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Bernard Lewis (1916-2018)

por Diogo Noivo, em 23.05.18

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Bernard Lewis é um nome maior da historiografia sobre o Médio Oriente e o Islão. Cunhou o termo “choque de civilizações”, depois popularizado por Samuel P. Huntington. Contudo, ao contrário deste, Lewis não identificou no povo árabe, ou na comunidade muçulmana, qualquer atavismo que inviabilize a edificação de democracias no Norte de África e no Grande Médio Oriente. Em cerca de 30 livros e mais de uma centena de artigos e ensaios, Lewis argumentou que as aflições políticas dos países árabes e do Islão se devem a problemas eminentemente políticos.

No célebre The Crisis of Islam, elencou e dissecou os desafios (e os abismos) que assolam as terras do Islão - pobreza, desigualdade económica, autoritarismo -, explicando que a sua resolução é matéria de escolha, pois não há na religião nada de endémico que impeça a alteração do status quo. Foi também nestas páginas que afirmou não existir qualquer fundamento doutrinário ou legal no Islão para validar os autores morais e materiais dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. Demonstrou que, de acordo com os cânones da fé islâmica, a violência contra mulheres e crianças é expressamente proibida e, por outro lado, que o suicídio é um pecado punido com a condenação eterna do pecador à repetição incessante do seu acto. Tido como “falcão” - foi conselheiro da Administração de George W. Bush e defendeu mão pesada no Médio Oriente - e como “orientalista” - Edward Said disse de Lewis o que Maomé não disse do toucinho -, o historiador nunca permitiu que as suas convicções políticas deturpassem os factos e a análise.

As memórias de Bernard Lewis, publicadas em 2012 sob o título Notes on a Century: Reflexions of a Middle East Historian, tecidas com humor britânico e erudição despretensiosa, oferecem uma viagem única por uma vida ímpar, deixando entrever uma visão pouco optimista sobre o Médio Oriente e principalmente sobre a capacidade do Ocidente em lidar com aquela região. Li-as na altura e hoje voltarei a elas. Bernard Lewis morreu no passado dia 19 aos 101 anos de idade.

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Watu Wote

por Diogo Noivo, em 01.02.18

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A furgoneta viajava de Nairobi para Mandera, uma cidade queniana junto à fronteira com a Somália. Já próxima do destino, é atacada por um pequeno grupo da organização terrorista al-Shabab. Se dúvidas houvesse, a abordagem inicial dos jihadistas clarificou o propósito da ofensiva: após metralharem a furgoneta, entraram no veículo e exigiram aos passageiros muçulmanos que sinalizassem os cristãos a bordo. Foi em Dezembro de 2015. No ano anterior, em Novembro, a organização terrorista perpetrara um atentado em tudo semelhante na mesma região e no qual foram executados 28 não-muçulmanos.

Contudo, desta feita o desfecho foi menos trágico. Ainda antes dos jihadistas entrarem a bordo, os muçulmanos ofereceram vestes islâmicas aos cristãos e, já perante os terroristas, negaram-se a delatar os seus “irmãos e irmãs”. Temendo a chegada da polícia – estas viagens são normalmente escoltadas pelas forças de segurança locais – e surpreendidos pela resistência dos passageiros, a célula do al-Shabab abandonou o local (não sem antes, lamentavelmente, matar duas pessoas e ferir seis).

