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As ligações insulares da Líbia

por João Pedro Pimenta, em 30.03.18
O suposto patrocínio de Muammar Kadhafi e do regime líbio à campanha presidencial de 2007 de Nicolas Sarkozy, que levaram à detenção deste há poucos dias,  não é exactamente uma novidade nem um rumor esquecido. Já tinha sido publicitada várias vezes, a começar pelo filho do próprio ditador da Líbia durante o levantamento no país, quando a França liderou a intervenção militar externa que seria decisiva para a queda do "regime verde" e para os acontecimentos que se seguiram. 
 
A ser verdade não sei quais as razões deste patrocínio financeiro a Sarkozy, mas por certo seria para obter quaisquer objectivos financeiros ou estratégicos da parte da França. De resto, Kadhafi nunca deixou de se imiscuir nos assuntos dos outros países de forma diversa. Na sua versão mais recente fazia-o através de recursos económicos proporcionados pelo petróleo líbio, como os interesses que tinha em empresas italianas como a FIAT, ou até em clubes de futebol. Mas nas primeiras décadas, o coronel esteve envolvido em  quase todos os conflitos envolvendo terrorismo e rebelião. Do IRA à ETA, passando por todas as organizações palestinianas e estando por trás de grandes atentados dos anos oitenta, como a explosão do avião sobre Lockerbie, ou estreitamente ligado aos grandes terroristas da época, como Carlos, O Chacal, ou Abu Nidal, Kadhafi não perdia uma. E quando não tinha uma organização terrorista ou ma causa subversiva para apoiar, procurava-as. Um artigo recente de Rui Tavares conta-nos que o ditador líbio, numa reunião da Organização dos Estados Africanos, exigira a "liberdade da colónia africana da Madeira, ocupada por Portugal", dizendo o mesmo das Canárias. Se a esta ainda podia fazer referências aos guanches, o povo autóctone pré-espanhol, já dificilmente veríamos os madeirenses a querer ser libertados por Kadhafi. 

 

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Mas os líbios, sempre prestes a auxiliar um bom movimento separatista, também olhavam para os Açores, já fora da órbita africana. César Oliveira, antigo deputado e autarca do PS (e pai de Tiago Oliveira, agora muito falado por estar à frente da estrutura que previne os fogos rurais), já desaparecido, conta-nos as suas impressões da Líbia em finais dos anos setenta no seu livro de memórias de 1993, Os Anos Decisivos:

País de um novo-riquismo impressionante e avassalador, a Líbia constituiu (...) a certeza de que representava uma ameaça para a paz e no Norte de África como para o próprio Sul da Europa (...) Um alto dirigente líbio colocou-me a pergunta sobre a posição da UEDS quanto à ala esquerda da FLAMA e da FLA. E como tivéssemos respondido, naturalmente, que não víamos qualquer ala esquerda naqueles movimentos insulares e que, pelo contrário, os víamos como de extrema-direita e politicamente suspeitos, acabaram-se todas as facilidades e tive mesmo dificuldades em obter o bilhete de avião  para Lisboa, via Roma. 
 
Claro que o apoio a tais movimentos não passou de intenções, discursos e perguntas. Mas revela bem até que ponto aquele excêntrico regime líbio interferia ou procurava interferir nos assuntos dos outros países. Daí que não possa deixar de me rir quando ainda ouço inúmeras indignações A invasão e "violação da soberania da Líbia." Não que não tivesse acontecido, que aquilo não tenha redundado num caos e que a morte de Kadhafi e outros não seja condenável. Mas se houve país que se imiscuiu nos assuntos alheios, com consequências trágicas, a Líbia é o melhor exemplo, assim como Kadhafi é o responsável por inúmeras mortes e conflitos. Aplicou-se, de novo, a velha teoria de que quem com ferros mata...

