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O "exclusivo" de Marcelo na SIC

por Pedro Correia, em 15.10.19

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Marcelo Rebelo de Sousa revelou à SIC uma das cachas políticas do ano: vai submeter-se a um cataterismo, para avaliar eventuais danos cardíacos e deste exame clínico dependerá uma decisão sua sobre a recandidatura à Presidência da República.

Acontece que a entrevista em que o Chefe do Estado fez esta e outras revelações não foi conduzida por um jornalista, munido do respectivo título profissional, mas pelo director-geral de entretenimento da estação outrora sediada em Carnaxide. O que constitui mais um significativo sinal da desvalorização do papel social dos jornalistas e da sua progressiva irrelevância no circuitos comunicacionais contemporâneos.

Que a SIC, onde trabalham dezenas de jornalistas qualificados e prestigiados, tenha prescindido deles para a obtenção desta informação em exclusivo e que o próprio Presidente da República elegesse como emissário desta novidade alguém ligado à área do entretenimento diz muito sobre a degradação de um ofício hoje invadido a todo o momento por gente que não se inibe de divulgar matéria supostamente noticiosa sem sujeitar o que supõe saber ao crivo do contraditório nem cumprir outras normas deontológicas que só vinculam os portadores da carteira profissional de jornalista.

 

Não passa praticamente um dia sem que, neste ou noutros canais, escutemos comentadores da política ou do desporto difundirem em antena "notícias exclusivas" que muitas vezes são meros rumores, à revelia das respectivas direcções de informação. O caso mais flagrante acontece na área do futebol - a tal ponto que me questiono se continuam a existir jornalistas habilitados a pronunciar-se na área do desporto em qualquer destes canais. Mesmo que a resposta seja afirmativa, o facto é que qualquer deles pouco mais servirá do que para estender um microfone, muitas vezes em "conferências de imprensa" onde não se escuta uma verdadeira pergunta digna desse nome.

Tudo isto deveria preocupar a estrutura dirigente dos jornalistas - se ela existisse. Acontece que esta é a única actividade abrangida por um código deontológico que não está organizada enquanto ordem profissional. Condenados à proletarização, sem condições mínimas para exercer o trabalho, desconsiderados pelas empresas onde prestam serviço e ultrapassados a todo o momento por qualquer "comentador residente" em estúdio, os jornalistas figuram hoje no posto mais baixo da cadeia informativa.

Problema exclusivo deles? Não: é um problema dos cidadãos que tantas vezes preferem ser "informados" pelo que "se vai dizendo" nas redes sociais e elegem as televisões que mais transformam notícias em "entretenimento".

Um problema do País, portanto.

His master's voice de Setembro

por Pedro Correia, em 30.09.19

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«Ontem, no debate a seis, houve tudo menos um arrufo. Não foi bonito de se ver a interpelação de Catarina Martins a Costa. E ele respondeu-lhe à letra. António Costa foi obrigado a descer a terreiro pq [porque] eram seis contra um. Já chega de debates.»

Luísa Meireles, directora de Informação da Lusa, comentando o debate na RTP entre os líderes dos seis principais partidos

Twitter, 24 de Setembro

Perguntas que gostava de fazer (1)

por Paulo Sousa, em 13.09.19

Dr. António Costa,

Disse-nos que, mesmo após muitos anos de uma relação próxima com José Socrates, ficou surpreendido com as revelações levantadas pelo processo Marquês.

Podemos confiar na sua capacidade de avaliar pessoas?

A visão estratégica e a capacidade de actuar num prazo alargado do regime autoritário chinês constituem a maior ameaça à liberdade do mundo ocidental.

A China é implacável na aniquilação da oposição interna e simultaneamente comporta-se nas relações internacionais de uma forma respeitável. Nestes tempos da caótica e imprevisível administração Trump, a ditadura chinesa chega por vezes a parecer o garante do multilateralismo.

Perante as inquestionáveis dificuldades que as democracias liberais atravessam, a aparente ordem e previsibilidade dos regimes autoritários consegue atrair simpatias. Uns sugerem que a democracia deveria ser suspensa por seis meses, outros chegam mesmo a suspender parlamentos. Pouco a pouco, o que há meia dúzia de anos seria impensável, já é um facto.

O sistema de crédito social chinês, que pune os cidadãos não conformes e premeia os restantes, constitui o mais sinistro sistema de controle de massas de que há memória.

Dezenas de milhares de chineses foram impedidos de adquirir bilhetes de comboio ou avião durante a celebração do ano novo chinês simplesmente porque, de uma forma ou de outra, tinham ultrapassado o limite que os donos da moral consideram que não pode ser pisado. Uns por terem sido críticos do regime, outros por terem sido desagradáveis durante uma viagem de comboio, por não pagaram um dívida ou por fizeram ruído no prédio fora de horas,... os desvios são punidos.

É sabido, embora desconhecido no detalhe, a dimensão do exército de fiscais do mundo virtual chinês. São conhecidas as dificuldades levantadas aos gigantes das novas tecnologias para terem acesso ao mercado chinês. Refiro-me à Google, Facebook, Amazon, etc. A questão resume-se a terem de ajustar as suas prácticas aos ditames dos donos da moral chinesa. Ou se flexiblizam ou perdem o acesso a um mercado de mais de mil milhões de consumidores.

São diversas as fontes que referem e descrevem em detalhe como tudo funciona assim como as consequências para os desalinhados.

Vem isto para enquadrar dois exemplos que passo a relatar.

i) Há poucos dias o Público veio-nos dizer que afinal talvez esse sistema não exista. A jornalista entrevistou alguém que por sua vez questionou alguns chineses que lhe disseram desconhecer ´essa coisa´, mas ... a ideia até lhes agrada por permitir livrar o país dos corruptos.

Ao ler isto cheira-me que alguém andou a fazer uma investigação sobre um assunto, mas já sabia a que conclusão iria chegar e isso poderá ter condicionado os dados que recolheu. Cheira-me a desinformação, talvez até involuntária, mas a desinformação.

ii) Não há muito tempo, na cavaqueira com alguém que tinha acabado de conhecer e que rapidamente entendi ter um profundo sentido da política, ouvi a enormidade de que a China tinha demasiada população para que alguma vez pudesse vir a ser uma democracia. Tive de lhe perguntar em quantos milhões é que ia esse limite, até porque a Índia que a médio prazo irá ultrapassar a China nessa variável tem uma democracia razoavelmente decente.

A conversa sofreu um pequeno e curto desvio mas pouco depois uma nova carta foi posta na mesa. O confucionismo, a base cultural chinesa, não era compatível com a democracia. Por desconhecer os pilares de tal doutrina não pude contra-argumentar e fiquei com a forte impressão que tinha assistido a um belo Ctrl+Alt+Del encapotado.

