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Delito de Opinião

O triunfo do ódio e da iliteracia

Pedro Correia, 14.04.21

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Na ânsia quase desesperada de amealhar cliques, que permitam a certos títulos continuar a subsistir no limiar da sobrevivência, a imprensa em linha continua a reproduzir injúrias e calúnias de todo o tipo. Ainda agora verifiquei isso, a propósito da morte súbita de Jorge Coelho.

Vocabulário obsceno, em diversos sentidos da expressão, foi não apenas admitido mas tolerado (se não mesmo incentivado) nas caixas de comentários dessas publicações. 

Insultos carregados de ódio pessoal ou ideológico que no DELITO DE OPINIÃO, por exemplo, vão de imediato parar ao ecoponto, ali são divulgados e ficam perpetuados na nuvem digital.

Interrogo-me se é esse o género de leitores que tais periódicos querem atrair. Interrogo-me se para os responsáveis desses jornais valerá mesmo tudo para atrair e reproduzir tal lixo. Questiono-me ainda se as injúrias os visassem a eles teriam idêntica compreensão e tolerância.

E já nem me refiro apenas à linguagem caluniosa. Refiro-me também aos mais inconcebíveis erros de ortografia, que transformam a língua portuguesa numa abjecta caricatura de si própria: também ficam perpetuados, talvez para a eternidade, nessas caixas de comentários de jornais que volta e meia publicam sisudos editoriais em defesa da cultura - e desse "bem cultural" maior que é o nosso idioma, património comum de quase 300 milhões de pessoas

 

Não reproduzo aqui as injúrias, como é óbvio. Mas reproduzirei alguns dos mais primários e boçais erros ortográficos que li só numa dessas caixas de comentários de um desses jornais, supostamente de grande circulação. Para que se perceba melhor como estes títulos se demitem da sua função essencial - até reconhecida por lei - de preservação e valorização da língua portuguesa:

«Pás a sua alma...»

«... muito cordeal...»

«... acto de degnidade...»

«... falar nele nos mídea...»

«... intelectualemente honesta...»

«... desça em pás...»

«... estado portugues...»

«... sofreu 3 banca rotas económicas...»

«...quando se não vêm qualidades...»

«porque è cuando morre um pobre ninguem fala...»

 

O outro falava no triunfo dos porcos. Nós assistimos, impávidos, ao triunfo do ódio e ao triunfo da iliteracia. Todos os dias, a toda a hora, nos locais mais insuspeitos. Supostamente geridos por gente letrada que supostamente recebe ordens para acolher todo o lumpen e todo o lixo.

Capas que fazem tremer diáconos

Pedro Correia, 04.03.21

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Vejo as capas de ontem dos dois mais prestigiados diários brasileiros, aqui reproduzidas, e questiono-me o que dirão delas os diáconos de lá ao depararem com manchetes dedicadas à tragédia do Covid-19: «No maior salto da pandemia, país perde 1.726 em 24 horas», titula bombasticamente a respeitável Folha de S. Paulo. «País tem recorde de mortos e SP [São Paulo] deve entrar em fase vermelha», escreve com estrondo o conspícuo O Estado de S. Paulo

Como os diáconos costumam alinhar pelas mesmas cartilhas, dirão certamente algo muito semelhante ao que já afirmou o nosso Diácono Remédios em recente carta aberta no Público. Coisas como esta: «Não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo.» Ou esta: «Não podemos aceitar a ladainha dos números de infetados [sic] e mortos que acaba por os banalizar.»

A propósito disto, aproveitei para me actualizar consultando os dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde referentes a Estados com mais de um milhão de habitantes. Portugal, infelizmente, é o quinto com mais casos do novo coronavírus e o sexto com mais óbitos à escala planetária. O Brasil surge em 25.º na primeira estatística e em 22.º na segunda. Por mal que eles estejam, e estão, em termos proporcionais estamos pior. Porque a população do Brasil é 20 vezes superior à portuguesa.

Razão suficiente - e acrescida - para continuarmos a fazer cá o que a Folha e o Estadão fazem, com a competência que lhes é reconhecida.

