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Obviamente chumbada

por Pedro Correia, em 05.02.20

A proposta da deputada Joacine Katar Moreira, agora libertada do Livre, para «descolonizar» museus e monumentos estatais em Portugal foi derrotada por larguíssima maioria na Assembleia da República. Contou apenas com o apoio do BE e do PAN.

Alguns sentirão pena. Eu aplaudo este chumbo. Obviamente.

Ou não sabe ou sabe e cala

por Pedro Correia, em 03.02.20

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Joacine Katar Moreira, deputada portuguesa sem inscrição partidária natural da Guiné-Bissau, está preocupada com o seu país natal.

Nada mais compreensível.

O balanço de 45 anos de independência é calamitoso.

Golpes de estado, presidentes assassinados, líderes militares abatidos em ajustes de contas, uma dilacerante guerra civil.

A Guiné-Bissau figura hoje no topo das listas de várias organizações internacionais pelos piores motivos. Desde logo pela permanente ameaça às liberdades políticas e civis no seu território.

Segundo a Liga Guineense dos Direitos Humanos, o sistema nacional de saúde do país está doente. Por incúria, rapina, corrupção. Os doentes são forçados a comprar até fios de sutura.

Faltam hospitais, escolas, tribunais. As aulas são interrompidas a qualquer momento, o sistema judicial está minado por práticas corruptas.

Segundo a Transparência Internacional, ocupa o 168.º lugar entre 176 nações no índice mundial de percepções de corrupção.

Figura entre os 20 países mais pobres do mundo, com um PIB per capita de apenas 646 euros anuais. Cerca de 70% da população vive abaixo do limiar da pobreza.

As crianças, em diversas zonas do país, estão sujeitas à mendicidade forçada, a castigos físicos e a abusos sexuais.

A excisão genital continua a fazer parte do quotidiano.

Esperança de vida à nascença, para as mulheres: apenas 50,6 anos. Para os homens, ainda pior: 48,6 anos.

Há quem não hesite em usar a expressão "estado falhado" , referindo-se à Guiné-Bissau. O Nobel da Paz José Ramos-Horta, por exemplo.

Na imprensa de referência, a ex-colónia portuguesa é hoje mencionada como o "primeiro narco-estado" do planeta. Onde quem manda são os barões internacionais da droga.

 

Mas a preocupação da senhora deputada, guineense de nascimento, não se centra em nada disto: a prioridade dela é que algumas obras de arte (não especificadas) oriundas da Guiné-Bissau estejam em museus ou outras instituições públicas de Portugal.

Eu esperaria dela que abordasse sem temor os factos chocantes que menciono nos parágrafos iniciais. Denunciá-los, torná-los públicos, partilhar com todos os portugueses a imensa dor do comum cidadão guineense. Afinal, com uma chocante indiferença pelos problemas concretos da Guiné-Bissau, a deputada Katar Moreira prefere exigir a criação em Portugal de uma «comissão multidisciplinar composta por museólogos, curadores, investigadores científicos e activistas anti-racistas» com a missão de «descolonizar a cultura».

Demonstrando assim até que ponto está divorciada da situação real do seu país de origem.

Ou não sabe, o que é incompreensível. Ou sabe e cala, o que é intolerável.

Intercâmbio colonial

por Paulo Sousa, em 31.01.20

Já aqui falei da simetria do Livre, agora da Joacine, e do Chega.

Perante a inação dos partidos moderados, que têm responsabilidades de moderação, estes dois partidos comportam-se como adolescentes. Regularmente geram cabeçalhos, aspergindo o espaço público com fricções que agitam o instinto gregário da natureza humana e a que não reagimos uniformemente. 

Pela ocupação do espaço público, Joacine e Ventura acreditam que terão benefícios de curto prazo, o que até pode ser verdade mas, como já aqui defendi, dificilmente os dois serão beneficiados na mesma proporção.

A relação de Portugal com os territórios que, mal e bem, colonizou, foi sempre biunívoca. Muito se trouxe mas também muito se deu e muito de nós lá ficou.

É uma repetição habitual dizer-se, e é um facto, que se não fossem os portugueses teriam sido outros a ocupar aqueles espaços. Uns geriram melhor que nós e outros muito pior. Nisto, como em quase tudo na nossa história, raramente fomos excelentes, e poucas vezes fomos péssimos.

Nesses territórios, agora países, deixámos um legado que será certamente preservado e refiro-me, por exemplo, às respectivas fronteiras. Milhares de portugueses daqui partiram, por lá viveram, combateram e morreram, para ajudar a definir os traçados dos territórios que agora são o chão pátrio destes países com que estaremos sempre irmanados. Pontualmente, os territórios poderão não coincidir com as divisões étnico-geográficas que facilitariam a criação de uma identidade própria imediata de um estado-nação nos moldes actuais, mas tendo sido a respectiva independência posterior à definição da unidade geográfica, podemos legitimamente assumir este legado.

Além disso, a língua de Camões é uma ferramenta de comunicação válida e efectiva no mundo global, com a espessura técnica e científica que nenhum dialecto regional ou tribal poderia proporcionar. Também pela língua que partilhamos, sempre estaremos irmanados.

Especificamente sobre devolução das obras de arte gostaria de questionar Joacine se acha que a arquitectura, enquanto abordagem artística sobre as circunstâncias, pode ser incluída na sua proposta.

