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Delito de Opinião

Ler (17)

O prazer da descoberta de revistas antigas

Pedro Correia, 28.01.23

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De novo confesso a minha paixão por frequentar alfarrabistas. Não apenas para adquirir livros antigos (como os três volumes da Guerra e Paz, em estado impecável, na edição portuguesa de 1957 com tradução do filósofo José Marinho), mas também revistas. Volta e meia, num dos meus alfarrabistas preferidos, abasteço-me de exemplares antigos da Paris Match, que ainda se publica. 

Já tinha falado disso aqui, há mais de dois anos, estávamos ainda aprisionados pela pandemia. Regressei lá recentemente, trouxe mais umas quantas. E deixo-me absorver por estes restos de uma colecção particular, agora desfeita certamente por decisão dos herdeiros.

Como se mergulhasse noutros tempos, contemporâneos ou anteriores ao dia em que nasci, e testemunhasse quase em directo acontecimentos entretanto transportados para enciclopédias e manuais de História. 

 

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«Isabel e Filipe reunidos em Lisboa», proclama um dos títulos. É o da edição n.º 412, de 2 de Março de 1957. Sobre a Rainha britânica, há pouco falecida, e o seu marido, o Duque de Edimburgo, que morreu quase centenário em Maio de 2021. Então eram ainda jovens, tinham décadas de vida à sua frente. 

Com três enviados especiais, a Paris Match faz uma cobertura exaustiva em 12 páginas da visita da monarca a Portugal, onde reencontrou o marido, que andara em missão oficial à volta do globo. Após 125 dias de separação, «uma nova lua-de-mel» começou em Lisboa, assinalaram os repórteres. Com excelentes fotografias em destaque, nunca funcionando como tapa-buracos de textos. 

 

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Somos, assim, testemunhas da História.

O primeiro sorriso de Isabel, desembarcada no Tejo, para o marido. Ao lado, o Presidente Craveiro Lopes (Lopez, lia-se na legenda).

O desfile pela capital, no mesmo coche real que transportara o seu bisavô Eduardo VII em 1903, na anterior visita de um monarca britânico.

A passagem pelo Rossio, cheio de mirones «até nas árvores», como assinalava a revista, com um mar de gente a gritar «Isabel!». Num país onde as manifestações populares estavam proibidas.

As imagens do faustoso esplendor na tribuna presidencial do Teatro de São Carlos, com Salazar - rara aparição em eventos públicos - num discreto segundo plano.

Uma extraordinária fotografia do jovem casal numa apoteótica recepção no Porto, cidade que a Rainha quis expressamente conhecer, em visita à margem do protocolo de Estado. 

 

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Portugal surge em foco noutra revista. A n.º 618, de 11 de Fevereiro de 1961. Dedicada em grande parte ao assalto ao Santa Maria, então emblema máximo dos nossos navios dedicados ao turismo de luxo.

Paris Match foi o primeiro grande título da imprensa internacional a embarcar no paquete com centenas de passageiros à mercê de um grupo armado luso-espanhol de opositores de Salazar e Franco. Os repórteres chegaram da forma mais insólita: de pára-quedas. Um deles, falhando o salto devido ao vento, passou longos momentos de angústia no mar, rodeado de tubarões.

Era o fotojornalismo no apogeu, muito antes da tecnologia digital e dos actuais meios de transmissão de imagens e texto.

Mergulho com assombro neste trabalho que valeu à Match reputação mundial. Com fotos exclusivas dos passageiros (incluindo muitas crianças), dos tripulantes portugueses e dos assaltantes, com destaque para o comandante dos "corsários": Henrique Galvão (a quem a revista chama Enrique Galvao), ex-salazarista convicto convertido à causa da democracia e apostado no derrube violento de Salazar.

 

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Tantas outras histórias estas revistas continuam a narrar-nos, várias décadas após terem sido impressas.

A edição n.º 749, de 17 de Agosto de 1963, informava que a vivenda californiana de Marilyn Monroe, ali falecida um ano antes numa noite em que não conseguiu suportar a solidão, acabara de ser vendida. Um letreiro, colocado no exterior do portão, confirmava com linguagem expedita de negociante americano: «Vendida - mas temos outras». Ignorava-se a identidade do novo proprietário, mas a Match desvendava um segredo: Joe di Maggio, o segundo dos três maridos da malograda actriz, mandava depor rosas no seu túmulo três vezes por semana.