Longa vida, Mensagem

Pedro Correia, 03.03.21

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Se há notícia que gosto de realçar e celebrar, é a do aparecimento de um jornal. Cá está ele, pintado de fresco, a merecer leitura atenta: chama-se Mensagem, é um periódico digital que tem Lisboa como assunto exclusivo. Um tema inesgotável, se assim quiseremos. Mesmo que Portugal já não seja aquele país que, como ironizava Eça, «cabia todo entre a Arcada e São Bento».

Felicito os jornalistas que lideram a Redacção, com sede no secular edifício d'A Brasileira, do Chiado. Refiro-me à Catarina Carvalho e ao Ferreira Fernandes, que bem conheço e de quem sou amigo. Merecem todo o incentivo neste original projecto que contém a seguinte promessa editorial: «Política faremos muita e intensamente. A dos transportes públicos e a da bicicleta e a do vaguear. A do lugar do trabalho e a do divertimento. A proximidade do banco para levantar a reforma. A do vizinho que não quer o logradouro desperdiçado e a do cidadão que quer suas as suas ruas e praças. Ah, e a política da extraordinária e, tanta vez, admirável História. Causas pela causa, Lisboa.»

Longa vida, companheiros: contem comigo entre os vossos leitores. Um dia destes passo aí para tomar um café convosco.

Convém "rastrearmos" os jornais

Pedro Correia, 18.10.20

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Ontem, no auge da polémica sobre a geringonça (refiro-me à aplicação Covid, não à defunta coligação governamental), quase todos os jornais a destacavam em falsas primeiras páginas com patrocínio do Governo. Este encarte publicitário terá custado balúrdios ao erário.

Até os diários desportivos A Bola, o Record O Jogo receberam este brinde - o que deve dar imenso jeito ao conjunto dos periódicos, vários dos quais têm salários em atraso enquanto outros têm despedido dezenas de trabalhadores.

Fica um teste à perspicácia dos leitores. É interessante "rastrearmos" as posições editoriais destes jornais sobre o controverso tema "app Stayaway" nos tempos que vão seguir-se. Aposto desde já que alguns não tardarão a bater palminhas.

 

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José Cutileiro - In Memoriam

João Pedro Pimenta, 18.05.20
Entre outras qualidades havia duas que apreciava particularmente em José Cutileiro: tinha, tal como eu tenho, um tipo de escrita com frases longas e adjectivadas (embora lamentasse não usar muitas vezes o artigo definido) e escrevia os magníficos obituários do Expresso, o espaço In Memoriam, amiúde de figuras excêntricas de que nunca antes tinha ouvido falar, ou de que não saberia à altura que tinham morrido se não os tivesse lido. O último saiu precisamente ontem, com destaque para Iris Love e Little Richard, o criador da célebre Tutti Frutti.
Cutileiro era formado em antropologia e destacou-se como diplomata (sem ser de carreira), exercendo cargos de relevo na Comissão de Paz para a Jugoslávia, uma missão quase impossível, onde nfelizmente as suas ideias para a Bósnia não vingaram, e como secretário-geral da UEO. Para além dos cargos oficias, mantinha colunas nos jornais e na rádio, como a supracitada ou o Visão Global, da Antena 1, e claro, as da personagem A.B. Kotter (que influenciaria outros cronistas-fantasma no futuro, alguns ainda em actividade), recolhidas na colectânea Bilhetes de Colares.
É muito estranho pensar que nos deixou o autor dessa necrologia de elite, embora já me tivesse ocorrido quem os faria quando ele por sua vez partisse. Esperemos que o espaço não fique em branco para além da próxima semana. E também quem fará o epitáfio jornalístico do próprio Cutileiro. Seja quem for, não será a mesma coisa.
Expresso | José Cutileiro, o embaixador que testemunhou a mudança ...

Bom jornalismo

Pedro Correia, 13.03.20

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Até como jornalista, tenho a maior curiosidade em saber como é que a imprensa desportiva portuguesa vai dar a volta, agora que foram suspensas as competições futebolísticas. Esta imprensa estava muito mal habituada: rotineira e previsível, funcionava quase em piloto automático, reservando o mesmo espaço aos mesmos temas, com raras variações ao padrão estabelecido.