A história deste atentado tem agora adaptação cinematográfica com Watu Wote (Todos Nós), uma produção de quenianos e alemães dirigida pela realizadora Katja Benrath, um filme nomeado para Melhor Curta-Metragem na edição dos Óscares deste ano.  Mais do que uma história de solidariedade e bravura, o atentado e o filme que o retrata são um tratado sobre identidade comunitária. Em Identidade e Violência, Amartya Sen defende que a violência política hodierna é sustentada pela ideia de que as pessoas se definem mediante uma identidade única, segregadora e frequentemente beligerante. De acordo com Sen, a arrumação do mundo em civilizações tende a obscurecer a pluralidade de identidades de cada ser humano, subjugando-os a traços singulares, em regra étnicos ou religiosos. Esta é a lógica do jihadismo, que pretende impor uma só forma de Islão, totalitário, incompatível com identidades nacionais, com identidades locais, com lealdades familiares, com preferências culturais. Em tom humorístico, escreve Amartya Sen que a “mesma pessoa pode ser, sem qualquer contradição, um cidadão americano de origem caraibense, com antepassados africanos, um liberal, uma mulher, um vegetariano, um maratonista, um historiador, um professor, um romancista, um feminista, um heterossexual, um defensor dos direitos dos homossexuais, um amante de teatro, um activista ambiental, um entusiasta do ténis, um músico de jazz e alguém profundamente convicto de que existem seres inteligentes no espaço”. Todos temos um conjunto de identidades, que coexistem. Pertencemos simultaneamente a várias comunidades e compete-nos decidir a cada momento qual a mais importante. São muitos os muçulmanos que percebem isto – a maioria, na verdade. Felizmente, alguns viajavam de Nairobi para Mandera em Dezembro de 2015.

 

O trailer pode ser visto aqui.

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Burquíni: o fim da polémica

por Diogo Noivo, em 07.09.16

Publiquei ontem um texto sobre o burquíni e sobre a controvérsia gerada pela proibição do seu uso nas praias de alguns municípios franceses. Tivesse eu esperado umas horas e tinha-me poupado ao esforço: a polémica morreu. Esta minha afirmação não é semelhante à de Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros, a propósito do galpgate. Neste caso, a afirmação baseia-se em factos.

Hoje tudo ficou esclarecido. Pouco importa se o burquíni é, ou não, um símbolo de um Islão radical. Da mesma forma, é despropositado analisar se o uso desta peça de vestuário constitui um exercício de liberdade de expressão. Estes e outros debates são inúteis para o caso em apreço. A proibição teve na sua base algo muito mais simples (e revelador): ser francês é ser branco e católico. E pronto. Nada como falar claro para acabar com as dúvidas.

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O burquíni e a democracia francesa

por Diogo Noivo, em 06.09.16

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O debate sobre o burquíni abalou os alicerces da identidade nacional francesa. Quando uma peça de vestuário é capaz de tal proeza, teme-se pela saúde da identidade nacional, tão frágil que soçobra perante tecido.

Os detractores do burquíni dirão que não está em causa a indumentária, mas sim o que ela simboliza. Aliás, foi esse o racional que fundamentou a proibição imposta em França (os alegados problemas de higiene, aduzidos ao debate pelo presidente do município de Cannes, parecem-me um fundamento demasiado patético para ser levado a sério). O valor deste argumento é discutível, pois não é de todo evidente que a burqa (e, por maioria de razão, o burquíni) seja uma representação de uma estripe radical e violenta do Islão. Como, por outro lado, também não está demonstrado que o uso do burquíni seja uma consequência da coacção - embora, neste aspecto em concreto, existam bons argumentos para ser cauteloso, sem recorrer às litanias ultramontanas que se vão lendo aqui e ali. 

Mas mesmo que o burquíni fosse uma expressão de um Islão sectário e violento, a forma como se decidiu implementar a proibição invalidou por completo toda e qualquer boa intenção que a fundamentasse. Se, como foi evocado, o objectivo fosse o de banir do espaço público representações de ideologias repressoras, sectárias e violentas, deveria ter sido ilegalizada toda a parafernália onde figurem os rostos de Che Guevara ou de Mao, para dar apenas dois exemplos. Mais, se se pretende proteger a sociedade francesa do ódio e da violência (nas suas mais diferentes expressões), então as autoridades estavam obrigadas a ilegalizar o partido Frente Nacional. Mas nada disto aconteceu. Quis-se suprimir alegadas manifestações de ódio, mas apenas no seio da comunidade muçulmana. A todos os outros sectores da sociedade aplicou-se o muito português ‘tudo como d’antes, quartel-general em Abrantes’.

