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Parabéns ao Hot Club pelos seus 70 anos

por Alexandre Guerra, em 06.02.18

O Hot Club está a celebrar 70 anos, o mítico clube de jazz da Praça da Alegria, em Lisboa, um dos melhores e mais antigos da Europa que, ao longo destas sete décadas, tem promovido a divulgação daquele estilo de música no nosso país, através do seus inúmeros concertos e jam sessions na obscura cave (agora nem tanto), com nomes nacionais e internacionais. Mas, mais do que isso... Do que conhecia, o Hot Club era (e certamente ainda é) uma escola de jazz com uma componente prática que, provavelmente, não tinha paralelo em mais qualquer escola do país, e por onde passaram muitos dos melhores músicos nacionais.

 

Tive o privilégio de estudar jazz e guitarra no Hot durante uns meses, quando a escola ainda funcionava no velhinho e carismático edifício da Praça da Alegria (agora só o clube funciona na cave). Era um adolescente que estava a descobrir o jazz (ainda hoje continuo a descobrir) e recordo que todo aquele ambiente me transportava para um universo desconhecido e cativante. Para quem vinha da guitarra clássica, onde o método, a técnica e o rigor da interpretação são pilares inamovíveis de ensino do Conservatório, o jazz colocava outros desafios... Não é que não exija técnica ou rigor (porque exige, e muita), mas nem tudo está definido à partida, cabendo-nos a nós seguirmos o caminho que queremos, dentro de alguns limites. Há um lado aventureiro e profano no jazz, de desafiar convenções, e tudo isso se sentia ao entrar na escola do Hot, onde o que interessava era o resultado da arte e não tanto como lá se chegava. Era isso que nos pediam, é essa a essência do jazz, “perdermo-nos” melodicamente no meio de uma harmonia, sabendo encontrar o caminho que nos conduz ao fim.

 

Lembro-me numa das primeiras aulas de estar a tocar um standard de bossa nova e vinha eu de tal formatado do ensino clássico que não me conseguia “libertar” do que estava literalmente escrito na pauta. Aquilo não estava a soar de forma fluída, estava preso, muito mecanizado, até que a determinada altura "ousei" meter mais umas notas pelo meio e fazer umas brincadeiras, ou seja, divertir-me, e foi nesse momento em que começou a soar a qualquer coisa minimamente decente. Já nas aulas de Combo, recriação de uma pequena banda de jazz, a experiência é absolutamente única, ao tocar aqueles magníficos standards clássicos, dando a sensação de que fazemos parte de uma certa época. E não esqueço as lições aprendidas na cadeira de História do Jazz, dadas por Bernardo Moreira, contrabaixista e pai de uma família de músicos, incluindo o filho homónimo, conceituado contrabaixista. Ainda hoje recorro às definições que ele me ensinou para explicar o que foi o swing e o bebop, talvez os dois maiores movimentos do período de ouro do jazz. Dizia Bernardo Moreira que o swing era caracterizado, basicamente, pelo ritmo de colcheia e semicolcheia e o bebop identificado, nada mais nada menos, pelo uso e abuso da quarta aumentada. Uma definição que simplifica uma construção tão complexa. E jazz também é isso, simplificar aquilo que é complexo.

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Ó Donald põe tento nisto que os monhés estão a tomar conta do pagode. É uma conspiração: pela calada do Outono saiu"Unfiltered Universe" do guitarrista Rez Abbasi e lá dentro insinuam-se Vijay Iyer e Rudresh Mahantappa. Vê-se logo pelos nomes que é malta de fora.

Abbasi é um paka de Carachi e aos 4 anos foi na trouxa dos pais para Los Angeles onde se calhar abriram mercearia ou loja de tapetes.

O Rudresh tem fino bico. Só foi para a América porque o pai roubou aos nativos um lugar de professor de fí­sica na Universidade do Colorado (põe os olhos em Portugal Donald, onde as academias são impermeáveis à estranja, era o que faltava).