Neste primeiro dia em que o coronavírus destronou por completo o futebol como tema dominante da actualidade noticiosa, apenas um dos três diários desportivos passou no teste: o mais antigo. Tenho feito críticas insistentes ao jornal A Bola, sobretudo pela sua linha editorial claramente pró-benfiquista, mas devo reconhecer que foi o único a adaptar-se aos novos tempos - que vão durar sabe-se lá até quando.

Com uma capa diferente, altamente simbólica, pondo a tónica na paragem sine die das competições desportivas, aliás não apenas em Portugal. Um título que encerra um misto de amargura e esperança: «Até já.» Duas breves palavras, num total de cinco letras, que dizem quase tudo.

Mas não só. Também um sugestivo texto introdutório assinado por Rogério Azevedo, um dos jornalistas que melhor escrevem na imprensa portuguesa. «Ponto final: todos os campeonatos nacionais de futebol estão cancelados por tempo indeterminado» - assim começa este texto, obedecendo às regras da clareza e do rigor. E ainda um conjunto de peças com a assinatura de António Simões sobre outras doenças e outras epidemias que marcaram a história centenária do futebol português: o tifo, a sífilis, a gripe espanhola, a tuberculose. Peças que nos falam do primeiro futebolista morto, de outro que se salvou da gripe mas não de um tiro, do bacilo letal que liquidou o primeiro jogador tecnicista do Benfica - desaparecido em 1915 com apenas 26 anos.

Exemplos evidentes de bom jornalismo. Que tenho todo o gosto em salientar.

Trinta anos de "Público"

Pedro Correia, 05.03.20

 

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Faz hoje trinta anos, surgia a primeira edição do Público. De todos os projectos em que estive envolvido na minha vida profissional, este foi um dos mais gratificantes. Um projecto nascido cerca de um ano antes, em que andámos a escrever "para o boneco", como na altura ironizavam colegas de outros jornais, mal disfarçando o nervosismo com que o novo diário era encarado pela concorrência. Havia bons motivos para isso, como depressa se viu. O Público não foi apenas mais um título da nossa imprensa: foi um periódico que marcou, logo ao nascer, o jornalismo português - pela sua independência editorial, pela qualidade da sua redacção e pela abordagem séria, clara e completa dos temas, segundo os melhores padrões europeus.

Fui - durante três anos - o primeiro correspondente em Macau do jornal. E logo nos primeiros meses assinei várias manchetes, dada a situação agitadíssima que então se vivia no território, nessa recta final da administração do governador Carlos Melancia. Guardo as melhores recordações dessa etapa profissional tão intensa e estimulante, sob a direcção do Vicente Jorge Silva, um dos melhores jornalistas com quem tive o privilégio de trabalhar. O meu percurso profissional conduziu-me depois a outras paragens, mas continuo a sentir particular orgulho por ter integrado essa equipa de pioneiros. E ainda hoje, apesar de todas as vicissitudes do seu percurso, sinto um carinho muito especial pelo Público. A todos quantos lá trabalham, muitos dos quais são meus amigos, envio daqui um caloroso abraço de felicitações.

Ontem, num jornal de referência

Pedro Correia, 29.09.19

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O analfabetismo vai galopando, dia após dia, nas colunas dos jornais. Até naqueles que presumem ser mais ilustrados e instruídos. Ontem, numa entrevista publicada num semanário, deparei com esta chocante confusão entre o verbo haver e a contracção de uma preposição com um artigo definido.

Antigamente, quando tais nódoas pousavam no papel, não faltava quem corasse de vergonha. Agora é tempo de encolher os ombros e partir para o dislate seguinte com toda a descontracção do mundo.

