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Delito de Opinião

Matera, singular e mágica - parte 2

Ana CB, 12.08.25

Os Sassi de Matera são dois, separados pela Civita, o centro histórico medieval: a norte fica o Sasso Barisano, afundado entre a orla mais elevada do planalto; e a sudeste o Sasso Caveoso, pendurado sobre o rio Gravina e de frente para o planalto Murgia Timone.

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As casas trogloditas

 

Na encosta leste do Sasso Caveoso, a Associazione Culturale Gruppo Teatro Matera reabilitou algumas construções do Vico Solitario, entre elas uma casa-gruta aberta ao público como espaço etnográfico. Remonta ao século XVIII e é uma habitação parcialmente escavada e parcialmente construída. Visitá-la pode parecer apenas mais uma experiência inócua, mas não para mim.

A gruta tem uma forma simples, rectangular e com tecto abobadado. Só existe uma divisão, com um pequeno nicho contíguo para a cozinha. A ventilação faz-se apenas pela porta de entrada e por uma janela minúscula no espaço da cozinha. Tudo se concentra em poucos metros quadrados: a cama do casal, alta, para servir de lugar de arrumação por baixo, com o seu colchão cheio de lã e folhas de milho; a mesa de refeições, onde todos comiam do mesmo prato de barro; a arca dos cereais, com uma divisão interna para separar o grão para consumo humano da forragem para os animais; a cómoda onde se guardava a roupa, cujo gavetão inferior poderia também servir de cama para uma criança; o baú do enxoval e a arca onde guardavam a comida; o tear onde faziam os tecidos; o calhandro para os dejectos (a habitação não tinha esgotos). Os utensílios eram pendurados nas paredes ou colocados em pequenos nichos. Um braseiro aquecia a casa no Inverno e tinham uma pequena cisterna com tampa para armazenar a água da chuva, transportada do exterior por um rudimentar sistema de canalização. Os habitantes dos Sassi não tinham acesso a nascentes ou lençóis aquíferos, pois as grutas estão escavadas sobre uma camada maciça de calcarenito.

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Além da família, sempre numerosa – cada casal tinha uma média de seis filhos, mesmo sendo a mortalidade infantil na ordem dos 50% – a casa abrigava também os animais: uma mula ou cavalo, porcos, aves de capoeira. Todos os objectos desta casa-gruta estão exactamente nos mesmos lugares em que se encontravam nos anos 50, quando a casa era habitada. Apesar de ainda ter contactado, em tempos idos, com casas rurais no nosso país em que as condições de vida eram bastante más (pelos meus padrões citadinos, obviamente), não consigo imaginar como seria viver nestas habitações sobrelotadas e insalubres.

Na verdade, nesta parte esquecida e isolada da Basilicata, e nestas condições, viviam 60 mil pessoas até meados do século passado. A sociedade italiana do pós-guerra só virou as atenções para a região depois de 1945, ano em que Carlo Levi, opositor do regime durante os anos do fascismo de Mussolini, publicou as memórias do tempo em que tinha sido desterrado para a Basilicata por razões políticas, no livro “Cristo parou em Eboli”. Descreveu os Sassi de Matera como sendo a ideia que um estudante faz do Inferno de Dante, com cavernas escuras, húmidas e sujas, onde as pessoas coabitavam com animais e as doenças se espalhavam de forma galopante.

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Em 1950, o primeiro-ministro italiano Alcide De Gasperi visitou Matera e ficou chocado com as circunstâncias precárias em que viviam os habitantes dos Sassi. A cidade foi apelidada de “vergonha nacional” e o governo italiano lançou um programa de realojamento dos moradores em casas novas, num esforço para “modernizar” a cidade. Entre 1953 e 1968, 16 mil pessoas foram transferidas para estes bairros modernos – cuja concepção, no entanto, não foi das mais felizes e levou ao isolamento de uma população que se caracterizava pela convivência e entreajuda, como se pertencessem todos a uma mesma família. Os Sassi foram esvaziados, e houve até quem sugerisse que esta parte da cidade fosse isolada com muros, para que ninguém mais se lembrasse dela. Sem vida, passaram a servir de refúgio para ladrões e traficantes. Houve, no entanto, alguns movimentos de locais que não se conformaram com a degradação do lugar em que tinham vivido, e aos poucos foram surgindo iniciativas para insuflar um novo alento aos Sassi, sobretudo a partir dos anos 80. O impulso final foi dado pela aceitação da candidatura a Património Mundial da UNESCO, em 1993.

 

A fé de Matera

 

Ao lado da casa-gruta do Vico Solitario foram recuperadas outras construções. Na neviera era armazenado o gelo para refrescar e conservar os alimentos, servir como reserva de água potável ou ser usado no tratamento de doenças. A igreja rupestre de Sant’Agostino al Casalnuovo, que remonta aos séculos XIII/XVII, pertenceu ao vizinho Mosteiro de Santa Lúcia mas foi disponibilizada para fins não religiosos e arrendada, sendo usada primeiro como habitação e depois como armazém e até como pedreira de calcário. Tal como a neviera, agora é essencialmente um espaço expositivo.

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Uma caverna natural inserida no mesmo complexo museológico funciona como auditório. Segundo o painel informativo, este era o local de socialização dos habitantes do bairro, abrigado das chuvas e das temperaturas extremas, onde os homens conviviam no final do dia de trabalho. Sítio ideal para também nós descansarmos um bocado, em frente ao ecrã de televisão que passava um documentário. Foi ao vê-lo que descobri a razão de ser das decorações festivas que tínhamos visto na véspera (estávamos em Junho) e de um quadro, pendurado no nosso quarto no Nonna Rosario, com o desenho de um carro alegórico. E que descobri também a existência de um dos acontecimentos mais impressionantes do calendário religioso italiano.

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A santa padroeira de Matera é a Madonna della Bruna, cuja festa se celebra anualmente a 2 de Julho há mais de seis séculos (2024 foi o ano da 635.ª edição). Este é um dos eventos culturais mais significativos da cidade, e porventura o mais singular, aquele em que a fé dos materanos se mostra de forma mais vívida, emotiva, até mesmo assustadora. O carácter único das celebrações e a popularidade de Matera transformaram esta festa num acontecimento que é hoje em dia alvo de reportagens em directo durante mais de 20 horas, desde a procissão dos pastores, que se realiza às quatro e meia da manhã, até ao fogo-de-artifício que encerra as festividades.

As várias procissões que decorrem ao longo do dia têm finalidades diferentes, mas são acompanhadas por milhares de fiéis de todas as idades. Na que se realiza ao início da tarde, a imagem da Madonna é transportada numa carruagem, separada da que representa o seu filho, habitualmente colocado no seu braço esquerdo. Mãe e criança são reunidas mais tarde e regressam à Catedral ao cair da noite, naquela que é a procissão mais comovente e inspiradora da festa – ou pelo menos é assim que a retratam os vários testemunhos gravados em vídeo nos anos mais recentes. Neste cortejo, as duas figuras seguem num carro alegórico triunfal, puxado por mulas, antecedido por um grupo de “guardas” a cavalo e rodeado por seguranças, que formam um cordão para proteger todo o cortejo. Antes de voltar ao seu lugar dentro da Catedral, o carro que transporta a Madonna dá três voltas à Piazza del Duomo, um ritual para invocar a protecção da cidade.

O carro alegórico é diferente todos os anos, concebido segundo um tema escolhido nas escrituras, com esqueleto de madeira e decorado com figuras e outros elementos modelados em cartão e papier machê. Depois de aliviado da sua carga preciosa – a figura da Madonna – percorre a Via delle Beccherie (a única rua dos Sassi onde é possível a passagem de carros) até à Piazza Vittorio Veneto, feericamente iluminada para a ocasião. E é quando entra nesta praça que começa a loucura. Centenas de pessoas atiram-se (literalmente!) ao carro, empurrando-se, atropelando-se, trepando umas por cima das outras, braços em riste para arrancarem um pedaço das figuras ornamentais. Em poucos minutos, o trabalho de meses é destruído, e os felizardos que conseguiram para si (ou também para os amigos, pois muitos deles organizam-se em grupos) um bocadinho de uma figura sentem-se abençoados e vão guardá-lo para sempre como amuleto de boa sorte. Dizem os estudiosos que este acto aparentemente bárbaro simboliza o triunfo do bem sobre o mal e a renovação da vida. Mariagrazia afirma que o acontecimento não é tão selvático quando parece, mas mesmo assim prefere manter-se longe. Há dois anos, o filho teve a sorte de conseguir um desses cobiçados pedacinhos. A fé materana é transversal a todas as gerações, e a tradição secular mantém-se de boa saúde.

O número de lugares de culto em Matera é impressionante, e rivaliza com o de cidades italianas bem maiores e mais conhecidas. O edifício religioso mais significativo, como não podia deixar de ser, é a Catedral de Maria Santissima della Bruna e Sant'Eustachio. Data de 1270 e foi construída, em estilo românico apuliano, no ponto mais alto da cidade, marcando a divisão entre os dois Sassi de Matera. As alterações de que foi alvo nos séculos XVI e XVIII deram-lhe um aspecto exterior híbrido e um interior barroco, com tectos falsos em madeira pintada com cenas litúrgicas, retábulos e capelas com mármores coloridos, e muitos elementos em talha dourada. Ainda assim, a luz que entra pelas janelas do clerestório e pelo vitral singelo, a par da abundância de branco, dão ao espaço alguma leveza, que contrabalança o excesso de elementos ornamentais.

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Também do século XIII, mas muito menos modificada, a igreja de San Giovanni Battista é outro belo exemplo da arte românica. Tem um portal magnífico, decorado com motivos florais e cabeças humanas com cabelos encaracolados. O interior é espartano, pedra à vista com arcos ogivais e abóbadas nervuradas, decoração parcimoniosa, a altura central a sobrepor-se à largura. Os olhos são encaminhados para o alto e há um convite implícito à meditação, na altura da visita reforçado pelo terço rezado a várias vozes femininas.

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(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

 

Matera, singular e mágica - parte 1

Ana CB, 01.08.25

Vista de longe, do miradouro de Murgia Timone, Matera parece uma cidade bombardeada. Uma mancha cinza e creme onde se notam paredes em ruínas, janelas que parecem buracos negros, fachadas assomando entre rochas, telhados inexistentes substituídos por pedras empilhadas ao acaso ou terra de onde despontam arbustos incipientes. Paisagem cubista com formas interligadas, extravasando em todas as direcções sem ordem evidente, sucessões de degraus que parecem não ter princípio nem fim e evocam as impossibilidades da gravura “Relativity” de Escher.

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A tranquilidade aparente dá a ideia de um lugar abandonado. E no entanto, o engano não poderia ser maior: estamos perante uma das povoações mais antigas do mundo constantemente habitada desde há 10 mil anos. Porquê? O que é que tem de tão especial? Há que visitá-la para perceber.

 

Do desconhecimento ao estrelato

 

Entrando em Matera pelo planalto, no lado norte, a cidade não difere de qualquer outra: prédios baixos pintados em cores insuspeitas, com lojas e oficinas nos pisos inferiores; aqui um mercado, uma igreja moderna mais à frente, um silo industrial ao longe, espreitando por cima dos telhados. Muitos carros, algumas árvores espaçadas ao longo das ruas. É o Piano, a parte moderna da cidade, onde vive a maioria dos seus 60 mil habitantes.

Numa viagem de carro pelo sul de Itália, o aspecto prático sobrepõe-se frequentemente ao romântico, e a verdade é que nos centros históricos é impossível estacionar. Por outro lado, andar a pé faz bem, até mesmo para digerir as maravilhosas refeições de pasta a que sucumbimos de boa vontade quando andamos por terras italianas. Decidimos, por tudo isso, alojar-nos numa das ruas principais do planalto, a uma mera caminhada de 10 minutos da cidade antiga, e onde até parecia estar à nossa espera um lugar milagrosamente vago no pequeno estacionamento do outro lado da estrada. Um início auspicioso!

Apesar de ter os seus Sassi e o Parque das Igrejas Rupestres inscritos no Património Mundial da UNESCO desde 1993, Matera permaneceu longe da ribalta turística até muito recentemente. “Até há poucos anos, quando ia a Milão e dizia a alguém que vinha de Matera, olhavam para mim com ar de dúvida e perguntavam: onde é que isso fica?” – palavras de Mariagrazia, a dona do B&B Nonna Rosario, o alojamento onde ficámos. O clique da mudança deu-se em 2019, quando Matera foi Capital Europeia da Cultura, reforçado pelas filmagens da sequência de abertura do filme “007-Sem Tempo para Morrer”, que mostrou a cidade ao mundo quando estreou nos cinemas, em 2021. Em meia dúzia de anos, Matera tornou-se uma estrela do turismo tanto nacional como internacional, e o corrupio de visitantes é contínuo.