Dos três Vijay Iyer é o mais perigoso. Já nasceu em Nova Jérsia fabricado à  pressa pelos pais que chegaram como estudantes e assim ganharam direito de residência. Pior: trocou um doutoramento em fí­sica (nesse vespeiro que é Yale) pelo jazz e agora anda de crista levantada a dar aulas em Harvard.

A malfeitoria que estes malandrins perpetram é a de mestiçar o jazz com a música carnática, original lá do Sul das Í­ndias donde eles vêm. E como são sub-reptícios fazem-no com primor e denodo. Os manhosos, ao lerem este texto, perceberão de imediato que "Unfiltered Universe" além das qualidades que lhe acham intrí­nsecas tem a perversidade de ser como um portal para a prolí­fica actividade da quadriha.

Este Vijay Iyer há quem discuta se não será o melhor pianista de jazz da actualidade. Em 2017 publicou na ECM "Far From Over" e logo o alçaram aos pí­ncaros. Uma vergonha que se repete todos os anos.

À margem, e só por desfaçatez, Rudresh e Abbasi puseram num site à venda "Agrima" por $2,50... Sim leram bem, $2,50. E logo houve quem incensasse o despautério.

Não sei onde isto irá parar Donald.

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Houve festa de estalo no Dizzy's Club Coca-Cola, ali no Columbus Circle em Nova Iorque. Abrilhantavam o cartaz Archie Shepp, Sheila Jordan, os Sexmob com Steven Bernstein, os Trombone Tribe, com Josh Roseman, Ray Anderson, Steve Swell e Bob Stewart, etc.

Tamanho luxo sucedeu no passado dia 15 de Novembro, em celebração do 82º aniversário do trombonista Roswell Rudd e concomitante lançamento do seu último feito, o disco "Embrace" com a cantora Fay Victor, o pianista Lafayette Harris e o contrabaixista Ken Filiano.

Sim, Rudd sempre a experimentar, ele que circum-navegou o planeta do jazz partindo do seu ví­nculo inicial ao estilo dixieland até se tornar num prócere do free, envolvendo-se desta vez num quarteto sem bateria - não é para todos, é para quem pode - para interpretar um repertório de standards: "Something to Live For" de Billy Strayhorn, o compositor de Ellington; "Goodbye Pork Pie Hat", o requiem de Charles Mingus por Lester Young; a balada lírico-agulosa "Pannonica" de Thelonious Monk; "Can't We Be Friends", canção da Broadway.

Rudd rendeu-se? Não - "abraçou, abrangeu, adoptou". Não se espere dele digressões pelas galerias de um museu reverenciando com o remorso dos conversos as peças que antes desdenhara; a prática de Rudd em "Embrace" é a do jazz de sempre: respeitar a integridade das composções, ou seja, desafogar nelas passagens inesperadas e livres, porque o jazz, sabe-o Rudd melhor do que ninguém, é um perpétuo recomeço de conversa. O programa de "Embrace" é simples: provocar a manifestação do sublime com pequenas alegrias.

Posto isto no dia 26 de Dezembro de 2017 Roswell Rudd morreu, finalmente esvaí­do pelo cancro. Dulcí­ssimo passamento de quem em vez de murmurar pelo irrecuperável "rosebud" no leito da morte nos lega a mais bela das mensagens - "Embrace."

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Jazz de 2017

por José António Abreu, em 17.12.17

Há neste blogue quem acompanhe muito mais o universo do jazz do que eu (estás aí, José Navarro de Andrade?). Seja como for, vou permitir-me a desfaçatez de salientar alguns álbuns lançados em 2017. Dentro de cada grupo, a ordem é alfabética.

 

 

ÁLBUNS INSTRUMENTAIS

 

Anouar BrahemBlue Maqams. Há quem não goste do «som ECM» (não é verdade, José Navarro?). Admitindo que os lançamentos por vezes se confundem uns com os outros, eu gosto. A música da ECM descontrai-me e eu preciso de ser descontraído com uma certa frequência. Blue Maqams é um álbum sublime do tunisino Brahem, um tudo-nada mais próximo do jazz do que muitos dos seus outros trabalhos (que diria mais ligados à música tradicional árabe). A colaboração de Dave Holland, Jack DeJohnette e Django Bates - todos excelentes - terá certamente algo a ver com o assunto.

