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Contra todas as cegueiras

por Pedro Correia, em 10.03.19

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É curioso analisarmos, por vezes, como resulta a transposição de grandes romances em língua portuguesa para outros idiomas. Aconteceu-me faz hoje oito dias, em Londres. Com o Ensaio Sobre a Cegueira, porventura o melhor livro de José Saramago - que originou um filme premiado. Intitula-se Blindness, em inglês.

Espreito o parágrafo de abertura:

«The amber light came on. Two of the cars ahead accelerated before the red light appeared. At the pedestrian crossing the sign of a green man lit up. The people who were waiting began to cross the road, stepping on the white stripes painted on the black surface of the asphalt, there is nothing less like a zebra, however, that is what it is called. The motorists kept an impatient foot on the clutch, leaving their cars at the ready, advancing, retreating like nervous horses that can sense the whiplash about to be inflicted.»

Eis a força da boa literatura: capaz de suplantar barreiras linguísticas, geográficas, afectivas, culturais. Capaz de emocionar, inspirar, comover e fazer sonhar gente de todos os idiomas.

Só eu me espantarei?

por Pedro Correia, em 11.12.18

A andaluza Pilar del Rio, residente há 30 anos em Portugal, presidente da Fundação José Saramago e viúva de um dos maiores escritores do nosso idioma, continua a mostrar-se incapaz de proferir em público uma só frase em português.

O PS É QUE FEZ, O PS É QUE FAZ!

por jpt, em 09.10.18

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Num dia é o apelo da esquerda socialista à perseguição e expulsão de imigrantes que não votam para os países deles segundo os "nossos" princípios e valores - nenhum dos deles, nenhum líder, jornalista, deputado, bloguista-facebuqueiro, sempre tão ciosos da sua "superioridade moral", protesta com o desaforo destas aspirantes a modelos (até vejo portugueses antropólogos doutorados a convocar essa mesma perseguição, os democratas ..., nuns "que fazem eles neste país", "como é que os vamos tirar daqui", aos brasileiros residentes). Não se lê uma única pessoa da chamada esquerda, do arco "geringonça" a denunciar, contestar esta vilania. Um único.

No dia seguinte é esta apropriação necrófaga.

Em Moçambique numa campanha os propagandistas inventaram o belo chavão "A Frelimo é que fez, a Frelimo é que faz". O PS também se apropriou disso, virou-o "O PS É QUE FEZ, O PS É QUE FAZ!". Até o morto Saramago ...

O geringoncismo é mesmo isto. Execrável.

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 08.10.18

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 

 

Texto reeditado no dia em que se assinalam 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago

 

Frases de 2017 (16)

por Pedro Correia, em 01.05.17

«José [Saramago] foi uma maldição.»

Pilar del Rio, em entrevista ao Expresso

Leituras

por Pedro Correia, em 09.04.14

 

 

«Estar desempregado pode, em certas condições, tornar-se estimulante. De repente, encontramo-nos fora do sistema, não fazemos parte do mundo, ninguém nos quer, batemos às portas e as portas não se abrem, os conhecidos mudam de passeio quando nos vêem a tempo, ou então enchem-se de piedade, o que ainda é pior. É uma boa altura para sabermos se somos apenas o que fazemos, ou se vamos mais longe do que esse pouco.»

José Saramago, A Noite (1979), p. 66

Ed. Caminho, 2009 (4ª edição)

A demissão cívica dos intelectuais

por Pedro Correia, em 01.04.13

 

A morte de José Saramago é também a morte simbólica do intelectual que se indigna. Com o desaparecimento do autor de Levantado do Chão, encerra-se uma era caracterizada pela intensa participação de escritores e artistas na vida pública dos seus países e até na cena política internacional. A separação entre arte e vida não existiu para a maioria dos intelectuais do século XX: uma era o prolongamento natural da outra. Intelectuais como Zola (que, com o seu "J' Accuse", ainda no século XIX, influenciou as gerações que lhe sucederam), Gramsci, Bertrand Russell, Gide, Céline, Pound, Dos Passos, Malaparte, Malraux, Hemingway, Orwell, Sartre, Aron, Koestler, Camus e Simone Weil. À esquerda e à direita.

