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Delito de Opinião

Reflexão do dia

Pedro Correia, 23.05.24

«O eixo do bem, digamos assim, que se reuniu em torno do manifesto dos 50 e pretende reformas legislativas que mudem o Ministério Público, representa a mais acabada vitória de Sócrates sobre a justiça e os seus agentes, sobretudo magistrados e polícias. (...) A velha máxima de Sócrates, partir a espinha ao Ministério Público, é apadrinhada por um vasto conjunto de notáveis. (...) Sócrates está agora acompanhado por gente que não quer uma mudança positiva, um aperfeiçoamento do Ministério Público. Trata-se, isso sim, de gente que se colocou ao serviço de uma velha ofensiva contra o poder judicial, que se materializa em três frentes: a submissão das magistraturas ao poder político através de mudanças de composição nos conselhos superiores; a perversão da investigação criminal através do controlo hierárquico sobre a abertura de inquéritos e realização de diligências; a drástica diminuição da possibilidade de ver sentenças da primeira instância materializadas em considerações definitivas. O que eles querem é claro: uma alteração radical do equilíbrio e da arquitectura de poderes fixados na Constituição de 1976 e em algumas revisões posteriores. Sócrates ganhou e por goleada.»

Eduardo Dâmaso, na Sábado

Tique de classe, nada socialista

Pedro Correia, 26.01.24

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O sossego da pacata Ericeira foi perturbado ao fim da tarde de ontem. José Sócrates desceu do primeiro andar à porta da casa de empréstimo onde há vários anos vive amesendado e dispôs-se a responder às perguntas dos repórteres que ali se encontravam. Queriam obter uma reacção do antigo primeiro-ministro à decisão do Tribunal da Relação de Lisboa de levá-lo a julgamento por três crimes de corrupção, 12 crimes de branqueamento de capitais e seis crimes de fraude fiscal. Vitória clara do Ministério Público, derrota sem paliativos do juiz Ivo Rosa.

O "animal feroz", fiel à sua imagem de marca, não ocultava a irritação. Quando um jornalista lhe fez uma pergunta usando o vocativo "você", reagiu de imediato: «Não diga você! Trate-me por senhor.» O jovem assim fez. Daí a momentos, Sócrates dirigiu-se a ele tratando-o por "você", já esquecido da regra que ditara pouco antes. A cortesia de linguagem, na versão socrática, funciona em sentido único.

Arrogância e soberba, denotando tique de classe. Mitómano imaginando-se membro de casta superior. No ancien régime comportar-se-ia como senhor feudal, impondo direito de pernada aos súbditos mais tementes.

Nada menos socialista. Mas também é verdade que o "senhor Sócrates" rasgou o cartão de militante do PS. Cortou o mal pela raiz: agora já ninguém lhe chama camarada.

9 Anos de José Sócrates

jpt, 22.11.23

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Passam hoje exactamente nove anos sobre o dia em que "O Senhor Engenheiro José Sócrates" (Eduardo Lourenço dixit) foi detido, vítima de um ataque "justicialista" do Ministério Público - a crer-se na interpretação do seu correligionário Ferro Rodrigues, ex-presidente da Assembleia de República. Felizmente que a intentona do aparelho judicial não foi bem conseguida, pois todos estes anos decorridos ainda não houve julgamento.

De qualquer forma urge pôr o tal Ministério Público "na ordem", como defende o actual presidente da Assembleia da República, Santos Silva, homónimo do amigo do actual vice-presidente do Parlamento Europeu, um tal de Silva Pereira. O tipo que na lista de candidatos estava atrás (apesar de, pelos vistos, ser deputado mais importante) da mulher do Vital Moreira, esse antigo cabeça-de-lista de Sócrates. Esse que também quer pôr o Ministério Público bem ordenado...

Mas, e repito-me, temos de nos congratular. Pois, pelo menos, o "Senhor Engenheiro José Sócrates" ainda não foi julgado pelos "justicialistas".