(Vídeo promocional. Pequeno, que a ECM é um nadinha forreta nestas coisas.)

 

Dan Tepfer TrioEleven Cages. Todos os anos saem inúmeros álbuns de trios. De entre a minúscula fracção que ouvi, este, do trio liderado pelo pianista norte-americano (nascido em Paris) Dan Tepfer, é um dos meus favoritos.

 

Jaimie BranchFly or Die. Estou num meio-termo irritante no que respeita ao jazz (o que sou forçado a admitir por estes dias...): a minha paciência para a enésima gravação de clássicos é limitada, mas os sons mais experimentais raramente me atraem. Fly or Die, o primeiro álbum da trompetista norte-americana Branch, é razoavalmente experimental mas permanece melódico.

 

Mário Laginha, Julien Argüelles e Helge Andreas NorbakkenSetembro. Aqui com o auxílio do saxofonista inglês Julien Argüelles e do percussionista norueguês Helge Andreas Norbakken, Laginha continua a fazer excelente música, num registo leve e subtil. Quem desejar simultaneamente manter-se nos portugueses e um som mais vanguardista, pode experimentar The Attic, de Rodrigo Amado, Gonçalo Almeida e Marco Franco, um álbum ao vivo gravado na Parede em 2015, mas lançado apenas este ano.

 

Miles OkazakiThe Trickster. Tendo a fugir de álbuns baseados em guitarra eléctrica (detesto solos de guitarra eléctrica com mais de, vá lá, dez segundos). No entanto, gosto deste. Inspirados nos jogos a que os deuses clássicos se entregavam para espantar o ócio e conviver com os humanos, os temas mantêm uma faceta maliciosa, sugerindo brincadeiras ocasionalmente perversas (os deuses clássicos teriam muitos problemas na Hollywood dos dias actuais).

 

Nomade OrquestraEntreMundos. Dez brasileiros que fazem música de fusão com um cunho tipicamente carioca (e daí, carioca talvez não seja o termo mais adequado, uma vez que eles são de São Paulo).

 

The Comet is Coming, Death to the Planet. Um EP adequado ao sentimento dos tempos, com faixas intituladas Start Running e Final Eclipse. Estranhamente - ou talvez não -, revela-se bastante optimista, numa linha 'que se lixe isto tudo'.

 

Vijay Iyer SextetFar From Over. Expansivo, alternando harmonia e dissonância, Ocidente e Oriente, com os seis músicos (entre os quais o baterista Tyshawn Sorey, que também lançou um novo álbum em 2017) perfeitamente em sincronia.

(Vídeo de promoção. Pequeno, que a ECM, etc.)

 

Yazz AhmedLa Saboteuse. Provavelmente o álbum de jazz que mais ouvi este ano. Ahmed é uma trompetista britânica, que cresceu no Bahrain e já colaborou com os Radiohead. O álbum - o seu segundo - usa sonoridades árabes de modo absolutamente infeccioso (no bom sentido).

 

 

ÁLBUNS MISTOS 

 

Ahmad JamalMarseille. Uma declaração de amor à cidade, de um mestre do piano que completou 87 anos em 2017.

(Video de um dos temas.)

 

Linda May Han Oh, Walk Against Wind. Nasceu na Malásia, cresceu em Perth e toca contrabaixo em Nova Iorque. Walk Against Wind (bom título) inclui temas de uma elegância sombria, ligeiramente cinematográfica. 

 

Nate Smith, Kinfolk: Postcards from Everywhere. Outro álbum que ouvi bastante vezes em 2017, talvez porque se situa naquele registo que estabelece a ponte para o pop/rock.

