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Do meu baú (2)

por Pedro Correia, em 29.06.20

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As crises, à partida, são péssimas. Mas em jornalismo são óptimas: ficam sempre bem em qualquer manchete. Sobretudo quando surgem com a vaga avassaladora da que foi desencadeada pelo colapso do centenário Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos EUA. Uma queda que provocou um abalo à escala planetária, bem revelador da fragilidade dos circuitos económicos do mundo contemporâneo.

No dia seguinte, 16 de Setembro de 2008, a manchete do DN dizia quase tudo em apenas cinco palavras: «A pior crise desde 1929». Foi preciso aguardar oito décadas - e haver uma guerra mundial de permeio - para ocorrer uma derrocada financeira comparável à da tristemente célebre queda da Bolsa novaiorquina que mergulhou os EUA numa década de depressão. 

Consequências para o nosso país? Não havia problema, apressou-se a garantir a nossa suprema autoridade financeira, então gerida pelo inefável Vítor Constâncio: «Em Portugal, a exposição ao Lehman não é significativa, segundo o Banco de Portugal», lia-se na última frase do texto que acompanhava esta manchete.

Lá dentro, na página 7, outra declaração igualmente tranquilizadora: «Estamos a avaliar, mas a nossa exposição ao Lehman Brothers é absolutamente módica, muito pouco expressiva.» De um tal Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo, esse admirável modelo de sagacidade e lisura.

O caluniador

por Pedro Correia, em 24.06.20

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Esta noite, após ter visto a sua equipa perder contra um modesto onze açoriano no estádio da Luz com quatro golos sofridos, algo que não acontecia desde 1997, o treinador do Benfica procurou virar o foco da derrota para os jornalistas, usando palavras inaceitáveis. Por serem lesivas da honra e da consideração devidas aos profissionais da informação.

«Às vezes fico a pensar quem é que vocês andam a tentar promover para ficar no meu lugar ou quem é que lhes anda a pagar alguns almoços ou alguns jantares ou algumas viagens para entrar aqui no meu lugar», declarou Bruno Lage numa conferência de imprensa realizada naquele estádio e transmitida em directo para o país inteiro ver, ouvir e fixar.

Para meu espanto, nenhum repórter ali presente contestou de imediato o conteúdo calunioso desta declaração. E nem um só abandonou a sala em protesto contra a grosseria do treinador, como se impunha. Passividade e resignação, comer e calar: eis um exemplo inequívoco de uma classe profissional incapaz de se dar ao respeito. E que não pode queixar-se, portanto, de ser tratada desta forma por um indivíduo que saltou do anonimato para a fama em poucos meses precisamente devido aos jornalistas que agora insulta só porque um jogo lhe correu mal.

 

ADENDA: A reacção do Sindicato dos Jornalistas. E a da Associação dos Jornalistas de Desporto.

"Holy fuck!"

por Paulo Sousa, em 21.06.20

Em primeiro lugar tenho de explicar que usei para o título deste post as palavras com que no passado dia 16 o JN iniciou um artigo, no qual um doente nos EUA com 70 anos foi tratado durante 62 dias contra a doença do coronavírus e cuja conta do hospital ultrapassou os 1,1 milhões de dólares.

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Antes de dizer que este valor foi coberto pelo sistema Medicare o “jornalista” deu largas à sua interpretação da realidade dizendo que o paciente e os seus amigos “reflectem perplexos e banzados sobre o bizarro sistema de saúde dos Estados Unidos da América que, ao contrário da Europa e da maioria do mundo civilizado, não possui um Serviço Nacional de Saúde, como existe há décadas em Portugal, que proteja os seus contribuintes, mas está antes orientado em sistemas de seguros privados que não existem para tratar da saúde como um bem universal e um direito primordial, mas para dar lucros abissais numa lógica puramente capitalista que rende milhões às grandes corporações.

Ainda acrescenta que o sistema Medicare foi “criado na presidência de Barack Obama e que o actual presidente republicano Donald Trump ainda não conseguiu aniquilar.

O facto de o referido sistema Medicare ter sido fundado em 1966 é um detalhe que estragaria a narrativa e talvez por isso não é referido na “notícia”.