É certo que muitos desses intelectuais acabaram por apoiar alguns dos regimes mais despóticos da sua época, caucionando-os com a sua pretensa autoridade moral. Mas o reverso desta medalha, igualmente negativo, é a apatia dos intelectuais de hoje, que se comprazem a mirar o próprio umbigo e fogem cuidadosamente de tudo quanto cheire a controvérsia.

Pensemos à escala portuguesa: alguém se recorda de alguma atitude indignada de um intelectual, nos últimos anos, contra a corrupção galopante, a justiça descredibilizada, a economia inviável, as assimetrias sociais, o drama imparável do desemprego, as mentiras dos políticos? Calando-se agora a voz de Saramago, que nunca evitou as polémicas, sobra um silêncio conformista e resignado. Cada qual só se preocupa com a sua "obra", com as suas "vendas", com a sua vidinha, abdicando da intervenção cívica. A própria reforma ortográfica passou perante um generalizado encolher de ombros e quase sem um sussurro crítico dos "intelectuais", com a excepção honrosa de Vasco Graça Moura. Muito ao contrário do que sucedeu no final da década de 80, quando pela primeira vez a Academia de Ciências de Lisboa procurou impingir aos portugueses um "acordo ortográfico" que equivalia a uma rendição incondicional à norma brasileira.

É um sinal dos tempos. Nesta era de feroz individualismo, o intelectual regressa à torre de marfim. Ou imita aqueles distraídos xadrezistas de Bizâncio, de olhos concentrados no tabuleiro enquanto a cidade ardia. Compreende-se: é mais cómodo ser assim. Depois da intervenção cívica, a demissão cívica. E, no entanto, a Terra move-se.

 

Na sequência desta reflexão de Maria do Rosário Pedreira, reedito o texto originalmente publicado no DELITO DE OPINIÃO a 7 de Julho de 2010

 

Separar Saramago do joio

por Rui Rocha, em 16.11.12

Saramago faria hoje 90 anos. Dou comigo a pensar que preferia que tivesse sido estrangeiro. Que a distância não me tivesse impedido de ler aqueles dois ou três livros seus que me ficaram de deslumbramento. Frases com ideias dentro, lembro-me bem de notar embasbacado enquanto embarcava nessa Península Ibérica que se separava da Europa naquele primeiríssima Jangada de Pedra. Não o enredo, a estrutura narrativa, mas as ideias que brotavam a cada frase e que pareciam ser a justificação última do livro. Como se conversássemos. E que não me tivesse mesmo, se tivesse de ser, poupado aos outros que acabei por abandonar. Como no Ano da Morte de Ricardo Reis, em que me devo ter ficado pelos primeiros dias de Março. Mas que me preservasse dos pormenores, das birras, do feitio, da cegueira ideológica, da Pilar e de outros bicos. Como das próprias tricas e invejas que também lhe dedicaram. E da mesquinhez das contas da água e da luz da Fundação. Essa proximidade áspera incomoda-me, perturba-me a leitura. Por mim, Saramago seria norueguês ou chileno. Teria vindo cá nas férias. Andado de eléctrico em Lisboa, como fez Transtromer. Comido naquele restaurante da Póvoa de Lanhoso onde está pendurada na ramada uma fotografia de Jorge Amado a beber vinho verde e a comer bacalhau. Ou teria sido um português mais antigo. Como Pessoa ou Camões. Porque ser um português antigo é uma outra forma de nos ser estrangeiro. De interpor distância entre nós e a realidade. De filtrar a pessoa de modo a que só nos fiquem as palavras e a lenda. Não sei se Camões tinha dentes podres. E é reconfortante pensar que descobrir a verdade sobre isso impõe um grande esforço que não estou disposto a fazer. Claro que alguém já escreveu sobre o tema numa tese que mereceu todas as honras e distinções de um júri de uma universidade qualquer. Mas essa tese, que existe, estou certo, repousa agora onde lhe pertence, no fundo de um obscuro repositório. Quero tanto a ventania de alguma escrita de Saramago que o seu hálito tão próximo quase me magoa as mãos quando lhe pego nos livros. E sei também que esse incómodo diz mais sobre mim do que sobre o próprio escritor.  

