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A primeira vítima mortal

por Pedro Correia, em 17.03.20

Sim, estamos em guerra. Contra um inimigo invisível. E em guerra todas as palavras contam, como Churchill nos ensinou. 

Ontem, registou-se a primeira vítima mortal no nosso país. Alguém com nome e rosto, muito mais do que um mero dado estatístico. Um cidadão português, que trabalhou durante anos como profissional do futebol. Uma pessoa, com dignidade anterior e ulterior à sua condição de membro de um núcleo social.

«Tratava-se de um homem de 80 anos», revelou a ministra da Saúde, em conferência de imprensa a meio da tarde. «Um senhor», emendou subtilmente Rodrigo Guedes de Carvalho ao fazer o lançamento da peça que abriu, às 20 horas, o Jornal da Noite da SIC. 

A escolha de uma palavra nunca é irrelevante. Em tempo de guerra ou em tempo de paz.

Propaganda com charada

por Pedro Correia, em 03.03.20

Acabo de ouvir esta frase, no lançamento de uma peça num telediário da hora do almoço: «Lisboa é uma das cidades europeias onde se pode envelhecer activamente com dignidade.»

Alguém consegue explicar-me o que isto significa?

O Estado a que chegámos

por Pedro Correia, em 26.02.20

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Depois de amanhã, na zona de Belém, é inaugurada uma exposição que está a ser muito propagandeada com cartazes distribuídos pela capital. Uma exposição do Museu Van Gogh, de Amesterdão, que conta com patrocínios oficiais - incluindo do Governo português e da Câmara Municipal de Lisboa.

Lamentavelmente, os cartazes da exposição estão redigidos praticamente na íntegra em inglês. Que nem é idioma oficial na Holanda, país de origem da exposição, nem de Portugal, país que a acolhe em lugar nobre e com o espavento que talvez mereça.

Nem uma frase em português, no título ou na legenda. Nem um arremedo de versão bilingue, que seria compreensível. Só faltou o endereço vir também impresso na língua natal de Boris Johnson e Donald Trump para a rendição ao idioma anglo-amaricano ser completa.

Que isto aconteça com tão elevados patrocínios diz muito do Estado a que chegámos na defesa, promoção e valorização do nosso idioma.

Urro racista agora é «cântico»

por Pedro Correia, em 17.02.20

É sempre assim: alguém desprovido de neurónios escreve um vocábulo sem lhe conhecer o significado e logo vai tudo atrás, reproduzindo o dislate. Quando o erro se torna norma, imprime-se o erro.

Eis mais um exemplo: o substantivo masculino cântico significa «ode religiosa cantada nas igrejas» em honra e louvor de uma divindade ou - fora do original contexto bíblico«poema ou hino» entoado com o propósito de louvar, adorar, algo ou alguém. Qualque banal dicionário o confirma.

Mas os imbecis adoram exibir ignorância. Daí confundirem sem sobressaltos de consciência cântico com qualquer ruído grupal zurrado em estádios de futebol. Como ainda ontem ocorreu durante o jogo V. Guimarães-FC Porto: a imitação de sons de chimpanzé, em declarada provocação racista a um jogador da equipa visitante, não tardou a ser elevada à condição de «cântico» por vários escribas de turno.

Incapazes de dominar o suposto idioma materno. Incapazes, portanto, de perceber que ao equipararem aqueles urros a odes poéticas ou hinos religiosos estão afinal a branquear o racismo.

Haverá ainda alguém lá nas redacções onde juntam palavras capaz de lhes explicar isto?

 

.................................................

 

Alguns exemplos:

RTP: Marega abandona jogo após cânticos racistas em Guimarães

TSF: Marega critica árbitros por cartão amarelo após cânticos racistas

Notícias ao Minuto: Marega abandona o relvado do Vitória SC por culpa de cânticos racistas

DN Madeira: Marega (ex-Marítimo) foi substituído por alegados cânticos racistas dos adeptos do Guimarães

Negócios: Marega critica árbitros por cartão amarelo após cânticos racistas

Esquerda: Marega, jogador do Porto abandonou o campo por ser vítima de cânticos racistas 

Resistência activa ao aborto ortográfico (139)

por Pedro Correia, em 29.11.19

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Vinho Projecto Amizade

(Douro, Denominação de Origem Controlada)

Resistência activa ao aborto ortográfico (138)

por Pedro Correia, em 18.11.19

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Lisboa, Avenida de Roma (Novembro, 2019)

Resistência activa ao aborto ortográfico (137)

por Pedro Correia, em 07.11.19

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Lagos, Praça Gil Eanes (2019)

Ontem, num jornal de referência

por Pedro Correia, em 29.09.19

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O analfabetismo vai galopando, dia após dia, nas colunas dos jornais. Até naqueles que presumem ser mais ilustrados e instruídos. Ontem, numa entrevista publicada num semanário, deparei com esta chocante confusão entre o verbo haver e a contracção de uma preposição com um artigo definido.

