Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Ultracatólico

Pedro Correia, 19.11.25

 

O jornal digital Observador, transcrevendo uma notícia da Lusa sobre a primeira volta da eleição presidencial no Chile, chama «advogado ultracatólico» ao candidato conservador José Antonio Kast, que enfrentará no segundo e decisivo escrutínio, em Dezembro, a comunista Jeanette Jara - por sua vez ali identificada como «progressista».

Interrogo-me o que será um «ultracatólico».

O Papa?

O Estado do Vaticano?

O putativo líder bloquista José Manuel Pureza, apresentado há dias no Público como «católico-militante», será igualmente ultra? 

Interrogo-me também se a Lusa e o Observador, por coerência, usarão as designações "ultra-islâmico" ou "ultra-muçulmano". Havendo critério uniforme, dir-se-ia que sim. Mas fiz a pesquisa e recebi esta resposta: «nenhum resultado».

Só haverá "ultras" entre os católicos? Talvez um futuro texto do Observador me esclareça.

Irei esperar. Sentado.

Diz que é uma espécie de jornalismo

Pedro Correia, 04.11.25

aaaaa.jpg

André Ventura, o tal que se queixa de ser menosprezado pela "comunicação social falida", não perde uma oportunidade para aparecer nesses mesmos órgãos de informação. Logo à noite vai protagonizar a sua 38.ª entrevista televisiva do ano, desta vez na RTP. Em "rigoroso exclusivo" - tal como as 37 anteriores. 

Desproporção brutal: nenhum outro dirigente partidário português surge tantas vezes na pantalha. Uma dessas entrevistas - transmitida a 19 de Agosto, já em pré-campanha autárquica - durou duas horas e dois minutos. Algo inaudito: quanto mais ele "arrasa" os jornalistas, para gáudio da claque venturista, mais eles lhe dão palco. 

Mas não só os jornalistas: também a tribo comentadeira não passa sem Ventura. E promove-o até à náusea. Atingiu-se o cúmulo do ridículo há três dias, na noite de sábado, quando Ventura foi "entrevistado" por dois políticos travestidos de jornalistas: o conservador Francisco Rodrigues dos Santos, que em Janeiro de 2022 conduziu o CDS ao pior resultado eleitoral da sua história, e o socialista Pedro Costa (filho do actual presidente do Conselho Europeu), que em Abril de 2024 abandonou a presidência da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, muito antes do fim do mandato para que havia sido eleito. 

Ambos proporcionaram ao líder do Chega outro dos seus habituais momentos de show off - daqueles que aproveita para transformar a nossa vida pública numa telenovela mexicana em sessões contínuas.

 

Terão aqueles dois fracassados na política competência e aptidão para conduzir entrevistas num canal televisivo? Adquiriram carteira profissional de jornalista? E como reagirão os profissionais da informação da CNN Portugal perante esta insólita concorrência que os desconsidera de forma tão ostensiva?

Ignoro se já houve reacção da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, que há um ano emitiu sinal de vida ao investir contra Maria João Avillez - jornalista comprovada e consagrada, com mais de meio século de actividade profissional - chegando ao ponto de admitir uma participação ao Ministério Público contra ela por alegada "usurpação de funções".

Vou aguardar que a mesma CCPJ ouse agora acusar Chicão e Costa júnior de "usurpar funções" por entrevistarem candidatos a Belém em canal informativo de televisão. Mas esperarei sentado. Com a certeza antecipada de que não se atreverá a tanto. É mais cómodo fingir que nada disto alguma vez aconteceu.

Entrevistadores da treta, falsos jornalistas, espaços informativos tornados sessões de entretenimento. Qualquer indignação contra fake news, neste panorama, soa fatalmente a hipocrisia: ninguém poderá levá-la a sério.

Pioneiro na democracia e no jornalismo

Na morte de Francisco Pinto Balsemão (1937-2025)

Pedro Correia, 23.10.25

balsas.webp

 

Francisco Pinto Balsemão, falecido na noite de anteontem com 88 anos, era um dos escassos sobreviventes daquele tempo pioneiro em que se instaurou a democracia em Portugal. A democracia genuína, não o regime censitário da monarquia constitucional nem a caótica década e meia da ilusória "aurora republicana" de 1910. Como fundador do PSD - então crismado Partido Popular Democrático - de que era militante n.º 1, integrou o núcleo de protagonistas daquela irrepetível era iniciada com a Revolução dos Cravos e que teve como marco essencial a Constituição, prestes a completar meio século de existência.

A importância de Balsemão começara ainda antes do 25 de Abril como administrador de jornais, sendo ele próprio jornalista. Ao transformar o Diário Popular num periódico ousado e de grande audiência no crepúsculo do salazarismo e sobretudo a partir de 1972, ao preparar a fundação do Expresso, cujo primeiro número surgiu em 6 de Janeiro de 1973, prenunciando a derrocada do Estado Novo e a instauração do liberalismo político que aqui chegou com décadas de atraso. 

Hoje, aos olhos de muitos, parece ter sido um percurso linear. Nada mais equívoco. Balsemão acreditou nas promessas liberalizantes de Marcello Caetano, que fora seu professor na Faculdade de Direito de Lisboa, e aceitou integrar - como independente - as listas da União Nacional em 1969. Mas o jogo estava viciado - desde a escassa dimensão do universo eleitoral até à impossibilidade de fiscalização real dos votos pela oposição, passando pelas fortes restrições à liberdade de associação e reunião. Sem esquecer o papel castrador da censura à imprensa.

A Primavera virou Inverno. Balsemão e os restantes membros da Ala Liberal nesse falso parlamento que integrava 100 por cento de eleitos pela UN (Sá Carneiro, Magalhães Mota, Miller Guerra, José Pinto Leite, Mota Amaral, Raquel Ribeiro, Correia da Cunha, Pinto Machado e alguns outros) distanciaram-se do sucessor de Salazar, que se limitara a introduzir medidas de cosmética - a PIDE passou a designar-se Direcção-Geral de Segurança, a Censura derivou para Exame Prémio, a anacrónica UN deu lugar à Acção Nacional Popular - produto igual com rótulo novo.

