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Sob escuta

por Paulo Sousa, em 15.01.21

É fácil que no meio do turbilhão de notícias em que vivemos, grandes acontecimentos sejam confundidos com tricas, daquelas que são boas apenas para nos entorpecer e enfadar.

Por isso, até para a historiografia futura, importa registar acontecimentos que passam quase incólumes nestes dias conturbados, neste nosso regime nascido em 1974.

Soubemos há dias que o Ministério Público mandou vigiar jornalistas e acedeu às respectivas contas bancárias. A embrulhada é de tal ordem que o comum mortal, prefere poupar-se ao esforço de entender os detalhes de mais um atropelo às instituições do Estado de Direito, encolhe os ombros e muda de canal.

Já aqui escrevi sobre a relação entre o nosso atraso económico e a qualidade das nossas instituições. Este é mais um exemplo de como o nosso regime está doente.

Mais incrível ainda é o silêncio a que a própria classe jornalística relegou este caso, em que é colocada em causa. A devoção da imprensa para com a situação, e uma infelizmente racional análise custo/benefício explicará a falta de eco que este assunto merecia.

Entretanto, e a apesar de ainda não ter tido conhecimento de nenhuma grandolada à conta deste grave atropelo à Liberdade de Imprensa, a Federação Europeia de Jornalistas já notificou Portugal junto do Conselho da Europa, salientando que se trata de um caso “especialmente grave” por Portugal presidir à UE.

Aproveito para me sentar enquanto aguardo por mais reacções.

Ano de pesadelo

por Pedro Correia, em 23.12.20

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Em jornalismo, quase sempre, menos é mais. Lembrei-me desta frase, inspirada no lema artístico de um célebre arquitecto, quando vi aquela que considero a melhor capa de revista deste amargo ciclo anual prestes a chegar ao fim. A da edição dominical do El País

Uma capa em que a fotografia diz tudo, surgindo acompanhada de uma data que funciona em simultâneo como título e legenda. A foto transpira autenticidade e tem cunho universal: foi captada em Espanha, mas poderia ter sido em muitos outros países igualmente golpeados pelo coronavírus que nos envolveu num cortejo de luto e dor. 

A carga emotiva desta imagem torna irrelevante qualquer palavra. E nem é preciso situá-la no espaço: basta enquadrá-la no tempo. Quatro caracteres bastam: 2020. Ano de pesadelo.

O direito ao nome do assassinado

por Pedro Correia, em 16.12.20

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Qualquer indivíduo alvo de violência policial num país como os EUA - e nem precisa de ser espancado e deixado esvair-se até à morte, em arrepiante sessão de tortura - é logo tratado nos media portugueses como alguém com nome e apelido, como se fosse figura do nosso convívio. Há até manifestações públicas, convocadas por redes sociais, enchendo ruas e praças em período de "confinamento", como no início de Junho sucedeu com o norte-americano George Floyd em várias cidades do País. O combate ao racismo sobrepôs-se ao combate ao coronavírus.

Dois meses antes desse crime cometido em Minneapolis, um ucraniano tinha sido violentamente agredido, torturado e enfim assassinado à pancada em Lisboa por presumíveis "servidores públicos", pagos com o dinheiro de todos nós, num departamento oficial supostamente regido por normas de legalidade, transparência, urbanidade e cidadania. No fundo, a tal "ética republicana" com que alguns enchem a boca.

Ao contrário do que ocorreu no continente americano, este crime - que terá contado com cumplicidades várias, numa teia muito mais abrangente do que a do reduto inicial de esbirros homicidas - não comoveu ninguém. Nenhuma manifestação foi convocada, apesar dos óbvios contornos xenófobos do assassínio, nenhuma organização trombeteou em exaltada defesa dos direitos humanos selvaticamente violentados por funcionários públicos. As notícias foram esparsas, acolhidas entre bocejos. Como se toda a indignação doméstica se esgotasse nos protestos por crimes policiais cometidos além-fronteiras.

 

Pior: a vítima não teve sequer direito ao nome. Casado, pai de dois filhos, trabalhador que procurava encontrar em Portugal o sustento que lhe era negado no país de origem, Ihor Homeniuk acabou alvo de novo crime, desta vez de carácter político, social e mediático: o crime da omissão.

Tratado como anónimo, nas semanas e nos meses que se seguiram ao seu brutal homicídio, pelos militantes da indignação selectiva.

Tratado com impiedosa indiferença pelos poderes públicos - designadamente pelo Governo, que só há cinco dias se lembrou de dirigir uma carta de condolências à viúva e de a indemnizar pela trasladação do cadáver há muito efectuada, e pelo Presidente da República, por uma vez recolhido ao silêncio precisamente numa situação em teria sido imperioso escutar uma palavra sua. Aqui Marcelo Rebelo de Sousa foi o último a falar, quando devia ter sido um dos primeiros.

 

Ihor Homeniuk não tem verbete na Wikipédia, não viu o rosto reproduzido em T-shirts, não leva ninguém a proclamar que "todas as vidas contam" - seja qual for a cor dos cabelos do agredido e violentado, seja qual for a pigmentação da sua pele. E raros são os que escrevem ou pronunciam o seu nome, ao contrário do que aqui fizeram o José Teixeira a 2 de Junho, expressando uma indignação que na altura tornaria redundantes outros textos de teor semelhante, ou o José Meireles Graça a 1 de Outubro, muito antes de os justiceiros de turno acordarem para o facto nas pantalhas cá da terra.

Ontem mesmo, na comissão parlamentar convocada para debater este crime na presença do ainda titular da pasta da Administração Interna, o nome de Ihor Homeniuk raras vezes foi pronunciado: vários deputados, quando muito, acederam em designá-lo por «cidadão ucraniano». E ficaram-se por aí.

