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Resistência activa ao aborto ortográfico (135)

por Pedro Correia, em 12.08.19

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  Coimbra, Rua Ferreira Borges

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Resistência activa ao aborto ortográfico (134)

por Pedro Correia, em 30.03.19

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  CP, nas ligações ferroviárias Lisboa-Cascais

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Complicar o que é simples

por Pedro Correia, em 23.03.19

Temos a mania de complicar o que é simples. O que logo se detecta na linguagem comum. Reparo tantas vezes na expressão "bom dia para si", hoje de uso corrente, como se um claro e belo "bom dia" não bastasse como saudação. Ou na quantidade de vezes que alguém, em diálogo connosco ou perorando na pantalha, inicia uma frase com esta inútil bengala retórica, insuflada de pleonasmos bem à lusitana: "Na minha opinião pessoal..."

Sempre tive a sensação de que o desdobramento das frases em inúteis partículas vocais é inversamente proporcional àquilo que se sente. O que vale para a expressão oral funciona também para a escrita. Quando dava formação a estagiários no jornalismo, recomendava-lhes esta regra: nunca usem palavras com mais de dez caracteres em títulos. Há que simplificar o que parece complicado. No nosso idioma, o essencial fica quase sempre dito em vocábulos de escassas letras: luz, lua, dom, mar, mágoa, ler, cor, água, som, ar, dor, dar, ver, rio, calor, frio, flor, sol, amor. 

Tanto se fala em mudar, reformar, transformar: comecemos por alterar o modo como falamos. Toda a verborreia é dispensável. Libertemo-nos dela, como um acto higiénico. 

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 24.02.19

«São agora duas formas de falar o português, de tal forma que já não digo 'Português do Basil', digo Brasileiro, referindo-me à língua. Basta conviver com aquela malta (e o meu genro, papai da minha neta, é um desses casos) para perceber que não percebemos metade do que dizem: autonomizaram-se, e a vastidão do seu território (pensemos assim: a região do Pantanal tem sensivelmente o tamanho de Portugal, e é pouco habitada...) ajuda à vastidão do vocabulário, nomeadamente porque a língua reporta para o que nos corcunda, o que fazemos, etc., e temos realidades absolutamente distintas, donde...

Às vezes, falando com o Fellipe, não percebo metade do que diz, mas ele percebe tudo o que digo.

Depois, há que perder, de uma vez por todas, a aura do Portugal colonizador, essa bela porcaria, quando o Brasil é uma miscelânea absoluta: posso pegar no nome do meu genro, por exemplo: origens? portuguesas, africanas, alemãs, italianas, francesas e, motivo de muito orgulho, neto de uma pura Tupi-Guarani (não é à toa que defendo cada vez mais a miscelânea das gentes, que, aliás, produz belos espécimes: a minha neta tem um olhar asiático, a pele clara, um sorriso de desmaiar e, claro, fala incongruências lindas, aos 11 meses, mas seguramente terá o melhor dos mundos - muito mundo - dentro de si).

Ninguém se desviou do tema, que o tema é uma mescla (não será à toa que os brasileiros riem de ventre para cima com a treta do AO-Coiso).»

 

Da nossa leitora Alexandra G. A propósito deste meu texto.

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As palavras em vias de extinção

por Pedro Correia, em 16.01.19

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Temos a mania de mudar o que está certo. Penso nisto ao ver alteradas, em sucessivos lançamentos editoriais, antigas designações de obras-primas da ficção literária vertidas para o nosso idioma: O Monte dos Vendavais derivou primeiro para O Monte dos Ventos Uivantes e depois para O Alto dos Vendavais; a Cabra-Cega, de Roger Vailland, tornou-se Jogo Curioso (alguém estará convencido de que se adequa assim à semântica portuguesa o Drôle de Jeu original?); o Catcher in the Rye, de Salinger, passou a intitular-se À Espera no Centeio, abandonando-se Uma Agulha no Palheiro, feliz título concebido na anterior tradução, de João Palma-Ferreira.