A guerra sem solução política à vista nos três palcos africanos paralisava o regime e condenou-o à extinção.

 

Seguiram-se outros desafios, com novas frentes de combate. Balsemão resistiu quando, no frenesim revolucionário, o Expresso chegou a ser rotulado de «voz do fascismo»: foi essencial a luta que travou pela liberdade de imprensa recorrendo até aos seus numerosos contactos internacionais. Como também marcou o País pela legislação que regulou o sector da informação - e que, no essencial, subsiste nos dias de hoje.

Sem esquecer a sua acção como deputado constituinte, eleito naquela gloriosa jornada libertadora de Abril de 1975 em que pela primeira vez todos os portugueses maiores de 21 anos puderam ir a votos. Foi vice-presidente da Assembleia Constituinte. Manteve sólida parceria com Francisco Sá Carneiro no partido e mais tarde, naquele efémero Governo que durou de 3 de Janeiro a 4 de Dezembro de 1980. 

Num país em choque pelo desaparecimento simultâneo do primeiro-ministro e do ministro da Defesa, Amaro da Costa, na queda da fatídica avioneta em Camarate, foi Balsemão quem pegou no leme: era o sucessor natural de Sá Carneiro no PSD e no Executivo. O Expresso ficara confiado a Marcelo Rebelo de Sousa: nenhum outro jornal criticou então tanto o Governo.

Era um teste decisivo ao fair play democrático do seu fundador. Superado com distinção.

 

Permaneceu cerca de dois anos e meio à frente do Executivo - até Junho de 1983. Tempo suficiente para ficar ligado a dois marcos essenciais: a revisão constitucional de 1982, que extinguiu o Conselho da Revolução, último resquício de tutela militar num regime que só a partir daí adoptou a matriz civilista integral das democracias ocidentais. Nascia o Tribunal Constitucional, consolidava-se a divisão de poderes no Estado, deram-se passos decisivos rumo à economia de mercado que a revisão de 1989 iria acentuar.

Foi também um período decisivo para a futura adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia graças à acção de ministros como o titular dos Negócios Estrangeiros, André Gonçalves Pereira, e o da Integração Europeia, Álvaro Barreto.

Com Balsemão a liderar o processo.

Era um senador da república. Chegou a alimentar ambições presidenciais, mas Cavaco Silva cortou-lhe duas vezes o passo: primeiro em 1996 (quando perdeu para Jorge Sampaio), depois em 2006 (quando derrotou Manuel Alegre e Mário Soares).

Ocupava há 20 anos um merecido assento no Conselho de Estado.

 

Mas foi mesmo no jornalismo que a sua acção se revelou fundamental. Após ter fundado o primeiro semanário português com figurino internacional, voltou a ser pioneiro ao lançar o primeiro canal privado de televisão a nível nacional: a SIC, cuja emissão inaugural ocorreu a 6 de Outubro de 1992. Em Janeiro de 2002 iniciaram-se as emissões regulares da SIC Notícias, primeiro canal televisivo noticioso a transmitir 24 horas. 

«Tinha a elegância do risco», como acertadamente observou Rui Moreira em reacção ao seu falecimento. Também nisto protagonizou tempos irrepetíveis. Tempos em que os grupos informativos se algutinavam em torno de um clã familiar e mantinham como líder de referência alguém com manifesta paixão pelo jornalismo. 

Com a morte de Balsemão, também isto desaparece: na década e meia mais recente, a paisagem mediática transfigurou-se tanto ou mais do que a paisagem política. 

Tanta coisa se perdeu pelo caminho - desde logo uma certa forma gentil, cordata e dialogante de assinalar presença no espaço público. A marca distintiva de Francisco José Pereira Pinto Balsemão.

Vivemos tempos diferentes. Poucos hoje arriscarão dizer que são melhores.

 

Leitura complementar: A arte de resistir à sedução do poder (16 de Setembro de 2021)

Justiça e jornalismo, viveiros de populistas

Pedro Correia, 10.10.25

protesto-lula-677x450.png

Encerra hoje a campanha eleitoral para as autárquicas do próximo domingo. Ignorada em larga medida pela generalidade dos órgãos de informação, que adoptaram a mesma grelha editorial aplicada às eleições para a Assembleia da República. Vigora a lei do menor esforço: as equipas de reportagem seguem a agenda diária dos "líderes", mesmo sabendo que nenhum deles é candidato a lugar algum neste escrutínio. Estão em Vinhais, Alcobaça ou Alhos Vedros integrados na comitiva dos caudilhos partidários como se caminhassem numa rua de Lisboa. Não fazem qualquer pergunta de âmbito local ou regional: só se interessam pela politiquice nacional.

Toda a campanha foi percorrida por temas laterais. Desde a ardilosa travessia mediterrânica da doutora Mortágua até ao famigerado "caso Spinumviva" - enésima intromissão do Ministério Público em campanhas eleitorais, repetindo o sucedido em Março. Na altura o tiro saiu-lhes pela culatra: a AD ampliou o elenco parlamentar e o PS sofreu a mais humilhante derrota da sua história. Faltam 48 horas para sabermos se isto vai repetir-se, desta vez no plano autárquico. 

Agora que tanto se fala em populismo, aqui fica o sucinto balanço desta campanha em que foi notória a falta de sintonia entre o país mediático e o país real. Tanto o manifesto desinteresse dos jornalistas pelo Portugal profundo como a crescente politização dos órgãos de investigação criminal apenas contribuem para o aumento das forças populistas que uns e outros dizem desprezar.

André Ventura certamente agradecerá: desta vez nem precisou de protagonizar nenhum psicodrama hospitalar para levar a água ao seu moinho. A desvalorização do carácter local e regional desta campanha beneficia o Chega, menos implantado no terreno do que as forças políticas tradicionais. E a instrumentalização de jornais e televisões pelas habituais fontes anónimas do Ministério Público contaminou fatalmente o debate político, induzindo a noção de que a "roubalheira" é endémica neste país carente de uma falange salvadora contra a "impunidade".

