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Delito de Opinião

O discurso da ditadura

Pedro Correia, 15.07.21

Em Cuba não há opositores. Há "dissidentes", como lemos e ouvimos a toda a hora em Portugal. É espantoso como o léxico oficial da mais velha ditadura do hemisfério ocidental, feroz repressora dos direitos humanos, consegue contaminar o discurso jornalístico dos países com liberdade de imprensa. Pela mesma lógica, um Álvaro Cunhal ou um Mário Soares, por exemplo, nunca teriam sido opositores a Salazar: não passariam afinal de "dissidentes" do regime.

Aldrabice

Pedro Correia, 07.06.21

Vai agora por aí um enorme alarido no combate às aldrabices - a que alguma intelectualidade indígena, sempre pronta a agachar-se perante a última moda "amaricana", chama fake news sem sequer reparar que foi Donald Trump a popularizar tal expressão. 

Põem-se aos gritos insistindo na institucionalização de mecanismos de confirmação de factos - a que adoram chamar fact check, como se fôssemos todos "amaricanos" - esquecendo que a produção jornalística é, toda ela, constituída por confirmação de factos. Quando essa confirmação é omitida não existe jornalismo mas aldrabice (insisto no termo). 

Andam aí de lupa em punho, procurando distinguir entre facto e boato. Mas vasculham sobretudo nas franjas mais duvidosas das redes sociais, talvez por falta de coragem para escrutinarem os órgãos de informação, que - ao contrário das redes - têm o estrito dever de cumprir normas deontológicas.

Querem um exemplo de mentira servida como verdade? Vai realizar-se em breve o Campeonato da Europa em futebol. Todos lhe chamam Euro-2020 como se ainda estivéssemos nesse ano ou fôssemos protagonistas daquele filme intitulado O Feitiço do Tempo. Acontece que estamos em 2021. Este certame desportivo realiza-se um ano depois do previsto devido à pandemia. Mas a UEFA e as autoridades oficiais mantiveram a designação inicial, que não podia ser mais enganosa.

Viram alguém insurgir-se contra isto? Eu também não. Mas é aldrabice, mesmo assim.

Travar a propaganda, combater a mentira

Pedro Correia, 29.05.21

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Por amável convite do Luís Serpa, obreiro da livraria Ler por Aí, em parceria com a Universidade Autónoma de Lisboa e a Oficina da Liberdade, participei na manhã de ontem no primeiro painel dum ciclo de debates por via digital subordinado ao tema "Comunicação Social: Liberdade de Expressão e Responsabilidade Social".

Este painel integrava também José Manuel Fernandes, Carlos Fernandes e Luís Aguiar-Conraria, com moderação de Isabel Damásio, jornalista e professora da Autónoma. 

Eis algumas das questões postas a debate, também com a participação do público que ia acompanhando via Facebook:

Como assegurar a liberdade de expressão em situações de crise?

Quais os limites e constrangimentos da liberdade de expressão?

Como vê a liberdade de expressão durante a crise da Covid-19?

 

Em síntese, deixei estas reflexões sobre o tema:

    •  A pandemia reforçou a dependência dos jornalistas das fontes oficiais, limitando - até por constrangimentos físicos motivados pelo confinamento - a obtenção de notícias a partir de vias alternativas. Isto permite que a verdade de um dia se torne a mentira do dia seguinte. A título de exemplo, a garantia dada pela ministra da Presidência que só 12 mil britânicos viriam assistir à final da Liga dos Campeões no Porto onde estariam sempre envolvidos numa "bolha" de adeptos em trânsito entre o aeroporto e o estádio com regresso imediato ao aeroporto. Os últimos dias mostram-nos uma Cidade Invicta já invadida por milhares de forasteiros do Reino Unido a pretexto da realização do jogo, num desmentido vivo das garantias da ministra.

 

  • A mera reprodução do discurso oficial, sem análise crítica, induz o jornalista a desinformar os cidadãos. Não é possível, por exemplo, a máscara "transmitir uma falsa sensação de segurança" (directora-geral da Saúde dixit) e tornar-se obrigatória por ser um imprescindível instrumento de combate à pandemia. 

 

  • O mesmo se aplica à reprodução acrítica das opiniões de supostos especialistas em saúde pública e em doenças infecciológicas que - com poucos dias de intervalo - emitem opiniões contrárias às que emitiram anteriormente, falando sempre de cátedra como se fossem autoridades supremas na matéria. 

 

  • Os chamados "argumentos de autoridade" devem ser encarados com desconfiança e sujeitos a escrutínio jornalístico. Para haver fronteiras entre factos e propaganda. Durante semanas sucessivas andaram a vender-nos um ilusório "milagre português" como excepção num mundo contaminado pela pandemia. Era uma "verdade" com pés de barro: meses depois, Portugal surgia nas piores estatísticas do planeta em novos contágios e óbitos por milhão de habitantes.  

 

  • Há que combater a tendência cada vez mais acentuada para a produção de "jornalismo de pacote": o que escreve um, escrevem todos os outros por mero efeito mimético.

 

  • Há que criticar sem rodeios aqueles jornalistas que aproveitaram a grave crise sanitária para se travestirem de tele-evangelistas, pregando lições de moral e bons costumes aos cidadãos em vez de difundirem notícias.

 

  • O jornalista tem o dever deontológico de combater a censura. Mas também de contrariar a múltipla corrente de micro-censuras que proliferam por aí, geradas pelas mais diversas tribos de ressentidos e ofendidos. Um exemplo: ninguém fala em vírus chinês para não ferir a delicada sensibilidade de Pequim, mas há contínuas alusões à estirpe inglesa e brasileira ou à variante indiana deste vírus. Tal como continuamos a aludir à gripe espanhola de há um século que nada teve a ver com Espanha.

 

  • Com a pandemia assistimos à proliferação de termos como "negacionismo" ou "negacionista" para rotular todas as fugas à norma e catalogar qualquer voz discordante. O dever deontológico dos jornalistas é combater estas etiquetas que mais não visam do que condicionar a liberdade de expressão equiparando moralmente todos os "dissidentes" àqueles que negam a existência do Holocausto.