Estamos perante uma desonestidade que confirma o grau da lacaização de alguns jornalistas ao poder que, numa atitude bem socialista, preferem o lado confortável da actualidade ao lado certo da história.

 

Este assunto foi pescado no Insurgente.

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 18.06.20

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

 

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 
Texto reeditado no dia do décimo aniversário da morte de José Saramago.

Crise no PAN,crise no jornalismo

por Pedro Correia, em 17.06.20

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André Silva e Francisco Guerreiro, em imagem de arquivo

 

A melhor prova da falta de escrutínio actual dos partidos políticos por um jornalismo que oscila entre a mediocridade militante e o mero cumprimento da agenda oficial, como se picasse o ponto numa repartição pública, é-nos exibida, por estes dias, com a crise existente no PAN - partido encabeçado por André Silva, o líder político que goza de "melhor imprensa" em Portugal.

Uma crise agora tornada pública mas que tinha passado ao largo das redacções, apesar de vários títulos jornalísticos dispensarem máxima atenção a este partido por representar um "sinal de renovação" do nosso sistema político, "sem os defeitos e até os vícios" dos restantes. Pura ilusão, como está à vista.

 

Afinal ficamos ontem a saber que o único eurodeputado do PAN acaba de devolver o cartão partidário, saindo em ruptura com a "linha política global" dos animalistas. Francisco Guerreiro queixa-se, por exemplo, da "crescente e vincada colagem do PAN à esquerda", considerando que "quebra uma das bases filosóficas do partido, que não se revê nas dicotomias políticas tradicionais". E também disto, que especifica sem rodeios: a "recente apologia ao incentivo para a entrada de jovens no serviço militar (contra a base pacifista do partido), a passividade perante as acções geopolíticas da China na Europa e o aumento da agressividade discursiva" do PAN.

Hoje registou-se outro abandono. A mulher do eurodeputado, que já foi deputada municipal em Cascais e integrava a Comissão Política Distrital de Lisboa, bate com a porta deixando severas críticas à liderança animalista. 

«Nos últimos meses tenho assistido a uma centralização do debate e da acção política dentro do PAN, à falta de vontade em descentralizar e incluir ideias fora do 'núcleo duro', à ausência de debate político em matérias tão essenciais como o crescimento do partido no país e no estrangeiro (que faz com que não tenhamos várias distritais, nomeadamente no interior do país)», escreveu Sandra Marques numa rede social.

Acusações sérias, que não podem ficar sem resposta.

 

Temos, portanto, uma crise aberta neste partido cuja génese ocorreu à margem do escrutínio informativo. Os jornalistas que cobrem as actividades políticas, neste caso, foram os últimos a saber. Caso para concluir, portanto, que também o jornalismo está em crise - por desinteresse, por falta de investimento, pela contínua sangria dos melhores quadros, pela proliferação de "publirreportagens" que cada vez mais invadem o espaço noticioso.

Num passado pouco distante, nunca algo semelhante teria acontecido.

Parece mesmo publicidade

por Pedro Correia, em 30.05.20

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Hoje, às 13.59, no Primeiro Jornal da SIC

Em suas importantes saúdes

por Pedro Correia, em 25.05.20

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«O primeiro-ministro está na toalha com a mulher aqui na praia da Princesa, na Costa da Caparica. Decidiu vir apanhar banhos de sol, tal como o Presidente Marcelo fez hoje de manhã e ontem à hora de almoço, e dirigiu-se aqui à margem sul do Tejo, na praia da Princesa, na Costa da Caparica, para aproveitar a manhã de praia até porque o tempo convida a que as pessoas venham. Também numa forma de dar o exemplo aos portugueses. Isto depois de o Governo ter autorizado os portugueses a irem à praia e também a mergulhar, mesmo que a época balnear só comece no próximo dia 6 de Junho.»

