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"Diamonds Are Forever"

por Cristina Torrão, em 29.07.19

Nunca fui grande fã de James Bond, apesar de um dos seus primeiros filmes estar ligado a um acontecimento especial na minha família: o nascimento do meu irmão. O filme 007 Contra Goldfinger tem data de 1964, mas, pelos vistos, chegou aos cinemas nacionais em 1966. Nesse Verão, o meu irmão estava para nascer e os meus pais alojaram-se em casa dos meus avós maternos. De férias, o meu pai estava desejoso de ver o novo filme do 007 e, num belo dia, a seguir ao almoço, certificando-se, ele e o meu avô, de que a minha mãe estava bem e nada indicava que acontecesse algo de especial nas horas seguintes, abalaram para o cinema, na baixa portuense. Quando regressaram, o meu irmão já dormia na sua alcova de recém-nascido e a parteira já se tinha despedido. Um parto rápido e fácil, como há poucos. E escusado será dizer que, enquanto o meu irmão e eu vivemos na casa paterna, o meu pai contava esta história em todos os aniversários do filho.

Passariam, porém, vários anos, até eu ver um filme do James Bond. Já não sei qual foi o primeiro, sei que fui ver o Alvo em Movimento ao cinema, com um Roger Moore já entradote e com a canção-tema interpretada pelos Duran Duran, uma banda muito popular, na altura. Em 1985, eu tinha já 20 anos, mas, se vi algum, ou alguns, anteriormente, não me marcaram por aí além, caso contrário, lembrar-me-ia. Entretanto, já vi vários James Bond, claro, embora só tenha chegado ao legendário Goldfinger na Alemanha (talvez nos anos 1990), numa exibição televisiva.

Enfim, acção e efeitos especiais nunca foram o meu estilo. Aprecio filmes de espionagem, mas mais reais, o James Bond entra muito no reino da fantasia, com invenções estrambólicas e aquela ideia de um vilão super-poderoso que pretende dominar o mundo. O 007 é mais um super-herói do que um agente secreto. Foi nesta ideia que agarrei, em 2010, a fim de brincar com a criação de Ian Fleming, quando me estreei na blogosfera, numa história, também ela estrambólica, sobre um clone do Hitler, em 2112 (logo eu, que ando sempre a viajar pela Idade Média, haveria de fazer uma incursão pelo futuro). Um cientista especializado em clones é raptado por um grupo de nazis, numa época (fui optimista), em que já ninguém se lembra deles. Porém, o cientista sabe o que são nazis, pois viu filmes antiquíssimos sobre a 2ª Guerra Mundial, em casa de um colega de liceu que se interessava por velharias.

Na sua aflição, o cientista tem este pensamento:

Caso fosse bem sucedido, eu proporcionaria uma segunda vida a um psicopata que, há quase 200 anos, originara uma guerra mundial. Como se isso não bastasse, o energúmeno ordenara, por decreto, a exterminação pura e simples de grupos étnico-religiosos. E era com esse monstro que os doidos daqueles nazis se propunham dominar o mundo!

Uma ideia que nem sequer era original. Será que me tinham escolhido para um filme que contava essa história pela milionésima vez, sem me informarem, a fim de que a minha actuação fosse autêntica? (…) Dei comigo a perguntar-me quando surgiria o super-herói, ou o agente secreto, que me libertaria, evitando a catástrofe mundial.

Por falar em agentes secretos: ao ver os filmes antigos do meu colega de liceu, constatei que o 007 surgiu há 150 anos! Era no fundo de calcular, pois Hollywood prepara-se para comemorar a estreia do 100° filme. O que eu aliás achei deveras interessante, foi que o James Bond dos primeiros sessenta anos era heterossexual! Em vez de Bond-boys, havia Bond-girls! (Talvez não fosse má ideia ter vivido em fins do século XX)...

Recordei-me desta passagem, a propósito da transformação de Bond numa mulher, com a actriz Lashana Lynch. Devo dizer, porém, que, depois do espanto inicial, esta metamorfose não me aquece, nem me arrefece, apesar de achar um absurdo o destaque dado à notícia na revista do jornal Expresso e aqui reportado pelo Pedro Correia. Tal como ficaria indiferente a um Bond homossexual. O filão James Bond, como Ian Fleming o criou, há muito se esgotou. Os filmes interpretados por Pierce Brosnan vieram provar isso mesmo, ao assumirem a fantasia, bem retratada num Q interpretado por John Cleese. Com Pierce Brosnan, o 007 já não se levava a sério.

Tentou-se, no entanto, modificar este rumo com Daniel Craig. Em vão. O James Bond não adquiriu o charme dos anos 1960, 70 e 80. Nem nunca mais adquirirá. Talvez seja melhor assim. As jóias são para apreciar, não para modificar. As jóias nunca envelhecem.

No final de Casablanca, Rick diz a Ilsa: “We’ll always have Paris”. Os fãs do 007 também têm jóias únicas, para recordar e rever.

“Diamonds Are Forever”.


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