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A ler

por José Maria Gui Pimentel, em 25.10.11

Um ditador amigo (Daniel Oliveira no Arrastão e no Expresso Online)

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Os Buíças de Sirte

por Pedro Correia, em 24.10.11

Pensava que a esquerda radical era claramente favorável ao tiranicídio. Pensava que a esquerda radical gostava de ver ditadores executados pelas "massas populares" em vez de os ver placidamente confiados à "justiça burguesa". Afinal enganei-me: o Bruno Carvalho e a Helena Borges, que nunca choraram qualquer lágrima pelas vítimas de Kadhafi, andam a chorar a forma como o ditador foi executado. Tratou-se de um acto brutal e repugnante - de acordo. Mas será que no mesmo blogue onde escreve quem celebrou o regicídio de Fevereiro de 1908, elegendo até esse duplo crime que chocou a Europa como acto fundador da república portuguesa, sobrará um pingo de moral a alguém para se indignar agora contra os Buíças de Sirte?

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Lágrimas pelo coronel corrupto

por Pedro Correia, em 21.10.11

Muammar Kadhafi era um simples coronel do exército líbio quando subiu ao poder, em 1969. Quarenta e dois anos depois, ao ser derrubado, era um dos homens mais ricos do planeta e provavelmente o mais rico do continente africano: a sua fortuna estava avaliada em 150 mil milhões de dólares, desviados de fundos estatais da Líbia e espalhados um pouco por todo o mundo. Só em Portugal, como revelou hoje o Público, o ditador deixou 1300 milhões de euros em quatro contas na Caixa Geral de Depósitos. 

Nada de muito original: vários ditadores antes dele eram também corruptos. Novidade é vermos pela primeira vez a esquerda radical, pura e dura, verter lágrimas por um multimilionário.

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Notícias em várias frentes

por Pedro Correia, em 21.10.11

Tudo sobre a captura e morte de Kadhafi. Aqui.

 

Tudo sobre o anúncio do fim da ETA. Aqui e aqui.

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O fim de um pesadelo

por Pedro Correia, em 20.10.11

 

Nestas alturas, mais que nunca, não importa o que proclamam os cínicos: a captura de um ditador é sempre motivo para festejar.

 

ADENDA (14.35): Kadhafi terá sido morto na captura, ao contrário do que indicavam as primeiras notícias. Confirma-se o adágio, velho como o mundo: quem com ferro mata, com ferro morre.

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Mon ami Muammar

por João Carvalho, em 13.09.11

A Guiné-Bissau ofereceu guarida a Kadhafi. Isto não terá um dedinho de Sócrates?

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Ainda não é certo que Kadhafi...

por João Carvalho, em 08.09.11

 

... se tenha escondido neste transporte, mas os mercenários do coronel estão a abandonar a Líbia por todos os meios.

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Kadhafi dá muito que falar

por Pedro Correia, em 29.08.11

Novo recorde de comentários no DELITO: 320, num texto sobre Muammar Kadhafi, intitulado 'Este já não prende mais ninguém'. Está visto que a Líbia é um tema muito polémico.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 28.08.11

 

«'Façamos um raciocínio meramente experimental', escrevia a académica americana Anne-Marie Slaughter no Financial Times, na quinta-feira passada. 'Imaginemos que a ONU não tinha votado a autorização do uso da força na Líbia, em Março passado. Que a NATO não tinha feito nada. Que o coronel Kadhafi tinha tomado Bengasi. Que os Estados Unidos tinham ficado a ver. Que a oposição líbia ficara reduzida a um ou outro protesto, rapidamente esmagado...'

Para o povo líbio e para a Primavera Árabe, as consequências deste cenário alternativo teriam sido obviamente catastróficas. E para a Europa? Teria sido absolutamente insuportável do ponto de vista moral e do ponto de vista político. Os europeus passaram anos a apostar na 'estabilidade' do mundo árabe, garantida pelos regimes mais ou menos opressores que dominavam a região. Com ou sem estados de alma, conviveram tranquilamente con Ben Ali ou Mubarak e passaram a ser (uns mais do que outros) visitas assíduas à célebre tenda do coronel Kadhafi, sobretudo a partir do momento em que o ditador aceitou renunciar ao terrorismo e a qualquer ambição nuclear a troco da reabilitação ocidental. No início deste ano, descobriram que, afinal, a única alternativa aos ditadores não era o fundamentalismo islâmico, que os povos da região também aspiravam à dignidade e à liberdade e resolveram agarrar no destino com as próprias mãos. Teve de rever a sua estratégia. Imagina-se o que teria significado se os mesmos visitantes da tenda assistissem impávidos e impotentes a um massacre em Bengasi.»