 

  • O jornalismo é, infelizmente, uma das profissões menos escrutinadas. Os órgãos de informação que escrutinam ao mais ínfimo pormenor as actividades profissionais de médicos, professores, magistrados, arquitectos, enfermeiros, militares ou polícias esquecem-se de estender esse escrutínio ao exercício da própria profissão, cada vez mais proletarizada e sujeita a toda a espécie de riscos. Que independência editorial subsiste em empresas jornalísticas falidas ou em vias disso, com editores a receberem pouco mais que o salário mínimo e os próprios directores a correrem o risco permanente de despedimento?

 

  • O chamado "jornalismo de cidadania" é um mito, por vezes perigoso quando se cruza com o pior dos populismos. Todo o jornalismo exige a minuciosa investigação de factos, a confirmação desses factos por fontes credíveis, o estabelecimento de contraditório e a audição de todas as partes envolvidas. 

 

  • A ética jornalística consiste na permanente procura da verdade com a noção antecipada de que não existem verdades absolutas. O jornalista tem o dever deontológico de contrariar a propaganda, de desmascar falsidades, de combater a mentira. Só assim cumpre realmente a sua função. 

A glamorização dos assassinos

Pedro Correia, 03.05.21

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Se há coisa que me repugna, entre os péssimos hábitos que começam a instalar-se na indústria mediática portuguesa, é a glamorização dos assassinos. 

Não há crime mais repugnante e hediondo sem que os protagonistas mereçam todos os holofotes jornalísticos, com ampla revelação dos seus nomes e rostos. Agora tornou-se moda picar fotografias nas redes sociais - e eis, portanto, as imagens de duas mulheres que assassinaram um homem, desmembraram o corpo e andaram a espalhar pedaços do cadáver por todo o Algarve difundidas com poses suaves e requintadas. Imitando actrizes de cinema, imortalizadas em jornais e televisões.

Mulheres, repito. Mas nas notícias recebem tratamento adocicado: chamam-lhes "jovens" enquanto repetem uma vez e outra os nomes, como se fosse gente íntima cá da casa. Algumas notícias emprestam até uma aura romântica à coisa, sublinhando que as criminosas andavam muito apaixonadas. Possuídas pelo fogo que arde sem se ver.

 

Um youtuber que "espanca namorada até à morte em directo por dinheiro" vê a sua foto estampada nos jornais, com nome associado. Foto de rede social, não da polícia: tem ares de artista em voga, não faltará quem o ache simpático. É "jovem" também, sublinham as notícias. Matar a namorada em directo talvez seja um inócuo pecadilho de juventude. E ela - sabe-se lá - pôs a jeito...

Um dia destes o assassino vai ao "confesso-me", num programa de telelixo qualquer, e obtém absolvição do respeitável público ali reunido. Também em directo. 

E siga o baile: este espectáculo alimenta-se de sessões contínuas.

O triunfo do ódio e da iliteracia

Pedro Correia, 14.04.21

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Na ânsia quase desesperada de amealhar cliques, que permitam a certos títulos continuar a subsistir no limiar da sobrevivência, a imprensa em linha continua a reproduzir injúrias e calúnias de todo o tipo. Ainda agora verifiquei isso, a propósito da morte súbita de Jorge Coelho.

Vocabulário obsceno, em diversos sentidos da expressão, foi não apenas admitido mas tolerado (se não mesmo incentivado) nas caixas de comentários dessas publicações. 

Insultos carregados de ódio pessoal ou ideológico que no DELITO DE OPINIÃO, por exemplo, vão de imediato parar ao ecoponto, ali são divulgados e ficam perpetuados na nuvem digital.

Interrogo-me se é esse o género de leitores que tais periódicos querem captar. Interrogo-me se para os responsáveis desses jornais valerá mesmo tudo para atrair e reproduzir tal lixo. Questiono-me ainda se as injúrias os visassem a eles teriam idêntica compreensão e tolerância.

E já nem me refiro apenas à linguagem caluniosa. Refiro-me também aos mais inconcebíveis erros de ortografia, que transformam a língua portuguesa numa abjecta caricatura de si própria: também ficam perpetuados, talvez para a eternidade, nessas caixas de comentários de jornais que volta e meia publicam sisudos editoriais em defesa da cultura - e desse "bem cultural" maior que é o nosso idioma, património comum de quase 300 milhões de pessoas

 

Não reproduzo aqui as injúrias, como é óbvio. Mas reproduzirei alguns dos mais primários e boçais erros ortográficos que li só numa dessas caixas de comentários de um desses jornais, supostamente de grande circulação. Para que se perceba melhor como estes títulos se demitem da sua função essencial - até reconhecida por lei - de preservação e valorização da língua portuguesa:

«Pás a sua alma...»

«... muito cordeal...»

«... acto de degnidade...»

«... falar nele nos mídea...»

«... intelectualemente honesta...»

«... desça em pás...»

«... estado portugues...»

«... sofreu 3 banca rotas económicas...»

«...quando se não vêm qualidades...»

«porque è cuando morre um pobre ninguem fala...»

 

O outro falava no triunfo dos porcos. Nós assistimos, impávidos, ao triunfo do ódio e ao triunfo da iliteracia. Todos os dias, a toda a hora, nos locais mais insuspeitos. Supostamente geridos por gente letrada que supostamente recebe ordens para acolher todo o lumpen e todo o lixo.

Isto é jornalismo

Pedro Correia, 06.04.21

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Faz hoje oito dias, registou-se um momento notável de televisão. Um jornalista travou a verborreia de um político que recusava responder às questões que lhe eram dirigidas. Aconteceu na SIC Notícias e cumprimento por isso Miguel Ribeiro, que conduzia a emissão. 

Eram 15.28 dessa terça-feira quando surgiu em antena o deputado socialista Porfírio Silva a propósito da promulgação, pelo Presidente da República, de três diplomas aprovados no Parlamento - apenas com o voto contra do PS - para reforço dos apoios sociais no combate à pandemia. Pretendia a SIC que o parlamentar clarificasse e concretizasse uma crítica ao Chefe do Estado publicada numa rede social.

