De traidores e fanáticos religiosos
Aviso: vou expressar esta opinião, liberta de tendências políticas.
Vivemos tempos confusos, há mais cinzentos do que nunca. Alegro-me com a libertação dos iranianos de uma tirania inconcebível. Por outro lado, o narcisista Trump não é um defensor dos Direitos Humanos. Os seus interesses são outros. Aliás, não censuro essa posição. Havendo uma conjugação de interesses, pode surgir a tal situação de "win-win", com vantagens para dois lados que, em princípio, se consideram opostos.
Mas aplicar-se-á essa circunstância na guerra contra o Irão? O Irão está mesmo a caminho de uma democracia? Tudo indica que está, isso sim, a caminho de uma guerra degastante com Israel. Mas alguém acredita que Israel algum dia irá ajudar o Irão? Alguém acredita que Israel está interessado no bem-estar dos iranianos? O Próximo Oriente ficará mais imprevisível do que nunca. Um clima destes propricia o surgimento de grupos radicais. E olha com quem...
E o que se passa na Venezuela? Já vive numa democracia? Está a caminho dela? E, já agora, Cuba, anunciada por Trump como o seu próximo objectivo: estamos a caminho de uma "Cuba livre"? Não me façam rir!
Não há como não ficar insensível ao regozijo dos iranianos, perante o desaparecimento dos aiatolas. Mas (sacrilégio!) compreendo a posição de Pedro Sanchéz, ao recusar apoio à guerra de Trump. A Espanha pertence à União Europeia. E, desde que subiu ao poder, Trump tem espezinhado e humilhado a Europa, tanto em palavras, como em actos. Também Vance, por várias vezes, ultrapassou a linha vermelha. Como europeia, repudio totalmente comportamentos deste tipo.
Posso até compreender que Trump considere a Europa ter feito pouco pela NATO e se acomodado à acção dos EUA, descurando os seus meios militares e defensivos. Mas a Europa e os EUA são aliados há mais de oitenta anos, numa relação de confiança mútua. E, numa relação, entre pessoas educadas, os problemas resolvem-se "em privado".
Trump poderia ter abordado os problemas e fazer as suas exigências de forma civilizada, em conversações directas com as entidades europeias. De forma severa, se achasse conveniente. O que não se aceita é que ele o faça em público, humilhando e insultando, sem antes ter falado com a parceira de décadas. A isto se chama traição! Trump traiu a Europa. Dir-me-ão que, numa relação a este nível, onde está em causa a geopolítica, não há privacidade completa. Pois não. Mas os governantes civilizados costumam alternar conversações à porta fechada, com conferências de imprensa, em que declaram haver discordâncias, mas estando convencidos de chegar a um acordo satisfatório para ambas as partes.
Porque, afinal, Trump precisa da Europa! Perante a recusa de Sánchez, ele logo anunciou corte de relações comerciais com Espanha. Se as bases espanholas não lhe interessassem, porque reagiria ele à decisão do Primeiro Ministro espanhol? Porque não ignorou, pura e simplesmente?
E, perante a evidência de que acordos comerciais entre a Espanha e os EUA são negociados no âmbito da União Europeia, o que faz a Casa Branca? Recorre à mentira, como sempre. A marioneta trumpina Karoline Leavitt anunciou que a Espanha havia concordado cooperação militar com os EUA, na guerra contra o Irão. Declaração já desmentida por Sánchez.
A União Europeia declarou solidariedade total com Espanha. E eu gostei. Não morro de amores por Costa, embora goste de von der Leyen. Acima de tudo, porém, gostei porque sou europeia! E porque não confio minimamente em Trump. Lembrem-se: ainda está por esclarecer qual a sua verdadeira relação com Putin. O interessante é que os europeus, que normalmente acusam a Europa de ser submissa a Trump, reagem indignados à posição do único político europeu que ousou enfrentar o presidente norte-americano, esse energúmeno que convenceu tanta gente a votar nele, apenas porque fala grosso e usa bonés à jogador de baseball.
Ainda por cima, a China meteu-se ao barulho, saindo em defesa de Espanha. Choveram críticas: o Sánchez feito com os chineses! Eu também não simpatizo minimamente com essa potência mundial governada por uma tirania. Mas sejamos claros: quem é o responsável pela situação? Trump! Foi ele que repudiou (e repudia) a Europa (à excepção das suas bases militares). Se ele não o tivesse feito, alguma vez a China vinha em defesa de um país da União Europeia?
Trump é narcisista, psicopata, imprevisível. Trump quer acabar com a democracia nos EUA. Nunca a instaurará num outro país, muito menos, no Irão. Nem na Venezuela, nem em Cuba, nem na Gronelândia, nem em lado nenhum.
A inspiração de Trump está no Mein Kampf. Trump irá destruir o mundo que conhecemos. Aliás, já começou.
Há dias, Marco Rubio disse o Irão ser governado por "fanáticos religiosos lunáticos" (ou coisa parecida). O rapaz tem razão. Mas pergunto-me se ele estava mesmo a pensar no Irão... Não se estaria a referir ao seu próprio país?
Deixo-vos com a cena comovente de um grupo de pastores evangélicos a rezarem pelo seu líder Trump, que, todos sabemos, é de uma moral indiscutível. Pela sua cara, deve estar a pensar numa das meninas que comeu na ilha do Epstein. Mas adiante! A cena aconteceu ontem. E os mais sensíveis talvez se previnam com um lenço, a fim de limparem as lágrimas.
Nota: tentem não me insultar, nos vossos comentários. Obrigada.

