Leituras

por Ana Vidal, em 11.08.12


(...) "E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida". (...)


[Inspirada pela série que o Pedro Correia começou agora sobre escritores que nunca receberam o Nobel, lembrei-me deste maravilhoso conto do nosso (único) laureado, texto que só descobri há pouco tempo numa viagem ao Brasil. Impossível não se ficar rendido. Tem tudo o que deve ter um grande conto, e mais aquilo que só têm os textos excepcionais: universalidade, clareza, simplicidade, mensagem, densidade. Apesar de eu não gostar de tudo o que Saramago escreveu, e de nunca mais um livro dele me tivesse encantado tanto como o Memorial do Convento, afirmo convictamente que este pequeno conto bastaria para justificar o prémio.]

 

"O esqueleto ergueu a cabeça"

por Pedro Correia, em 08.05.12

Primeiras linhas d' A Centelha da Vida, de Erich Maria Remarque (Der Funke Leben, 1951), na tradução de José Saramago para a Europa-América - edição portuguesa de 1955. E logo me assalta, com absoluta evidência, uma convicção que tenho há muito enraizada: as frases iniciais são decisivas para prender a atenção do leitor (para o "agarrar pelos colarinhos", como gosto de dizer).

Cá vão elas:

«O esqueleto 59 ergueu lentamente a cabeça e abriu os olhos. Não poderia dizer se desmaiara ou se, simplesmente, adormecera. De resto, a diferença entre os dois estados não era grande: a fome e o esgotamento há muito tempo já que haviam apagado as fronteiras entre eles. Era o mesmo deslizar em profundidades lamacentas donde lhe parecia não poder arrancar-se nunca mais.»

Eis um parágrafo de abertura digno de captar o interesse de qualquer leitor. Claro que deixei de ter dúvidas a partir desse momento: pus de parte os quatro outros livros que admitia começar a ler e concentrei-me neste. Remarque e Saramago: dois destinos que se cruzaram nesta obra. O alemão que sonhou com o Nobel e nunca o recebeu por ser considerado demasiado "comercial" (só A Oeste Nada de Novo, lançado em Janeiro de 1929, vendeu mais de um milhão de exemplares no decurso desse ano) e o português que venceria o cobiçado prémio em 1998, mais de quatro décadas depois de ter feito esta tradução - e apesar de ser já então um autor de grande sucesso em Portugal, Espanha, Brasil e vários outros países, numa demonstração óbvia de que vender bem não é sinónimo de falta de qualidade literária. Como tantos exemplos demonstram, de Júlio Verne, Victor Hugo e Mark Twain a Umberto Eco, Milan Kundera e Vargas Llosa.

Há males que vêm por bem

por Pedro Correia, em 03.05.12

Na livraria do costume, no centro de Lisboa, folheio algumas novidades literárias. Há um livro sobretudo que me prende a atenção: E a Noite Roda, romance de estreia de Alexandra Lucas Coelho. Antes de mais pela autora, uma jornalista cujo percurso há muito acompanho e admiro - primeiro na rádio, depois na imprensa. A seguir, pela capa: acho-a excelente. E, claro, pela chancela editorial - é um lançamento da Tinta da China, uma das melhores editoras portuguesas.

Leio algumas linhas das páginas iniciais, como também sempre costumo fazer. A surpresa não é grande, mas nem isso evita a decepção: o livro está impresso em acordês. Logo me lembro das palavras certeiras de um texto de Luciano Amaral, lidas há dias, no Diário Económico: «O Acordo Ortográfico baseia-se num princípio contraditório: uniformizar a partir da fonética. Ora, precisamente, a fonética divide mais do que unifica. É por isso que os portugueses devem passar a escrever 'receção' mas os brasileiros continuam com 'recepção', o mesmo acontecendo com 'exceção' e 'excepção', e muitas outras. A escrita portuguesa e a brasileira não vão ficar unificadas. No final, em termos estritamente ortográficos, o Acordo não é bom nem mau, ou pelo menos é tão mau como o que existe. É mau porque inútil e desnecessário: não resolve nada e unifica pouco. E sobretudo é mau por introduzir confusão onde os escreventes de português tinham já encontrado alguma estabilidade. Com tanta coisa para nos preocupar, ainda faltava começar a dar erros sem na verdade os dar.»

