Salienta o Pedro abaixo o que deve ter sentido Gouveia e Melo no momento em que soube do apoio de Sócrates. Tivemos a possibilidade de assistir à sua reacção ontem no debate com o Jorge Pinto. Tomou conhecimento do apoio em directo, subiu-lhe a mostarda ao nariz, e ainda tentou atacar o mensageiro, considerando provocatória a pergunta sobre esse apoio.
Quanto a Sócrates, apoiaria qualquer um que não fosse António José Seguro, o único que se opôs ao seu domínio absoluto no PS. Por isso António José Seguro foi derrubado na primeira oportunidade, numa coligação Sócrates-Costa, que no entanto se desfez logo que Sócrates foi preso. Nessa altura António Costa pediu aos militantes que não falassem sobre o assunto e só visitou Sócrates na prisão muitos meses depois. Em resposta Sócrates abandonou o PS.
Por isso a obsessão dos apoiantes de António Costa no PS é evitar a todo o custo que António José Seguro passe à segunda volta, mesmo depois de o PS o ter decidido apoiar. Sócrates pode ter-se zangado com António Costa e o PS, mas partilha claramente dessa estratégia. Se para isso é necessário votar em Gouveia e Melo, assim seja.
"Os socialistas deixaram cair “Esta pessoa” antigamente conhecida por José Sócrates. Não por aquilo que sabem sobre a forma como exerceu o poder mas sim por o ter perdido."
«José Sócrates foi um líder forte à custa de instituições fracas. Tentou controlar e condicionar a comunicação social, desde a RTP aos grupos privados, passando por jornalistas e comentadores. Nunca escondeu a animosidade contra a Justiça. Dirigiu a economia com mão de ferro, juntando negócios de Estado a negócios privados sem qualquer pudor. Colocou homens de confiança no assalto ao BCP. Foi no seu tempo que o grupo BES/PT fazia o que queria e Ricardo Salgado era o "dono disto tudo". Este foi o país imaginado por Sócrates que ruiu em 2011.
Por isso não é só Sócrates que está a ser julgado. É também esse país e esse tempo. Convém não esquecer.»
Isto era eu em 2007, fotografado em Maputo no jardim da casa de um casal muito amigo. Eu tinha um blog desde 2003, mais dedicado a Moçambique. Mas já tinha resmungado sobre uns dislates lusos - era a época de afirmação do entretanto defunto BE. O que logo havia sido suficiente para que um jornalista mariola chamado Rainha me afixasse no "top-ten" da direita blogal, arrolando-me do meio de fascistas, assim mesmo chamados... Imagine-se o meu ar, professor contratado por uma universidade pública moçambicana, ao ver-me na internet emparelhado a uns quaisquer blogs chamados "neofascistas de Arrentela" ou "neonazis de Almeirim". Resmunguei entre palavrões peludos "o pequeno mundo dos esquerdalhos lisboetas, acampados entre o Campo Grande e Campolide" - nem de propósito, quando voltei a Lisboa estava o tal Rainha instalado no prestigiado ICS, ali à Biblioteca Nacional. "Cultos", dizem-se. Enfim...
Em 2007, com este ar ainda ligeiramente encanecido e muito menos engelhado, já havia eu lido algumas peças jornalísticas e falado com alguns sérios amigos portugueses. Sabia quem era Sócrates. Sabia que era bem diferente de Soares (& Zenha), Sampaio ou Guterres, alguns dos quais haviam recebido o meu voto. Sobre o traste indivíduo fui blogando desde esse então e nos anos subsequentes. E lendo, muito também em blogs - gente até desesperada com o rumo nacional.
Mas também muitos defendendo-o, até à última. Na imprensa, nos blogs. Alguns transportando-se destes para a tal imprensa e, depois, para o poder político. E/ou para sinecuras. Costumo simbolizar essa mole com as gentes do blog "Jugular", indefectíveis socratistas alcandorados sobre um pedestal de infinita arrogância (Palmira Silva, Vale de Almeida, Câncio, Galamba, e um enorme etc.).
Sócrates lá caiu, deixando o país qual trambolho. Foi para Paris "estudar". Publicou a "sua" tese, posfaciada por Eduardo Lourenço, respeitoso para com o "Senhor Engenheiro José Sócrates" (sic) - trecho nunca abordado na exegese que os académicos do CES e associados ao Mestre fazem. Voltou a Portugal, rumo a Belém: palestrou sobre Rimbaud, pois transformado em erudito. Encetando uma tournée de "cultura", pensada como adequada a um PR. Um antropólogo seu vassalo levou-o ao ISCTE para pavimentar uma qualquer sessão de magister dixit. Etc.