 

Uma cidade, várias faces

 

As sombras do final de tarde já se alongavam quando saímos ao encontro do centro histórico, pese embora a temperatura do ar se mantivesse nos 20 e bastantes graus. Íamos em busca dos Sassi, anfiteatros escavados numa das vertentes do Torrente Gravina, que corre, em esses de quem bebeu demais, pela região da Basilicata. São eles o motivo principal do fluxo de visitantes da cidade, mas ainda assim permanecem uma face oculta, resquícios de vergonha antiga, escondidos que estão para quem vem da parte moderna. As construções que ocupam a Civita, o centro histórico medieval que se espalha pela orla do planalto, são um biombo formado por igrejas, palazzi e edifícios vários que impedem a visão imediata dos Sassi. Fervilhando de gente – habitantes locais à conversa, miúdos montados em patins ou bicicletas com rodinhas, casais de namorados, e uma boa dose de estrangeiros – a Piazza Vittorio Veneto é o centro nevrálgico da Matera antiga, uma espécie de foyer de um teatro onde nunca entrámos, e de que não sabemos bem o que esperar.

Quando passei os modestos arcos de acesso ao terraço-miradouro Luigi Guerricchio e consegui um disputado lugar na varanda de ferro forjado, entrei noutra dimensão. O anfiteatro de pedra do Sasso Barisano abria-se à minha frente e aos meus pés, tão amplo quanto compacto: uma amálgama de edifícios e rocha, de volumes desordenados, um puzzle concebido por um louco e que o meu cérebro teve dificuldade em processar. No cenário aloirado pelo sol da “golden hour”, qual estrela no cimo do pinheiro natalício, a catedral brilhava contra o céu sarapintado de aves irrequietas, com a torre sineira a destacar-se para assinalar a importância do edifício. Metade do Sasso já estava à sombra, dando ao quadro um aspecto ainda mais dramático. O meu coração falhou uma batida. Terá sido nessa altura que me enamorei de Matera?

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Se não foi, decerto não terá tardado muito. Aventurámo-nos pelas vielas e escadinhas íngremes, na ânsia de sentir o efeito de penetrar naquele labirinto. Os Sassi são enganadores. Olhamos para o mapa e parece que determinado ponto está ali mesmo ao lado. Orientamo-nos naquela direcção, mas as ruelas são tão imbricadas que às tantas damos por nós a andar em sentido contrário, para a seguir descobrirmos que o lugar que procuramos está dois níveis acima (ou abaixo!). Não são raras as vezes em que temos de voltar pelo mesmo caminho, para depois entrar numa outra viela, subir ou descer mais uma porção de degraus – e temos sorte se não formos dar a um beco. Meio perdida no cenário, senti-me criança a viver uma aventura livresca, quase à espera de ver o Professor Dumbledore surgir ao virar de uma esquina.

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Entre tentativa e erro, lá conseguimos dar com o restaurante onde tínhamos decidido ir jantar. Chama-se “Il Terrazzino”, e o nome não engana: uma escadaria estreita, ao ar livre, deixa-nos num terraço abrigado sob uma arcada tripla, de onde temos uma vista soberba sobre a vertente norte do Sasso Barisano. Mesas quadradas, cobertas com simples toalhas brancas, e cadeiras robustas de madeira escura, num ambiente quase espartano que realça o panorama exterior. Aqui qualquer comida saberia bem, que os olhos degustam tanto quanto o palato. E no entanto, há mais. Um atendimento sorridente e caloroso, comida tradicional deliciosa – como a parmigiana di melanzane (à base de beringela) ou as orecchiette al tegamino (uma massa típica da Puglia) – e ainda a oportunidade de conhecer uma antiga adega no subsolo do restaurante. A adega data de 1600 e foi escavada na rocha, seguindo a arquitectura típica dos Sassi. Nas suas várias salas está organizada uma exposição etnográfica, com objectos originais e fotografias que mostram como era a vida dos camponeses de Matera até meados do séc. XX.

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Quando saímos do restaurante, já sob o pano azul-escuro da noite, a cidade apresentava uma outra face, plena de contrastes. O negrume engolia certas partes dos Sassi, enquanto outras tinham ganhado uma vida diferente sob os focos de luz. A escuridão disfarçava as zonas ainda em ruínas, esbatia imperfeições e escondia guindastes, as luzes uniformizavam a pedra, às vezes criando pontos de cor. A Matera nocturna parece mais moderna, mas não menos misteriosa.

De regresso ao alojamento, nova passagem na Piazza Vittorio Veneto, onde o movimento decuplicara no espaço de apenas duas horas. A cidade inteira parecia ter saído à rua. O ambiente era de festa e até estavam montados grandes arcos de iluminação em vários pontos da praça, mas as suas lâmpadas mantinham-se apagadas. Só mais tarde viria a perceber porquê.

 

O pão de Matera

 

Na manhã seguinte, Mariagrazia serviu-nos o pequeno-almoço numa sala-cozinha luminosa, a divisão central do seu B&B. De um saco de papel retirou um pão estranho, com uma crosta escura e um ar tosco. Cortado em fatias, o miolo revelou-se amarelo, a fazer lembrar o nosso pão de milho, mas ao prová-lo percebi que era muito diferente, com uma textura e um ligeiro pico azedo a evocarem o pão alentejano. Sem o saber na altura, estava a comer um pão tradicional centenário, típico dos Sassi de Matera, actualmente classificado como IGP (Indicação Geográfica Protegida) e produzido segundo critérios rígidos que evitam a sua desvirtuação.

A base do verdadeiro pão de Matera é idêntica à de tantos outros pães: farinha, fermento, água e sal. Mas esta identidade é apenas genérica, pois tanto os ingredientes como o processo de produção têm particularidades que, somadas, resultam num produto muito especial. O ingrediente mais importante, a farinha, obtém-se a partir da sêmola de grãos de uma variedade de trigo tradicional muito difundida na região lucana, conhecida como “Senatore Cappelli”. Este tipo de trigo conserva no seu património genético características que não se encontram noutras variedades, e que conferem ao pão de Matera aroma e sabor únicos, além de ter um glúten mais facilmente digerido. A fermentação é longa e tem um segredo: é usada massa-mãe que envolveu a maceração de uvas e figos fermentados em água de nascente local. Finalmente, a cozedura tem obrigatoriamente de ser feita em forno de lenha alimentado com essências típicas da região.

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Dizem os locais que o formato do pão de Matera – comprido, alto e arqueado, quase um cone – se assemelha ao das elevações abruptas da Murgia, a região geográfica em que a cidade se insere. Antes de a massa ir para o forno, leva três cortes rituais, em representação da Santíssima Trindade. O pão foi durante séculos a base da alimentação dos habitantes dos Sassi, e esta era uma forma de agradecerem a Deus o alimento que lhes permitia sobreviverem. A massa era cozida em fornos comunitários, e para evitar confusões cada pão era marcado com um carimbo de madeira ou terracota que tinha gravadas as iniciais da família a que pertencia. Os carimbos são hoje acervo de museu, mas o pão tradicional continua a ser o preferido pelos materanos.

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A magia da pedra

 

No extremo oriental da Basilicata, região do sul de Itália, o sulco geológico a que dão o nome de Gravina di Matera define o território da Murgia Materana, um planalto calcário caracterizado por fendas profundas, ravinas, rochas e cavernas, coberto de vegetação mediterrânica. Os achados arqueológicos mostram que esta região é habitada desde o Paleolítico, quando as suas grutas e saliências rochosas de formação natural serviam de abrigo aos humanos, nessa altura caçadores-recolectores. Com a agricultura e o sedentarismo, por alturas do Neolítico, surgiram os primeiros assentamentos, que aproveitaram as cavernas escavadas nas encostas das ravinas, num exemplo perfeito de adaptação humana ao meio natural, tirando o máximo partido da geomorfologia e do espaço locais.

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Estas habitações trogloditas nunca deixaram de ser usadas e o seu número foi aumentando ao longo dos séculos. Na Antiguidade tardia e início da Idade Média já eram a forma de povoamento mais difundida em Matera, constituindo um labirinto de grutas que se estende para lá do imaginável: o que está à vista é apenas 30 por cento do total, que ascende a um número entre 1500 e 3000, dependendo do critério usado para contabilizar as estruturas. Muitas delas foram adaptadas e modificadas ao longo do tempo, com construções de alvenaria prolongando a frente das grutas – nos Sassi, as casas foram construídas para satisfazer as necessidades das famílias. Estas habitações subterrâneas espalham-se em grupos, de forma irregular, acompanhando as camadas de rocha calcária macia. Com o passar do tempo, a forma pré-histórica de viver numa gruta cristalizou-se no modelo de habitação característica de Matera.

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No entanto, embora os agricultores, pastores e comerciantes menos endinheirados vivessem nas casas trogloditas, a população pertencente às classes mais abastadas (clero, nobres e negociantes bem-sucedidos) construiu para si, na parte mais alta da cidade, palacetes e mosteiros mais consentâneos com a sua posição social, ao gosto de cada época. Esta é a razão pela qual existe uma diferença acentuada entre a morfologia dos edifícios da Civita e dos Sassi.

Ainda assim, quando no dia seguinte parámos no miradouro da Piazzetta Pascoli (a “varanda” de Matera), de onde temos uma vista abrangente sobre o Sasso Caveoso, não pude deixar de admirar a forma como ali tudo parece fundir-se naturalmente. As construções mais elaboradas transfiguram-se mais abaixo em casas que se projectam das grutas, esculpidas na colina, desdobrando-se até se confundirem com a paisagem. Casas e ravina misturadas, feitas de uma mesma rocha, unidas pelas mesmas tonalidades cruas e acinzentadas. Caos e harmonia em coabitação pacífica.

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Em dia quente e sem ponta de vento, subir e descer ruas íngremes e escadinhas sinuosas não é um passatempo recomendável. Mas Matera parece irradiar uma energia especial que torna tudo mais leve. Durante as várias horas em que percorremos os Sassi, os meus joelhos não se queixaram das centenas de degraus que subi, os pés resistiram sem mossa aos milhares de passos que dei, o calor não me incomodou, o humor esteve sempre em alta. Coincidência ou sortilégio? Na dúvida, apetece-me mais optar pela segunda hipótese.

(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Bolonha: torres, arcadas, e muito charme

Ana CB, 23.05.25

Uma da tarde, 34°C de temperatura do ar – ou, como diria Eça, um “calor de ananases”. Sentei-me na esplanada ainda quase deserta do Cesarina para aquele que iria ser o meu último almoço em Bolonha. Sob a protecção de um enorme chapéu-de-sol e com as árvores do complexo das Sete Igrejas de Santo Stefano a darem uma certa impressão de frescura, soube-me bem descansar enquanto esperava que me servissem um risoto de espargos. À minha frente alongava-se a Praça de Santo Stefano – que na verdade não é propriamente uma praça mas antes um espaço triangular, aberto na Via com o mesmo nome para acomodar vários palácios e as igrejas. Copo de vinho branco da Toscana na mão, dediquei-me ao tão italiano dolce far niente, no meu caso a simples arte de observar calmamente os edifícios de tons alaranjados, batidos pelo sol inclemente, as pessoas que iam e vinham, sacos de compras na mão ou máquinas fotográficas à tiracolo, muitas vezes de olhos postos num smartphone, e um ou outro ciclista de passagem. O risoto chegou e estava divinal, e depois veio também um tortino di cioccolato com cuore fondente, que tentei fazer render porque, a bem da verdade, estava com uma certa relutância em sair dali, e mais ainda de ir embora de Bolonha – a cidade como que me enfeitiçou.

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O meu primeiro almoço em Bolonha tinha sido algo diferente, mas também sossegado. Cheguei à Estação Central vinda de Florença, depois de uma curta viagem de 38 minutos no Frecciarossa, o topo de gama dos comboios de alta velocidade italianos (que pode chegar aos 300 km/hora). Ainda era cedo para dar entrada no alojamento e não me apetecia andar pela cidade de mala atrás, por isso atravessei o Parco della Montagnola, lugar fresco, cheio de árvores altas e vazio de confusões, e parei para almoçar. O parque tem um espaço nitidamente dedicado à população estudantil mais alternativa, com mesas e cadeiras de todas as espécies e feitios espalhadas entre as árvores, ao lado de uma osteria e um barzito, e de um pequeno recinto pavimentado onde decorria na altura uma aula de ioga. Entre um hambúrguer e um café pingado, deixei-me ficar por ali durante mais de uma hora, naquilo que foi para mim uma espécie de reset depois de alguns dias na agitação de Florença.

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Esta minha visita a Bolonha foi um acidente de percurso – e é a prova de que há acidentes felizes. Na história das minhas viagens existe uma boa mão cheia de lugares que se atravessaram no meu caminho sem que fosse propriamente essa a minha intenção, e dos quais acabei por ficar cativa. Bolonha foi uma das mais recentes adições a essa lista. Quando preparei a minha viagem de duas semanas pela Toscana, era suposto o voo de regresso a Portugal ser a partir de Bolonha, e por isso decidi reservar uns dias para conhecer um pouco da cidade. Como não era um destino que fizesse parte dos meus interesses principais, não fiz o “trabalho de casa” e não pesquisei praticamente nada antecipadamente. Cheguei sem saber o que esperar ou o que iria ver, portanto a surpresa foi completa (e boa!). E ser surpreendida é uma das melhores emoções que posso sentir em viagem.