É abusivo e ridículo inferir deste caso que França adoptou uma política de perseguição religiosa exclusivamente direccionada contra o Islão. A verdade, como escreveu João Pedro Pimenta n’A Ágora, é  que se trata de mais um exemplo do jacobinismo francês, em que a tão afamada "laicidade" é na realidade uma atitude anti-religiosa disfarçada.  No entanto, ao pegar num argumento geral e aplicá-lo somente a um pequeno sector da sociedade, criaram-se condições (e factos) para que a comunidade muçulmana em França se sinta alvo de discriminação selectiva. E, com isso, deu-se mais um argumento ao totalitarismo jihadista, que certamente usará este episódio para ‘demonstrar’ aos muçulmanos que a verdadeira opressão religiosa está na Europa, e não no sectarismo sanguinário do autoproclamado Estado Islâmico e demais organizações jihadistas. Perante tudo isto, François Hollande, correctamente apodado em França de Monsieur Flan, mostrou não ter a consistência política necessária para recentrar o debate público.

André Lamas Leite escreveu n'A Destreza das Dúvidas que o busto da República aguenta bem o burquíni. De acordo. Já não tenho tanta certeza que a democracia francesa aguente cidadãos de indignação fácil, disponíveis para aceitar medidas de corte autoritário.

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O massacre que o Islão nunca esqueceu

por Alexandre Guerra, em 21.07.16

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A propósito do texto do Diogo, As Jihads, e do intenso e profícuo debate que suscitou na respectiva caixa de comentários, lembrei-me de um texto que há uns anos tinha escrito no blogue Forte Apache e que aqui me parece apropriado recuperar para quem tenha interesse por estas temáticas. Na altura, isto em Setembro de 2011, tinha comprado um daqueles pequenos livros da Penguin, de sensivelmente 60 páginas, com extractos da extensa obra “A History of the Crusades” (Cambridge University Press, 1951) do conceituado historiador britânico “Sir” Steven Runciman, falecido em 2000, com 97 anos. Tendo dedicado parte da sua vida ao estudo da Idade Média, Runciman teve em “A History of the Crusades” a sua grande criação, que ainda hoje é um farol para aqueles que pretendem debruçar-se sobre o conhecimento das incursões cristãs no Médio Oriente.

 

O tal pequeno livro da Penguin, de forma muito sucinta e clara, versa sobre os preparativos da Primeira Cruzada e o “assalto” a Jerusalém, sem esquecer os conturbados acontecimentos que se verificaram em Constantinopla e noutras cidades durante a jornada. Começa por ler-se sobre o entusiasmo e o apelo às armas do Papa Urbano II, no final do Verão, início de Outono de 1095, altura em que começa o movimento inspirador das Cruzadas. Da mobilização ao envio dos primeiros cruzados passaram poucos meses, para que se iniciasse um processo de violência desenfreada numa lógica da Cristandade contra todos (judeus, turcos, muçulmanos), incluindo contra os "irmãos" cristãos espalhados pelo Império Bizantino.

 

As atrocidades e a violência cometidas em nome da Fé durante a Primeira Cruzada, nomeadamente aquando do assalto e do massacre de Jerusalém em Julho de 1099, levaram Runciman a encontrar resposta para a questão primeira sobre a origem do conflito entre o Cristianismo e o Islão e que se perpetuou até aos dias hoje, afirmando que “o banho de sangue foi a prova do fanatismo cristão que recriou o fanatismo do Islão”.

 

O interessante nesta pequena passagem da obra de Runciman é ficar expressa a ideia de que a origem doutrinária da inimizade que persiste nos tempos modernos entre o Islão e o Cristianismo remonta à Primeira Cruzada, fazendo uma distinção com os séculos anteriores de expansão árabe. Runciman centra-se, antes, em episódios concretos de uma política papal e europeia expansionista na qual os fins justificaram todos os meios de violência.

 

Aquilo que é hoje o ressentimento doutrinário e ideológico do Islão contra o estilo de vida das sociedades ocidentais de herança cristã pode ter origem nos acontecimentos dramáticos naqueles dias de Julho de 1099 que se seguiram à conquista de Jerusalém, quando no interior das muralhas daquela cidade os cruzados eufóricos com a sua vitória invadiram ruas, casas, mesquitas e sinagogas, não poupando homens, mulheres e crianças muçulmanas e judaicas.