Jornais e causas fracturantes não assumidas (e o mau exemplo do Público)

João Pedro Pimenta, 18.09.19

O consumo e a leitura de jornais tem caído imenso, como o Pedro Correia tem referido amiúde neste espaço, e não é só o modelo em papel. As redes sociais ocuparam grande parte do seu lugar e ameaçam a imprensa tradicional. É algo preocupante, porque a informação torna-se selectiva, superficial, quando não falsa, reduzindo-se a títulos ou a agit-prop, e mesmo que a imprensa não seja isenta, ao menos sabemos quem escreveu os artigos e quem responsabilizar. O problema é que os jornais também não fazem grande esforço para a sua credibilização e continuam a cavar a sua própria cova.

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Miguel Sousa Tavares escrevia há dias no Expresso, com mira afinada e não pela primeira vez, que o Público se tem tornado numa tribuna por excelência do politicamente correcto. E não é preciso procurar muito para provar até que ponto isso é verdade. O diário fundado por Vicente Jorge Silva, que tão bons trabalhos já proporcionou aos seus leitores, estafa-se em colocar artigos parciais sobre as novas questões fracturantes. O suplemento semanal Y e demais páginas culturais passam o tempo a apresentar os novos valores feministas, trans, negros, etc, vindos em grande parte do Brasil, e "que estão a mudar a face da música", mas quando se quer ver a crítica a um filme acabado de chegar, ou, como procurei em vão, a um festival pop-rock como o de Vilar de Mouros, é o vazio total.

Nos últimos tempos é a defesa da "diversidade de género" que o jornal da SONAE tem empreendido, qual Duarte de Almeida a defender o pendão real em Toro. No dito Y, no dia 30 de Agosto, logo na segunda página, vemos um dos guardiões mais encarniçados destas questões, António Guerreiro, a falar da ideologia "atávica e obscurantista" que condena a ideologia de género (que curiosamente não considera uma ideologia, colocando-a entre aspas). De resto, os inúmeros artigos publicados no jornal sobre o assunto falam sempre dos seus opositores com um tom de mal disfarçado desprezo e dão apenas a palavra à parte contrária, normalmente os prestimosos especialistas em diversidade de género, uma disciplina que parece que tem boas saídas de emprego, além de artigos de opinião semanais de representantes do Observatório de Justiça, do professor Boaventura Sousa Santos, como uma investigadora de seu nome Ana Cristina Santos, que neste exemplo cabal acusa Ricardo Araújo Pereira de "ridicularizar a inclusão social na linguagem", de "defender o pendor autoritário do senso comum", porque "se há pessoas que se sentem excluídas pelo uso do universal masculino... considerandos estéticos deixam de ter cabimento". Ou como alguém, se se sentir incomodada com a língua, esse mero "considerando estético", pode exigir a sua mudança. A autora até ajuda e dá como exemplo o "tod@s" ou "tdxs" como linguagem inclusiva. Ou seja, a "inclusão" não é mais que um uma novilíngua infantil que desvirtua algo que devia ser superiormente protegido, mas que para alguns não passa de "considerandos estéticos". Já se sabe, nada de ideologia.

Nas últimas semanas tem sido um sem fim de artigos que referi em cima. Podia ser uma discussão proveitosa se se colocassem dois pensamentos e dois grupos de argumentos e confronto, mas não. Neste outro artigo lá vem a costumeira reportagem com "os jovens do futuro", em que avulta um rapazinho que critica os professores «que partem do princípio que os alunos são todos homens "cis"», e que "as associações de estudantes deviam representar as lutas sociais dos estudantes negros, comunidade LGBT ou questões feministas... sem qualquer tipo de preconceito ou conservadorismo". O jovem é identificado como militante do Bloco, coisa bastante crível dado o tipo de linguagem e de causas. Mas é pena que o jornal, uma vez que lhe dá voz, não lhe pergunte se as associações não deviam defender todos os estudantes, e não apenas as minorias que o BE estabelece (que podem nem existir em tantas escolas), ou se não percebe a contradição de, achando que não deve haver "conservadorismo", como se não pudesse haver estudantes conservadores, isso ser um preconceito da sua parte.