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A cidade das torres

 

A idade dos lugares não se pode aferir pela nossa, que somos meros acidentes de percurso na história da Terra. Ainda assim, Bolonha é uma cidade velha, mesmo pelos padrões de povoamento da Europa. Inserida numa região habitada desde inícios do século IX a.C., foi aqui que os Etruscos fundaram o que se supõe ter sido uma estrutura urbana complexa a que deram o nome de Felsina, no século VII a.C. Sucessivamente ocupada ao longo do tempo por Gauleses, Romanos e várias tribos bárbaras, passou a fazer parte do reino de Itália em finais do século IX. Mas foi a fundação da Universidade em 1088 (o que faz dela a Universidade mais antiga do mundo em funcionamento contínuo) que deu impulso ao período de maior desenvolvimento da cidade, e ao aparecimento daquelas que são as suas duas características mais marcantes em termos arquitectónicos: as arcadas e as torres.

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Os historiadores crêem que nos séculos XII e XIII tenham sido construídas em Bolonha qualquer coisa como entre 80 e 100 torres. Porquê? Não se sabe ao certo. Presume-se que algumas terão funcionado como símbolo de riqueza e estatuto das famílias mais abastadas, e também como estruturas de defesa. As mais pequenas serviriam também de habitação. Certo é que este frenesim de construção em altura não se limitava a Bolonha. San Gimignano, 150 km a sul e em plena Toscana, foi outra das cidades medievais atacadas pela “febre” das torres: chegaram a ser 72, algumas ultrapassando os 50 metros de altura.

Em Bolonha, a loucura das torres acabou mais tarde por passar, e depois do século XIII estas gigantes começaram a desaparecer, fosse por serem demolidas, por colapsarem, ou por serem adaptadas a outas finalidades. Aos dias de hoje chegaram 22, a que se somam quatro torreões que faziam parte das muralhas do século XII, além de muitos vestígios remanescentes das casas-torre – que eram mais baixas, tinham mais aberturas, e cujas paredes eram menos espessas.

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As mais famosas são as duas torres que compõem o símbolo da cidade: a Torre Asinelli e a Torre Garisenda. A primeira é a mais alta de todas as torres de Bolonha: 92 metros, que quase me provocaram um torcicolo quando a olhei a partir do outro lado da Piazza onde estão situadas. A Garisenda é mais modesta, nos seus meros 48 metros de altura, mas bate a vizinha em graus de inclinação. São dois colossos de pedra castanho-avermelhada que se vêem de muitos pontos do centro da cidade, erectos como flechas, sobressaindo numa praça de dimensões modestas mas com um movimento tremendo, onde confluem pessoas e veículos de todas as espécies, constantemente. É possível subir à Torre Asinelli, mas confesso que deixei a tarefa para uma próxima visita. O calor e o cansaço de quase duas semanas de viagem, com muitos quilómetros feitos a pé, de carro e de comboio, esgotaram-me a coragem que é preciso ter para subir os 498 degraus que levam ao topo. Atrás das torres, o verde das cúpulas renascentistas da Basílica dos Santos Bartolomeu e Caetano parece querer competir com elas, mas sem grande sucesso.

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Fugi do sol da Piazza di Porta Ravegnana metendo por uma rua estreitinha e sombria cujo nome me chamou a atenção: Via de’ Giudei. Tenho um certo fascínio por judiarias, por serem geralmente bairros com características peculiares, uma espécie de mundo à parte dentro das localidades onde existiram. O traçado do gueto judeu de Bolonha, estabelecido no século XVI, permanece bem identificável na actualidade, definido por becos e ruelas que se entrelaçam no núcleo medieval da cidade. Também aqui existe uma torre, na entrada do Vicolo Mandria. É a Torre Uguzzoni, mas a sua altura respeitável passa praticamente despercebida neste bairro em que o céu não é mais do que uma nesga azul fininha lá no alto, as varandas se misturam com semi-arcadas, e a pedra alterna com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de 15 famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de 11 – mais do que as existentes em Roma. Foi nesta altura que um decreto papal ordenou a criação do gueto, definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutras partes da cidade, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de ignorar as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Uma das entradas era precisamente na Via de’ Giudei, outra no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni, e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria. Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitava todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. Mas não pensem que o nome da rua era devido a qualquer motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

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A cidade das arcadas

 

Em vez de desvantagem, a minha ignorância e total ausência de curiosidade prévia sobre Bolonha acabaram por ser uma bênção. Quando finalmente me decidi a sair do ar condicionado do alojamento para o calor da minha primeira tarde na cidade, as ruas que me levavam à Piazza Maggiore desvendaram aos poucos a maior surpresa que me estava reservada: as arcadas. Rua após rua, o piso térreo de cada edifício recua para dar lugar a um passeio coberto, com a fachada dos pisos superiores assente sobre pilares com materiais e formatos diversos. Elas são, na verdade, o elemento arquitectónico mais característico de Bolonha e responsáveis por grande parte do seu encanto. Só no centro histórico existem qualquer coisa como 38 km de arcadas, que se somam aos 53 km das que se encontram fora de portas. É a cidade com mais arcadas em todo o mundo e as suas são, desde 2021, património cultural da UNESCO.

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Mas qual é afinal a razão para esta abundância de arcadas? Falta de imaginação dos arquitectos? Mania cultural? Desenganem-se: o motivo começou por ser de ordem prática (como quase sempre são os motivos para tantos aspectos culturais que encontramos pelo mundo fora) e para o perceber temos de recuar um milénio. Em meados do século XI, Bolonha expandia-se a uma velocidade sem precedentes, tanto pela fama da sua Universidade, que atraía pessoas de todo o mundo, como pela chegada de cada vez mais camponeses em busca de outras condições de vida. Para alojar tanta gente, os habitantes começaram a ampliar as suas casas ao nível do piso superior, prolongando-as sobre a rua – como forma de conseguirem um aumento de espaço sem terem de pagar mais impostos – e apoiando estas estruturas sobre pilares de madeira. Nasceram assim as primeiras arcadas. Com o tempo, os bolonheses aperceberam-se de que elas lhes traziam outras mais-valias: abrigavam os passeantes tanto da chuva como do sol (e eu tive a prova de que tornam bem mais confortável a visita à cidade em dias de muito calor), afastavam os pisos térreos da sujidade das ruas, e favoreciam o comércio e os ofícios, que se desenvolviam muitas vezes no piso inferior das habitações. O sucesso destas arcadas levou a que em 1288 uma decisão municipal estabelecesse que não só as estruturas já existentes teriam de ser mantidas, como também cada edifício construído no futuro seria obrigado a ter a sua própria arcada. No século XVI, uma nova lei proibiu que fossem construídas em madeira, e a partir dessa altura passaram a ostentar colunas feitas de pedra ou tijolo.

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(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Arancini, Granita, Nero d’Avola e Aperol Spritz

Paulo Sousa, 10.09.24

Segundo a cultura popular italiana, em cada espectáculo com bilheteira, existem três tipos de clientes, cuja designação começa pela letra P. Os pagatori, aqueles que pagam pelo respectivo ingresso, os portatori, aqueles que têm consigo um bilhete, que pode ter sido roubado ou falsificado, e os portoghese, aqueles que tentam entrar sem bilhete.

Só alguns anos depois de ter ouvido falar nisto a primeira vez é que soube que esta associação à nossa identidade resultou da embaixada que Dom Manuel enviou, em 1514, ao Papa Leão X para exibir os resultados das suas conquistas e assim engrandecer o seu importância. Os representantes da coroa portuguesa chegaram a Roma ricamente vestidos e com eles traziam inúmeras pedras preciosas, um cavalo persa, uma onça de caça e até um elefante branco, este último, que o Papa viria a adoptar como sua mascote. Tamanha exibição de prestígio e riqueza não passou despercebida naquela Roma do sec. XVI, ao ponto de o Papa ter decretado que naqueles dias os portugueses não teriam de pagar nos espectáculos que ali assistissem.

Ora por abuso de alguns altos dignitários do Estado Português, ora por terceiros que por eles se terão tentado passar (aceito apostas sobre o mais provável), ainda hoje em Itália, quando alguém se tenta esgueirar sem pagar é rotulado de portoghese. A nossa chegada ao Japão tem uma aura bem mais positiva, pois para eles corresponde ao fim da sua Idade Média. Naquilo que somos, cabem todas estas glórias e misérias.

Vem isto ao caso por ter passado uns dias na Sicília. Não vale a pena descrever os detalhes do como, mas às páginas tantas cruzei-me com um avô siciliano que tem dois netos com menos de dois anos. Podia também dizer que tem duas noras, uma napolitana e outra portuguesa e por isso um dos netos é o napolitano e o outro o português. Quis o destino que tivesse chegado o momento em que o Dom Gigio (nome fictício) recebesse nos braços o neto napolitano que corria feliz. O petiz não cabia em si de contente depois de ter roubado o brinquedo ao primo. E assumiu-o. Roubei o carrinho ao primo, disse ele em italiano, a sorrir.

- Oh che piccolo Maradona. – disse ele, enquanto agitava a mão direita, depois de ter juntado a ponta dos dedos. - il portoghese non ha pagato l'auto e il napoletano l'ha rubata.

Todo o incómodo não passava da teatralidade siciliana e que deve terminar num Porca miséria, seguido de risada geral.

Foram uns dias realmente bem passados.

Em termos turísticos, a Sicília é um gigante adormecido. Tem 5 milhões de habitantes e uma área superior aos distritos de Évora, Beja e Faro juntos. Siracusa foi a segunda cidade do mundo grego, ficando então apenas atrás de Atenas. Terra de Arquimedes, do teatro grego, do templo de Apolo e classificada pela Unesco como património da humanidade. A história está presente em toda a ilha. Os vestígios pré-históricos, gregos, romanos, bárbaros, bizantinos, árabes, normandos, italianos (após a unificação), até da operação Husky na Segunda Guerra Mundial, estão por todo o lado.

Para quem gosta de estar de molho na praia, importa registar que no Verão a temperatura média da água na costa jónica, ronda os 26 graus. Para quem, como eu, cresceu a ir à Nazaré que nos dias generosos chega a atingir os 19 graus, pode achar que caiu dentro de uma panela de sopa. O limite de tempo passado dentro do mar (sem ondas e com uma amplitude de marés de 10 cm) depende da respectiva paciência e do nível de engelhar de dedos considerado aceitável. Perante a estupefacção, os locais logo explicam que ali estamos um grau de latitude a sul da Tunísia, o que, após um franzir de sobrancelhas e uma consulta do Google Maps, verificamos ser verdade.

Uma outra impressão resulta da condução pelas estreitas estradas que rondam o Etna. Não podemos esquecer este gigante que chega aos 3300 metros de altitude e que quando lhe apetece expele mais umas toneladas de cinza e interrompe a circulação aérea. A recente actividade deste monstro bloqueou sarjetas e até explica alguma da falta de asseio que se vê por todo o lado. Há também bastante lixo na beira das estradas, e nos locais menos prováveis, muito mais do que por cá se vê, mas, incrivelmente, não vi moscas.

Para ficar a conhecer decentemente esta imensidão de território, é necessário muito mais tempo do que aquele que eu tinha. Por isso, limitei a minha circulação à costa jónica. Além de Catânia, Siracusa, Giardini Naxos, do sopé do Etna, do Dom Gigio, visitei ainda Taormina (turismo de massa, mas ainda assim bastante agradável), Castelmolla e Noto, esta última igualmente classificada pela Unesco pela sua herança barroca. Muito mais ficou para ver. A banda sonora recomendada para a viagem é sempre o álbum do filme O Padrinho de Nino Rota, pelo menos até que os restantes passageiros começarem a ameaçar com uma vendetta. Com a interacção com o Dom Gigio, os mais novos já tinham aprendido a dizer “fanculo questa canzone” e que logo depois o segundo aviso evoluiu para uma proposta irrecusável. Por aqueles lados, aprender a falar inclui um exercício de braços que desafia as tendinites. O napolitano mais novo, quando queria comer já encolhia os ombros, apertava o tórax com os cotovelos e erguia as mãos com a ponta dos dedos todos juntos, enquanto gritava mangiare.

O propósito deste postal não era publicar fotos instagramáveis, mas aqui vão algumas das minhas favoritas.

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NB. O título relata algumas das iguarias produzidas nesta imensa ilha, que apesar de neste momento histórico não permitir contabiliza-la como sendo mais um país no currículo dos viajantes, vale bem a pena visitar.