Na edição n.º 625, de 1 de Abril de 1961, com a deslumbrante actriz belga Catherine Spaak na capa, deparo com este título: «Gable júnior repõe na viúva um sorriso de mamã.» Nascia o filho póstumo de Clark Gable, quatro meses após o súbito desaparecimento do intérprete de E Tudo o Vento Levou. A vida imitando a ficção, em toada de melodrama: o eterno galã das matinés sempre alimentara o sonho de ser pai. Aconteceu, mas já cá não estava para conhecer o bebé.

 

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Regresso à edição n.º 749: o destaque vai para o Presidente norte-americano. De semblante sombrio, nada sorridente. O casal John e Jacqueline acabava de perder Patrick: o filho recém-nascido sucumbira ao fim de dois dias, naquele funesto Agosto, vítima de graves problemas respiratórios. 

Um instantâneo revelava-nos um Kennedy destroçado, ao fundo de um elevador que o conduzia ao quinto andar do hospital onde iria velar o filho que mal chegara a viver. «Como o Presidente foi apenas um pai dorido», proclama o título. 

A revista desfia pormenores. Jackie transportada de helicóptero para o hospital quando se encontrava na casa de praia e logo submetida a uma cesariana, o marido interrompendo uma audiência na Casa Branca com membros do Comité Contra os Ensaios Nuclares e voando para Boston. Depois, horas de angústia perante a incubadora: o recém-nascido nem tinha força para chorar. Foi o próprio John a dar a desoladora notícia à mulher, ainda a recuperar do parto prematuro.

Tragédia no sonho americano. Como se antecipasse um luto de muito maior impacto, prestes a chegar, três meses depois. Com Kennnedy ceifado por balas traiçoeiras em Dallas que lhe roubaram a vida e abalaram o mundo.

Fragmentos de História. Que nos elucidam, comovem e deslumbram em simultâneo. 

Pensamento da semana

Pedro Correia, 25.09.22

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O melhor referendo à monarquia, no Reino Unido, ocorreu  com as centenas de milhares de pessoas - não apenas súbditos britânicos, mas também canadianos, australianos, neozelandeses e jamaicanos, entre outras nacionalidades -- que acorreram a Westminster e se inclinaram perante a urna de Isabel II. Observando estas imagens inapagáveis, questionei-me quantos presidentes de repúblicas, em regimes democráticos como o do Reino Unido, suscitariam na hora da morte tanto respeito, tanto carinho e tanta demonstração de genuíno apreço e sincera dor.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

A importância da homenagem

João Pedro Pimenta, 22.09.22

Tenho visto alguns remoques a tudo o que rodeou as exéquias da Rainha, com o argumento de que o Mundo está a atravessar momentos difíceis, com o pós-pandemia, a guerra na Ucrânia, a ameaça nuclear, a seca, a inflação crescente, as ameaças de recessão, etc, e que era preciso dar mais atenção a tudo isso do que às homenagens a Isabel II.

Eu entendo exactamente o contrário. É precisamente a beleza estética das homenagens, incluindo formalismos que nem imaginávamos, o sentimento de unidade na tristeza, a tradição como ligação entre o passado e o presente e o exemplo de dever, discrição e de supra-politiquice que permitem enfrentar todos esses problemas com esperança e firmeza - e sim, esquecê-los por umas horas. E tratando-se de Isabel II, peguemos em duas imagens, no início e no fim da sua missão: uma em que conduzia ambulâncias durante a II Guerra, e outra, a mensagem no início da pandemia, em que rematava com o "We will meet again". Só esses dois exemplos, nos tempos sombrios que corremos, justificariam toda a homenagem.

O Funeral da Rainha e o Futuro

jpt, 19.09.22

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Sentei-me a ver o funeral "da" rainha. Zapping - estações árabes (Aljazeera), "europeias" (Euronews), espanholas, francesas, britânicas (claro), norte-americanas, alemãs, portuguesas, italianas e decerto que tantas outras, às quais não tenho acesso, mundo afora a transmitirem o funeral em directo. Quando a rainha nasceu a Grã-Bretanha era o maior império do mundo e quase ainda se poderia dizer a "Rule Britannia, (Royal Navy) rule the waves". Não é o caso agora, o país e sua "armada" algo secundários - mas menos do que poderá parecer aos distraídos, mostra-o o espantoso impacto mundial do dia de hoje.
 