Eu já havia regressado à Pátria Amada, e à toca dos Olivais. Assistindo in loco a tudo aquilo: o seu pessoal na imprensa, os veteranos bloguistas (meio então já menos comum), a rapaziada das "redes sociais" (FB, Twitter), os velhos militantes aspergidos dos ares de Bad Münstereifel, os simpatizantes do "dá jeito ser do PS", a malta das autarquias, todos rejubilavam, em frenesim laudatório. E de todos nós, os "outros", avessos ao energúmeno, diziam sermos "ressentidos", "ressabiados". Doentes psicóticos, entenda-se...
Entretanto Costa, seu antigo nº 2, tomou a liderança do PS. Logo Ferro Rodrigues, ascendeu a chefe da bancada parlamentar. No seu primeiro discurso nessa condição, e ao invés da anterior direcção partidária, reclamou "o legado de José Sócrates".
No dia seguinte a esse discurso parlamentar fui até à tasca do bairro, abanquei na mesa que me albergava naquele meu primeiro Inverno de "torna-viagem", náufrago que estava. A tv estava sintonizada nas "notícias" e logo na primeira rodada percebi que Sócrates havia sido levado até à nossa vizinhança do Parque das Nações, para prestar declarações. Ficámos ali horas, rodadas e mais rodadas, à espera do que iria acontecer. Finalmente lá veio a (ansiada) notícia: o biltre ia dentro! Júbilo, ovação, maior do que a em qualquer futuro golo de Éder!!!
Ontem, e até que enfim, Sócrates foi a tribunal - do qual presumo nunca sairá efectivamente condenado. A amada e respeitável democracia é isto: só ele está em tribunal!
Mas ela também permite outra dimensão: só ele está em tribunal. Mas em "julgamento" intelectual está toda a imensa tralha dos seus apoiantes, que dele foram indefectíveis: os tontos que "não perceberam"; os complacentes, "pois ele é de esquerda"; os coniventes, os do "sou do PS"; e os cúmplices, essa abjecta corte feita desses santos silva, vital moreira e tantos quejandos.
Muitos poderão discordar de mim. Mas terão de concordar numa realidade: eu não sou o quase-viçoso patente nesta fotografia. Já resto escombro, pois vinte anos passaram, 20 anos!!!, desde o evidente início disto.
E a responsabilidade disto, deste tanto tempo e de todos os efeitos de entretanto, é mesmo só dos seus apoiantes. Nem vale a pena adjectivá-los.
Pela primeira vez em Portugal, um antigo chefe do Governo senta-se no banco dos réus. José Sócrates começa enfim a ser julgado - 12 anos após ter sido indiciado no âmbito da chamada "Operação Marquês". Isto se não houver outro enésimo "incidente processual" destinado a manter tudo em ponto-morto. Pode acontecer: um dos seus advogados já revelou a intenção de invocar a nulidade do julgamento «por alteração substancial de factos». E hoje apressou-se a apresentar um requerimento para pedir a recusa da juíza e dos representantes do Ministério Público. Folhetim em sessões contínuas.
Nada de surpreendente: ao longo destes anos, Sócrates inundou os tribunais com mais de cem recursos, reclamações e incidentes de toda a ordem. O número total pode chegar à centena e meia. E cerca de 300 magistrados acabaram por ter algum contacto com o processo - cifra digna de figurar no Guinness Book.
Manhã cedo, à porta do tribunal onde responderá por 22 crimes de corrupção, branqueamento e fraude fiscal, o homem que liderou o Executivo entre 2005 e 2011 protagonizou novo show mediático, na linha daquele que há dias, em Bruxelas, o levou a anunciar a intenção de processar o Estado português junto do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Naquele tom de "animal feroz" que ainda o caracteriza, atreve-se a dizer que se sente muito incomodado com a «morosidade da justiça portuguesa». Quando ele fez tudo, mesmo tudo, para atrasar a aplicação da justiça com litigância de má fé e a torrente de incidentes processuais que acabaram chumbados na esmagadora maioria. Apostando o mais possível na prescrição dos crimes.
Tal como acontece com muitos compatriotas, acompanho há muito este caso com indisfarçável nojo. Enquanto me questiono cada vez com maior perplexidade: como foi possível este pífio vendedor de ilusões ter permanecido durante seis anos à frente do Governo de Portugal?
José Sócrates numa palestra em Paris, 3 de Novembro de 2011
Alguém sente saudades dos anos que decorreram entre estas duas frases que tão bem definem aquela época, quando a dívida pública portuguesa pulou de 63,9% para 114,4% do PIB?