O Eixo

Putin, caudilho de um regime sem mulheres. Tenebrosamente só

Pedro Correia, 19.07.24

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Cada qual a seu modo, quatro mulheres mandam hoje na Europa: a alemã Ursula Von Der Leyen (ontem reeleita por larga margem para novo mandato como presidente da Comissão Europeia, muito acima dos 360 votos necessários), a maltesa Roberta Metsola, recém-reeleita presidente do Parlamento Europeu, a estónia Kaja Kallas, nova chefe da diplomacia comunitária, e Giorgia Meloni, que desde Outubro de 2022 chefia o Governo de Itália, terceira maior economia do euro. 

De famílias políticas diferentes, têm um traço comum: expressam intransigente apoio à Ucrânia, vítima da guerra de agressão que lhe move Moscovo.

Formam um contraste gritante com a ditadura russa, sistema sem mulheres, sistema de um homem só. Tenebrosamente só. 

O contraste torna-se ainda mais evidente quando reparamos nos aliados internacionais de Putin. O Eixo Moscovo-Minsk-Pequim-Teerão-Pionguiangue é formado em exclusivo por homens. «De barba rija», como diria um major-general putinófilo que ainda pontifica numa canal televisivo.

Até nisto o caudilho do Kremlin navega contra a História. Rumo a um passado ancestral que nada tem a ver com o nosso tempo.

 

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Curiosidades do Adriático: o Sagrado Coração da Refundação

João Pedro Pimenta, 27.06.23

Entre a foto de cima e a de baixo medeiam quase vinte anos mas poucas outras diferenças.
 
A de cima é de Dezembro de 2003. A de baixo é de Maio passado. Trata-se da esquina da secção da Refundação Comunista do "sestiere - ou bairro - de Castello, em Veneza, na realidade a única que o partido mantém na Sereníssima. A Refundação é o que resta do antigo (e outrora poderoso, com votações à roda dos 30%) Partido Comunista Italiano, que no fim dos anos oitenta, na sequência do "eurocomunismo" lançado pelo seu antigo líder Enrico Berlinger, decidiu reformar-se de alto a baixo, transformando-se no Partido Democrático de Esquerda e, entre outras metamorfoses, seria parte integrante do actual Partido Democrático, também ele a atravessar algumas convulsões. Uma minoria não aceitou a mudança e juntou-se na Refundação, mantendo o espírito comunista original, que, como na maior parte dos países da Europa, está inserida numa coligação com outras formações de esquerda e escassamente representada nos parlamentos.
 
O curioso aqui é o nicho mesmo ao lado da entrada. Consta que aquele Sagrado Coração de Jesus já lá estava antes, havia décadas, quando aquilo era um tasco, e o partido manteve-o e tratou dele. Mas, se olharem bem (e a foto de cima não ajuda), verão uma diferença: em 2003 era aquele Cristo mais loiro e de olhos azuis, que costumamos ver em pequenas imagens tradicionais; agora, é um Jesus mais moreno, com feições mais semitas. Parece que os detentores quiseram dar-lhe um cunho mais "palestiniano", menos europeu e provavelmente até mais próximo do real aspecto de Jesus. E assim, utilizando a arte popular religiosa para alguns fins políticos, podem ter ficado mais próximos da verdade.
 
De resto, a secção tem um bar polvilhado com imagens de Che Guevara e de antigos líderes comunistas italianos, e, à volta, junta-se um público claramente esquerdista mas heterogéneo, entre velhos militantes do "partido" com respectivo crachá e gente de rastas a fumar cigarros de enrolar. Tudo isto numa Veneza com menos turismo, que vai rareando cada vez que se caminha para Norte em direcção a San Pietro di Castello, e onde, se não se estiver rodeado do silêncio que já indicia a proximidade da laguna, até se pode encontrar uma coisa rara e em vias de extinção: venezianos autênticos.

No sobe-e-desce das Cinque Terre

Ana CB, 02.12.22

 

Imaginem um pedaço de costa europeia banhado pelo Mediterrâneo, com colinas altas que descem vertiginosamente até à água. Imaginem que nestas encostas há socalcos com vinhedos, limoeiros e oliveiras, definidos por muros de pedra, e trilhos pedestres criados por séculos de povoamento. Imaginem ainda que junto ao mar e no topo das colinas há pequenas aldeias com casas coladas umas às outras, coloridas como rebuçados, trepando pelos declives, as de cima espreitando sobre as que estão mais abaixo. Agora coloquem tudo isto num dos países mais fascinantes da Europa – a Itália – e com o selo de Património Mundial da UNESCO. O resultado são duas pequenas palavras: Cinque Terre. É por aqui que agora vos convido a passear.

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Apesar de haver vestígios do seu povoamento desde pelo menos a época romana, esta estreita faixa de terra costeira a sul de Génova, na região da Ligúria, só passou a ser conhecida como Cinque Terre por volta do século XV, reportando-se a cinco pequenas aldeias com semelhanças geográfico-territoriais e económicas: Monterosso al Mare, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore. Nestas aldeias, durante muito tempo remotas, os habitantes dedicavam-se à pesca e simultaneamente à agricultura, aproveitando as riquezas do mar e dos solos para a sua subsistência. Hoje como ontem, no mar pescam sobretudo a anchova, entre Junho e Setembro, pelos métodos tradicionais com lâmpadas ou com redes de cerco. Aperfeiçoaram também as técnicas de conservação deste peixe, fumando-o ou preservando-o em óleo ou sal – é famosa a anchova salgada de Monterosso. Na agricultura, o relevo acidentado e a sua orientação, com boa exposição ao sol e ao abrigo dos ventos de norte, levou à escolha da videira como planta de eleição para cultivo, a par da oliveira. Os terrenos foram desmultiplicados em socalcos, estabilizados por muros de granito, e o vinho e azeite aqui produzidos são de qualidade reconhecida.

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Considerada “paisagem cultural viva”, a região das Cinque Terre foi integrada em 1997 na lista do património protegido pela UNESCO, e em 1999 foi delimitada como parque nacional, abrangendo também uma área marítima. Em toda a área do parque estão definidos percursos pedestres, alguns dos quais foram durante séculos a única ligação entre as várias aldeias e entre elas e o interior do país. Há percursos de vários tipos, tanto em meio rústico como urbano, e com vários níveis de dificuldade, o que faz desta região um destino ideal para quem gosta de caminhar. O mais famoso destes trilhos é o Sentiero Azzurro, que liga as cinco aldeias – o trecho que liga Riomaggiore a Manarola é tão romântico que lhe puseram o nome de Via dell’Amore.

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Como contraponto à melhoria das condições de vida dos seus habitantes permanentes, o aumento da popularidade das Cinque Terre como destino turístico tem trazido alguns problemas. O trabalho ligado ao turismo tornou-se uma alternativa mais fácil e mais rentável, e cada vez menos pessoas se dedicam ao cultivo das terras. O abandono da agricultura levou à deterioração das condições dos terrenos, instáveis por natureza, e dos muros que os sustêm, o que se torna problemático quando ocorrem chuvas torrenciais – ainda está na memória de todos a enxurrada de 2011, que devastou uma grande parte de Monterosso e Vernazza, e cujos efeitos demoraram vários anos a ser ultrapassados. À data de hoje, dois troços do Sentiero Azzurro (de Corniglia a Manarola e de Manarola a Riomaggiore, a famosa Via dell’Amore) continuam encerrados devido a deslizamentos de terras, e só se prevê que reabram dentro de dois ou três anos, no mínimo. Apesar dos esforços desenvolvidos nas últimas décadas para incentivar o turismo responsável e sustentável, e pese embora as Cinque Terre continuem a atrair muitos adeptos da caminhada, a maioria dos visitantes hoje em dia concentra-se sobretudo nas aldeias junto ao mar.

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Não é difícil perceber porquê. As Cinque Terre estão ligadas entre si por uma linha férrea que corre junto ao mar e nos deixa, a intervalos de poucos minutos, no coração de cada uma das aldeias. A excepção é Corniglia, a única que está situada no cimo de um promontório, mas cujo acesso ao comboio é facilitado por um pequeno autocarro em constante vaivém entre a aldeia e a estação; ou, em alternativa, por uma escadaria – tão icónica que até tem nome próprio: Lardarina. Esta ligação ferroviária foi construída durante a segunda metade do século XIX como parte do projecto de unir as cidades de Ventimiglia, na Ligúria (junto à fronteira com a França), e Massa, na Toscânia. Uma empreitada que não se revelou fácil devido ao recorte acidentado da costa liguriana, sobretudo na região das Cinque Terre, e que obrigou à construção de 23 pontes e 58 túneis (que totalizam 28 km) ao longo dos 44 km deste troço da obra. A linha só ficou pronta em 1874, e foi um passo gigante para contrariar o isolamento a que estas aldeias estavam votadas. Concebida com uma única linha, obviamente para reduzir despesas, só nos anos 70 do século passado é que foi alargada para duas vias, facilitando ainda mais o acesso à região – e catapultando-a para a popularidade turística. Actualmente, o comboio das Cinque Terre corre entre Levanto, a norte, e La Spezia, a sul, com intervalos de mais ou menos 15 minutos na época alta (entre fins de Março e inícios de Novembro), e levando a bordo centenas de pessoas em cada viagem. É o meio de transporte preferido pela maioria dos cerca de 2 milhões e meio de visitantes anuais que a região recebe.

Outro meio de transporte popular para visitar a região na época alta é o barco. Modernas e rápidas, as embarcações que prestam este serviço funcionam com horários regulares, que vão variando ao longo do ano, sobretudo entre Porto Venere (perto de La Spezia) e Monterosso. Apenas não param em Corniglia, onde não existe cais, e têm como maior atractivo oferecerem a possibilidade de admirarmos a costa e as aldeias de outra perspectiva, já que elas estão todas viradas para o mar.

Cinque Terre 7.jpegEvidentemente, ir de carro também é uma opção, mas só aconselhável na época baixa. As aldeias têm parques de estacionamento à entrada (no interior, as vias são quase exclusivamente pedonais), mas são pequenos e francamente insuficientes para o enorme afluxo de visitantes da região. Além disso, são pagos, e não são baratos.

 

A oferta de alojamento nas Cinque Terre não é abundante. A maioria dos visitantes ficam alojados nas cidades vizinhas de La Spezia ou Levanto, onde há mais variedade e a preços mais em conta. Pessoalmente, acho mais compensador ficar a dormir numa das aldeias, para poder usufruir completamente da experiência. Quando lá estive fiquei alojada em Vernazza, e foi uma excelente opção. Ao segundo dia, o bem-disposto dono do snack-bar onde tomávamos o pequeno-almoço já nos conhecia e conversava connosco. E jantar ao lusco-fusco num dos restaurantes da piazza junto ao porto, na atmosfera tranquila que se instala depois do êxodo da maré de turistas, é muitíssimo agradável.

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MONTEROSSO AL MARE

 

Monterosso é a localidade que fica mais a norte e a maior das cinco, com uma população de cerca de dois mil residentes – mais vila do que aldeia, na verdade. É sobretudo famosa pela sua extensa praia de areia clara e vibe de estância balnear. Na realidade, tem duas faces bem distintas: uma mais moderna e cheia de movimento; a outra mais recatada, onde ainda pairam algumas memórias dos tempos em que esta povoação era apenas uma aldeia piscatória. A separação entre as duas é bem nítida e está marcada pela torre Aurora, erguida num promontório rochoso sobre o mar, e pelo seu vizinho Convento dos Frades Capuchinhos, construído no cimo do monte San Cristoforo. São as testemunhas mais antigas da história da localidade, que se reporta à época romana. A torre que hoje existe, construída sobre o local de outra mais antiga, data do século XVI. Quanto ao convento, foi criado na primeira metade do século XVII, e desde então teve períodos de actividade alternados com outros de abandono. A partir de 2006 voltou a dedicar-se à sua vocação espiritual inicial, pese embora aberto a actividades turísticas.

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A zona leste de Monterosso é conhecida como Fegina, o nome da praia e da avenida que a acompanha. É nesta avenida que ficam a estação de comboio, a pequena mas engraçada igreja de Sant’Andrea e, no extremo, a estátua do Gigante, como é conhecida localmente – uma representação de Neptuno com uns impressionantes 14 metros de altura, esculpida em 1910 como parte da decoração da Villa Pastine. Infelizmente, estava tapada para reparações quando lá estive. A Via Fegina tem antigos palacetes transformados em hotéis, fachadas com buganvílias, loendros e outras árvores de pequeno porte, esplanadas simpáticas e um passeio pedonal a todo o comprimento. Um rochedo fotogénico compõe a paisagem marítima, melhor apreciada ao fim da tarde enquanto se saboreia um gelado.