 

Já me insurgi no DELITO contra a glória póstuma dos assassinos, que transforma qualquer celerado numa espécie de pop star em televisões e jornais. Já clamei contra os mecanismos comunicacionais, que em horas de barbárie surgem mais preocupados em desvendar o "rosto humano" dos homicidas do que em evocar as vítimas dos seus actos. Hoje venho reivindicar o mais elementar e singelo mandamento humano: o direito a sermos tratados pelo nosso nome, sem sermos reduzidos a uma etnia, uma profissão, uma nacionalidade, um emblema, uma afinidade tribal.

O  homem assassinado a 12 de Março nas instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras no Aeroporto Humberto Delgado (cruel ironia, tão repugnante crime ter ocorrido num local assim baptizado) chamava-se Ihor Homeniuk.

É pelo nome que esta malograda vítima do Estado português deve ser conhecida - e não de qualquer outra maneira.

Elogio da crónica

por Pedro Correia, em 23.11.20

 

1

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Tenho pena que as crónicas estejam a desaparecer das páginas dos jornais. Habituei-me desde muito novo a ler alguns dos melhores cronistas da imprensa portuguesa – numa época em que a crónica era um género imprescindível.

Lia textos do Pedro Alvim, do Rodrigues Miguéis, do Baptista-Bastos, do Carlos Pinhão, do Abelaira, do O’Neill e da grande Alice Vieira sempre com uma ponta de deslumbramento. Era uma prosa diferente da escrita impessoal das notícias: paginada de modo especial e com um tom coloquial que não se vislumbrava noutros locais dos periódicos – estabelecendo um clima de convivência quase íntima com o leitor. Através dos anos, fui mantendo o meu interesse pela crónica, frequentando diversos autores – de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, passando por Ferreira Fernandes e António Lobo Antunes.

Vou também praticando o género, sempre que posso: é a disciplina jornalística que mais se aproxima da literatura. Tenho pena de vê-la à beira da extinção, substituída pelo comentário anódino e sensaborão ou pela fatigante “análise” política que muitas vezes não é mais do que um mero piscar de olho a “fontes” de circunstância. Esquecendo por completo o leitor.

Ao menos no Brasil o género está bem vivo e recomenda-se. Há mesmo quem reclame por lá a paternidade brasileira da crónica, que gerou verdadeiros autores de culto – de Rubem Braga a Luís Fernando Veríssimo, de Carlos Drummond de Andrade a Arnaldo Jabor, de Nelson Rodrigues Millôr Fernandes, de Fernando Sabino a Roberto Pompeu de Toledo. É um prazer ler o português revigorado destas crónicas brasileiras, de ontem e de hoje.

 

2

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Nos anos 50 e 60, os cronistas no Brasil eram uma tribo calorosa e solidária, como relata Humberto Werneck, organizador da excelente colectânea Boa Companhia: Crónicas, editada em 2005 pela Companhia das Letras. A tal ponto que, quando chegava a crise de inspiração, a mesma ideia servia de mote a diferentes cronistas forçados à rotina diária. Fernando Sabino, que escrevia em O Jornal, do Rio de Janeiro, relata o episódio da queda de um edifício na cidade, que originou uma troca de impressões à mesa de um bar com Rubem Braga (cronista do Diário de Notícias, também do Rio) e Paulo Mendes Campos (que mantinha uma crónica no Diário Carioca). No dia seguinte, “por coincidência”, as três crónicas tinham estes títulos: “Mas não cai?”, “Vai cair” e “Caiu”.

Melhor ainda é outro episódio que dois deles protagonizaram. Rubem, com falta de ideias, solicitou sem cerimónia uma crónica “emprestada” a Fernando Sabino, que foi à gaveta e passou-lhe a história de um garoto que pedia esmola para comer uma sopa, por um cruzeiro, numa casa de pasto. Intitulava-se O preço da sopa. O outro publicou-a alterando três pormenores: o garoto foi a um restaurante, a sopa custou cinco cruzeiros e a crónica passou a chamar-se simplesmente A sopa. Uns tempos depois, chegou a vez de Sabino pedir idêntico favor a Rubem Braga, que entendeu devolver-lhe a história da sopa. Que lá voltou a ser impressa, com a assinatura de Fernando Sabino e dois novos ingredientes: a sopa já custava dez cruzeiros e o título era Esta sopa vai acabar. E acabou mesmo...

Fragmentos deliciosos de um tempo que parece tão irremediavelmente distante do nosso.

Censura em directo

por Pedro Correia, em 22.11.20

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«Na noite das eleições presidenciais, as três televisões com mais audiência nos Estados Unidos (CBS, ABC, NBC) cortaram em directo o discurso do Presidente Trump, invocando que ele faltava à verdade. Nunca visto. Três semanas mais tarde contam-se pelos dedos da mão as análises e os comentários da imprensa europeia sobre este singular procedimento, assim reduzido a banal acontecimento. Nunca visto, também.

Uma primeira conclusão é possível tirar, já: a do grande embaraço - direi mal-estar - que a decisão dessas televisões provocou no universo dos media do Velho Continente. Não se aprova, nem se condena. Ora o silêncio nunca é uma tomada de posição, nesta matéria. É apenas uma omissão, envergonhada, acho eu. É claro que o corte no discurso foi noticiado. Mas não foi comentado. Ora cortar em directo um discurso, por muito desonesto e miserável que ele seja, do Presidente dos EUA, não é um problema das televisões, é um problema da liberdade de expressão. Quer se goste ou não de Trump, o Presidente legitimamente eleito tinha o direito de falar e os cidadãos a quem ele se dirigia tinham o direito de o ouvir - a menos que os considerem inimputáveis.