Impressiona-me a enormidade e o rigor de todo este aparato mortuário, uma riqueza simbólica cuja miríade de detalhes, decerto que desejavelmente significantes, me escapam. Uma monumentalidade faraónica, exclamo sem o mínimo menosprezo, nesta atenção longamente planeada pela transição para um Além. Um Além que é, crenças religiosas à parte, o Futuro, este pensado como corolário de uma continuidade, transportada em marcha lenta mas nunca imóvel.
 
Quem se recusa a entender isto, entrincheirado em questões de "regime" ou em atoardas politiqueiras, nada entende de política. E de cidadania. Li há dias que um pobre "mestre de pensamento" português, de extracção enverhoxista ou quejanda, clamou ser ter sido mais influente e frutífero Godard do que Isabel II. Como é que há gente que ainda lê e ouve este tipo de argumentação? Somos nós filhos/netos de Darwin, Dickens, Stuart Mill, Turner ou de Vitória? Isto será questão a colocar por quem pense política, História ou, pura e simplesmente, a vida? Então para quê aturar esta encenação? Não a da realeza. Mas sim a pobre encenação de um pensamento crítico...

Isabel II*

José Meireles Graça, 16.09.22

Morreu Isabel, que encarnava o que de melhor tem o Reino Unido. Não porque tivesse escrito como Shakespeare, ou brilhado na ciência como Isaac Newton, ou composto como Haendel (cidadão importado, é verdade), ou sido sequer uma actriz como Vanessa Redgrave ou uma estrela pop como um dos Beatles.

Não escreveu, não compôs, não filosofou, não foi reformadora social nem descobriu nem inventou. E todavia sentimos a sua morte como uma perda e o seu tempo, já, com saudade.

Foi, com inalterável serenidade, o topo de um conjunto de instituições que garantem que o Reino Unido, que já foi um grande império mas agora não é, que já foi o país mais desenvolvido mas, nisto e naquilo, foi ultrapassado, que já teve, por exemplo, dos melhores automóveis, cujas marcas e carácter são agora estrangeiros, e que nos domínios em que está no pódio tem numerosa, e combativa, companhia – continua a ser um exemplo de sociedade que não quer copiar ninguém, quando de todos os lados lhe invejam e respeitam as instituições.

A democracia, primeiro, que como nasceu de uma longa consolidação, e não de revoluções nem golpes de Estado, se lhe incrustou como fazendo parte do código genético; o Estado de Direito, tão enraizado que dispensa uma Constituição formal; e o filho rebelde que se separou por obra e graça de pais fundadores que, quando deixaram de ser britânicos, não deixaram de o ser culturalmente, para criar a superpotência que marcou o séc. XX, e através dela o resto do mundo, mais para o bem do que para o mal: são exemplos das boas razões pelas quais o Reino Unido conta.

Foram quem mais tenazmente se opôs à hegemonia nazi; e que, desconfiados da supraestrutura burocrática, enxerida, inimiga das diferenças nacionais e fatal e tendencialmente antidemocrática que é a União Europeia, bateram com a porta. Há mais povos que tivessem farejado a rasoira anti-pátrias e a terraplanagem europeísta das diferenças? Não há, e foi in extremis, que as novas gerações, lá como em boa parte das democracias do continente, parecem acreditar que a história contemporânea se deve basear na ignorância da pregressa, na obliteração de todas as tradições e na entrega do poder a técnicos que ninguém elegeu.

A instituição monárquica britânica é o símbolo e garante de muitas coisas, das quais a principal é a continuidade, para usar a palavra que todos os encómios de circunstância usam, et pour cause. E Isabel interpretou tão inexcedivelmente o seu múnus que não é apenas na Inglaterra, na Escócia, no País de Gales, na Irlanda do Norte e nos países da Commonwealth que por estes dias se lhe prestam homenagens sentidas. 

