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Com os dias contados

por Leonor Barros, em 20.12.10
É velho, é gordo, usa sempre a mesma roupa, só trabalha dois ou três dias por ano, nada que abone em favor dele, nos tempos que correm há que trabalhar muito, estar muito ocupado e cumprir tarefas múltiplas com afinco, velocidade e stresse, muito stresse, tem barba, não apara ou retoca as sobrancelhas e, ainda por cima, como se as características citadas não fossem o suficiente, é míope.
Tem o péssimo hábito de andar permanentemente de barrete, igual se em casa ou na rua, aparentemente não se coíbe de coisa alguma entre estranhos, usa botas altas, o que, embora seja tendência corrente entre o público feminino seguidor dos ditames da moda, não torna o velho gordo a mais elegante das criaturas, alguém que o leve a um fashion stylist, não se lhe conhece outra roupa e desconhecem-se-lhe companhias, femininas ou masculinas. Passa a vida rodeado de animais, razão pela qual, muito provavelmente, é parco em palavras e profere ocasionalmente sons monocórdicos e repetitivos, aos três de cada vez.
Pode ser encontrado com mais frequência a partir de Novembro, embora já tenha sido avistado em Outubro, em Dezembro faz aparições frequentes em centros comerciais, na televisão, em revistas, folhetos publicitários, podemos encontrá-lo em esforços hercúleos pendurado em varandas, parapeitos, paredes de prédios e chaminés, mais uma vez, uma figura nada dignificante e pouco abonatória, teme-se acusação de home jacking, serve amiúde como arma de arremesso, uma ameaça constante à vida infantil, nos dias que correm é crime ameaçar crianças, há que lhes deixar fazer tudo o que lhes passa pela cabeça, e continua tranquilo cumprindo as tarefas costumeiras, ano após ano. O velho tem os dias contados, porém.
O velho é velho, nos dias que correm ninguém é velho. O pobre velho ver-se-á em breve num desses programas televisivos que operam verdadeiros milagres e declaram guerra feroz às imperfeições. Veremos o velho de boca aberta, entrapado com um turbante e, se tudo correr como esperado, teremos um velho que já não é velho, igual a todos os outros velhos que já o foram, e com uma lista invejável de plastias: abdominoplastia, rinoplastia, o nariz rotundo é muito pouco elegante, uma blefaroplastia para um olhar mais jovem.
O velho é gordo. Nestes dias, gordura é um pecado quase tão mau e hediondo como a velhice, dois pontos negativos imperdoáveis, velho e gordo. O velho será submetido a um intenso programa de cardio-fitness com um regime alimentar equilibrado com as percentagens sensatas de hidratos de carbono, fibras e proteínas.
O velho e gordo tem o péssimo hábito de ser transportado por renas, nos dias correntes, ninguém é transportado por renas, sob pena de ser processado pelas organizações de protecção dos animais e o velho adora compras, um comprador compulsivo sem comparação, outra falta reprovável particularmente em tempos de crise. O velho além de velho, gordo e comprador compulsivo tem outra característica inadmissível: a generosidade. Com tudo o resto pode viver-se. Com a generosidade não. O velho tem os dias contados.

Merry Xmas

por Leonor Barros, em 09.12.10

Só falta o Magalhães.

Jingle Bells (16)

por Leonor Barros, em 25.12.09

 

 Poema de Natal

 

Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos -

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

 

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos -

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio.

 

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço

Um verso, talvez de amor

Uma prece por quem se vai -

Mas que essa hora não esqueça

E por ela os nossos corações

Se deixem, graves e simples.

 

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte -

De repente nunca mais esperaremos...

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas

Nascemos, imensamente.

