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Delito de Opinião

Arranca, arranca, arranca, arranca

Pedro Correia, 28.03.24

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Dois títulos da primeira página do caderno de economia do Expresso, de 15 de Março.

Este jornal ignora verbos comuns como iniciar e começar.

Só sabe "arrancar". Nada mais.

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O mesmo parece acontecer com a SIC, outro órgão do grupo Impresa. Eis duas notícias difundidas neste canal na passada segunda-feira. Os editores parecem desconhecer outros vocábulos: "arrancar" serve para tudo.

Sonharão por lá com amputações, mutilações, decapitações? Ignoro.

Sei, isso sim, que a compressão lexical galopa, cada vez mais veloz.

Ou arranca, para mantermos o registo monovocabular destes conspícuos títulos jornalísticos.

O plural neutro

Cristina Torrão, 04.02.24

Venho fazer uma sondagem entre os nossos leitores/comentadores (este plural não é neutro, é só mesmo para leitores no masculino).

Imagine o leitor que está incluído num grupo de dez pessoas, por acaso, nove homens e uma mulher. E imagine que ninguém é casado. Eu estou perante o grupo e convido-vos para uma festa. Depois de aceitarem o convite, eu pergunto: «os vossos namorados também vêm?»

Gostaria agora que os leitores declarassem se se sentem confortáveis com a minha pergunta, ou preferiam que eu referisse igualmente as namoradas.

Quanto mais incompetente, melhor

Pedro Correia, 23.09.23

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O intragável naco de prosa que aqui reproduzo foi ontem dado à estampa num dos principais diários portugueses, aliás com pergaminhos na defesa do nosso idioma, surgindo com a assinatura do próprio director dessa publicação. Alguém que, aparentemente, se mostra incapaz de distinguir entre Conselho e Concelho. Não digam que é um problema do teclado, ou do corrector digital, ou do revisor de textos - figura já quase inexistente nas redacções dos jornais que ainda restam. 

É ignorância mesmo. O que me leva a questionar, uma vez mais, que critérios de competência e qualificação são hoje adoptados pelos administradores dos órgãos de informação para porem à frente de títulos históricos da imprensa portuguesa indivíduos que ignoram a diferença entre ConselhoConcelho

Não se incomodem a inventar uma justificação politicamente correcta. A resposta verdadeira sei muito bem qual é.

Meninos?

jpt, 08.09.23

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Anteontem jantei no promontório que olha o Sado e avista o Tejo, num pequeno sítio que desconhecia, pois segunda-feira em vilória, mau dia para demandar casas de pasto. Ali uma espécie de absurdo a Sul do Tejo, pois alguém aprontou uma casa de "pastas", uma italianice. Coisa que nunca tem sentido, quanto mais naquele universo rico em saberes de açordas. Refeição partilhada com alguém que mal conheço, estávamos na terceira pessoa e assim ficámos. Fomos frugais: uma entrada de moelas fornecidas de molho com sabor enfarinhado, uma salada de tomate sensaborão com queijo branco, dito fresco. E depois um esparguete partilhado, que o cardápio apresenta em nome estrangeiro. Beberam-se umas imperiais, tudo isso o suficiente para se matar a fome do fim da jorna.
 
Mas o pior de tudo foi o empregado, um rapazola nas cercanias dos trinta anos, com os ademanes concentrados no vozear. Diante de mim e do parceiro de mesa, um quarentão, calva a despontar, passou aquelas duas ou três horas a tratar-nos por "meninos". À segunda imperial estava eu com vontade de lhe dar um par de tabefes, e não estava sozinho nisso. Sou liberal, que cada um faça com os genitais e os anais o que lhe apetece. Mas que vá ele trinar de "meninos" quem o sodomiza, "a falta que a tropa faz a estas gerações" escuto-me, nisso do desagrado com gente pateta que já não aprende a escala etária, aquilo da antiguidade. A mais-velha atrás do balcão estava simpática, como deve ser, presumi que ali algemada ao verme loquaz. Decerto que percebera o desadequado, pela forma como se veio despedir, apaziguadora.
 