 

 

ÁLBUNS VOCAIS

 

SomiPetite Afrique. Somi é uma nova-iorquina com raízes nigerianas. Os seus dois álbuns lembram-me os dois principais romances de Chimamanda Ngozi Adichie. O primeiro - The Lagos Music Salon - leva o ouvinte até à Nigéria (tal como Half a Yellow Sun); este segundo debruça-se sobre uma zona do Harlem nova-iorquino ocupada por imigrantes de origem africana (tal como Americanah foca a integração dos imigrantes africanos nos Estados Unidos).

Zara McFarlane, Arise. Se Somi vai beber directamente a África, McFarlane chega lá através das Caraíbas. Talvez a música de McFarlane não seja bem jazz, mas, como deixei claro no início, eu também não percebo grande coisa do assunto. (Já chegaste, José Navarro?)

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por José Navarro de Andrade, em 15.09.16

APOLOGIA DO JAZZ

É já no Sábado, das 10h às 13H
na Livraria Férin, à Rua Nova do Almada.

É para convencer quem acha que o jazz é para velhos e sempre a mesma coisa - arrisca?

É para quem gostava de gostar, mas ainda tem dúvidas em relação ao jazz. 

É para quem já gosta e quer saber um bocadinho mais. 

É para quem já gosta e sabe e quer passar uma manhã de jazz.

Ouvir a música e as histórias mirabolantes de Louis Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane e Wynton Marsalis.

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Sageza

por José Navarro de Andrade, em 05.05.16

Agora que todos têm acesso à informação em qualquer lugar e momento, fica claro o que parece cada vez mais obscuro: a novidade é a crisálida da velharia. Só conta verdadeiramente o que é antigo.

Já está tudo dito? Ainda, bem, assim teremos o prazer redobrado de ouvir outra vez.

Kenny Barron e Bill Charlap não têm nada de novo para dizer. Apresentam-se no mais convencional trio de piano a interpretar standards, ou originais tão mainstream que parecem standards. Ascenderam ao estado supremo da sabedoria que a maturidade a experiência trazem a quem já ouviu tudo, tocou tudo e por isso ganhou um espírito aberto.

A música de Kenny Barron e Bill Charlap não é Ferrari (como o de Miles), é Rolls Royce; não é champagne, é um Porto Vintage; não é Zara é Savile Row.

Puro júbilo.

(E que belíssimas capas tem esta renascida Impulse!)

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2015, o jazz

por José Navarro de Andrade, em 26.12.15

Como de costume, ver as listas de “os melhores do ano” compostas por outrem é motivo de decepção. Sem dúvida que “outrem” dirá o mesmo desta, pois mil e uma cabeças ditarão mil e uma escolhas diferentes, boa parte delas conflituosas entre si, o que poderá atestar que, afinal, o jazz não está tão morto como isso. Também é certo que um género musical com necessidade constante de fazer prova de vida, não pinta demasiada saúde. Por isso cá vai uma lista minha, muito minha, que aceita com prazer a acusação de convencional, porque jazz é escola e escola é tradição, nem que seja para contraria-la.

 

 Vijay Iyer, “Break Stuff”

Apesar de ter sido capturado pela petulante ECM, que desde há décadas tem vindo a agasalhar o jazz numa frigidez setentrional, Vijay Iyer não se deixou vencer pelo cerebralismo. Houve quem ouvisse esvoaçarem nesta música as fórmulas matemáticas do espectralismo de Steve Lehman, mas “-ismos” aparte, Iyer densifica ritmos com a mão esquerda, ora estranhos ora compulsivos, e, à mão direita, vai desenhando ideias melódicas, algumas encantatórias outras dançantes. Uma surpresa ao virar de cada esquina.

 

Maria Schneider, “The Thompson Fields”

A música de Maria Schneider nunca toca no chão, desliza no ar, empurrada de um lado para o outro pela requintadíssima orquestração. Um francês evocaria a “tessitura”, outros mais simples diriam que a compositora, mas sobretudo a orquestradora, tem o secreto condão de transformar a música em paisagem. É como se estivéssemos lá, nas desmesuradas pradarias do norte, onde o céu se dissolve no horizonte. Em termos domésticos experimentem ouvir o disco no Alentejo – que pancada!