"O modo português de ser socialista"

jpt, 12.11.23

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Nos governos de Sócrates houve uma constante defesa daquele líder, independentemente do que era tão óbvio. Nisso se afadigaram militantes do PS, e basta recordar as maiorias "albanesas" que Sócrates obtinha nos congressos do partido. E também os simpatizantes foram "activistas" produtores da nuvem de fumo que pretendia esconder a malandragem governativa. E não seria necessário recordar esse período não fosse ter vária dessa gente transitado para os governos de Costa, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva - esse que agora vai ao Conselho de Estado afirmar que é necessário "pôr em ordem o Ministério Público", e que foi o único governante socialista que gozou a população por causa do escândalo do socratismo, ao dizer-se "parolo" por não ter percebido o detalhe do seu homónimo e alegado "financiador" do neto do volframista, nisso tanto demonstrando o seu desplante avesso à democratização do país. Ou recompensados com tenças em Estrasburgo/Bruxelas, como o braço-direito Silva Pereira, ou Marques e Leitão Marques. E também muitos desses militantes e ou simpatizantes, então, pois mais jovens, apenas frenéticos publicistas do socratismo, ascenderam ao governo, como o célebre Galamba ou o agora mui mudo Adão e Silva.

Tendo regressado ao poder, após o hiato da gestão da quase catastrófica crise financeira global, o PS de Costa tentou barrar o processo ao socratismo. E o afastamento de Marques Vidal da PGR foi o caso mais sonante, no fundo uma manobra desse desejado "pôr em ordem o Ministério Público", para além de todas as manobras de controlo da comunicação social - e será de lembrar que chegaram ao ponto de nomear como responsável da informação do serviço público uma prima de Costa, que se viu obrigada a demitir-se tais práticas teve nesse posto. Depois, tão insuportável era o conúbio com a imagem de Sócrates que o PS decidiu dele se apartar, deitar borda fora aquele lastro para resistir à tormenta: o ardil foi simples, em dias consecutivos num final de semana, o presidente do partido Carlos  César, a célebre Câncio, renomada publicista socratista, e Galamba, então mero deputado e criatura de Sócrates, vieram demarcar-se publicamente do ex-primeiro-ministro.

Assim enviado o fedorento cadáver político às revoltas águas da Ericeira o PS de Costa seguiu livre no poder. Entre inúmeros - e tantos deles patéticos - "casos e casinhos" a pax costista estabeleceu-se. Primeiro com o apoio dos partidos comunistas, seduzidos por algumas prebendas redistribrutivas para as suas bases e clientelas. E depois sozinhos, por quatro anos, que nos habituássemos nós. Grosso modo, as pessoas eram as mesmas, as práticas são as mesmas, as diferenças virão apenas dos trejeitos individuais.

Na passada semana "o modo português de ser socialista", para glosar Gilberto Freyre, sofreu um KO técnico. Ontem, António Costa reergueu-se e veio ao ringue apresentar a "narrativa" que o PS procurará apresentar aos seus fiéis e restantes adeptos, temerosos do que a malvada "direita" lhes fará. No fundo Costa apresentou-se como epígono de Isaltino de Morais, num trinado um pouco diferente: "temos dinheiro nos gabinetes mas fazemos".

Caberá aos jornalistas, a politólogos ou mesmo a historiadores da contemporaneidade o elencar com detalhe a miríade de "casos e casinhos", e suas articulações, destes oito anos. Para a sua compreensão será muito produtivo associá-los ao acontecido nos governos do anterior primeiro-ministro socialista. E, para uma visão mais "antropológica" - mais estrutural, por assim dizer - julgo que será relevante fazer recuar esta análise ao historial da administração socialista de Macau, molde que foi do modus faciendi das posteriores gerações de políticos daquele  partido. Cujos últimos restantes agora (definitivamente?) colapsam.

Trata-se de um partido de gentes que já há mais de vinte anos estavam incapazes de rebelarem contra os presidentes Soares abraçado ao fugitivo Craxi, ou Sampaio abraçado a Abílio Curto, sempre em nome de uma tal de "amizade". Ou seja, o que hoje se passa não é um momento, é sim fruto de uma mundividência colectiva, predominante naquele partido. Sendo assim, o PS não se regenerará, sofre de necrose política. Estuporado diante da visão de Madrid é incapaz de sopesar, e nisso actuar sobre si mesmo, o que aconteceu aos seus congéneres de França, Grécia, Itália... Pois o problema não é "Costa", é tudo aquilo. E, para mal dos nossos muitos pecados, diante de toda esta decadência temos o pior presidente da República do nosso regime, o mais incompetente pois o mais ininteligente, uma total inadequação sobre a qual me repito desde há muitos anos. É assim necessário sublinhar isto: estamos muito mal entregues. Pois assim o votámos.