Depois não se queixem.

"Populares", repórteres e teleteóricos

Pedro Correia, 22.08.25

images.jpg

 

Meio Portugal continua a arder: cerca de 275 mil hectares calcinados, correspondentes a quase 3% do território nacional.

Vejo imagens do incêndio na Gardunha com um nó na garganta. Imagens que me são familiares desde a infância: Alpedrinha, Castelo Novo, Alcongosta, Souto da Casa, São Vicente da Beira. Dez aldeias do concelho do Fundão ameaçadas. A impotência das pessoas (que alguns repórteres improvisados designam "populares", com indisfarçável desdém classista) perante o macabro anel de fogo que a todo o momento ameaça destruir-lhes os parcos haveres reunidos em décadas de esforço ininterrupto.

No conforto dos estúdios climatizados, legiões de teleteóricos debitam soluções mágicas para este terror que nos assombra Verão após Verão: de repente, os tudólogos tornam-se também especialistas no combate aos incêndios agrícolas e florestais. Enquanto o vedetismo mais desbragado floresce graças ao drama: há os "enviados especiais aos fogos" com direito a apelido em caixa alta, ao encontro dos "populares" que falam português com cerrada pronúncia beirã, levando alguns editores televisivos a legendar o que dizem.

Sinal, entre tantos outros, de que existem dois países dentro do País.

 

Oiço com atenção os repórteres em diferentes canais. Há uma enorme diferença entre os que aterram lá de pára-quedas sem nada saberem e aqueles que têm ligação à terra, à província e à escassa gente que ainda lá mora. Os primeiros nunca ouviram falar num aceiro, numa cumeada, em corta-fogos, em máquinas de arrasto. Não distinguem giesta de tojo nem carvalho de castanheiro. Os segundos sabem tudo isto. E valorizam a intervenção dos aviões Fire Boss no combate ao inferno das chamas no mato deixado ao abandono - anfíbios e versáteis, aterram em pistas curtas, são mais úteis nestas operações do que os Canadairs de que tanto se fala a propósito ou despropósito.

Se há jornalistas que merecem Prémio Gazeta são estes profissionais da reportagem pura e dura que trabalham com conhecimento e sensibilidade, sem horários e quase sem descanso. Tantas vezes esquecidos nas promoções internas das empresas onde trabalham. Eles são a "malta da ferrugem", operários do ofício de relatar notícias.

Nenhum deles se imagina vedeta: vedetas são os que aproveitam estas tragédias para exibições de obsceno narcisismo defronte das câmaras. Nenhum deles se imagina herói: heróis são aqueles portugueses em desespero a quem eles dão nome e voz.

 

Leitura complementar:

O pesadelo (17 de Setembro de 2024)

"La culpa es del eucalipto". Bulos y medias verdades que avivan la tragedia de los incendios. (Maria Guerrero, El Confidencial)

Olhem-me isto

Pedro Correia, 08.08.25

   aaaa.png  dddd.png

    bbbbb.png  ccc.png

 

Há coincidências curiosas. A tal ponto que hesito até em chamar-lhes coincidências. Aconteceu-me esta manhã, ao pegar no Expresso. Tem uma falsa capa, invólucro publicitário de quatro páginas todo consagrado, vejam lá, ao concelho de Olhão. Com os maiores encómios, algo típico das peças de propaganda comercial. «Olhão tem alma», proclama a falsa manchete. «A beleza de Olhão», reza outro título. 

Caramba, já cheira a autárquicas - pensei, mal peguei no jornal. De facto, estamos a dois meses do próximo acto eleitoral. Olhão, município confiada pelos eleitores ao PS desde 1976, está ainda sob liderança de António Pina, que nestes 20 anos foi vereador (2005-2009), vice-presidente da câmara (2009-2013) e presidente (nos últimos 12 anos). Não será reconduzido por ter atingido o limite máximo de mandatos.

Quer transferir-se para um concelho vizinho: será o candidato socialista à câmara de Faro. E o que tem isto a ver com o Expresso? Nada. Ou tudo, depende do ponto de vista. É que nesta edição embrulhada em publicidade a Olhão, surge uma sondagem - amplamente publicitada no semanário - que atribui a vitória ao PS precisamente no principal município algarvio. «Tudo aberto em Faro, com ligeira vantagem socialista».

António Pina aparece duas vezes retratado: na publicidade e no espaço informativo. «Viver em Olhão é viver em equilíbrio entre o mar, a tradição e a autenticidade», enfatiza o ainda-olhanense autarca que sonha ser neo-farense já a 12 de Outubro. Na página 10 desta edição, outra imagem dele, caminhando na praia e esta legenda: «António Pina andou em campanha ao lado de José Luís Carneiro.»

As fotografias são diferentes, a pessoa em foco no Expresso é a mesma. Raio de coincidência. Não haveria outra semana para divulgar esta sondagem?

Desta vez serás tu, Rui Borges

Pedro Correia, 17.07.25

rui borges.jpg

 

Espero que a redacção do Expresso, daqui a cinco meses, eleja Rui Borges como Figura Nacional de 2025. Pela mesma lógica que a levou em Dezembro último a escolher Ruben Amorim só para não destacar Luís Montenegro. O primeiro venceu o campeonato nacional de futebol, repetindo uma proeza que já alcançara três anos antes. O segundo fez regressar o PSD ao Governo quase uma década depois. 

Pela mesma lógica de elevar a bola acima da política, Borges merece em 2025 muito mais do que Amorim há um ano. Os factos comprovam: conquistou o primeiro bicampeonato em 74 anos e a primeira dobradinha (Liga + Taça de Portugal) para o Sporting desde 2002. O antecessor, agora técnico do Manchester United, ficou em 15.º lugar no campeonato inglês e não conseguiu qualificar a equipa para nenhuma competição de âmbito europeu: o Expresso parece ter-lhe dado azar. «O magnetismo do líder sedutor e genuíno» andou ausente em parte incerta e o «gigante United» cumpriu a sua 12.ª temporada consecutiva sem vencer a Premier League. Nem parece gigante.