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Na extremidade oeste da Via Fegina, um túnel deixa-nos no acesso ao bairro medieval, onde o ambiente de praia desaparece e é substituído pelo de uma aldeia. Uma aldeia turística, sem dúvida, mas bastante diferente da outra metade. Na praça de entrada, o campanário de pedra da igreja de São João Baptista – que foi em tempos uma torre de vigia pertencente às fortificações construídas no século XIII – contrasta com as riscas em mármore negro e branco da fachada e das colunas que separam as naves no interior do monumento. As riscas bicolores repetem-se no Oratório da Confraternidade Mortis et Orationis, quase ao lado da igreja, que por sua vez contrastam com as tonalidades vivas dos edifícios entre os quais está encaixado. Nas ruas e pracetas, que parecem ter sido feitas para descansar, há toldos listrados e bancos de madeira. As ruelas são cruzadas por arcos, e as cores vibrantes das casas combinam com as das flores que estão espalhadas por todo o lado, em grandes vasos ou espreitando sobre os muros. Há toalhas de praia a secar nas varandas de ferro forjado, e as janelas estão protegidas com venezianas pintadas de verde-escuro. É aqui que se sente verdadeiramente a atmosfera das Cinque Terre.

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VERNAZZA

 

A paisagem de Vernazza é dominada pelas ruínas do “castrum”, uma fortificação defensiva acastelada que data do século XI. O ex libris da localidade é a Torre Doria, bem visível no topo da falésia que brota abruptamente das águas do mar da Ligúria, a mais de 70 metros de altura. A aldeia tem uma única rua principal, a Via Roma, que desce até ao porto. Dela saem ruelas e escadinhas, tão irregulares como ramos de uma árvore. Passear por Vernazza é um sobe-e-desce constante, ora viramos para um lado, ora para outro, numa desorientação total que acaba por nos deixar longe do sítio para onde queríamos ir. O bónus é descobrir perspectivas diferentes sobre o mar de casas que escorrem pela encosta, e sobre os marcos arquitectónicos que se destacam contra as vinhas, os penhascos e o azul-esmeralda da água: as torres, o Convento de São Francisco, e a Igreja de Santa Margarida de Antioquia.

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A inundação de 2011 danificou quase todos os edifícios da aldeia e deixou toneladas de lama na Via Roma. Foram necessários dois anos para recuperar aquela que é muitas vezes definida como “a pérola das Cinque Terre”. Hoje já não há quaisquer vestígios da tragédia, e Vernazza recuperou todo o seu esplendor. Os pisos térreos das casas, que têm no máximo meia dúzia de andares, e na sua maioria menos do que isso, estão ocupados com lojas, cafés e restaurantes. Na estação de comboio há pessoas a entrar e sair a toda a hora, e o ruído das rodas dos trolleys é uma constante.

O porto de abrigo está definido por um pequeno paredão, que protege umas quantas dezenas de barcos de pescadores, muitos dos quais acumulam funções turísticas. Há também uma praia minúscula com areia escura que, apesar de não ser muito convidativa, é bastante procurada quando o tempo está mais quente – ou até mesmo à noite, para uma partida familiar de futebol. Acima da praia, o olhar é atraído pela igreja de Santa Maria de Antioquia, com a sua torre sineira octogonal coroada com arcos e uma cúpula em ogiva. Em contraste, o corpo do edifício é em pedra escura, marcada pelos séculos, denunciando o estilo românico original deste monumento religioso, que é um dos mais famosos das Cinque Terre.

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Paredes-meias com a igreja, uma piazza repleta de esplanadas e rodeada de edifícios em cores pastel, onde apetece fazer uma refeição ao final da tarde, quando as sombras avançam sobre as colinas e a luz do sol é gradualmente substituída pela dos candeeiros, reflectindo-se nas águas do porto. Um verdadeiro cenário romântico italiano.

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CORNIGLIA

 

Está posicionada centralmente em relação às suas “irmãs” e difere delas porque não está ao nível do mar, mas sim num promontório 90 metros mais acima, encaixada entre vinhedos. A sua posição privilegiada permite-lhe também ser a única que tem um miradouro de onde se avistam simultaneamente as outras quatro aldeias. E é, de todas elas, a mais pequena e mais tranquila.

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Há quem considere Corniglia como a menos atractiva das Cinque Terre, mas eu discordo totalmente. É uma aldeia cheia de cor, e de recantos e caminhos perfeitamente deliciosos. A ausência de uma ligação directa ao mar é largamente compensada pela sua originalidade e pelos pormenores surpreendentes que encontramos em todo o lado. Em vielas estreitinhas, as lojas e restaurantes parecem competir entre si pela fachada mais fora do comum, seja com elementos decorativos extravagantes, com trepadeiras ou vasos cheios de flores garridas, ou com peças de artesanato que chamam a atenção. Casas de pedra exposta alternam com outras pintadas em cores de rebuçado, e alguns recantos fazem lembrar as aldeias portuguesas: ferros forjados, sardinheiras e roupa a secar ao sol.

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O Largo Taraggio é o ponto central de Corniglia, rodeado de cafés e restaurantes, esplanadas e bancos para descansar. Subindo umas escadas, o Oratório dos Disciplinados de Santa Catarina, e por trás dele um terraço com vistas magníficas para o mar e a costa. No extremo oposto da aldeia, a igreja de São Pedro, monumento religioso do século XI com exterior gótico – onde dá nas vistas uma lindíssima rosácea em mármore branco, nitidamente recuperada em tempos recentes – mas barroca no interior, com paredes e piso em branco e preto e tectos abobadados cobertos de pinturas muito coloridas.

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Obrigatório em Corniglia é percorrer a Scalinata Lardarina, uma escadaria de tijolo com 382 degraus distribuídos por 33 patamares. Liga a aldeia à estação de comboio, e os mais corajosos atrevem-se a subi-la. Quanto a mim, optei pelo melhor dos dois mundos: subi de autocarro até à aldeia, e desci pela escadaria no regresso à estação.

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MANAROLA

 

Manarola começou a crescer no século XII, quando uma parte dos habitantes da aldeia de Volastra (situada poucos quilómetros mais acima na encosta) desceram para se instalarem junto ao mar e resgatarem novos terrenos para cultivo. Em 1276 passou a ser governada por Génova, e a arquitectura das suas casas-torre, empoleiradas na falésia de rocha compacta, é testemunha das influências genovesas que perduram até hoje. Da época medieval, quando toda a costa liguriana estava sujeita aos ataques de piratas, restam meros vestígios do bastião defensivo do castelo, actualmente meio despercebido entre as casas de habitação construídas sobre e à volta das suas ruínas.

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Também aqui, as vinhas trepam pela encosta, disputando o espaço com as habitações, e criam um contraste encantador. A aldeia de Manarola é um puzzle intrincado de casas que parecem caixas de fósforo e ruelas estreitas que se transformam em escadarias de xisto, desdobrando-se e serpenteando em ladeiras que pedem muito fôlego e energia para percorrer – mais ainda nos dias quentes de Verão.

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Um longo túnel liga a estação de comboio à rua principal da localidade, que a percorre a todo o comprimento, de leste para oeste. Subindo, chegamos à igreja de São Lourenço, construída em 1338 em estilo gótico, mas com pormenores barrocos no interior. Em frente está a Torre Sineira, que foi em tempos uma torre de vigia. Ao lado da torre, um excelente miradouro sobre o casario de Manarola com o mar por fundo, e mais ao lado, encostado a umas escadinhas que se perdem entre as casas pintadas de cores quentes, o Oratório dos Flagelados.

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Descendo até ao outro extremo da aldeia, entre lojas e restaurantes, chegamos ao porto de abrigo, que acumula as funções de praia. Não é uma praia tradicional – são apenas rochedos, alguns com uma altura respeitável, no meio dos quais foi construída uma rampa de acesso para as embarcações – mas é muito concorrida na época alta, sobretudo pelos mais jovens, que estendem as toalhas em qualquer saliência ou nesga de rocha mais plana e depois passam o tempo exibindo-se em saltos para a água, no meio de gritos de excitação.

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Depois há que voltar a subir, trepando pelas escadinhas e caminhos construídos no promontório do lado norte de Manarola, a Punta Bonfiglio. Chegamos ao cimo com os bofes de fora, mas a recompensa é grande: de um lado, a vista de postal ilustrado sobre o porto, a falésia e parte da aldeia; do outro, uma visão da costa até Corniglia e mais além.

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É aqui que há um bar com esplanada (o Nessun Dorma) que é provavelmente o mais espectacular das Cinque Terre, não pelo bar em si mas pela vista. Também há um jardim com área de piquenique e parque infantil, cheio de árvores e flores, a que chamam “Paradiso” e que é gerido e arranjado por voluntários que habitam na aldeia – ou, pelo menos, é isso que se declara em azulejos pintados à mão e afixados num muro.

Manarola é também palco de uma tradição natalícia curiosa que, só por si, deve valer bem a pena uma visita em Dezembro. Publicita-se como o Maior Presépio do Mundo, e é inaugurado todos os anos em princípios de Dezembro, mantendo-se até fins de Janeiro. Foi idealizado e começou a ser construído em 1976 por um senhor de nome Mario Andreoli, nos socalcos da encosta norte da aldeia. É composto por mais de 300 figuras em tamanho natural, feitas com materiais reciclados ou inutilizados, e para além dos personagens tradicionais de qualquer presépio todos os anos são acrescentadas novas figuras (no ano da pandemia foram adicionados médicos e enfermeiros). A iluminação é ligada todos os dias, entre as cinco da tarde e as dez da manhã seguinte, e fornecida por oito quilómetros de cabos eléctricos e 17 mil lâmpadas – alimentadas desde 2008 por uma instalação fotovoltaica construída especialmente para o efeito, uma prova de que mesmo as maiores atracções turísticas podem ser ambientalmente sustentáveis.

 

RIOMAGGIORE

 

Situada no vale do curso de água que lhe dá o nome (um pequeno ribeiro, que agora corre num túnel por baixo da aldeia), Riomaggiore não é muito diferente das suas vizinhas. A norte e sul da via principal, as casas trepam pelas escarpas, parecendo nascer umas das outras, com os seus telhados de ardósia e as suas cores fortes. Diz a tradição oral que o uso destas cores chamativas servia para que os pescadores, ao regressarem ao porto, conseguissem identificar de longe a sua habitação, mesmo quando o tempo dificultava a visibilidade.

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O acesso a partir da estação também é feito por um longo túnel rasgado sob a serrania. O tecto abobadado está pintado de um azul brilhante, e os muitos metros de parede são uma obra de arte e paciência: um mural de 200 metros de comprimento com uma sequência de mosaicos compostos por pedaços de azulejo que formam desenhos variados, alguns facilmente identificáveis, outros abstractos, misturados com pedras e seixos, pedaços de mármore, espelhos, conchas e peças em cerâmica. O projecto é do artista Silvio Benedetto, que executou todo o trabalho manualmente, no local, e lhe deu o nome de “Sequência da memória”. A assinalar o meio do túnel, a reprodução de uma grande e multicolorida estrela do mar.

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O túnel desemboca no centro da aldeia. Para cima e para sul, a zona mais rural. Para baixo, na direcção do mar, o bairro dos pescadores, parcialmente construído sobre rocha. Também aqui há um pequeno porto, com rochedos e praias de pedra de ambos os lados, acessíveis por um caminho cimentado que percorre a orla marítima para sul. Há barcos a remos em quantidade, dentro de água e fora dela, e lojas que anunciam passeios ou vendem bricabraque turístico ao lado de restaurantes, mas nem sombra de ambiente de aldeia piscatória.

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Para norte do bairro dos pescadores, no topo da colina de Cerricò, o castelo. É novamente preciso subir, e subir ainda mais, por ruazinhas em declive ou escadinhas que passam por baixo das casas, até que finalmente deparamos com as muralhas. Lá em cima, como seria expectável, a vista é soberba e desafogada: casas entre vinhas para um lado, casas sobre o mar para o outro, e as balaustradas da interditada Via dell’Amore a definirem o contorno das formações rochosas obliquamente estratificadas. Ao lado do castelo, o Oratório de São Roque, construído depois de uma praga que assolou a região e exteriormente algo insípido (e a precisar de ser pintado). Descendo para a Via Pecunia, a igreja gótica de São João Baptista e, na rua mais abaixo, o Oratório de Santa Maria Assunta. Tal como nas outras aldeias das Cinque Terre, a quantidade de lugares de culto numa localidade tão pequena mostra bem o peso que a igreja católica sempre teve, e continua a ter, nesta região italiana.

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Embora unidas pela geografia comum, cada uma das Cinque Terre tem as suas características particulares, e se parecem quase iguais umas às outras quando as vemos em fotografia, facilmente percebemos as suas dissemelhanças quando as visitamos. Qual delas é a mais bonita? As respostas vão variar tanto quantas forem as pessoas a quem fizerem a pergunta. Cada um sentirá mais afinidades com uma ou com outra, ou terá uma experiência mais marcante nesta ou naquela. Ou então será mesmo incapaz de escolher, porque todas elas têm qualquer coisa de especial. Mas uma coisa é certa: ninguém sai de lá desiludido.