«Queria tentar perceber as palavras que escreveu no Facebook quando disse que o entendimento do Presidente da República é de uma violação extensiva da Constituição. Porque é que utilizou esta expressão?», questionou o jornalista, no exercício do seu principal dever deontológico, que é o de fazer perguntas. Para assegurar o direito dos cidadãos à informação.

Silva começou por dizer: «Eu respondo já à sua pergunta e não lhe vou fugir.» Mas fugiu mesmo, mandando a promessa às malvas. E desatou a debitar a cartilha do PS, utilizando aquele tempo de antena para mera promoção do Governo e do partido. 

Às 15.32, Miguel Ribeiro insistiu: «Porque é que acha que o Presidente da República tem uma interpretação abusiva da Constituição?» O parlamentar continuou a fugir à pergunta e a refugiar-se na catequese partidária.

Até que o jornalista perdeu a paciência perante tanto desrespeito à sua função em antena - que é a de obter respostas, não propaganda. «Vai andando à volta e não responde», concluiu, cortando a palavra ao sonso que afrontara Marcelo na rede social mas se furtava à polémica em televisão.

Eram 15.39: tinham passado onze minutos. Voltava a imperar o jornalismo, a cartilha era devolvida ao Largo do Rato. Lá é que está bem.

Notícias do crime, cá e lá

Pedro Correia, 25.03.21

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Como aconteceu no mesmo dia, a comparação pode ser feita.

Nos EUA, um indivíduo desata aos tiros numa superfície comercial e acaba por matar dez pessoas, em Boulder, Colorado: horas depois ficamos a saber quase tudo sobre este crime. O nome e a idade do presumível criminoso, se tinha ou não cúmplices, como agiu, quanto tempo demorou a ser detido, que tipo de armamento utilizou, que acusação formal lhe é agora imputada pela justiça criminal. Tomo conhecimento disto assistindo ao Jornal da Noite da SIC, na terça-feira.

Em Portugal, algures no concelho do Seixal, várias viaturas da polícia de intervenção são mobilizadas para um alegado bairro por supostos moradores devido a «alguns distúrbios» nunca concretizados. As forças da autoridade são ali «recebidas com disparos» (revela o mesmo Jornal da Noite) e demoram horas a controlar a situação, havendo necessidade de recorrer ao Grupo de Operações Especiais da PSP e a brigadas de intervenção rápida, que se fizeram transportar em veículos blindados. «Uma força de elite foi chamada depois de almoço», sublinha o repórter num directo feito já de noite.

 

Quase nada ficamos a saber sobre o que realmente aconteceu, no caso português: nem quantos eram os elementos envolvidos, nem a idade deles, nem o tipo de armamento, nem o que esteve na origem dos incidentes, nem quais foram ao certo os danos causados.

Sabe-se apenas que «um suspeito foi detido e outros dois estão em fuga», deixando-se antever que estariam envolvidos só três indíviduos - algo que custa a crer dados os meios policiais utilizados e o longo tempo («a operação demorou perto de sete horas», diz o repórter da SIC) que demoraram a efectuar a solitária detenção.

Na RTP, uma testemunha, de costas para a câmara, alude a «caçadeiras» - não haveria armamento mais sofisticado? E o que terá causado aqueles distúrbios? Alguma festarola clandestina em violação do estado de emergência ou um motivo muito diferente? Justificava-se verdadeiramente o aparato policial envolvido na operação?

Nenhum destes canais me esclarece.

 

Consulto o Público de ontem e continuo sem nada saber. «Cerco policial em Corroios durou várias horas e terminou ao início da noite. Há dois elementos em fuga com PJ no encalço», eis o máximo de pormenores fornecidos na pág. 16. Após duas páginas (centrais) dedicadas à questão do «acesso às armas»... nos Estados Unidos. Na peça sobre o tiroteio na margem sul do Tejo, quase todo o destaque é reservado a críticas de alegados residentes à intervenção policial. Nem sequer ficamos a saber o local preciso onde aquilo aconteceu (Corroios é uma vasta freguesia do concelho do Seixal e a segunda vila mais populosa do País) ou até se foi num verdadeiro "bairro" ou não.

Só na terceira linha a contar do fim, numa peça com 79, surge um vislumbre do que possa ter ocasionado os distúrbios violentos. Quando uma presumível moradora solta esta frase: «De há um tempo para cá começou a história da maldita droga.»

 

De um lado, clareza informativa; do outro, uma nebulosa de interrogações não esclarecidas. Mas logo ali se ensaia, pelo menos num canal televisivo que acompanhei, toda uma narrativa pronta a servir de pseudo-sociologia justificativa da delinquência. Sem nunca se questionar o poder autárquico da zona - no caso, a Câmara Municipal do Seixal, há quase meio século monopólio do PCP. 

De um lado, jornalismo. Do outro, uma coisa em forma de assim, na tentativa canhestra e mal sucedida de o imitar.

Ficámos mais bem informados? Sim, sobre o que aconteceu nos EUA. Só nisso, uma vez mais. 

À atenção do Diácono Remédios

Pedro Correia, 05.03.21

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A jornalista Liliana Valente assinou, no Expresso da semana passada, a melhor reportagem que já li sobre a angústia e até o pânico que a pandemia provocou nos bastidores do Governo. Contou, para o efeito, com a colaboração de vários membros do Executivo naquilo que deve ter sido um laborioso e paciente exercício de jornalismo desdobrado por vários meses.

Merece ser felicitada por este trabalho, sob o título "Um ano a governar em aflição", inserido em quatro páginas do caderno principal. Pode haver quem imagine ser fácil, mas garanto que não é. 

 

Esta reportagem suscita reflexões de diverso tipo. Desde logo porque, entre os depoimentos recolhidos, há quem assuma a existência no Governo de uma "ala mais sanitarista", composta até por "hipocondríacos que não deviam estar ao leme" em situação de pandemia. Isto estimula a curiosidade dos leitores: quem serão os membros desta ala?

Mas o depoimento mais interessante - e, este sim, identificado - surge da boca de Tiago Antunes, secretário de Estado adjunto de António Costa, que a dado momento declara o seguinte: "Muitas vezes foi preciso assustar as pessoas e explicar que as coisas estavam piores do que se imaginava, muitas vezes foi preciso antecipar a opinião pública e influir na psicologia colectiva."