E então, nós por cá temos alguma coisa a aprender com a carreira e a morte desta santa civil?

Algumas coisas ocorrem. Muitos dos nossos bisavós, sobretudo lisboetas, instituíram a República porque, para o país decadente se desenvolver, era, acreditavam, preciso mudar o regime. Não apenas a decadência não se reverteu como o que tivemos foi a balbúrdia da I República, a que Salazar pôs cobro. Este cultivou sempre cuidadosamente relações com monárquicos e republicanos, sem jamais confessar as suas simpatias porque a escolha, qualquer que fosse, se definitiva, era divisiva e portanto não consolidava o poder do Estado Novo.

Houve países que se desenvolveram conservando a monarquia e outros liquidando-a; há monarquias em países desenvolvidíssimos, como os nórdicos, e em outros relativamente atrasados, como a Tailândia; e a Espanha, que tem muitos problemas, não teria certamente menos se, em vez de Filipe VI, se desse à maçada de eleger já não digo um Marcelo (personagem que, para felicidade dos locais, não deve existir) mas um político sénior qualquer. Donde, se a lógica não for uma batata, o regime por si não garante nada, excepto, se for monárquico, uma visibilidade acrescida porque a atracção que uma tal instituição pode exercer só funciona para o exterior se se basear numa tradição histórica, tanto mais respeitável quanto mais antiga – o que significa que uns podem e outros não.

Nós poderíamos. Mas as raras sondagens sobre o assunto parecem indicar que em Portugal o sentimento antimonárquico está fortemente enraizado. Não pode ser pelo amor às realizações da República que, se garantem alguma coisa, é a nossa teimosa manutenção na cauda do desenvolvimento; nem pela aversão à personalidade concreta do putativo rei, que pouca gente conhece; nem pela necessidade de unidade, que a que existe é suficiente, ou reforço da nossa identidade, que temos de sobra; nem pela sombra que a instituição poderia fazer às ambições políticas – a presidência da República nem está ao alcance nem é sequer particularmente atraente para a maior parte dos políticos, nem é um lugar de poderes exaltantes para quem se imagine com vocação de grande reformador.

Então – porquê? A chave entendo que está no igualitarismo que mais de quatro décadas de propaganda instilaram no eleitorado: há pobres porque há ricos, a demolição dos segundos é necessária para avançamento dos primeiros, a desigualdade originada pelas diferenças de meios ao nascimento é em si uma clamorosa injustiça e que é lá isso de um tipo que manda em nós porque é filho, neto e tetraneto de outros que se repoltrearam em sedas e que se distinguiam por grandes bigodes e por gostarem de touradas, sem todavia serem pegadores? Não pode ser.

Claro está que não poucos pais se esforçam e fazem sem reclamar tremendos sacrifícios para que os filhos não apenas tenham uma vida melhor do que a deles mas também do que as dos que não fizeram sacrifício nenhum, mas isso, acha o cidadão, é se não der muito nas vistas. Que se o camarada tiver feito fortuna tem garantido o Inferno, para começo de conversa, e os descendentes a AT, como é de justiça e os partidos de esquerda defendem com os dedos justiceiros frementes de indignação virtuosa.

O princípio monárquico é um de desigualdade consagrada nas leis e nos costumes, donde as pessoas de esquerda não o podem, geralmente, subscrever senão quando não tenham outro remédio, como já sucedeu com primeiros-ministros do Reino Unido como, parece, Harold Wilson, a tomar como verdadeira a alegação que disso se fez no The Crown.

Claro que do ponto de vista prático a instituição resulta provavelmente mais barata para o erário público do que a presidencial, e que necessidades de afirmação e notoriedade, somadas à relativa independência da opinião pública, levam ao cultivo de actividades mais ligadas a tradições que precisam de amparo e menos à popularidade popularucha. E a prova de que a colectividade carece, no nosso como em todos os países, de pompa e circunstância, é que as instituições republicanas não a dispensam, normalmente macaqueando formas que, no caso delas, revestem uma substância vazia.

Há, é claro, mais razões para o republicanismo, sobretudo no contexto de limitação de mandatos, que limita o aparecimento de vícios de poder, desde logo a corrupção, como na frase dos políticos e das fraldas, atribuída a Eça. Pode porém dizer-se que monarcas ou membros de famílias reais são mais corruptos do que presidentes e suas entourages? Pode – se se estiver de má-fé.