 

(Também publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Por Itália

João Pedro Pimenta, 27.09.22
Não sei porquê tanta preocupação com o mais que provável governo de Giorgia Meloni em Itália: é mais que sabido que nenhum executivo italiano chega sequer aos dois anos, a não ser que haja uma improvável "Marcha sobre Roma". Além do mais, o que também não ajuda à estabilidade, a coligação vencedora tem três egos gigantes a comandá-la - Meloni, Salvini e Berlusconi - e o de Meloni nem parecer ser o maior.
 

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Curioso é que os que estavam no governo Draghi e ajudaram a derrubá-lo caíram muito nas votações. Veja-se o Movimento Cinco Estrelas, agora liderado pelo ex-primeiro-ministro Giuseppe Conte, ao passo que o seu antecessor na chefia do partido e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Luigi di Maio, nem conseguiu ser eleito para as câmaras.
 
E é igualmente interessante observar que os apoiantes de Putin caíram nas votações, começando por Salvini, que se fica por metade da votação, ou o próprio Berlusconi, que viram os seus votos rumarem directamente para os Fratelli d´Italia, de Meloni, crítica explícita da invasão da Ucrânia.
 
Tempos houve em que o sistema político italiano era absolutamente previsível: ganhava a Democracia Cristã sem maioria, o Partido Comunista ficava em segundo, e a primeira formava governo com os liberais, republicanos, sociais-democratas, e, a partir de certa altura, também com os socialistas, ao passo que os neofascistas (do qual provém a formação de Meloni), tal como os comunistas e os radicais, ficavam de fora. Mas de há trinta anos para cá o sistema tornou-se imprevisível, a não ser no que respeita à curta duração dos governos, e os partidos ficaram absolutamente voláteis, apostando mais nas personalidades que os lideram do que em ideias ou ideologias.

Judiarias

Ana CB, 04.05.22

 

Sou mais de pensar no futuro do que no passado, mas nas minhas viagens gosto de visitar bairros antigos. Presto atenção particular à arquitectura, sobretudo quando não está “maquilhada” pelas falsas reconstituições que tantas vezes alteram o carácter original dos lugares (assunto com pano para mangas, que poderá ser motivo para outro artigo). Estes bairros são muitas vezes a linha que me conduz a conhecer um pouco da história de cada lugar, frequentemente a posteriori, e também frequentemente para tentar separar o trigo do joio, ou seja, o que é facto histórico verificado daquilo que é efabulação ou exagero para chamariz turístico. Nos últimos anos, o acaso tem levado os meus passos até algumas antigas judiarias em cidades e vilas europeias, e tenho vindo a interessar-me progressivamente por estes bairros, que de uma forma geral mantêm algumas das suas características originais e terão sido menos adulterados pelos modismos da passagem dos séculos.

 

HERVÁS

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Diz a publicidade turística que o seu bairro judeu é um dos mais interessantes e melhor conservados em Espanha. Para mim, foi um dos que mais gostei de visitar até hoje. Hervás fica a pouco mais de 100 km da nossa fronteira, entre Plasencia e Salamanca, entre florestas de castanheiros e carvalhos na região do vale do rio Ambroz. A vila tem as suas raízes em finais do século XII, quando as terras foram doadas por Afonso VIII a monges templários, que ali erigiram uma ermida e apoiaram o povoamento local, submetido à autoridade do Duque de Béjar.

 

Em 1391, estalou em Sevilha uma revolta contra a população judaica, que se alastrou depois a várias cidades dos reinos de Castela, Aragão e Navarra. A Europa sofria os efeitos devastadores da peste de 1348, e no imaginário colectivo havia que atribuir a tragédia a alguém. Ferrán Martínez, arcediago de Écija, foi o grande instigador da revolta, no culminar de vários anos de pregação antijudaica, e os seus seguidores ficaram conhecidos como “matadores de judeus”. Para escaparem aos assassinatos em massa, muitos judeus foram obrigados a assumir a fé católica, e outros fugiram para localidades mais pequenas, onde a convivência religiosa era pacífica e os senhores feudais asseguravam alguma protecção aos habitantes das suas terras. As primeiras referências documentadas sobre a presença de judeus em Hervás datam de 1464, mas é provável que algumas famílias já se tivessem instalado na localidade em datas anteriores.

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Em 1492, quando finalmente unificaram o Reino de Espanha, os Reis Católicos decretaram a expulsão de todos os judeus. Das 45 famílias judaicas que viviam em Hervás, apenas 14 decidiram ficar na localidade, convertendo-se ao cristianismo; as restantes foram conduzidas à fronteira com Portugal, onde se refugiaram. No entanto, vários desses exilados regressaram a Hervás dois anos mais tarde, beneficiando de um édito régio que conferia uma carta de segurança aos conversos castelhanos que quisessem retornar ao reino, garantindo-lhes também formas de recuperarem os seus bens. Uma das pessoas regressadas foi o rabino Samuel, que ingressou na confraria de São Gervásio e pôde assim continuar dissimuladamente a apoiar a prática judaísta e a coesão desta comunidade em Hervás. Apesar de tudo, a aceitação de cristãos-novos na vida da localidade permaneceu difícil e demorada, com estatutos discriminatórios e perseguições que levaram alguns deles à fogueira até que, em 1661, a duquesa D. Teresa Sarmiento de la Cerda aboliu as discriminações impostas e a integração das famílias de cristãos-novos pôde finalmente prosseguir sem grandes entraves.

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O bairro judeu de Hervás começa junto ao rio Ambroz, na ponte medieval da Fonte Chiquita, que é o monumento mais antigo da vila. Vai depois subindo suavemente por ruas estreitas e sinuosas (a Callejilla tem apenas 55 cm de largura!), cheias de recantos e becos, até ao local simplesmente conhecido como La Plaza, uma confluência de ruas marcada por uma oliveira e uns bancos de jardim. As placas toponímicas com uma estrela de David ajudam a identificar as ruas do bairro, que foi declarado conjunto histórico-artístico em 1969 e alvo de uma reabilitação profunda nos anos 90, na qual os próprios habitantes também se empenharam. A arquitectura das casas é tradicional, com paredes de pedra e adobe ou taipa, e tabique em madeira de castanheiro – construções irregulares que ignoram a simetria, com dois ou três pisos, o último sendo muitas vezes saliente ou até mesmo unido à casa do lado oposto da rua. As paredes estão ocasionalmente cobertas por telhas árabes invertidas, colocadas na vertical, ou por pranchas de madeira em sobreposição – soluções de isolamento térmico pensadas para aligeirar os rigores do calor estival e os ventos frios que sopram do Pico Pinajarro. Cabos eléctricos e tubos metálicos convivem com varandins de ferro forjado e vasos de flores, e as portas e janelas ainda não sucumbiram à tentação do alumínio.

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Para capitalizar o potencial turístico da judiaria de Hervás, desde 1997 que se realiza em inícios de Julho a festa “Los Conversos”. Há exposições, música, degustações e uma recriação histórica teatralizada da vida na localidade em tempos medievais e de eventos marcantes na história da sua comunidade.

 

 

BOLONHA

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de quinze famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de onze – mais do que as existentes em Roma – e Bolonha tinha uma prestigiada academia rabínica. Famosas eram também as oficinas gráficas da cidade, onde em 1482 foi impressa a primeira versão física do Pentateuco com comentários do Rabi Shlomo Yitzhaki, mais conhecido como Rashi.

 

Em 1555, um decreto do Papa Paulo IV ordenou que os judeus fossem separados do resto da população, e em Bolonha ficaram confinados a um bairro definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutros locais, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de não abranger as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Além disso, eram obrigados a usar uma marca distintiva, para serem facilmente identificados, e apenas foi permitido que uma sinagoga continuasse em funcionamento. Uma das entradas deste gueto ficava na Via de’ Giudei, uma rua estreitinha e sombria que principia na Piazza di Porta Ravegnana, onde se erguem as famosas Duas Torres de Bolonha (durante o período fascista e anti-semita em Itália, a Via de’ Giudei passou a chamar-se precisamente Via delle Due Torri); outra encontrava-se no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni; e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria.

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A criação do gueto judaico de Bolonha suscitou óbvia agitação e alguma resistência, e apesar de ter sido escolhida a zona da cidade onde a maioria das famílias já vivia, muitas outras foram forçadas a vender as suas casas e mudar-se. Por outro lado, cristãos que viviam dentro do perímetro definido para o gueto tiveram de sair dos seus domínios e arrendá-las aos novos habitantes (os judeus passaram a não estar autorizados a possuírem propriedades). Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitou todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. O nome da rua não se devia a nenhum motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

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Uma nova bula pontificial expulsou em 1569 os judeus que viviam em quase todos os territórios directamente governados pela Igreja Católica Romana. Readmitidos por Bolonha em 1586, voltaram a ser banidos sete anos depois, desta vez por mais de dois séculos, até à chegada dos franceses de Bonaparte em 1796, que libertou a cidade da influência papal.

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O traçado do gueto judeu de Bolonha permanece bem identificável na actualidade, definido por um labirinto de becos e ruelas que se entrelaçam, arcadas e passagens suspensas, casas muito próximas umas das outras, com janelas pequenas e várias portas (algumas delas falsas, estando as entradas verdadeiras mais dissimuladas), varandas que se misturam com semi-arcadas, e onde a pedra e os grafitis alternam com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

 

 

BUDAPESTE

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A presença judaica na área de Budapeste data do período romano, e há documentos que atestam a sua importância e prosperidade tanto na Idade Média como durante o tempo em que a região pertenceu ao Império Otomano. No entanto, quando em 1686 uma coligação de exércitos cristãos reconquistou Buda, a sinagoga foi incendiada e todas as pessoas que nela se encontravam presentes pereceram. A comunidade judaica que vivia a oeste do Danúbio foi praticamente dizimada.

 

No século XVIII, começou a nascer em Pest um novo bairro judeu, que corresponde actualmente à metade interior do Erzsébetváros (o Distrito VII), dentro do perímetro definido pela rua Király, avenida Erzsébet, rua Dohány e avenida Károly. Em 1867, os judeus húngaros passaram a ter direitos civis idênticos aos da restante população, e a comunidade floresceu. Budapeste estava em rápido crescimento urbano e económico, atraindo cada vez mais habitantes, que em 1910 já ultrapassavam o milhão – e quase um quarto das pessoas professavam a fé judaica. O bairro judeu era uma área comercial e residencial vibrante, e constituía o núcleo cultural e religioso da comunidade, contando com três sinagogas.

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Depois da Primeira Guerra, o Império Austro-Húngaro desintegrou-se e a Hungria perdeu dois terços do território que detinha antes do conflito e mais de metade da sua população. A instabilidade económica crescente levou ao descontentamento social e a uma cada vez maior animosidade contra os judeus, que se transformaram em alvo preferido dos líderes húngaros, em especial depois da subida ao poder de Miklós Horthy, que instaurou um regime de extrema-direita influenciado pelas políticas anti-semitas da Alemanha nazi. Após a ocupação alemã em Março de 1944, as autoridades húngaras ordenaram que o bairro judeu fosse transformado em gueto e completamente separado do exterior. Em apenas 56 dias, muitos milhares de judeus foram deportados para os campos da morte na Polónia, e o partido ultranacionalista NYKP, que esteve no poder entre 15 de Outubro de 1944 e 28 de Março de 1945, matou mais de dez mil. Dos que restaram, a maioria morreu de fome, doença ou hipotermia nas ruas do gueto.

 

A chegada do exército soviético em Janeiro de 1945 libertou o gueto e os seus poucos sobreviventes, mas durante a era comunista a população do bairro foi diminuindo, atraída pela modernidade dos distritos mais periféricos de Budapeste. O declínio e as adulterações imobiliárias foram alterando o carácter original da judiaria, e a gentrificação ocorrida nos últimos vinte anos deu-lhe um rumo diferente. Permanecem as três sinagogas, das quais a da rua Dohány é a mais frequentada e também a mais famosa, por ser a maior da Europa. E é de facto um edifício belíssimo e impressionante, construído em meados do século XIX em estilo neo-românico combinado com elementos mouriscos e bizantinos. Permanece também o traçado meio irregular das ruas densamente construídas, onde ainda predominam os edifícios de arquitectura historicista, as suas fachadas debruadas ou forradas a pedra, com grandes janelas e elementos ornamentais ilustrativos de todos os “neos” – neoclássicos, neogóticos, neobarrocos.