Nesse sentido proponho-me a criar aqui uma pequena rúbrica com sugestões para a troca que Joacine sugere.

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Ponte pensil sobre o Rio Tete - Moçambique

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Ponte Samora Machel sobre o Rio Tete - Moçambique

Obra assinada pelo Prof. Edgar Cardoso

Será racismo? Será misoginia?

por Pedro Correia, em 31.01.20

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O Livre, que foi uma das grandes novidades eleitorais a 6 de Outubro de 2019, aliás celebrada com incontáveis expressões de exultação e júbilo, acaba de perder a sua única deputada na Assembleia da República: Joacine Katar Moreira manterá o lugar no hemiciclo, para o qual foi eleita com toda a legitimidade, mas já sem representar o partido.

A decisão foi tomada por 34 dos 41 membros do chamado Grupo de Contacto - o órgão directivo do Livre - e produz, como consequência imediata, o fim da representação parlamentar do partido, que abdica da deputada, eleita por Lisboa. Um sério revés para o primeiro agrupamento político português que adoptara a introdução de «quotas étnico-raciais» em listas eleitorais.

Subsistem legítimas dúvidas sobre a bondade desta decisão, não faltando quem considere que terá sido meticulosamente orquestrada por gente que recebeu mal a inesperada popularidade de uma deputada capaz de «introduzir diversidade» no Parlamento.

Pertencendo a doutora Katar Moreira, enquanto «presidenta», ao núcleo duro do Instituto da Mulher Negra em Portugal, assumida «entidade anti-racista e feminista interseccional» apostada no combate a quem ouse «retirar ao sujeito negro o lugar de multiplicidade», mais se enraíza em muita gente a convicção de que na origem deste expurgo estarão motivações de índole racista e sexista.

Não será indiferente a tais suspeitas o facto de o fundador do Livre ser homem, caucasiano e agora docente em Harvard - selecto viveiro da classe dominante norte-americana, reduto das elites capitalistas. Já dizia o outro: isto anda tudo ligado.

Frases de 2020 (2)

por Pedro Correia, em 21.01.20

 

«É mentira! É mentira! Tenham vergonha!»

Joacine Katar Moreira, no congresso do Livre

Tão amigas que elas eram

por Pedro Correia, em 20.01.20

Quem fala assim não é gaga

por Pedro Correia, em 18.01.20

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Vale a pena ouvir o que ela disse - sem tropeçar nas palavras - aos que tentaram servir-se dela por ser «útil para a subvenção» e três meses depois afiaram as facas para deitá-la borda fora. Dando rédea solta ao racismo e à misoginia que os caracteriza mal se raspa o verniz da correcção política.

Livre condiciona a liberdade

por Pedro Correia, em 14.01.20

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Foto Expresso

 

Paradoxos da política portuguesa: um partido chamado Livre faz tudo para condicionar a liberdade de expressão e de actuação do único representante que tem no Parlamento. Que é mulher e afrodescendente.

Este partido intitula-se feminista e anti-racista. E livre, como a sua sigla proclama. Mas vem praticando um inaceitável assédio moral à sua deputada. Começou por afastá-la da extensa lista de 68 membros dos órgãos nacionais, que serão eleitos no congresso a realizar este fim de semana. E prepara-se para votar uma moção que pretende forçá-la a renunciar ao lugar para que foi eleita por sufrágio universal apenas há três meses.

Caso para perguntar se o núcleo duro que gere o Livre agiria da mesma forma se ela fosse ele. E se tivesse menos melanina a colorir-lhe a pele.

Daqui presto, portanto, a minha solidariedade a Joacine Katar Moreira.

Como se os crimes tivessem cor

por Pedro Correia, em 08.01.20

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Dois jovens foram assassinados no «quarto país mais seguro do mundo» (António Costa dixit). Com cinco dias de intervalo, em duas cidades diferentes. Um em Bragança, outro em Lisboa.

O primeiro foi morto por espancamento, o outro por esfaqueamento.

Um chamava-se Luís, o outro chamava-se Pedro.

Eram ambos estudantes. Um tinha 21 anos, outro 24.

 

Um está a suscitar marchas e vigílias de homenagem póstuma a nível nacional. O outro, não.

«Barbaramente assassinado», proclama o Esquerda.net - órgão nacional do Bloco de Esquerda - perante um destes revoltantes crimes.

Sobre o outro, nem uma linha.

A deputada Joacine Katar Moreira expressou «consternação e repúdio» sobre um destes homicídios.

Sobre o outro, nada.

 

Há muitas formas de racismo. Distinguir os cadáveres de dois jovens em função da pigmentação da pele é uma delas.

Instrumentalizando um deles, de modo obsceno, com fins políticos.

Eu Sou o Desconforto!

por jpt, em 30.11.19

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"Eu sou o desconforto" (falta ao título jornalístico o óbvio ponto de exclamação) não é apenas o catasfioresco trinado "rio-me de me ver tão bela neste espelho". É mesmo uma proclamação bíblica, a sublinhar uma desmesurada autopercepção.

Desde Bruno de Carvalho que o país não tinha uma personagem destas. A imprensa delira, as redes sociais fervilham. Alguns demagogos (ainda) rejubilam. Vem aí o Natal. Depois o delírio continuará. Até (nos) cansar.

 


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