Anda agora por aí uma recente versão de Três Homens num Bote, divertido romance de Jerome K. Jerome com este nome consagrado há décadas em português. O novo tradutor e o novo editor optaram por outro título: Três Homens num Barco. O que de algum modo confirma a intensa compressão vocabular que a língua portuguesa vai sofrendo, com a definitiva eliminação de milhares de palavras subitamente tornadas imprestáveis nesta era das mensagens instantâneas, quando até já há quem escreva “romances” por telemóvel. Se bote e barco são sinónimos, mas o segundo termo se reveste de um teor mais impreciso e sem o relance humorístico que num bote para três já se insinua, porquê rejeitar a designação já consagrada? Não custa adivinhar: a outra é de apreensão mais fácil.

Assim vamos comunicando de forma cada vez mais esquemática, prestando culto ao literalismo despido de ironia e despovoado de metáforas, com um naipe de palavras cada vez mais reduzido, o que produz reflexos óbvios no pensamento e na própria cidadania. Vocábulos rudimentares conduzem fatalmente a raciocínios esquemáticos, cada vez mais distantes da complexidade e da sofisticação que só um domínio alargado das variações semânticas induz. Daí à visão do mundo e da vida a branco e negro, numa dicotomia simplista que favorece os demagogos de todos os matizes, vai um curto passo.

«A redução de vocabulário nos últimos anos tem sido dramática. Não apenas do vocabulário culto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída. Mas daquele que transportava uma tradição ancestral», alerta-nos Mário de Carvalho no seu excelente manual de escrita intitulado Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, justamente galardoado em 2015 com o Prémio P.E.N. Clube para melhor ensaio. E o escritor concretiza, indo ao cerne da questão: «Se hoje muitos jovens não conseguem perceber um provérbio, isso acontece não somente porque o mundo rural desapareceu, mas porque se tem destruído a memória e ocultado a espessura da História. Uma das razões para ler é também a vontade de libertação, a expressão de um inconformismo que não aceita ficar encarcerado dentro dos limites do vocabulário básico.»

Já estivemos mais longe dos grunhidos monossilábicos como forma dominante de expressão oral. Não falta também por aí quem gostasse de os ver como matriz dominante da nossa escrita.

 

Texto escrito a convite do meu editor e amigo Manuel S. Fonseca, um dos melhores cronistas da imprensa portuguesa, para o seu novo blogue, A Página Negra.

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Só eu me espantarei?

por Pedro Correia, em 11.12.18

A andaluza Pilar del Rio, residente há 30 anos em Portugal, presidente da Fundação José Saramago e viúva de um dos maiores escritores do nosso idioma, continua a mostrar-se incapaz de proferir em público uma só frase em português.

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Resistência activa ao aborto ortográfico (133)

por Pedro Correia, em 21.11.18

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  Direcção Regional de Educação do Centro

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Resistência activa ao aborto ortográfico (132)

por Pedro Correia, em 16.11.18

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Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal

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A incompetente mediocridade

por Pedro Correia, em 31.08.18

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Tanto se fala hoje em dia no crescente desinteresse que suscita a leitura dos jornais. Os teóricos do costume adiantam as mais diversas teses para o fenómeno - sociais, económicas e até "civilizacionais".

Eu proponho uma tese menos bombástica mas talvez mais colada à realidade. E muito mais benévola para a capacidade de discernimento dos leitores, divorciados da galopante mediocridade evidenciada em tantos textos que nunca deveriam ter saído do tinteiro e fartos de lerem tanta frase grosseiramente incompetente naquilo a que se convencionou chamar "imprensa de referência". 

Eis aqui um exemplo, entre tantos outros - neste caso, um título publicado há dias num jornal de grande expansão nacional. Se coisas destas afugentam leitores, é sinal de inteligência e lucidez da parte destes.