Porquê, então, este silêncio, que cheira a envergonhado? Em parte porque a quase totalidade da Imprensa europeia "votou" contra Trump, ainda antes de os americanos terem votado. E, em parte também, pela injustificada deferência com que os europeus olham para as televisões dos EUA.

(...)

Temos, portanto, que as televisões se arrogaram no direito de decidir no lugar dos eleitores entre o bom e o mau, o Bem e o Mal. Fizeram-no ao contrário da CNN (próxima dos democratas), da Fox (próxima dos republicanos) e da PBS (pública), que passaram o discurso na íntegra, contraditando-o nos oráculos, e depois comentaram que o Presidente tinha faltado à verdade ou produzira afirmações sem fundamento.

Colocam-se, pois, algumas questões para as quais será bom encontrar uma resposta a curto prazo. A partir de que momento o responsável de uma televisão tem legitimidade para silenciar um Presidente? Pode um jornalista interferir na transmissão em directo de acontecimentos com manifesto interesse público? E, na afirmativa, não estará esse mesmo jornalista, em vez de proceder como um observador isento da acção política, a actuar como um agente político que faz prevalecer a sua opinião sobre um acontecimento que, ademais, não comunicou à opinião pública?

Resta saber aonde conduzirá este precedente, não só nos EUA mas também nas outras democracias, de cada vez que as televisões julgarem, a partir de agora, que têm o direito de calar um Presidente eleito, porque, na opinião delas, ele está a faltar à verdade.»

 

Reflexões de José Manuel Barata-Feyo, novo Provedor do Leitor do Público, em texto ontem publicado neste jornal. Um longo texto que subscrevo da primeira à última linha.

Um homem normal na Casa Branca

por João Campos, em 19.11.20

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O título, claro, alude ao excelente texto que o Pedro Correia publicou ontem sobre Harry Truman. Mas neste caso serve para aludir não ao 33.º mas ao 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que deu há dias uma entrevista muito interessante a Jeffrey Goldberg para a The Atlantic a propósito do seu novo livro. Ao fim de quatro anos de decreto-via-twitter, de birras ridículas, de gritaria incoerente e com fraco domínio do idioma materno, é refrescante regressar ao discurso articulado, ponderado e frequentemente autocrítico de Obama. Quatro anos de chinfrineira infantil - quase foram suficientes para esquecer que este era o tom normal e expectável num Presidente norte-americano.

Deixo a sugestão para a leitura da entrevista, que vale bem a pena. E destaco duas passagens: a primeira, a propósito da ascensão do populismo de direita nos EUA e de um certo paradoxo (digamos assim) de masculinidade:

Obama: (...) If you think about populists from the past, someone like Huey Long—he wasn’t from the right; he was a classic populist, rooted in the earth; he knows the lives of the people he is rallying; he genuinely understands them. I guess I would not have expected someone who has complete disdain for ordinary people to be able to get attention and then the following from those very same people.

I guess I’m also surprised by, and this is not an original thought on my part—but I think about the classic male hero in American culture when you and I were growing up: the John Waynes, the Gary Coopers, the Jimmy Stewarts, the Clint Eastwoods, for that matter. There was a code. This is something I always emphasize. I may be African American but I’m African and American. This is part of me. The code of masculinity that I grew up with that harkens back to the ’30s and ’40s and before that—there’s a notion that a man is true to his word, that he takes responsibility, that he doesn’t complain, that he isn’t a bully; in fact he defends the vulnerable against bullies. And so even if you are someone who is annoyed by wokeness and political correctness and wants men to be men again and is tired about everyone complaining about the patriarchy, I thought that the model wouldn’t be Richie Rich—the complaining, lying, doesn’t-take-responsibility-for-anything type of figure.

I think that indicates the power of television in the culture that sometimes I miss because I don’t watch a lot of TV. I certainly don’t watch reality shows. And sometimes I’d miss things that were phenomena. But I thought there was a shift there. I write about it to some degree. I actually have great admiration for a lot of those traditions, what were ascribed to be masculine qualities. When you think about the Greatest Generation, you think about sacrifice. (...)

E a segunda, sobre o impacto das redes sociais na democracia:

(...)

Goldberg: Do you hold the companies responsible?

Obama: I don’t hold the tech companies entirely responsible, because this predates social media. It was already there. But social media has turbocharged it. I know most of these folks. I’ve talked to them about it. The degree to which these companies are insisting that they are more like a phone company than they are like The Atlantic, I do not think is tenable. They are making editorial choices, whether they’ve buried them in algorithms or not. The First Amendment doesn’t require private companies to provide a platform for any view that is out there. At the end of the day, we’re going to have to find a combination of government regulations and corporate practices that address this, because it’s going to get worse. If you can perpetrate crazy lies and conspiracy theories just with texts, imagine what you can do when you can make it look like you or me saying anything on video. We’re pretty close to that now.

Goldberg: It’s that famous Steve Bannon strategy: flood the zone with shit.

Obama: If we do not have the capacity to distinguish what’s true from what’s false, then by definition the marketplace of ideas doesn’t work. And by definition our democracy doesn’t work. We are entering into an epistemological crisis. (...)

Para mais contexto, é ler na íntegra.

Um homem comum na Casa Branca

por Pedro Correia, em 18.11.20

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Harry Truman com Franklin Roosevelt (Julho de 1944)

 

Naquela quinta-feira, dia 12 de Abril de 1945, havia chuva em Washington. Às 19.09, um homem de 60 anos, natural do Missouri, de óculos com lentes grossas e estatura acima da média, tomava posse como 33.º Presidente dos Estados Unidos. Finda a cerimónia, que durou menos de um minuto, o empossado beijou a Bíblia sobre a qual prestara julgamento.

