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A História por cinco euros

por Pedro Correia, em 21.09.20

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Frequentar alfarrabistas, como vou fazendo apesar das restrições impostas pelo novo coronavírus, tem as suas compensações. Aconteceu-me recentemente, ao encontrar num desses estabelecimentos muitos exemplares de uma antiga colecção de revistas Paris-Match que tiveram repercussão histórica. Pertenciam a uma senhora que faleceu com 103 anos. Como tantas vezes acontece, os herdeiros desmancharam a casa e desfizeram-se de livros e revistas, que acabam dispersos um pouco por toda a parte.

Cheguei a tempo de adquirir alguns exemplares. Por exemplo, o n.º 758 da Match de 19 de Outubro de 1963, dedicado em grande parte ao falecimento de Edith Piaf e Jean Cocteau, ocorridos no mesmo dia. Ou ao n.º 777,  de 29 de Fevereiro de 1964, reservado em larga medida a pormenores então inéditos do duplo homicídio de Dallas (visando o presidente John Kennedy e o seu suposto assassino, Lee Oswald).  Ou ao n.º 617, de 4 de Fevereiro de 1961, centrado no assalto ao navio de cruzeiros Santa Maria, tomado em alto mar por um grupo de declarados opositores ao salazarismo. 

Na altura a Paris-Match foi a única a entrar a bordo do navio sequestrado, fotografando e relatando o que lá se passava numa edição que teve eco em todos os continentes. «A fantástica aventura de [Henrique] Galvão e dos piratas da revolução», titulava a revista nessa capa - exclusivo mundial do repórter (mais tarde romancista) Dominique Lapierre, hoje com 89 anos, e do fotógrafo (também actor e duplo de cinema) Gil Delamare, que se lançou de pára-quedas sobre o navio. 

Edições que fizeram história. Abandonadas por alguém num alfarrabista. Trouxe-as, a cinco euros por exemplar: agora posso chamar-lhes minhas. Garanto que ficam em boas mãos.

Vicente Jorge Silva (1945-2020)

por Pedro Correia, em 08.09.20

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Foto: Pedro Nunes / Expresso

 

Conheci centenas de jornalistas no decurso da minha actividade profissional. Mas figuras marcantes, enquanto directores executivos dos jornais a que estive ligado, apenas três: Vicente Jorge Silva (no Público), Joaquim Vieira (no Expresso) e Mário Bettencourt Resendes (no Diário de Notícias). Três personalidades muito diferentes, até ao nível do convívio quotidiano, mas que deixaram marca nas publicações que dirigiram. Vicente com uma vertente mais cultural, dando largas à sua paixão pela escrita. Joaquim, imbatível na área do jornalismo de investigação. Mário, desaparecido há dez anos, o mais dotado de sensibilidade política.

Deste trio de grandes profissionais do jornalismo resta só o Joaquim Vieira. Acabo de saber a triste notícia do falecimento de Vicente Jorge Silva (nunca nos tratámos por tu), com quem estive pela última vez durante uma tarde bem preenchida, na sua casa de Lisboa, há pouco mais de um ano. Sabia-o muito doente, e ele nem fazia questão de esconder isso, o que não tolhia a sua habitual loquacidade. Era, aliás, um prazer ouvi-lo discorrer sem travão sobre os mais diversos assuntos, saltando de tema em tema, mas sempre com um encadeado lógico. Escrevia desta forma, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor - e também com ele próprio. Cheio de dúvidas metódicas, sem certezas inabaláveis. Mas sempre atento ao «desconcerto do mundo», como bem expressa a redondilha camoniana.

 

Fiz-lhe uma das últimas entrevistas, publicada em Março de 2019 num jornal entretanto desaparecido e que não deixou rasto digital. Tenciono republicar essa entrevista no DELITO, nos próximos dias: Vicente Jorge Silva (1945-2020) merece: foi formador em exercício de duas gerações de jornalistas, durante um quarto de século - dos tempos da resistência à ditadura no Comércio do Funchal, editado na cidade onde nasceu, até ao Verão de 1996, quando renunciou à Direcção do Público, jornal que fundara quase sete anos antes. Passando pela época áurea da Revista do Expresso, nascida por iniciativa dele ainda nos anos 70 e que dirigiu com plena autonomia durante grande parte da década de 80: ali deixou um rasto de qualidade jamais igualada. 