 

José James, “Yesterday I Had the Blues, The Music of Billie Holiday"

A proposta mais insensata que poderia passar pela cabeça de alguém: recriar com voz masculina o canto de Billie Holiday, no ano do seu centenário. Oportunismo e contrafacção – nos ídolos não se toca – seria o mínimo que se lhe poderia invectivar. Pois meta-se a viola no saco. Que o Zé tenha voz de algodão e crocante só lhe dá um certo mérito, pois se até na pobre da pop actual há cordas vocais formadas em conservatórios. O ponto mesmo é a calibragem certíssima entre dramatismo e contenção, capaz de lançar toda uma nova luz no repertório de Lady Day.

 

Rudresh Mahanthappa, “Bird Calls”

Aplicar a sintaxe e o vocabulário da música cárnatica à velocidade balística de Charlie Parker, endossar a coisa com o poder de impacte que tem sido o seu timbre, eis a promessa e o conseguimento (estás a ver Sãozita como de alguma coisa serviu a tua verve estrambólica) de Rudresh Mahantappa. Bem podem deitar as cartas que não se encontrará, nos dias de hoje, melhor e mais pujante saxofonista alto.

 

Ryan Truesdell, "Lines of Colour (The Gil Evans Project: Live at Jazz Standard)"

Reviver um orquestrador é empresa bem mais árdua do que reinterpretar ou recriar composições. Sendo Gil Evans o evocado, que para nossa felicidade nos legou tantos e tão diversos diamantes lapidados, de brilho capaz de ofuscar os imprevidentes – vamos lá ouvir em que se meteu este Truesdall. O disco foi gravado ao vivo: não se excitem com a ideia de risco e ausência de margem para o erro, esta gente sabe o que faz. Ao vivo quer dizer caloroso e corroborado pelo entusiasmo do público, assim saibam os músicos suscitá-lo. Souberam. Soube também Truesdell ser fiel sem subserviência, swingar sem nostalgia, quando foi preciso, reinventar o cool sem Califórnia. Uma hora muito bem passada.

 

Se me pedissem, eu até alinharia mais escolhas, mas assim já têm trabalho de casa quanto baste. Falta ainda o orgulho nacional. Não há “melhor do ano” sem haver o melhor da Clean Feed: “Epicenter” de Cris Lightcap, cintado por uma formação que é a fina-flor de um jazz despreocupado com parentescos.

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Coisas que valeu a pena ouvir em 2014

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Só oiço jazz, género que me deixa musicalmente saciado. De vez em quando, se bem orientado, faço tímidas incursões no espesso território da música dita clássica ou oiço na rádio uma canção a que não fico indiferente. Afirmar de modo tão taxativo este meu gosto pelo jazz não me faz especialmente refinado, assim como alguém que radiantemente despeite o jazz não se torna mais irónico. Convém, portanto, não contribuir para essa deplorável forma de arrogância que presume o seu gosto pessoal como mais interessante e inteligente que o de outrem.

Para o leigo ou desinteressado, o jazz é monótono; uma infindável repetição de acordes digressivos em cima de uma base harmónica por vezes insólita, outras vezes modesta. Por ter prescindido da palavra, também parecerá inexpressivo e melodicamente rudimentar. No entanto, esta pequena ilha musical habitada por aficionados grisalhos é um pouco como o nó da gravata: há bastante tempo que não está na moda, mas há muita gente que o faz todos os dias.

Em 2014, tal como noutros anos, produziram-se no jazz gravações de gabarito, mesmo que ninguém esteja em condições de assegurar que daqui a 10 anos ainda sejam recordadas. Tal imprecisão reflete-se nas escolhas dos melhores trabalhos do ano. Rever as diversas e prolíficas listas enunciadas pelos patriarcas da crítica por esse mundo fora, resulta na constatação de que não existem duas selecções iguais, todas fascinantes e nenhuma despropositada. Esta que abaixo se compõe será, assim, mais uma entre tantas, maculada (afinal como as outras…) por um gosto pessoal e por um inapelável alinhamento com o pós-modernismo marsaliano dos anos 80 a que os prosélitos do vanguardismo chamarão de conservador (se não percebeu o significado da frase anterior não se preocupe, é apenas uma private joke jazzística).