Esse homem fora vice-presidente apenas 82 dias por escolha de Franklin Delano Roosevelt, falecido duas horas e 24 minutos antes da singela cerimónia de posse na Casa Branca. A um gigante da política norte-americana, que conduzira com sucesso o país no combate à Grande Depressão e nas encruzilhadas da II Guerra Mundial, sucedia «o típico americano médio», como assinalou o jornalista Roy Roberts, no Kansas City Star, acrescentando: «Que teste à democracia se funcionar!»

Nessa noite, Harry Skipp Truman deitou-se um pouco mais tarde do que era costume, depois de comer uma sanduíche de peru e beber um copo de leite. Terminava o dia mais longo da sua vida, em que certamente rememorou as críticas recebidas na imprensa oito meses antes, quando Roosevelt surpreendeu tudo e todos ao escolher para vice-presidente, no seu último e brevíssimo mandato, este senador que nunca frequentara a universidade, passara a infância e a juventude numa humilde zona rural e viajara apenas uma vez na vida – em 1918, como capitão de artilharia, quando chegou a França para combater na I Guerra Mundial.

Truman terá certamente recordado também os editoriais demolidores com que a imprensa o brindara no Verão anterior. A Time chamara-lhe «medíocre», o Post-Gazette, de Pittsburgh, garantira que era «um dos mais fracos vice-presidentes» de sempre. Richard Strout, no New Republic, desabafara: «Pobre Truman. E pobre povo americano.»

 

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No momento em que tomou posse, Harry Truman tornou-se o comandante supremo das forças armadas norte-americanas, com 16 milhões de efectivos em guerra. O 9.º Exército encontrava-se às portas de Berlim, a última ilha das Filipinas fora reconquistada aos japoneses, 400 superfortalezas despejavam bombas diárias sobre Tóquio. A guerra custara já 196.999 vidas americanas. Mesmo assim, o estado-maior, em Washington, previa que durasse mais seis meses na Europa e ano e meio no Pacífico.

Logo na primeira conferência de imprensa, no dia a seguir à posse, Truman exibiu o estilo franco e directo que o celebrizou. «Rapazes, se souberem rezar, rezem por mim. Quando ontem me contaram o que acontecera, foi como se a lua, as estrelas e todos os planetas caíssem em cima de mim», disse aos jornalistas. Dez anos depois, escreveria nas suas memórias: «Quando Roosevelt morreu, senti que havia um milhão de homens mais qualificados que eu para lhe suceder. Mas a tarefa estava a meu cargo – e tinha de ser feita.»

 

«Nenhum outro Presidente americano tomou decisões tão difíceis nos primeiros quatro meses de mandato, relacionadas com a criação da ONU, a presença ameaçadora do Exército Vermelho na Europa de Leste, a bancarrota britânica, o horror do Holocausto e o advento da era nuclear no Novo México, Hiroxima e Nagasáqui», escreveu David McCullough na sua monumental biografia Truman (1992), que lhe valeu o Prémio Pulitzer. Um livro fundamental para viajarmos aos 2841 dias da presidência deste homem que jogava póquer, tocava piano e bebia bourbon, chamava “aquário” à Casa Branca e não ligava nada às sondagens. «Até onde chegaria Moisés se tivesse encomendado uma sondagem no Egipto?», costumava dizer Truman.

Roosevelt, com quem reuniu apenas duas vezes enquanto vice-presidente, jamais o pusera a par dos assuntos da guerra. E nem o informara da sua ida à cimeira de Ialta. Mas ele tinha «uma imensa determinação», como dizia Churchill. Conseguiu defraudar as piores expectativas a seu respeito. A três meses das presidenciais de 1948, a Newsweek pediu a 50 analistas um vaticínio eleitoral: todos apostaram na vitória do republicano Thomas Dewey contra o democrata Truman. A Life fez uma capa com Dewey, chamando-lhe «o próximo Presidente». E o Baltimore Sun concluiu: «Votar nele seria uma tragédia para o país e o mundo.»

 

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Contra ventos e marés, Truman venceu. E convenceu. Ao cessar funções, em Janeiro de 1953, apresentava uma excelente folha de serviços: a reconstrução da Alemanha e do Japão, o lançamento das Nações Unidas, a criação da NATO, o Plano Marshall, a inédita ponte aérea que permitiu salvar Berlim em 1949. Na frente interna, também tinha motivos para orgulhar-se: criou 11 milhões de postos de trabalho, reduziu a dívida pública, evitou o colapso económico que todos anteviam e jamais aconteceu.

Na última das suas 324 conferências de imprensa como Presidente, a 15 de Janeiro de 1953, sublinhou: «Quando a história disser que o meu mandato assistiu ao início da Guerra Fria, dirá também que nestes oito anos iniciámos o caminho para a vencer.» Acertou em cheio.

Na hora da partida, a mesma imprensa que lhe lançara pedras ovacionava-o em editoriais. «É um homem com muitos opositores e poucos inimigos, e com muitos mais que o apoiam e gostam dele», escreveu o insuspeito Walter Lippmann.

«Dever cumprido», disse Truman ao deixar a Casa Branca. Poucos presidentes tiveram tantos motivos como ele para pensar assim.

Não irei eleminar o post, mas começo-o agora dizendo que este rumor já foi desmentido com credibilidade que considero suficiente.

"O programa da SIC Negócios da Semana já tem vários anos e o jornalista José Gomes Ferreira é já bem conhecido pela sua frontalidade e acutilância perante a governação socialista. É frequente que que vídeos das suas intervenções sejam partilhados em cadeia pelas redes sociais. É fácil calcular que alguém assim, descomprometido e bem articulado, incomode quem não lhe consegue responder com factos.

O Negócios da Semana é normalmente transmitido todas as quartas-feiras às 23:00, mas nesta semana que agora termina, e sem aviso prévio, deixou de ser transmitido. No site da SIC deixou de existir qualquer referência a este programa.