Entre a incessante série de comentários recebidos sobre a actual situação escolho divulgar estes três. Porque dizem tudo o que é básico sobre a torpe "narrativa" que António Costa quer legar ao seu partido. 

 

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A justiça dos patrícios

Paulo Sousa, 24.02.23

Segundo o Expresso, o julgamento do ex-primeiro-ministro está paralisado devido a uma falha do atual Governo.

Entretanto, em 2024 alguns dos crimes de que é acusado, irão prescreve.

Estou certo que os mais convictos apoiantes do poder socialista justificarão esta falha como resultado da incompetência que já assistimos em tantos outros casos, e não a um propósito deliberado.

Eu acho que os socialistas no poder são muito incompetentes mas, antes disso, têm também um forte sentido gregário de protecção mútua. Por isso, atrevo-me a afirmar que se António Costa não dissesse o que disse quando visitou Sócrates na prisão (que ele era um lutador naquilo que acreditava ser a sua verdade – a frase politicamente mais mortífera da última década), agora não lhe poderia fazer “o jeito” de o poupar a um julgamento.

Pelo caminho António Costa já o acusou de “aldrabar” o PS. Para o partido que tomou o poder em Portugal, essas afirmações serão o julgamento que conta. E que a justiça dos plebeus não se atreva meter o bedelho onde não é chamada.


Foto: DR

Outra vez Lula da Silva

jpt, 02.01.23

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Desde que o PT chegou à presidência do Brasil aquele país alargou-se por África e outro mundo afora, era a época dos militantes da virtude no reforço do "Sul-Sul", dos crentes do culto aos BRICS - a China sempre nos modos deste Xi, a Rússia já de Putin, a África do Sul no rumo de Zuma, Ramaphosa e quejandos, a Índia do afinal Modi e o nosso cálido "país irmão"... Olho para 20 anos atrás, recordo o meu cenho franzido diante daquilo, e interrogo-me se sou serei eu o deficiente, pois "portador de cepticismo", ou, se pelo contrário, serão apenas parvos os que então (e hoje) tanto se entusiasmavam com aquela "alternativa" dita desenvolvimentista...
 
Mas não vi qualquer defeito naquilo da economia brasileira se extroverter para África. É certo que dos grandes investimentos em Moçambique bem ouvia - e muitos anos antes de qualquer um de nós saber da existência do juiz Moro - histórias das articulações dos macrogrupos económicos com a elite PT e a família elementar do presidente obreirista... Mas isso eram (e são) os problemas daquele país, onde a corrupção do sistema político é endémica e não típica de uma qualquer linha ideológico/partidária. De facto, o que me mais me irritava era o folclore "afro" da abordagem brasileira - entenda-se bem, em África os portugueses armam-se das lérias da comunhão "lusófona" e os brasileiros entoam a sua cançoneta da irmandade feita da sua "africanidade". Todos desafinam...
 
Enfim, quase nada sei do país e nunca cuidei de me aprofundar nisso. Li poucos escritores (Machado de Assis, Nassar e mais alguns), ouço um punhado de cantores (facilitados pelo imediatismo da apreensão que a língua comum dá). E noto que apenas um pensador me marcou - José Guilherme Merquior, um intelectual monumental que tão infelizmente morreu com apenas 50 anos, tanto deixando por iluminar. E, já nesta idade, tenho uma muito querida amiga, dois grandes amigos e conheço ainda, com simpatia algo vaga, não mais de meia dúzia de brasileiros. Ou seja, ao longo da vida o país foi-me indiferente - à excepção da floresta - e assim continua...
 