Dois dias passaram. Hoje de novo tive a sorte de ser convidado a jantar. Com um amigo, não íntimo mas que se vem tornando próximo, ele recente sexagenário por direito próprio. Agora na capital, no velho CCA, diante do Santo António, uma esplanada de triste nome "Mula" mas com bom serviço e aprazíveis petiscos. Um jovem empregado muitíssimo eficiente e simpático - angolano, por cá há um ano... Perto do final, e depois do meu parceiro ter feito elegante alusão àquilo do meu cinzeiro já estar repleto, eu lançado no "pode-me trazer mais gelo, por favor", surge-nos a chefe de sala, uma simpática e muito bem apessoada brasileira, perguntando-nos "o que desejam os meninos?". Expludo! Para vera surpresa dela... "Não chame "meninos" aos homens", convoco-lhe... E enquanto o mariola do meu parceiro lhe vai dizendo "eu não me importo", defende-se ela argumentando "que aqui todos usam assim". Resmungo-lhe, ainda que procurando ser simpático (ela é, de facto, e repito-me, bem apessoada e estava gentil), que esta é uma moda recente, estúpida, até de desrespeito, isto de chamar "meninos" aos homens. Ri-se, riposta que ao chamar-lhe eu "senhora" a estou a fazer mais velha do que é. Rendo-me, concedo-lhe que "quando cá voltar a Senhora pode chamar-me menino" (ela é, não sei se já o disse, bastante bem apessoada), "mas diga lá aos seus colegas para evitarem isso".
 
Mas de onde virá esta moda, absolutamente patética, de chamar "meninos" aos clientes? Esta gente anda a brincar com quem?

Arrancar - não sabem dizer outra coisa

Pedro Correia, 15.08.23

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De repente, palavras claras, genuínas e consagradas da nossa bela língua portuguesa parecem ter desaparecido do mapa.

 

Já mencionei noutro lado o ominipresente colocar, que por influência brasileira mandou borda fora o mais simples e directo verbo pôr. Como se estivesse amaldiçoado.

Uma praga também denunciada pelo escritor e linguista Manuel Monteiro no seu livro O Mundo Pelos Olhos da Língua (Objectiva, 2022), aqui recomendado. Em que reproduz várias frases que se tornaram ridículas desde que esta absurda tendência foi sendo imposta:

- «Não colocar os pés, obrigado.»

- «Colocaram as nossas vidas em perigo.»

- «As pessoas que comem peixe grelhado e depois colocam dois litros de azeite.»

- «Secretário-geral da ONU apela a Putin para colocar fim à invasão.»

- «Presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia coloca água na fervura.»

Enfim, um modismo que redundou num monumental disparate. Sucedem-se as frases abstrusas com este verbo em regime de monopólio. Debitadas até por forças políticas que se proclamam antimonopolistas.

 

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Outros verbos que parecem cada vez mais fora de uso são começar ou iniciar. Substituídos ambos pelo feio e ambíguo arrancar. Este, agora, serve para tudo.

Ainda ontem ouvi, num noticiário da SIC: «A equipa minhota somou 1-0 e arrancou o campeonato com três pontos.»

Dois erros nesta frase. O primeiro, a utilização do verbo somar numa vitória futebolística de um-a-zero. O segundo, mais grave: este descabelado abuso do arrancar (que, não esqueçamos, significa puxar, partir, fugir, sair, extrair, colher, extirpar, remover, desenraizar, guilhotinar) como sinónimo exclusivo de começar.

Será atracção pelo erre dobrado? 

Ignoro. Mas não tenho a menor dúvida em concluir que estamos perante mais um disparate generalizado.

Cada ignorante copia o outro - e o resultado é este.

Ler (25)

Inflação de inúteis pronomes pessoais e possessivos

Pedro Correia, 12.08.23

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O livro é muito bom, uma obra-prima. Pena a tradução: abundam nela alguns dos maiores defeitos que vou verificando, em grau crescente. Importando uma estrutura lexical que nada tem a ver com a nossa.

Em português, subentendemos grande parte dos pronomes pessoais e possessivos - ao contrário do que sucede na língua inglesa, onde estes elementos são continuamente sublinhados. Redundâncias, do nosso ponto de vista.

Para traduzir de modo competente não basta dominar o idioma de partida: há que conhecer tão bem ou melhor o idioma de chegada. Sem esquecer que uma obra estrangeira se torna portuguesa ao ser vertida para a nossa língua. Destina-se a leitores portugueses, que interpretam textos e raciocinam de acordo com as nossas regras gramaticais, não em função de códigos normativos alheios.