A tradição é a democracia dos mortos, como disse um amigo meu devoto de Chesterton e que, tal como eu, não é um militante monárquico. Conhece o país e os nossos conterrâneos, sabe do que a casa gasta e está certo de que o regresso à monarquia não resolveria por si o nosso principal problema, tal como o seu abandono não resolveu.

Numa prece assumidamente de gosto duvidoso, que publiquei no Facebook no dia da morte, disse:  Ó deuses, fazei com que Marcelo não diga nada. Isabel merece respeito.

Marcelo já disse, caracteristicamente, as banalidades que achou adequadas, nas quais, a propósito de Isabel, aproveitou para falar de sua exaltante pessoa e, como de costume, dos triunfos que acha ornam a massa que o aplaude.

Isabel merece respeito. E os britânicos, por estes dias, também, além de inveja. Porque conservam a sua herança – nós não.

 

* Publicado no Observador

Luto nacional por Isabel II

jpt, 16.09.22

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Leio nas "redes sociais" que há gente ofendida por o governo ter proclamado luto nacional pela morte da rainha Isabel II. E há gente surpreendida. Entre os militantes do resmunguismo, os republicanos fundamentalistas, os ainda ressentidos com o ultimatum e os combatentes anticoloniais, pois há um pouco de tudo nesta amálgama "contestatária".
 
Enfim, nesta era digital é necessário cuidado com a informação a que se acede. Por exemplo, a wikipedia não é "editada", a informação ali colocada não é totalmente fiável. Mas ainda assim serve para balizar as nossas dúvidas iniciais, e amainar irritações. Aqui deixo ligação à página dedicada aos "lutos nacionais" declarados em Portugal - e será de atentar em dois factos:
 
- o primeiro é que a proclamação de "luto nacional" pela morte de alguém vem em crescendo nos últimos 12 anos, vulgarizando a medida e nisso apoucando-lhe o conteúdo simbólico (já de si pequeno, pois este "luto" não se acompanha de quaisquer medidas efectivas);
 
- o segundo é que desde a implantação deste regime já foram declarados "lutos nacionais" em homenagem a vários chefes de Estado estrangeiros (Sadat, Samora Machel, Hirohito, Hassan II, João Paulo II).
 
Assim sendo, não será muito relevante discutir esta "vénia estatal" que é a declaração de "luto nacional". Mas se se quer discuti-la então que se faça com termos (quais os critérios, que pertinência, que medidas associadas, etc.). E não só este resmunguismo, insuportável (digo eu, resmungão encartado).
 
Ou seja, e com esta me calo, pelo menos vão ler a wikipedia. Pelo menos isso.

Para inglês ver

Paulo Sousa, 16.09.22

A morte de Isabel II tem merecido um grande destaque mediático. Já muito foi dito e escrito sobre a monarca britânica ao ponto de não haver nada de interessante que eu possa acrescentar. No entanto, aqui por Porto de Mós, circularam digitalmente nos últimos dias, dois documentos que achei interessantes.

O primeiro é uma foto do Rossio da vila tirada no dia 20 de Fevereiro de 1957, alguns instantes antes da passagem da comitiva da Rainha Isabel II. O espaço está pejado de gente que se comprime para apanhar uma nesga das cores do seu chapéu. 

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O segundo é uma cópia de um ofício do então Presidente da Câmara de Porto de Mós, Antero Leal, dirigido ao proprietário de um moinho e que pressupõe que não tivesse sido enviado apenas a um.

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O teor do ofício (clicando nas imagens acede-se a uma ampliação das mesmas) encaixa literalmente na expressão instituída durante a regência britânica do nosso rectângulo e que também faz título a este postal.