Ontem Lula da Silva regressou ao poder. É verdade que durante as suas presidências houve um enorme retrocesso da pobreza, efectuou-se uma urgente redistribuição de recursos numa sociedade imensamente desigual. E - o que é o verdadeiramente fundamental - muito se reduziu o criminoso abate amazónico. Sucede a um boçal afascistizado, um troglodita político - o qual, muito mais grave do que tudo o que a gritaria das "identidades" apregoou, e assim até escondeu, foi um gravíssimo epifenómeno da indústria assente na desflorestação.
 
Por isso tudo é bom que Lula da Silva tenha ganho. Foi eleito resvés, dada a preferência que obteve no eleitorado do "interior" (nordestino), pobre, inculto, desapossado pela desigual redistribuição social e geográfica dos recursos, ostracizado até. Só não querendo ver é que não se nota a similitude, em abstracto, com a recente eleição de Trump..., o que deixa ver como as "análises" são acima de tudo ladainhas advindas das simpatias dos locutores, nuns casos louvando as "massas", noutros casos invectivando a plebe, crente.
 
Por cá muitos desgostam de Lula da Silva, lamentam a sua ressurreição. Muito disso advém da associação do brasileiro com o nosso Sócrates - bem patenteada durante anos, em visitas oficiais e privadas, em apoios, em amizades proclamadas. E só não viu quem era Sócrates quem não quis ver, só não percebeu o tom que ele deu ao regime quem não quis. Clientelismo, nepotismo, corrupção, ataque à separação de poderes, esbanjo de recursos públicos, ataque à liberdade de imprensa, tudo isso foi Sócrates - e com a cumplicidade de alguns e a conivência de imensos. O PS tudo fez para fazer esquecer isso - o que lhe permitiu nomear um Presidente da Assembleia da República que goza connosco a propósito de Sócrates, encher o Parlamento Europeu com gente próxima de Sócrates, encher o governo de ex-governantes de Sócrates (e quando um é apanhado a esconder alguma corrupção as pessoas ainda se surpreendem...). Pois o histriónico Sócrates pode ter caído mas o regime não mudou, é preciso ser "parolo" (para citar o inaceitável Santos Silva) para não o perceber.
 
Por isso tudo, este convite para o empossamento que Lula enviou a Sócrates - em nome de uma qualquer "amizade pessoal" - é uma agressão, vil, a Portugal. E uma proclamação de que afinal não somos um "país irmão" mas sim, quanto muito, um "país sócio" para quaisquer trapaças que pareçam lucrativas. E o nosso esvoaçante Presidente deveria ter sinalizado isso. Apresentar-se, algo obrigatório como chefe de Estado, e com gravitas, nisso enfatizando a percepção da ofensa havida. Mas, claro, apaixonado por si mesmo foi-se a banhos...
 
Quanto ao Brasil? Atrevo-me a um conselho, de facto dado aos meus três queridos brasileiros: que se ouça esta "Sozinho" de Peninha cantada por Caetano Veloso e o seu interlúdio falado. E perceba-se que é falso que original e versões primevas sejam as melhores. A canção pode ser muito melhorada, tornada outra mesmo. Façam-no agora. E nisso controlem estes desafinados.
 

Caetano Veloso - Sozinho (Ao Vivo No Rio De Janeiro / 1998)

O brasileiro Sócrates*

José Meireles Graça, 01.07.22

Os longínquos consulados de Sócrates estão meio esquecidos e já ninguém é capaz de contar com um mínimo de consistência os detalhes de qualquer das várias aldrabices que foi inventando para justificar os meios de fortuna que detinha.

Mas não é só o tempo decorrido que explica a amnésia, é também o incómodo: muito antes das tranquibérnias da personagem terem caído no domínio público já havia denúncias em recantos obscuros da blogosfera, como havia no mesmo lugar uma consistente patrulha que defendia com unhas e dentes a personagem. Os soldados desta patrulha tiveram, em muitos casos, o destino exaltante de boas carreiras no ou à sombra do poder político, e não querem ser lembrados das suas antigas fidelidades. Como aliás acontece com boa parte do aparelho dirigente do PS, a começar pelo estadista Costa, que nunca foi prejudicado pela sua pouco verosímil cegueira.

