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Gravidez prematura

por José Meireles Graça, em 21.05.20

As eleições presidenciais são, salvo erro, daqui a oito meses, pelo que é cedo para em torno delas se fazer uma barulheira.

Muita coisa pode mudar, e vai mudar, neste lapso de tempo. Ninguém sabe a extensão do desastre económico que o confinamento provocou e provocará; ninguém que contornos assumirá a recuperação; ninguém se o bodo europeu dos 500.000 milhões verá a luz do dia sob a forma de empréstimos ou dádivas, e se empréstimos com que prazo, e se dádivas quanto e para quê.

Sabe-se alguma coisa sobre todas estas coisas. Sobre o maná, v.g. este europeísta frenético, ou este eurorealista; sobre o desastre, v.g. aqui. E quem tiver interesse que procure ensaios de economistas sobre a recessão, e artigos de politólogos sobre as alhadas da EU, munindo-se de uma embalagem de ben-u-ron ou brufen, consoante a quantidade de informação a consumir e o estado do aparelho digestivo, porque vai ficar com a cabeça a zoar.

A popularidade do Governo, do PM e do Presidente bate recordes: o funcionário continua a receber salário, e os pensionistas a pensão, sem cortes; se for trabalhador por conta de outrem, e estiver em layoff, recebe ou está à espera de receber dois terços enquanto poupa em casa; os desempregados já são mais 71.000  até Abril (em quase 400.000), mas recebem subsídio; e, finalmente, não tem havido falta de medidas autoritárias (que agradam a uma população aterrorizada e carente do que acredita ser liderança), nem de sessões diárias de “esclarecimento”, às quais as televisões e jornais dão a sua preciosa ajuda, ao ponto de calarem vozes incómodas, com pano de fundo de compra descarada de favores.

Nada disto pode durar. Costa, que tem a agudeza dos sobreviventes, já percebeu que o seu consulado depende da extensão dos estragos e de a Europa solidária bancar o descalabro. E não tem evidentemente ilusões sobre a natureza da popularidade dos políticos: Sócrates teve uma maioria absoluta, mas saiu pela porta baixa e hoje, se não tivéssemos confiança no sistema eleitoral, poderíamos julgar que tinha falsificado as eleições, tal é a dificuldade em encontrar quem confesse que o apoiou. Excepto, é claro, os que, como o próprio Costa e boa parte do Governo, o acompanharam na montagem da falência, mas que se reciclaram com grande sucesso em ingénuos enganados.

Daí que estar a discutir presidenciais agora seja uma evidente extemporaneidade.

Mas tem uma origem: Ao que parece, Costa aldrabou, talvez por excesso de confiança, o Parlamento no caso da transferência de 850 milhões de euros para o Fundo de Resolução, com destino ao Novo Banco; o ministro das Finanças, que tinha autorizado a manobra, não apreciou ser envolvido na confusão decorrente da mentira e quis bater com a porta, coisa que aliás parece estar morto por fazer, para o efeito de se refastelar no Banco de Portugal; o presidente da República, o incontinente Celinho, meteu-se ao barulho para reconciliar os governantes desavindos; Costa não quer que Centeno dê já à sola, de mais a mais num caso em que não sairia bem na fotografia; o Ronaldo das Finanças, que precisa de Costa para chegar ao almejado BdP, concordou em fingir que o presidente o demoveu; e Costa, agradecido ao Presidente, e para distrair as atenções de todo o episódio bufo, inventou o apoio à reeleição de Marcelo.

Bem jogado, a tranquibérnia do Novo Banco já está meia esquecida e do que se fala é de eleições: Ana Gomes, a candidata da facção popularucha e exaltada do PS, cujo fonds de commerce é a luta anticorrupção, veio pôr-se em bicos de pés, zangada, e alguns próceres na prateleira já vieram lembrar que são os órgãos do partido, e não Costa, quem decide apoios; de repente aparece gente a apoiar o putativo candidato Ventura, cujo fonds de commerce é a segurança, a indignação anti tretas da extrema-esquerda e causas sortidas que não sejam de esquerda e andem à procura de patrono; e, nas redes, adiantam-se nomes de candidatos da direita para, no melhor dos casos, calçarem uns patins a Marcelo e, no pior, poupar o país à desgraça de uma marcha triunfal.

É provável que este assunto entre em banho-maria, submergido pelo que aí vem. Mas hoje, José Manuel Fernandes, pessoa atilada e geralmente com as opiniões alinhadas pelo lado bom do espectro político, defende num artigo uma tese extraordinária, que é esta: “… ter Marcelo em Belém suportado por uma votação substancial é melhor do que vê-lo lá demasiado tributário dos votos que António Costa lhe oferecer.”

Defende isto porque de Rio não se pode esperar nada que preste, mas é inamovível para já, André Ventura pesca até mais ver sobretudo na direita mas ainda não tem massa crítica para atingir uma votação significativa, nem aliás tem respostas aceitáveis para problemas que precisam de soluções que não sejam as que oferece, e Ana Gomes pode talvez, se o campo da direita estiver dividido com outros candidatos, forçar uma segunda volta, enfraquecendo a vitória de Marcelo.

Portanto, não valeria a pena ter candidatos alternativos, à direita, para perder – o que é preciso é dar força a Marcelo. Este, forte com essa força, e grávido de uma vitória esmagadora na primeira volta, mostraria, no segundo mandato, a fibra de que é feito.

Este raciocínio não tem pés nem cabeça, porquanto:

  1. A direita regressará ao poder quando a esquerda der com os burros na água, e não antes, esteja quem estiver na presidência da República. Dar com os burros na água, para efeitos eleitorais, quer dizer as pessoas viverem pior, não quer dizer o eleitorado perceber que com governos socialistas o país desliza para o último lugar da Europa. Isso o eleitorado pode assimilar, se os magistrados da opinião lhe martelarem a cabeça com a ideia, coisa que não fazem porque nela maioritariamente ainda não acreditam, e mesmo assim a longo prazo;
  2. Os principais problemas de Portugal, nesta fase, resolvem-se ou não em Bruxelas, Frankfurt e Estrasburgo, e os socialistas, na veste de diplomatas pedintes, pedem meças a quaisquer outros, incluindo as boas gentes do PSD, que nesta matéria são farinha do mesmo saco;
  3. Marcelo não pode ser um íman solitário, na presidência, para onde gravite a melhor gente de direita, porque Marcelo não é de direita: é católico, estatista, social-democrata, umbiguista e intriguista, isso ele é. Mas um íman? A plasticina é moldável, mas não é conhecida pelas suas propriedades de atracção;
  4. O poder da magistratura da presidência decorre da Constituição e da personalidade do presidente, não decorre da percentagem de votos com que foi eleito, nem se à primeira ou segunda volta;
  5. As tácticas servem para ganhar guerras se ao serviço de uma estratégia, senão são vitórias pírricas. Mas mesmo assim Pirro queria destruir Roma; e Marcelo quer apenas que gostem muito dele e o achem admirável;
  6. Oito meses são, politicamente, uma eternidade e, com as incógnitas do futuro próximo, sabe lá JMF se um candidato para perder irremediavelmente hoje não pode transformar-se num candidato para ganhar em Janeiro de 2021?


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