Ausência de referências e outras considerações

João Pedro Pimenta, 10.09.22

Às vezes imaginava uma situação caricata, em que uma pessoa morta há umas décadas, aí nos anos 70 ou 80, voltaria à vida e eu teria de lhe explicar tudo o que mudou no mundo desde então, como o fim do confronto Leste-Oeste, por exemplo (se bem que pareça menos longe, hoje em dia), a emergência dos países asiáticos, com a China à cabeça ou o advento da net e das novas formas de comunicação. Para me ajudar, teria de me socorrer de algumas referências ainda existentes. A que me vinha logo à cabeça era a Rainha Isabel II. Diria algo como "tudo mudou menos uma coisa: a Rainha permanece no trono" (ou como o Pedro Correia já aqui afirmou várias vezes, "viu passar todas as modas; só ela nunca passou de moda"). A seguir seria Fidel Castro, que também já lá vai, e outros de quem não me recordo agora.

Agora que a Rainha nos deixou, que referências haveria para uma pessoa de há 40/50 anos? Quem poderia dizer que está no seu lugar? Não me ocorre ninguém. Como se em pouco tempo o Mundo tivesse mudado muito mais depressa do que seria suposto. É mais um dos sinais a indicar-nos que os tempos mudaram mesmo e, sem referências, personalidades ou instituições-âncora, estão mais incertos do que nunca. 

E aproveito para rectificar uma ideia que tenho visto a espalhar-se no último dia. Nos muitos e merecidos encómios a Isabel II, já li por diversas vezes que tinha acabado o reinado mais longo de sempre. Também pensei, aquando do jubileu, que iria bater o recorde. Eram só mais dois anos. Mas não. Isabel II ultrapassou a Rainha Vitória e é a Rainha, no sentido estritamente feminino do termo, com o reinado mais longo de sempre. Mas o monarca que detém o galardão continua a pertencer ao outro lado da mancha e dificilmente será "destronado", perdoem-me o trocadilho fácil. Neste aspecto, o (rei) Sol continuará mesmo a brilhar.

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Entretanto recordei-me da colaboração que dei à revista Negócios Estrangeiros nos cinquenta anos da primeira visita de Isabel II a Portugal. Ali para a página 197 está o artigo da visita, para o qual colaborei com inúmeras notas sobre o itinerário realizado. Tem o seu interesse. E mais se discorre sobre o significado político da visita, em plena era de descolonizações e Guerra Fria. Sim, Isabel II subiu ao trono numa época igualmente atribulada para o Reino Unido, só que tinha um Winston Churchill para a ajudar. De certa maneira, tenho pena de Liz Truss, pelo tremendo início de mandato. Começar com a morte do monarca é pesado, mas com uma monarca tão marcante é mastodôntico.

Isabel II em Maputo

jpt, 09.09.22

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Em Novembro de 1999 Isabel II visitou Maputo (aqui uma breve descrição no The Guardian), uma breve estada de umas horas, que culminava uma viagem a África enquanto cabecilha da Commonwealth. Esta passagem por Moçambique foi recebida como facto de grande relevância política, e era fruto da grande competência diplomática existente durante a presidência de Joaquim Chissano. Pois não só aquela viagem ao continente tinha apenas três escalas - o simbólico Gana, a primeira colónia africana que se tornara independente, e a então simbólica e tão poderosa África do Sul de Mandela eram as outras - mas também porque o país vivia um agitado processo eleitoral, então já em rescaldo. Enfim, a presença de Isabel II era um triunfo diplomático e um trunfo político.

Para mim tinha o interesse acrescentado de ver as reacções apatetadas de algum funcionalismo lisboeta - friso o "algum", pois o sentimento não era universal - e da rústica imprensa que atentava sobre África, pequenos universos onde então eclodiu um ridículo sentimento de verdadeira indignação sussurrada, como se Portugal sofresse ali um segundo "ultimatum"... De facto, Moçambique aderira quatro  anos antes à Commonwealth, passo então inédito pois tratou-se do primeiro país que não fora colónia britânica a integrar aquela organização - o que se veio a tornar algo habitual, pois pelo  menos Ruanda, Gabão e Togo vieram a aderir -, em mais uma mostra da sageza diplomática de Chissano. Mas para aquela alguma "lisboa" funcionária e para a desengonçada imprensa, em plena era de constituição da CPLP (formalizada em 1995) e do propagandear da "comunhão" assente na "lusofonia", então muito em voga, a adesão do país à Commonwealth e, depois, esta inusitada visita da monarca britânica eram sentidas como uma perda... "Vai Moçambique optar pelo inglês como língua oficial?", perguntavam-me amiúde - enfim, o Ruanda viria a dar esse passo uma década depois, mas uma opção política devida a um contexto muito diferente.