«Nos jornais, falta investigação verdadeiramente jornalística. Falta retomar o gosto de contar uma boa história», disse-me nessa entrevista em que era possível detectar já um aceno de despedida. «Vivemos na gritaria e na correria. Um tipo tem de falar mais alto para ser ouvido. E não há tempo para verificar os factos. A tendência para as notícias falsas é cada vez maior», observou também. Com a lucidez que nunca o abandonou.

Tinha o sonho, eternamente adiado, de tornar-se cineasta a tempo inteiro. Sempre lamentei esta sua retirada prematura, assim como a sua ocasional incursão pela política, como deputado do PS, entre 2002 e 2004. Sabia bem mas sabia a pouco ir lendo as suas colunas na imprensa, rodando em títulos vários, nos anos posteriores - a última em espaço nobre do próprio Público, decisão do jornal da Sonae assumida em 2016 e que só pecou por tardia.

 

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, «os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente».

Uma frase que Vicente certamente subscreveria, naquele estilo cáustico, irreverente e muitas vezes intempestivo que se tornou sua imagem de marca. Vai deixar-nos saudades a partir de agora. 

Uma cidadã, cuja aparência associa àqueles que os costumes lisboetas do lumpen-jornalístico sempre cuidam de desvalorizar intitulando-os como "popular" ou "mulher/homem", invectivou o presidente Sousa na Feira do Livro. Teve o surpreendente efeito de o fazer apelar ao voto anti-PS, coisa nunca ouvida até agora.

O interessante da cena é o compungido editorial do director do "Público", até indignado por assim se destituirem os políticos "da dignidade dos seus cargos e do estatuto das suas funções", dizendo o episódio um "prenúncio do que aí vem" de desvalorização dos políticos, não deixando de melifluamente aventar que se tratou "apenas [de um]a peça de uma engrenagem montada por um partido populista" e invectivando que se "perturbe a agenda do chefe de Estado", e que tal "tenha direito à glória nas televisões e mereça ainda aplauso de alguns que, dizendo-se defensores da democracia, aplaudem incidentes que a degradam".

É um editorial canino, aquilo da célebre "voz do dono" e espelha bem o que é este jornal, o mainstream PS e os acólitos (ex-)Livre. Apenas como ilustração deste seguidismo aqui deixo um filme de 2012, breve trecho da pantomina acontecida quando o PM Passos Coelho foi à Feira do Livro. Nem este plumitivo gemeu nem os seus adeptos leitores se indignaram ou sentiram o prenúncio do apoucamento democrático. Gente vil, nada mais do que isso.

O editorial que vai faltando cá

por Pedro Correia, em 10.08.20

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El País, o jornal mais influente de Espanha, publicou ontem um editorial que já é uma peça de antologia. Um texto demolidor para o Governo liderado por Pedro Sánchez, que tem revelado uma incompetência capaz até de causar indignação àquele diário, que nunca escondeu afinidades com o PSOE, principal partido do actual Executivo do país vizinho.

 

Seguem-se alguns excertos deste editorial, com tradução minha:

«O balanço das infecções é tudo menos tranquilizador. Os focos activos aproximam-se dos 600, o que converte Espanha no país da Europa Ocidental com maior número de contágios acumulados de coronavírus. As reuniões familiares ou sociais e os locais de lazer já superam em importância, como fonte de infecção, os precários alojamentos dos trabalhadores sazonais do sector agrícola. Os indicadores básicos da epidemia vão aumentando - isto inclui os diagnosticados, os hospitalizados, os internados em unidades de cuidados intensivos e os mortos. Neste quadro, é difícil entender o discurso sem autocríticas feito esta semana pelo presidente do Governo, Pedro Sánchez. Houve erros, que continuam a existir. É imperioso identificá-los e corrigi-los perante uma segunda vaga que cada vez parece mais próxima, se é que não está já entre nós.