 

Vinicius de Moraes

Jingle Bells (15)

por Leonor Barros, em 24.12.09

 Praga

Jingle Bells (14)

por Leonor Barros, em 24.12.09
Sonhos
 
E os sonhos de que são feitos? Penso nisso enquanto o dia se aconchega na noite e a tarja de mar prateado cintila lá longe pela janela da cozinha. Será Natal do outro lado do mar? Um tacho, claro, largo, como todos os tachos, preto e pesado, naturalmente. Um copo de leite, uma pitada de sal, uma colher bem cheia de manteiga. Manteiga, jamais margarina. Deixar ferver sob olhar vigilante. Os sonhos são caprichosos, qualquer desvio pode derrotá-los ainda meninos. Retirar do lume. Acrescentar a medida do leite em farinha. A tarja de mar desaparece-me no horizonte entretanto. Levar ao lume outra vez e envolver vigorosamente todos os ingredientes com uma colher de pau, enquanto o calor se encarrega de os ligar. Deitar para um recipiente largo e, quando começar a arrefecer, ir juntando ovos inteiros: um, dois, três, quatro, cinco, seis. Os ingredientes de que os sonhos são feitos devem abundar em quantidade e qualidade, é sabido. Escureceu de repente. Da janela da cozinha escuro apenas. Momento improvável para acalentar sonhos. Depois as mãos na massa, os sonhos que se querem sonhos querem-se batidos com o vigor da vida, amassados com as próprias mãos, já se sabe. Com perseverança, sem desistir, até chegarem ao ponto exacto, difícil de explicar na palidez do ecrã para que escrevo e na noite que ouço lá fora, silenciosa e soturna. Depois a fritura. Aquecer o óleo e ir deitando pequenas porções na fritadeira. O óleo nem muito quente nem muito frio, um dos segredos mais bem guardados. E eis que se avolumam e crescem. Os sonhos devem crescer, pois claro. Envolver com açúcar e uma quantidade muito generosa de canela. E assim são os sonhos, envolvidos com carinho, batidos com robustez e saboreados com a doçura do açúcar e o exotismo da canela. O aconchego possível para a noite imensa que se pôs lá fora.

 

 

publicado aqui num Natal passado

Jingle Bells (13)

por Leonor Barros, em 24.12.09

Jingle Bells (12)

por Leonor Barros, em 23.12.09
É velho, é gordo, usa sempre a mesma roupa, só trabalha dois ou três dias por ano, nada que abone em favor dele, nos tempos que correm há que trabalhar muito, estar muito ocupado e cumprir tarefas múltiplas com afinco, velocidade e stresse, muito stresse, tem barba, não apara ou retoca as sobrancelhas e, ainda por cima, como se as características citadas não fossem o suficiente, é míope. Tem o péssimo hábito de andar permanentemente de barrete, igual se em casa ou na rua, aparentemente não se coíbe de coisa alguma entre estranhos, usa botas altas, o que, embora seja tendência corrente entre o público feminino seguidor dos ditames da moda, não torna o velho gordo a mais elegante das criaturas, alguém que o leve a um fashion stylist, não se lhe conhece outra roupa e desconhecem-se-lhe companhias, femininas ou masculinas. Passa a vida rodeado de animais, razão pela qual, muito provavelmente, é parco em palavras e profere ocasionalmente sons monocórdicos e repetitivos, aos três de cada vez. Pode ser encontrado com mais frequência a partir de Novembro, embora já tenha sido avistado em Outubro, em Dezembro faz aparições frequentes em centros comerciais, na televisão, em revistas, folhetos publicitários, podemos encontrá-lo em esforços hercúleos pendurado em varandas, parapeitos, paredes de prédios e chaminés, mais uma vez, uma figura nada dignificante e pouco abonatória, teme-se acusação de home jacking, serve amiúde como arma de arremesso, uma ameaça constante à vida infantil, nos dias que correm é crime ameaçar crianças, há que lhes deixar fazer tudo o que lhes passa pela cabeça, e continua tranquilo cumprindo as tarefas costumeiras, ano após ano. O velho tem os dias contados, porém. O velho é velho, nos dias que correm ninguém é velho. O pobre velho ver-se-á em breve num desses programas televisivos que operam verdadeiros milagres e declaram guerra feroz às imperfeições. Veremos o velho de boca aberta, entrapado com um turbante e, se tudo correr como esperado, teremos um velho que já não é velho, igual a todos os outros velhos que já o foram, e com uma lista invejável de plastias: abdominoplastia, rinoplastia, o nariz rotundo é muito pouco elegante, uma blefaroplastia para um olhar mais jovem. O velho é gordo. Nestes dias, gordura é um pecado quase tão mau e hediondo como a velhice, dois pontos negativos imperdoáveis, velho e gordo. O velho será submetido a um intenso programa de cardio-fitness com um regime alimentar equilibrado com as percentagens sensatas de hidratos de carbono, fibras e proteínas. O velho e gordo tem o péssimo hábito de ser transportado por renas, nos dias correntes, ninguém é transportado por renas, sob pena de ser processado pelas organizações de protecção dos animais e o velho adora compras, um comprador compulsivo sem comparação, outra falta reprovável particularmente em tempos de crise. O velho além de velho, gordo e comprador compulsivo tem outra característica inadmissível: a generosidade. Com tudo o resto pode viver-se. A generosidade não. O velho tem os dias contados.