Por fim, mais uma peça apresentada quase como um estudo, mas mais uma vez apenas com uma parte, sobre a questão "há ou não ideologia de género", a que o jornal generosamente responde que não, recorrendo de novo a uma parte da barricada, que acusa todos os que acham que se trata realmente de uma ideologia de serem "uma sombra... que ameaça direitos das pessoas LGBTI, saúde sexual e reprodutiva das mulheres e estudos de género". Nada de novo, excepto talvez uma maior radicalização da linguagem. Mas aqui expõe-se tremendamente. É que o artigo online é só para assinantes, mas na versão em papel pode-se ler, mesmo no fim, que "as despesas da viagem foram pagas pela ILGA-Europa. 

Sim, isto é um problema. Ao aceitar ser custeado por uma organização que tem todo o interesse que o jornal escreva aquilo só com a "sua" versão, o Público prostitui-se declaradamente. Não está a apresentar um artigo de discussão, ainda que pendendo mais para um lado, mas a sua verdade com a patrocínio de uma entidade externa longe de ser neutra.

Assumir posições políticas inequívocas é não só aceitável como desejável. Os leitores sabem ao que vão. Em Portugal, como é sabido, a maioria dos jornais não assume qualquer posição política, à excepção dos jornais partidários, como o Avante!, ou de uma ou outra publicação, como o extinto Independente. Mesmo o Observador, claramente à direita, é muito ambíguo no seu estatuto editorial. O Público sempre pendeu para uma esquerda moderada. Porque estará tão freneticamente empenhado agora em questões tão ostensivamente fracturantes? Vontade de agradar a um certo público? Seja o que for, só contribui para que se diga que tem uma agenda política mal disfarçada, porque aparentemente tem mesmo - e como é sabido, o termo "agenda" hoje em dia é entendido de forma pejorativa, como uma conspiração maléfica.

Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Os jornais ou se assumem ou então que deixem de ser tão explicitamente implícitos, sobretudo em questões que não são pacíficas. E é por coisas como estas, como diria Manuel Alegre, que aparecem os Bolsonaros. Prontos a apoucar a imprensa e a espalhar sem filtro tudo o que lhes sirva nas redes (as)sociais fora.

It's a steady job

Pedro Correia, 24.07.19

Expresso é um jornal de ideias fixas. Convicto de que os leitores são pessoas distraídas, incapazes de reter aquilo que lêem, chega a publicar a mesma notícia não apenas uma, nem sequer duas, mas três vezes na mesma edição. Com um intervalo de oito páginas.

Aconteceu assim na Revista do sábado que passou. Logo na página 10, vinha a primeira, intitulada «Lashana Lynch». Rezava assim: «O mundo está a mudar quando até o machismo de 007 é posto em causa. Embora Daniel Craig ainda faça uma perninha, a lindíssima a[c]triz britânica será a nova agente secreta em 'Bond 25'.»

 

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Estava eu ainda a interrogar-me se o faro das patrulhas de turno detectaria odor machista no superlativo «lindíssima» e se a expressão «fazer uma perninha» pode ter cunho heteropatriarcal, em alusão ao direito de pernada dos senhores medievais, e já deparava com a renotícia e o retítulo na página 14 da mesma edição do mesmíssimo periódico:

«Lashana Lynch não será James Bond, mas será a primeira mulher a tomar-lhe o lugar. Nascida em Londres, sonhou cantar e tem crescido a pulso na representação. 'Bond 25', nome provisório do 25.º filme da saga, está a pô-la nas bocas do mundo.»

Ilustrada pela cara que já vira quatro páginas atrás.

 

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Matutava eu ainda na expressão figurativa «crescer a pulso», de eventual pendor sexista sobretudo quando associada a «pô-la nas bocas do mundo», sentindo uma remota indignação a avolumar-se perante os insidiosos estereótipos de género induzidos pelo imaginário falocêntrico nesta escrita jornalística, e lá me ressurgia, na página 18, a fotografia da tal senhora que eu já vira estampada duas vezes antes no referido periódico.

 

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«O papel será interpretado pela a[c]triz britânica Lashana Lynch, que junta uma outra dimensão a esta mudança pelo facto de ser negra», alvitrava a re-renotícia da Revista do Expresso, tomando como fonte (só à terceira ficamos a saber) o tablóide londrino Daily Mail. Que ficou imortalizado na letra de uma canção contemporânea do James Bond original, Paperback Writer: «His son is working for the Daily Mail / It's a steady job, / But he wants to be a paperback writer...»