Teresa de Sousa, no Público

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Gosto

por Pedro Correia, em 27.08.11

 

Da nova bandeira líbia. Já hasteada aqui no DELITO.

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Livre

por Pedro Correia, em 23.08.11

 

Tudo dito em duas palavras: Livre Líbia. Uma grande manchete do Libération. A imprensa mediana faz manchetes só a pensar no dia seguinte. A melhor imprensa faz manchetes a pensar na História.

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De Salazar a Kadhafi

por Pedro Correia, em 23.08.11

 

Escuto um daqueles programas destinados a "ouvir a voz do povo" num canal televisivo de notícias. O tema da tarde era a queda da ditadura líbia no preciso momento em que as forças da oposição irrompiam no bunker de Kadhafi, no centro de Trípoli, e se confirmava a conquista da capital após seis meses de sangrenta guerra civil.

Para meu espanto, nem uma só voz se ergueu em defesa dos combatentes anti-Kadhafi. Todas as opiniões exprimiam apoio explícito ou velado ao coronel que oprimiu a Líbia durante 42 anos.

Opiniões como estas:

«A Líbia é um paraíso. É um país como a Suíça, mas [os opositores] deram cabo dele.»

«Preocupa-me saber o que é que estes senhores [da oposição] vão fazer quando chegarem lá [ao poder].»

«Eu nunca estive na Líbia. Mas o que está em causa na Líbia é o dinheiro, é o petróleo.»

«Há duas semanas também houve violência na Inglaterra.»

«Não me venham falar em direitos humanos.»

«O que vão fazer ao Kadhafi? O mesmo que ao Saddam Hussein?»

Trinta e sete anos depois do 25 de Abril, chegámos a isto: queremos a democracia para nós enquanto toleramos e até aplaudimos a ditadura para os outros. Quem lamenta a queda de Kadhafi, pela mesma lógica, alinharia por Marcelo Caetano contra Salgueiro Maia.

«Não me venham falar em direitos humanos.» Uma frase que poderia ter sido proferida por Salazar, reeditada neste Portugal do século XXI. Como se a atracção pelos regimes de "pulso forte" estivesse inscrita no nosso código genético.

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Este já não prende mais ninguém

por Pedro Correia, em 22.08.11

 

Muammar Kadhafi subiu ao poder há 42 anos. Quando Marcelo Caetano era o chefe do Governo português, Richard Nixon disputava a Casa Branca contra Hubert Humphrey e Neil Armstrong acabara de deixar a sua pegada impressa no solo lunar. A larga maioria dos líbios nunca conheceu outro dirigente supremo senão este coronel que nos últimos seis meses, acossado pela crescente revolta de massas contra o seu domínio tirânico, não hesitou em desencadear uma guerra civil contra o próprio povo.

Kadhafi, convém recordar, foi um dos ditadores a quem o Governo português estendeu a passadeira vermelha em Dezembro de 2007, por ocasião da  lamentável cimeira UE-África. Como na altura escrevi, o seu cadastro como governante era o menos recomendável possível: «Financiou o terrorismo internacional. Sob o seu mandato, pelo menos 250 presos políticos "desapareceram" misteriosamente. Os partidos são rigorosamente proibidos no país. A liberdade de expressão é uma miragem. A tortura generalizou-se como instrumento de combate ao "crime". Muitas mulheres suspeitas de adultério são remetidas a casas de "reabilitação". Na Líbia de hoje, uma crítica ao Governo pode ser punida com a prisão. Ou ainda pior: a tristemente célebre Lei 71 pune a "dissidência", em casos extremos, com a pena de morte.» O mais recente relatório anual do Observatório de Direitos Humanos não deixava lugar a dúvidas: «A repressão da sociedade civil, sob o controlo do Governo, continua a ser norma na Líbia.»