Jingle Bells (11)

por Leonor Barros, em 22.12.09

 

Jenny Holzer

Jingle Bells (10)

por Leonor Barros, em 22.12.09
Não há como escapar ao Natal. A época que se diz de solidariedade, paz e harmonia espera-nos nos mais pequenos gestos do dia-a-dia. Sair de casa ou ficar nela é o necessário para a expressão exterior da época de paz e amor fazer aparições sucessivas, esperadas ou inesperadas, dependendo do grau de comprometimento e entrega à época feliz. O simples rádio pela manhã, as notícias matinais, a publicidade na caixa de correio, a televisão, programas ou publicidade, ou as ruas ornamentadas a caminho seja de onde for e como for não deixam margem para dúvida: ele está aí, ele chegou e há que saber viver com a época dos sorrisos, desejos de Festas Felizes, virtuais ou em sms e a quantidade de inutilidades que engravidam a casa dias após a data propriamente dita.
Entro na loja à procura do presente desejado, sem grande pressa, a paciência porém a raiar o limiar de extinção como uma característica a constar na lista de atributos a serem protegidos do extermínio iminente. Umas voltas depois decido o que quero. O que me falta em paciência sobra-me, no dia em causa, em poder de decisão rápida e dirijo-me à caixa sem mais demoras ou delongas inúteis. Um casal com crianças faz-se notar pela sonoridade aguda do rebento, quem sabe um concerto natalício antecipado no mais agudo e espalhafatoso dos tons, uma mulher algures entre os quarenta e cinquenta anos, baixa, de cabelo alourado e crespo, dirige-se ao balcão e, trocando palavras com a empregada, deixa soltar um lamento Um stresse. O Natal é um stresse. Não gosto nada do Natal. A empregada sorri complacente, não se deve jamais contrariar um cliente de cartão em riste, muito menos em época de decretada e declarada crise económica ou financeira ou economico-financeira. A empregada retribui É muito cansativo. A mulher sorri assentindo É só stresse. A empregada continua colocando o presente no saco de papel. Sorri tranquila. A sensação clara e evidente de que o argumento teria sido repetido ad nauseam por louras altas, louras baixas, morenas altas, morenas baixas, morenas e louras nem muito altas nem muito baixas, a declaração usada como uma bandeira gasta e puída. A mulher prepara-se para sair, as palavras sempre presentes, a possibilidade de sairem mais uma vez entre talões e sacos Não gosto nada do Natal e a empregada de sorriso pendurado obedecendo às mais elementares regras de simpatia e polimento É muito cansativo.
À semelhança de outras situações na vida há que saber dizer não, romper com a tradição se elas não nos servir, trilhar caminhos livres sem a obrigação dos presentes, o dever dos festejos, a imposição de felicidade oca e balofa, a grilheta às ocasiões de circunstância ausentes de carinho e de afecto. Dizer não. Dizer não sempre. Ao Natal, naturalmente, se nos estrangula a espontaneidade e sufoca a possibilidade de dias felizes. Dizer Não.