Dez anos depois, após um sem-fim de manobras dilatórias, ainda não há data para o julgamento de José Sócrates e 21 outros arguidos na chamada Operação Marquês. Entretanto, dezenas de supostos crimes já prescreveram. E o antigo primeiro-ministro lá vai recorrendo a todos os expedientes que os alçapões legais lhe facultam, evitando comparecer em tribunal para ser julgado.
São factos que falam por si.
Que isto não provoque uma vaga de indignação colectiva diz tudo sobre a "brandura dos nossos costumes" - expressão que, não por acaso, tem como autor António de Oliveira Salazar.
Quando Sócrates foi detido, muita gente correu logo a defendê-lo
Pedro Correia, 21.11.24
Faz agora dez anos, José Sócrates era detido por sérios indícios de ter cometido ilícitos criminais diversos. Passado todo este tempo, continua sem ser julgado: estendeu ao limite toda a panóplia de garantias que o sistema legal português lhe concede e suscitou numerosos incidentes processuais com a suposta intenção de ver anuladas, por prescrição, as acusações formais que enfrenta desde Outubro de 2017. No início de 2024, tinha já apresentado 52 recursos e reclamações - mais de 80% chumbados, incluindo todos os que submeteu ao Supremo Tribunal de Justiça.
Eram inicialmente 31 crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, branqueamento de capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada. O Tribunal da Relação viria a reduzir de 31 para 28 o número de crimes: três de corrupção, 13 de branqueamento de capitais, seis de fraude fiscal, três de lavagem de dinheiro e três de falsificação de documento.
Em Novembro de 2014, dezenas de políticos, jornalistas e comentadores saíram de imediato em defesa e louvor de Sócrates. Num ruidoso movimento de solidariedade colectiva, sem questionar os actos e as motivações do homem que durante seis anos, entre 2005 e 2011, esteve à frente do Governo de Portugal.
Vale a pena lembrar o que alguns disseram naqueles dias de febril exaltação socrática. Porque a memória não prescreve.
Manuel Magalhães e Silva:«A democracia está em perigo.» (SIC Notícias, 22 de Novembro)
Clara Ferreira Alves: «Esta Justiça de terceiro mundo aterroriza-me. Isto não acontece num país civilizado com jornais civilizados.» (Expresso, 22 de Novembro)
Pedro Adão e Silva: «Devemos questionar tudo sobre a justiça em Portugal.» (SIC Notícias, 22 de Novembro)
Edite Estrela: «Qual a melhor forma de desviar as atenções do escândalo dos vistos gold?» (Facebook, 22 de Novembro)
Pedro Marques Lopes: «A minha confiança no sistema judicial deste país está pelas ruas da amargura.» (SIC Notícias, 23 de Novembro)
Fernando Pinto Monteiro: «[Está a haver] uma promiscuidade entre política e justiça.» (RTP, 24 de Novembro)
Proença de Carvalho: «[O juiz Carlos Alexandre] é o herói dos tablóides.» (TSF, 26 de Novembro)
Mário Soares: «Estes malandros estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar!» (RTP, 26 de Novembro)
Fernando Rosas: «Estamos a entrar num sistema, promovido de facto pelos media em grande parte, de mediatização dos juízes. Queremos uma república de juízes?» (TVI24, 27 de Novembro)
Pedro Bacelar de Vasconcelos: «Subsistem dúvidas legítimas quanto à real motivação do tribunal.» (Jornal de Notícias, 28 de Novembro)
«Os socialistas deveriam mostrar respeito pelos portugueses e pedir desculpa pelos anos de Sócrates. Por terem tido um líder que levou a pura delinquência, sob a forma de uma dupla contabilidade, dupla moral e dupla verdade, aos comandos da governação. De terem sido cúmplices com isso. O silêncio de todos os barões socialistas em relação a esse tempo, a sua conivência com os desmandos, a cobardia de não abrirem a boca, ainda hoje ecoam nos ares.»