Canção dos irrepetíveis Beatles. Quatro rapazes de pele branquinha: expoentes de um mundo que não volta mais.

Pago jornal, levo propaganda

Pedro Correia, 25.04.19

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Compro um exemplar do jornal espanhol El País, que com a actual directora regressou aos tempos de colagem despudorada ao Partido Socialista, e salta-me lá de dentro um panfleto eleitoral com esta carantonha que parece de um foragido de Alcatraz.

Pego na coisa com a repugnância de quem se sente servido por gato a preço de lebre e questiono-me se é isto que querem aqueles que em Portugal reivindicam a todo o tempo que a imprensa "assuma" preferências partidárias. Lamento contrariá-los, mas prefiro o modelo português. Detesto que na compra de um jornal me ofereçam propaganda partidária em jeito de brinde. E só abriria uma excepção a esta inabalável regra se no panfleto eleitoral do PSOE me surgisse a inspiradora imagem que se segue.

 

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Director, um lugar precário

Pedro Correia, 29.03.19

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Como aqui escrevi em 2016, não existe hoje em Portugal um lugar tão precário como o de director de um órgão de comunicação social.

Nesse texto, publicado no DELITO vai fazer três anos, pronunciei-me com dados e nomes sobre a chocante rotação existente na maioria dos títulos jornalísticos diários ou semanários de expansão nacional. Para concluir que esta escassa permanência de um director à frente de um meio de comunicação fragiliza todo o projecto editorial, tornando-o ainda mais vulnerável às pressões - não apenas do poder político mas dos chamados poderes fácticos, da banca à bola, passando por maçonarias de vários matizes e pelas marcas comerciais que funcionam como financiadoras enquanto anunciantes.

Nesse artigo acentuei que 16 dos principais títulos jornalísticos (72,7% do total) tinham directores em funções havia menos de dois anos.

Revisitando hoje o mesmo texto, verifico que doze dos 22 directores ali mencionados - mais de metade, portanto - deixaram de exercer tais funções. Alguns abandonaram a profissão e houve um título que entretanto desapareceu. Mais sintomático ainda: em alguns casos, os referidos responsáveis tiveram não apenas um mas já dois sucessores de então para cá.

 

Desde então já se registaram várias mudanças. Bárbara Reis anunciou em Maio de 2016 que deixaria a direcção do Público, ao mesmo tempo que se tornava conhecida a transferência de David Dinis da TSF para o diário da Sonae, dando por sua vez lugar na rádio a Arsénio Reis, que ali iniciou funções em Setembro de 2016. Em Junho desse ano, André Macedo demitiu-se de director do Diário de Notícias, sendo substituído em Setembro por Paulo Baldaia. Também em Junho de 2016, João Garcia cedeu o lugar de director da revista Visão a Mafalda Anjos. Na revista concorrente, a Sábado, Eduardo Dâmaso assumiu a Direcção a partir de Abril de 2017. E André Veríssimo ascendeu em Novembro de 2017 ao posto de director do Jornal de Negócios.

Entretanto o Diário Económico, que vegetava já só na edição digital, encerrou de vez. Passou a haver duas novas publicações nesta área: o Jornal Económico, surgido em Setembro de 2016 com Vítor Norinha como director, logo promovido a director-geral da empresa proprietária, passando o seu anterior lugar a ser ocupado a partir de Dezembro por Filipe Alves, até aí director-adjunto; e desde Outubro de 2016 o Eco - só com edição em linha -, sob a direcção de António Costa.

Rotação acelerada noutras publicações: em Abril de 2018, Ferreira Fernandes substituiu Baldaia como director do Diário de Notícias; em Julho desse ano, David Dinis cedeu o lugar de director do Público a Manuel Carvalho; em Setembro foi a vez de Afonso Camões ser rendido por Domingos de Andrade no posto máximo do Jornal de Notícias; em Outubro, Luísa Meireles era anunciada como sucessora de Pedro Camacho na Direcção da Lusa; no mesmo mês, Maria Flor Pedroso substituía Paulo Dentinho à frente da informação da RTP.