Jingle Bells (9)

por Leonor Barros, em 21.12.09

A Christmas poem

 

At Christmas little children sing and merry bells jingle,

The cold winter air makes our hands and faces tingle

And happy families go to Church and cheerly they mingle

And the whole business is unbelievable dreadful, if you’re single

 

 

Wendy Cope, (2008), Two Cures for Love, London, Faber and Faber

Jingle Bells (8)

por Leonor Barros, em 19.12.09

Está por apurar se vai ficar ao lado da Virgem, em vez do Menino, a namorar a vaca ou a piscar o olho ao ouro dos Reis Magos, certo é que vai figurar nos presépios italianos. Dêem graças por ninguém se lembrar de agredir Sócrates com uma réplica do Cristo-Rei

Jingle Bells (7)

por Leonor Barros, em 16.12.09

Deve ser Natal. Não são só os Pais-Natal enforcados nas varandas e os meninos Jesus em cascata nas janelas. Não são os bolos-rei, azevias e sonhos que invadiram as pastelarias e se espraiam em tabuleiros oferecidos. Não são só as lojas permanentemente cheias, as filas para pagar, embrulhar presentes, pedir talões e cheques-brinde. Não são só as notícias dos sem-abrigo de quem ninguém se lembra nos restantes dias do ano, as acções de solidariedade mais profícuas que coelhos em Primavera, comos somos solidários e caridosos. Não são só as canções de Natal ad nauseam em tudo o que é canto. Não são só as iluminações nos monumentos e as árvores cintilantes nas rotundas. Não são só as notícias da crise nos bolsos dos portugueses e os queixumes dos comerciantes, não há Natal sem eles. Não é só tudo isto. É isto, isto e isto também. Demos Graças que é Natal. Este ano começou logo a 28 de Setembro. O Pai Natal bem pode ir engrossar as filas do desemprego.

 

 

 

Jingle Bells (6)

por Leonor Barros, em 13.12.09

Jingle bells (5)

por Leonor Barros, em 12.12.09

 

Viena

Jingle bells (4)

por Leonor Barros, em 11.12.09

Mafra

Jingle Bells (3)

por Leonor Barros, em 10.12.09

Bloody Christmas, here again,

Let us raise a loving cup,

Peace on earth, goodwill to men,

And make them do the washing up

 

 

Wendy Cope

Jingle Bells (2)

por Leonor Barros, em 09.12.09

Jingle Bells (1)

por Leonor Barros, em 08.12.09

 

 

Jingle Bells

por Leonor Barros, em 08.12.09

Sim, é verdade, não sou particularmente católica – podem implicar à vontade com o particularmente, já se sabe que ou se é ou não se é - sim, não sou muito dada a tradições, sim, implico ferozmente com tudo o que são obrigações, sim, detesto fretes e imposições, presentes de Natal embrulhados na hipocrisia do dever cumprido e mensagens sms formatadas, iguais para todos os felizardos da lista telefónicae para gáudio das operadoras, odeio o cheiro a fritos que se me agarra ao cabelo sempre que me atiro aos afazeres de dona-de-casa prendada na véspera de Natal, sim, tenho uma saudade dilacerante do sorriso do meu pai por estes dias, sim, a música de Natal pelas superfícies comerciais tem o condão de me produzir uma raivinha miúda em crescendo como se fosse acometida pela proverbial e conveniente tpm os dias todos que antecedem o tal dia. E apesar de tudo, é Natal. E como não lhe posso fugir, e sim, até lhe acho alguma piada, daqui até dia 25 postarei sobre a quadra festiva. E será o que me apetecer: fotografias – e quantas- e textos.


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