Resultado: restituo o romance ao seu lugar no escaparate. Por sorte a secção de livros usados está cheia de boas "novidades", a preços módicos. Trago três - tudo ficção estrangeira traduzida para português por escritores que tinham que recorrer às traduções para ganhar a vida. Foi assim que Jorge de Sena traduziu O Fim da Aventura, de Graham Greene, Adolfo Casais Monteiro traduziu O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, e José Rodrigues Miguéis traduziu O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald - entre muitos outros exemplos.

O que trago desta inesperada colheita? As Torrentes da Primavera, de Hemingway, edição Minerva (um exemplar da célebre colecção Miniatura) com tradução de Alexandre Pinheiro Torres. O Pão da Mentira, de Horace McCoy (um romance de um autor hoje totalmente esquecido que li na adolescência e me deixou deslumbrado), com tradução de José Cardoso Pires. E A Centelha da Vida, de Erich-Maria Remarque (primeira edição portuguesa, das Publicações Europa-América, com data de 1955), traduzida por um tal José Saramago.

Cada uma destas obras - que valem por terem sido escritas por quem foram mas também por terem sido traduzidas pelos nomes que mencionei - custou-me entre dois e cinco euros.

Até um dia, E a Noite Roda. O acordês tem o mérito de me devolver o interesse por edições antigas. Em boa hora aconteceu. Uma vez mais se comprova o adágio: há males que vêm por bem.

Atentado póstumo a Saramago

por Pedro Correia, em 04.11.11

 

Fui avisado a tempo, pelo Nuno Pacheco, nas páginas do Público. E digo que fui avisado a tempo porque andava a pensar comprar Claraboia, o romance "desaparecido" de José Saramago, agora lançado pela editorial Caminho. O escritor terminou-o no longínquo dia de 5 de Janeiro de 1953 e durante os 35 anos seguintes não conseguiu editá-lo. Quando lhe foi enfim proposto o lançamento de Claraboia em livro, na sequência de êxitos editoriais como Levantado do Chão, Memorial do Convento e o Ano da Morte de Ricardo Reis, o futuro Nobel da Literatura decidiu que o livro só ficaria acessível aos leitores após a sua morte.

Assim sucedeu. A Caminho lança-o agora, com este solene promessa contida na página 6: "A presente edição reproduz fielmente o original." Não acreditem: é mentira. Porque a obra que a editora acaba de pôr à venda nas livrarias, esclareceu-me o Nuno Pacheco, não surge escrita em português mas em acordês -- um chocante anacronismo, como se o Saramago de 1953 já adivinhasse que no início do século XXI a ortografia seria assassinada pelo professor Malaca Casteleiro e o seu reduzido núcleo de discípulos, com a proverbial bênção do poder político.

Lá surgem palavras malacastelenses como recetividade, perceção, aspeto, espetáculo, atividade, ativo. E nem o título do romance escapa: Claraboia surge sem acento.

"Como é possível assassinar 'fielmente' uma escrita sem que ninguém reaja ou, pelo menos, exija que seja retirada do livro a mentira óbvia (ou será 'óvia'?) resumida na tal frase da página 6?", interroga-se o director-adjunto do Público. Eu só tenho a agradecer-lhe. Se não fosse este alerta, estaria a premiar o crime de lesa-cultura cometido pela editora, pagando um exemplar do romance póstumo de José Saramago que de todo não me interessa ler em acordês.

Pergunta ainda o Nuno Pacheco se, neste afã de submeter a prosa do Nobel português a tais atentados póstumos, "em futura reedição um título de Saramago como Objecto Quase passará a Objeto Quase". E pergunta bem.