Mais mudanças, estas já no ano em curso: há duas semanas, António Magalhães cedeu o lugar de director do diário Record a Bernardo Ribeiro. E hoje mesmo João Vieira Pereira foi anunciado como director do Expresso, substituindo Pedro Santos Guerreiro.

 

Apontamentos adicionais:

André Macedo não chegou a completar dois anos no posto cimeiro do DN: só lá esteve 22 meses.

Paulo Baldaia, o sucessor, ficou apenas ano e meio à frente do centenário matutino, agora já fora da Avenida da Liberdade.

Raul Vaz também só se manteve ano e meio como director do Jornal de Negócios.

João Garcia foi director da Visão durante um ano exacto.

David Dinis não permaneceu mais de quatro meses ao leme da TSF. Foi depois dirigir o Público, onde esteve dois anos - entre Julho de 2016 e Julho de 2018. Hoje é anunciado como novo director-adjunto do Expresso.

Pedro Santos Guerreiro aguentou-se três anos à frente do semanário Expresso. Tantos como Pedro Camacho enquanto director da Lusa.

Rui Hortelão manteve-se quase três anos e meio no posto de comando da Sábado. Idêntico ao período em que Paulo Dentinho esteve a dirigir a RTP.

António Magalhães resistiu quatro anos e meio como director do Record.

 

Dos 22 directores dos órgãos de informação diários ou semanários de carácter nacional (televisão, rádio, jornais, revistas informativas e agência noticiosa), só cinco ocupam essas funções há mais de cinco anos. E 15 iniciaram-nas desde Fevereiro de 2016, o que diz muito sobre a instabilidade do cargo. Apenas um ultrapassou a década e meia como director: Vítor Serpa, que lidera A Bola desde 1992. Algo impensável em qualquer outro jornal.

Embora a grande distância deste caso único, é já considerável a longevidade no exercício do cargo de Octávio Ribeiro (que dirige o Correio da Manhã desde Março de 2007), Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009) e José Manuel Ribeiro (director do diário O Jogo desde Maio de 2011). Cada vez mais excepções que teimam em contrariar a regra.

Resta ver por quanto tempo.

Santo padroeiro da ignorância

Pedro Correia, 14.03.19

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É chocante a falta de memória nas redacções dos órgãos de informação. Que, assim amnésicos, não informam: só desinformam.

Ainda esta noite aconteceu. Morreu o actor Amadeu Caronho, que se tornou muito conhecido em várias produções televisivas, sobretudo na SIC, e de imediato a notícia do seu falecimento foi ilustrada com a fotografia de outro actor, Carlos Santos, que morreu em 2016.

Um jornal cometeu um erro, os outros foram atrás. Sem confirmarem, sem verificarem, sem ninguém se lembrar de perguntar a quem sabia. Percebe-se como é que aconteceu: invocaram São Google, que tantas vezes funciona como o padroeiro da ignorância, e este transmitiu-lhes a imagem errada. Ninguém ousou pôr isso em causa: a santidade não se questiona.

Deu asneira colectiva, claro. Inclusive na página digital da televisão em que o actor agora falecido mais colaborou, o que é talvez o aspecto mais lamentável.

Horas depois, há poucos minutos, várias edições em linha - no Observador e no Sol, por exemplo - continuavam a difundir a asneira.

Com uma chocante falta de respeito pelos mortos e seus familiares. E uma falta de respeito não menos chocante pelos leitores.

Expressamente

Pedro Correia, 29.09.18

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Já tínhamos o saco de plástico "inventado" pelo arquitecto Saraiva para resguardar o conteúdo do semanário do olhar alheio - e forçar assim os leitores a comprarem aquilo que ignoram, tornando opaco o jornalismo, algo que por definição deve ser transparente.

Já tínhamos as falsas primeiras páginas com conteúdos publicitários, anunciando uma conhecida marca ou propagandeando uma grande empresa.

Hoje passámos a ter uma primeira página inteirinha com promoção ("grátis", dizem eles) de uns livrinhos lançados pelo próprio jornal. Coisa pífia - sem escala, sem dimensão, sem classe.