Logo depois começaram as anedotas sobre a coligação PAF. Essa gente, sim, era um hino à ditadura clerical de Salazar e uma ameaça à liberdade conquistada em Abril.

Todos estes assuntos foram abordados quase em sequência, de onde pude extrair que, para alguns pensadores da nossa esquerda, o regime chinês é aceitável e simultaneamente uma coligação da direita portuguesa pode ser uma sinistra ameaça. Chegamos a isto.

Julgo ser da natureza humana uma reacção relativamente frequente a que chamo o sindrome da esposa enganada (que também pode ser do marido). Há coisas em que não acreditamos simplesmente porque não queremos que sejam verdadeiras. Não as enfrentar é uma forma de negar que existam. Nada resolve, mas alivia.

Encontro traços deste fenómeno nos dois casos.

Para quem duvidar que se vão criando condições para um recuo efectivo no leque de liberdades que exigimos ao nossos regimes, pode ainda escutar com atenção o silêncio dos senhores e senhoras que se emocionam na parada do feriado de Abril. Fecham os olhos ao discursar, para esconder a emoção, mas continuam em silêncio perante o combate que se trava em Hong Kong. É nesta antiga colónia britânica que neste momento está localizada a fronteira da liberdade.

Esta fronteira da liberdade vai de tempos a tempos mudando de região. Há 80 anos - faz hoje 80 anos - essa combate travou-se na fronteira da Polónia invadida pelas tropas nazis. Ao longo dos seis longos anos da Segunda Guerra Mundial, a fronteira da liberdade sempre coincidiu com a linha da frente da batalha. Passou por El Alamein, pela Sicília, pelas linhas Gótica e Gustav, pela Normandia, pelas Ardenas até ao histórico aperto de mão no Elba. Foi mudando de região e desde 25 de Abril de 1974 até ao 25 de Novembro do ano seguinte andou pelos nossos lados. Actualmete está em Hong Kong. Será que alguma vez passará por Macau? Qual seria a a reação dos nossos governantes? Será que os eventuais dissidentes se fariam representar com a nossa bandeira, tal como o fazem com a Union Jack em Hong Kong? Num cenário hipotético como esse, poderia ser a nossa bandeira um possível símbolo da liberdade?

O mundo ocidental continua a ser o refúgio preferido dos dissidentes de todo o mundo, porque, apesar de já não ser a região mais poderosa do globo, continua na linha da frente na garantia das liberdades individuais.

Não temos pessoalmente nenhum mérito nisso (eu pelo menos não tenho!) mas apenas temos a sorte de por aqui ter nascido. Alguém no passado lutou por isso e nós somos os seus beneficiários líquidos.

Perante tudo isto concluo que existe espaço na opinião pública no mundo ocidental para uma efectiva redução do respeito pelas liberdades individuais.

Dia após dia, entre a aparente ordem das ditaduras e a imprevisibilidade quase caótica dos parlamentos, o apego à liberdade vai adquirindo uma plasticidade que não augura nada de bom.

Director, um lugar precário

por Pedro Correia, em 29.03.19

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Como aqui escrevi em 2016, não existe hoje em Portugal um lugar tão precário como o de director de um órgão de comunicação social.

Nesse texto, publicado no DELITO vai fazer três anos, pronunciei-me com dados e nomes sobre a chocante rotação existente na maioria dos títulos jornalísticos diários ou semanários de expansão nacional. Para concluir que esta escassa permanência de um director à frente de um meio de comunicação fragiliza todo o projecto editorial, tornando-o ainda mais vulnerável às pressões - não apenas do poder político mas dos chamados poderes fácticos, da banca à bola, passando por maçonarias de vários matizes e pelas marcas comerciais que funcionam como financiadoras enquanto anunciantes.

Nesse artigo acentuei que 16 dos principais títulos jornalísticos (72,7% do total) tinham directores em funções havia menos de dois anos.

Revisitando hoje o mesmo texto, verifico que doze dos 22 directores ali mencionados - mais de metade, portanto - deixaram de exercer tais funções. Alguns abandonaram a profissão e houve um título que entretanto desapareceu. Mais sintomático ainda: em alguns casos, os referidos responsáveis tiveram não apenas um mas já dois sucessores de então para cá.

 

Desde então já se registaram várias mudanças. Bárbara Reis anunciou em Maio de 2016 que deixaria a direcção do Público, ao mesmo tempo que se tornava conhecida a transferência de David Dinis da TSF para o diário da Sonae, dando por sua vez lugar na rádio a Arsénio Reis, que ali iniciou funções em Setembro de 2016. Em Junho desse ano, André Macedo demitiu-se de director do Diário de Notícias, sendo substituído em Setembro por Paulo Baldaia. Também em Junho de 2016, João Garcia cedeu o lugar de director da revista Visão a Mafalda Anjos. Na revista concorrente, a Sábado, Eduardo Dâmaso assumiu a Direcção a partir de Abril de 2017. E André Veríssimo ascendeu em Novembro de 2017 ao posto de director do Jornal de Negócios.

Entretanto o Diário Económico, que vegetava já só na edição digital, encerrou de vez. Passou a haver duas novas publicações nesta área: o Jornal Económico, surgido em Setembro de 2016 com Vítor Norinha como director, logo promovido a director-geral da empresa proprietária, passando o seu anterior lugar a ser ocupado a partir de Dezembro por Filipe Alves, até aí director-adjunto; e desde Outubro de 2016 o Eco - só com edição em linha -, sob a direcção de António Costa.

Rotação acelerada noutras publicações: em Abril de 2018, Ferreira Fernandes substituiu Baldaia como director do Diário de Notícias; em Julho desse ano, David Dinis cedeu o lugar de director do Público a Manuel Carvalho; em Setembro foi a vez de Afonso Camões ser rendido por Domingos de Andrade no posto máximo do Jornal de Notícias; em Outubro, Luísa Meireles era anunciada como sucessora de Pedro Camacho na Direcção da Lusa; no mesmo mês, Maria Flor Pedroso substituía Paulo Dentinho à frente da informação da RTP.

Mais mudanças, estas já no ano em curso: há duas semanas, António Magalhães cedeu o lugar de director do diário Record a Bernardo Ribeiro. E hoje mesmo João Vieira Pereira foi anunciado como director do Expresso, substituindo Pedro Santos Guerreiro.

 

Apontamentos adicionais:

André Macedo não chegou a completar dois anos no posto cimeiro do DN: só lá esteve 22 meses.

Paulo Baldaia, o sucessor, ficou apenas ano e meio à frente do centenário matutino, agora já fora da Avenida da Liberdade.

Raul Vaz também só se manteve ano e meio como director do Jornal de Negócios.

João Garcia foi director da Visão durante um ano exacto.