Reportagem da TVI, ontem, à hora do almoço

 

«O Presidente da República voltou aqui, à baía de Cascais, por volta do meio-dia e meia. Ele veio de máscara, sozinho, à semelhança do que tinha feito ontem. Marcelo Rebelo de Sousa colocou-se no areal, deixou as suas coisas e dirigiu-se para a linha de água com a toalha e sempre com a máscara posta. O Presidente referiu que é importante que as pessoas estão a manter o distanciamento social na praia. Marcelo Rebelo de Sousa só tirou a máscara no momento imediatamente antes de entrar na água, depois aproveitou para nadar.»

Reportagem da TVI, ontem, à hora do almoço

 

«Pelo segundo dia consecutivo, o Presidente da República veio até aqui, à praia da Conceição, em Cascais, a praia onde habitualmente costuma dar aqueles mergulhos ao fim de semana, e este fim de semana de calor em Portugal não foi excepção. Para o Presidente da República, é preciso também retomar um pouco esta normalidade, agora com redobrados cuidados. E assim fez também Marcelo Rebelo de Sousa: depois de ter estado alguns minutos a dar as suas braçadas no mar, ele saiu e imediatamente, no momento em que saiu, pôs a máscara.»

Reportagem da SIC, ontem, à hora do almoço

 

«Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes.»

Diário de Notícias, na primeira edição (29 de Dezembro de 1864)

Diário do coronavírus (11)

por Pedro Correia, em 21.05.20

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Foto: Miguel A. Lopes / Lusa

 

O primeiro-ministro foi almoçar com o presidente da Assembleia da República. Isto é notícia cá na terra: convocaram-se os jornalistas, que logo acorreram, e todos derramaram abundante eco de tal facto.

No final, Rodrigues não teve nada de mais interessante para dizer do que recomendar, ele também, o voto em Rebelo de Sousa, o candidato socialista. Costa, bem ao seu estilo, ironizou algo desdenhosamente com um dos raros méritos da pandemia: agora já não anda a ser tocado ou atropelado por jornalistas, que mantêm irrepreensível zelo na manutenção da distância física. A que quase todos chamam "distanciamento social" - expressão de óbvia importação dos States, a terra de todos os absurdos. E nós adoramos aportuguesar de imediato qualquer expressão imbecil que traga selo "amaricano".

 

Rebelo de Sousa, também muito ao seu estilo, decidiu não ficar atrás. No dia seguinte (ontem) decidiu ele almoçar num restaurante e fez questão de que isso fosse igualmente notícia.

Falta muito pouco para regressarmos ao espírito da época em que se imprimiu a primeira notícia do Diário de Notícias, a 29 de Dezembro de 1864: «Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes».

 

Convocados os jornalistas, que acorreram com idêntico zelo ao que haviam revelado na véspera e o mesmo sacrossanto respeitinho sanitário, Sua Excelência abancou no restaurante usando máscara e luvas, enquanto o Chefe da Casa Civil da Presidência da República, sentado à conveniente distância de dois metros, transportava uma aparatosa viseira.

Lá estiveram nestes preparos, muito "higienizados", enquanto a cordata chusma de repórteres filmava e fotograva. Sem que ninguém ousasse dirigir ao Presidente a pergunta que se impunha: «Se veio aqui para demonstrar aos portugueses que agora já podem ter confiança nos restaurantes por que motivo está sentado à mesa de máscara e luvas, e a pessoa que o acompanha veio de viseira, à semelhança dos agentes da GNR quando inspeccionam veículos suspeitos?»

 

Ao nosso enluvado e mascarado Presidente parece não ter chegado ainda o eco das mais recentes "evidências científicas" divulgadas pela Organização Mundial de Saúde: não existem provas de contágio de Covid-19 através de superfícies eventualmente contaminadas. Segundo a OMS, a constante desinfecção das ditas é um mero placebo, equivalente ao copo de água que alguns tomam todas as manhãs em jejum e certamente menos intrusiva do que a hidroxicloroquina sem prescrição médica que Donald Trump ingere: dá «maior tranquilidade à população»

Que bom: poderemos recuperar a vontade de "tocar em superfícies". Faltam poucos dias para que as damas sanitárias que nos pastoreiam anunciem a Boa Nova aos indígenas em conferência de imprensa. 

Mal posso esperar.