Sob este prisma, talvez Montenegro até agradeça ficar novamente excluído da escolha final do semanário que há um ano o ignorou: azar é coisa que o primeiro-ministro certamente dispensa. Mesmo tendo também vencido, à sua maneira, um bicampeonato: a AD, com ele ao leme, triunfou pelo segundo ano seguido numa eleição legislativa - desta vez com a «maioria maior» que o presidente do partido laranja pedira aos eleitores. Saindo das urnas, a 18 de Maio, com 31,8% (+ 1,7% do que em 10 de Março de 2024), 91 deputados (+ 11), 2 milhões de votos (+ 200 mil) e mais 9 pontos percentuais do que o segundo classificado (14 meses antes conseguira só +0,9).

Depois de Amorim, avança Borges. Antes assim. Viva o Sporting bicampeão!

Mania de meterem o Salazar em tudo

Pedro Correia, 28.05.25

aaaaa.jpg

 

Pecado do jornalismo actual: lança-se para fora de pé, debita erros que passam despercebidos na mecânica das redacções. Ninguém vê, ninguém repara, ninguém corta, ninguém controla. Ninguém quer saber.

Às vezes o disparate surge totalmente a despropósito. Aconteceu domingo, no Público (p. 29), antevendo o duelo entre Sporting e Benfica da Taça de Portugal.

Em 1970, lê-se ali, «Simões, o capitão, recebeu o troféu das mãos de António de Oliveira Salazar, que iria morrer um mês e meio depois desta final».

Disparate. Salazar, inválido, estava fora do poder desde Setembro de 1968. Nunca foi, tanto quanto sei, a nenhuma final da Taça (mandava o Presidente da República, seu subalterno) e detestava futebol.

Enfim, tudo errado.

Sem a menor necessidade: já é mania de meterem o Salazar em tudo.

Ignorância? Desleixo? Incompetência? Talvez seja apenas azar, para rimar com Salazar. Logo num jornal que faz incessantes e sempre pertinentes prédicas contra a desinformação. 

«Às escuras» em pleno dia de sol

Crónica lusa do «grande apagão» ibérico de 28 de Abril

Pedro Correia, 30.04.25

b72aea94-9ded-4c9c-bbfc-a405a0c63216.jpg

Vivemos na era das hipérboles: não custa perceber a popularidade de Donald Trump, o hiperbólico por excelência que estimula a proliferação de tantos epígonos. Até em Portugal já temos um Donaldinho. 

Sendo este o panorama, não admira que uma súbita falha de energia se converta de imediato em apagão. Faz sentido. Mas há logo quem cavalgue o aumentativo e parta à desfilada rumo ao reino da hipérbole. Daí a nada converte-se em apagão geral e não demora até que lhe chamem grande apagão

Dia inusitado, esse de anteontem. Em que uma quebra de fornecimento de energia eléctrica ocorrido em Espanha produziu consequências imediatas também em Portugal: o país só não ficou às escuras por ter ocorrido em pleno dia, por acaso um dos raros com sol neste 2025 tão chuvoso e nublado.

 

Eram 11.33 quando a coisa aconteceu. «Teve o efeito de um sismo», viria a declarar um idiota. Sem fazer ideia dos estragos que um abalo sísmico de forte intensidade pode produzir em Lisboa, onde ainda são visíveis cicatrizes do cataclismo de 1755.

Este será dos que desatam a aproveitar ocasiões como a de 28 de Abril para espalhar boatos, propagando as teses mais alarmistas: o pânico vende, como evidencia um populista canal de televisão, não por acaso o que serviu de berço ao Donaldinho tuga.

Apanhado de surpresa, como qualquer de nós, procurei a minha lanterna de pilhas, na gaveta do costume, e verifiquei que funcionava. Estava garantida iluminação mínima quando a noite caísse. Água, sem problema: tenho sempre quatro garrafões de cinco litros prontos para uma situação de emergência.

Saí à rua. Os semáforos apagados produziam sensação de caos rodoviário. Mas pude testemunhar o civismo da esmagadora maioria das pessoas, mesmo nos cruzamentos mais congestionados. À falta do velho polícia-sinaleiro, logo cidadãos responsáveis se ofereciam para orientar o trânsito.

Foi complicado, mas funcionou. Sem registo de acidentes.

 

5019f4d7-6ecd-4b12-8cfb-af2f735a2f23.jpg

Admito que tenha havido crises de ansiedade. Sobretudo em pessoas que ficaram presas em elevadores ou nas carruagens do metro. E não faltou quem se interrogasse sobre o destino dos bens alimentares guardados no frigorífico. Preocupações menores, no quadro geral. Nenhum registo de colapso em hospitais, escolas, serviços de emergência. Congestionamento, houve os do trânsito - agravados pela greve da CP ocorrida nesse dia. E no aeroporto de Lisboa, devido à suspensão dos voos. 

Seis horas depois do apagão geral, nem o canal oficioso do alarmismo-mor conseguia legendas mais sugestivas do que estas: «Lojas e restaurantes encerraram»; «Centro comercial às escuras»; «Cafés sem multibanco»; «Autocarros lotados em Lisboa»«Faro: um voo cancelado»

Tal como nos dias iniciais da pandemia, houve quem corresse a mercearias e supermercados em busca de garrafas de água, latas de atum e rolos de papel higiénico. Tudo coisas que qualquer de nós deve ter sempre em casa, haja o que houver. Não é exclusivo português: em Espanha aconteceu o mesmo. Ou pior.

 

abcbde27-21d0-4457-bba2-fdd14ab49f54.jpg

Ansiedade extrema, só daqueles que se imaginam incapazes de viver num mundo analógico, escravizados pela tecnologia ao ponto de se tornarem analfabetos funcionais sem ferramenta digital. Personagens vivas dessa perturbante e premonitória novela chamada O Silêncio, de Don DeLillo.

Sensação acentuada quando os operadores desligaram o 5G para garantir serviços mínimos. Os difusores de boatos via WhatsApp tiveram de suspender a faina.