Pelo silêncio que rodeia este facto, pela ausência de explicações, todas as especulações são possíveis. Eu estou em querer que este será mais um degrau que se desceu. Estamos cada vez mais próximos do socialismo."

Natal virtual

por Pedro Correia, em 13.10.20

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Quase em uníssono, numa verdadeira demonstração de unicidade institucional, o Presidente da República (nas linhas) e a ministra da Saúde (nas entrelinhas) vieram alertar-nos: o Natal, este ano, não será Natal.

Será um Natal virtual, à distância, com a brigada anti-contágios sempre vigilante. Contra o novo coronavírus, enquanto os portugueses vão morrendo (mais seis mil do que a média dos cinco anos anteriores) sobretudo com as velhas doenças. Mas morrem entre as quatro paredes domésticas, solitários como nunca, cada vez mais fechados em casa por terem medo de frequentar os hospitais.

Como não recear a nova peste se todas as noites, serão após serão, somos brindados com horas de noticiário em exclusivo sobre a pandemia, criando-se assim a ilusão de que todas as outras causas de infecção e morte foram banidas do planeta?

 

Deixou de haver doenças cardíacas, deixou de haver doenças oncológicas, deixou de haver acidentes vasculares cerebrais. Já não há homicídios, já não há suicídios, já não há "sinistralidade rodoviária" (eufemística alusão aos assassínios no asfalto), já não há violência doméstica. Ninguém mais ouviu falar de tudo isto, que antes dominava os telediários.

Nem sequer uma palavra, nos dias que vão correndo, sobre os riscos do aquecimento global, o degelo no Pólo Norte e a desmatação da Amazónia. Até a menina Greta se eclipsou do mapa mediático. "Vinte-vinte" é o ano do vírus. E 2021 ameaça repetir a dose, sem fim à vista.

 

Entretanto os centros comerciais vão fazendo pela vida nesta era de incertezas. Num deles, vi há uma semana exacta o cartaz que ilustra este texto - prova evidente de que o Natal se tornou mera abstracção, alheio às contingências do calendário. Falta pouco para começar na Páscoa. Ou no Carnaval.

Natal partilhado à distância de um clique no ilusório aconchego do zoom. Com distância física de tudo, excepto de um ecrã de computador.

O passo seguinte será a instalação de barreiras de acrílico em todas as divisões dos apartamentos domésticos, sob minuciosa fiscalização das brigadas sanitárias. E depois outras, a dividir cada divisão. Até cada um de nós se encerrar, devidamente "higienizado", no metro quadrado tumular que lhe couber em sorte ainda em vida.

 

Prendas para a quadra? Façam desde já a vossa lista: máscaras com símbolos natalícios, luvas da cor da barba do Pai Natal, álcool gel com aroma de rena nórdica - tudo made in China, o país de origem do vírus. Deve ser isto a que alguns chamam "economia circular".

Feliz Natal, portanto. Seja lá o que isso for.

Mafalda e o fim do jornalismo

por Pedro Correia, em 08.10.20

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O recente desaparecimento de Quino, o criador da inesquecível Mafalda, constitui um marco simbólico da morte do jornalismo. Porque as suas histórias centradas na menina preocupada com os males do mundo se inseriam numa longa linhagem com diversos outros expoentes, tanto por via ascendente (basta lembrar o Charlie Brown, de Charles Schulz) como descendente (Calvin & Hobbes, de Bill Waterson, por exemplo), todas criadas para publicação na imprensa. E a ela unidas por um cordão umbilical.

Durante décadas, os leitores de jornais conviveram com a banda desenhada: não havia jornais de referência sem histórias aos quadradinhos - sérias ou cómicas, com argumentos longos ou curtos, a cores ou a preto e branco. Tal como não havia jornais sem caricaturas, com frequência inseridas em espaços nobres - até nas primeiras páginas. É uma tradição que remonta ao apogeu da imprensa como veículo de informação e conhecimento, na segunda metade do século XIX, e prolongada por todo o século XX.

 

A voragem trituradora da "globalização" foi pondo fim a tudo isto. O argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón (imortalizado com o nome artístico Quino, diminutivo que era aumentativo) não conseguiria hoje encontrar espaço para publicar as suas vinhetas. Muito menos de exportá-las para o mundo inteiro, como sucedeu com a Mafalda.

Basta ver o que acontece cá: a banda desenhada desapareceu dos jornais. As caricaturas que outrora contribuíram para a fama de Rafael Bordalo Pinheiro, Almada Negreiros e Stuart de Carvalhais foram praticamente abolidas da imprensa cordata, reverente e "normalizada", cada vez mais dependente da agenda (e da verba) oficial. Os cartunistas que restam policiam-se a todo o momento, com receio de serem apontados a dedo pelas brigadas da correcção política ou, no limite, conhecerem o dramático destino dos seus colegas do Charlie Hebdo.

 

Numa das suas tiras mais famosas, Quino desenhou a sua personagem favorita encontrando na praia uma menina baixinha e magrinha, de tamanho irrelevante, e perguntou-lhe: «És tão pequenina! Como te chamas?» E ouviu esta resposta: «Liberdade.»

Foi há meio século, mas poderia ter sido hoje. Quino experimentou o peso da ditadura no país natal, como aconteceu com tantos criadores noutras paragens. Hoje há mais democracia no planeta, sem dúvida, mas nada garante que exista mais liberdade. E o problema central é mesmo este.

Poderíamos questionar-nos o que diria a Mafalda de tudo isto. Existirá uma nova Mafalda escondida por aí?