 

Destaco as expressões "assustar as pessoas" e "influir na psicologia colectiva". Sugerindo evidente manipulação da opinião pública.

Apetece-me perguntar ao Diácono Remédios, que na sua recente carta aberta no Público veio em socorro do Governo Costa e a vergastar os jornalistas que ousam perturbar o sossego de Suas Excelências, se não vai escrever outra cartinha, agora a propósito deste assunto. Fico a aguardar.

O respeitinho é muito bonito

Pedro Correia, 01.03.21

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«Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a [sic] respostas dos entrevistados.»

 

«Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção [sic] da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar.»

 

«Não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde.»

 

«Não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS.»

 

«Não podemos aceitar a ladainha dos números de infetados [sic] e mortos que acaba por os banalizar.»

 

Excerto de uma "carta aberta" do Diácono Remédios, há dias divulgada no Público. Não havia nexexidade...

A carta aberta às televisões e o sindicato dos jornalistas

jpt, 26.02.21

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Será, até estatisticamente, pacífico dizer que as estratégias estatais para enfrentar o Covid-19 neste corrente Inverno foram um fracasso. Estamos confinados, com os custos económicos e sociais gigantescos presentes e futuros. Mas andámos qual "ilha no topo do mundo" devastado pela doença. E isto depois do "milagre que é Portugal", o sucesso (enfim...) da Primavera passada. Um caso óbvio de "tarde piaram" os possidentes. Nesse âmbito o que acontece? Um conjunto de "cidadãos muito respeitáveis" (como são definidos num editorial algo incomodado de um jornal de "referência"), um feixe da "nobreza de toga", por assim dizer, faz uma "Carta Aberta" insurgindo-se contra: a) a extensão dos telejornais (matéria bem antiga, inscrita na concorrência por audiências, como todos sabem); b) o estilo confrontacional dos entrevistadores televisivos (bem, pelo menos já José Sócrates, aquele político que nenhum destes "cidadãos respeitáveis" criticou em carta pública, manipulava pressões políticas, financiamentos públicos e empresariais para afastar alguns destes "confrontacionistas"); c) a tendência para criticar governo e administração pública, que vem sendo dita antipatriótica. E terminam com: d) a denúncia de agendas políticas subterrâneas e inditas, quais "mão invisível", ligadas ao capital privado mas capazes de poluir o serviço estatal, manipuladoras do jornalismo.

Não elaborarei muito sobre este documento. Pois cada cabeça sua sentença. Mas lembrou-me que, em 2018, o peculiar presidente do Sporting Clube de Portugal, dr. Bruno de Carvalho, na efervescência de uma Assembleia-Geral do clube, lançou o repto a associados e adeptos (o agora dito "Universo Sporting") para que não comprassem jornais nem vissem as televisões (ou seja, não lhes consumissem a publicidade). As reacções foram indignadas, em particular da "classe" (ou "corporação") jornalística. O próprio Sindicato de Jornalistas contestou as declarações desse presidente de uma colectividade desportiva considerada instituição de utilidade, dizendo-as um atentado à liberdade de imprensa. Entenda-se bem, o presidente de um clube disse: "não vejam as estações generalistas, não comprem jornais". E o sindicato notou um atentado à liberdade de imprensa. Isabel Nery, da revista Visão e dirigente sindical, anunciou que o Sindicato recorreria às entidades tutelares em defesa dos profissionais do sector, até mesmo juridicamente, soube-se depois. Explicitando que essa é uma posição estrutural do sindicato pois "estamos a falar de desporto mas se estivéssemos a falar de outra coisa qualquer a posição do sindicato seria idêntica".

Passaram três anos. Surge esta posição intrusiva sobre o jornalismo, que intenta cercear e moldar o espírito crítico, de forma muito mais aguda do que fez o peculiar Carvalho havia feito, e até explicitando serem os jornalistas agentes de agendas inditas, falhos de deontologia. Gente galardoada (Carvalho e Horta são prémio APE, Alice Vieira - viúva de Mário Castrim, caramba, a prestar-se a uma coisa destas! - já tem escola com seu nome, Lourenço é oficial superior e Benavente foi governante, como exemplos). Mas muito mais significativo que isso, alguns dos signatários dirigem actualmente instituições estatais ou articuladas com o Estado - que eu saiba pelo menos Bebiano, Silva, Rodrigues e a "directora do Museu do Aljube que não sabe o que é o Gulag", Rato. Ou seja, altos quadros da administração pública e da sociedade civil convocam alterações no livre-arbítrio jornalístico e explicitamente põem em causa deontologia de largos sectores da classe. E exigem a cessação de críticas ao Governo e à Administração Pública. Enquanto especulam sobre interesses clandestinos aos quais os jornalistas estarão algemados.

E que diz o Sindicato dos Jornalistas sobre estas acusações? Nada! Pois o respeitinho pelo governo é muito bonito. Mesmo...

Sob escuta

Paulo Sousa, 15.01.21

É fácil que no meio do turbilhão de notícias em que vivemos, grandes acontecimentos sejam confundidos com tricas, daquelas que são boas apenas para nos entorpecer e enfadar.

Por isso, até para a historiografia futura, importa registar acontecimentos que passam quase incólumes nestes dias conturbados, neste nosso regime nascido em 1974.

Soubemos há dias que o Ministério Público mandou vigiar jornalistas e acedeu às respectivas contas bancárias. A embrulhada é de tal ordem que o comum mortal, prefere poupar-se ao esforço de entender os detalhes de mais um atropelo às instituições do Estado de Direito, encolhe os ombros e muda de canal.

Já aqui escrevi sobre a relação entre o nosso atraso económico e a qualidade das nossas instituições. Este é mais um exemplo de como o nosso regime está doente.

Mais incrível ainda é o silêncio a que a própria classe jornalística relegou este caso, em que é colocada em causa. A devoção da imprensa para com a situação, e uma infelizmente racional análise custo/benefício explicará a falta de eco que este assunto merecia.

Entretanto, e a apesar de ainda não ter tido conhecimento de nenhuma grandolada à conta deste grave atropelo à Liberdade de Imprensa, a Federação Europeia de Jornalistas já notificou Portugal junto do Conselho da Europa, salientando que se trata de um caso “especialmente grave” por Portugal presidir à UE.