Este saudável princípio não imperou na página de abertura do magnífico romance Luz em Agosto, de William Faulkner. Pelo contrário: a norma inglesa é metida a martelo na lingua portuguesa - e saem, portanto, frases repletas de inúteis possessivos que fui assinalando na mancha gráfica. 

Ela «só estivera em Doane's Mill depois de o seu pai e a sua mãe terem morrido». Tinha «os seus pés nus estendidos no fundo da carruagem». Ela havia pedido «ao seu pai para parar a carruagem nos arrabaldes da cidade». E ficamos a saber que «não diria ao seu pai «porque é que preferia caminhar em vez de continuar a cavalgar». Infelizmente, quando tinha apenas 12 anos, «o seu pai e a sua mãe morreram no mesmo Verão». Saberemos ainda que «a sua mãe morreu primeiro» e quando isso aconteceu «o seu pai» teve uma conversa com ela.

Isto, repito, só na página inicial - aqui reproduzida. Profusão de apêndices que fazem o leitor tropeçar a todo o momento, cortando o ritmo da escrita tal como a entendemos segundo as regras há muito fixadas no nosso idioma.

 

Maior ainda é a inflação dos pronomes pessoais. Na página 56, há um recorde batido: lemos trinta vezes «ele/eles», quase sempre com a função de sujeito. Outra redundância, tão gritante como a anterior.

Gerando frases como estas: «Eles pensaram sem dúvida que ele partiria agora, e a igreja organizou uma colecta para ele partir e se estabelecer noutro lado qualquer. Mas em seguida ele recusou-se a abandonar a cidade. Eles contaram a Byron sobre a consternação, mais do que a afronta, que sentiram, quando souberam que ele comprara a pequena casa na rua secundária onde ele hoje vive e tem vivido desde então; e os anciãos organizaram mais um encontro porque eles disseram que lhe tinham dado o dinheiro para partir, e se ele o gastara noutra coisa qualquer, então ele aceitara o dinheiro com falsas intenções. Eles foram ter com ele e disseram-lhe isto.»

 

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Um festival de pronomes. Sem seguir uma regra essencial deste nosso idioma que não nasceu ontem: a do sujeito subentendido.

«Em português, ao contrário do que acontece noutras línguas, não há necessidade de explicitar o sujeito em todas as frases ou orações. Tal acontece porque o português é "uma língua de sujeito nulo, ou seja, uma língua na qual um sujeito pronominal pré-verbal não tem necessariamente realização fonética".» Palavras de Eduardo Paiva Raposo, na Gramática do Português (edição Fundação Gulbenkian).

Os tradutores deviam assimilar estas normas antes de porem mãos à obra. Sobretudo quando lhes cabe a missão fundamental de introduzir obras-primas da literatura mundial no valioso espólio da língua portuguesa.

"Novo paradigma", patati-patatá

Pedro Correia, 23.06.23

Esta semana semana passei uma tarde a ouvir umas quantas luminárias discorrer sobre questões de magna irrelevância perante um reduzido auditório. E de novo pensei como se fala cada vez pior: o vocabulário está infestado de estrangeirismos dispensáveis, modismos de todo o tipo, eufemismos que dão vontade de bater em retirada. Uma espécie de linguajar de gestor bancário cruzado com jargão de treinador de futebol contamina o nosso léxico comum. Complicando o que é simples. E tornando demasiadas frases quase incompreensíveis.

Temos o fatal "colocar" usado e abusado, com exclusão total do claro e eficaz verbo "pôr". Ou "arrancar", que parece ter destronado por completo o singelo "começar". Ou "distinto", na sua ambiguidade semântica, como obstinado substituto de "diferente". E por aqui me fico: a lista seria imensa.

Fui ouvindo penosamente aquele patati-patatá infestado de conteúdos, disruptivo, perfomativo, implementar, sustentabilidade. Por parte de quem se propunha colocar a questão, abrir janelas de oportunidade, deixar tudo em cima da mesa, analisar o estado da arte, entoar hossanas ao novo paradigma

De repente parecem todos perorar à maneira do professor Boaventura numa prelecção do Centro de Estudos Sociais, em Coimbra.

Saí de lá com esta convicção: qualquer dia desaprendo de falar.

Ler (20)

Traduções com altos e baixos

Pedro Correia, 12.05.23

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Tenho mencionado várias vezes este assunto: a mania de atribuir diferentes títulos portugueses a obras de fama universal que há muito foram lançadas no nosso mercado e não cessam de regressar aos escaparates com novo embrulho.