Simplesmente abjecto. Perdão: abjeto.

José Saramago 1922-2010

por José Maria Gui Pimentel, em 19.06.11

"Pensando bem, não há um princípio para as coisas e para as pessoas, tudo o que um dia começou tinha começado antes, a história desta folha de papel, tomemos o exemplo mais próximo das mãos, para ser verdadeira e completa, teria de ir remontando até aos princípios do mundo, de propósito se usou o plural em vez do singular, e ainda assim duvidemos, que esses princípios princípios não foram, somente pontos de passagem, rampas de escorregamento, pobre cabeça a nossa, sujeita a tais puxões, admirável cabeça, apesar de tudo, que por todas as razões é capaz de enlouquecer, menos por essa."

A Jangada de Pedra, 1986

Ler

por Leonor Barros, em 01.11.10

La sencillez de Saramago, tan monumentalmente humano de Pilar del Río a abrir o Mês Saramago.

A demissão cívica dos intelectuais

por Pedro Correia, em 07.07.10

 

A morte de José Saramago é também a morte simbólica do intelectual que se indigna. Com o desaparecimento do autor de Levantado do Chão, encerra-se uma era caracterizada pela intensa participação de escritores e artistas na vida pública dos seus países e até na cena política internacional. A separação entre arte e vida não existiu para a maioria dos intelectuais do século XX: uma era o prolongamento natural da outra. Intelectuais como Zola (que, com o seu "J' Accuse", ainda no século XIX, influenciou as gerações que lhe sucederam), Gramsci, Bertrand Russell, Gide, Céline, Pound, Dos Passos, Malaparte, Malraux, Hemingway, Orwell, Sartre, Aron, Koestler, Camus e Simone Weil. À esquerda e à direita.

É certo que muitos desses intelectuais acabaram por apoiar alguns dos regimes mais despóticos da sua época, caucionando-os com a sua pretensa autoridade moral. Mas o reverso desta medalha, igualmente negativo, é a apatia dos intelectuais de hoje, que se comprazem a mirar o próprio umbigo e fogem cuidadosamente de tudo quanto cheire a controvérsia.

Pensemos à escala portuguesa: alguém se recorda de alguma atitude indignada de um intelectual, nos últimos anos, contra a corrupção galopante, a justiça descredibilizada, a economia inviável, as assimetrias sociais, o drama imparável do desemprego, as mentiras dos políticos? Calando-se agora a voz de Saramago, que nunca evitou as polémicas, sobra um silêncio conformista e resignado. Cada qual só se preocupa com a sua "obra", com as suas "vendas", com a sua vidinha, abdicando da intervenção cívica. A própria reforma ortográfica passou perante um generalizado encolher de ombros e quase sem um sussurro crítico dos "intelectuais", com a excepção honrosa de Vasco Graça Moura. Muito ao contrário do que sucedeu no final da década de 80, quando pela primeira vez a Academia de Ciências de Lisboa procurou impingir aos portugueses um "acordo ortográfico" que equivalia a uma rendição incondicional à norma brasileira.

É um sinal dos tempos. Nesta era de feroz individualismo, o intelectual regressa à torre de marfim. Ou imita aqueles distraídos xadrezistas de Bizâncio, de olhos concentrados no tabuleiro enquanto a cidade ardia. Compreende-se: é mais cómodo ser assim. Depois da intervenção cívica, a demissão cívica. E, no entanto, a Terra move-se.

Uma lição de vida

por Pedro Correia, em 29.06.10

Por vezes, no mais inesperado dos lugares despertam inimagináveis vocações. Aconteceu com José Saramago, o que é um - entre tantos outros - aspecto memorável da sua biografia. Impossibilitado de prosseguir os estudos para além do curso profissional de serralharia mecânica na escola industrial Afonso Domngues o jovem Saramago passava os tempos livres recolhido na biblioteca municipal de Lisboa, no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno. Enquanto os seus parceiros de geração optavam por folguedos, bailaricos e comezainas, ele cultivava-se com esmero, persistência e determinação naquelas salas austeras que lhe propiciaram o equivalente à formação universitária que formalmente nunca chegou a ter.