David Dinis não permaneceu mais de quatro meses ao leme da TSF. Foi depois dirigir o Público, onde esteve dois anos - entre Julho de 2016 e Julho de 2018. Hoje é anunciado como novo director-adjunto do Expresso.

Pedro Santos Guerreiro aguentou-se três anos à frente do semanário Expresso. Tantos como Pedro Camacho enquanto director da Lusa.

Rui Hortelão manteve-se quase três anos e meio no posto de comando da Sábado. Idêntico ao período em que Paulo Dentinho esteve a dirigir a RTP.

António Magalhães resistiu quatro anos e meio como director do Record.

 

Dos 22 directores dos órgãos de informação diários ou semanários de carácter nacional (televisão, rádio, jornais, revistas informativas e agência noticiosa), só cinco ocupam essas funções há mais de cinco anos. E 15 iniciaram-nas desde Fevereiro de 2016, o que diz muito sobre a instabilidade do cargo. Apenas um ultrapassou a década e meia como director: Vítor Serpa, que lidera A Bola desde 1992. Algo impensável em qualquer outro jornal.

Embora a grande distância deste caso único, é já considerável a longevidade no exercício do cargo de Octávio Ribeiro (que dirige o Correio da Manhã desde Março de 2007), Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009) e José Manuel Ribeiro (director do diário O Jogo desde Maio de 2011). Cada vez mais excepções que teimam em contrariar a regra.

Resta ver por quanto tempo.

Motivo para deixar de ver a RTP

por Pedro Correia, em 01.10.18

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Sete anos depois, Cristina Esteves deixa de apresentar os telejornais do fim de semana na televisão pública.

Até sempre

por Pedro Correia, em 28.05.18

Morreu o António Loja Neves, ao fim de 30 anos de militância no Expresso. Foi talvez o melhor caça-gralhas da imprensa portuguesa - uma espécie em vias de extinção. Era uma personalidade inconfundível, reconhecida até por quem nunca privou com ele.

Com franqueza, já cheira mal

por Pedro Correia, em 26.04.18

Algumas almas andam por aí aos gritinhos, clamando contra putativas violações do "segredo de justiça" - matéria que só lhes interessa, por coincidência, quando a beautiful people, habituada a beber do fino nos cenáculos da capital, senta o traseiro no banco dos réus.

Entre o direito à informação e o "segredo de justiça", nem pestanejam: elegem o segredo. Curiosamente, esta tribo dos gritinhos inclui várias pessoas alegadamente portadoras de carteira profissional de jornalista, que disparam impropérios contra quem relata e noticia, enquanto entoam hossanas a quem omite e silencia. Estranha forma de exercer o jornalismo, entre a venda e a mordaça.

Sendo o segredo de justiça um instrumento processual, de modo algum pode ser colocado no mesmo patamar da liberdade de imprensa ou da liberdade de expressão, queiram ou não queiram os defensores das novas formas de censura. Se alguém tem consciência disto é a actual segunda figura do Estado português, cuja frase mais célebre contribuiu para clarificar a questão: "Estou-me cagando para o segredo de justiça!"

Com franqueza, tanta polémica a propósito disto já cheira mal.

Sermão ministerial a jornalistas

por Pedro Correia, em 21.02.18

A política externa deve dar pouco que fazer ao titular da pasta dos Negócios Estrangeiros. Só assim se explica que Augusto Santos Silva tenha assinado um longuíssimo artigo com 17 mil caracteres na Folha de S. Paulo onde, entre alusões ao populismo e às novas plataformas da comunicação, se permite dar sermões, distribuir ralhetes e apregoar deontologia profissional aos profissionais da comunicação social.

Chega ao ponto de assinalar "a culpa do descumprimento ostensivo da deontologia profissional, que tem sido particularmente evidente e grave no jornalismo, onde todos os dias se repetem infracções descaradas a regras básicas de ética e deontologia, como a separação entre factos e opiniões, o respeito pela intimidade e a vida privada, a obrigação do contraditório ou o dever de prova".

Daqui resultam duas interrogações. Primeira: quem terá investido Santos Silva nesta autoridade de doutrinador e "controleiro" dos jornalistas? Segunda: será por falta de pachorra para ler prosa tão copiosa que ainda não tomei conhecimento de qualquer resposta dos supostos endoutrinados?

Tão perto e já tão longe

por Pedro Correia, em 24.11.17

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 Pedro Rolo Duarte (Foto: Leonardo Negrão)

 

Há notícias que nos atingem como murros no estômago. Nunca estaremos preparados para elas.

Acaba de acontecer-me ao saber que o Pedro Rolo Duarte partiu de vez, sem avisar quase ninguém, aos 53 anos. Sabia-o doente, alguém me avisara há uns meses, como sempre sucede nesta cidade-aldeia, mas nunca imaginei que a doença fosse tão grave e tivesse tanta pressa em roubá-lo ao nosso convívio.

Conhecíamo-nos há 20 anos exactos. Estava eu na secção política do Diário de Notícias, como repórter parlamentar, e ele editava aquele que foi o mais inclassificável e fascinante suplemento da imprensa portuguesa, o DNa de boa memória – que viria a ter fim prematuro, às mãos de uma direcção do jornal incapaz de perceber que tinha ali uma pepita de ouro que nunca devia ter sido extinta. Vê-lo desaparecer doeu-me, como já tinha doído o desaparecimento do DN Jovem, espaço do jornal cultivado e editado pelo Manuel Dias em que se revelaram, ainda na adolescência, tantos actuais talentos da literatura portuguesa.

Prefigurava-se já ali, nessas mudanças abruptas, a presente agonia da nossa imprensa – consequência de demasiadas opções erradas de excessivos decisores medíocres.

 

O DNa – de que guardo com devoção quase religiosa os primeiros cem exemplares, novos como se tivessem saído agora da gráfica – foi um tesouro da imprensa portuguesa e talvez o mais precioso fruto do talento do Pedro Rolo Duarte na sua carreira jornalística impressionantemente longa e afinal dolorosamente fugaz. Ele teve o condão de conceber um conceito jornalístico difícil de etiquetar, mesclando o melhor da tradição com o melhor da inovação, dinamizando uma restrita mas brilhante equipa de infatigáveis colaboradores. Por lá passaram – em diferentes fases dessa década – o Francisco José Viegas, o Luís Osório, a Anabela Mota Ribeiro, a Sónia Morais Santos, o João Gobern, o Carlos Oliveira Santos, o Pedro Mexia, o José Mário Silva, o Carlos Vaz Marques, a irmã dele, Fátima Rolo Duarte, entre outros. Poucos mas bons.