 

Raymond of Aguilers, um dos cronistas da Primeira Cruzada e que na manhã a seguir ao massacre (15 de Julho) chegou ao Pátio das Mesquitas (principal local sagrado muçulmano na cidade histórica de Jerusalém), conta que viu o chão coberto de corpos e de sangue que chegava até aos seus joelhos. O massacre de Jerusalém impressionou o mundo, desconhecendo-se o número de vítimas, falando-se em milhares. Certo foi que a cidade ficou sem muçulmanos e judeus. Mesmo entre alguns cristãos, aqueles acontecimentos causaram horror. Perante estes acontecimentos, Runciman relembra que mais tarde, quando alguns sábios religiosos do quarteirão latino em Jerusalém “tentaram encontrar alguma base na qual cristãos ou muçulmanos pudessem trabalhar juntos, a memória do massacre estava sempre no seu caminho”.

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As jihads

por Diogo Noivo, em 20.07.16

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Assistimos quase diariamente a indivíduos que se dizem muçulmanos evocar conceitos e práticas do Islão para cometer ou justificar atrocidades indizíveis. Esta atitude, para além de merecer um repúdio sem paliativos, deve convidar-nos a um esforço de escrutínio pois só compreendendo a ameaça poderemos encontrar formas para a eliminar. Vejamos os exemplos da jihad e do suicídio, práticas que o terrorismo contemporâneo colocou sob o foco da atenção mediática – e que, curiosamente, tanto os terroristas como os detractores do Islão vêem como dogmas religiosos.

 

Ao contrário da convicção comum, a palavra jihad é pré-islâmica. No idioma árabe moderno, esta palavra abrange um amplo espectro semântico, que vai da «luta de classes» ao conflito clássico entre o que é novo e o que é antigo. No Corão e nas demais fontes religiosas, a jihad assume duas formas: a jihad maior (jihad al-akbar) e a jihad menor (jihad al-ashgar). A jihad maior consiste no esforço reflexão e auto-crítica que qualquer crente deve empreender com vista a tornar-se um melhor muçulmano. Por sua vez, na jihad menor cabe a conversão dos não-crentes – o esforço de proselitismo comum à generalidade das religiões – e a defesa da comunidade muçulmana face a uma agressão externa. A importância de cada uma destas duas facetas da jihad, bem como a maneira como foram interpretadas, variou enormemente ao longo da História em função do contexto político vivido e consoante a região em causa. Assim, aquilo que os extremos (islâmicos e anti-islâmicos) dizem ser um dogma indeclinável é na verdade um conceito heterodoxo bastante sensível à vida social e política em cada momento.

 

Tal como a jihad, o suicídio está longe de ser consensual na doutrina e na jurisprudência islâmica. O historiador Bernard Lewis afirma não existir qualquer fundamento doutrinário ou legal no Islão que valide os autores morais e materiais dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. A opinião de Lewis é especialmente interessante pois, para além de ser um dos mais conceituados estudiosos do mundo islâmico (e, na minha modesta opinião, um dos melhores), foi ele quem cunhou a ideia de «choque das civilizações», mais tarde desenvolvida e popularizada por Samuel Huntington. Lewis, que confere à História e à tradição um peso substancial na observação do mundo árabe, e por isso é frequentemente acusado de ser partidário da "excepção árabe"*, demonstra que, de acordo com os cânones do Islão, a violência contra mulheres e crianças é expressamente proibida. Por outro lado, refere Lewis, o suicídio é um pecado punido com a condenação eterna do pecador à repetição incessante do seu acto. Assim, e sendo muito resumido, de acordo com Bernard Lewis este e outros atentados, para além de crimes hediondos, são também actos de blasfémia do ponto de vista islâmico, já que os suicídios e a violência são perpetrados em nome de Alá.

 

As evocações religiosas apresentadas por jihadistas para legitimar o terror em nome de Alá têm objectivos essencialmente políticos e resultam de uma leitura deturpada e sectária do Islão (motivada por ignorância ou por oportunismo), o que faz desta religião uma espécie de teste de Rorschach: a interpretação diz-nos mais sobre o intérprete do que propriamente sobre aquilo que é interpretado.