Estranho caso: a massa do eleitorado, que foi enganada, guarda a sua aversão para o detestado Sócrates que, coitado, sempre foi bastante transparente no seu perfil de troca-tintas contumaz; mas não apenas não aprendeu nada com as patranhas que engoliu como elegeu e reelegeu um demagogo da mesma extracção (descontando porventura a desonestidade pessoal que, para efeito do acerto de políticas, não tem grande relevo). Sócrates fez o país falir porque as instituições europeias ainda não tinham decidido que os países da UE não podem falir. Com Costa apenas não faliu porque, desde que haja um módico de respeito pelo manual de instruções, o BCE passou a aparar o jogo.

E não só eleições para a AR, isto é, para o Governo: Marcelo deu abundantes provas de ser uma irrelevância palavrosa, espécie de rei constitucional socialista sem poder moderador e sem decoro. E o eleitorado disse, reguila: Ai sim, não serves para nada? Toma lá uma maioria reforçada.

Os dois partidos que entre si rotativizaram o regime cuidaram de criar uma massa de dependentes do Estado avessa a reformismos que pareçam pôr em perigo, sequer remotamente, a principal conquista do 25 de Abril: O Estado cuidador, omnipresente, dono do SNS e dos avisos nos maços de tabaco e das mudanças de tempo, empregador pobreta mas seguro, garante das pensões de reforma e da modernidade trombeteada por uma comunicação social abjectamente servil. Esta massa é o garante da democracia e do deslizar permanente do país para os últimos lugares do desenvolvimento na União. Ademais, a incapacidade reformadora tem contado com a inoperância do parceiro mais débil do situacionismo, liderado até há pouco por um homem sério com perfil de excelente gestor de minimercado.

Este, o situacionismo, está tão firmemente estabelecido que há até partidos que não servem para governar mas servem de canários na mina: qualquer esboço de mexidas no status quo e eles encarregam-se de pôr os jornais, e o país, em polvorosa. São como os sindicatos no mundo do trabalho: um bando de comunas, Deus nos livre de os escolher seja para o que for – salvo para existirem e fazerem um berreiro do demónio se um governante chanfrado se lembrasse, sei lá, por exemplo, de pôr um serviço deficiente a funcionar.

Lá democracia temos: imperfeita como todas, mas quem quer diz o que quer, os partidos fazem o que entendem e as instituições do Estado de Direito (com excepção do Fisco, por razões de que aqui não curo) funcionam regularmente.

Portanto, o que temos é o que o Povo quer que tenhamos. E que se danem todos os melhores espíritos que, entre nós e tradicionalmente, assacam às elites a responsabilidade pelo atraso relativo que nos pesa, e que perdura. Destes, o último foi Rentes de Carvalho, numa encantadora entrevista que concedeu e que apenas perdeu por curta – a gente ficava, com proveito e gosto, a ouvi-lo muito mais tempo.

Eu aos melhores espíritos não pertenço, reconheço. E esta lamentável inferioridade leva a que entenda que não há em Portugal praticamente nenhuma reforma desejável que possa ser feita com a concordância da população, mesmo em sectores que, como a Justiça, todos – profissionais, teóricos, utilizadores – entendem que funcionam muito mal.

Daí que ao fim de quase oito anos Sócrates ainda não tenha sido julgado e os juízes se queixem de excesso de garantismo como se não fosse o arrastar de pés no lavrar de sentenças, e o seu bordar vaidoso de textos prolixos redigidos no paleio obscuro que imaginam ático, que justifica os incompreensíveis atrasos nas sucessivas decisões face a sucessivos recursos; os magistrados do Ministério Público se distingam por perseguir todos os coelhos, e atirar a todos os ninhos, sem jamais acertarem em coisa alguma; os advogados forneçam o grosso do trabalho legislativo que incansavelmente remenda uns rasgões no universo judiciário, abrindo outros; a comunicação social estadeie a sua insondável ignorância das matérias e o seu desespero por não vislumbrar qualquer solução; os sindicatos de magistrados (cuja existência, aliás, não deveria sequer ser permitida) confundam inevitavelmente a defesa da Justiça com a defesa de interesses corporativos; e a opinião pública continue desnorteada por o assunto caber mal na dicotomia rico/pobre, que está habituada a achar é o que está na origem de todas as disfunções e todas as injustiças.