«O eixo do bem, digamos assim, que se reuniu em torno do manifesto dos 50 e pretende reformas legislativas que mudem o Ministério Público, representa a mais acabada vitória de Sócrates sobre a justiça e os seus agentes, sobretudo magistrados e polícias. (...) A velha máxima de Sócrates, partir a espinha ao Ministério Público, é apadrinhada por um vasto conjunto de notáveis. (...) Sócrates está agora acompanhado por gente que não quer uma mudança positiva, um aperfeiçoamento do Ministério Público. Trata-se, isso sim, de gente que se colocou ao serviço de uma velha ofensiva contra o poder judicial, que se materializa em três frentes: a submissão das magistraturas ao poder político através de mudanças de composição nos conselhos superiores; a perversão da investigação criminal através do controlo hierárquico sobre a abertura de inquéritos e realização de diligências; a drástica diminuição da possibilidade de ver sentenças da primeira instância materializadas em considerações definitivas. O que eles querem é claro: uma alteração radical do equilíbrio e da arquitectura de poderes fixados na Constituição de 1976 e em algumas revisões posteriores. Sócrates ganhou e por goleada.»
Isto foi um golpe baixo: Sócrates, ao revelar em quem tinha votado, facilitou a vida à Aliança Democrática. Montenegro pode agradecer-lhe este contributo para o resultado.
O sossego da pacata Ericeira foi perturbado ao fim da tarde de ontem. José Sócrates desceu do primeiro andar à porta da casa de empréstimo onde há vários anos vive amesendado e dispôs-se a responder às perguntas dos repórteres que ali se encontravam. Queriam obter uma reacção do antigo primeiro-ministro à decisão do Tribunal da Relação de Lisboa de levá-lo a julgamento por três crimes de corrupção, 12 crimes de branqueamento de capitais e seis crimes de fraude fiscal. Vitória clara do Ministério Público, derrota sem paliativos do juiz Ivo Rosa.
O "animal feroz", fiel à sua imagem de marca, não ocultava a irritação. Quando um jornalista lhe fez uma pergunta usando o vocativo "você", reagiu de imediato: «Não diga você! Trate-me por senhor.» O jovem assim fez. Daí a momentos, Sócrates dirigiu-se a ele tratando-o por "você", já esquecido da regra que ditara pouco antes. A cortesia de linguagem, na versão socrática, funciona em sentido único.
Arrogância e soberba, denotando tique de classe. Mitómano imaginando-se membro de casta superior. No ancien régime comportar-se-ia como senhor feudal, impondo direito de pernada aos súbditos mais tementes.
Nada menos socialista. Mas também é verdade que o "senhor Sócrates" rasgou o cartão de militante do PS. Cortou o mal pela raiz: agora já ninguém lhe chama camarada.
Passam hoje exactamente nove anos sobre o dia em que "O Senhor Engenheiro José Sócrates" (Eduardo Lourenço dixit) foi detido, vítima de um ataque "justicialista" do Ministério Público - a crer-se na interpretação do seu correligionário Ferro Rodrigues, ex-presidente da Assembleia de República. Felizmente que a intentona do aparelho judicial não foi bem conseguida, pois todos estes anos decorridos ainda não houve julgamento.
De qualquer forma urge pôr o tal Ministério Público "na ordem", como defende o actual presidente da Assembleia da República, Santos Silva, homónimo do amigo do actual vice-presidente do Parlamento Europeu, um tal de Silva Pereira. O tipo que na lista de candidatos estava atrás (apesar de, pelos vistos, ser deputado mais importante) da mulher do Vital Moreira, esse antigo cabeça-de-lista de Sócrates. Esse que também quer pôr o Ministério Público bem ordenado...
Mas, e repito-me, temos de nos congratular. Pois, pelo menos, o "Senhor Engenheiro José Sócrates" ainda não foi julgado pelos "justicialistas".
Nos governos de Sócrates houve uma constante defesa daquele líder, independentemente do que era tão óbvio. Nisso se afadigaram militantes do PS, e basta recordar as maiorias "albanesas" que Sócrates obtinha nos congressos do partido. E também os simpatizantes foram "activistas" produtores da nuvem de fumo que pretendia esconder a malandragem governativa. E não seria necessário recordar esse período não fosse ter vária dessa gente transitado para os governos de Costa, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva - esse que agora vai ao Conselho de Estado afirmar que é necessário "pôr em ordem o Ministério Público", e que foi o único governante socialista que gozou a população por causa do escândalo do socratismo, ao dizer-se "parolo" por não ter percebido o detalhe do seu homónimo e alegado "financiador" do neto do volframista, nisso tanto demonstrando o seu desplante avesso à democratização do país. Ou recompensados com tenças em Estrasburgo/Bruxelas, como o braço-direito Silva Pereira, ou Marques e Leitão Marques. E também muitos desses militantes e ou simpatizantes, então, pois mais jovens, apenas frenéticos publicistas do socratismo, ascenderam ao governo, como o célebre Galamba ou o agora mui mudo Adão e Silva.