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Um caso de censura

por Pedro Correia, em 23.07.18

 

A censura torna os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.

Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.
A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.

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Lei

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.07.18

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 (créditos: Macau Daily Times)

"Primeiro, uma instituição de ensino superior deve respeitar a lei. Mas, a primeira coisa e a mais importante é a liberdade académica. Não só tem de ser respeitada e mantida, como deve ser desenvolvida. Só com liberdade é que os professores conseguem pensar, criticar e criar. Toda gente fala de inovação e criatividade. Sem liberdade não há inovação ou criatividade, os estudantes não podem criticar livremente. É preciso criar com base na crítica. Aqui não deve haver limites. Por um lado, deve respeitar-se os docentes, por outro os alunos devem desafiá-los. Só assim se constrói uma geração melhor que a anterior." 

 

Não, desta vez não me refiro à lei enquanto proposição normativa, como preceito dotado de autoridade soberana. Estas linhas têm em mente não uma, mas um Lei. Trata-se do Professor Lei Heong Iok, Presidente do Instituto Politécnico de Macau (IPM).

Já sabia que ele se iria retirar no final deste ano lectivo por atingir a idade de reforma. E é claro que na plenitude das suas capacidades tinha todas as condições para continuar, desde que assim o desejasse, não fosse esta sanha que se tem imposto na RAEM contra todos aqueles que perfazem 65 anos estando ao serviço das instituições públicas. 

Acontece com o Prof. Lei como também se verifica em relação aos magistrados (o caso do Dr. João Gil de Oliveira é apenas mais um a somar a tantos outros) ou a qualquer outro servidor público; bem ao contrário do que se passa em Hong Kong. Ainda esta manhã, nem de propósito, depois de eu ter falado sobre o assunto na semana passada, a respeito da nomeação de duas juízas estrangeiras para o mais alto Tribunal da região vizinha, uma com 73 e a outra com 74 anos, o South China Morning Post anunciou que o Governo de Carrie Lam submeteu ao Conselho Legislativo, o parlamento local, uma proposta visando autorizar a continuação do exercício de funções até aos 70 anos por parte dos magistrados que atingem a idade de reforma. O objectivo, lê-se na notícia*, é a retenção no sistema judiciário de juízes experientes e a atracção de juristas experientes e de qualidade que trabalhem actualmente no sector privado. Como os próprios podem estender as suas comissões por vontade própria durante mais cinco anos, a alteração que se tem em vista permitirá que só se retirem aos 75 anos. As mudanças permitirão que Hong Kong fique em sintonia com "a maioria das jurisdições da common law".

Mas o pretexto destas linhas não é carpir pelo que a falta de bom senso torna inevitável entre nós, em claro prejuízo de Macau, das suas gentes e da imagem da República Popular da China.

Aqui viso tão só deixar uma palavra de profundo reconhecimento ao inestimável serviço que, ao longo de décadas, foi prestado pelo Prof. Lei Heong Iok. Não só ao IPM, à comunidade que esta escola serve, mas em especial à Língua Portuguesa como instrumento de aproximação entre povos e culturas, como ferramenta destinada ao diálogo, ao intercâmbio e à elevação dos padrões civilizacionais entre nações que há séculos se respeitam e procuram mutuamente conhecer e engrandecer através das respectivas línguas e do convívio entre as suas gentes.

Por detrás do sorriso generoso, do espírito tolerante e bondoso, da sua inesgotável afabilidade, simpatia e capacidade de trabalho está um homem cujo percurso fala por si em tudo quanto teve de amor à sua própria Pátria e à língua que tão bem e profundamente estudou, e incansavelmente divulgou sem conhecer fronteiras ou barreiras qualquer que fosse a sua natureza.

A entrevista que o Prof. Lei Heong Iok deu esta semana ao semanário Plataforma merece ser lida e guardada. Porque a postura do Prof. Lei Heong Iok foi sempre essa. O Prof. Lei não precisa de mendigar mais um aninho depois da reforma para amealhar mais uns patacos, nem uns subsídios para obras. O que afirma não é um rebate de consciência na hora da despedida.