Aproveito para me sentar enquanto aguardo por mais reacções.

Ano de pesadelo

Pedro Correia, 23.12.20

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Em jornalismo, quase sempre, menos é mais. Lembrei-me desta frase, inspirada no lema artístico de um célebre arquitecto, quando vi aquela que considero a melhor capa de revista deste amargo ciclo anual prestes a chegar ao fim. A da edição dominical do El País

Uma capa em que a fotografia diz tudo, surgindo acompanhada de uma data que funciona em simultâneo como título e legenda. A foto transpira autenticidade e tem cunho universal: foi captada em Espanha, mas poderia ter sido em muitos outros países igualmente golpeados pelo coronavírus que nos envolveu num cortejo de luto e dor. 

A carga emotiva desta imagem torna irrelevante qualquer palavra. E nem é preciso situá-la no espaço: basta enquadrá-la no tempo. Quatro caracteres bastam: 2020. Ano de pesadelo.

O direito ao nome do assassinado

Pedro Correia, 16.12.20

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Qualquer indivíduo alvo de violência policial num país como os EUA - e nem precisa de ser espancado e deixado esvair-se até à morte, em arrepiante sessão de tortura - é logo tratado nos media portugueses como alguém com nome e apelido, como se fosse figura do nosso convívio. Há até manifestações públicas, convocadas por redes sociais, enchendo ruas e praças em período de "confinamento", como no início de Junho sucedeu com o norte-americano George Floyd em várias cidades do País. O combate ao racismo sobrepôs-se ao combate ao coronavírus.

Dois meses antes desse crime cometido em Minneapolis, um ucraniano tinha sido violentamente agredido, torturado e enfim assassinado à pancada em Lisboa por presumíveis "servidores públicos", pagos com o dinheiro de todos nós, num departamento oficial supostamente regido por normas de legalidade, transparência, urbanidade e cidadania. No fundo, a tal "ética republicana" com que alguns enchem a boca.

Ao contrário do que ocorreu no continente americano, este crime - que terá contado com cumplicidades várias, numa teia muito mais abrangente do que a do reduto inicial de esbirros homicidas - não comoveu ninguém. Nenhuma manifestação foi convocada, apesar dos óbvios contornos xenófobos do assassínio, nenhuma organização trombeteou em exaltada defesa dos direitos humanos selvaticamente violentados por funcionários públicos. As notícias foram esparsas, acolhidas entre bocejos. Como se toda a indignação doméstica se esgotasse nos protestos por crimes policiais cometidos além-fronteiras.

 

Pior: a vítima não teve sequer direito ao nome. Casado, pai de dois filhos, trabalhador que procurava encontrar em Portugal o sustento que lhe era negado no país de origem, Ihor Homeniuk acabou alvo de novo crime, desta vez de carácter político, social e mediático: o crime da omissão.

Tratado como anónimo, nas semanas e nos meses que se seguiram ao seu brutal homicídio, pelos militantes da indignação selectiva.

Tratado com impiedosa indiferença pelos poderes públicos - designadamente pelo Governo, que só há cinco dias se lembrou de dirigir uma carta de condolências à viúva e de a indemnizar pela trasladação do cadáver há muito efectuada, e pelo Presidente da República, por uma vez recolhido ao silêncio precisamente numa situação em teria sido imperioso escutar uma palavra sua. Aqui Marcelo Rebelo de Sousa foi o último a falar, quando devia ter sido um dos primeiros.

 

Ihor Homeniuk não tem verbete na Wikipédia, não viu o rosto reproduzido em T-shirts, não leva ninguém a proclamar que "todas as vidas contam" - seja qual for a cor dos cabelos do agredido e violentado, seja qual for a pigmentação da sua pele. E raros são os que escrevem ou pronunciam o seu nome, ao contrário do que aqui fizeram o José Teixeira a 2 de Junho, expressando uma indignação que na altura tornaria redundantes outros textos de teor semelhante, ou o José Meireles Graça a 1 de Outubro, muito antes de os justiceiros de turno acordarem para o facto nas pantalhas cá da terra.

Ontem mesmo, na comissão parlamentar convocada para debater este crime na presença do ainda titular da pasta da Administração Interna, o nome de Ihor Homeniuk raras vezes foi pronunciado: vários deputados, quando muito, acederam em designá-lo por «cidadão ucraniano». E ficaram-se por aí.

 

Já me insurgi no DELITO contra a glória póstuma dos assassinos, que transforma qualquer celerado numa espécie de pop star em televisões e jornais. Já clamei contra os mecanismos comunicacionais, que em horas de barbárie surgem mais preocupados em desvendar o "rosto humano" dos homicidas do que em evocar as vítimas dos seus actos. Hoje venho reivindicar o mais elementar e singelo mandamento humano: o direito a sermos tratados pelo nosso nome, sem sermos reduzidos a uma etnia, uma profissão, uma nacionalidade, um emblema, uma afinidade tribal.

O  homem assassinado a 12 de Março nas instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras no Aeroporto Humberto Delgado (cruel ironia, tão repugnante crime ter ocorrido num local assim baptizado) chamava-se Ihor Homeniuk.

É pelo nome que esta malograda vítima do Estado português deve ser conhecida - e não de qualquer outra maneira.

Elogio da crónica

Pedro Correia, 23.11.20

 

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Tenho pena que as crónicas estejam a desaparecer das páginas dos jornais. Habituei-me desde muito novo a ler alguns dos melhores cronistas da imprensa portuguesa – numa época em que a crónica era um género imprescindível.

Lia textos do Pedro Alvim, do Rodrigues Miguéis, do Baptista-Bastos, do Carlos Pinhão, do Abelaira, do O’Neill e da grande Alice Vieira sempre com uma ponta de deslumbramento. Era uma prosa diferente da escrita impessoal das notícias: paginada de modo especial e com um tom coloquial que não se vislumbrava noutros locais dos periódicos – estabelecendo um clima de convivência quase íntima com o leitor. Através dos anos, fui mantendo o meu interesse pela crónica, frequentando diversos autores – de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, passando por Ferreira Fernandes e António Lobo Antunes.

