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Da empatia

por Rui Rocha, em 09.04.16

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Fluxos de apropriação

por Rui Rocha, em 07.07.15

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Pois. Essa coisa dos fluxos de significação parece-me muito bem. Mas, nesse caso, em homemenagem à criatividade da artista reconhecida internacionalmente, talvez se pudesse ter deixado a significação fluir um bocadinho mais. Digo eu. Ora vejamos:

a) no site do COI, a propósito de pequenas moedas em cuproníquel:

Sob a forma de um enorme coração de Viana, peça icónica da delicada e minuciosa filigrana portuguesa, pacientemente preenchido com talheres de plástico vermelho, Coração Independente Vermelho é uma homenagem a essa grandiosa técnica de enorme exigência, bém como um louvor ao que faz com que tudo possa acontecer – o amor.

b) no site da jovem artista conhecida pelas suas esculturas e instalações com um agudo sentido de escala e domínio da cor em objetos do dia-a-dia e de elementos da cultura tradicional que nos revela novos fluxos de significação e, ao mesmo tempo, uma visão cúmplice e crítica da sociedade contemporânea, a propósito de uma instalação com 385 x 225 x 50 cm composta por talheres em plástico translúcido, ferro pintado, corrente metálica, motor, fonte de alimentação e instalação sonora:

Coração Independente Dourado apresenta-se sob a forma de um enorme coração de Viana, peça icónica da filigrana portuguesa, pacientemente preenchido com talheres de plástico vermelho. Suspensa a partir do eixo, a obra executa um movimento rotativo circular, evocativo dos ciclos da vida e do eterno retorno, acompanhado pelo som de três expressivos fados, Estranha Forma de Vida, Gaivota e Maldição, interpretados por Amália Rodrigues, diva da música portuguesa da segunda metade do século XX.

E vai daí, se calhar não. Eu é que me precipitei e isto está tudo enquadrado nas dimensões de descontextualização e, sobretudo, de apropriação. Desculpem lá o tempo que vos fiz perder, sim?

Valkyrie Octopus

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.03.15

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Com vinte metros de altura, trinta e cinco de extensão e mil e duzentos quilos de peso, Macau viu ser oficialmente inaugurada a última obra de Joana Vasconcelos. Fruto de uma encomenda da MGM Macau e instalada na Praça do Rossio, a Valkyrie Octopus impressiona pela cor e dimensão. Certamente que haverá muita gente que não gostará do resultado final, mas goste-se muito ou pouco é um trabalho que pela criatividade, cor e arrojo não deixará ninguém indiferente. E deixa honrados os portugueses que vivem e trabalham na RAEM. A foto é do Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. As restantes podem ser vistas aqui.

De todas as discussões possíveis, política, futebol, costumes, há uma e uma só de que qualquer tipo sensato foge como Jorge Jesus das regras gramaticais elementares. Trata-se, já adivinharam, de qualquer tentativa de estabelecer critérios que permitam decidir se determinada produção ou objecto é ou não uma obra de arte. Mas há momentos em que é preciso arriscar. E não é todos os dias que um objecto de discussão deste calado dá à costa. Costa, o presidente da edilidade lisboeta, como Gepeto dentro da barriga da baleia, já teve oportunidade de se pronunciar afirmando que esta é uma oportunidade única de viajar dentro de uma obra de arte. Aconselha todavia a prudência que avancemos um pouco mais devagar, que os cacilheiros não se fizeram para grandes velocidades. Ora vejamos. Um cacilheiro, este cacilheiro, dificilmente poderia ser considerado uma obra de arte no sentido clássico. Mas as coisas evoluem e devemos a nós próprios a obrigação de não nos tornarmos uns completos botas de elástico. Arejemos pois mesmo os cantos mais recônditos das nossas mentes. E admitamos o passo seguinte.  O de saber se este cacilheiro tem os requisitos mínimos que parece serem exigidos às obras de arte nos nossos dias (notaram por certo a elegância com que evito os termos moderna ou contemporânea e outras designações do mesmo calibre). Este cacilheiro cumpre, isso é certo, a regra da transversalidade dos suportes: qualquer coisa serve para fazer arte, desde atacadores de sapatos até cafeteiras. Por outro lado, responde também ao imperativo da diluição dos significados inteligíveis. Na verdade, caríssimos, hoje em dia um bom indício de que estamos perante uma obra de arte resulta de existir um catálogo, um guia, uma tabuleta, um jornalista, um Presidente de Câmara vá, que nos diga que aquilo é de facto uma obra de arte, conclusão a que não chegaríamos simplesmente olhando para ela. Em decorrência, verifica-se também a tendência nihilista que toda a produção artística contemp... (raios, quase que caía) deve apresentar: é desejável que o objecto não se possa enquadrar em nenhuma referência sólida ou padrão estético. Da mesma maneira, este cacilheiro cumpre integralmente o desígnio da obliteração da busca do belo que contaminava a arte clássica. Ainda assim, e apesar de todos estes indicadores apontarem para estarmos perante uma obra de arte no sentido modern... (irra, que foi quase), o certo é que lhe falta ainda qualquer coisa. Falta-lhe, como poderei dizer, o sentido do efémero que por estes dias é absolutamente indispensável. Isto é, este cacilheiro não é ainda uma obra de arte, mas pode bem vir a sê-lo. Basta torná-lo perecível. Para que este cacilheiro possa ser considerado um objecto inquestionavelmente artístico é preciso afundá-lo.