 

 * Por vezes designada “casulo árabe” ou “maleita árabe”. Segundo esta linha de argumentação, os antecedentes históricos do povo árabe e a herança doutrinária do Islão impedem o aparecimento de formas de governo democráticas. Por outras palavras, há um atavismo no espaço geo-linguístico composto pelo Norte de África e pelo Médio Oriente que é contrário às liberdades individuais e à participação política dos cidadãos.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 04.06.16

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Livro um: O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto

Edição D. Quixote, 2015

350 páginas

 

Muito se fala no fundamentalismo de matriz islâmica e nas atrocidades do Dito Estado Dito Islâmico (fórmula cunhada por Nuno Rogeiro que adopto com a devida vénia). Mas poucos sabem explicar, com minúcia e clareza, a dimensão histórica, social e religiosa dos devotos do profeta Maomé, que rivalizam com a fé cristã em expansão global.

Religião maioritária em largas dezenas de países que se estendem de Marrocos à Indonésia, o islamismo continua a ser lamentavelmente ignorado nas suas múltiplas facetas, reduzidas à vulgata caricatural pelo jornalismo dominante, cada vez mais superficial e preguiçoso. É por isso de saudar este ensaio sério, isento e muito bem informado que Jaime Nogueira Pinto nos traz em 13 capítulos densos mas de fácil e apelativa leitura proporcionada pelo estilo fluente do autor, que nunca sacrifica o rigor dos factos às suas opiniões sobre a matéria nem transige com qualquer proselitismo de pacotilha inspirado pelo ar dos tempos.

O Islão e o Ocidente é uma visão serena e lúcida, embora não isenta de perspectiva crítica, aos dramáticos desafios que nos são lançados pelo antigo Islão armado com novíssima e sofisticada tecnologia. Sem esquecer que dentro das vastas fronteiras do mapa islâmico se agita um mundo multipolar, longe do monolitismo que a indústria mediática tantas vezes apregoa.

Chegamos ao fim desta obra mais esclarecidos, mais bem informados e mais dotados de pistas de análise para entender o perturbante vínculo entre política e fé sob a bandeira do crescente muçulmano. De raros livros actuais se pode dizer o mesmo.

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O Islão e a Europa (2)

por João André, em 10.01.15

O meu post anterior fazia referência às perspectivas sobre as causas do terrorismo ou à ausência de vontade para as compreender. Neste abordo outro aspecto: a percepção da "ameaça islamista" na Europa.

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Na minha opinião, um dos cartoons mais relevantes que foi publicado na sequência do ataque foi o que está acima. Porquê? Porque as reacções ocidentais (especialmente as europeias) irão no sentido de apontar dedos (quando não outras extremidades mais sinistras) aos muçulmanos. Não é difícil imaginar Marine Le Pen e outros da mesma laia a salivarem-se de antecipação. Estes ataques são para eles uma profecia que se cumpre: a Europa está a ficar islamizada e os muçulmanos não só não se integram como são altamente hostir aos valores ocidentais.

 

Só que não é assim, pelo menos acreditando neste gráfico da Al-Jazeera, perdão, do Economist. Aparentemente nem a Europa está a islamizar-se tanto quanto se pensa nem há assim tantos riscos quanto isso. Os independentistas parecem ser mais perigosos que os islamistas.

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Porque razão esta disparidade (se me permitem que tente reflectir)? Bom, parece simples: pelas mesmas razões que referi antes. É mais simples hostilizar alguém que parece ter diferenças fundamentais em relação a nós (religião, cultura, cor, hábitos alimentares, vestuário, etc) do que aqueles que parecem perfeitamente iguais, ao ponto de não se compreender os motivos da violência (compare-se a diferença entre um árabe e um europeu e a que existe entre um basco e um andaluz).

 

E é este o perigo do populismo: reduz os temas que lhe interessam às questões que lhes interessam. Na Alemanha o Pegida nasceu em zonas onde os muçulmanos estão menos presentes. Na Suíça foram aprovados referendos que não só nasciam de falsas questões (há pouquíssimos minaretes no país) como eram prejudiciais ao país (pelo menos se os governantes e a UE não encontrarem soluções intermédias). A única solução para este problema é acção civil e informação. Na Alemanha, por exemplo, as contra-manifestações têm tido enorme sucesso. Faltaria uma mentalidade semelhante noutros países. É por isso que este movimento é tão importante como o Je suis Charlie. De certa forma, é mais importante.