Justiça irreformável, portanto. O que não é a mesma coisa que achar que quem acusa tenha todos os direitos, e quem se defende todas as obrigações, por muito que a opinião pública ranja os dentes por eles (eles são os poderosos) andarem aí, aparentemente, na boa vai ela.

Sucede que o mesmo ministério público que não cessa de dar provas de inoperância entende que tem uma espécie de direito de tutela permanente sobre a vida dos acusados, por o serem, e isto sem dependência de quaisquer prazos razoáveis. Desta vez (uma evolução positiva, sabemos o nome do magistrado, Vítor Pinto) acha que Sócrates não lhe pediu licença, mas devia ter pedido, para ir fazer um doutoramento ao Brasil (incidentalmente uma maneira de redourar uma carreira política com a companhia de outro político infrequentável, o que no caso é inteiramente irrelevante).

Entendamo-nos: o único risco que legitima este droit de regard do MP é o de fuga. Sucede porém que a crença de que este expediente limita esse risco é apenas isso, uma crença, e ingénua na hipótese de não ser apenas inane.

Não é provavelmente disso que se trata, mas ostensivamente da majestade da Justiça, que no caso o magistrado confunde com o prestígio da instituição que serve, que julga ofendido se em todos os momentos os acusados, ou investigados, ou inquiridos, não prestarem aquela vassalagem que imagina devida.

Imagina mal: a ideia de que quem acusa tem mais direitos do que quem defende é típica de ordenamentos tingidos de medievalidade. E não menos se, no caso, é provável que a opinião pública esteja calorosamente do lado do magistrado, do mesmo modo e pelas mesmas razões que sempre achou e acha que a presunção de inocência é absolutamente respeitável na teoria, e absolutamente desprezível na prática.

Repito, mais uma vez: Sócrates é um exemplo lamentável de político e pessoa mas a forma como é tratado deve-nos fazer pensar: se se trata assim um ex-PM que já foi um menino dourado da opinião pública e do establishment, como não se tratará um pobre diabo que ninguém conhece?

Sócrates é manipulador e explora até ao infinito todos os recursos do dinheiro e do Direito. Isto é, faz o que seria de esperar. Agora vai-se embrulhar numa retórica infinita em torno de um não-assunto, sendo submetido a interrogatórios para apurar coisa nenhuma. Isto porque, aparentemente, as magistraturas envolvidas são incapazes de perceber que o tempo investido a perder tempo com formalismos faz falta para tratar da substância.

*Publicado no Observador

O elefante plantado no meio da sala

José Sócrates

Pedro Correia, 30.01.22

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Numa campanha marcada pelo contínuo desfile de animais, talvez devido à acção pedagógica do PAN, aquele que mais deu nas vistas acabou por ser um elefante. Plantado num local nada cómodo para António Costa: a sala de visitas do PS. Roubando espaço de manobra ao líder socialista e lembrando-lhe um passado que ele queria varrer para debaixo da alcatifa.

José Sócrates ressurgiu faz hoje oito dias, em longa entrevista nocturna à CNN Portugal. Quando Costa ainda batia no peito a pedir maioria absoluta. O conselheiro que o persuadiu a adoptar tal estratégia não podia estar mais equivocado.

Exibindo aquele ar de quem anda sempre de mal com o mundo e sente um desprezo sem fim por quantos não lhe alimentam o ego, o autoproclamado «animal feroz» deu um ralhete público ao seu antigo ministro da Administração Interna, que com ele trabalhou entre 2005 e 2007.

«O único conselho que eu daria a quem quer uma maioria absoluta: talvez devesse começar por não desmerecer a única que o PS teve na sua história, aquela que eu tive em 2005.» Eis Sócrates igual a si próprio: não esquece um agravo, considera-se traído por Costa e consegue usar o pronome “eu” duas vezes na mesma frase.

Como se não bastasse, insistiu: «Talvez fosse melhor começar por não pôr em causa a história do PS, que teve um momento muito importante em 2005.»