Afinal não precisei da minha lanterna a pilhas. Também as velhinhas velas de estearina que muitos compraram durante o dia ficaram por estrear. A partir das 18.30 a energia eléctrica foi regressando, os dados móveis reacenderam-se: às 20.30 caía a noite sem grande parte do País ficar às escuras.

O aumentativo daria lugar ao diminutivo. «Apagão com impacto pequeno na economia», assegurava ontem o Jornal de Negócios. Admitindo que possamos ter perdido apenas cerca de 0,1% do PIB trimestral.

Sinal inequívoco de normalidade: volta a falar-se imenso em futebol.

Tanto quanto se sabe, o grande apagão ter-se-á devido a uma sobrecarga do armazenamento de energias renováveis no país vizinho. Mas há inquéritos em curso, tanto em Espanha como em Portugal: só mesmo quem sabe poderá esclarecer. Não certamente os tudólogos que desataram a abrir a matraca em sessões contínuas sem fazerem a menor ideia do assunto.

 

4c3f8b10-c40f-4a51-990d-145f2018f5ba.jpg

Manhã cedo, o Público saía ontem para as bancas em versão minguada, resumindo assim, em capa digna de filme expressionista alemão, o que acontecera na véspera: «O dia de um país desorientado e às escuras paralisado em muitos sectores, sem saber quando haveria finalmente luz e porque é que ela se foi.» Nem a menor alusão ao facto de ter havido um apagão ibérico que abrangeu até o sul de França. Estranho num jornal como este, habitualmente atento ao que se passa além-fronteiras.

«Como cidadã, ontem passei um dia difícil», desabafou já de noite uma comentadora residente na TV. Comovedora confissão.

 

World-Snooker-Championship.jpg

Mas o mais pungente quadro de «drama, tragédia e horror», ao estilo do saudoso Artur Albarran, surgiu em crónica dada à luz (sem ironia) no sisudo Observador.

«Pânico e histeria, ansiedade e caos» num país «sem ninguém ao volante». Foi neste tom calamitoso que um senhor cujo nome eu até agora desconhecia descreveu o dia 28 de Abril em Portugal. 

Apanhado no meio do trânsito sem poder escapar ao engarrafamento? Afectado pela suspensão do acesso à página digital da Autoridade Tributária? Vítima do cancelamento daquele solitário voo de Faro? Nada disso. O cavalheiro até reside «na tranquilidade dos montes, com electricidade própria, internet por satélite Starlink e TV por internet». As dores do mundo não o afligem.

Acontece que começou a receber maçadoras mensagens dando-lhe nota do grande apagão geral que o impediram de continuar a assistir, com plácida bonomia, ao Campeonato do Mundo de Snooker. Vai daí, encheu-se de brios solidários e descarregou a bílis apocalíptica em 12.995 caracteres. Até os montes tremeram.

Solidarizo-me com ele. Deve ser chato.

Isto é jornalismo: o outro lado do espelho, onde também espreitam raios de luz

Pedro Correia, 08.04.25

olivais.jpg

Felizmente não vão faltando peças jornalísticas que nos compensam de tanta caça ao clique, tanto texto medíocre, tanto palavreado sem nexo, tanta irrelevância sob o pomposo e algo ridículo rótulo "comunicação social". 

Compensam, sim. Porque informam, esclarecem, enquadram, sensibilizam. Porque nos rasgam horizontes, suscitam empatia, demonstram que nenhum ser humano é uma ilha. Porque nos põem a pensar.

Porque têm a capacidade de nos elevar a uns palmos do chão. 

 

Foi o que senti no sábado, ao ver no Jornal da Noite da SIC uma reportagem intitulada "Em Nome do Pai, do Filho e da Índia". Centrada em quatro jovens sacerdotes indianos que vieram completar estudos teológicos em Portugal sem conhecerem do nosso país senão «Fátima, Cristiano Ronaldo e Vasco da Gama» e vivem no amplo espaço do Seminário dos Olivais, prestando serviço pastoral nas paróquias do Patriarcado de Lisboa. Falam-nos do choque cultural que sentiram, das hesitações que tiveram, do modo como superaram todos os obstáculos inspirados pela fé.

Admirável trabalho de equipa assinado por João Maldonado, Fernando Silva, Ricardo Piano e Nuno Gonçalves.

 

Senti o mesmo ao ler, no Observador, uma vibrante reportagem escrita por Carla Sofia Luz e fotografada por Pedro Martins e Rui Miguel Pedrosa.

O título diz-nos muito sobre o conteúdo: "A longa marcha de Carlos para recuperar a vida depois do AVC". Longe do habitual tom de lamúria que contamina em excesso o nosso jornalismo, é uma lição de vida. Centrada na quase-ressurreição de um programador cultural bem conhecido em Castelo Branco que esteve confrontado com o pior dos cenários mas pode hoje relatar-nos a sua história. Que só foi bem-sucedida graças a uma extraordinária rede de apoio que abrangeu família, amigos e cuidadores do Hospital Amato Lusitano.

 

isabel.jpg

Jornalismo é isto: ver o outro lado do espelho, onde também espreitam raios de luz.

Reforcei esta convicção ao ler com a atenção devida o extenso trabalho assinado por Christiana Martins na revista do Expresso de 28 de Março - seleccionado, com todo o mérito, para capa dessa edição. Centrado em Isabel da Nóbrega, que durante quase vinte anos foi companheira e musa de José Saramago, ela própria escritora de mérito, tão evidente no seu original romance Viver Com os Outros.

Gosto de tudo, a começar no título da edição impressa: "Este amor deu um Nobel". Mostra-nos a luminosa face da escritora falecida em 2021, aos 96 anos, injustamente obscurecida durante décadas.

É mais que justo desvendá-la agora junto de quem nunca dela tinha ouvido falar. 

 

Elevação e sensibilidade: eis dois admiráveis condimentos das crónicas - verdadeiras crónicas, quase contos, não "colunas de opinião" - assinadas no Público por Carmen Garcia, enfermeira de profissão, especializada em geriatria. Ela tem a rara capacidade de relatar histórias com gente lá dentro. Gente verdadeira, de corpo e alma.