Desde a chegada da pandemia a Espanha, os falecimentos por Covid-19 estão certamente mais perto dos cerca de 44 mil sugeridos pelo excesso de mortalidade registada do que dos 28 mil confirmados pela autoridade sanitária; mais de 50 mil trabalhadores da área da Saúde foram infectados e 20 mil pessoas morreram em lares de recolhimento de idosos. Estas cifras situam o país entre os mais afectados do mundo. A preparação do sistema sanitário revelou-se obviamente deficiente, e em aspectos importantes assim continua. (...) A gestão dos dados tem sido desastrosa, com disparidade de critérios entre comunidades autónomas e mudanças de rumo a meio do processo. O país não pode ficar à mercê da repetição destes erros no caso de uma segunda vaga. É compreensível que o Governo não queira afugentar ainda mais o turismo, mas não enquanto desvaloriza a gravidade da situação. Há vidas em jogo.

Se o Governo não vê motivos para críticas à sua própria actuação, terão de ser os especialistas a encontrá-los. (...) Os cientistas questionam como é possível que Espanha, que supúnhamos dotada de um dos melhores sistemas sanitários do mundo, tenha sofrido o golpe do coronavírus com tanta intensidade e identificam os factores mais prováveis que originaram isto. O país carecia de um plano de preparação antipandémica, com sistemas de vigilância insuficientes, reduzida capacidade para fazer testes e uma generalizada escassez de equipamentos de protecção individual. As autoridades centrais e autonómicas reagiram tarde e os processos de decisão foram lentos.»

 

Porque transcrevo estas linhas? Pelo mais simples dos motivos: porque gostaria que houvesse editoriais destes na imprensa portuguesa. 

Infelizmente, procuro mas não os encontro. Se existem, estão bem escondidos. O que se vai lendo por cá é conversa mole, cheia de rodriguinhos e de complacência perante os decisores políticos e sanitários. O que é sintoma da profunda crise em que mergulhou a nossa imprensa.

Do meu baú (2)

por Pedro Correia, em 29.06.20

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As crises, à partida, são péssimas. Mas em jornalismo são óptimas: ficam sempre bem em qualquer manchete. Sobretudo quando surgem com a vaga avassaladora da que foi desencadeada pelo colapso do centenário Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos EUA. Uma queda que provocou um abalo à escala planetária, bem revelador da fragilidade dos circuitos económicos do mundo contemporâneo.

No dia seguinte, 16 de Setembro de 2008, a manchete do DN dizia quase tudo em apenas cinco palavras: «A pior crise desde 1929». Foi preciso aguardar oito décadas - e haver uma guerra mundial de permeio - para ocorrer uma derrocada financeira comparável à da tristemente célebre queda da Bolsa novaiorquina que mergulhou os EUA numa década de depressão. 

Consequências para o nosso país? Não havia problema, apressou-se a garantir a nossa suprema autoridade financeira, então gerida pelo inefável Vítor Constâncio: «Em Portugal, a exposição ao Lehman não é significativa, segundo o Banco de Portugal», lia-se na última frase do texto que acompanhava esta manchete.

Lá dentro, na página 7, outra declaração igualmente tranquilizadora: «Estamos a avaliar, mas a nossa exposição ao Lehman Brothers é absolutamente módica, muito pouco expressiva.» De um tal Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo, esse admirável modelo de sagacidade e lisura.

O caluniador

por Pedro Correia, em 24.06.20

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Esta noite, após ter visto a sua equipa perder contra um modesto onze açoriano no estádio da Luz com quatro golos sofridos, algo que não acontecia desde 1997, o treinador do Benfica procurou virar o foco da derrota para os jornalistas, usando palavras inaceitáveis. Por serem lesivas da honra e da consideração devidas aos profissionais da informação.

«Às vezes fico a pensar quem é que vocês andam a tentar promover para ficar no meu lugar ou quem é que lhes anda a pagar alguns almoços ou alguns jantares ou algumas viagens para entrar aqui no meu lugar», declarou Bruno Lage numa conferência de imprensa realizada naquele estádio e transmitida em directo para o país inteiro ver, ouvir e fixar.

Para meu espanto, nenhum repórter ali presente contestou de imediato o conteúdo calunioso desta declaração. E nem um só abandonou a sala em protesto contra a grosseria do treinador, como se impunha. Passividade e resignação, comer e calar: eis um exemplo inequívoco de uma classe profissional incapaz de se dar ao respeito. E que não pode queixar-se, portanto, de ser tratada desta forma por um indivíduo que saltou do anonimato para a fama em poucos meses precisamente devido aos jornalistas que agora insulta só porque um jogo lhe correu mal.