Kadhafi não está em condições de mandar prender e torturar mais ninguém: a resistência líbia já entrou em Trípoli e promete instaurar um regime democrático no país. O coronel não lidera nada, mas as televisões portuguesas continuam a chamar-lhe "líder líbio". Será assim tão incómodo pronunciar a palavra ditador?

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Os ventos da liberdade

por Pedro Correia, em 18.08.11

 

Estamos em 2011, como estivemos em 1989, a viver tempos de grande aceleração da História. Um passo é dado sem que tenhamos capacidade para prever qual será o passo seguinte, tão dinâmica é a realidade e tão voláteis são alguns cenários que julgávamos sólidos e resistentes. Há seis meses, por exemplo, nenhum dos mais credenciados observadores da cena política internacional era capaz de vaticinar os movimentos insurreccionais que se sucederam no Magrebe e na Península Arábica contra as ditaduras de diversos matizes ali instaladas. Ben Ali e Hosni Mubarak, que geriam com punho de ferro a Tunísia e o Egipto, caíram do pedestal e viram-se forçados a enfrentar pesadas acusações do foro criminal. O coronel Kadhafi, outrora ídolo da esquerda radical europeia, está cada vez mais cercado no seu bunker de Trípoli, com a Líbia a ferro e fogo, enfrentando um crescente movimento de revolta popular: em desespero, não consegue encontrar melhor modelo do que o Franco de 1939 para garantir que esmagará o seu próprio povo. Na Síria, a ditadura de Assad tenta desesperadamente dispersar a tiro o irreprimível movimento de protesto que leva milhares de pessoas para as ruas em massas compactas de indignação: muitas delas já pagaram com a vida este impulso em defesa da liberdade.

Ao contrário do que pensadores como Hegel e Marx defendiam no século XIX, há sérios limites para a capacidade de previsão em História. Que o digam todos aqueles cultores da realpolitik - com Henry Kissinger à cabeça - que nas décadas de 70 e 80 agiam como se a política de blocos nascida da Conferência de Ialta estivesse inscrita nas estrelas, como garantia para a eternidade. Nenhum deles foi capaz de prever aquele inesquecível ano de 1989, quando toda a Europa de Leste submetida ao domínio comunista se desmoronou como um castelo de cartas e o Muro de Berlim ruiu enfim sob a pressão de quantos o viam como aquilo que de facto era: um inaceitável símbolo de intolerância e repressão.

O mundo bipolar que ditou o destino de três gerações tornou-se tão obsoleto como a grafonola, o telégrafo ou a máquina de escrever. Mas pelo menos uma lição podemos e devemos extrair tanto dos acontecimentos de 1989 como deste extraordinário ano de 2011 ainda em curso: não é possível governar os povos pela força durante o tempo todo. Nenhuma região do mundo está imune aos ventos da liberdade.

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Parece escrito por um iletrado

por Pedro Correia, em 17.08.11

 

Raras vezes temos oportunidade de perceber o que um ditador contemporâneo verdadeiramente pensa da democracia. Em regra, impera o cinismo: estabelece-se a ditadura entre proclamações de suave apego aos valores democráticos. O Livro Verde de Muammar Kadhafi tem o mérito - que será, provavelmente, o único - de nos revelar um ditador que não reconhece nenhuma vantagem na democracia tal como a conhecemos em qualquer parte do mundo. E chega até ao requinte de anunciar que a democracia é a verdadeira ditadura, enquanto a ditadura dele é a verdadeira democracia. Eis-nos mergulhados num universo concentracionário, versão alternativa do 1984 de George Orwell com as suas palavras de ordem alucinadas: "Guerra é paz", "ignorância é força" e "liberdade é escravidão".