José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, 64 anos, conseguiu irritar o secretário-geral socialista ao romper o silêncio em plena campanha eleitoral. Na manhã seguinte, confrontado pelos jornalistas que lhe pediam uma reacção à entrevista, Costa não escondia o desagrado. «Não tive oportunidade de ver», reagiu secamente. E seguiu adiante. Tinha o dia estragado. Nada lhe podia agradar menos, nesta romagem às urnas em que disputa cada voto, do que surgir associado à era socrática.

Felizmente para ele, Sócrates deixou claro não ter hoje «nenhuma relação com a direcção do PS» e lembrou que já devolveu o cartão de militante: «Decidi abandonar o partido para preservar a minha dignidade.» Mas revelou que ainda se sente integrado na família socialista, mantém muita gente amiga nas listas eleitorais e continuará fiel ao emblema quando assinalar a cruz no boletim de voto. E rematou, com um esgar de desdém: «O PS não é António Costa.»

A aparição de Sócrates na campanha, entrando como fantasma hamletiano pela porta das traseiras, não podia ter ocorrido em pior momento para alguém que promete confiança e credibilidade aos portugueses. Costa, político com instinto apurado, percebeu de imediato que devia abandonar a reivindicação da maioria absoluta – associada pelos eleitores àqueles anos em que ele se sentava no Conselho de Ministros presidido pelo mais mediático arguido da Operação Marquês. Assim fez: não voltou a aludir ao tema.

A partir daí apenas Pedro Nuno Santos, integrado na caravana socialista em Espinho, insistiu na tecla reivindicando «a maior maioria absoluta que pudermos». Parecia falar com entoação irónica, mas só ele poderá esclarecer.

 

Texto publicado no semanário Novo

Era rico mas pedia dinheiro

Pedro Correia, 15.04.21

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Primeiro andamento:

«O que me ofende são algumas afirmações que por aí vejo, de gente... aliás alguns deles próximos de mim, que acham que eu andei a inventar que a minha família tinha posses que nunca teve, que o meu avô não era um homem rico, que nunca trabalhou no volfrâmio, que nunca enriqueceu no volfrâmio. Eu apresentei ao juiz a prova. Fui buscar as escrituras das partilhas da herança da minha mãe feitas nos anos 80. Para provar que a minha família tinha recursos, que a minha mãe era uma mulher rica, uma mulher que tem três heranças nos anos 80.»

«A minha mãe teve um conjunto de heranças que sensivelmente, pelos cálculos que podemos hoje fazer... de cerca de um milhão de contos.»

«A minha mãe teve sempre um cofre em casa, toda a vida. Toda a gente sabia.»

«O meu avô era um homem muito rico, era um homem de muitas posses.»

 

Segundo andamento:

«O engenheiro Carlos Santos Silva fez-me empréstimos em 2013 e 2014.»

«Em 2013 o engenheiro Carlos Santos Silva ofereceu-se para me ajudar porque eu estava a viver em Paris. Decidi ir para Paris para estar com os meus filhos, para fazer um mestrado e para que os meus filhos concluíssem o seu ensino secundário numa escola estrangeira. Não foi nenhuma vida de luxo. Foi um investimento na minha educação e na dos meus filhos. E o engenheiro Carlos Santos Silva decidiu financiar-me, ajudar-me nisso.»

«Estes empréstimos totalizam 560 mil euros.»

 

Excertos da entrevista que José Sócrates deu ontem à TVI

Medíocre

Sérgio de Almeida Correia, 15.04.21

Tudo se resume a uma única palavra: medíocre.

Medíocre a governar, medíocre a liderar o partido, medíocre a mentir, medíocre a defender-se.

Mas talvez não tão medíocre como os que o guindaram à posição que atingiu, o seguiram acefalamente dentro do partido, ainda lá estão como se nada tivesse sido com eles, e o protegeram até ao fim.