Antigamente, quando tais nódoas pousavam no papel, não faltava quem corasse de vergonha. Agora é tempo de encolher os ombros e partir para o dislate seguinte com toda a descontracção do mundo.

Hoje, num jornal de referência

por Pedro Correia, em 28.09.19

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Eis o nosso idioma cada vez mais em xeque: a iliteracia ganha terreno, dia após dia. Sem "greves linguísticas" de protesto, equivalentes às "greves climáticas". Toda a gente encolhe os ombros. Se calhar até acham bem.

A minha indignação bem expressa

por Pedro Correia, em 10.09.19

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Lamento muito ter de me pronunciar aqui contra a minha alma mater, mas acho péssimo que a Universidade Católica se promova no estrangeiro e no próprio País deturpando o nome da nossa capital.

Lisboa. Uma das mais belas palavras do idioma de Camões. Que, por acaso ou talvez não, coincide com nome da principal cidade portuguesa.

Acontece que a Católica, por motivos que não consigo descortinar, optou por abastardar Lisboa, adulterando-lhe a grafia, agora adaptada ao amaricano que vai dando cartas em certos círculos bem-pensantes.

É uma aberração.

 

Devíamos aprender com os nossos irmãos brasileiros. Alguém imagina uma instituição brasileira a deturpar os nomes das duas principais cidades do país, Rio de Janeiro e São Paulo - orgulhosamente escritos assim, na universal língua portuguesa que nos serve de poderoso traço de união?

Alguém imagina os brasileiros a escreverem "St. Paul" ou "River of January" para caírem nas boas graças do falso cosmopolitismo que galopa por aí?

Nem pensar.

 

Aqui fica o meu lamento. Aqui fica o meu protesto.

Aqui fica a minha indignação. Ao ver a falsa primeira página do Expresso do último sábado com a falsa manchete que aqui reproduzo e alguns dos títulos que junto também. Todos escritos num peculiar jargão luso-amaricano em que o português é praticamente empurrado para a borda do prato.

Deixaram-me envergonhado. E tenho a convicção de que muitos professores e muitos dos actuais alunos da Universidade Católica pensam como eu.

Resistência activa ao aborto ortográfico (136)

por Pedro Correia, em 03.09.19

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Lisboa, na parede exterior do Palácio de Belém

Contra os purismos ortográficos

por jpt, em 28.08.19

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No postal anterior o Pedro Correia insurge-se contra um pequeno erro ortográfico acontecido na estação televisiva SIC. Não quero contrariar o nosso camarada coordenador, em público ainda para mais. Mas com ele algo discordo, pois considero que devemos matizar um pouco a aversão às instalações ortográficas de índole contemporânea. Dou este exemplo, também recolhido na estação televisiva SIC, local bastante vocacionado para tais desempenhos. Esta minha fotografia é de 30 de Julho. Como qualquer pessoa mais atenta ao futebol (para os mais incautos aduzo bibliografia suficiente) poderá perceber o jornalista (ou "colaborador" como agora sói dizer-se) da SIC não estava a errar mas sim a augurar. Serendipidade, talvez. Ou mesmo profetismo. Deveremos nós cercear este afã em perscrutar o futuro? Aceitemos, pois, com humildade, estes novos rumos. (Orto)Gráficos. E mágicos? ...

 

Sem palavras

por Pedro Correia, em 28.08.19

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SIC Notícias, hoje, às 15.15

Resistência activa ao aborto ortográfico (135)

por Pedro Correia, em 12.08.19

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  Coimbra, Rua Ferreira Borges

Resistência activa ao aborto ortográfico (134)

por Pedro Correia, em 30.03.19

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  CP, nas ligações ferroviárias Lisboa-Cascais

Complicar o que é simples

por Pedro Correia, em 23.03.19

Temos a mania de complicar o que é simples. O que logo se detecta na linguagem comum. Reparo tantas vezes na expressão "bom dia para si", hoje de uso corrente, como se um claro e belo "bom dia" não bastasse como saudação. Ou na quantidade de vezes que alguém, em diálogo connosco ou perorando na pantalha, inicia uma frase com esta inútil bengala retórica, insuflada de pleonasmos bem à lusitana: "Na minha opinião pessoal..."

Sempre tive a sensação de que o desdobramento das frases em inúteis partículas vocais é inversamente proporcional àquilo que se sente. O que vale para a expressão oral funciona também para a escrita. Quando dava formação a estagiários no jornalismo, recomendava-lhes esta regra: nunca usem palavras com mais de dez caracteres em títulos. Há que simplificar o que parece complicado. No nosso idioma, o essencial fica quase sempre dito em vocábulos de escassas letras: luz, lua, dom, mar, mágoa, ler, cor, água, som, ar, dor, dar, ver, rio, calor, frio, flor, sol, amor. 

Tanto se fala em mudar, reformar, transformar: comecemos por alterar o modo como falamos. Toda a verborreia é dispensável. Libertemo-nos dela, como um acto higiénico. 