Histórias repassadas de encantamentos e frustrações narradas com genuíno sentimento de partilha. E muito bem escritas, como concluímos ao ler, por exemplo, "Quando é que deixou de ser Dia do Pai?" ou "A missa de sétimo dia do amor"

 

Alguns, mais apressados, dirão que estes exemplos pouco ou nada terão a ver uns com os outros. Mas têm. E devolvem-me o orgulho de ser jornalista - ofício tão vilipendiado, tão abastardado, tão incompreendido, mas que nunca foi tão necessário. E tão urgente.

Miguel Macedo

Pedro Correia, 14.03.25

mm.jpg

 

Foi injustiçado. Foi vítima de uma acusação infame que liquidou a sua carreira política. Foi alvo de uma investigação sem provas e de uma acusação irresponsável que o destruiu por dentro - e talvez lhe tenha deteriorado a saúde a um ponto que até ele mal pôde avaliar. Tinha sido secretário de Estado, deputado, líder parlamentar. Era um competente ministro da Administração Interna.

Talvez pudesse ter sido presidente do PSD - o seu partido de sempre. Nunca saberemos. Acusado de "prevaricação e tráfico de influências", abandonou de imediato funções públicas e remeteu-se à vida privada. Aconteceu em 2014. Se ocorresse uns anos depois, teria visto provavelmente o seu retrato exposto em obscenos cartazes de propaganda política chamando-lhe "corrupto" - alvo da demagogia mais rasteira para ajustar contas com o regime democrático.

Não se escondeu, não virou a cara, não optou pela litigância de má-fé para estender prazos rumo à prescrição.

Negou todas as acusações, comportando-se com irrepreensível dignidade.

 

Seis anos depois, ao ser ilibado na sede própria, o tribunal, a notícia não fez manchete: foi varrida para discretos rodapés. Os "justiceiros" da imprensa estavam de folga ou assobiaram para o lado nesse dia. 

Recebeu-a com alegria, mas também com amargura: a tardia sentença judicial absolveu-o de qualquer suspeita, mas a sua morte cívica fora decretada muito antes. Mesmo assim, ninguém lhe ouviu uma palavra de azedume. Nem lhe passou pela cabeça "processar o Estado" ou pôr-se aos gritos, declarando guerra ao Ministério Público. Deu, também com isto, um notável exemplo de contenção republicana. 

Ressurgiu há um ano, como discreto comentador político longe do chamado "horário nobre": o último foi exibido há escassos dias. Morreu ontem aos 65 anos, vítima de fulminante síncope cardíaca.

A sua voz apagou-se cedo de mais. Faz-nos falta como alerta contra os demagogos de turno que andam por aí sem freio nos dentes, mais assanhados que nunca. Agitando o espantalho da insegurança para apertarem o torniquete à liberdade. 

 

A minha respeitosa homenagem a Miguel Bento Martins da Costa de Macedo e Silva, que agora nos deixa, para dolorosa surpresa geral.

A Assembleia da República prestou-lhe merecido e justo tributo póstumo, como se impunha. É triste que só a morte sirva para convergirmos no essencial. Conscientes de que a democracia política é tão frágil como a vida humana: pode apagar-se com demasiada facilidade se não cuidarmos bem dela em cada dia que passa.

Síria, via Paulo Dentinho

jpt, 19.12.24

Sair da Estrada de Paulo Dentinho - Livro - WOOK

É Natal, alguns compram livros para ofertar. E é também época para se ir até às estantes em busca de livros que ainda não tenham sido lidos (talvez até ofertas recebidas...). Ou para reler um ou outro, por completo ou excertos que venham à cabeça, por uma razão ou outra. Aconteceu-me agora com este "Sair da Estrada" do Paulo Dentinho - livro sobre o qual deixei um postal quando o li. 

Certo, sou amigo do Paulo, vamo-nos vendo de quando em vez, normalmente refeições partilhadas em pequenos comités, dados ao escárnio e maldizer, nisso de remoermos "a questão que tenho comigo mesmo", este Portugal nossa pátria amada... E também - mais ritualmente - aos natais de cada ano, quando se junta um grupo mais alargado (e heterogéneo) de amigos e conhecidos com os quais nos cruzámos (ou não) em Moçambique, portugueses que lá vivemos e nos quais o país se entranhou, a cada um à sua maneira.

E foi lá que nos fizemos amigos - e um dos tijolos disso foi uma situação peculiar: eu já passei por algumas agruras, no meu "Sair da Estrada", que também o fui tendo. Mas nunca me acontecera, nem voltou a acontecer, estar sentado com um amigo (ele-mesmo, pois claro - então correspondente da RTP em Maputo) e virem-no ameaçar de morte: "Dentinho, aqueles ali estão a dizer que te vão matar!", os molwenes (miúdos de rua) mandados para dizer isso, e nós a levantarmo-nos da mesa para ir ver quem eram os esbirros no tal carro apontado... Isto foi uns meses antes de Carlos Cardoso ter sido assassinado, dois anos depois de Lima Félix ter sido morto, não era brincadeira. "Vai-te embora, Paulo, tens cá as filhas...", resmungava-se-lhe diante da sucessão de ameaças que recebia (aquilo dos telefonemas noite afora), e ele empertigado na sua missão de informar, renitente em sair dali: (e o problema é o Venâncio, clamam agora, um quarto de século depois e sempre para pior, os escritores alapados às benesses do partido-Estado e os visitantes de "esquerda", sorrio, cáustico...). 