O Irão e a Áustrália ficam no mesmo hemisfério

por João Pedro Pimenta, em 24.04.20

A propósito da questão da sazonalidade do covid, estava ontem a ver um artigo de um "jornal de referência" que duvidava da mesma porque o vírus tinha atingido em força a Austrália e o Irão, porque são "terras quentes".


Ora bem: a Austrália realmente recebeu o vírus no Verão, embora até nem tenha sido assim tão atingida (tendo começado bem antes, tem números claramente melhores que os nossos, tanto em contaminados como em mortes, e a maioria já recuperou). Mas o Irão estaria assim tão "quente"? A antiga Pérsia apanhou com isto em força em Fevereiro, sobretudo na região mais a Norte, onde fica Teerão e a cidade santa de Qom, principal foco da coisa. Não é preciso ir muito longe para se concluir que a neve nas montanhas da região, ali para o Elburz, não é propriamente artificial, e verificar que a temperatura média por ali entre Fevereiro e Março vai de 0 a 15 graus, com um clima frio e seco, o mais apropriado para este vírus. Quentíssimo, como se vê.

Às vezes o jornalismo de rigor devia preocupar-se em ser realmente rigoroso e não só a apregoá-lo.

Contra a pirataria

por Pedro Correia, em 10.04.20

Aos meus amigos que por estes dias se tornam coniventes com a pirataria, partilhando livros inteiros, jornais inteiros e revistas inteiras por via digital ou acedendo "grátis" a filmes e séries, como já fazem com a música, chamo a atenção: os profissionais da escrita, do cinema e da televisão vivem do seu trabalho. No dia em que ninguém pagar por um livro, um jornal, uma revista, um filme ou uma série deixaremos de ter acesso a estes bens de serviço público e utilidade social. Pelo mais simples e lamentável dos motivos: eles deixarão de existir.

Ao fazermos um banalíssimo clique num dispositivo electrónico, distribuindo por outros aquilo que não pagámos, estamos a dar mais uma machadada em profissões que em larga medida já caminham sobre o fio da navalha, condenando-as à extinção a curto prazo.

Um mundo sem cultura, nem informação nem entretenimento de qualidade será um mundo mais árido, mais pobre, mais primitivo, mais inóspito. Será um mundo muito menos livre.

Um mundo em que nenhum de nós desejaria viver.

E não é um cenário de ficção: pode mesmo acontecer. Só depende de nós.

Tema único [actualizado]

por Pedro Correia, em 11.03.20

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Coronavírus, hoje, nos telediários da hora do almoço:

 

SIC, Primeiro Jornal: 1 hora e 8 minutos

TVI, Jornal da Uma: 58 minutos

RTP, Jornal da Tarde: 48 minutos

 

...............................................................................

 

Coronavírus, hoje, nos telediários da hora do jantar:

 

SIC, Jornal da Noite: 1 hora e 15 minutos

TVI, Jornal das 8: 1 hora e 14 minutos

RTP, Telejornal: 54 minutos

Trinta anos de "Público"

por Pedro Correia, em 05.03.20

 

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Faz hoje trinta anos, surgia a primeira edição do Público. De todos os projectos em que estive envolvido na minha vida profissional, este foi um dos mais gratificantes. Um projecto nascido cerca de um ano antes, em que andámos a escrever "para o boneco", como na altura ironizavam colegas de outros jornais, mal disfarçando o nervosismo com que o novo diário era encarado pela concorrência. Havia bons motivos para isso, como depressa se viu. O Público não foi apenas mais um título da nossa imprensa: foi um periódico que marcou, logo ao nascer, o jornalismo português - pela sua independência editorial, pela qualidade da sua redacção e pela abordagem séria, clara e completa dos temas, segundo os melhores padrões europeus.

Fui - durante três anos - o primeiro correspondente em Macau do jornal. E logo nos primeiros meses assinei várias manchetes, dada a situação agitadíssima que então se vivia no território, nessa recta final da administração do governador Carlos Melancia. Guardo as melhores recordações dessa etapa profissional tão intensa e estimulante, sob a direcção do Vicente Jorge Silva, um dos melhores jornalistas com quem tive o privilégio de trabalhar. O meu percurso profissional conduziu-me depois a outras paragens, mas continuo a sentir particular orgulho por ter integrado essa equipa de pioneiros. E ainda hoje, apesar de todas as vicissitudes do seu percurso, sinto um carinho muito especial pelo Público. A todos quantos lá trabalham, muitos dos quais são meus amigos, envio daqui um caloroso abraço de felicitações.