Vou também praticando o género, sempre que posso: é a disciplina jornalística que mais se aproxima da literatura. Tenho pena de vê-la à beira da extinção, substituída pelo comentário anódino e sensaborão ou pela fatigante “análise” política que muitas vezes não é mais do que um mero piscar de olho a “fontes” de circunstância. Esquecendo por completo o leitor.

Ao menos no Brasil o género está bem vivo e recomenda-se. Há mesmo quem reclame por lá a paternidade brasileira da crónica, que gerou verdadeiros autores de culto – de Rubem Braga a Luís Fernando Veríssimo, de Carlos Drummond de Andrade a Arnaldo Jabor, de Nelson Rodrigues Millôr Fernandes, de Fernando Sabino a Roberto Pompeu de Toledo. É um prazer ler o português revigorado destas crónicas brasileiras, de ontem e de hoje.

 

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Nos anos 50 e 60, os cronistas no Brasil eram uma tribo calorosa e solidária, como relata Humberto Werneck, organizador da excelente colectânea Boa Companhia: Crónicas, editada em 2005 pela Companhia das Letras. A tal ponto que, quando chegava a crise de inspiração, a mesma ideia servia de mote a diferentes cronistas forçados à rotina diária. Fernando Sabino, que escrevia em O Jornal, do Rio de Janeiro, relata o episódio da queda de um edifício na cidade, que originou uma troca de impressões à mesa de um bar com Rubem Braga (cronista do Diário de Notícias, também do Rio) e Paulo Mendes Campos (que mantinha uma crónica no Diário Carioca). No dia seguinte, “por coincidência”, as três crónicas tinham estes títulos: “Mas não cai?”, “Vai cair” e “Caiu”.

Melhor ainda é outro episódio que dois deles protagonizaram. Rubem, com falta de ideias, solicitou sem cerimónia uma crónica “emprestada” a Fernando Sabino, que foi à gaveta e passou-lhe a história de um garoto que pedia esmola para comer uma sopa, por um cruzeiro, numa casa de pasto. Intitulava-se O preço da sopa. O outro publicou-a alterando três pormenores: o garoto foi a um restaurante, a sopa custou cinco cruzeiros e a crónica passou a chamar-se simplesmente A sopa. Uns tempos depois, chegou a vez de Sabino pedir idêntico favor a Rubem Braga, que entendeu devolver-lhe a história da sopa. Que lá voltou a ser impressa, com a assinatura de Fernando Sabino e dois novos ingredientes: a sopa já custava dez cruzeiros e o título era Esta sopa vai acabar. E acabou mesmo...

Fragmentos deliciosos de um tempo que parece tão irremediavelmente distante do nosso.

Censura em directo

Pedro Correia, 22.11.20

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«Na noite das eleições presidenciais, as três televisões com mais audiência nos Estados Unidos (CBS, ABC, NBC) cortaram em directo o discurso do Presidente Trump, invocando que ele faltava à verdade. Nunca visto. Três semanas mais tarde contam-se pelos dedos da mão as análises e os comentários da imprensa europeia sobre este singular procedimento, assim reduzido a banal acontecimento. Nunca visto, também.

Uma primeira conclusão é possível tirar, já: a do grande embaraço - direi mal-estar - que a decisão dessas televisões provocou no universo dos media do Velho Continente. Não se aprova, nem se condena. Ora o silêncio nunca é uma tomada de posição, nesta matéria. É apenas uma omissão, envergonhada, acho eu. É claro que o corte no discurso foi noticiado. Mas não foi comentado. Ora cortar em directo um discurso, por muito desonesto e miserável que ele seja, do Presidente dos EUA, não é um problema das televisões, é um problema da liberdade de expressão. Quer se goste ou não de Trump, o Presidente legitimamente eleito tinha o direito de falar e os cidadãos a quem ele se dirigia tinham o direito de o ouvir - a menos que os considerem inimputáveis.

Porquê, então, este silêncio, que cheira a envergonhado? Em parte porque a quase totalidade da Imprensa europeia "votou" contra Trump, ainda antes de os americanos terem votado. E, em parte também, pela injustificada deferência com que os europeus olham para as televisões dos EUA.

(...)

Temos, portanto, que as televisões se arrogaram no direito de decidir no lugar dos eleitores entre o bom e o mau, o Bem e o Mal. Fizeram-no ao contrário da CNN (próxima dos democratas), da Fox (próxima dos republicanos) e da PBS (pública), que passaram o discurso na íntegra, contraditando-o nos oráculos, e depois comentaram que o Presidente tinha faltado à verdade ou produzira afirmações sem fundamento.

Colocam-se, pois, algumas questões para as quais será bom encontrar uma resposta a curto prazo. A partir de que momento o responsável de uma televisão tem legitimidade para silenciar um Presidente? Pode um jornalista interferir na transmissão em directo de acontecimentos com manifesto interesse público? E, na afirmativa, não estará esse mesmo jornalista, em vez de proceder como um observador isento da acção política, a actuar como um agente político que faz prevalecer a sua opinião sobre um acontecimento que, ademais, não comunicou à opinião pública?

Resta saber aonde conduzirá este precedente, não só nos EUA mas também nas outras democracias, de cada vez que as televisões julgarem, a partir de agora, que têm o direito de calar um Presidente eleito, porque, na opinião delas, ele está a faltar à verdade.»

 

Reflexões de José Manuel Barata-Feyo, novo Provedor do Leitor do Público, em texto ontem publicado neste jornal. Um longo texto que subscrevo da primeira à última linha.

Um homem normal na Casa Branca

João Campos, 19.11.20

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O título, claro, alude ao excelente texto que o Pedro Correia publicou ontem sobre Harry Truman. Mas neste caso serve para aludir não ao 33.º mas ao 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que deu há dias uma entrevista muito interessante a Jeffrey Goldberg para a The Atlantic a propósito do seu novo livro. Ao fim de quatro anos de decreto-via-twitter, de birras ridículas, de gritaria incoerente e com fraco domínio do idioma materno, é refrescante regressar ao discurso articulado, ponderado e frequentemente autocrítico de Obama. Quatro anos de chinfrineira infantil - quase foram suficientes para esquecer que este era o tom normal e expectável num Presidente norte-americano.