A História por cinco euros

por Pedro Correia, em 21.09.20

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Frequentar alfarrabistas, como vou fazendo apesar das restrições impostas pelo novo coronavírus, tem as suas compensações. Aconteceu-me recentemente, ao encontrar num desses estabelecimentos muitos exemplares de uma antiga colecção de revistas Paris-Match que tiveram repercussão histórica. Pertenciam a uma senhora que faleceu com 103 anos. Como tantas vezes acontece, os herdeiros desmancharam a casa e desfizeram-se de livros e revistas, que acabam dispersos um pouco por toda a parte.

Cheguei a tempo de adquirir alguns exemplares. Por exemplo, o n.º 758 da Match de 19 de Outubro de 1963, dedicado em grande parte ao falecimento de Edith Piaf e Jean Cocteau, ocorridos no mesmo dia. Ou ao n.º 777,  de 29 de Fevereiro de 1964, reservado em larga medida a pormenores então inéditos do duplo homicídio de Dallas (visando o presidente John Kennedy e o seu suposto assassino, Lee Oswald).  Ou ao n.º 617, de 4 de Fevereiro de 1961, centrado no assalto ao navio de cruzeiros Santa Maria, tomado em alto mar por um grupo de declarados opositores ao salazarismo. 

Na altura a Paris-Match foi a única a entrar a bordo do navio sequestrado, fotografando e relatando o que lá se passava numa edição que teve eco em todos os continentes. «A fantástica aventura de [Henrique] Galvão e dos piratas da revolução», titulava a revista nessa capa - exclusivo mundial do repórter (mais tarde romancista) Dominique Lapierre, hoje com 89 anos, e do fotógrafo (também actor e duplo de cinema) Gil Delamare, que se lançou de pára-quedas sobre o navio. 

Edições que fizeram história. Abandonadas por alguém num alfarrabista. Trouxe-as, a cinco euros por exemplar: agora posso chamar-lhes minhas. Garanto que ficam em boas mãos.

Vicente Jorge Silva (1945-2020)

por Pedro Correia, em 08.09.20

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Foto: Pedro Nunes / Expresso

 

Conheci centenas de jornalistas no decurso da minha actividade profissional. Mas figuras marcantes, enquanto directores executivos dos jornais a que estive ligado, apenas três: Vicente Jorge Silva (no Público), Joaquim Vieira (no Expresso) e Mário Bettencourt Resendes (no Diário de Notícias). Três personalidades muito diferentes, até ao nível do convívio quotidiano, mas que deixaram marca nas publicações que dirigiram. Vicente com uma vertente mais cultural, dando largas à sua paixão pela escrita. Joaquim, imbatível na área do jornalismo de investigação. Mário, desaparecido há dez anos, o mais dotado de sensibilidade política.

Deste trio de grandes profissionais do jornalismo resta só o Joaquim Vieira. Acabo de saber a triste notícia do falecimento de Vicente Jorge Silva (nunca nos tratámos por tu), com quem estive pela última vez durante uma tarde bem preenchida, na sua casa de Lisboa, há pouco mais de um ano. Sabia-o muito doente, e ele nem fazia questão de esconder isso, o que não tolhia a sua habitual loquacidade. Era, aliás, um prazer ouvi-lo discorrer sem travão sobre os mais diversos assuntos, saltando de tema em tema, mas sempre com um encadeado lógico. Escrevia desta forma, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor - e também com ele próprio. Cheio de dúvidas metódicas, sem certezas inabaláveis. Mas sempre atento ao «desconcerto do mundo», como bem expressa a redondilha camoniana.

 

Fiz-lhe uma das últimas entrevistas, publicada em Março de 2019 num jornal entretanto desaparecido e que não deixou rasto digital. Tenciono republicar essa entrevista no DELITO, nos próximos dias: Vicente Jorge Silva (1945-2020) merece: foi formador em exercício de duas gerações de jornalistas, durante um quarto de século - dos tempos da resistência à ditadura no Comércio do Funchal, editado na cidade onde nasceu, até ao Verão de 1996, quando renunciou à Direcção do Público, jornal que fundara quase sete anos antes. Passando pela época áurea da Revista do Expresso, nascida por iniciativa dele ainda nos anos 70 e que dirigiu com plena autonomia durante grande parte da década de 80: ali deixou um rasto de qualidade jamais igualada. 

«Nos jornais, falta investigação verdadeiramente jornalística. Falta retomar o gosto de contar uma boa história», disse-me nessa entrevista em que era possível detectar já um aceno de despedida. «Vivemos na gritaria e na correria. Um tipo tem de falar mais alto para ser ouvido. E não há tempo para verificar os factos. A tendência para as notícias falsas é cada vez maior», observou também. Com a lucidez que nunca o abandonou.

Tinha o sonho, eternamente adiado, de tornar-se cineasta a tempo inteiro. Sempre lamentei esta sua retirada prematura, assim como a sua ocasional incursão pela política, como deputado do PS, entre 2002 e 2004. Sabia bem mas sabia a pouco ir lendo as suas colunas na imprensa, rodando em títulos vários, nos anos posteriores - a última em espaço nobre do próprio Público, decisão do jornal da Sonae assumida em 2016 e que só pecou por tardia.

 

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, «os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente».

Uma frase que Vicente certamente subscreveria, naquele estilo cáustico, irreverente e muitas vezes intempestivo que se tornou sua imagem de marca. Vai deixar-nos saudades a partir de agora. 

Uma cidadã, cuja aparência associa àqueles que os costumes lisboetas do lumpen-jornalístico sempre cuidam de desvalorizar intitulando-os como "popular" ou "mulher/homem", invectivou o presidente Sousa na Feira do Livro. Teve o surpreendente efeito de o fazer apelar ao voto anti-PS, coisa nunca ouvida até agora.