Propaganda com charada

por Pedro Correia, em 03.03.20

Acabo de ouvir esta frase, no lançamento de uma peça num telediário da hora do almoço: «Lisboa é uma das cidades europeias onde se pode envelhecer activamente com dignidade.»

Alguém consegue explicar-me o que isto significa?

Um caso de censura

por Pedro Correia, em 03.03.20

 

A censura pode tornar os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.

Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.

A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.

A chuva e o bom tempo

por Pedro Correia, em 25.01.20

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Lembram-se do "risco de seca severa e extrema" que ainda há pouco nos gritavam ao domicílio de telediário em telediário? Lembram-se dos desesperados alertas para as "barragens em mínimos históricos de água", entre outras mensagens de igual teor apocalíptico?

Foi há pouco tempo. Trombeteado pelos mesmos órgãos de informação que agora lançam uivos de advertência contra o "mau tempo". E o que é afinal o "mau tempo"? Simplesmente a boa e velha chuva invernal, acompanhada do inevitável e velho frio e por vezes da pura, alva e velha neve. Tudo próprio da estação. A mesma chuva pela qual as tais trombetas do Apocalipse imploravam para encher barragens e pôr fim à seca.

Um final feliz é uma chatice quando se desespera por cliques em tempo de escassez. Não de chuva, mas de leitores e audiência.

O único poder dos jornalistas

por Pedro Correia, em 24.01.20

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É um disparate considerar o jornalismo o "quarto poder". Os jornalistas não exercem nenhuma função que possa equivaler-se aos poderes clássicos dos políticos que legislam, governam e definem as normas destinadas a ser aplicadas pelos magistrados nos tribunais.

Um jornalista só tem um poder ao seu alcance: o poder da pergunta. Cabe-lhe suscitar questões, desfazer dúvidas, interrogar-se sobre tudo quanto não sabe. O simples poder da pergunta, quando bem exercido, tem um inegável valor social, permitindo aferir o comportamento dos agentes políticos e sedimentar a cidadania. Naturalmente, as perguntas que se impõem só podem ser feitas em sociedades livres - por isso os sistemas ditatoriais elegem sempre os jornalistas como inimigos principais. Acertam no alvo ao proceder assim.

Infelizmente, muitos profissionais da informação demitem-se do seu direito - que é também um dever deontológico - de questionar os poderosos. É, de facto, uma missão muitas vezes incómoda - mas da qual nenhum jornalista digno da profissão que exerce deve demitir-se sob pretexto algum.

Há que continuar a interrogar, a interpelar, a questionar ministros, deputados, autarcas, gestores públicos, líderes partidários. Mesmo quando muitas portas se fecham nas caras, quando o assessor do assessor manda dizer que Sua Excelência não está, quando as ameaças de represálias surgem com a insídia recomendada nos manuais do ramo, há que continuar a fazer perguntas. Incomode-se quem se incomodar.

Este é o único poder dos jornalistas. E não se iludam: não existe mais nenhum.

Dizer mal e dizer bem

por Pedro Correia, em 26.12.19

Escrevo textos de opinião, ininterruptamente, há mais de 30 anos. Ao longo de todo este tempo, nunca me esqueci de uma recomendação que, era eu jovem jornalista, me fez um camarada de profissão curtido em sabedoria e experiência: «Nunca digas tanto mal de alguém de quem possas vir a dizer bem nem tanto bem de alguém de quem possas vir a dizer mal.»

As lições mais simples, muitas vezes, são as que mais perduram.

... e é isto.

por João Sousa, em 24.11.19

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Sic-Notícias, RTP3 e CMTV (dou um desconto à Sport-TV por razões óbvias): todos estes canais estão a transmitir em directo a viagem do autocarro de uma equipa brasileira de futebol. E a TVI24, seguramente, só não o faz porque está encalhada com um jogo de hóquei...