Um chinelo no palácio

por José Navarro de Andrade, em 16.04.13

Maurizio Cattelan

Takashi Myrakami

 

Nunca se chega tarde a uma exposição que ainda tem as portas abertas. Façamos, então, bicha para entrar no Palácio da Ajuda, a ver o que por lá fez Joana Vasconcelos (JV).

E o que ela faz parece desagradar em partes iguais a pólos contrários. Os mais recuados que ao fim de quase um século de transfiguração ainda vêem a arte como um gesto virtuoso e idealista (consumado na deliciosa expressão “isto até uma criança fazia”) e os “vanguardistas” que olham para a rutilância e a “facilidade” (é só aspas…) de JV, enfim o seu apelo não-crítico ou pseudo-crítico, de sobrolho franzido e dedo denunciador. Em ambos os casos, em vez de se ficarem pelo singelo e humilde gosto/não gosto, que é sempre a melhor e mais silenciosa maneira de fruir as coisas, os irascíveis despejam razões quase sempre pouco racionais e análises quase sempre repletas de meras opiniões judicativas, para exibirem o seu desapego, dir-se-ia desassossego, face ao trabalho de JV.

Para todos os efeitos, é um crédito mínimo de JV o de reconhecidamente integrar e ser um expoente de uma fileira de artistas contemporâneas que levaram à risca o conceito de uma arte “popular e de massas”. Desígnio que foi tão querido ao neo-realismo (com um lastro diametralmente oposto, convenhamos) e tão magistralmente executada por Andy Warhol, o mestre supremo da ambiguidade que até à morte deixou por decidir se era um génio ou um imbecil, de tal modo tudo nele resultava impenetrável – um “idiot savant”, em conclusão.

Longe vão os tempos em que André Breton cunhou com o nome de Salvador Dali o anagrama “avida dollars”, estigmatizando o seu comercialismo e a sua indiferença às grandes causas do século, num gesto se calhar ultrapassado e desmentido pelo tempo, mas que o establishment da crítica Benjaminiana ainda hoje teme reconsiderar. Indiretamente essa desforra será perpetrada pelos trabalhos de JV, de Damien Hirst, de Maurizio Cattelan (o “provocador gratuito” que respondeu à encomenda da Bolsa de Milão esculpindo um punho com o dedo do meio levantado) ou de Takashi Murakami, que fez com as suas figuras ao estilo “manga” uma linha de produção estética, capaz de curto-circuitar a ideia de raridade em arte.

Não deixa de ser assinalável que no curto período de um século Portugal tenha saído da sua histórica irrelevância artística (salvo as raríssimas excepções que confirmam a regra) com os nomes de Amadeo Souza Cardoso, Vieira da Silva, Paula Rego e agora JV, a única do lote que (ainda) não é estrangeirada.

Sigamos para bingo.

 

 


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