Por tudo isso fico ainda mais grato ao Prof. Lei Heong Iok e espero que Portugal e os portugueses saibam agradecer-lhe o quanto fez por todos nós e pela língua de Camões, de Gil Vicente, de Eça e de Pessoa. Aprendendo, lendo, traduzindo, ensinando, divulgando com rigor. Sempre com um sorriso nos lábios e uma infinita paciência.

O Prof. Lei não foi meu professor. Se tivesse sido provavelmente estas palavras não teriam sido suficientes. Como nunca são para todos os que, como o Prof. Lei, levam a vida a ensinar os outros com toda a sua paixão e saber, acabando por sair de cena de forma tão discreta como a que sempre cultivaram quando entraram, quantas vezes sem o mínimo reconhecimento por tudo quanto fizeram por todos nós ao longo de uma vida de exigência. 

Que tenha uma reforma tranquila e reconfortante, junto aos seus netos. E, se possível, que nos escreva mais alguma coisa.

 

* – o texto da edição impressa é ligeiramente diferente

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Da iliteracia em Portugal

por Pedro Correia, em 25.06.18

«Íamos e vamos impugnar, exactamente porque há uma série de razões para poder [a assembleia revogatória do Sporting que o destituiu da presidência do clube] ser impugnada. Ela está ferida de legalidade desde o início, desde que foi marcada.»

 

Bruno de Carvalho, presidente destituído do Sporting, ontem, na SIC Notícias

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 17.06.18

Cada vez mais cercada por expressões que lhe são alheias e mutilada pelo des'Acordo Ortográfico, a nossa língua já conheceu melhores dias. Mas  neste blogue tem a atenção que merece.

Esta semana, Linguagista é a nossa escolha.

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Resistência activa ao aborto ortográfico (131)

por Pedro Correia, em 11.06.18

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  Dia 15, novo jornal em papel (mensário) 

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Adeus Camões, olá "camones"

por Pedro Correia, em 31.05.18

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As farmácias devem ser um excelente negócio. Só perto da minha casa, na Avenida da Igreja, há seis. Uma delas, mais modernaça, deixou agora de chamar-se farmácia. Fez obras para «modernizar as instalações» e ressurgiu baptizada como chemist store - assim mesmo à "amaricana", como se em vez de Lisboa estivéssemos em Seattle, Portland, Omaha ou Minneapolis.

Sinal dos tempos: eis o nosso idioma em recuo acelerado nos mais diversos tabuleiros, com a anuência generalizada das entidades públicas, a bocejante indiferença dos nossos putativos "agentes culturais" e o aplauso contentinho dos basbaques que imaginam podermos atrair "resmas de turistas" cá para o torrão se substituirmos a língua materna de Vieira, Eça e Pessoa pelo esforçado vernáculo do senhor Trump.

O estúpido "acordo ortográfico" já tinha funcionado como sinal de alerta: o português necessita de cuidados intensivos. Não apenas na versão escrita, com a abertura da época de caça às supostas consoantes mudas, mas na própria oralidade, com a progressiva atonalidade de sílabas e a contínua condenação das vogais abertas à reforma antecipada. Agora somos colonizados culturalmente pelos "camones". Cada vez mais longe de Camões.

Receio que isto já não se cure com uma simples ida à farmácia.

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Resistência activa ao aborto ortográfico (130)

por Pedro Correia, em 14.04.18

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  Vinho Evel, da Real Companhia Velha (Douro)

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Carvalho está firme e hirto

por Pedro Correia, em 11.04.18

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Última hora no canal púbico.

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Calinada "cultural"

por Pedro Correia, em 07.04.18

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O primeiro-ministro assinou uma "carta aberta" ao sector da cultura, publicada no Portal do Governo.