As coisas mudam

por Pedro Correia, em 30.10.19

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Revi-me há dias nesta imagem de arquivo no Jornal da Noite da SIC. Estava sentado na bancada de imprensa da Assembleia da República com os meus colegas Nuno Simas e Paula Sá - os três em representação do Diário de Notícias. No primeiro dia da legislatura 1999/2002, há 20 anos exactos.

À nossa frente, dois deputados caloiros: Francisco Louçã e Luís Fazenda. Acabavam de ser eleitos e recusaram sentar-se numa segunda ou terceira fila, como figuras adjacentes da bancada parlamentar comunista. O PCP não queria dar palco político e mediático àquele jovem partido que prometia crescer à custa de fatias cada vez mais dilatadas do seu eleitorado.

Louçã e Fazenda teimaram em permanecer de pé, recusando os postos secundários que lhes haviam sido destinados por consenso dos imobilistas que dominavam no Parlamento - mesmo os da autoproclamada esquerda, tão avessos como os outros à mudança. E fizeram muito bem. Viriam a ter os lugares que reivindicavam: um na primeira fila, o outro atrás dele. Em lugar nobre do hemiciclo e perto dos focos mediáticos. Não podiam, aliás, estar mais perto: a bancada da imprensa é logo ali.

 

2

Revejo com certa nostalgia esta foto do meu tempo de repórter parlamentar, onde surge Lino de Carvalho, qualificado deputado comunista, tão prematuramente desaparecido. Parece que foi anteontem e já nos transporta ao século passado. Estreantes no hemiciclo, Louçã e Fazenda vestiam a rigor, ambos com fatinho de deputado: a única nota de rebeldia, que na altura gerou imenso clamor, foi a ausência da gravata - prenunciando o que o Syriza, na Grécia, fez 16 anos mais tarde e o deputado da Iniciativa Liberal faz hoje em São Bento, duas décadas volvidas.

Basta esta imagem fixada no tempo para se perceber como os padrões de vestuário mudaram entre as vetustas paredes do Palácio de São Bento. Falta pouco para vermos deputados de chinelos. Alguns equipam-se mais a rigor quando vão para a esplanada do que quando chegam ao Parlamento. Embora exijam - estou certo disso - code dress num posto clínico, numa esquadra, num tribunal ou até num daqueles restaurantes caros e péssimos que costumam frequentar.

O modo como nos vestimos diz muito do nosso respeito pela casa que visitamos - respeito suplementar tratando-se de uma instituição angular da democracia portuguesa. No caso dos jornalistas, acresce que - como um dia disse a um colega mais jovem, quando o vi em São Bento de sandálias e calções - não estamos ali em representação própria, mas do órgão de informação em que trabalhamos. Razão acrescida para salvaguardar a imagem desse título jornalístico: naquele momento, naquele local, ele é personificado em nós.

Fala-se muito na degradação dos trabalhos parlamentares, evidenciada pela fraca qualidade média dos deputados. Essa degradação começa nos padrões de vestuário. Anda tudo ligado, como dizia o outro.

 

3

Esta imagem reconduz-me também a um episódio da vida jornalística que demonstra como a inércia é uma força muito poderosa nas redacções dos jornais. Quem assumia então responsabilidades na secção política do DN entendeu distribuir equipas de trabalho para cobrir a campanha eleitoral de 1999 em obediência ao cânone tradicional: PS, PSD, CDS e PCP.

Quando perguntei, numa reunião, quem iria acompanhar o BE, obtive uma resposta burocrática: «É irrelevante. Seguimos pela Lusa.» Contestei, argumentando que o recém-surgido Bloco iria ser a novidade daquelas legislativas. E lá voltou o contraponto burocrático: «Nem pensar. É um epifenómeno, mero folclore eleitoral.»