 

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Na redacção, o Pedro era de poucas falas. Alguns, por lá, confundiam essa timidez natural com arrogância, nada dispostos a quebrar o gelo. Nunca senti essa dificuldade – e foi precisamente lá que ficámos amigos. Colaborei com gosto no DNa, à margem das minhas tarefas na absorvente agenda diária do jornal, e lembro-me de duas capas que assinei no suplemento – elegendo-as ainda hoje entre as peças que mais gostei de produzir em trinta anos de jornalismo: entrevistas com Mário Castrim, o decano dos críticos de televisão portugueses, e João Amaral, deputado do PCP e um dos mais brilhantes parlamentares que passaram pela sala das sessões da Assembleia da República.

 

Já acompanhava desde o início da década de 80, como leitor, o percurso do muito jovem Pedro Rolo Duarte - primeiro no semanário Se7e, depois no irrepetível Independente de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, e pela igualmente inclassificável revista K. Legou-nos largos milhares de textos, de todo o género e sobre todos os temas, espalhados pelas mais diversas publicações – herança que recebeu nos genes: os pais, António Rolo Duarte e Maria João Duarte, também jornalistas de profissão, inculcaram-lhe este saudável vício do qual nunca se libertou.

Chegou a integrar uma direcção do DN – de duração efémera, como aconteceu com quase todas desde a partida do nosso comum amigo Mário Bettencourt Resendes, também demasiado cedo desaparecido, deixando um lugar que nunca foi devidamente preenchido no nosso jornalismo. Depois fez-se à estrada, pedalando em pista própria, como sempre. Colaborou na televisão, publicou livros (guardo um aqui à mão, Noites em Branco, recolha de textos avulsos, com a escrita elegante, a suave mordacidade e a discreta ironia que nos habituou), abriu um blogue em nome próprio e regressou à rádio, paixão antiga e sempre renovada.

 

Encontrávamo-nos por vezes, no nosso bairro de Alvalade, em regra no Mercantina – um dos quatro ou cinco restaurantes que frequento em Lisboa – ou na Livraria Barata. Quando lancei o primeiro livro, em 2013, ele teve a amabilidade de me convidar para uma inesquecível entrevista a três vozes (ele, eu e o João Gobern) no seu programa Hotel Babilónia, da Antena 1: foi de longe a mais estimulante conversa jornalística que tive desde sempre, não como entrevistador mas enquanto entrevistado.

Ao contrário do que é mau costume entre nós, nunca lhe faltou capacidade de admiração. Lançou e promoveu vários jornalistas, com uma generosidade rara, e não se deixava contaminar pelo vírus da inveja: nisto, e se calhar só mesmo nisto, parecia pouco português.

 

Trocávamos uma correspondência esporádica e mantínhamos alguma cumplicidade blogosférica. Publiquei aqui no DELITO dois textos dele: o primeiro em Novembro de 2010, fez ontem sete anos; o segundo, no mês passado. Tão longe de imaginar que seria o último.

Ignorava a que ponto estava já debilitado quando dele recebi, a 27 de Setembro, uma calorosa mensagem em que dizia ter superado um sério problema de saúde que não especificou (nem eu o questionei sobre isso, nesta nossa contenção tão masculina que nos leva a contornar detalhes do reduto íntimo de cada qual) e aceitando o meu convite para escrever um texto neste blogue, aqui publicado a 5 de Outubro.

 

Tão perto - e já tão longe. Nunca estamos preparados para dizer adeus a quem parte demasiado cedo. Deixando tantos livros por ler, tantas viagens por fazer, tantos petiscos por partilhar com gente amiga de todas as idades e todos os quadrantes.

É assim, com um nó no estômago e a voz emudecida, que me despeço dele deixando um beijo terno a sua Mãe, um abraço fraterno à Fátima e uma palavra de alento ao filho, baptizado com o nome do avô. Tu, António, tens todos os motivos para sentires orgulho do teu pai.

Venezuela: repressão e silêncio

por Pedro Correia, em 07.07.17

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 Hordas de apoiantes de Maduro assaltando o Parlamento em Caracas

 

O regime proto-ditatorial de Nicolás Maduro, que tem espezinhado todas as liberdade cívicas na Venezuela e conduzido o país a extremos de indigência e miséria, foi ainda mais longe esta quarta-feira ao permitir que milícias paramilitares, armadas até aos dentes, invadissem o Parlamento de Caracas e agredissem selvaticamente diversos deputados da oposição, funcionários e vários jornalistas.

Foi mais um passo rumo à transformação total do "socialismo" venezuelano numa tirania pura e dura. Desde Abril, 90 manifestantes anti-Maduro foram assassinados pelas chamadas "força da ordem" só porque protestavam pacificamente na rua contra o regime. Há dois meses, a Amnistia Internacional alertava o mundo contra a "caça às bruxas" desencadeada em Caracas contra políticos da oposição, incluindo governadores e deputados. Enquanto os esbirros armados pelo regime reprimem a todo o momento o que resta da liberdade de manifestação num país que tem uma das taxas de  inflação mais elevadas do planeta e o segundo maior registo de homicídios per capita do hemisfério ocidental.

 

No seu relatório anual de 2016 sobre os atentados à liberdade de imprensa no mundo, a prestigiada organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) alertava: «Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro possui as suas próprias artimanhas para combater os media: aquisições realizadas por amigos seus (como nos casos do jornal El Universal e do canal Globovisión) seguidas de vagas de despedimentos, asfixia da imprensa pela supressão do acesso ao papel de impressão, o que já conduziu ao encerramento de 22 jornais, ou ainda uma lei que criminaliza todo o  conteúdo que possa "questionar a autoridade legítima constituída".»

Em apenas um ano, sem surpresa, a Venezuela baixou da 117.ª posição para o 139.º lugar - num total de 180 países - na Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa dos RSF.

 

Espero sinceramente que o Sindicato dos Jornalistas, sempre tão atento às ameaças internacionais à liberdade de imprensa, se pronuncie - com idêntica celeridade à que teve no chamado "caso" Sebastião Pereira - sobre as mais recentes agressões aos profissionais da informação na Venezuela. Tal como fez a 3 de Julho, quando visou o Presidente norte-americano Donald Trump, e nesse mesmo dia ao insurgir-se contra as medidas censórias registadas em Hong Kong.

A minha expectativa é grande, embora não se fundamente em precedentes dignos de registo. Consultando o sítio do Sindicato dos Jornalistas, verifica-se que as mais recentes alusões à Venezuela remontam a 2010. Muito antes da chegada de Maduro à presidência do país, portanto.

Desde então, silêncio.

 

Mas vou esperar. Sentado.

O Sebastião Pereira sou eu

por Pedro Correia, em 24.06.17

"Caos en el mayor incendio de la historia de Portugal: 64 muertos, un avión fantasma y 27 aldeas evacuadas." Foi este o título da peça do El Mundo de 21 de Junho que perturbou o Governo e mobilizou a guarda pretoriana do poder, que parecia hibernada em pleno Verão.

