… aaa… cerca de dois milhões e meio de euros e nós entendemos que Portugal pode reforçar… os portugueses podem, em vez de darem cada um 25 cêntimos, cada um dos portugueses pode dar um euro, uma contribuição de um euro, e aumentar em dez milhões de euros a contribuição que Portugal pode dar ao resto do mundo para este efeito. E é justo. É justo porque Portugal, enquanto país rico que é, sempre utilizou os recursos e sempre emitiu gases com efeito de estufa ao longo destas décadas muito mais que os outros países. E é justo que nós tenhamos essa… essa capacidade financeira e que somos um país rico, do norte geográfico, possamos fazer essa… possamos fazer essa… essa… essa contribuição… esse esforço que é possível para… do nosso ponto de vista… para os portugueses.»

 

Desembarcado de Marte, André Silva imagina Portugal como «país rico», apto a financiar outras nações para expiar supostos pecados ambientais.

Eis outro aspecto em que o porta-voz do PAN é muito previsível: na importação para o discurso político da retórica dos tele-evangelistas, sempre prontos a lançar anátemas sobre os hereges, sempre dispostos a anunciar a redenção aos devotos que comungam das tábuas da lei.

Só não o sabia também já disponível a sacar o dízimo tão à descarada, ainda antes de acolitar o PS na próxima solução governativa. Nisto, pelo menos, inovou. Hossana, aleluia: o paraíso há-de chegar.

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Fora da caixa (15)

por Pedro Correia, em 24.09.19

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«Eu contava que o candidato a deputado Mário Centeno fosse mais cuidadoso nas palavras.»

Rui Rio, no Porto (20 de Setembro) 

 

Tenho reparado que Rui Rio, silenciando praticamente qualquer crítica a António Costa nesta campanha para as legislativas de 6 de Outubro, vem elegendo Mário Centeno como seu adversário principal.

É um erro estratégico, de dimensão descomunal. Quem o oiça, terá forçosamente de presumir que o segundo candidato da lista eleitoral do PSD no círculo eleitoral do Porto não concorre para primeiro-ministro, mas para putativo ministro das Finanças de um hipotético governo de convergência liderado pelo PS.

Eu sei que Rio não costuma ler o que se vai escrevendo na blogosfera. Mas convinha alguém avisá-lo: o seu rival chama-se Costa, não Centeno. É inútil correr para suplente do actual feitor das contas públicas.

O cargo está preenchido. E até conta com a bênção de Angela Merkel. Mesmo que Centeno, ao contrário de Rio, não saiba uma palavrinha de alemão.

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Fora da caixa (13)

por Pedro Correia, em 21.09.19

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«Tenho um gosto especial por resolver problemas.»

António Costa, em entrevista à RTP 3 (exibida a 18 de Setembro) 

 

A RTP 3 inaugurou uma série com perguntas "fora da caixa" aos dirigentes dos seis partidos com representação parlamentar. Um formato interessante, que nos permite olhar para estes políticos fora do enquadramento pré-formatado em que quase sempre surgem nas televisões.

Dois políticos nascidos em Lisboa (António Costa e André Silva), outros dois naturais do Porto (Rui Rio e Catarina Martins), um vindo ao mundo em Pirescoxe-Santa Iria da Azóia (Jerónimo de Sousa) e uma fora do continente europeu (Assunção Cristas, que teve berço em Luanda). O mais velho, com 72 anos, é o secretário-geral do PCP. O mais jovem, com 43 anos, é André Silva, porta-voz do PAN.

Todas estas entrevistas conduzidas pela jornalista Cândida Pinto e registadas ainda em Agosto ou no início de Setembro, decorrem em cenários naturais, escolhidos pelo entrevistados. Louvor à opção de Jerónimo de Sousa, junto ao castelo da sua aldeia natal, que ficou muito bem na fotografia, e sobretudo à escolha de António Costa, que se fez filmar na praia fluvial da Peneda, concelho de Góis, onde apetece dar uns mergulhos só de a ver na televisão.