Este livrinho com boa encadernação impresso em Portugal por decisão das autoridades líbias, que o distribuíram em vários idiomas por diversos países, tem a pretensão de se assumir como a "Terceira Teoria Universal", sem especificar quais foras as outras duas. Está dividido em três partes: política, económica e social. A primeira "assinala o início da era das massas", a segunda "inaugura uma revolução económica internacional", a terceira "desencadeia a revolução social". Não se contenta com menos. "Apresenta a genuína interpretação da História" e "debruça-se sobre a solução do problema das minorias e dos pretos (sic), de modo a estabelecer os princípios firmes da vida social para toda a Humanidade".

 

A leitura é penosa. Por este simples motivo: o estilo é do mais rudimentar que há. Felizmente o livrinho - a bíblia da ditadura de Kadhafi, inaugurada em 1969 - tem apenas 120 páginas. O homem que não hesita hoje em aniquilar parte do seu povo, depois de durante décadas ter apoiado o terrorismo internacional, exprime aqui o seu ódio aberto à democracia representativa, ao sistema partidário e à legitimação dos políticos pelo voto popular. "Os parlamentos são a falsificação da democracia", escreve na página 9, concluindo com humor involuntário: "As ditaduras mais tirânicas que o mundo tem conhecido foram estabelecidas à sombra de assembleias parlamentares."

Cruzando o messianismo político e um nacionalismo de pacotilha com um vago "socialismo" na economia, Kadhafi sintetiza o seu programa político numa frase que nos esclarece bem sobre o verdadeiro ideário deste "líder" que durante largos anos seduziu importantes sectores da esquerda mundial (incluindo, naturalmente, a errática esquerda portuguesa): "A verdadeira lei de uma sociedade é o costume ou a religião. A Constituição não é a lei da sociedade." (p. 31)

 

Este livro não possui qualquer mérito literário: na verdade, em muitos trechos parece ter sido escrito por um iletrado. Também não revela qualquer mérito histórico ou sociológico: Kadhafi não se dá ao incómodo de citar um autor, de invocar um dado estatístico ou aludir sequer a algum acontecimento histórico, tirando uma vaga alusão à Revolução Industrial. Por vezes, julgaríamos estar perante um banalíssimo livro de auto-ajuda: "A Terceira Teoria Universal é o anúncio às massas da salvação final de todas as formas de injustiça, despotismo, exploração e hegemonia política e económica."

Pura charlatanice. O verdadeiro mistério é conceber nos nossos dias o que terá levado este coronel a ser apresentado outrora como figura inspiradora a milhões de fiéis no mundo inteiro. Lido hoje, o seu Livro Verde parece cheio de verdete.

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Os amiguinhos do carniceiro

por Pedro Correia, em 23.06.11

Todos os dias há quem entre e saia de blogues: nada mais normal. Jorge Palinhos fez o que entendeu: desvinculou-se do 5 Dias por já estar farto de ver alguém por lá chamar "carrasco do povo líbio" ao eurodeputado Rui Tavares, aliás antigo membro do mesmo blogue. Levou logo ali o troco, desta forma elegantíssima, da parte de um dos fãs assumidos do verdadeiro carrasco do povo líbio: Muammar Kadhafi, que prometeu entrar em Bengazi como Franco fez em Madrid no fim da guerra civil 1936/39. Com a prestimosa ajuda do 'Comité de Não-Intervenção', cuja passividade funcionou como estímulo adicional ao ditador espanhol na sua ofensiva bélica.

Não consigo dissociar Kadhafi de Franco enquanto verifico a forma entusiástica como o coronel é acolhido e as operações da NATO na Líbia, a coberto do direito internacional, recebem ferozes críticas naquele mesmo blogue. Talvez por lá preferissem um novo 'Comité de Não-Intervenção' para facilitar o esmagamento dos líbios pelo tirano pró-nazi que há 42 anos oprime o seu povo, tal como pormenoriza a Amnistia Internacional.