Insisti. Como o Parlamento estava fechado, ofereci-me como voluntário para cobrir as acções de campanha do BE. E lá andei na rua, acompanhando a ainda incipiente caravana bloquista, cada vez mais convicto de que a razão estava do meu lado. Como se viu. O novo partido não se limitou a eleger um solitário representante, como noutros tempos sucedeu com a UDP ou o efémero Partido da Solidariedade Nacional de que já ninguém se lembra, mas dois deputados - requisito mínimo para constituir grupo parlamentar. E aquela legislatura revelou-se crucial para o seu crescimento.

Foi, aliás, uma legislatura histórica desde o primeiro dia - a que decorreu sob o signo 115-115, quando o número de deputados apoiantes do Governo se equivalia ao dos representantes da oposição todos somados, o que acabou por ditar o seu fim prematuro.

 

4

Lembro este episódio e concluo que nestes últimos 20 anos, nas redacções jornalísticas, só se mudou para pior. Desde logo pela flagrante falta de meios em comparação com os que existiam em 1999.

Voltaram a imperar as rotinas burocráticas, voltou a evidenciar-se a falta de rasgo na cobertura de campanhas eleitorais, voltou a apostar-se só no que já se conhecia. Quase nenhum meio informativo acompanhou em pormenor as acções de campanha das três forças políticas emergentes das legislativas de 6 de Outubro: Chega, Iniciativa Liberal e Livre. Imagino que alguns repórteres terão ouvido, nas respectivas redacções, os mesmos argumentos que eu ouvi há duas décadas das chefias de turno: são epifenómenos, não chegarão a lugar algum.

E no entanto as coisas mudam. Basta por vezes vermos uma foto antiga para percebermos isto.

O "exclusivo" de Marcelo na SIC

por Pedro Correia, em 15.10.19

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Marcelo Rebelo de Sousa revelou à SIC uma das cachas políticas do ano: vai submeter-se a um cataterismo, para avaliar eventuais danos cardíacos e deste exame clínico dependerá uma decisão sua sobre a recandidatura à Presidência da República.

Acontece que a entrevista em que o Chefe do Estado fez esta e outras revelações não foi conduzida por um jornalista, munido do respectivo título profissional, mas pelo director-geral de entretenimento da estação outrora sediada em Carnaxide. O que constitui mais um significativo sinal da desvalorização do papel social dos jornalistas e da sua progressiva irrelevância no circuitos comunicacionais contemporâneos.

Que a SIC, onde trabalham dezenas de jornalistas qualificados e prestigiados, tenha prescindido deles para a obtenção desta informação em exclusivo e que o próprio Presidente da República elegesse como emissário desta novidade alguém ligado à área do entretenimento diz muito sobre a degradação de um ofício hoje invadido a todo o momento por gente que não se inibe de divulgar matéria supostamente noticiosa sem sujeitar o que supõe saber ao crivo do contraditório nem cumprir outras normas deontológicas que só vinculam os portadores da carteira profissional de jornalista.

 

Não passa praticamente um dia sem que, neste ou noutros canais, escutemos comentadores da política ou do desporto difundirem em antena "notícias exclusivas" que muitas vezes são meros rumores, à revelia das respectivas direcções de informação. O caso mais flagrante acontece na área do futebol - a tal ponto que me questiono se continuam a existir jornalistas habilitados a pronunciar-se na área do desporto em qualquer destes canais. Mesmo que a resposta seja afirmativa, o facto é que qualquer deles pouco mais servirá do que para estender um microfone, muitas vezes em "conferências de imprensa" onde não se escuta uma verdadeira pergunta digna desse nome.

Tudo isto deveria preocupar a estrutura dirigente dos jornalistas - se ela existisse. Acontece que esta é a única actividade abrangida por um código deontológico que não está organizada enquanto ordem profissional. Condenados à proletarização, sem condições mínimas para exercer o trabalho, desconsiderados pelas empresas onde prestam serviço e ultrapassados a todo o momento por qualquer "comentador residente" em estúdio, os jornalistas figuram hoje no posto mais baixo da cadeia informativa.

Problema exclusivo deles? Não: é um problema dos cidadãos que tantas vezes preferem ser "informados" pelo que "se vai dizendo" nas redes sociais e elegem as televisões que mais transformam notícias em "entretenimento".

Um problema do País, portanto.


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