Deixo a sugestão para a leitura da entrevista, que vale bem a pena. E destaco duas passagens: a primeira, a propósito da ascensão do populismo de direita nos EUA e de um certo paradoxo (digamos assim) de masculinidade:

Obama: (...) If you think about populists from the past, someone like Huey Long—he wasn’t from the right; he was a classic populist, rooted in the earth; he knows the lives of the people he is rallying; he genuinely understands them. I guess I would not have expected someone who has complete disdain for ordinary people to be able to get attention and then the following from those very same people.

I guess I’m also surprised by, and this is not an original thought on my part—but I think about the classic male hero in American culture when you and I were growing up: the John Waynes, the Gary Coopers, the Jimmy Stewarts, the Clint Eastwoods, for that matter. There was a code. This is something I always emphasize. I may be African American but I’m African and American. This is part of me. The code of masculinity that I grew up with that harkens back to the ’30s and ’40s and before that—there’s a notion that a man is true to his word, that he takes responsibility, that he doesn’t complain, that he isn’t a bully; in fact he defends the vulnerable against bullies. And so even if you are someone who is annoyed by wokeness and political correctness and wants men to be men again and is tired about everyone complaining about the patriarchy, I thought that the model wouldn’t be Richie Rich—the complaining, lying, doesn’t-take-responsibility-for-anything type of figure.

I think that indicates the power of television in the culture that sometimes I miss because I don’t watch a lot of TV. I certainly don’t watch reality shows. And sometimes I’d miss things that were phenomena. But I thought there was a shift there. I write about it to some degree. I actually have great admiration for a lot of those traditions, what were ascribed to be masculine qualities. When you think about the Greatest Generation, you think about sacrifice. (...)

E a segunda, sobre o impacto das redes sociais na democracia:

(...)

Goldberg: Do you hold the companies responsible?

Obama: I don’t hold the tech companies entirely responsible, because this predates social media. It was already there. But social media has turbocharged it. I know most of these folks. I’ve talked to them about it. The degree to which these companies are insisting that they are more like a phone company than they are like The Atlantic, I do not think is tenable. They are making editorial choices, whether they’ve buried them in algorithms or not. The First Amendment doesn’t require private companies to provide a platform for any view that is out there. At the end of the day, we’re going to have to find a combination of government regulations and corporate practices that address this, because it’s going to get worse. If you can perpetrate crazy lies and conspiracy theories just with texts, imagine what you can do when you can make it look like you or me saying anything on video. We’re pretty close to that now.

Goldberg: It’s that famous Steve Bannon strategy: flood the zone with shit.

Obama: If we do not have the capacity to distinguish what’s true from what’s false, then by definition the marketplace of ideas doesn’t work. And by definition our democracy doesn’t work. We are entering into an epistemological crisis. (...)

Para mais contexto, é ler na íntegra.

Um homem comum na Casa Branca

Pedro Correia, 18.11.20

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Harry Truman com Franklin Roosevelt (Julho de 1944)

 

Naquela quinta-feira, dia 12 de Abril de 1945, havia chuva em Washington. Às 19.09, um homem de 60 anos, natural do Missouri, de óculos com lentes grossas e estatura acima da média, tomava posse como 33.º Presidente dos Estados Unidos. Finda a cerimónia, que durou menos de um minuto, o empossado beijou a Bíblia sobre a qual prestara julgamento.

Esse homem fora vice-presidente apenas 82 dias por escolha de Franklin Delano Roosevelt, falecido duas horas e 24 minutos antes da singela cerimónia de posse na Casa Branca. A um gigante da política norte-americana, que conduzira com sucesso o país no combate à Grande Depressão e nas encruzilhadas da II Guerra Mundial, sucedia «o típico americano médio», como assinalou o jornalista Roy Roberts, no Kansas City Star, acrescentando: «Que teste à democracia se funcionar!»

Nessa noite, Harry Skipp Truman deitou-se um pouco mais tarde do que era costume, depois de comer uma sanduíche de peru e beber um copo de leite. Terminava o dia mais longo da sua vida, em que certamente rememorou as críticas recebidas na imprensa oito meses antes, quando Roosevelt surpreendeu tudo e todos ao escolher para vice-presidente, no seu último e brevíssimo mandato, este senador que nunca frequentara a universidade, passara a infância e a juventude numa humilde zona rural e viajara apenas uma vez na vida – em 1918, como capitão de artilharia, quando chegou a França para combater na I Guerra Mundial.

Truman terá certamente recordado também os editoriais demolidores com que a imprensa o brindara no Verão anterior. A Time chamara-lhe «medíocre», o Post-Gazette, de Pittsburgh, garantira que era «um dos mais fracos vice-presidentes» de sempre. Richard Strout, no New Republic, desabafara: «Pobre Truman. E pobre povo americano.»

 

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No momento em que tomou posse, Harry Truman tornou-se o comandante supremo das forças armadas norte-americanas, com 16 milhões de efectivos em guerra. O 9.º Exército encontrava-se às portas de Berlim, a última ilha das Filipinas fora reconquistada aos japoneses, 400 superfortalezas despejavam bombas diárias sobre Tóquio. A guerra custara já 196.999 vidas americanas. Mesmo assim, o estado-maior, em Washington, previa que durasse mais seis meses na Europa e ano e meio no Pacífico.

Logo na primeira conferência de imprensa, no dia a seguir à posse, Truman exibiu o estilo franco e directo que o celebrizou. «Rapazes, se souberem rezar, rezem por mim. Quando ontem me contaram o que acontecera, foi como se a lua, as estrelas e todos os planetas caíssem em cima de mim», disse aos jornalistas. Dez anos depois, escreveria nas suas memórias: «Quando Roosevelt morreu, senti que havia um milhão de homens mais qualificados que eu para lhe suceder. Mas a tarefa estava a meu cargo – e tinha de ser feita.»