Diz-me que modelo tomas, dir-te-ei quem és. Se no 5 Dias há quem ponha em dúvida a existência de um regime democrático em Espanha e associe com beata reverência Fidel Castro à miraculosa descoberta da "vacina contra o cancro do pulmão", nada mais natural que também ali se considere a Líbia um modelo de liberdade. Isto enquanto os patriotas anti-Kadhafi resistem em Misrata e outras cidades expostas à fúria demente do carniceiro. Entretanto, Jorge Palinhos pode considerar-se um indivíduo com sorte. Noutros tempos, noutro local, arriscava-se a ser brindado com algo mais do que palavras insultuosas: era também capaz de receber um golpe de picareta.

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Os inimigos da liberdade

por Pedro Correia, em 05.05.11

         

 

O que há de comum entre Robert Mugabe, Hu Jintao, Mahmoud Ahmadinejad, Raúl Castro e Kim Jong-il? São todos inimigos da liberdade de imprensa. A lista completa, agora divulgada pelos Repórteres Sem Fronteiras, inclui também organizações criminosas, como a Mafia e a ETA. Vale a pena consultá-la aqui. Uma lista com 38 nomes - menos dois do que em 2010 devido à queda dos ditadores do Egipto e da Tunísia, duas das melhores notícias do ano.

Com lugar cativo na lista figura um ditador que ainda não caiu - o sírio Bachar al-Assad, responsável por 632 mortes e pelo menos três mil detenções desde que começaram os protestos populares contra o regime de Damasco, a 15 de Março. E também o ditador líbio, Muammar Kadhafi, que persiste em bombardear Misrata, cidade-mártir, surdo aos apelos à demissão feitos até por antigos aliados como o primeiro-ministro turco Recep Erdogan, agora estupefacto por ver que o tirano líbio condena o seu próprio povo a "sangue, lágrimas e opressão".

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Todas as previsões estão a falhar

por Pedro Correia, em 02.05.11

 

A velocidade vertiginosa a que os acontecimentos se processam, nestes tempos caracterizados por uma contínua aceleração da história, tornou todas as previsões falíveis na política internacional. E nem as publicações mais prestigiadas do planeta escapam a tal risco. Regresso, por estes dias, à edição de fim de ano da Economist, dedicada ao mundo em 2011. Como antevia esta revista o ano em curso no Egipto? Da seguinte forma que, volvidos poucos meses, já nos parece estranhamente desajustada: “A eleição presidencial programada para finais de 2011 é uma competição entre a continuidade (o Presidente Hosni Mubarak, no poder há muito tempo, já envelhecido), a dinastia (o seu filho, Gamal, que pode candidatar-se no seu lugar) e a improbabilidade (vitória de um candidato da oposição, nomeadamente o ex-director da Agência da Energia Atómica, Mohamed El-Baradei).”
Estas linhas foram escritas em Dezembro. Já em Fevereiro, não podiam estar mais desactualizadas: Mubarak foi derrubado, do seu filho e presuntivo herdeiro nunca mais ninguém ouviu falar e El-Baradei é precisamente um dos candidatos com mais hipóteses de vencer a próxima eleição presidencial.
E repare-se no que escreveu a Economist sobre a Líbia: “Muammar Kadhafi detém o poder há 40 anos e completará certamente os 41. Suprimindo opositores e minando rivais, removeu todas as ameaças significativas ao seu poder; o único sucessor digno de crédito é o seu filho, Saif al-Islam, mas a sucessão não se dará em 2011."
Tantas certezas prontamente desmentidas pelos factos: a “sucessão” de Kadhafi está já a ser uma das grandes histórias deste ano, como hoje bem sabemos, embora o ditador líbio tenha “certamente” completado 41 anos no poder – em Setembro de 2010, ao contrário do que garante a Economist, trocando as datas. Não são só os portugueses que erram ao fazer contas nem a imprensa portuguesa tem o exclusivo da desatenção a certos pormenores.
No capítulo das previsões erradas, esta edição da Economist arrisca-se a sair vencedora. Vale a pena guardá-la também por isto.