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As cicatrizes dos acontecimentos da Segunda Grande Guerra ainda são visíveis actualmente, como também o são os danos provocados pelas décadas de abandono a que o bairro foi votado. E no entanto, qual fénix renascida das cinzas, é precisamente devido à sua degradação que este antigo bairro judeu é agora um dos locais mais trendy da Europa, elevando o Erzsébetváros à categoria de distrito mais populoso de Budapeste. As rendas baixas de edifícios dilapidados em ruas negligenciadas começaram a atrair, nos primeiros anos deste século, uma população jovem e empreendedora, pese embora com poucos meios financeiros para investir. O primeiro caso de sucesso foi o Szimpla Kert, ícone dos chamados “ruin bars” que são agora uma espécie de imagem de marca da cidade. O que começou por ser uma tentativa de salvar da demolição um complexo que em tempos abrigou habitações e uma fábrica, tornou-se primeiro no local mais cool de Budapeste, frequentado pela juventude liberal e vanguardista, e depois numa atracção turística que é obrigatório visitar. O espaço degradado foi sendo progressivamente preenchido com toda a espécie de móveis velhos, objectos mais ou menos estranhos, bugigangas, plantas, luzes e tudo o que se possa imaginar, funcionando simultaneamente como café e bar, local de espectáculos, festas e eventos, mercado de produtos agrícolas ao domingo de manhã, e loja de artigos kitsch. Cada sala é um mundo diferente, há escadas e recantos, grafitis nas paredes, cores vibrantes, banheiras que são assentos, bicicletas penduradas no tecto, manequins, e até um carro. Uma miscelânea caótica que atordoa os sentidos à noite, quando o barulho das pessoas e da música alta nem nos deixa pensar, mas é surpreendentemente convidativa durante o dia, quando o lugar está tranquilo e quase vazio. Duas faces de uma mesma moeda.

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Atrás do sucesso do Szimpla Kert vieram lojas, ateliers, restaurantes com comida de todo o mundo, mais bares, e muita arte de rua. Na nova vida deste bairro convivem o antigo e o novo, judeus e gentios, habitantes e turistas, a tradição e o vanguardismo. Claro que nem tudo são vantagens, e como em tantos centros históricos de outras cidades, a popularidade e o turismo estão a fazer subir os preços das habitações, e a afastar os residentes para outros distritos mais baratos e mais tranquilos. É mais uma fase na história do bairro judeu de Budapeste.

 

 

CASTELO DE VIDE

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Embora não haja certezas quanto às origens do bairro judeu de Castelo de Vide, há indícios de que as primeiras famílias judias se tenham instalado na localidade em princípios do século XIV. Apesar da segregação existente, que tinha como vantagem fortalecer laços dentro da própria comunidade e manter inalterados os seus hábitos religiosos e culturais, a convivência entre cristãos e judeus era pacífica e mutuamente benéfica. Por tradição, além da sua vocação mercantil, a comunidade judaica apostava no estudo e no desenvolvimento intelectual, razão pela qual muitos dos seus elementos desempenhavam funções socialmente importantes, fosse como físicos, botânicos, professores, prestamistas ou homens de leis. Foi aqui que nasceu Garcia da Orta, filho de judeus conversos, que mais tarde estudou medicina na Universidade de Salamanca e exerceu esta profissão em Goa a partir de 1534.

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O número de famílias judaicas em Castelo de Vide cresceu sobretudo após 1492, ano em que os Reis Católicos de Espanha ordenaram a expulsão de todos os judeus que viviam nos seus territórios, muitos dos quais se refugiaram em Portugal, onde ainda podiam professar a sua religião sem incómodos de maior. Crê-se que mais de cinco mil judeus vindos de Espanha tenham passado por ali, e bastantes terão ficado. No entanto, o Portugal como refúgio tranquilo foi sol de pouca dura. A negociação do casamento de D. Manuel I com Isabel de Aragão, filha dos Reis Católicos, levou a que o nosso rei fosse pressionado a, também ele, expulsar do reino quem não se convertesse ao catolicismo, o que acabou por suceder em 1496. Quarenta anos mais tarde foi criado em Portugal o Tribunal da Inquisição, marco negro na história da convivência religiosa no nosso país, onde se iniciou um terrível período de perseguição aos cristãos-novos que só terminaria em 1767 com a reforma pombalina e com o fim da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos.

 

Apesar das conversões forçadas, a prática do judaísmo nunca desapareceu completamente em Portugal, e Castelo de Vide testemunha bem esse facto. Nas ruas do antigo bairro judeu, entretanto sujeito a modificações e recuperações, ainda se notam elementos característicos do tipo de ocupação que tiveram, e que continuaram preservados ao longo dos séculos. A judiaria desenvolveu-se na encosta nascente da vila, a partir das muralhas do castelo. O largo onde fica a Fonte da Vila é o centro radial deste bairro – e a fonte é, além disso, o ex-libris de Castelo de Vide. Aproveitando as águas de uma nascente, a fonte terá sido ampliada ao longo dos tempos, datando do século XVI o essencial da forma que lhe conhecemos hoje: rectangular, ornamentada e com uma cobertura piramidal suportada por colunas de mármore. Deste largo saem as ruas da Fonte, do Arçário, do Mestre Jorge e a rua Nova, que ligam a várias outras num padrão sinuoso e irregular. Nas ruas empedradas que levam ao Castelo, as casas têm habitualmente duas portas no piso térreo: uma daria acesso às escadas que levavam ao piso superior, de habitação, e a outra seria a da loja onde era desenvolvida a actividade comercial da família. Muitas destas casas ainda conservam os pórticos ogivais de granito, alguns com gravações nas impostas que suportam o arco, que podem ser símbolos profissionais ou pequenos entalhes com cerca de 10 cm, característicos do culto judaico, que têm o nome de “mezuzot”.

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Na esquina da Rua da Fonte com a Rua da Judiaria encontramos o edifício da antiga Sinagoga, que agora é um museu. As sondagens arqueológicas efectuadas durante as obras de recuperação revelaram que o edifício teve períodos de ocupação distintos desde pelo menos o século XIV, com uma primeira fase até ao século XVI e uma outra mais tardia. Crê-se que no piso superior se encontraria o Tabernáculo e um espaço dedicado ao ensino. Escavados na base do piso inferior descobriram-se três silos, que também apresentam indícios de terem sido usados em épocas diferentes. Terá passado a servir de residência particular no século XVIII, e foi reconstruída em 1972 de acordo com a sua traça original.

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Deste passado, mantém-se na memória colectiva a importância da celebração da Páscoa em Castelo de Vide. Da prática do judaísmo nesta vila foi herdada a bênção dos borregos, cujo abate posterior tem semelhanças com o ritual judaico tradicional.

 

***

 

Estes são apenas quatro exemplos de bairros judeus, entre os muitos que estão bem identificados em vários países da Europa. Como tudo o que envolve reconstituição histórica secular, há sempre alguma (por vezes bastante) controvérsia em torno destes bairros. Mas isso não lhes retira o encanto, nem afecta a minha capacidade de imperfeitamente imaginar como terá sido o dia-a-dia das pessoas que ali viveram ao longo dos tempos, e que outras histórias interessantes aquelas paredes contariam se pudessem falar.

A redenção pela bola

João Pedro Pimenta, 17.07.21

Se as história de superação são apelativas, mais ainda se tornam se lhes forem acrescentadas certas concidências e acasos. O Euro 2020 que acabou há dias é disso exemplo.

Julgava que a superação seria a de um homem, Gareth Southgate, o actual treinador de selecção inglesa. Até agora, em Europeus, a Inglaterra normalmente ficava-se pelo primeiro jogo a eliminar (o guarda-redes Ricardo que o diga), tirando em 1996, quando a competição teve lugar precisamente em solo inglês. Só que nas meias finais jogaram contra a velha rival Alemanha, em Wembley, empataram a um golo e nas grandes penalidades um jogador inglês falhou, impedindo a sua seleção de chegar à final perante o seu público. O seu nome? Gareth Southgate.

Um quarto de século depois, Southgate levou a seleção inglesa pela primeira vez à final de um Europeu, tendo deixado pelo caminho a Alemanha, com um emotivo 2-0. Passadas as meias, de forma algo duvidosa contra uma aguerrida Dianamarca, a Inglaterra lá chegou a uma final, ainda por cima (e como quase todos os jogos que disputou) em Wembley, quase como em 1996 - quase porque se demoliu e reconstruiu o mítico estádio. E o povo enchia o estádio, ignorava os casos crescentes de covid e cantava, em fervilhante entusiasmo, It´s Coming Home, do célebre hino dos Ligthing Seeds Three Lions (A partir dos vinte segundos do video abaixo vê-se Southgate a falhar o penalty; noutra versão, a original, de 1996, aos 30 segundos a seleção inglesa marca um golo à portuguesa, defendida pelo malogrado Neno).

 

Não estava propriamente a apoiar os Three Lions, mas confesso que me interessava a ideia da redenção de um homem, que, 25 anos depois, naquele mesmo espaço, poderia conduzir a sua seleção à vitória na competição como treinador, depois de o impedir como jogador. Mas como sabemos, a história não acabou assim, e mesmo tendo chegado à final, a Inglaterra perdeu em Wembley com a Itália, de novo nos penaltys - e aqui sim, Southgate falhou pela escolha dos marcadores.
 

Mas se não houve redenção por um lado, ela veio de outro. A equipa técnica da Itália é constituída quase em exclusivo por velhas glórias da Sampdória de Génova, como Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Lombardo ou Evani. E precisamente em Wembley, em 1992, na final da Taça dos Campeões perdida para o Barcelona de Cruyff, Mancini e Vialli, a dupla de ataque, os "gemelli del gol", jogaram juntos uma última partida. Vialli prossseguiu uma carreira  de sucesso na Juventus, Mancini na Lazio e ambos foram mais tarde técnicos de sucesso em Inglaterra. Até se reencontrarem na equipa técnica da selecção, um pedido expresso de Mancini, e que como se viu no Domingo, até pelo ambiente da equipa, voltou a dar resultado. 29 anos depois de perderem o título europeu de clubes em Wembley, ganharam o de selecções. É só isto, a redenção? Apenas o pretexto. Porque Vialli, já com funções na Azzurrasofreu um canco no pâncreas, um dos mais difíceis de debelar, recuperou, teve uma recaída, e finalmente venceu-o completamente, sem mais vestígios. Chegou a dizer numa entrevista que "tinha vergonha de estar tão feliz", quando Itália sofria a primeira e mortífera vaga da pandemia. Um ano depois da sua recuperação, GianlucaVialli, que protagonizou uma destas superstições em que o futebol é fértil, no mesmo lugar onde não tinha sido feliz anos antes, voltou a festejar, em lágrimas, com todas as razões do mundo para o fazer, ou no mínimo com muito mais razões do que apenas um penalty falhado.

 

Da glória à tragédia no espaço de dias

João Pedro Pimenta, 10.04.20

 

Decididamente há tristes ironias. Aquilo que se passou num curto espaço em Bérgamo é uma delas.

Como se sabe, a província de Bérgamo e a cidade que lhe dá o nome estiveram no epicentro da pandemia do Covid-19 na Lombardia, que por sua vez era a região com mais casos e mortes de Itália, que era o país mais atingido da Europa, que substituiu a Ásia como epicentro da pandemia no Mundo. Ou seja, a província de Bérgamo durante algumas semanas foi o coração da epidemia que corre o globo, a zona onde os doentes não paravam de chegar aos hospitais, já de si em ruptura, o local para onde todos olhavam com temor e espanto. Causaram especial comoção as imagens de camiões militares a transportar caixões, a meio da noite, quando as morgues estavam já ocupadas. A situação dramática de Bérgamo e da Lombardia está a aliviar aos poucos, embora longe de estar controlada. Mas os difíceis dias de Março vão deixar marcas na cidade e na região, uma das mais ricas de Itália e da Europa.

E no entanto, nas semanas anteriores à chegada da doença à Europa, Bérgamo era notícia por razões bem mais felizes. O clube de futebol da cidade, a Atalanta Bergamasca Calcio, já tinha tido uma prestação soberba na época passada, de tal forma que se classificou para a Liga dos Campeões em terceiro lugar no campeonato, à frente do mais poderoso vizinho Inter de Milão, e teve o melhor ataque da prova. Este ano ainda assombrava mais o Calcio e a Europa, proporcionando um futebol de ataque como raramente se vê no tão defensivo campeonato italiano, obrigando os seus adeptos a levantar-se vezes sem conta, tantos eram os golos marcados. Na série A esmagava - e não apenas vencia - boa parte dos seus adversários. Vejam-se estes números: 7-1 à Udinese, 7-2 ao Lecce (fora), sete a zero ao histórico Torino, em pleno Comunale de Turim, e cinco humilhantes secos ao muito mais prestigiado vizinho, o outrora poderosíssimo A.C. Milan. Para além disso, estava a fazer boa figura na Liga dos Campeões. Depois de um arranque em falso, em que perdeu os três primeiros jogos por números esclarecedores, virou completamente e conseguiu, por uma nesga, classificar-se para os oitavos de final da Liga dos Campeões, atrás do Manchester City. Nunca nenhum clube o conseguira perdendo os três primeiros jogos do grupo. E já nos desafios a eliminar, os de Bérgamo deram 4-1 ao Valência no S. Siro, casa emprestada pela exiguidade do seu estádio, e 4-3 na segunda mão, na cidade espanhola, em jogo à porta fechada, já com o Covid a fazer estragos. Festejou-se entusiasticamente o resultado da primeira mão, com milhares de adeptos a vitoriar a equipa, e os jogadores também comemoraram a passagem aos quartos de final. Que por causa disso poderão nem vir a acontecer.