Tudo normal. Mas nunca imaginei que o Sindicato dos Jornalistas - organismo que tem como incumbência e dever a defesa dos interesses socio-profissionais dos jornalistas - se envolvesse com tanto fervor no assunto, emitindo 48 horas depois da publicação da notícia um comunicado em que garante não haver "qualquer registo de documento profissional" acerca do nome Sebastião Pereira, o autor do texto. Nesses escassos dois dias, o SJ teve tempo de indagar a direcção editorial do El Mundo e os sindicatos espanhóis, "informando-os sobre o caso e pedindo cooperação para o esclarecer".

 

Gostaria de ver o Sindicato dos Jornalistas, agora mobilizado na batalha da propaganda contra quem ousou publicar além-fronteiras uma peça tão incómoda para Sua Excelência o Presidente do Conselho de Ministros, pronunciar-se com tamanha rapidez contra os despedimentos maciços de jornalistas nos órgãos de informação, a crescente proletarização da profissão e o incumprimento de elementares obrigações contratuais pelas entidades patronais.

Quanto à identidade do misterioso correspondente que tanto tem alvoroçado São Bento, não vale a pena enviarem mais correios electrónicos para a redacção do El Mundo nem incomodarem as estruturas sindicais espanholas: o Sebastião Pereira sou eu.

Ao contrário do que alegam alguns usurpadores, incluindo este e este.

 

Mais esclareço que escolhi Sebastião por ter nascido em São Sebastião da Pedreira e Pereira em homenagem ao ex-ministro Pedro Silva Pereira, que num destes dias encontrei num supermercado.

Aproveito a oportunidade para revelar que também utilizo ocasionalmente as assinaturas  Repórter XFradique Mendes, Dennis McShade  e  Bob Dylan - sem ter feito vénia nem pedido autorização ao Sindicato dos Jornalistas, falha de que muito humildemente me penitencio.

Morde, Paulinho, morde

por Rui Rocha, em 06.05.17

- Bom dia, Doutor Proença.
- Bom dia. Com quem estou a falar?
- Sou o Paulo Baldaia, Doutor.
- ...
- O Director do DN...
- ...
- Sou o Paulo, Doutor. Do DN. O Paulinho...
- Ah, o Paulinho! Por que é que não disseste logo? Um dia destes tenho de gravar o teu número... Então diz lá, ó Paulinho...
- Era para ver se o senhor Doutor me deixava fazer uma noticiazinha de primeira página com a situação da candidatura do Rui Moreira e do PS no Porto...
- Tás maluco, ó Paulinho? Então mandei-te despedir o Alberto Gonçalves para agora... Vais lá chamar uma bronca dessas à primeira página...
- Não foi um despedimento, Doutor. Não era jornalista e...
- Paulinho!
- Desculpe, Doutor. Mas não ficará mal o DN ser o único a não dar destaque de primeira página ao assunto? Já quando foi dos sms do Centeno passámos uma vergonha tão grande...
- Pronto, ó Paulinho, fazemos assim: não vai para primeira página mas escreves tu um artigo a cascar no PS Porto para despistar.
- Combinado, Doutor. Mas então vou mesmo morder as canelas dos gajos.
- Morde, Paulinho, morde. Assim como assim já ninguém lê as merdas que escreves.

Um traço de união 27 anos depois

por Pedro Correia, em 06.03.17

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Trabalhar no Público foi uma experiência única, irrepetível. Ter integrado a equipa da fundação do jornal - que andou durante meses a fazer números zero - foi ainda mais gratificante. Orgulho-me de ter figurado nessa primeira equipa daquele que continuo a considerar o melhor jornal diário jamais feito em Portugal.

O Público foi mais do que um jornal: foi um estado de espírito, que perdurou muito para além do espaço físico em que era elaborado. Refiro-me ao Público mais genuíno, o original, aquele que foi concebido e concretizado por um jornalista de excepção, o Vicente Jorge Silva. Que tinha como marcas editoriais a qualidade de escrita, a atenção à imagem, a valorização da ciência e da cultura, a recusa de um olhar paroquial sobre a actualidade noticiosa. E a irreverência, sempre a irreverência, contra os sucessivos poderes de turno.

Características que constituem traços de união entre os que por lá passaram. Isso ficou bem evidente neste sábado, quando nos juntámos no restaurante O Manjar do Marquês, em Pombal - uma das catedrais gastronómicas portuguesas. Éramos cerca de 120, dois terços vindos de Lisboa, os restantes oriundos do Porto.

 

Foi o meu baptismo no género, relutante que costumo ser às romagens de nostalgia, mais próprias da Liga dos Antigos Combatentes. Mas gostei muito de lá ir. De rever camaradas das lides jornalísticas que há muito não via, de conhecer enfim outros com quem nunca me tinha cruzado e sobretudo de confirmar como são sólidos os elos de cumplicidade entre diferentes gerações de jornalistas que tiveram o Público como denominador comum, em diferentes fases da vida do periódico - que ontem celebrou 27 anos de existência, já com poucos sobreviventes do ano da fundação no seu quadro redactorial.

Lá estavam o Joaquim Fidalgo, o João Seabra e o Carlos Lopes (dinâmicos organizadores deste encontro periódico de ex-jornalistas do Público). E o Fernando Sousa, meu parceiro ainda mais antigo de jornalismo, além de colega aqui no DELITO. E tantos outros: o Joaquim Trigo de Negreiros, a Sofia Branco, o Manuel Queiroz, a Paula Torres de Carvalho, o Rui Cardoso Martins, o Luís Francisco, o Jorge Baptista, o Pedro Caldeira Rodrigues, o José Vítor Malheiros, o António Granado, a Isabel Gorjão Henriques, o João Ramos de Almeida, a Lurdes Dias, a Joana Ferreira da Costa, a Ana Gerschenfeld, o Martins Morim, o Fernando Correia de Oliveira, a Anabela Natário, o João Manuel Rocha, o José António Cerejo, a Eunice Andreia, a Ana Machado, a Christiana Martins, o Rui Ferreira e Sousa, a Ivone Ralha, o Aníbal Fernandes, o José Queirós, a Cristina Sampaio.

Uma atmosfera única, de algum modo simbolizada nas festivas fotografias que reuniram três dos cinco membros da primeira direcção do jornal, ali presentes. O Vicente, o Jorge Wemans, o Fidalgo.

 

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Naquele momento pensei: se esta equipa voltasse a reunir-se não em torno de um caloroso almoço que se prolongou até ao fim da tarde mas de um projecto jornalístico, os leitores poderiam ter a certeza do que aí encontrariam: ousadia, desassombro, inovação, rigor e qualidade. Características que vão faltando, no todo ou em parte, ao jornalismo contemporâneo e que explicam boa parte do seu divórcio com as crescentes exigências da cidadania portuguesa.