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E tão poderoso não será

por Rui Rocha, em 10.01.15

Se precisa que outros matem por Ele.

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Duplicidade e cobardia

por Teresa Ribeiro, em 13.10.14

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"Darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão" (Êxodo, 21; 23)

"Não deixarás viver a feiticeira" (Êxodo 22; 17)

"Quando se encontrar no meio de vós um homem ou uma mulher que faça o que é mal aos olhos do Senhor teu Deus (...) apedrejá-los-ás até que morram" (Deuteronómio 17; 2 - 5)

 

Também nós, cristãos, travámos a nossa guerra santa. Dos autos de fé à evangelização a fio de espada transcrevemos a sangue muitas passagens do nosso livro sagrado. Mas isso foi há séculos. Desde  então fizemos o longo caminho que consagrou o respeito pela vida humana. Algo sem paralelo noutras culturas. Orgulho-me desta marca civilizacional, por constituir a maior prova de que é possível superar os estreitos limites da natureza humana e alcançar algo maior. 

Sou cristã não católica e ainda que seja muito crítica em relação à ICAR, reconheço que embora contradiga algo de fundamental na mensagem cristã, que prega a igualdade de todos os seres humanos perante Deus, a hierarquia facilita a sua afirmação no mundo e uma certa coerência doutrinária.

Os islamistas não têm um chefe supremo, mas várias coutadas, umas mais influentes que outras, representando diferentes correntes. Estas circunstâncias explicam dificuldades e constrangimentos de comunicação para o exterior, mas não desculpam a ausência de concertação de posições face ao que se passa actualmente no mundo islâmico, o seu mundo. 

Os moderados juram que o seu Corão é fundamentalmente uma mensagem de amor pela humanidade. Assumem-se como pacifistas, demarcam-se dos movimentos extremistas e recolhem-se no recato das suas orações, esperando que os infiéis lhes resolvam os problemas de má Imprensa. Há dias, o chefe da comunidade islâmica em Portugal, Abdool Karim Vakil, interrogado numa entrevista ao Expresso sobre a escalada de terror que se tem observado no Iraque e na Síria, respondeu: "Também há cristãos terroristas, hindus terroristas, judeus terroristas. O ser humano é assim. Matar é um pecado muito praticado." E seguiu, afirmando: "Também existem fanatismos na política. Há muitos fanatismos, cristão, judaico, hindu, etc. O do islão é mais mediático."

À pergunta: "Não acha que deve haver uma condenação mais forte e uma demarcação mais taxativa dos moderados em relação aos extremistas?", respondeu: "Eu abstenho-me de fazer comentários. Telefonam-me a pedir opinião, eu queria evitar falar muito."

Sobre a guerra de morte entre sunitas e xiitas, repetiu como um realejo: "Fanatismo existe em muitos lugares." Na mesma linha de raciocínio, sobre a discriminação das mulheres pelo islão, argumenta: "A mulher é inferiorizada em muitas sociedades. Em Portugal a mulher não tinha os mesmos direitos. Não podia votar."

Tudo é relativizado por este homem de paz. Sobre os jihadistas: "Não são assassinos por natureza. Julgam que estão a fazer o bem." As suas atrocidades são reprovadas com um lacónico: "O islão não prega isso."

Sobre os bombistas suicidas e a ficção das 70 virgens no paraíso, comenta: "O que se há-de fazer? Estou feliz por em Portugal não haver isso."

O que se há-de fazer?! Pilatos não diria melhor. Estes moderados-não-me-comprometa não põem a cabeça no cepo. Preferem deixar o trabalho sujo para os infiéis.

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Uma grávida contra a iniquidade do mundo

por Teresa Ribeiro, em 19.05.14

O que mais me impressiona neste caso hediondo é a coragem de Meriam Yehya por oposição à profunda cobardia da comunidade internacional. Quando são "apenas" os direitos humanos que estão em causa, os Estados párias são tratados com pinças. Estivessem fortes interesses comerciais ameaçados e a pressão seria outra.

Por outro lado, nunca nestes casos os islamitas moderados assumem uma atitude crítica de forte impacto público, aproveitando para se demarcar da barbárie a que tantos no ocidente associam o islão, sob os seus protestos. É mais fácil assobiar para o... Alá.

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