 

«Nenhum outro Presidente americano tomou decisões tão difíceis nos primeiros quatro meses de mandato, relacionadas com a criação da ONU, a presença ameaçadora do Exército Vermelho na Europa de Leste, a bancarrota britânica, o horror do Holocausto e o advento da era nuclear no Novo México, Hiroxima e Nagasáqui», escreveu David McCullough na sua monumental biografia Truman (1992), que lhe valeu o Prémio Pulitzer. Um livro fundamental para viajarmos aos 2841 dias da presidência deste homem que jogava póquer, tocava piano e bebia bourbon, chamava “aquário” à Casa Branca e não ligava nada às sondagens. «Até onde chegaria Moisés se tivesse encomendado uma sondagem no Egipto?», costumava dizer Truman.

Roosevelt, com quem reuniu apenas duas vezes enquanto vice-presidente, jamais o pusera a par dos assuntos da guerra. E nem o informara da sua ida à cimeira de Ialta. Mas ele tinha «uma imensa determinação», como dizia Churchill. Conseguiu defraudar as piores expectativas a seu respeito. A três meses das presidenciais de 1948, a Newsweek pediu a 50 analistas um vaticínio eleitoral: todos apostaram na vitória do republicano Thomas Dewey contra o democrata Truman. A Life fez uma capa com Dewey, chamando-lhe «o próximo Presidente». E o Baltimore Sun concluiu: «Votar nele seria uma tragédia para o país e o mundo.»

 

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Contra ventos e marés, Truman venceu. E convenceu. Ao cessar funções, em Janeiro de 1953, apresentava uma excelente folha de serviços: a reconstrução da Alemanha e do Japão, o lançamento das Nações Unidas, a criação da NATO, o Plano Marshall, a inédita ponte aérea que permitiu salvar Berlim em 1949. Na frente interna, também tinha motivos para orgulhar-se: criou 11 milhões de postos de trabalho, reduziu a dívida pública, evitou o colapso económico que todos anteviam e jamais aconteceu.

Na última das suas 324 conferências de imprensa como Presidente, a 15 de Janeiro de 1953, sublinhou: «Quando a história disser que o meu mandato assistiu ao início da Guerra Fria, dirá também que nestes oito anos iniciámos o caminho para a vencer.» Acertou em cheio.

Na hora da partida, a mesma imprensa que lhe lançara pedras ovacionava-o em editoriais. «É um homem com muitos opositores e poucos inimigos, e com muitos mais que o apoiam e gostam dele», escreveu o insuspeito Walter Lippmann.

«Dever cumprido», disse Truman ao deixar a Casa Branca. Poucos presidentes tiveram tantos motivos como ele para pensar assim.

Onde está José Gomes Ferreira? - O rumor foi desmentido

Paulo Sousa, 16.10.20

Não irei eleminar o post, mas começo-o agora dizendo que este rumor já foi desmentido com credibilidade que considero suficiente.

"O programa da SIC Negócios da Semana já tem vários anos e o jornalista José Gomes Ferreira é já bem conhecido pela sua frontalidade e acutilância perante a governação socialista. É frequente que que vídeos das suas intervenções sejam partilhados em cadeia pelas redes sociais. É fácil calcular que alguém assim, descomprometido e bem articulado, incomode quem não lhe consegue responder com factos.

O Negócios da Semana é normalmente transmitido todas as quartas-feiras às 23:00, mas nesta semana que agora termina, e sem aviso prévio, deixou de ser transmitido. No site da SIC deixou de existir qualquer referência a este programa.

Pelo silêncio que rodeia este facto, pela ausência de explicações, todas as especulações são possíveis. Eu estou em querer que este será mais um degrau que se desceu. Estamos cada vez mais próximos do socialismo."

Natal virtual

Pedro Correia, 13.10.20

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Quase em uníssono, numa verdadeira demonstração de unicidade institucional, o Presidente da República (nas linhas) e a ministra da Saúde (nas entrelinhas) vieram alertar-nos: o Natal, este ano, não será Natal.

Será um Natal virtual, à distância, com a brigada anti-contágios sempre vigilante. Contra o novo coronavírus, enquanto os portugueses vão morrendo (mais seis mil do que a média dos cinco anos anteriores) sobretudo com as velhas doenças. Mas morrem entre as quatro paredes domésticas, solitários como nunca, cada vez mais fechados em casa por terem medo de frequentar os hospitais.

Como não recear a nova peste se todas as noites, serão após serão, somos brindados com horas de noticiário em exclusivo sobre a pandemia, criando-se assim a ilusão de que todas as outras causas de infecção e morte foram banidas do planeta?

 

Deixou de haver doenças cardíacas, deixou de haver doenças oncológicas, deixou de haver acidentes vasculares cerebrais. Já não há homicídios, já não há suicídios, já não há "sinistralidade rodoviária" (eufemística alusão aos assassínios no asfalto), já não há violência doméstica. Ninguém mais ouviu falar de tudo isto, que antes dominava os telediários.

Nem sequer uma palavra, nos dias que vão correndo, sobre os riscos do aquecimento global, o degelo no Pólo Norte e a desmatação da Amazónia. Até a menina Greta se eclipsou do mapa mediático. "Vinte-vinte" é o ano do vírus. E 2021 ameaça repetir a dose, sem fim à vista.

 

Entretanto os centros comerciais vão fazendo pela vida nesta era de incertezas. Num deles, vi há uma semana exacta o cartaz que ilustra este texto - prova evidente de que o Natal se tornou mera abstracção, alheio às contingências do calendário. Falta pouco para começar na Páscoa. Ou no Carnaval.

Natal partilhado à distância de um clique no ilusório aconchego do zoom. Com distância física de tudo, excepto de um ecrã de computador.

O passo seguinte será a instalação de barreiras de acrílico em todas as divisões dos apartamentos domésticos, sob minuciosa fiscalização das brigadas sanitárias. E depois outras, a dividir cada divisão. Até cada um de nós se encerrar, devidamente "higienizado", no metro quadrado tumular que lhe couber em sorte ainda em vida.

 

Prendas para a quadra? Façam desde já a vossa lista: máscaras com símbolos natalícios, luvas da cor da barba do Pai Natal, álcool gel com aroma de rena nórdica - tudo made in China, o país de origem do vírus. Deve ser isto a que alguns chamam "economia circular".

Feliz Natal, portanto. Seja lá o que isso for.