Enfim, divago... Lembrei-me do Paulo e do seu livro quando ouvi Morais Sarmento lamentar a inexistência de reportagens da RTP sobre Moçambique, apesar de lá haver uma delegação. Sabendo do que fala, o ex-ministro referiu que ou o correspondente não produz ou - e é o mais provável - as suas peças não são incluídas nos telejornais, por critérios da direcção de informação lisboeta. E lembrei-me das discussões tidas com o Dentinho, naqueles finais de XX. Em Moçambique havia apenas duas estações, a pública TVM e a RTP-África, então inicial. Lisboa estava muito ufana por ter a estação, pensava-a emitindo como se cobrindo o território nacional: pouco interessava que um antropólogo andasse pelo país e dissesse que não era captada nas capitais de distrito nem ... em várias capitais provinciais. Mas em Maputo - no "cimento" - era vista. E as reportagens do Dentinho tinham ali impacto. E provocavam resmungos locais, dado o tom espectacular que tinham. Lembro-me de com ele protestar devido a isso, pois causavam algum mal-estar entre os nossos "anfitriões": um caso célebre foi uma reportagem dele sobre o antigo zoológico da Beira, cujas abandonadas jaulas tinham sido ocupadas pela população, que nelas residia. E em Maputo a burguesia nacional contestava essa "imagem" passada no telejornal, eu (e outros compatriotas) secundávamos num "para quê?, Paulo, o fundamental é construir uma boa relação!", cheios de pruridos diplomáticos. E ele a resmungar, defendendo-se - e tinha toda a razão!, uma razão deontológica, jornalística, um zoo habitado por homens é exemplar motivo de reportagem, denotativo, demonstrativo.... -, nisso também referindo que se não forçasse "a nota", a espectacularidade, em Lisboa, na RTP, nada lhe transmitiriam, desinteressados que estavam de Moçambique. E isto foi há um quarto de século, bem antes do extremo frenesim da notícia "lite" que tanto agora predomina.

 

Enfim, entre o lembrar-me disto do Paulo e o ir buscar o livro foi um ápice. O seu "Sair da Estrada" é uma espécie de making of - bem humorado, numa escrita que realça o seu amor pela profissão, e sem "engajamentos" apatetados - de grandes reportagens em 13 países (insisto, escrevi este texto qual recensão). E tem um capítulo (entre as páginas 105-145) imensamente actual, pois sobre as suas andanças na Síria (2012, 2016), durante as quais (também) entrevistou Bashar al-Assad. São páginas que não só elucidam um pouco do que agora vai acontecendo como comprovam o seu olhar arguto sobre as realidades nas quais trabalha: "Vou agora (2012) para a (...Síria) no pressuposto, quanto a mim errado, de estarmos perante o colapso do regime..." (105), "Chadi fala-nos do radicalismo sunita crescente e dessa quase impossibilidade de continuarem a viver lado a lado com eles, como fizeram durante séculos" (110), "os seus receios quanto à agenda rebelde, "eles não são sírios, vêm todos dos países em volta" (118), "na Síria, para os combatentes que se reclamam do Islão Sunita, a corrente maioritária no país, ter na presidência Bashar al-Assad é uma blasfémia. Não só por ele ser alauíta, um ramo do xiismo, corrente religiosa pela qual têm um enorme desprezo, mas também por ele representar um regime laico e igualitário. Repressivo e brutal também." (120),  "o liberalismo de Bashar assenta no modelo chinês. Nem pensar em pôr em causa o partido. E o capitalismo sírio é apenas para alguns "amigos"..." (140). 

Enfim, uma pequena amostra de como o Paulo "apanhou" a Síria. Tal como "apanhou" (até ao osso) Moçambique. E tantos outros locais. 

Ou seja, é Natal. Compre-se, oferte-se, leia-se o "Sair da Estrada" (Caminho, 2021).

Passam a ter vida ainda mais difícil e dura

Pedro Correia, 25.10.24

1215c3be-2fd9-47c8-9c09-a66341def721.jfif

 

No domínio dos eufemismos, que por estes dias inundam os canais de televisão a propósito da onda de vandalismo na cintura de Lisboa, nem sei quais devo destacar. Abundam as referências a «jovens» para designar com suavidade os supostos autores de danos à propriedade pública (quatro autocarros da Carris Metropolitana, diversos contentores do lixo, ecopontos, bancos de jardim e outros equipamentos urbanos) e à propriedade privada (largas dezenas de automóveis regados com jerrycans ou brindados com cocktails Molotov e vidros de residências estilhaçados, além da tentativa felizmente falhada de pôr a arder pelo menos um posto de venda de combustíveis). 

Meros «incidentes», banais «desacatos». Assim designados por benévolos repórteres, como se testemunhassem vulgares altercações de trânsito em hora de engarrafamento rodoviário. Outros, confundindo a árvore com a floresta, aludiam a «conflitos entre populares e polícia», como se esta dicotomia fizesse algum sentido num cenário destes. Houve até quem garantisse haver «revolta da população» na tentativa - obviamente falhada - de justificar os distúrbios que puseram vários concelhos a ferro e fogo durante noites consecutivas. Em locais tão diferentes como Carnaxide, Damaia, Alfragide, Santo António dos Cavaleiros, Queluz, Pontinha, Cacém, Rio de Mouro, Brandoa, Arrentela, Laranjeiro e até na pacata Trafaria.

 

                 11.jfif 22.jfif

 

Mas elejo afinal o verbo arder. Numa insólita voz passiva.

Viaturas queimadas, incendiadas, destruídas pelo fogo posto, reduzidas a uma dantesca porção de ferros retorcidos? Nada disso: apenas «carros ardidos». Como se fosse combustão espontânea, fenómeno natural, talvez até consequência desse amor romântico que arde sem se ver, forma subtil de celebrar o quinto centenário de Camões.

 

                    33.jfif 44.jfif

 

Um dos carros vandalizados era de uma humilde residente no chamado Bairro Novo, em Loures. Ainda em estado de choque, dizia ela à RTP: «Eu não sou culpada de nada, não sou culpada de nada. O meu carro era recente, comprei-o em Maio do ano passado.» Enquanto uma senhora idosa relatava o que lhe sucedera naquela noite de pavor: «Saí por uma porta para o quintal, saímos todos, pensávamos que o prédio ardia.» Aterrorizada pelos vândalos.

Sem querer, alguns jornalistas seguem a máxima do angelical Padre Américo: não há rapazes maus. Ardendo de compreensão por delinquentes que aplicam a política de terra queimada e mantêm sob sequestro os habitantes destes bairros desfavorecidos na periferia da capital. Gente que trabalha muito e ganha pouco. Gente que tem servido de pasto a indecorosos extremismos políticos. Gente que passa a ter a vida ainda mais difícil, mais insegura, mais carregada de incertezas.