Desde já uma das palavras do ano

Pedro Correia, 13.04.21

Música, mas da boa

Paulo Sousa, 12.04.21
Diz-me porquê diz-me
Nós não sabemos nada
Mas resistimos por ti
Até que seja de madrugada
Até que seja de madrugada
 
(Refrão)
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
 
Quem prend´água que corre
E a ribeira enchendo
Saberá que nunca morre
O sonho de a ver correndo
O sonho de a ver correndo
 
(Refrão)
 
Liberdade não morre
Nem silêncio pesado
De um povo a entristecer
Por te saber tão magoado
Por te saber tão magoado
 
(Refrão)
 
Ser livre não tem preço
Nem se conhecem margens
A vida é reconheço
A esperança não e uma miragem
A esperança não e uma miragem
______________
Letra Luísa Lopes
Musica de Jorge Andrade Pinheiro
 
PS: Ando à procura das tablaturas para obrigar o meu mais velho a tocar isto na guitarra.
Seria porreiro pá, se quem as tiver, puder partilhar.

Videirinhos & Rousseff, Lda.

jpt, 12.04.21

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Na passada sexta-feira não ouvi o juiz Rosa. Li breve sinopse do que ele proferiu. Peço que me corrijam se o incompreendi: Rosa constatou que o antigo PM e ex-secretário-geral do PS é culpado de crimes de corrupção já prescritos e enviou-o para tribunal como réu devido a crimes económicos cometidos enquanto Primeiro-Ministro. Isto é uma verdadeira bomba, um escândalo!

Os agentes do socratismo, os videirinhos a la blog Jugular, atrevem-se agora a gargalhar na internet e a clamar que se desmontou uma incompetente cabala. E até as raríssimas vozes socialistas então menos atreitas a Sócrates limitam-se a criticar a Justiça. Elidem, totalmente, este escândalo. E a cumplicidade do seu partido, de militantes e dirigentes, e dos inúmeros opinadores públicos (académicos e jornalistas em especial) com aquele miserável período. Pois em termos estruturais o pior nem foi a corrupção instalada no poder - algo recorrente em qualquer regime. Mas sim a penosa corrupção do espaço público, feita de cumplicidade e de conivência. Instalada, repito, na Academia e na Imprensa. E estas sonsas reacções mostram como isso não mudou, como essa gente, moles de dependentes, está "pronta para outra"...

Tudo isto é doloroso. Mas temos que sofrer estes nossos compatriotas. Têm o direito de assim serem, por miseráveis que sejam. Mas já diferente é aceitar que uma estadista estrangeira, ex-presidente de um país aliado, se venha intrometer na nossa vida nacional apoiando um réu de tamanho calibre. Que escumalha esta Rousseff.

O legado de Sócrates

Pedro Correia, 07.04.21

Faz agora dez anos, o primeiro-ministro José Sócrates, pressionado pelo ministro das Finanças e vergado pela força das circunstâncias, anunciava ao País um pedido urgente de intervenção estrangeira para salvar in extremis as contas públicas em derrapagem alucinada.

Quarenta e oito horas antes, havia jurado aos portugueses, pela enésima vez, que não solicitaria ajuda das instituições financeiras internacionais. Cedeu no dia seguinte, perante um ultimato em uníssono dos banqueiros, protagonizando um dos rumos mais erráticos na política nacional dos últimos 45 anos. Quando a nossa credibilidade externa valia zero.

Seis anos depois de chegar ao Governo, e prestes a cessar funções, legava aos compatriotas um cenário arrasador: a mais alta carga fiscal de sempre, a maior dívida pública, o mais elevado défice externo, a maior taxa de desemprego, o estado social à beira do colapso. Fizera da mentira um instrumento político permanente, deixando o país em dupla bancarrota: financeira e moral. 

Feridas que levaram anos a sarar. Mas nem todas: algumas permanecem entre nós. E podem reavivar-se enquanto os seus herdeiros espirituais andarem por aí. 

Primeiro de Abril

Paulo Sousa, 01.04.21

Não há primeiro de abril em que eu não me lembre deste senhor.

Deixo aqui uma sugestão dirigida ao sempre seu fiel clube de fãs “José Sócrates Sempre”. E que tal o lançamento das bases para o regresso às luzes da ribalta do seu adorado ídolo?

Na senda da credibilidade de outros movimentos que têm surgido nestes tempos de pandemia, sugiro um nome vencedor. Mentirosos pela verdade. Tinha tudo para vencer.