Leio essa carta.

Logo na primeira linha, um erro de palmatória: "Nos últimos dias, vários criadores culturais têm-me contatado..."

Assim mesmo.

Um iliterado escreveu, o primeiro-ministro assinou e mandou publicar.

Ninguém reparou, ninguém detectou o erro logo na linha inicial, ninguém quis saber da calinada.

Assim anda a "cultura" com chancela oficial neste país.

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Saber escrever, saber escutar

por Pedro Correia, em 04.04.18

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É infelizmente cada vez maior o número daqueles que entre nós cultivam a tradução literal de textos literários, à margem de considerações estéticas, como se estivessem a traduzir um relatório árido e burocrático. Sem entenderem que um livro estrangeiro, quando é traduzido para o nosso idioma, torna-se de algum modo um livro português, sujeito às nossas regras gramaticais, à sintaxe que utilizamos e à própria musicalidade da escrita que foi sendo fixada ao longo de séculos por figuras com a dimensão de um Camões, um Garrett, um Camilo, um Pessanha ou um Pessoa.

Não perceber isto é nada perceber de essencial nesta matéria.

 

Qualquer texto em português, ainda que possua matriz estrangeira, torna-se património da nossa língua. Com as suas particularidades, o seu ritmo, a sua semântica muito específica, a sua inconfundível eufonia. Porque cada idioma tem a sua própria cadência musical.

Não sabe escrever quem não sabe escutar.

 

O sujeito elidido ou subentendido é uma dessas características que conferem subtileza ao nosso idioma. Enquanto noutras línguas, designadamente o inglês, as regras determinam a menção expressa do sujeito, a nossa regra impele-nos à omissão do nome ou até do pronome assim que ele nos tenha sido apresentado.

Um exemplo básico:

"Clara went away. She left everything behind."

Não faz sentido traduzir este trecho assim:

"Clara foi embora. Ela deixou tudo atrás de si."

Mas já fará sentido traduzi-lo desta maneira:

"Clara partiu. Deixou tudo para trás."

 

 

A propósito, não sei se já repararam. Esta é uma das maiores diferenças entre os diálogos pretensamente "naturais" ou "realistas" das telenovelas e os diálogos da vida real:

- Ó João, vamos sair esta noite?

- Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.

- Ó João, mas tu tinhas prometido...

- Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.

São duas pessoas lado a lado num sofá (nunca falta um enorme sofá em qualquer telenovela). Tudo muito solto e despachado. Único problema: ninguém na vida real fala assim. Quantas vezes mencionamos o nome da pessoa que se encontra ali em casa, à nossa frente, trocando connosco umas frases banais do quotidiano?

Estamos perante um truque retórico que os autores dos guiões utilizam para ajudar os espectadores a memorizar o nome das personagens. Mesmo à custa da verosimilhança que dizem cultivar com esmero e afinal desmentem em cada frase.

 

A tradução literária, quando é competente, não se ocupa apenas do idioma: ocupa-se da qualidade da escrita. Não numa pretensa fidelidade à letra original levada ao extremo, mas na fidelidade ao espírito do autor para melhor o reproduzir no texto traduzido.

É aliás neste sentido que se diz com frequência que As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, "ganharam" qualidade literária na célebre tradução de Eça de Queirós. Ou, em sentido inverso, ainda hoje nos chegam os ecos da tradução francesa do romance A Selva, de Ferreira de Castro, feita por Blaise Cendrars -- que alguns garantem ser superior ao original.

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Como é frequente dizer-se, o tradutor trai. Ainda bem: nunca nenhum texto, ao ser transposto para outro idioma, será traduzido de forma competente através de uma colagem de vocábulos.