 

ADENDA: A reacção do Sindicato dos Jornalistas. E a da Associação dos Jornalistas de Desporto.

"Holy fuck!"

por Paulo Sousa, em 21.06.20

Em primeiro lugar tenho de explicar que usei para o título deste post as palavras com que no passado dia 16 o JN iniciou um artigo, no qual um doente nos EUA com 70 anos foi tratado durante 62 dias contra a doença do coronavírus e cuja conta do hospital ultrapassou os 1,1 milhões de dólares.

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Antes de dizer que este valor foi coberto pelo sistema Medicare o “jornalista” deu largas à sua interpretação da realidade dizendo que o paciente e os seus amigos “reflectem perplexos e banzados sobre o bizarro sistema de saúde dos Estados Unidos da América que, ao contrário da Europa e da maioria do mundo civilizado, não possui um Serviço Nacional de Saúde, como existe há décadas em Portugal, que proteja os seus contribuintes, mas está antes orientado em sistemas de seguros privados que não existem para tratar da saúde como um bem universal e um direito primordial, mas para dar lucros abissais numa lógica puramente capitalista que rende milhões às grandes corporações.

Ainda acrescenta que o sistema Medicare foi “criado na presidência de Barack Obama e que o actual presidente republicano Donald Trump ainda não conseguiu aniquilar.

O facto de o referido sistema Medicare ter sido fundado em 1966 é um detalhe que estragaria a narrativa e talvez por isso não é referido na “notícia”.

Estamos perante uma desonestidade que confirma o grau da lacaização de alguns jornalistas ao poder que, numa atitude bem socialista, preferem o lado confortável da actualidade ao lado certo da história.

 

Este assunto foi pescado no Insurgente.

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 18.06.20

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

 

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 
Texto reeditado no dia do décimo aniversário da morte de José Saramago.

Crise no PAN,crise no jornalismo

por Pedro Correia, em 17.06.20

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André Silva e Francisco Guerreiro, em imagem de arquivo

 

A melhor prova da falta de escrutínio actual dos partidos políticos por um jornalismo que oscila entre a mediocridade militante e o mero cumprimento da agenda oficial, como se picasse o ponto numa repartição pública, é-nos exibida, por estes dias, com a crise existente no PAN - partido encabeçado por André Silva, o líder político que goza de "melhor imprensa" em Portugal.

Uma crise agora tornada pública mas que tinha passado ao largo das redacções, apesar de vários títulos jornalísticos dispensarem máxima atenção a este partido por representar um "sinal de renovação" do nosso sistema político, "sem os defeitos e até os vícios" dos restantes. Pura ilusão, como está à vista.

 

Afinal ficamos ontem a saber que o único eurodeputado do PAN acaba de devolver o cartão partidário, saindo em ruptura com a "linha política global" dos animalistas. Francisco Guerreiro queixa-se, por exemplo, da "crescente e vincada colagem do PAN à esquerda", considerando que "quebra uma das bases filosóficas do partido, que não se revê nas dicotomias políticas tradicionais". E também disto, que especifica sem rodeios: a "recente apologia ao incentivo para a entrada de jovens no serviço militar (contra a base pacifista do partido), a passividade perante as acções geopolíticas da China na Europa e o aumento da agressividade discursiva" do PAN.

Hoje registou-se outro abandono. A mulher do eurodeputado, que já foi deputada municipal em Cascais e integrava a Comissão Política Distrital de Lisboa, bate com a porta deixando severas críticas à liderança animalista. 

«Nos últimos meses tenho assistido a uma centralização do debate e da acção política dentro do PAN, à falta de vontade em descentralizar e incluir ideias fora do 'núcleo duro', à ausência de debate político em matérias tão essenciais como o crescimento do partido no país e no estrangeiro (que faz com que não tenhamos várias distritais, nomeadamente no interior do país)», escreveu Sandra Marques numa rede social.

Acusações sérias, que não podem ficar sem resposta.

 

Temos, portanto, uma crise aberta neste partido cuja génese ocorreu à margem do escrutínio informativo. Os jornalistas que cobrem as actividades políticas, neste caso, foram os últimos a saber. Caso para concluir, portanto, que também o jornalismo está em crise - por desinteresse, por falta de investimento, pela contínua sangria dos melhores quadros, pela proliferação de "publirreportagens" que cada vez mais invadem o espaço noticioso.