O interessante da cena é o compungido editorial do director do "Público", até indignado por assim se destituirem os políticos "da dignidade dos seus cargos e do estatuto das suas funções", dizendo o episódio um "prenúncio do que aí vem" de desvalorização dos políticos, não deixando de melifluamente aventar que se tratou "apenas [de um]a peça de uma engrenagem montada por um partido populista" e invectivando que se "perturbe a agenda do chefe de Estado", e que tal "tenha direito à glória nas televisões e mereça ainda aplauso de alguns que, dizendo-se defensores da democracia, aplaudem incidentes que a degradam".

É um editorial canino, aquilo da célebre "voz do dono" e espelha bem o que é este jornal, o mainstream PS e os acólitos (ex-)Livre. Apenas como ilustração deste seguidismo aqui deixo um filme de 2012, breve trecho da pantomina acontecida quando o PM Passos Coelho foi à Feira do Livro. Nem este plumitivo gemeu nem os seus adeptos leitores se indignaram ou sentiram o prenúncio do apoucamento democrático. Gente vil, nada mais do que isso.

O editorial que vai faltando cá

por Pedro Correia, em 10.08.20

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El País, o jornal mais influente de Espanha, publicou ontem um editorial que já é uma peça de antologia. Um texto demolidor para o Governo liderado por Pedro Sánchez, que tem revelado uma incompetência capaz até de causar indignação àquele diário, que nunca escondeu afinidades com o PSOE, principal partido do actual Executivo do país vizinho.

 

Seguem-se alguns excertos deste editorial, com tradução minha:

«O balanço das infecções é tudo menos tranquilizador. Os focos activos aproximam-se dos 600, o que converte Espanha no país da Europa Ocidental com maior número de contágios acumulados de coronavírus. As reuniões familiares ou sociais e os locais de lazer já superam em importância, como fonte de infecção, os precários alojamentos dos trabalhadores sazonais do sector agrícola. Os indicadores básicos da epidemia vão aumentando - isto inclui os diagnosticados, os hospitalizados, os internados em unidades de cuidados intensivos e os mortos. Neste quadro, é difícil entender o discurso sem autocríticas feito esta semana pelo presidente do Governo, Pedro Sánchez. Houve erros, que continuam a existir. É imperioso identificá-los e corrigi-los perante uma segunda vaga que cada vez parece mais próxima, se é que não está já entre nós.

Desde a chegada da pandemia a Espanha, os falecimentos por Covid-19 estão certamente mais perto dos cerca de 44 mil sugeridos pelo excesso de mortalidade registada do que dos 28 mil confirmados pela autoridade sanitária; mais de 50 mil trabalhadores da área da Saúde foram infectados e 20 mil pessoas morreram em lares de recolhimento de idosos. Estas cifras situam o país entre os mais afectados do mundo. A preparação do sistema sanitário revelou-se obviamente deficiente, e em aspectos importantes assim continua. (...) A gestão dos dados tem sido desastrosa, com disparidade de critérios entre comunidades autónomas e mudanças de rumo a meio do processo. O país não pode ficar à mercê da repetição destes erros no caso de uma segunda vaga. É compreensível que o Governo não queira afugentar ainda mais o turismo, mas não enquanto desvaloriza a gravidade da situação. Há vidas em jogo.

Se o Governo não vê motivos para críticas à sua própria actuação, terão de ser os especialistas a encontrá-los. (...) Os cientistas questionam como é possível que Espanha, que supúnhamos dotada de um dos melhores sistemas sanitários do mundo, tenha sofrido o golpe do coronavírus com tanta intensidade e identificam os factores mais prováveis que originaram isto. O país carecia de um plano de preparação antipandémica, com sistemas de vigilância insuficientes, reduzida capacidade para fazer testes e uma generalizada escassez de equipamentos de protecção individual. As autoridades centrais e autonómicas reagiram tarde e os processos de decisão foram lentos.»

 

Porque transcrevo estas linhas? Pelo mais simples dos motivos: porque gostaria que houvesse editoriais destes na imprensa portuguesa. 

Infelizmente, procuro mas não os encontro. Se existem, estão bem escondidos. O que se vai lendo por cá é conversa mole, cheia de rodriguinhos e de complacência perante os decisores políticos e sanitários. O que é sintoma da profunda crise em que mergulhou a nossa imprensa.

Do meu baú (2)

por Pedro Correia, em 29.06.20

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As crises, à partida, são péssimas. Mas em jornalismo são óptimas: ficam sempre bem em qualquer manchete. Sobretudo quando surgem com a vaga avassaladora da que foi desencadeada pelo colapso do centenário Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos EUA. Uma queda que provocou um abalo à escala planetária, bem revelador da fragilidade dos circuitos económicos do mundo contemporâneo.

No dia seguinte, 16 de Setembro de 2008, a manchete do DN dizia quase tudo em apenas cinco palavras: «A pior crise desde 1929». Foi preciso aguardar oito décadas - e haver uma guerra mundial de permeio - para ocorrer uma derrocada financeira comparável à da tristemente célebre queda da Bolsa novaiorquina que mergulhou os EUA numa década de depressão. 

Consequências para o nosso país? Não havia problema, apressou-se a garantir a nossa suprema autoridade financeira, então gerida pelo inefável Vítor Constâncio: «Em Portugal, a exposição ao Lehman não é significativa, segundo o Banco de Portugal», lia-se na última frase do texto que acompanhava esta manchete.

Lá dentro, na página 7, outra declaração igualmente tranquilizadora: «Estamos a avaliar, mas a nossa exposição ao Lehman Brothers é absolutamente módica, muito pouco expressiva.» De um tal Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo, esse admirável modelo de sagacidade e lisura.