Abdicam das notícias para isto.

Quando se fala da crise do jornalismo português, há que apontar responsáveis. A crise não é filha de pais incógnitos. Os responsáveis são gente que faz coisas como esta, mergulhando no ridículo aquele que ainda é o melhor jornal português.

Os jornais também se abatem.

Luís Menezes Leitão, 27.05.18
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Chega agora a notícia de que o Diário de Notícias vai passar a semanário (importam-se de repetir?) mantendo apenas uma edição digital. Não é nada que me espante. Já assisti à sucessiva queda de jornais de referência, como a República, O Século, o Diário de Lisboa, o Diário Popular e até mesmo a títulos que marcaram uma época, como O Independente. O caso do Diário de Notícias era, porém, especial pois era um jornal com uma aceitação generalizada e uma enorme audiência. Lembro-me perfeitamente de ter sido o jornal que chegou a nossa casa a noticiar em primeira mão o 25 de Abril, tendo mesmo contactado o General Spínola, que não tinha achado oportuno dizer nada. O Diário de Notícias estava sempre na linha da frente das notícias, tendo sido o único jornal da manhã que noticiou a acção militar.

 

O Diário de Notícias era, porém, muito permeável ao poder político e os militares quiseram logo avançar para o seu controlo, sob a liderança de José Saramago, que não hesitou em demitir os principais jornalistas e transformar o jornal num pasquim de apoio a Vasco Gonçalves. Mas o Diário de Notícias rapidamente recuperaria desses tristes tempos, para agrado dos seus leitores. Nessa época o Diário de Notícias era um jornal enorme, tendo que ser dobrado e estendido no chão para o podermos ler. Mas nunca o deixávamos de fazer, seguindo avidamente as notícias que diariamente surgiam, sendo que a sua credibilidade o tornava um jornal de referência.

Resultado de imagem para Diário de Notícias Fernando LIma

Esses tempos passaram e o jornal foi-se reduzindo, não apenas em formato, mas também em referência e credibilidade. Nos últimos tempos transformou-se num jornal especialista em fazer fretes ao partido socialista, tendo ficado célebre aquela primeira página a negro, em que revelou correspondência particular relativa a fontes de outro jornal. Desde então nunca mais comprei o Diário de Notícias, pois não tenho paciência para adquirir um jornal que se transformou numa sombra do que era. Agora pelos vistos vão dar cabo dele de vez. As instituições não são eternas e a história é implacável. Mas é pena que o Diário de Notícias tenha sido destruído desta forma por quem devia ter cuidado de uma instituição centenária. Está visto que os jornais também se abatem.

Tudo se transforma

Pedro Correia, 10.12.17

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Este foi o último fim de semana em que se tornou possível comprar um exemplar do El Mundo nos quiosques portugueses. Na próxima quinta-feira cessará a distribuição no nosso país do influente diário espanhol, a partir daí só disponível para nós na versão digital. É mais uma etapa no progressivo confinamento da imprensa aos meios electrónicos, tendência iniciada no virar do século.

Confesso a minha predilecção pelo papel, embora seja sensível ao argumento ecológico e não ignore os incomportáveis custos de impressão e distribuição associados às publicações que dependem de uma empresa gráfica para circularem no mercado. É portanto com nostalgia antecipada que me preparo para dizer adeus a um hábito de longos anos: folhear um dos meus jornais europeus preferidos, sublinhá-lo e recortá-lo e transportá-lo para qualquer lado.

Deixarei de ler em papel os textos de jornalistas e colunistas de que tanto gosto, como Lucia Méndez, Jorge Bustos, Emilia Landaluce, Manuel Hidalgo, Santiago González, Carmen Rigalt ou Arcadi Espada. E de saborear no mesmo suporte o humor sarcástico do cartunista Ricardo ou da dupla Gallego & Rey em caricaturas como as que aqui reproduzo, com vénia irónica mas sinceramente grata.

Por cá terei apenas a opção de reencontrá-los no ecrã. Mas não os afastarei da vista. Nada se perde, tudo se transforma.

 

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