O Vicente saberia explicar isto melhor que eu, num daqueles seus editoriais que nunca receavam suscitar polémica. Num tempo em que nenhum jornalista precisava de pedir licença para emitir opinião. Num tempo em que não havia responsáveis editoriais prontos a mudar de perspectiva sobre o mesmo assunto da noite para a manhã, medíocres cultores da blague de Groucho Marx: "Se as minhas ideias não lhe agradam, arranjo já outras."

Independente

por Tiago Mota Saraiva, em 31.01.17

(publicado ontem no i)

 

É um qualificativo largamente sobrevalorizado nos dias que correm. Numa qualquer discussão não é invulgar fazer-se uma nota prévia de independência como argumento de autoridade sobre os demais.

No jornalismo actual a independência é uma vaca sagrada. Ainda que a experiência jornalística marcante dos anos 90, homónima do adjectivo, tenha estado longe de ser independente como o seu título sugeria, permanece uma interpretação mitológica do ser independente.

No recente Congresso dos Jornalistas, Pedro Tadeu – director na Global Imagens, colonista no DN e militante do PCP – propôs que os jornalistas registassem uma declaração de interesses. A organização do congresso esqueceu o seu nome e posição no jornalismo, para titular no seu site: “Jornalista do PCP defende registo de interesses”. Mesmo que não estivesse em representação do partido e não se conheça a sua posição sobre o que Tadeu defendeu – sendo, para o caso, pouco relevante titular a sua militância – quem escreveu e quem detinha a direcção editorial do site, não tiveram dúvidas em manter o título. Tendo passado pelo referido congresso históricos militantes de outros partidos em nenhuma outra peça se titulou militâncias.

No jornalismo actual glorifica-se a independência cuidando-se pouco da isenção e da pluralidade. Como leitor, entendo que não devo exigir independência a um jornalista, ainda que possa achar relevante ter uma ideia sobre as suas filiações. Quando leio um artigo sobre o Benfica posso achar relevante saber que o seu autor é do Sporting. Esse dado informa o leitor, mas não qualifica ou desqualifica o artigo. O jornalista deverá procurar escrever de uma forma isenta e registando a diversidade de factos e opiniões que considera relevantes sobre a matéria.

A reivindicação de um jornalismo independente é uma batalha falsa que, em limite, obriga o cidadão-jornalista a uma semi-clandestinidade sobre o que pensa. Não será por acaso que, no momento em que há mais gente a bater com a mão no peito afirmando-se independente, as redacções vão ficando mais pobres de jornalismo e os órgãos de comunicação social menos plurais.

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Para quem assistiu, na passada Sexta-feira, à inédita mesa redonda com dezanove directores de jornais, rádios e televisões nacionais no âmbito do 4º Congresso dos Jornalistas que decorreu no Cinema São Jorge, em Lisboa, não teve muitas razões para sair de lá entusiasmado com a dinâmica e conteúdo do debate. Talvez se deva ao facto de há anos a esta parte se discutirem os mesmos problemas e a eterna questão do “futuro” do jornalismo, sem que se encontre uma qualquer solução mágica para a criação de um modelo sustentável. Além do mais, continuam-se a notar os mesmos vícios e defeitos de uma classe que, em Portugal (e aqui há grandes diferenças em relação a outros países), há muito devia ter feito um exame de auto-consciência e parado para pensar sobre os seus próprios erros. Aliás, este teria sido o primeiro passo para que os responsáveis pelo jornalismo no nosso país começassem por admitir as suas falhas.

 

Não deixa também de ser sintomático que entre 19 directores dos mais importantes meios de comunicação social do país ali presentes só estivessem lá duas mulheres, Graça Franco (RR) e Mafalda Anjos (Visão). E o mais extraordinário é que lendo os vários artigos de imprensa que têm saído sobre o Congresso não se vê qualquer referência a este facto embaraçoso, para um sector que advoga estar na vanguarda das ideias e do pensamento. Porém, não hesitam em fazer essas contas quando se estão a referir a um Governo ou a uma administração de uma entidade pública ou grande empresa privada. Ainda mais revelador da inconstância deste sector em Portugal, é constatar que a maioria dos directores ali presentes têm entre um a dois anos dessas funções.

 

Seria saudável que esse processo introspectivo já tivesse ocorrido mas, infelizmente, não aconteceu e, por isso, não é de estranhar quando se ouve Ricardo Costa (SIC) a admitir que a qualidade do jornalismo que se faz naquela televisão ou no Expresso (onde foi director) é hoje muito menor do que há uns anos. A oferta é mais vasta, mas a qualidade diminuiu. E o problema, como disse ainda Ricardo Costa, nem se coloca ao nível das audiências, mas sim nos modelos de negócio que sustentam os órgãos de comunicação social. Também Pedro Santos Guerreiro (Expresso) considera que nunca houve tanta oferta tecnológica e uma audiência tão vasta para se informar, mas o problema é como valorizar financeiramente o produto que se disponibiliza, quase sempre de borla. Uma ideia partilhada também pelo director do Público, David Diniz, que valoriza as ferramentas tecnológicas que existem hoje em dia para se poder conhecer melhor os hábitos dos leitores.

 

Foi quase unânime entre os vários directores de que a gestão do “negócio” está cada vez mais presente no seu quotidiano, a admitirem que dedicam bastante tempo a assuntos que pouco ou nada têm a ver com temas editoriais. Quase todos disseram que gostariam de investir mais tempo nestas matérias, no entanto, também admitem que as horas que perdem nas áreas de marketing ou de recursos humanos é uma outra forma de estarem a contribuir para a sobrevivência ou evolução do seu meio de comunicação social.

 

A juntar-se a estas questões de “negócio”, há aquilo que João Paulo Baltazar (Antena 1) classificou de “agenda asfixiante”, onde os jornalistas estão cada vez mais sujeitos a uma multiplicidade de acções que os deixam sem tempo para reflexão e investigação. Aliás, a falta de tempo foi uma das principais queixas dos directores. O mote de João Paulo Baltazar é, por isso, certeiro: “Fazer menos, fazer melhor, pensar mais."

 

É verdade que, com a imposição da realidade do digital e das redes sociais, começaram a ser ensaiadas diferentes formas de adaptação do jornalismo aos novos tempos da comunicação e informação. As soluções de vanguarda vieram sempre do universo anglo-saxónico ou então de jornais como o El País, mas nem sempre com os resultados esperados. É uma descoberta que ainda está a ser feita. O tão esperado retorno no digital nunca chegou, apesar de alguns jornais terem dados interessantes para mostrar. É inegável que a emergência de inúmeras plataformas comunicacionais veio alterar por completo a forma de se consumir informação, seja num jornal, televisão ou rádio.