Num passado pouco distante, nunca algo semelhante teria acontecido.

Parece mesmo publicidade

por Pedro Correia, em 30.05.20

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Hoje, às 13.59, no Primeiro Jornal da SIC

Em suas importantes saúdes

por Pedro Correia, em 25.05.20

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«O primeiro-ministro está na toalha com a mulher aqui na praia da Princesa, na Costa da Caparica. Decidiu vir apanhar banhos de sol, tal como o Presidente Marcelo fez hoje de manhã e ontem à hora de almoço, e dirigiu-se aqui à margem sul do Tejo, na praia da Princesa, na Costa da Caparica, para aproveitar a manhã de praia até porque o tempo convida a que as pessoas venham. Também numa forma de dar o exemplo aos portugueses. Isto depois de o Governo ter autorizado os portugueses a irem à praia e também a mergulhar, mesmo que a época balnear só comece no próximo dia 6 de Junho.»

Reportagem da TVI, ontem, à hora do almoço

 

«O Presidente da República voltou aqui, à baía de Cascais, por volta do meio-dia e meia. Ele veio de máscara, sozinho, à semelhança do que tinha feito ontem. Marcelo Rebelo de Sousa colocou-se no areal, deixou as suas coisas e dirigiu-se para a linha de água com a toalha e sempre com a máscara posta. O Presidente referiu que é importante que as pessoas estão a manter o distanciamento social na praia. Marcelo Rebelo de Sousa só tirou a máscara no momento imediatamente antes de entrar na água, depois aproveitou para nadar.»

Reportagem da TVI, ontem, à hora do almoço

 

«Pelo segundo dia consecutivo, o Presidente da República veio até aqui, à praia da Conceição, em Cascais, a praia onde habitualmente costuma dar aqueles mergulhos ao fim de semana, e este fim de semana de calor em Portugal não foi excepção. Para o Presidente da República, é preciso também retomar um pouco esta normalidade, agora com redobrados cuidados. E assim fez também Marcelo Rebelo de Sousa: depois de ter estado alguns minutos a dar as suas braçadas no mar, ele saiu e imediatamente, no momento em que saiu, pôs a máscara.»

Reportagem da SIC, ontem, à hora do almoço

 

«Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes.»

Diário de Notícias, na primeira edição (29 de Dezembro de 1864)

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por Pedro Correia, em 21.05.20

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Foto: Miguel A. Lopes / Lusa

 

O primeiro-ministro foi almoçar com o presidente da Assembleia da República. Isto é notícia cá na terra: convocaram-se os jornalistas, que logo acorreram, e todos derramaram abundante eco de tal facto.

No final, Rodrigues não teve nada de mais interessante para dizer do que recomendar, ele também, o voto em Rebelo de Sousa, o candidato socialista. Costa, bem ao seu estilo, ironizou algo desdenhosamente com um dos raros méritos da pandemia: agora já não anda a ser tocado ou atropelado por jornalistas, que mantêm irrepreensível zelo na manutenção da distância física. A que quase todos chamam "distanciamento social" - expressão de óbvia importação dos States, a terra de todos os absurdos. E nós adoramos aportuguesar de imediato qualquer expressão imbecil que traga selo "amaricano".

 

Rebelo de Sousa, também muito ao seu estilo, decidiu não ficar atrás. No dia seguinte (ontem) decidiu ele almoçar num restaurante e fez questão de que isso fosse igualmente notícia.

Falta muito pouco para regressarmos ao espírito da época em que se imprimiu a primeira notícia do Diário de Notícias, a 29 de Dezembro de 1864: «Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes».

 

Convocados os jornalistas, que acorreram com idêntico zelo ao que haviam revelado na véspera e o mesmo sacrossanto respeitinho sanitário, Sua Excelência abancou no restaurante usando máscara e luvas, enquanto o Chefe da Casa Civil da Presidência da República, sentado à conveniente distância de dois metros, transportava uma aparatosa viseira.