(Salvo se o leitor for psicanalista, considere-se a ordem aleatória):

“Road shows, volume 3” de Sonny Rollins, provando que os deuses ainda falam connosco.

“Magic 201”, em que Frank Wess demonstra qualidades equivalentes às do vinho do Porto.

“The art os conversation”, um diálogo que dura há 30 anos entre o pianista Kenny Barron e o contrabaixista Dave Holland – finalmente sós…

“Trip” em que o idiossincrático Tom Harrell (clinicamente esquizofrénico, Harrell só encontra paz mental na música) vai de viagem com o tenor Mark Turner para um lugar que só eles sabem.

“The Imagined savior is far easier to paint” o terceiro passo do trompetista Ambrose Akinmusire confirma-o com o “ai jesus” do actual momento do jazz. Que ele debique noutros géneros musicais (como fez Jason Moran em “All rise”) é caso para se ficar atento ao destino destas direcções.

“Habitat” de Christien Jensen Orchestra. Longe vão os tempos das grandes orquestras de jazz, não há dinheiro para tais aventuras. E no entanto Christine Jensen logrou juntar um ensemble de 20 elementos, prescindiu do clássico swing e obteve uma inigualável textura lírica.

“Quiet Pride: The Elizabeth Catlett Project” de Rufus Reid. Transfigurar esculturas (de Elizabeth Catlett) em música é a conseguida ambição desta obra. Mas o melhor é ouvir como um contrabaixista que sempre foi complementar (o que no jazz não é defeito, apenas modéstia), atinge semelhante grau de requinte e primor aos 70 anos.

“Landmarks” de Brian Blade. Ao terceiro compasso já se sabe de olhos fechados que se está a ouvir Brian Blade. O jazz mais melódico e sentimental dos dias de hoje. Um pouco de doçura só faz mal a diabéticos.

“Mise en Abîme” de Steve Lehman e o seu octeto. Jazz de fusão, mas não dessa dos anos 70. Fusão entre as técnicas de composição espectralistas (faça o favor de ir ver à wiki, porque agora não há tempo para explicar) e electroacústicas, com as harmonias do jazz. Primeiro estranha-se e depois torna-se a estranhar antes que se entranhe. Talvez demasiado cerebral, mas nunca desinteressante.

“The great lakes suite” de Wadada Leo Smith. O freejazz já tem meio século mas ainda julga que é novo. Poucos dos seus mestres resistiram à repetição ad nauseam das dissonâncias e da des-construção, ou seja, ao seu próprio academismo. Como todos os cardeais, Wadada Leo Smith às vezes tem pensamentos heréticos, mesmo que não cheguem para renegar de todo a fé no free – este foi um deles. Quem não for aficionado aproxime-se com cautela.

“Fuzzy logic” de Taylor Haskins. Nem o trompetista é muito conhecido, nem o disco deu muito que falar, mas foi das coisas que me deram mais prazer ouvir em 2014.

Se me perguntarem daqui a meia hora, fornecerei uma lista de certeza diferente, pois não é verdade é que há mais jazz do que orelhas para ouvi-lo todo? Haveria de sair deste mundilho porquê?

(11? Sim, porque haviam de ser 10, ou 12? Ide agora por essa net fora à procura deles.)

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A noite em que não vi nem ouvi Charlie Haden

por José Navarro de Andrade, em 12.07.14

A única explicação que encontro é de isto se ter passado no Cretácico Inferior, por altura dos primeiros mamíferos.