Umas vezes é mera estratégia comercial: título alterado, para o leitor incauto, pressupõe obra diversa.

Outras vezes corresponde apenas à mania de "parecer diferente", mudando por mudar - quase sempre para pior.

Há ainda uma terceira hipótese, talvez a mais frequente: pura ignorância.

 

Há uns tempos, numa livraria em Lagos, vi estas duas edições emparelhadas - segundo a ordem alfabética, que prevalece nos postos de venda. As lombadas falam por si. À esquerda, a clássica tradução da obra-prima de Emily Brontë: O Monte dos Vendavais; à direita, o mesmo romance com título modificado. Para pior.

A Colina dos Vendavais: perde-se a toada de redondilha maior das sete sílabas poéticas do título original, modificando-a sem nenhum ganho de significado e óbvia perda de efeito estético.

É o que acontece quando se confia a tarefa a alguém incompetente.

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Emily Brontë tem pouca sorte com os tradutores portugueses. Já houve pior do que isto. No início da década de 70, as Publicações Europa-América lançaram este clássico de 1847 na sua popular colecção de livros de bolso com um título que não lembraria ao D. Fuas: O Monte dos Ventos Uivantes. Com cinco palavras, nove sílabas métricas e manifesta infidelidade não à letra mas ao espírito do texto original, aplicando-lhe uma lógica de google translate muito antes de esta ferramenta digital existir e quando nem a internet havia sido inventada.

Na década seguinte, a Dom Quixote deu à estampa outra versão portuguesa de Wuthering Heights com nova alteração de título: O Alto dos Vendavais. As traduções são mesmo assim: com altos e baixos.

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Há quem menorize estas subtilezas. Será certamente alguém com escassa ou nula sensibilidade literária. Cada língua tem a sua métrica e a sua música: se queremos traduzir bem, nunca podemos permanecer indiferentes a isto.

A implacável purga de palavras

Pedro Correia, 03.03.23

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Fiquei a saber, lendo o excelente blogue de Maria do Rosário Pedreira, que alguma luminária com assento no Instituto Camões decidiu carimbar com o rótulo palavras mortas «todas aquelas que não tenham sido utilizadas nos últimos três anos»

Não imagino como os burocratas desse instituto irão averiguar tal coisa. Sei, isso sim, que o tal organismo existe para preservar e valorizar a língua portuguesa, não para emitir certidões de óbito às palavras do nosso idioma. Se tivesse competência para tal, aliás, o Instituto Camões começaria por decretar «mortas» centenas de palavras impressas na obra maior do poeta que lhe dá nome. Palavras como ditosa [pátria], ínclita [geração], infidas [gentes], benignidade [real], avena [agreste], valerosos [feitos], procelosa [tempestade], fermosas [Ninfas], terríbil [Albuquerque].

Nem é necessário recuar tanto no tempo. No próprio século XX, muitas páginas escritas por Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, Tomaz de Figueiredo, Agustina Bessa-Luís e outros escritores estarão pejadas de «palavras mortas» à luz do tal critério daqueles anónimos burocratas.

 

«A redução de vocabulário nos últimos anos tem sido dramática. Não apenas do vocabulário culto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída. Mas daquele que transportava uma tradição ancestral», alertou-nos Mário de Carvalho no seu luminoso manual de escrita intitulado Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão

Maria do Rosário Pedreira dá exemplos de vocábulos que, segundo o mesmo padrão, já podem ser considerados letra morta: flausina, mastragança, bazulaque, amásia, lambisgóia. Aguarda-as o tal carimbo? Se isso acontecer, outros irão merecer extrema unção a um ritmo cada vez mais acelerado, como a escritora antecipa aqui. E não apenas palavras: também expressões idiomáticas.

De purga em purga, de depuração em depuração - até toda a riqueza semântica do nosso idioma, alicerçada num lastro de muitos séculos, se dissolver no básico linguajar de cafres que já polui o quotidiano, começando pelo das televisões e dos jornais. Que geram títulos como estes, encontrados na imprensa de hoje: «O dark side do Porto, anos 90»; «Sítio abre cowork em Aveiro»; «Como escapar ao burnout?»; «Traficantes go fast condenados por associação criminosa»; «58% dos trabalhadores remotos sentem-se engaged.». 

Parecemos condenados, em grau crescente, a balbuciar e rabiscar broken english: talvez isto mereça medalha do Instituto Camões.