Lá estiveram nestes preparos, muito "higienizados", enquanto a cordata chusma de repórteres filmava e fotograva. Sem que ninguém ousasse dirigir ao Presidente a pergunta que se impunha: «Se veio aqui para demonstrar aos portugueses que agora já podem ter confiança nos restaurantes por que motivo está sentado à mesa de máscara e luvas, e a pessoa que o acompanha veio de viseira, à semelhança dos agentes da GNR quando inspeccionam veículos suspeitos?»

 

Ao nosso enluvado e mascarado Presidente parece não ter chegado ainda o eco das mais recentes "evidências científicas" divulgadas pela Organização Mundial de Saúde: não existem provas de contágio de Covid-19 através de superfícies eventualmente contaminadas. Segundo a OMS, a constante desinfecção das ditas é um mero placebo, equivalente ao copo de água que alguns tomam todas as manhãs em jejum e certamente menos intrusiva do que a hidroxicloroquina sem prescrição médica que Donald Trump ingere: dá «maior tranquilidade à população»

Que bom: poderemos recuperar a vontade de "tocar em superfícies". Faltam poucos dias para que as damas sanitárias que nos pastoreiam anunciem a Boa Nova aos indígenas em conferência de imprensa. 

Mal posso esperar.

O Irão e a Áustrália ficam no mesmo hemisfério

por João Pedro Pimenta, em 24.04.20

A propósito da questão da sazonalidade do covid, estava ontem a ver um artigo de um "jornal de referência" que duvidava da mesma porque o vírus tinha atingido em força a Austrália e o Irão, porque são "terras quentes".


Ora bem: a Austrália realmente recebeu o vírus no Verão, embora até nem tenha sido assim tão atingida (tendo começado bem antes, tem números claramente melhores que os nossos, tanto em contaminados como em mortes, e a maioria já recuperou). Mas o Irão estaria assim tão "quente"? A antiga Pérsia apanhou com isto em força em Fevereiro, sobretudo na região mais a Norte, onde fica Teerão e a cidade santa de Qom, principal foco da coisa. Não é preciso ir muito longe para se concluir que a neve nas montanhas da região, ali para o Elburz, não é propriamente artificial, e verificar que a temperatura média por ali entre Fevereiro e Março vai de 0 a 15 graus, com um clima frio e seco, o mais apropriado para este vírus. Quentíssimo, como se vê.

Às vezes o jornalismo de rigor devia preocupar-se em ser realmente rigoroso e não só a apregoá-lo.

Contra a pirataria

por Pedro Correia, em 10.04.20

Aos meus amigos que por estes dias se tornam coniventes com a pirataria, partilhando livros inteiros, jornais inteiros e revistas inteiras por via digital ou acedendo "grátis" a filmes e séries, como já fazem com a música, chamo a atenção: os profissionais da escrita, do cinema e da televisão vivem do seu trabalho. No dia em que ninguém pagar por um livro, um jornal, uma revista, um filme ou uma série deixaremos de ter acesso a estes bens de serviço público e utilidade social. Pelo mais simples e lamentável dos motivos: eles deixarão de existir.

Ao fazermos um banalíssimo clique num dispositivo electrónico, distribuindo por outros aquilo que não pagámos, estamos a dar mais uma machadada em profissões que em larga medida já caminham sobre o fio da navalha, condenando-as à extinção a curto prazo.

Um mundo sem cultura, nem informação nem entretenimento de qualidade será um mundo mais árido, mais pobre, mais primitivo, mais inóspito. Será um mundo muito menos livre.

Um mundo em que nenhum de nós desejaria viver.

E não é um cenário de ficção: pode mesmo acontecer. Só depende de nós.

Tema único [actualizado]

por Pedro Correia, em 11.03.20

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Coronavírus, hoje, nos telediários da hora do almoço:

 

SIC, Primeiro Jornal: 1 hora e 8 minutos

TVI, Jornal da Uma: 58 minutos

RTP, Jornal da Tarde: 48 minutos

 

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Coronavírus, hoje, nos telediários da hora do jantar:

 

SIC, Jornal da Noite: 1 hora e 15 minutos

TVI, Jornal das 8: 1 hora e 14 minutos

RTP, Telejornal: 54 minutos

Trinta anos de "Público"

por Pedro Correia, em 05.03.20

 

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Faz hoje trinta anos, surgia a primeira edição do Público. De todos os projectos em que estive envolvido na minha vida profissional, este foi um dos mais gratificantes. Um projecto nascido cerca de um ano antes, em que andámos a escrever "para o boneco", como na altura ironizavam colegas de outros jornais, mal disfarçando o nervosismo com que o novo diário era encarado pela concorrência. Havia bons motivos para isso, como depressa se viu. O Público não foi apenas mais um título da nossa imprensa: foi um periódico que marcou, logo ao nascer, o jornalismo português - pela sua independência editorial, pela qualidade da sua redacção e pela abordagem séria, clara e completa dos temas, segundo os melhores padrões europeus.