O caluniador

por Pedro Correia, em 24.06.20

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Esta noite, após ter visto a sua equipa perder contra um modesto onze açoriano no estádio da Luz com quatro golos sofridos, algo que não acontecia desde 1997, o treinador do Benfica procurou virar o foco da derrota para os jornalistas, usando palavras inaceitáveis. Por serem lesivas da honra e da consideração devidas aos profissionais da informação.

«Às vezes fico a pensar quem é que vocês andam a tentar promover para ficar no meu lugar ou quem é que lhes anda a pagar alguns almoços ou alguns jantares ou algumas viagens para entrar aqui no meu lugar», declarou Bruno Lage numa conferência de imprensa realizada naquele estádio e transmitida em directo para o país inteiro ver, ouvir e fixar.

Para meu espanto, nenhum repórter ali presente contestou de imediato o conteúdo calunioso desta declaração. E nem um só abandonou a sala em protesto contra a grosseria do treinador, como se impunha. Passividade e resignação, comer e calar: eis um exemplo inequívoco de uma classe profissional incapaz de se dar ao respeito. E que não pode queixar-se, portanto, de ser tratada desta forma por um indivíduo que saltou do anonimato para a fama em poucos meses precisamente devido aos jornalistas que agora insulta só porque um jogo lhe correu mal.

 

ADENDA: A reacção do Sindicato dos Jornalistas. E a da Associação dos Jornalistas de Desporto.

"Holy fuck!"

por Paulo Sousa, em 21.06.20

Em primeiro lugar tenho de explicar que usei para o título deste post as palavras com que no passado dia 16 o JN iniciou um artigo, no qual um doente nos EUA com 70 anos foi tratado durante 62 dias contra a doença do coronavírus e cuja conta do hospital ultrapassou os 1,1 milhões de dólares.

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Antes de dizer que este valor foi coberto pelo sistema Medicare o “jornalista” deu largas à sua interpretação da realidade dizendo que o paciente e os seus amigos “reflectem perplexos e banzados sobre o bizarro sistema de saúde dos Estados Unidos da América que, ao contrário da Europa e da maioria do mundo civilizado, não possui um Serviço Nacional de Saúde, como existe há décadas em Portugal, que proteja os seus contribuintes, mas está antes orientado em sistemas de seguros privados que não existem para tratar da saúde como um bem universal e um direito primordial, mas para dar lucros abissais numa lógica puramente capitalista que rende milhões às grandes corporações.

Ainda acrescenta que o sistema Medicare foi “criado na presidência de Barack Obama e que o actual presidente republicano Donald Trump ainda não conseguiu aniquilar.

O facto de o referido sistema Medicare ter sido fundado em 1966 é um detalhe que estragaria a narrativa e talvez por isso não é referido na “notícia”.

Estamos perante uma desonestidade que confirma o grau da lacaização de alguns jornalistas ao poder que, numa atitude bem socialista, preferem o lado confortável da actualidade ao lado certo da história.

 

Este assunto foi pescado no Insurgente.

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 18.06.20

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

 

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 
Texto reeditado no dia do décimo aniversário da morte de José Saramago.

Crise no PAN,crise no jornalismo

por Pedro Correia, em 17.06.20

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André Silva e Francisco Guerreiro, em imagem de arquivo

 

A melhor prova da falta de escrutínio actual dos partidos políticos por um jornalismo que oscila entre a mediocridade militante e o mero cumprimento da agenda oficial, como se picasse o ponto numa repartição pública, é-nos exibida, por estes dias, com a crise existente no PAN - partido encabeçado por André Silva, o líder político que goza de "melhor imprensa" em Portugal.

Uma crise agora tornada pública mas que tinha passado ao largo das redacções, apesar de vários títulos jornalísticos dispensarem máxima atenção a este partido por representar um "sinal de renovação" do nosso sistema político, "sem os defeitos e até os vícios" dos restantes. Pura ilusão, como está à vista.

 

Afinal ficamos ontem a saber que o único eurodeputado do PAN acaba de devolver o cartão partidário, saindo em ruptura com a "linha política global" dos animalistas. Francisco Guerreiro queixa-se, por exemplo, da "crescente e vincada colagem do PAN à esquerda", considerando que "quebra uma das bases filosóficas do partido, que não se revê nas dicotomias políticas tradicionais". E também disto, que especifica sem rodeios: a "recente apologia ao incentivo para a entrada de jovens no serviço militar (contra a base pacifista do partido), a passividade perante as acções geopolíticas da China na Europa e o aumento da agressividade discursiva" do PAN.

Hoje registou-se outro abandono. A mulher do eurodeputado, que já foi deputada municipal em Cascais e integrava a Comissão Política Distrital de Lisboa, bate com a porta deixando severas críticas à liderança animalista. 

«Nos últimos meses tenho assistido a uma centralização do debate e da acção política dentro do PAN, à falta de vontade em descentralizar e incluir ideias fora do 'núcleo duro', à ausência de debate político em matérias tão essenciais como o crescimento do partido no país e no estrangeiro (que faz com que não tenhamos várias distritais, nomeadamente no interior do país)», escreveu Sandra Marques numa rede social.

Acusações sérias, que não podem ficar sem resposta.

 

Temos, portanto, uma crise aberta neste partido cuja génese ocorreu à margem do escrutínio informativo. Os jornalistas que cobrem as actividades políticas, neste caso, foram os últimos a saber. Caso para concluir, portanto, que também o jornalismo está em crise - por desinteresse, por falta de investimento, pela contínua sangria dos melhores quadros, pela proliferação de "publirreportagens" que cada vez mais invadem o espaço noticioso.

Num passado pouco distante, nunca algo semelhante teria acontecido.

Parece mesmo publicidade

por Pedro Correia, em 30.05.20

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Hoje, às 13.59, no Primeiro Jornal da SIC


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