O Nobel de 1998 recorda esse período da sua vida num admirável prefácio escrito para o livro De Volcanas Llena: Biblioteca y Compromiso Social (Gijón, Trea, 2007). "Era um lugar em que o tempo parecia ter parado, com estantes que cobriam as paredes do chão até quase ao tecto, as mesas à espera dos leitores, que nunca eram muitos (...). Não posso recordar com exactidão quanto durou esta aventura, mas o que sei, sem sombra de dúvida, é que se não fosse aquela biblioteca antiga, escura, quase triste, eu não seria o escritor que sou. Ali começaram a escrever-se os meus livros", escreveu Saramago, lembrando os dias, meses e anos ali passados.

Uma lição de vida.

Ensaio sobre um enterro

por Ana Vidal, em 20.06.10

Assisto, estarrecida, à cobertura televisiva das cerimónias fúnebres de José Saramago na Praça do Município. Todas as entrevistas procuram a polémica, o sangue, a acusação fácil, o ajuste de contas, com um total desrespeito pelo homem que "jaz morto e arrefece" ali mesmo ao lado. O aproveitamento político de uma circunstância desta natureza sempre me enojou, e aquilo a que assisto hoje é a costumeira hipocrisia nacional: salvaguardadas as aparências, mantidas com pompa e circunstância, semeie-se o veneno. Como se não bastasse, é confrangedora a ignorância dos pivots a quem está entregue a carnificina. Guilherme de Oliveira Martins, por exemplo, apresentado como Guilherme Silva, tem de rectificar o seu próprio nome a um jornalista que nem sequer sabe que ele é um homem há muito ligado à cultura (até como presidente do Centro Nacional de Cultura) e o apresenta apenas como presidente do Tribunal de Contas, parecendo estranhar que um jurista se interesse pela morte de um escritor. A pergunta sobre a ausência de Cavaco Silva é praticamente a única que oiço, lançada a torto e a direito a todos os que estão no recinto, desde Mário Soares até aos anónimos militantes do PC e ao povo simplesmente curioso, personificado numa senhora que confessa, com toda a simplicidade: "Isso não sei. Eu estou aqui para ver a urna, como toda a gente".  Há outra questão, igualmente insistente: se Saramago vai ou não para o Panteão Nacional, onde estão "muitas das grandes figuras portuguesas, da escritura e não só", como nos esclarece o repórter de serviço à porta do cemitério. Ainda um terceiro tema, também muito adequado à ocasião: o preço das obras da Casa dos Bicos.

 

Felizmente, redime toda esta tristeza folclórica a lucidez sensata e conciliadora da Inês Pedrosa, em estúdio. Valha-nos isso.

 

Seguem-se os discursos oficiais, alguns deles excelentes, a sublime música de Bach e o cortejo fúnebre vai  partir agora para o cemitério. Espero que o circo acalme um bocadinho e haja alguma dignidade na reportagem, mas engano-me. Mal escrevo estas palavras, um repórter diz esta frase edificante: "Nota-se que a neta, Ana, está com um ar muito pesado". Desisto. Mas ainda vou a tempo de ouvir Jerónimo de Sousa, com muito mais classe do que Mário Soares (que não resistiu a exibir-se, como sempre) recusar-se a alimentar a polémica e lembrar que o momento é de respeito, de luto e de homenagem.

As palavras dos outros

por Pedro Correia, em 20.06.10

"O único valor que considero revolucionário é a bondade."

José Saramago (1994)

Saramago: a visão de Meirelles

por Pedro Correia, em 19.06.10

"Saramago era un hombre lógico, decia que la muerte es simplemente la diferencia entre estar aquí y no estar más. Combatía las religiones con furia, decía que nos turbaban nuestra visión, pero no dejo de pensar que me encantaría que en este momento José estuviera dando su brazo a torcer al ser sorprendido por algún otro tipo de vida posterior a esta que tuvo aquí."

Fernando Meirelles, realizador de Ensaio sobre a Cegueira, no El País de hoje

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 18.06.10

 

Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

 

Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.


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