Fui - durante três anos - o primeiro correspondente em Macau do jornal. E logo nos primeiros meses assinei várias manchetes, dada a situação agitadíssima que então se vivia no território, nessa recta final da administração do governador Carlos Melancia. Guardo as melhores recordações dessa etapa profissional tão intensa e estimulante, sob a direcção do Vicente Jorge Silva, um dos melhores jornalistas com quem tive o privilégio de trabalhar. O meu percurso profissional conduziu-me depois a outras paragens, mas continuo a sentir particular orgulho por ter integrado essa equipa de pioneiros. E ainda hoje, apesar de todas as vicissitudes do seu percurso, sinto um carinho muito especial pelo Público. A todos quantos lá trabalham, muitos dos quais são meus amigos, envio daqui um caloroso abraço de felicitações.

Propaganda com charada

por Pedro Correia, em 03.03.20

Acabo de ouvir esta frase, no lançamento de uma peça num telediário da hora do almoço: «Lisboa é uma das cidades europeias onde se pode envelhecer activamente com dignidade.»

Alguém consegue explicar-me o que isto significa?

Um caso de censura

por Pedro Correia, em 03.03.20

 

A censura pode tornar os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.

Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.

A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.

A chuva e o bom tempo

por Pedro Correia, em 25.01.20

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Lembram-se do "risco de seca severa e extrema" que ainda há pouco nos gritavam ao domicílio de telediário em telediário? Lembram-se dos desesperados alertas para as "barragens em mínimos históricos de água", entre outras mensagens de igual teor apocalíptico?

Foi há pouco tempo. Trombeteado pelos mesmos órgãos de informação que agora lançam uivos de advertência contra o "mau tempo". E o que é afinal o "mau tempo"? Simplesmente a boa e velha chuva invernal, acompanhada do inevitável e velho frio e por vezes da pura, alva e velha neve. Tudo próprio da estação. A mesma chuva pela qual as tais trombetas do Apocalipse imploravam para encher barragens e pôr fim à seca.

Um final feliz é uma chatice quando se desespera por cliques em tempo de escassez. Não de chuva, mas de leitores e audiência.

O único poder dos jornalistas

por Pedro Correia, em 24.01.20

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É um disparate considerar o jornalismo o "quarto poder". Os jornalistas não exercem nenhuma função que possa equivaler-se aos poderes clássicos dos políticos que legislam, governam e definem as normas destinadas a ser aplicadas pelos magistrados nos tribunais.

Um jornalista só tem um poder ao seu alcance: o poder da pergunta. Cabe-lhe suscitar questões, desfazer dúvidas, interrogar-se sobre tudo quanto não sabe. O simples poder da pergunta, quando bem exercido, tem um inegável valor social, permitindo aferir o comportamento dos agentes políticos e sedimentar a cidadania. Naturalmente, as perguntas que se impõem só podem ser feitas em sociedades livres - por isso os sistemas ditatoriais elegem sempre os jornalistas como inimigos principais. Acertam no alvo ao proceder assim.

Infelizmente, muitos profissionais da informação demitem-se do seu direito - que é também um dever deontológico - de questionar os poderosos. É, de facto, uma missão muitas vezes incómoda - mas da qual nenhum jornalista digno da profissão que exerce deve demitir-se sob pretexto algum.

Há que continuar a interrogar, a interpelar, a questionar ministros, deputados, autarcas, gestores públicos, líderes partidários. Mesmo quando muitas portas se fecham nas caras, quando o assessor do assessor manda dizer que Sua Excelência não está, quando as ameaças de represálias surgem com a insídia recomendada nos manuais do ramo, há que continuar a fazer perguntas. Incomode-se quem se incomodar.

Este é o único poder dos jornalistas. E não se iludam: não existe mais nenhum.


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