Sem eufemismos de qualquer espécie.

Uns são jornalistas, outros fazem de conta

Pedro Correia, 12.10.24

maria-joao-avillez-01-16-marcelo-scaled.webp

Maria João Avillez com Marcelo Rebelo de Sousa nos anos 80

MJa.webp

Maria João Avillez com Mário Soares nos anos 90

 

A presidente de uma coisa chamada "Comissão da Carteira Profissional de Jornalista" saiu da penumbra para encher o peito com uma absurda ameaça à luz do dia: diz-se disposta a denunciar Maria João Avillez ao Ministério Público por alegado crime de «usurpação de funções». Motivo: a jornalista terá entrevistado o primeiro-ministro na SIC sem possuir título profissional actualizado por aquela instância burocrática que carimba papéis no Palácio Foz.

Maria João Avillez faz parte, por mérito próprio, da história do jornalismo português das últimas décadas. Colaborou na RTP desde os 17 anos. Integrou já como profissional os primórdios da redacção do Expresso. Marcou presença no Público, Rádio Renascença, DN e Observador, entre outros títulos. É autora de obras fundamentais sobre protagonistas políticos do último meio século, como Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Mário Soares. Possui, portanto, imensa vantagem competitiva sobre quem agora diz querer denunciá-la: um extenso currículo que fala por si.

Tivesse a senhora da Carteira um décimo desse percurso jornalístico e certamente se sentiria realizada.

A propósito, sinto imensa curiosidade em saber se a ignota delatora se atreve igualmente a formalizar queixa junto do Ministério Público contra o ex-primeiro-ministro António Costa, suposto praticante do mesmo "crime". Como é público e notório, o indigitado presidente do Conselho Europeu tem «conduzido uma série de conversas» - muito publicitadas - no novo canal televisivo Now. A figuras como Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Centeno, António Vitorino e Durão Barroso. Não sendo portador, tanto quanto se sabe, de carteira profissional de jornalista.

Dois pesos, duas medidas? O melhor será perguntar sem rodeios à presumível denunciante se também considera que Costa «usurpou funções». Ou, em alternativa, se reconhece ter perdido uma excelente oportunidade de permanecer na virtuosa obscuridade a que se confinava até agora.

Quinze palavras para dizer o quê?

Pedro Correia, 11.10.24

publico.jpg

Um título de jornal deve ser claro, conciso, compreensível.

Chamativo.

Sugestivo.

Dizer muito em poucas palavras.

Em todo o caso deve atrair, não repelir.

Esta é a regra, cada vez mais desvirtuada e pervertida. Não falta quem elabore e edite títulos com a intenção oposta: afugentar o leitor.

Precisam de exemplos concretos? Encontram um aqui em cima.

«Quantas mulheres já amou?»

Pedro Correia, 28.08.24

 

Fala-se muito na degradação do jornalismo, e com bons fundamentos, mas convém relativizar um pouco: em todas as profissões e em todas as gerações existe gente desqualificada.

Ernest Hemingway foi jornalista na juventude e costumava dizer que este era o ofício ideal para um escritor, desde que não fosse exercido durante demasiado tempo. Assim sucedeu com ele: após meia dúzia de anos como repórter local e internacional, e correspondente europeu de jornais norte-americanos, passou a dedicar-se à literatura a tempo inteiro. E viria a dar raras entrevistas como escritor por ter conhecido entretanto demasiados jornalistas incultos, impreparados, incompetentes. Para ele havia vários temas proibidos: a guerra, a religião, os livros que estava a escrever, as mulheres com quem esteve casado e tudo quanto se relacionava com a sua vida privada.

No livro Papa Hemingway - A Personal Memoir, em que recorda década e meia de sólida amizade com o autor de Por Quem os Sinos Dobram, A. E. Hotchner relata uma dessas entrevistas, que deixou o escritor ainda com pior impressão dos jornalistas. Aconteceu no Verão de 1956, quando se encontrava hospedado num hotel de Madrid: ao passar pela recepção foi abordado por um repórter de uma revista alemã que, acompanhado por um fotógrafo, insistiu em falar com ele durante alguns minutos para «evitar ser despedido».

Hemingway, que naquele dia estava muito bem disposto, conduziu-o ao bar do hotel, onde decorreu a entrevista. Bastaram as primeiras perguntas para perceber que aquele alemão nada sabia a respeito dele: «Esta é a sua primeira visita a Espanha?» (o Nobel da Literatura visitara pela primeira vez o país em 1921); «Já tinha visto touradas?» (não só tinha visto como já tinha escrito dois livros e vários contos em torno deste tema); «Fala espanhol?» (qualquer elementar conhecedor da obra dele saberia que sim); «Escreve tudo por si ou dita os seus romances?» (bastaria esta pergunta, em circunstâncias normais, para o romancista pôr termo à conversa).

Era evidente que aquela entrevista iria acabar mal. Até porque o alemão, esgotado há muito o limite de dez minutos que o entrevistado lhe impusera, insistia em fazer-lhe perguntas cada vez mais idiotas. Levando Hemingway a responder-lhe num registo cada vez mais sarcástico.

O jornalista ia apontando minuciosamente num bloco de notas, incapaz de perceber esse registo:

- Quantas mulheres já amou?

- Pretas ou brancas?

- Bem... Quantas de cada?

- Dezassete pretas, catorze brancas.

- Quais prefere?

- Brancas no Inverno, pretas no Verão.

- O que pensa da morte?

- É mais uma puta.

A conversa ficou por ali: terminou pior do que começara. De todas as perguntas, anotou Hotchner, só à última Hemingway respondeu a sério. Porque era precisamente aquilo que pensava sobre a morte.

Nada que interessasse ao tal amanuense do jornalismo, incapaz de fazer uma entrevista inteligente a um dos gigantes da literatura do século XX que teve o privilégio de conhecer pessoalmente, desperdiçando por completo essa oportunidade.

Há gente assim em qualquer época e em qualquer lugar.