A sessão inaugural, exibida inicialmente na quarta-feira e repetida ontem, recolheu respostas às perguntas que passo a enumerar.

Por que razão procurou uma carreira política e o que o fez querer liderar um partido? É fácil ou difícil fazê-lo mudar de ideias? Qual foi a pessoa que teve mais impacto na sua vida? Qual foi a melhor refeição da sua vida? Dá ou não dá esmola? Quais são as suas maiores preocupações em relação ao futuro dos seus filhos e dos seus netos? O que tem mais medo de perder, para além da família?

 

Confesso: as respostas que mais me interessaram foram as da refeição inesquecível. Respostas que nos dizem muito sobre eles.

António Costa: «Recordo sempre muito uma que tive na Jordânia, a seguir ao funeral do rei Hassan II. O nosso cônsul honorário convidou-me para um jantar de experiência de comida árabe, que foi para mim a primeira vez.»

Rui Rio: «Quando eu fazia anos, a minha mãe cozinhava sempre aquilo de que eu mais gostava, uns escalopes au riz, e fazia uma tarte de limão para sobremesa.»

Catarina Martins: «Uma vez atravessei os Estados Unidos de carro. Lembro-me de tomar o pequeno-almoço a ver nascer o sol, no meio do deserto, e o pequeno-almoço era o da máquina do hotel: um capuccino e um donut

Assunção Cristas: «Em São Tomé, na roça de São João dos Angulares. Já não sei o que comi, mas estava tudo tão bom...»

Jerónimo de Sousa: «Não sou capaz de me fixar numa. Vai-se ao Norte e prova-se uma carne única no mundo, vai-se a Setúbal e prova-se um peixe magnífico, vai-se ao Alentejo e vê-se a criatividade a partir de quase nada. Em todos os sítios é possível comer bem - incluindo em Lisboa.»

André Silva: «Gosto muito de comer frugal. Uma das coisas que mais prazer me dão é comer feijão maduro cozido com um fio de azeite.»

 

O prémio para a resposta de cartilha pronta-a-servir cabe a António Costa, ao responder sobre a maior preocupação sobre o futuro dos descendentes: «Tem a ver com a espécie humana. Tem a ver com as alterações climáticas.»

O prémio para a fidelidade partidária só pode ser para Jerónimo de Sousa, na resposta à pergunta sobre a pessoa que mais lhe marcou a vida: «Incontornavelmente, a figura de Álvaro Cunhal.»

O prémio para a sinceridade socialmente incorrecta é ganho por Rui Rio: «Eu sou contra dar a esmola na rua porque isso amarra a pessoa à rua. Se eu notar que o dinheiro é para vinho ou para droga, não dou.»

O prémio para a coerência com as ideias que defende cabe por inteiro a André Silva. A dado momento, uma mosca pousa-lhe na cara: o líder do PAN não tentou matá-la nem sequer enxotá-la. Ela, persistente e confiante, lá ficou.

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Há vida para além da bola

por Pedro Correia, em 17.09.19

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Debate Costa-Rio foi ontem acompanhado por 2,7 milhões de telespectadores. Demonstração clara de que as pessoas se interessam por política. E só não acompanham mais porque os canais de televisão pouco mais têm para oferecer do que telenovelas e futebol. Aliás, à hora do debate, um dos putativos canais de "notícias" dava destaque... à bola.

 

Foram estes os outros debates com maior audiência:

Costa-Sousa (SIC) - 1,1 milhões de espectadores

Costa-Silva (SIC) - 1,065 milhões de espectadores

Costa-Cristas (TVI) - 935 mil espectadores

 

Costa lidera, portanto - não só nas sondagens, mas também nos debates.

O menos visto? Martins-Silva, na SIC Notícias, apenas com 68.100 espectadores.