 

P. S. - Sugiro aos leitores que escrevam aqui palavras raras, de que gostem, evitando assim que lhes seja emitida certidão de óbito.

Aqui não há transgénero

Pedro Correia, 02.02.23

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Chantal Goya no filme Masculin Féminin, de Jean-Luc Godard (1966)

 

Oiço muitas vezes por aí chamar "o" Iniciativa Liberal ao quarto maior partido parlamentar português. No seu programa de domingo à noite, Ricardo Araújo Pereira pôs a ridículo este absurdo desnorte gramatical exibindo excertos de noticiários televisivos (incluindo da própria SIC) que mencionavam a IL, alternadamente, como pertencente aos géneros feminino e masculino. Chegando-se ao ponto de ouvir jornalistas diferentes, no mesmo telediário, usarem as duas fórmulas. Questiono-me se não haverá livros de estilo e editores que assegurem o controlo de qualidade nestes canais para impedir esta algaraviada sem senso algum.

A norma gramatical é clara: artigo e substantivo concordam em género e número. Aqui não há transgénero: masculino é masculino, feminino é feminino. Nem há transnúmero: singular é singular, plural é plural.

Assim, dizemos os Verdes ao aludirmos a um partido que integra a actual coligação governamental na Alemanha - no plural. E a UNITA ou a FRELIMO quando mencionamos estes partidos políticos, um em Angola (União para a Independência Total de Angola), outro em Moçambique (Frente de Libertação de Moçambique). 

A sigla IL só deve ser lida com artigo feminino - por a primeira letra ser abreviatura de Iniciativa. Ninguém diz "o FRELIMO" ou "o UNITA". Diferente é se disserem "o partido Iniciativa Liberal" - só aí o artigo é masculino. Mas faz pouco sentido usar 24 letras para aquilo que pode ser dito só com duas.

Enfim, regras que deviam ser fixadas desde as aulas da instrução primária, mas que jornalistas supostamente com formação universitária são incapazes de aplicar. O que diz muito sobre a qualidade do nosso ensino. E sobre a qualidade do nosso jornalismo.

Catar, catariano ou catarense

Pedro Correia, 09.12.22

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Parece haver ainda dúvidas sobre a grafia no nosso idioma da palavra Catar, aludindo ao Estado anfitrião do Campeonato do Mundo de Futebol. O melhor é desfazê-las junto de quem sabe. Para o efeito, consultemos o Ciberdúvidas.

Catar - transliteração da fonética árabe - é topónimo já consagrado em dicionários e prontuários. Rejeitando-se a aberrante transliteração inglesa Qatar, «impossível à luz da tradição ortográfica portuguesa», como assinala o José Mário Costa. E muito bem: cada língua com a sua norma.

Convém acrescentar que os respectivos gentílicos podem ser catarianos ou catarenses. Qualquer das fórmulas é aceitável.

Alguns dirão que isto interessa pouco ou nada: o que importa é o desporto. A esses direi que nunca devemos desligar o desporto da cultura. E a quem argumentar que só os direitos humanos são tema relevante, responderei que a valorização da língua portuguesa, património da Humanidade, é igualmente um direito. Para nós, é um dever também.

Trás-os-Montes by amaricanos

Pedro Correia, 03.11.22

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Cheguei a pensar que Trás-os-Montes era um dos últimos redutos da portugalidade. Verifico que estava enganado: já não é. Confirmei há dias, consultando uma peça laudatória de um caderno semanal no Público escrito em parte por jornalistas que comem e dormem à borla nos restaurantes e hotéis que recomendam.

Este chamou-me a atenção pelo nome. Fica em Valpaços, belo concelho transmontano, mas mandou a língua portuguesa às urtigas, adoptando um nome importado da terra do Tio Sam. Intitula-se Olive Nature Hotel & Spa, vejam lá. A "amaricanice" aguda já se instalou junto à vetusta Serra da Nogueira.

«Uma proposta ancorada numa envolvente tranquila e na valorização do azeite», enaltece o Público na prosa lambida que caracteriza o suplemento. Recomendando, para relaxar, massagens no "Olive Spa by Dona Adelaide" - assim crismado, neste insólito crioulo luso-"amaricano". Para condizer com o nome do hotel.

Fixei o preço das massagens. Podem ser Aromas Campestres: 75 minutos pela módica quantia de 110 euros. Ou a Sensações do Campo: hora e meia a quem possa e queira esportular 240 euros. Coisa fina.