 

Em Portugal, essa tentativa de adaptação aos “novos tempos” aconteceu de forma muito mais lenta e, olhando para aquela mesa redonda, percebe-se, mais uma vez, que o jornalismo no nosso país sofre de problemas muito específicos, apesar de muitas vezes se tentar “vender” a ideia que são comuns ao que se passa noutras realidades. A verdade é que muitos desses problemas exclusivos da nossa realidade nacional têm a ver com a própria arrogância, presunção, corporativismo e até mesmo incompetência com que muitos “senhores” do jornalismo encaram a profissão. E como se isso não bastasse, o jornalismo e os jornalistas portugueses, ao contrário do que acontece noutros países, nunca tiveram um escrutínio a sério. O papel de entidades como o Sindicato dos Jornalistas ou a Comissão da Carteira está perto da irrelevância e nem sequer vale a pena falar do princípio da auto-regulação, até porque para isso acontecer era preciso que todos os directores e jornalistas tivessem a noção de responsabilidade e brio profissional naquilo que fazem e hoje em dia é duvidoso que tal aconteça. Quanto ao espírito crítico dos próprios leitores e consumidores de informação, está tudo dito: cada vez disponibilizam menos dinheiro para ter informação, ou seja, valorizam cada vez menos aquilo que jornais, televisões e rádios produzem. E enquanto tudo isto assim for, por mais congressos e lamentos que se façam, nunca será possível elevar o jornalismo português para outro patamar.

Falta uma Ordem de Jornalistas

por Pedro Correia, em 13.01.17

 

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A memória colectiva é cada vez mais curta, mas os leitores lembram-se ainda do que aconteceu há um ano: dois dos mais influentes órgãos de informação portugueses iniciaram uma série de fantásticas revelações sobre uns tais “papéis do Panamá” que prometiam abalar as oligarquias dominantes. Reuniram equipas de trabalho, destinaram espaço nobre e manchetes garrafais ao assunto e juravam que estava de volta o “jornalismo de investigação”.

O que aconteceu? De súbito, as violas foram guardadas no saco. Não houve revelação bombástica alguma, as equipas de reportagem dissolveram-se e os mesmos órgãos de informação que trombeteavam rios de autopromoção contra a corrupção ancorada em supostos paraísos fiscais remeteram-se ao silêncio. Nunca mais ouvimos falar nos “papéis do Panamá”, tudo regressou à habitual anestesia colectiva, dominada pelo futebol, agenda política e  “casos de polícia”, entremeados por graçolas de “redes sociais” para divertir a plebe.

 

Decorre agora o quarto Congresso dos Jornalistas – o primeiro que se realiza em Portugal desde 1998. Gostava que ali se levantassem várias vozes questionando o que aconteceu aos “papéis do Panamá”. Gostava que também que os congressistas tivessem a ousadia de perguntar a si próprios por que motivo a pressão de uns quantos inviabilizou até hoje o aparecimento de uma Ordem de Jornalistas, semelhante às que regulam as mais diversas profissões – médicos, advogados, arquitectos, farmacêuticos, engenheiros, psicólogos, enfermeiros, biólogos, economistas, notários, nutricionistas, veterinários.

Disseram-nos na altura, numa frase de forte efeito, que “os jornalistas não podem ser metidos na Ordem”. Acontece que, sem Ordem, generalizou-se o desemprego e multiplicou-se a precarização, marginalizando e condenando à irrelevância muitos dos melhores quadros jornalísticos.

Ao contrário do que referiu ontem Marcelo Rebelo de Sousa, interveniente na sessão inaugural (o que não deixa de ser irónico), o jornalista não deve ser “antipoder”. O jornalista deve, isso sim, exercer de forma ilimitada o único poder que está ao seu alcance – o poder de fazer perguntas, no livre exercício do direito à dúvida que neste ofício se institui em dever deontológico. Sem nunca esquecer que um jornalista não é um juiz. Existe para mostrar, relatar, descrever, explicar. Não existe para condenar liminarmente ninguém e muito menos para pendurar seja quem for em pelourinhos públicos.

 

Perguntem - sem preconceitos ideológicos nem condicionalismos de qualquer espécie - se deve haver Ordem de Jornalistas. Mas perguntem sobretudo quando irá ela surgir. Para regular o acesso à profissão, dignificá-la, combater a proletarização galopante dos seus quadros e traçar fronteiras claras entre quem merece e quem não merece ser portador de carteira profissional em função de parâmetros deontológicos muito rigorosos e adaptados aos novos desafios e às novas exigências deste ofício.

Falar sem agir nesta direcção é chover no molhado. E passar mais dezanove anos de contínua e resignada degradação profissional, até ao próximo congresso. Se então ainda restar alguém no jornalismo em Portugal.

Director, um lugar precário

por Pedro Correia, em 05.01.17

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Há oito meses, escrevi aqui um artigo que dava nota de um facto inimaginável há poucos anos: não existe hoje cargo tão precário num órgão de informação como o de director.

Isto afecta toda a cadeira hierárquica, introduzindo um factor adicional de perturbação no funcionamento das empresas jornalísticas. Os directores - que deviam ser uma referência de estabilidade junto dos restantes profissionais - estão afinal sujeitos aos estados de alma de quem os tutela na estrutura accionista. Duram em funções quase tão pouco tempo como os treinadores de futebol: em apenas 14 jornadas do campeonato nacional da modalidade, já  nove treinadores - metade do total - foram substituídos.

As "chicotadas psicológicas" sucedem-se no jornalismo. O que contribui para o descrédito e a desvalorização social da profissão, que já foi uma das mais conceituadas em Portugal.

 

Em Abril dei nota no DELITO de uma estatística relevante: 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) tinham directores em funções havia menos de dois anos.

Desde então já se registaram várias mudanças. Bárbara Reis anunciou em Maio que deixaria a direcção do Público, ao mesmo tempo que se tornava conhecida a transferência de David Dinis da TSF para o diário da Sonae, dando por sua vez lugar na rádio a Arsénio Reis, que ali iniciou funções há quatro meses. Em Junho, André Macedo demitiu-se de director do Diário de Notícias, sendo substituído em Setembro por Paulo Baldaia. Também em Junho, João Garcia cedeu o lugar de director da revista Visão a Mafalda Anjos.

André Macedo não chegou a completar dois anos no posto cimeiro do DN: só lá esteve 22 meses, antes de se transferir para a RTP, onde é hoje director-adjunto.

João Garcia foi director da Visão durante um ano exacto.

David Dinis não permaneceu mais de quatro meses ao leme da TSF.

Bárbara Reis foi excepção: aguentou-se sete anos à frente do Público.