Costumo ilustrar isto com títulos de filmes. Nunca saberemos quem se lembrou de traduzir Gone With the Wind por E Tudo o Vento Levou, algo muito mais intenso e radical. Mas devemos estar gratos a tal pessoa. Porque o título português, que se tornou numa expressão idiomática, faz sentido no contexto e adequa-se ao conteúdo. "Levado (ou levada?) pelo Vento", tradução literal na voz passiva, deixa-nos tão indiferentes como se estivéssemos a contemplar uma parede de tijolos.

E nunca poderemos agradecer bastante a quem se lembrou do título Bem-Vindo, Mr. Chance para baptizar em português a obra-prima de Hal Ashby protagonizada por Peter Sellers. Ao ponto de não faltar quem garanta que o título original deste filme de 1979 é "Welcome, Mr. Chance".

Não é: chama-se Being There.

Mas algum de nós guardaria dele tão boa memória se algum burocrata de turno, como se recebesse um relatório para traduzir, lhe tivesse chamado "Estando Ali"?

 

Em cima: fotograma do filme Bem-Vindo, Mr. Chance

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Quando os analfabetos imperam

por Pedro Correia, em 02.04.18

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O analfabetismo funcional está aí, aos olhos de todos, em doses galopantes. Até em folhas e trombetas que fazem gala em examinar à lupa o currículo académico de figuras públicas, várias das quais fariam melhor em adoptar tamanha exigência na própria casa.

Esse analfabetismo faz comprimir o vocabulário até doses ínfimas, adultera a ortografia à mercê de pseudo-normas que ninguém pode levar a sério (ainda ontem, numa série legendada em acordês, li “para aqui” quando pretendia dizer-se “pára aqui”) e põe a sintaxe portuguesa a fazer o pino, à boleia da vulgata brasileira que impera na Rede.

Há dias, uma determinada figura pública presumindo-se culta colou numa mensagem digital uma pomposa citação de Oscar Wilde em tradução brasileira, sem reparar sequer que aquela não é a nossa sintaxe. Pretendia ser coisa séria, mas soou como as velhas dobragens no país vizinho que punham John Wayne a mandar vir com os índios em espanhol.

 

Um excelente romance em língua inglesa traduzido para português torna-se quase ilegível dada a opção do “tradutor” em utilizar o nosso idioma com a sintaxe original, abusando dos pronomes pessoais e possessivos, usados com extrema parcimónia em português, ao contrário do que sucede em inglês – daí resultando frases como “ela esperava que a sua mãe não estivesse a dormir e ficou à espera que a sua mãe abrisse a porta”.

As traduções literalíssimas, atendendo só à forma sem prestar a menor importância ao conteúdo, já levaram a que vin rouge fosse traduzido para “vinho vermelho”. Parece brincadeira, mas não é: deparei com esta barbaridade numa série francesa vista há meses.

E por falar nisto: a nossa maltratada língua sofre entorses diárias com traduções pedestres que adulteram por completo a carga semântica dos vocábulos. De súbito, somos brindados com “demonstrações” como equivalente a manifestações (demonstrations, em inglês) ou “realizar” como surpreendente sinónimo de “entender” ou “perceber”, relegando para longa distância o antiquíssimo significado de empreender ou concretizar. Há mesmo um escritor muito galardoado que povoa as suas páginas de realizar – embusteira tradução literal do to realize inglês.

 

Há umas semanas abriu em Lisboa um muito badalado espaço de culinária gourmet protagonizado pelas figuras do costume, que são sempre as mesmas. Anos atrás chamar-se-iam cozinheiros, hoje só respondem a quem os trate por chef – assim mesmo, sem e final, à francesa.

Esse espaço está a ser promovido nas tais folhas e nas tais trombetas como mostra de “cozinha casual”. E eis que por nova colagem do inglês um adjectivo que no nosso idioma sempre significou imprevisto ou acidental se cola ao significado de importação, que é “informal” ou “descontraído”.

Alguns exemplos, entre tantos outros, do tal analfabetismo militante. Que impera por aí e teima em impor-nos as suas regras. Se não falarmos ou escrevemos como eles querem, ainda nos chamam ignorantes.

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