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Fora da caixa (9)

por Pedro Correia, em 17.09.19

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«Estamos a viver num período de desaceleração geral de grande parte das economias europeias

António Costa, no debate com Rui Rio (ontem)

 

Rui Rio venceu esta noite o mais badalado debate da campanha eleitoral em curso. Teve a tarefa facilitada: em vez de lhe surgir um "animal feroz", para usar uma expressão popularizada por um antigo líder do PS, saiu-lhe um bonzo propenso à beatitude. António Costa, embalado por todas as sondagens, entrou em estúdio com ar de quem passara parte da tarde a dormir uma boa sesta. Faltava-lhe ânimo para uma refrega. E, sobretudo, faltava-lhe motivação: Rio anda há quase dois anos a dizer que o seu principal desígnio estratégico é tirar o Bloco de Esquerda da área da governação e rubricar grandes pactos de regime com o PS. Música para os ouvidos socialistas.

O presidente do PSD seguramente não se encostou ao travesseiro durante a tarde. Na mais recôndita parcela do seu instinto político deve ter soado enfim uma campainha de alarme: se desperdiçasse o tempo de antena proporcionado por este debate - transmitido em simultâneo por três canais de televisão - podia desde já fazer as malas, de regresso definitivo ao suave aconchego doméstico do seu Alto Minho.

Decidiu, portanto, ser combativo. E fez bem: assim o que resta da campanha promete tornar-se menos desinteressante. Naquele seu estilo peculiar de quem parece sempre um recém-chegado à política, apesar de não lhe ser conhecida outra actividade relevante nos últimos 35 anos, Rio falou de coisas concretas. Dos novos salários dos magistrados, em chocante disparidade com os dos professores. Da queda sem precedentes do investimento estatal, sujeito às cativações do ministro Centeno. Da enorme degradação dos serviços públicos. Da carga fiscal que não cessa de aumentar. Da actual execução orçamental na saúde, inferior à registada nos duros anos da tróica. Dos 330 mil portugueses que abandonaram o País nesta legislatura, num silencioso êxodo que noutros tempos daria notícias de abertura nos telejornais.

Bastou-lhe isto para sobrepor-se num debate ao qual chegou com expectativas pouco acima do zero, dadas as suas prestações anteriores e o seu insólito hábito de gastar energias a combater jornalistas e empresas de sondagens em vez de dar luta aos rivais políticos.

O bonzo, à sua frente, parecia surpreendido com o assomo de protagonismo de quem até aí só lhe merecera um aceno de condescendência, não isento de comiseração. A dado passo, terá até sentido um vago impulso de se sujeitar ao confronto verbal. Mas a inércia levou a melhor. Picou o ponto, debitou os chavões da praxe («devolvemos rendimentos», «temos contas certas», etc.), foi advertindo a massa ignara para a «desaceleração» que está prestes a chegar - quase como se falasse no diabo - e deu-se por satisfeito com a sofrível prestação. «Poucochinho», diria ele se estivéssemos em 2014. Falando não de si próprio, mas de outro.

Esta tarde - sou capaz de apostar - volta a dormir uma boa sesta outra vez.

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Fora da caixa (7)

por Pedro Correia, em 14.09.19

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«O PSD vai perder as eleições.»

José Pacheco Pereira, na TVI 24 (4 de Setembro)

 

As sondagens variam, mas todas apontam na mesma direcção.

A da Pitagórica atribui 43,6% das intenções de voto ao PS e apenas 20,4% ao PSD - um fosso de 23,2% entre os dois principais partidos. A do ICS-ISCTE estabelece uma diferença de 19 pontos percentuais:  42% para o PS, 23% para o PSD. A da Eurosondagem concede a vitória aos socialistas, com 38,1%, ficando o partido laranja com 23,3% - um intervalo de 14,8%. E a da Intercampus fixa esta diferença em 14,3% - correspondente ao intervalo entre os 37,9% do primeiro e os 23,6% do segundo.

Seja qual for a distância que venha a registar-se nas legislativas de 6 de Outubro, alcance ou não o PS a vitória por maioria absoluta, um dado é inquestionável em todas estas pesquisas de opinião, elaboradas a cerca de um mês do escrutínio real: o PSD prepara-se para obter o seu pior resultado eleitoral de sempre. Coroando assim uma tendência: a da queda global do partido fundado por Francisco Sá Carneiro - em declínio desde a fuga de Durão Barroso para Bruxelas, no Verão de 2004. No ano seguinte, com Santana Lopes no comando, perdeu. Quatro anos depois, sob a liderança de Manuela Ferreira Leite, voltou a perder. Passos Coelho inverteu esta tendência, vencendo em 2011 e 2015, mas o rumo anterior é retomado agora com Rio ao leme.