 

Entretanto o Diário Económico, que vegetava já só na edição digital, encerrou de vez. Passou a haver duas novas publicações - ambas na área económica, o que é um significativo sinal dos tempos: o Jornal Económico, surgido em Setembro com Vítor Norinha como director, logo promovido a director-geral da empresa proprietária, passando o seu anterior lugar a ser ocupado a partir de Dezembro por Filipe Alves, até aí director-adjunto; e desde Outubro o Eco - só com edição em linha -, sob a direcção de António Costa.

Veremos se vieram para ficar, como rezava um antigo slogan publicitário de uma marca de automóveis.

 

Balanço: de 23 títulos jornalísticos, apenas sete - menos de um terço - têm directores há mais de dois anos. E só um ultrapassou a década nestas funções - caso absolutamente excepcional.

Fica o registo destes resistentes:

Vítor Serpa (director do diário A Bola desde 1992).

Octávio Ribeiro (director do Correio da Manhã desde Março de 2007)

Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009)

José Manuel Ribeiro (director do jornal O Jogo desde Maio de 2011)

Rui Hortelão (director da revista Sábado desde Novembro de 2013)

António Magalhães (director do Record desde Setembro de 2014)

Afonso Camões (director do Jornal de Notícias desde Outubro de 2014)

 

Certamente não por acaso, três destes sete profissionais trabalham no mesmo grupo editorial - a Cofina, que se assume assim como uma aparente ilha de estabilidade no meio das convulsões que agitam o sector.

Mais curioso é o facto de entre os sete veteranos figurarem os responsáveis máximos dos três diários desportivos portugueses. Felizmente para eles, os jornais que dirigem noticiam "chicotadas psicológicas" no futebol mas parecem pouco afectados por elas.

Ao contrário de muitos outros, num tempo em que o jornalismo imita o pior do futebol.

Eis-me ainda a perguntar porquê

por Pedro Correia, em 24.11.16

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Faz hoje dez anos, fomos sacudidos pela notícia trágica: a Maria José Margarido morrera num acidente de aviação durante umas férias no Chile, quando o bimotor em que viajava acompanhada por três amigos - dois deles também jornalistas - e uma guia local se despenhou numa região montanhosa.

Mergulhámos num mutismo dolorido. Sobre a ruidosa redacção, sempre fervilhante de conversas cruzadas e estridentes toques de telefone, caiu um manto de silêncio incrédulo e assombrado. Todos olhávamos para a secretária da nossa colega que ainda há dias ali estava, na flor da juventude e um sem-fim de sonhos por realizar. Parecia apenas ausente por breves instantes: ninguém diria que partira numa viagem sem regresso.

A Maria José, especializada em temas sociais, era uma das mais competentes jornalistas da sua geração. Deixou centenas de artigos no Diário de Notícias - onde a vi entrar, tímida estagiária - como  testemunhos  inapagáveis  do seu mérito profissional. Sempre com uma escrita cuidada, meticulosa, muito acima da mediania. Tão discreta como perspicaz, parecia quase pedir desculpa pelo seu talento.

Tinha uma beleza serena e um brilho inquieto que por vezes lhe vislumbrava num olhar fugaz. No último postal que escreveu no blogue Respirar um Novo Ar, com o pseudónimo Celta, deixou esta frase: "Nunca estive fisicamente em Lisboa, não." Jamais cessarei de me interrogar se aqueles que partem demasiado cedo serão de algum modo tocados pela misteriosa premonição do fim.

Hei-de lembrar-me sempre dela, eternamente jovem. E do silêncio interminável em que o seu imprevisto desaparecimento nos envolveu naquela fatídica tarde, contemplando a cadeira onde ela nunca mais se sentaria.

Já passaram dez anos. Eis-me de novo a perguntar porquê, eis-de me novo sem resposta alguma.

 

Leitura complementar: A morte e o lixo, do Pedro Mexia.

O mundo virtual dos jornalistas.

por Luís Menezes Leitão, em 13.11.16

O jornalismo tem que interpretar a realidade. Não pode tomar os seus desejos pela realidade. Neste aspecto, talvez o mais belo filme de todos os tempos, o Citizen Kane, que é precisamente sobre a manipulação jornalística, já reconhecia que essa manipulação tem como limite os factos. Quando Charles Foster Kane, o dono do Inquirer está a concorrer às eleições, e se perspectivava como vencedor, é apanhado num escândalo matrimonial. O jornal tinha preparado uma primeira página a dizer "Kane elected", mas os directores do jornal recusam-se a passá-la, reconhecendo que, com o voto contra dos puritanos, o dono do seu jornal não tinha hipóteses de ser eleito. A primeira página passou por isso a ser "Charles Foster Kane Defeated: Electoral Fraud". Os factos podem ser manipulados, e são-no frequentemente pelos jornalistas, mas não podem ser alterados.

 

A realidade é que o mundo em que os jornalistas vivem, de Washington D. C. (um bastião ultrademocrata) ou de New York (outro bastião democrata) não representa a América comum. E na América comum Hillary Clinton era profundamente odiada. Apercebi-me disso a primeira vez que visitei os Estados Unidos, ainda no tempo da presidência Clinton. Como é óbvio, quis ir à Casa Branca, e deparei-me lá com uma manifestação furiosa. Julguei que era contra o Presidente, mas verifiquei espantado que era contra a Primeira Dama. Perguntei a razão da manifestação e explicaram-me que ela se estava a meter na política presidencial, o que não era aceitável para uma Primeira Dama, uma vez que não tinha tido o voto popular. E essa imagem da Primeira Dama, que por via do casamento se ingere na presidência do país, ficou no imaginário norte-americano. Afinal de contas a personagem da série House of Cards, Claire Underwood, não representa precisamente esse tipo de Primeira Dama? 

 

Desde então, nunca achei que Hillary Clinton tivesse qualquer hipótese de ganhar a presidência. Não me espantei quando perdeu a nomeação para Obama, e também sempre fiquei convencido de que não iria bater Trump, que já tinha arrasado candidatos republicanos melhores do que ela. O recurso a Michelle Obama, ao próprio Obama e aos cantores nos seus comícios só demonstrava a sua fragilidade, que aliás ficou evidente na noite eleitoral, quando não conseguiu assumir a derrota. Mas os jornalistas continuavam convencidos dessa realidade alternativa e até ao último minuto as televisões americanas recusavam-se a reconhecer a vitória de Trump. Quanto às revistas, já estavam na rua anunciando a vitória de Hillary Clinton, como aconteceu com a Newsweek. Até a Directora da nossa Visão se queixou de ter tido que alterar toda a sua edição em meia dúzia de horas, sendo se calhar por isso que a revista surgiu nas bancas com o título "Oh! Não!". É melhor os jornalistas esperarem pelos verdadeiros factos, antes de começarem com as interpretações sobre os mesmos. Se não, podem acontecer coisas destas.


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