Tendo regressado ao poder, após o hiato da gestão da quase catastrófica crise financeira global, o PS de Costa tentou barrar o processo ao socratismo. E o afastamento de Marques Vidal da PGR foi o caso mais sonante, no fundo uma manobra desse desejado "pôr em ordem o Ministério Público", para além de todas as manobras de controlo da comunicação social - e será de lembrar que chegaram ao ponto de nomear como responsável da informação do serviço público uma prima de Costa, que se viu obrigada a demitir-se tais práticas teve nesse posto. Depois, tão insuportável era o conúbio com a imagem de Sócrates que o PS decidiu dele se apartar, deitar borda fora aquele lastro para resistir à tormenta: o ardil foi simples, em dias consecutivos num final de semana, o presidente do partido Carlos César, a célebre Câncio, renomada publicista socratista, e Galamba, então mero deputado e criatura de Sócrates, vieram demarcar-se publicamente do ex-primeiro-ministro.
Assim enviado o fedorento cadáver político às revoltas águas da Ericeira o PS de Costa seguiu livre no poder. Entre inúmeros - e tantos deles patéticos - "casos e casinhos" a pax costista estabeleceu-se. Primeiro com o apoio dos partidos comunistas, seduzidos por algumas prebendas redistribrutivas para as suas bases e clientelas. E depois sozinhos, por quatro anos, que nos habituássemos nós. Grosso modo, as pessoas eram as mesmas, as práticas são as mesmas, as diferenças virão apenas dos trejeitos individuais.
Na passada semana "o modo português de ser socialista", para glosar Gilberto Freyre, sofreu um KO técnico. Ontem, António Costa reergueu-se e veio ao ringue apresentar a "narrativa" que o PS procurará apresentar aos seus fiéis e restantes adeptos, temerosos do que a malvada "direita" lhes fará. No fundo Costa apresentou-se como epígono de Isaltino de Morais, num trinado um pouco diferente: "temos dinheiro nos gabinetes mas fazemos".
Caberá aos jornalistas, a politólogos ou mesmo a historiadores da contemporaneidade o elencar com detalhe a miríade de "casos e casinhos", e suas articulações, destes oito anos. Para a sua compreensão será muito produtivo associá-los ao acontecido nos governos do anterior primeiro-ministro socialista. E, para uma visão mais "antropológica" - mais estrutural, por assim dizer - julgo que será relevante fazer recuar esta análise ao historial da administração socialista de Macau, molde que foi do modus faciendi das posteriores gerações de políticos daquele partido. Cujos últimos restantes agora (definitivamente?) colapsam.
Trata-se de um partido de gentes que já há mais de vinte anos estavam incapazes de rebelarem contra os presidentes Soares abraçado ao fugitivo Craxi, ou Sampaio abraçado a Abílio Curto, sempre em nome de uma tal de "amizade". Ou seja, o que hoje se passa não é um momento, é sim fruto de uma mundividência colectiva, predominante naquele partido. Sendo assim, o PS não se regenerará, sofre de necrose política. Estuporado diante da visão de Madrid é incapaz de sopesar, e nisso actuar sobre si mesmo, o que aconteceu aos seus congéneres de França, Grécia, Itália... Pois o problema não é "Costa", é tudo aquilo. E, para mal dos nossos muitos pecados, diante de toda esta decadência temos o pior presidente da República do nosso regime, o mais incompetente pois o mais ininteligente, uma total inadequação sobre a qual me repito desde há muitos anos. É assim necessário sublinhar isto: estamos muito mal entregues. Pois assim o votámos.
Entre a incessante série de comentários recebidos sobre a actual situação escolho divulgar estes três. Porque dizem tudo o que é básico sobre a torpe "narrativa" que António Costa quer legar ao seu partido.
Entretanto, em 2024 alguns dos crimes de que é acusado, irão prescreve.
Estou certo que os mais convictos apoiantes do poder socialista justificarão esta falha como resultado da incompetência que já assistimos em tantos outros casos, e não a um propósito deliberado.
Eu acho que os socialistas no poder são muito incompetentes mas, antes disso, têm também um forte sentido gregário de protecção mútua. Por isso, atrevo-me a afirmar que se António Costa não dissesse o que disse quando visitou Sócrates na prisão (que ele era um lutador naquilo que acreditava ser a sua verdade – a frase politicamente mais mortífera da última década), agora não lhe poderia fazer “o jeito” de o poupar a um julgamento.
Pelo caminho António Costa já o acusou de “aldrabar” o PS. Para o partido que tomou o poder em Portugal, essas afirmações serão o julgamento que conta. E que a justiça dos plebeus não se atreva meter o bedelho onde não é chamada.