 

Há pontos de contacto entre a derrota registada em 2009, frente ao PS de José Sócrates, e aquela que se antevê para o mês que vem, face ao PS de António Costa: num caso e noutro, o partido está nas mãos do mesmo grupo interno. Rui Rio chegou a ser apontado como proto-candidato há dez anos, acabando como mandatário no Porto da antiga ministra das Finanças, além de seu braço direito como primeiro vice-presidente da Comissão Política Nacional; agora, Manuela retribui com a defesa persistente de Rio na sua tribuna semanal da TVI 24. Paulo Mota Pinto, que presidiu à Comissão de Honra da candidatura de Rio, em Novembro de 2017, foi o mandatário nacional de Ferreira Leite em 2008.

Um grupo que, derrota após derrota, vai destruindo aquela que chegou a ser a maior força partidária portuguesa. Ao invés do que sucedia com Sá Carneiro, que conduziu o PSD a partido de governo, alicerçado em duas expressivas vitórias eleitorais possibilitadas pelo alargamento da sua base sociológica, estes seus putativos herdeiros estreitaram-na no afã de perseguirem a "verdadeira" social-democracia - agora também reclamada pelo BE de Catarina Martins  - com Rio a garantir que não quer «disputar eleitorado à direita».

 

Eis a consequência directa de um rumo encetado há muitos anos e que não surge por acaso: Rio, como Ferreira Leite antes dele, tem como estratego de cabeceira o biógrafo de Álvaro Cunhal, José Pacheco Pereira, que militava na esquerda radical quando Sá Carneiro presidia ao PSD. É ele o mentor da «viragem à esquerda» de um partido que sempre foi interclassista e avesso a catalogações ideológicas. Quatro anos após ter sido empossado o Executivo da "geringonça", Pacheco ainda espuma de raiva contra «o governo de Passos e Portas», de que foi um denodado combatente desde o primeiro dia.

Agora também ele já concede a derrota antecipada nas legislativas - a segunda que traz a sua marca estratégica no espaço duma década. O PSD, quando lhe atribui o estatuto de maitre penseur, sai sempre mais fraco e debilitado.

Será currículo ou cadastro? Eis matéria para reflexão a partir do dia 7 de Outubro, quando o partido tentar emergir dos escombros.

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Fora da caixa (6)

por Pedro Correia, em 11.09.19

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«Nós agora propomos passar para um ano a licença de parentalidade.»

Assunção Cristas, em entrevista à TSF/DN (27 de Julho)

 

O CDS apresenta nesta campanha legislativa, entre outras medidas emblemáticas, o alargamento para doze meses da licença parental, podendo até ser extensiva a partir de certa altura aos avós. Isto porque, segundo Assunção Cristas, «é o que acontece nos países nórdicos, é o que acontece nos países com melhores índices de fecundidade».

Parece uma proposta meritória. E um louvável acto de contrição do CDS, que noutros tempos remou na direcção contrária, opondo-se à introdução desta medida num pacote de alterações à legislação laboral anunciado pelo Executivo de José Sócrates.

«Estender a licença até aos 12 meses pode causar algum susto aos empregadores, que podem retrair-se de contratar jovens em idade de ser pais. Por outro lado, penaliza os trabalhadores no sentido em que dificulta a sua progressão na carreira», objectou o deputado centrista Mota Soares, em declarações à agência Lusa, a 22 de Abril de 2008.

O que diriam então esses próceres do CDS da proposta que o próprio partido agora anuncia? Teriam talvez um «enorme susto», para utilizar um léxico hoje fora de moda no Largo do Caldas. Mudam os ventos, mudam as promessas. Ainda que alguns dirigentes do partido sejam os mesmos onze anos depois.

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