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Desonestidade intelectual

por Pedro Correia, em 05.04.11

 

A desqualificação de quem pensa de maneira diferente é a melhor forma de matar à nascença qualquer debate de ideias. Isso mesmo foi feito por António Vilarigues, que me acusa de “desonestidade intelectual” a propósito do apoio que o PCP tem dado a Muammar Kadhafi na guerra civil em curso na Líbia. Porque – diz ele – não aponto exemplos do que refiro nestes dois textos.

Não aponto exemplos? Um leitor isento concluirá naturalmente que qualquer desses textos tinha citações suficientes para sustentar o que escrevi. Mas posso sempre voltar ao tema. E, embora o faça sem qualquer gosto, não cedo à tentação fácil de brindar quem me critica com o apodo de “desonestidade intelectual”.

 

Tenho neste momento à minha frente o Avante! de 10 de Março. Na página 3, sob o título “É tempo de impedir a guerra”, o jornal dedica um texto à Líbia, ignorando logo no título que já então se desenrolava uma guerra no país. “Guerra” – para o Avante!, tal como para Kadhafi – só sucederia no dia em que ali ocorresse uma intervenção estrangeira. Mas naquela altura, até devido à presença de numerosos correspondentes de guerra na Líbia, o mundo não podia ignorar que se registava um duro conflito totalmente desproporcionado: de um lado os resistentes mal equipados e sem recurso à aviação; do outro, a ditadura líbia, armada até aos dentes. Nada que comovesse o Avante!: o jornal oficial dos comunistas devalorizava por completo o massacre de civis às ordens do coronel líbio, qualificando-o como "desinformação imperialista". Isto numa fase em que – acreditava o Avante!, nesta prosa assinada por Ângelo Alves, membro da Comissão Política do PCP – “a postura da China e da Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas” seria “contrária a uma agressão à Líbia”. Kadhafi pensava o mesmo, mas ele e os amigos de Lisboa enganaram-se: Moscovo e Pequim recusaram vetar a Resolução 1973 do Conselho de Segurança, viabilizando assim a missão da ONU destinada a proteger o povo líbio.

Na página 21 da mesma edição, e sob o título “Comissário demarca-se de posição sobre a Líbia”, o jornal vinha de novo em socorro do ditador congratulando-se por haver um comissário europeu – o maltês John Dallli – a “demarcar-se da posição oficial da União Europeia sobre a Líbia, recusando-se a exigir a demissão de Muammar Kadhafi”.

 

Mas a cereja em cima do bolo chega na página 23, numa peça de página inteira – não assinada – sob o título “Líbia cercada pelo imperialismo”. Uma peça que começa assim: “No domingo, milhares de apoiantes do Governo liderado por Muammar Kadhafi saíram às ruas da capital, Trípoli, para celebrarem a reconquista de algumas posições aos rebeldes. A manifestação, que teve o seu ponto alto na praça Verde, surgiu depois da televisão estatal informar que as forças leais ao Presidente haviam reconquistado importantes cidades como Misrata, Sauiya, Bem Jawad, Rad Lanuf ou Al-Zawyia.” Esta peça, extraordinariamente, procurava lançar o descrédito sobre as acusações dirigidas ao déspota líbio, referindo-se às “supostas violações dos direitos humanos cometidas pelas tropas leais a Kadhafi durante a alegada repressão de pretensas manifestações de massas”.

Alegadas? Pretensas? Supostas? O grau de cumplicidade com um ditador “amigo” devia ter limites, ditados pela óbvia evidência dos factos. Isto não sucede no Avante! nem no PCP. Mas que outra coisa seria de esperar de um partido que apoiou o infame pacto assinado entre a Alemanha de Hitler e a URSS de Estaline, a construção do muro de Berlim e as invasões imperialistas de países soberanos como a Hungria e a Checoslováquia pelos blindados “internacionalistas” da União Soviética?

António Vilarigues, militante de longa data do PCP, devia pensar duas vezes antes de chamar intelectualmente desonesto a quem quer que seja.

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