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É que esse momento mágico da Atalanta estará directamente ligado às semanas de chumbo que se abateram sobre a Lombardia. O vírus já tinha entrado dissimuladamente no Norte de Itália, e o jogo em que a Atalanta recebeu o Valência, com mais de quarenta mil adeptos no S. Siro, a festejar ruidosamente cá fora depois, muito contribuiu para a sua disseminação - se é que não terá sido o detonador e causa principal do que se seguiu. Tanto que dias depois vários jogadores do Valência ficariam contaminados no jogo à porta fechada, embora curiosamente só um dos da Atalanta tenha sido atingido.

Assim, um feito que trouxe a pequena cidade lombarda para as bocas do mundo pelas melhores razões acabou por ser completamente ultrapassado por uma situação dramática no espaço de dias, situação para a qual concorreu. Do céu ao inferno num curtíssimo espaço de tempo. Uma queda imprevisível mas especialmente amarga. Precisamente por isso, e adivinhando a dificuldade de se concluírem os campeonatos interrompidos, já há petições em Itália para que a Atalanta seja declarada campeã da série A, mesmo que não estivesse em primeiro no campeonato (mas tinha o melhor ataque, com setenta golos marcados), e até há quem se lembrasse de lhe dar o troféu mais desejado, a Liga dos Campeões. Se dar o título de campeão europeu parece exagerado e até de gosto duvidoso, a atribuição do campeonato italiano à equipa que mais espectáculo deu parece justíssima, à imagem do que aconteceu ao malogrado Gran Torino em 1949, cujo futuro radioso acabou entre destroços na colina da Superga. Seria um magro consolo para tudo o que Bérgamo sofreu, mas para além de compensação, seria um reconhecimento justo aos que respeitaram o público não se rendendo ao futebol cínico e resultadista e um pequeno incentivo, ainda que amargo, para o futuro.

 

Atalanta: 6 Players You Should Know After Their Historic Champions ...

Coronavírus: o drama italiano

Pedro Correia, 22.03.20

O novo governo italiano.

Luís Menezes Leitão, 01.06.18
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Lembro-me da candidatura de Pintasilgo às eleições presidenciais de 1986, em que ela apresentou praticamente um programa de governo que se propunha executar a partir da presidência. Essa candidatura naufragou num célebre debate com Mário Soares em que este candidamente lhe perguntou como seria possível executar esse programa se era o parlamento que escolhia o governo. Ela imediatamente respondeu que não aceitaria um governo que não executasse o seu programa. Soares limitou-se a replicar: "O parlamento reitera a confiança no governo e ao presidente só resta renunciar ao cargo". A candidatura de Pintasilgo acabou aí.

 

Foi praticamente isso o que se passou em Itália com o Presidente Sergio Matarella a rejeitar o governo de coligação saído do Parlamento, por incluir na pasta das Finanças o eurocéptico Savona, e a querer nomear um "governo técnico", presidido por Carlo Cotarelli, não por acaso um antigo funcionário do FMI. Para tal muito contribuíram as declarações do comissário alemão Günther Öttinger, que disse que os mercados iriam ensinar os italianos a votar de maneira correcta. Tal foi oferecer de bandeja a Salvini uma futura vitória eleitoral, após a garantida rejeição do "governo técnico" no parlamento. Aí é que os mercados entraram em pânico, com o comissário alemão a pedir desculpas aos italianos e o presidente viu-se forçado a aceitar de novo a coligação Salvini-Di Maio. Para não perder totalmente a face, deram-lhe um prémio de consolação com Savona a sair da pasta das Finanças, ainda que tenha passado provocatoriamente para os Assuntos Europeus. Mas é manifesto que a sua capacidade de influenciar o novo governo ficou reduzida a zero.

 

Tudo isto demonstra que as sucessivas ingerências da União Europeia nos assuntos internos dos Estados-Membros não conduzem a bom resultado. Em democracia o voto dos eleitores é soberano e não são aceitáveis tutelas externas. A União Europeia devia ter aprendido com o Brexit, mas pelos vistos não aprendeu nada. A continuarem assim, isto não vai acabar bem.

O pleonasmo italiano

João Pedro Pimenta, 06.03.18

Parece que depois das eleições de Domingo a Itália ficou "ingovernável", há pouca esperança de que haja um "governo estável" e fala-se em "coligações improváveis". Não é uma situação confortável, mas sendo Itália não é uma tragédia nem propriamente uma novidade. Antes pelo contrário.

 

A Itália da primeira república, de 1946 a 1993, teve perto de 50 governos, o que mostra bem a instabilidade governativa do país. No entanto, mesmo com esse e outros problemas (terrorismo, máfia, corrupção), o país desenvolveu-se e prosperou. Os dois grandes partidos eram a Democracia Cristã, que formava sempre governo com os liberais, os republicanos e os sociais democratas, e o Partido Comunista, o maior da Europa ocidental, inicialmente apoiado pelos socialistas. De fora ficavam os neofascistas, os monárquicos, os radicais e as formações regionais. A dada altura os socialistas passaram a suportar os democratas cristãos e tiveram até acesso à chefia do governo, com o célebre Bettino Craxi. Sendo sempre os mesmos a governar, e com o fim do perigo comunista, a partidocracia acabou por quebrar com o processo mãos limpas e os partidos tradicionais caíram como um castelo de cartas.

 

Com este cenário, em 1992/1993 surge a segunda república italiana. O Partido Comunista tinha entretanto alterado completamente a ideologia e a imagem e tornara-se no Partido Democrático de Esquerda, de ideologia social-democrata, excepto uma cisão mais saudosista que criou a Refundação Comunista. A Democracia Cristã acabou e a sua ala esquerda juntar-se-ia aos antigos inimigos agora do PDS. Outros dispersaram-se por pequenas formações centristas e "populares", mas a maioria do seu eleitorado, bem como dos partidos que a apoiavam, incluindo o socialista, seria absorvido por um novo partido que tinha como mentor o grande empresário e dirigente desportivo Silvio Berlusconi, pela crescente Liga Norte, de Umberto Bossi, até aí acantonada na Lombardia, e aos quais se juntaram os ex neofascistas de Gianfranco Fini, que num processo semelhante ao do PCI/PDS se tinham metamorfoseado na conservadora Aliança Nacional. Contra as expectativas iniciais, Berlusconi, aliado a Bossi e Fini, venceu as eleições gerais de 1994 ao PDS chefiado por Massimo D´Alema (que tinha um discurso pouco de esquerda, na opinião de Nani Moretti no seu filme Aprile). Seguiram-se anos em que ora vencia Berlusconi e as suas coligações (agora no Povo da Liberdade), ora o PDS e respectivos aliados ecologistas e centristas, com líderes como Romano Prodi, Rutelli e Veltroni, e que acabaria por se transformar no actual Partido Democrático. Pelo meio sucederam-se os inúmeros casos judiciais que envolviam sobretudo Berlusconi e até a entrada dos juízes na política, como Di Pietro.

 

Entretanto também esse cenário mudou. O Partido Democrático, chefiado pelo florentino Renzi, um Macron mais à italiana, prometeu reformar o país, mas a pressa e as mudanças de estratégia voltaram a adiar os planos. Fini retirou-se de cena, a Liga Norte expandiu-se para sul, agora com Matteo Salvini, e até Berlusconi regressou, em versão vegetariana e com mais cabelo, com a renascida Forza Italia, propondo-se a ser o árbitro das eleições e dos governos. Mais do que tudo, o Movimento Cinco Estrelas, primeiro com o histriónico Beppe Grillo e o cibernético Casaleggio, entrou de rompante na política italiana, conquistando em 2016 grandes cidades como Roma e Turim, e tornando-se no partido mais votado nas legislativas de há dias, agora como o jovem e quase licenciado Luigi di Maio à sua frente para lhe dar uma face mais institucional. Mas não se quer aliar a ninguém, tal como os outros partidos não se querem aliar uns com os outros.

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 Como se vê, governos precários, falta de entendimento e posteriores alianças que antes pareciam impossíveis (ex-comunistas e democratas-cristãos, socialistas e ex-neofascistas, etc) são a regra em Itália. Daí que a preocupação imediata talvez não seja assim tão grave. Instabilidade governativa e coligações improváveis em Itália, mais do que a regra, são autênticos pleonasmos.

welcome to my life

Patrícia Reis, 21.07.17

Cheguei de Itália - a belíssima - há uma semana. Já não me lembro de ter ficado de papo para o ar sem fazer nada, mirando vagamente as vinhas da Toscana ou espreitando a gente pelas praias de Roma. Sim, tenho problemas graves de memória, está visto. Acontece que desde que cheguei aconteceu tudo, ou quase tudo, do autoclismo que avariou, ao carro que não tinha gasolina nem óleo (pânico!), a textos que eram para ser mas depois não foram, a sessões de terapia individual, de grupo, no espelho e apenas para mim mesma, idas à província, vários livros à espera, sessões de fotografia, objectos estranhos e alguém à minha frente a dizer: gosto de comer. Há ainda toda a cena bizarra da inscrição do meu filho mais novo na faculdade (inscreveu-se, por esta ordem, em filosofia, ciências da comunicação e sociologia, todos os cursos na universidade Nova), ou dos cães que precisavam de ser vacinados, mas afinal não. O meu filho mais velho acredita que eu não percebi a mensagem (não perguntem, é demasiado), e a minha mãe diz que há pessoas que morrem com menos stress. Hoje é sexta-feira. Dizem-me que há vitaminas fixes, mas não fui à farmácia, fui à dentista que é um fado só meu e permanente. Ah, Itália? Foi maravilhoso.

Sem grandes dramas

Alexandre Guerra, 30.11.16

A Itália é um país fascinante por diversas razões. Politicamente, sempre foi um laboratório para todo o tipo de experiências. Nos últimos 70 anos teve 63 governos, mas a verdade é que, com mais ou menos instabilidade, a Itália lá vai funcionando no seu estilo muito próprio e ao mesmo tempo sedutor e único. No Domingo, realiza-se um importante referendo sobre várias alterações constitucionais, as mais importantes desde a II GM, entre as quais a diminuição da relevância do Senado naquele sistema político. As sondagens indicam que o primeiro-ministro Matteo Renzi se arrisca a perder a votação, mas mesmo que isso aconteça, acredito que a Itália, com toda a sua classe e arte, olhará para todo este processo sem grandes dramas.

Da política às mulheres, a Itália é tudo menos recatada

Alexandre Guerra, 07.06.16

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 Apresentadora da RAI3, com um dos seus célebres decotes/Foto actualizada

 

Segundo aquilo que se leu na imprensa, desde a semana passada que vigora um novo código de indumentária na RAI (televisão pública italiana), para que as suas pivots de informação tenham “uma imagem mais recatada, menos provocadora”. Decotes, vestidos justos e outros trajes que possam ser considerados mais arrojados estão proibidos. Em qualquer outra televisão pública europeia ou de outra parte do mundo esta medida até passaria despercebida e até poderia ser compreensível. Mas fazer isto na RAI é quase o mesmo que vestir uma tanga ao David de Miguel Ângelo. 

 

A Itália é um país fascinante a vários níveis e a RAI é também um pouco o espelho da realidade daquele país, com tudo o que tem de bom e de mau. A arte, a história, a cultura, a beleza, a elegância, o prazer, a gastronomia, a paisagem, tudo se conjuga de uma forma desorganizada, mas ao mesmo tempo irresistível. E com a política italiana passa-se o mesmo. Apesar de, por vezes, ser dominada por uma total ausência de ordem e lucidez, a verdade é que é impossível ficar-se indiferente ao que por lá se vai passando. De certa maneira, assemelha-se a uma arena romana que vai servindo para entreter o povo, onde tudo é possível, mesmo as maiores barbaridades, mas os aplausos não deixam de soar.

 

Em Itália tudo é vivido com intensidade, paixão e irracionalidade, para o melhor, mas também para o pior. Nada é inconsequente. Só em Itália se encontram fenómenos como o da deputada Cicciolina (hoje seria apenas uma pequena excentricidade, mas como explicar uma coisa destas ainda nos anos 80?) ou de Silvio Berlusconi (imagine-se, o político que se manteve durante mais tempo no cargo de primeiro-ministro desde a II GM). Ou nos anos mais recentes, o da ascensão meteórica de um palhaço (no sentido literal) na cena política transalpina. É por isso que o sistema político italiano é um autêntico laboratório. Em Itália tudo é possível e tudo é aceite com a maior das normalidade. Regras e normas ficam para os europeus "normais", já que os italianos preferem a incerteza do dia seguinte e a animação da anarquia sistémica. Mas, o curioso é que o sistema político italiano lá vai funcionando. À sua maneira, é certo.