Preço médio das refeições: 35 euros. Quem optar pelo menu degustação, larga 55 euros. E se o repasto envolver "wine pairing" - esclarece ainda o Público - a conta sobe para 75 euros. O nome no idioma de Donald Trump deve pesar na factura.

Com tanta "amaricanice", até espanta que os preços não estejam em dólares. Trás-os-Montes ainda acaba travestido em Behind the Mountains. Já faltou mais.

Ler (12)

Erros a mais num romance só

Pedro Correia, 24.09.22

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Leio outro livro daqueles a que chamo "literatura da côdea". Páginas e páginas em que as personagens vagueiam à mercê das inclemências do destino, com a abstinência a roer-lhes o estômago sem nada mais conseguirem encontrar para comer do que pedaços de pão por vezes acompanhados de um toucinho já rançoso.

Não é a fome metafísica, daquelas que se apossam de seres envoltos em angústia traumática, como a figura central desse assombroso romance existencialista avant la lettre que é Fome, de Knut Hamsun. Nem a duríssima fome física que corrói um homem até às entranhas em campos de extermínio modelados por sistemas totalitários, como os nazis em A Centelha da Vida, de Erich Maria Remarque, ou os soviéticos em Um Dia na Vida de Ivan Denitsovitch, de Aleksandr Soljenítsine.

Este é o jejum abstracto, à portuguesa, que durante décadas invadiu a nossa literatura burguesa para lhe incutir suposto cunho popular e lhe deu uma toada ideológica dominante - a tal ponto que ainda encontramos ecos disso no que hoje se vai publicando. Dezenas e dezenas de livros em que apenas se mastigam restos de pão duro migados numa tigela de caldo aguado e triste. Dezenas e dezenas de autores que parecem monges recolhidos em celas, renegando o pecado da gula, sem jamais dedicarem um parágrafo ao prazer da comida ou ao culto do convívio à mesa. Depois dos clássicos, como Camilo e Eça, existe um extenso e penoso período em que ninguém come nem bebe na literatura portuguesa.

É tema a que dediquei algum espaço aqui.

Aquilino Ribeiro e Agustina Bessa-Luís figuram entre as raras excepções a esta frugalidade militante. Do primeiro, gosto de realçar aquela frase do magnífico romance Quando os Lobos Uivam, já citada aqui: «Filomena tinha-lhes um bom caldo de grão-de-bico adubado com pespé de cerdo e uma arrozada de coelho bravo. Comeram-lhe bem, beberam-lhe melhor.»

Epicurismo militante num estilo inconfundível. Inimitável.

 

Pois acabo de ler um desses expoentes da "literatura da côdea". A tristeza habitual. Nem umas iscas na frigideira, nem uns carapaus alimados, nem uma açorda de tomate, nem uns ovos mexidos com presunto. Fuma-se muito, vão-se emborcando uns copos de carrascão, mas a comida fica fora do cardápio literário - resquício desse tempo em que a literatura lusa fazia voto de pobreza.

Em compensação, abundam erros de ortografia. Alguns tão primários, tão clamorosos, tão inadmissíveis que espanta como escaparam a quem reviu e editou a obra, na primeira metade dos anos 50, e a quem a foi reeditando até ser impressa esta versão do mesmo romance, publicada em meados do século 70, numa colecção que ficou famosa: Livros Unibolso.

Cheguei a supor que eram simples gralhas. Mas a cadência e a quantidade dos erros levaram-me a concluir que constavam do manuscrito original. Algo inaceitável, tratando-se de autor que ostentou certa fama e até recebeu salamaleques da chamada "crítica". 

 

Registo alguns: «farçante» (p. 33); «ripansos» (p. 39); «trazeiros» (p. 84); «espectativa» (p. 85); «farças» (p. 85); «cordealidade» (p. 100); «escárneo» (p. 108); «nazalada» (p. 113); «mangedoura» (p. 124). Já para não falar em ridículas redundâncias, como «os olhos saídos fora das órbitas» (p. 54).

Raio de prosa, tão mal parida por um autor "consagrado".

Lendo isto, tal como isto, admira cada vez menos que a iliteracia galope à desfilada nas redes ditas sociais. Se os "vultos da literatura" escrevem com os pés, sem o menor reparo das sisudas sumidades que lhes prestam vénia, não terá também o escriba anónimo o pleno direito de chafurdar na asneira?