Era normal um rapazola de 12 anos gostar de jazz? Em 1971 não seria inteiramente anormal, embora as discussões se inclinassem para os Emerson, Lake & Palmer (“Tarkus”, a mais bela capa de disco até hoje – não é verdade, mas era o que se dizia na altura), os Yes (“Fragile”, a mais bela capa de sempre – idem), Procol Harum (“A Whiter shade of pale” e “Conquistador”, as mais belas canções alguma vez cantadas – ibidem) e Jethro Tull (“Aqualung”, nunca houve capa tão feia). Os do pátio sul do Liceu Camões, uns idosos de 16 anos, ouviam as coisas de adultos que passavam no “Em órbita”: “Imagine” de Lennon, “Who’s next” dos The Who, ou “L.A. Woman” dos The Doors. Em nota de rodapé seja testemunhado que os Genesis, isto é, “Selling England By the Pound”, e os Pink Floyd, ou seja “Dark Side of the Moon”, vieram noutra glaciação, dois anos depois. Temos assim que a minha pancada pelo jazz era suficientemente excêntrica para dar assunto, mas não de modo a taxar-me entre os putos charilas da turma, o que seria a morte súbita destinada aos apreciadores dos Bee Gees.

Não consigo hoje perceber minimamente como foi possível que o meu pai me tivesse deixado ir ao Festival de Jazz de Cascais de 1971. Porque: 1) Ia dar sarilho – 10.000 barbudos rodeados de polícia de choque por todos os lados? 2) Aquilo era tardíssimo, estava marcado para as 21h30 o que, segundo os fusos horários da época, queria dizer que não começaria antes das 22h30; 3) Era longíssimo, ou seja, na estância balnear de Cascais onde passávamos férias.

Postos os argumentos sensatos, porque diabo se deu o meu pai ao trabalho de pedir ao Luís Andrade (a RTP gravou todo o Festival) que me introduzisse no Dramático, o majestoso e nóvel pavilhão de hóquei convertido em sala de espectáculos, com acústica e conforto a condizer com a modalidade dos patins? Apresentei-me no carro de exteriores bem antes do início da récita, às dez horas portanto, um técnico enfiou-me um par de auscultadores na mão e entrei com a caravana que dava assistência às câmaras – “está connosco” foi o que laconicamente disseram ao Cérbero da porta que implacavelmente rechaçava a legião de borlistas. Não teria sido preciso tanto John LeCarré: o pessoal da RTP havia sequestrado uma grade de cerveja do bar e partilhou-a toda a noite com porteiro e com o polícia de turno enquanto lá dentro decorria a “macacada” – expressão deles).

Mas como se não bastasse tanta irresponsabilidade paterna, os meus pais ainda me levaram até Cascais e ficaram ali à espera que eu me extraísse da mole ululante de 10.000 hippies, yé-yés e playboys que no âmago do Dramático se amontoava até ao tecto. Uma condição: “sais à meia-noite”.

Seria alguém hoje capaz de imolar um filho de 12 anos às fauces deste Baal de charros e subversão, sob a ameaça latente de uma carga policial, que eram famosamente vesgas e bestiais? Claro que não.

Do espectáculo só registo duas memórias: as calças de cetim verde de Miles Davis e, quando entrei, um músico de bochechas aerostáticas a fazer um scat, sozinho à entrada do camarim, que me piscou um olho perante o meu indiscreto estarrecimento com aquele rosto inflado (era Dizzy Gillespie, o que na minha ignorância bíblica só vim a saber muito depois). Que mais impressões poderia um pré-adolescente apedeuta e apagado recordar da primeira noite em que saiu sozinho, ouviu jazz ao vivo e esteve metido numa multidão hirsurta até à mítica hora da Cinderela?

Por isso, pela parte que me cabe agradeço do fundo da alma a Charlie Haden. Não que o tivesse visto, ou ouvido a sua célebre dedicação do tema “Song for Che” aos movimentos de libertação das colónias que, contaram, provocou um sururu homérico no Dramático, mas porque ele fez virtualmente parte da noite em que perdi a virgindade existencial e em que vi a liberdade pela primeira vez.

Quanto Charlie Haden, o contrabaixista, o mínimo que se pode dizer é que deu a volta ao universo, começando no despertar do free em “The shape of jazz to come” (1959) de Ornette Coleman e culminando o seu percurso estelar no sereníssimo, belíssimo e tradicionalíssimo (nunca haverá demasiados superlativos para ele) “Come Sunday” (2006) em dueto com o pianista Hank Jones que faleceria logo a seguir à gravação. Venha quem faça melhor…

 

Quem quiser saber a sério como foi o 1º Festival de jazz de Cascais leia aqui e aqui.