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 24.02.19

«São agora duas formas de falar o português, de tal forma que já não digo 'Português do Basil', digo Brasileiro, referindo-me à língua. Basta conviver com aquela malta (e o meu genro, papai da minha neta, é um desses casos) para perceber que não percebemos metade do que dizem: autonomizaram-se, e a vastidão do seu território (pensemos assim: a região do Pantanal tem sensivelmente o tamanho de Portugal, e é pouco habitada...) ajuda à vastidão do vocabulário, nomeadamente porque a língua reporta para o que nos corcunda, o que fazemos, etc., e temos realidades absolutamente distintas, donde...

Às vezes, falando com o Fellipe, não percebo metade do que diz, mas ele percebe tudo o que digo.

Depois, há que perder, de uma vez por todas, a aura do Portugal colonizador, essa bela porcaria, quando o Brasil é uma miscelânea absoluta: posso pegar no nome do meu genro, por exemplo: origens? portuguesas, africanas, alemãs, italianas, francesas e, motivo de muito orgulho, neto de uma pura Tupi-Guarani (não é à toa que defendo cada vez mais a miscelânea das gentes, que, aliás, produz belos espécimes: a minha neta tem um olhar asiático, a pele clara, um sorriso de desmaiar e, claro, fala incongruências lindas, aos 11 meses, mas seguramente terá o melhor dos mundos - muito mundo - dentro de si).

Ninguém se desviou do tema, que o tema é uma mescla (não será à toa que os brasileiros riem de ventre para cima com a treta do AO-Coiso).»

 

Da nossa leitora Alexandra G. A propósito deste meu texto.

As palavras em vias de extinção

por Pedro Correia, em 16.01.19

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Temos a mania de mudar o que está certo. Penso nisto ao ver alteradas, em sucessivos lançamentos editoriais, antigas designações de obras-primas da ficção literária vertidas para o nosso idioma: O Monte dos Vendavais derivou primeiro para O Monte dos Ventos Uivantes e depois para O Alto dos Vendavais; a Cabra-Cega, de Roger Vailland, tornou-se Jogo Curioso (alguém estará convencido de que se adequa assim à semântica portuguesa o Drôle de Jeu original?); o Catcher in the Rye, de Salinger, passou a intitular-se À Espera no Centeio, abandonando-se Uma Agulha no Palheiro, feliz título concebido na anterior tradução, de João Palma-Ferreira.

Anda agora por aí uma recente versão de Três Homens num Bote, divertido romance de Jerome K. Jerome com este nome consagrado há décadas em português. O novo tradutor e o novo editor optaram por outro título: Três Homens num Barco. O que de algum modo confirma a intensa compressão vocabular que a língua portuguesa vai sofrendo, com a definitiva eliminação de milhares de palavras subitamente tornadas imprestáveis nesta era das mensagens instantâneas, quando até já há quem escreva “romances” por telemóvel. Se bote e barco são sinónimos, mas o segundo termo se reveste de um teor mais impreciso e sem o relance humorístico que num bote para três já se insinua, porquê rejeitar a designação já consagrada? Não custa adivinhar: a outra é de apreensão mais fácil.

Assim vamos comunicando de forma cada vez mais esquemática, prestando culto ao literalismo despido de ironia e despovoado de metáforas, com um naipe de palavras cada vez mais reduzido, o que produz reflexos óbvios no pensamento e na própria cidadania. Vocábulos rudimentares conduzem fatalmente a raciocínios esquemáticos, cada vez mais distantes da complexidade e da sofisticação que só um domínio alargado das variações semânticas induz. Daí à visão do mundo e da vida a branco e negro, numa dicotomia simplista que favorece os demagogos de todos os matizes, vai um curto passo.

«A redução de vocabulário nos últimos anos tem sido dramática. Não apenas do vocabulário culto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída. Mas daquele que transportava uma tradição ancestral», alerta-nos Mário de Carvalho no seu excelente manual de escrita intitulado Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, justamente galardoado em 2015 com o Prémio P.E.N. Clube para melhor ensaio. E o escritor concretiza, indo ao cerne da questão: «Se hoje muitos jovens não conseguem perceber um provérbio, isso acontece não somente porque o mundo rural desapareceu, mas porque se tem destruído a memória e ocultado a espessura da História. Uma das razões para ler é também a vontade de libertação, a expressão de um inconformismo que não aceita ficar encarcerado dentro dos limites do vocabulário básico.»

Já estivemos mais longe dos grunhidos monossilábicos como forma dominante de expressão oral. Não falta também por aí quem gostasse de os ver como matriz dominante da nossa escrita.

 

Texto escrito a convite do meu editor e amigo Manuel S. Fonseca, um dos melhores cronistas da imprensa portuguesa, para o seu novo blogue, A Página Negra.

Só eu me espantarei?

por Pedro Correia, em 11.12.18

A andaluza Pilar del Rio, residente há 30 anos em Portugal, presidente da Fundação José Saramago e viúva de um dos maiores escritores do nosso idioma, continua a mostrar-se incapaz de proferir em público uma só frase em português.

Resistência activa ao aborto ortográfico (133)

por Pedro Correia, em 21.11.18

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  Direcção Regional de Educação do Centro


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