 

Leitura complementar:

A literatura que vai à cozinha (18 de Maio de 2017)

Diário do coronavírus (10) (15 de Maio de 2020)

A hilariedade do pagem na mangedoura (21 de Abril de 2021)

Bilha Solidária

Pedro Correia, 08.09.22

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Não sei quem teve a brilhante ideia. Talvez algum "criativo" recrutado pelo governo, generosamente pago para o efeito. Mas chamar Programa Bilha Solidária a um mecanismo de apoio aos agregados familiares que beneficiam de prestações sociais mínimas parece anedota de mau gosto. Como se não bastasse o uso e abuso da palavra "pacote", tendo Quim Barreiros como pensador de referência.

Se calhar nem sequer percebem. O que só agrava o caso.

"Cerca de uma" repórter

Pedro Correia, 27.08.22

Acabo de escutar, num canal de televisão, uma repórter em directo no aeroporto de Lisboa: «Podemos dizer que foram cancelados cerca de 14 voos.»

Porque não cerca de 13 ou cerca de 15?

Apetece escrever, em versão alternativa e adequada à situação: «cerca de uma repórter...» Alguém incapaz de contar até 14.

Confirma-se: o "cerca de" tornou-se praga tão forte como o "alegado" na linguagem comum do jornalismo português.

Escrever bem (ou mal)

Pedro Correia, 25.08.22

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Gostamos imenso de usar palavras em excesso. Vejo isso todos os dias no DELITO. Muitos comentários, assinados ou não, começam com quatro vocábulos inúteis: «Na minha opinião pessoal.» Inúteis por ser óbvio tratar-se de opinião, emitida por quem a escreve. Ainda nada foi dito e a frase já tropeça com peso a mais.

Uma variante desta, tão inútil como a primeira, abunda também por aí, sobretudo no discurso oral: «Eu acho que.» O pronome pessoal é redundante, mas cada vez mais insistente por influência brasileira, em réplica da sintaxe norte-americana. Apetece-me brincar com isto dizendo que temos muita gente com vocação para detective. É vocabulário revelador da nossa estrutura mental: "achar" como débil sucedâneo de "pensar".

 

Edito textos de outros há quatro décadas. Não apenas por missão jornalística (aos 21 anos já era coordenador de secção num semanário, aos 22 era editor), mas habituei-me a "limar prosa" mesmo fora da esfera profissional, combatendo a tendência tão portuguesa para o culto do pleonasmo. 

Esta tendência mantém-se. No advérbio «mesmo», semeado a torto e a direito nas frases, sem nada acrescentar no significado. Não faltando quem repita «é assim mesmo», uma vez e outra. Pode passar na fala, mas é um calhau na escrita.

Idem, para a profusão de pronomes possessivos, de novo por influência brasileira. Aponto sempre, como exemplo supremo da arte de bem escrever, a magnífica frase inicial de Cem Anos de Solidão: «Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.»

Nem uma palavra inútil. Apenas um adjectivo. Os nossos cultores de redundâncias logo enfiariam ali um possessivo a martelo: «O [seu] pai.» Tornou-se erro corrente. 

 

O mesmo sucede com a locução «hoje em dia», exemplo muito comum de desperdício vocabular. Está tudo dito no advérbio inicial - o resto só acrescenta ruído. Ou com a partícula enfática «é que», admissível na linguagem oral, sobretudo na forma interrogativa, mas sem préstimo na escrita excepto se reproduzirmos diálogos.

«É que hoje em dia chove mesmo muito pouco.»

Nesta frase agora inventada por mim encontramos três dos erros estilísticos que anotei. Costumo encontrá-los com frequência em prosa de gente que pretende escrever bem. Até em ficcionistas muito em voga, que vão conferindo argumentos de autoridade a quem "acha" que escrever é só alinhar palavras.

Podem "achar". Mas acham mal.

Em inglês...

jpt, 19.08.22

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(Postal no meu mural de Facebook)

Muito me abespinha esta mania cada vez mais generalizada, a de usar breves frases em inglês para enfatizar. E lá vêm o "amo-te", "é a vida", "belo ocaso", "festa divertida", "esplêndida Lua", "tão giro", etc. Tudo isso botado em inglês. E isto não é para comunicar com o mundo mais amplo, na língua franca, nem para mostrar dotes linguísticos. É mesmo a parvoíce de pensar que inglês reforça o sentido...