O alfa e o ómega da trajectória de Charlie Haden.

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no good

por Patrícia Reis, em 29.07.13

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Dá-me música

por José Navarro de Andrade, em 11.07.13

Tudo que acontece já foi dito e, sobretudo, cantado - nada de novo sob os céus. E, como de costume, há várias soluções sem sair do mesmo sítio.

Não sei porquê, ontem à noite esta canção ocupava-me a cabeça, sem conseguir parar de a cantarolar. E o melhor é que dela existem duas sublimes versões, uma pungente, obviamente de Billie Holiday, outra desafiante, e muito cool, de Ella Fitzgerald. Billie lacrimeja de dor a pedir-nos empatia pelo mal que lhe fizeram, Ella relata o drama com a voz desprendida de quem sugere que a coisa não fica por aqui.

Faça o leitor a fineza de escolher a versão que pretende, que isto hoje é à vontade do freguês como parece estar na moda. Ah mas a letra...

 

 

 

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Hoje, dia mundial do jazz

por Helena Sacadura Cabral, em 30.04.13

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Rei morto, rei posto

por José Navarro de Andrade, em 24.03.13

Morreu Bebo, que viva Chucho - a dinastia Valdés não definha.

 

 

 

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Esta música não é para velhos - Dexter Gordon

por José Navarro de Andrade, em 21.05.12

Na tarde de 25 de Abril de 1961 toca um telefone algures em Los Angeles. É Dexter Gordon quem levanta o auscultador. Trata-se de uma chamada interurbana de Nova Iorque e do outro lado da linha apresenta-se o sotaque carregado de Alfred Lions, o dono da Blue Note. Em três tempos chegam a acordo: Dexter mudar-se-á para Nova Iorque, assim que legalmente lhe for permitido, e passará a gravar para a Blue Note.

Se há telefonemas que salvam uma vida, este foi um deles.

Depois de ter sido o “gato” mais bem apessoado do nóvel be bop, Long Tall Dexter, o maior jazzmen de sempre (tinha 1,98m), entregou-se aos azares dos estupefacientes, ao que sucedeu a concomitante descida aos infernos prisionais. Dexter perdera quase toda a década de 50 atrás das grades.

É assim que renascido, no final de 1962, Dexter enclausura-se durante dois dias no estúdio e em estado de graça, debita num fôlego 12 temas. Com eles foram editados os seus melhores dois discos: “Go!” e “A Swingin’ Affair”.

Depois, sempre inquieto com as tentações, fugiu para Paris onde grava em 1963, com outros “refugiados” “Our Man in Paris”.

Só voltaria aos EUA mais de uma década depois, mas o que estava feito, estava feito – não chega?

 

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Na linha

por Laura Ramos, em 21.12.11

 

 sax aqui                                                                 foto roubada aqui

 

Desde os festivais de jazz de Cascais que não viajava nos comboios da linha.
E foi com essas memórias que dei por mim tranquilamente sentada na carruagem, a repousar de uma manhã pelas calçadas da Graça.
Ia agora entretida a descascar os anos.
Fixavam-me a fundo nos olhos, instalados no banco do lado. Saídos de mim. Petulantes. Como se quisessem entabular conversa ao som meigo do Muddy Waters e perguntar-me:
Então, que tal essas escolhas que fizeste connosco desde  as festas do Villas-Boas?
Engraçadinhos… Coscuvilheiros. Que topete.

Era o que faltava que me vigiassem, não tardaria atiravam-me:

- Parece que nunca mais andámos na linha...

Ferrei-lhes com o Gato Barbieri.

 – Chega como resposta?
Ficaram sossegados, sem me aborrecer mais.

E pago eu bilhete para levar atrás estes parasitas.

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Piano Bar

por Laura Ramos, em 16.08.11


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