Daquela visita só tenho uma memória. Não posso afiançar que seja verdadeira, apenas ecoarei o que então me foi contado alguns dias depois por um diplomata britânico durante a inauguração de uma exposição. E é não só muito plausível como denotativa da mundividência da casa real britânica, por isso aqui a reproduzo, com um sorriso... E crente de que "se non è vero, è ben trovato"..

A visita foi muito curta, verdadeiramente de carácter simbólico. Isabel II e sua comitiva iam a Maputo almoçar e seguiriam de imediato, a meio da tarde, rumo a Londres. Aterraram em Maputo cerca do meio-dia, provenientes de Joanesburgo (um vôo de 45 minutos). Em Mavalane tiveram uma breve cerimónia de recepção, seguiram para o Hotel Polana (ex-libris da cidade e edifício que tinha ainda traços do "british colonial" - os quais posteriormente foram sendo algo apaquistanados). Aí a rainha mudou de traje (nota-se nas fotografias), numa brevíssima estada. Entretanto a comitiva esperava no hall, pois seguiriam para um banquete oferecido por Chissano no palácio da Ponta Vermelha, a cerca de um quilómetro. Os carros da comitiva estavam enfileirados na parque de estacionamento da entrada do hotel e estacionado mesmo à porta estava, obviamente, o veículo que transportaria a rainha e o príncipe de Edimburgo, Filipe. Logo atrás o carro onde viajava o meu narrador... À frente, estava o "batalhão" de guardas motorizados, a escolta sempre presente nas comitivas presidenciais, destinada à segurança e a fazer abrir alas no trânsito.

Às treze horas exactas, como estava planeado, Isabel II e Filipe saíram dos seus aposentos e entraram no carro para seguirem à Ponta Vermelha, e toda a restante comitiva o fez também, consoante as precedências e regras securitárias. Mas a escolta policial não tinha ainda ordens radiofónicas para avançar, havia um qualquer atraso. E ali ficaram todos esperando que o protocolo moçambicano comunicasse a autorização de marcha. E assim continuaram. De súbito o príncipe Filipe saiu do carro, "muito alto, magro, de dedo em riste, irado" dizia o diplomata narrador, passados dias ainda angustiado - talvez até temendo os custos que aquilo viria a ter no seu futuro a curto e médio prazo - avançando para os polícias e suas motos e clamando: "ou avançamos já ou seguimos directos para o aeroporto". E de imediato houve a ordem para avançar.

A espera tinha sido de... dois minutos!, concluía o diplomata, pondo a mão na testa e meneando a cabeça. E nós sorríamos...

 

Cumpriu o dever até ao fim

Pedro Correia, 09.09.22

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A última imagem da Rainha ao receber Liz Truss, terça-feira passada, em Balmoral

 

Cumpriu o dever até ao fim. A imagem mais recente mas já crepuscular que guardamos dela foi colhida terça-feira, no castelo de Balmoral, ao receber a nova líder conservadora, Liz Truss, indigitando-a primeira-ministra. De aspecto frágil mas ainda gracioso, como sempre a conhecemos, neste último acto formal em sete décadas de palco institucional que assinalava também a despedida de uma vida longa e frutuosa, ao serviço do Reino Unido e da Commonwealth, que congrega 2,4 mil milhões de seres humanos em todos os continentes. 

Muitos dos seus súbditos nunca conheceram outro titular da coroa britânica. Isabel II - que ontem se apagou em paz na sua amada Escócia, no preciso local onde passou as horas mais felizes da sua longa existência - sucedera em 1952 ao pai, Jorge VI. Era uma jovem de 25 anos, tímida, insegura, certamente imatura: ganhava projecção mediática universal graças a inesperados golpes do destino. Primeiro à abdicação do tio, Eduardo VIII, que a colocou na linha directa da sucessão dinástica; depois devido à morte prematura do pai, fulminado por um cancro.

 

Essa jovem viria a tornar-se ícone de várias gerações muito para além das fronteiras da ilha onde nasceu. Como chefe do Estado da Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e São Cristóvão e Névis. Ultrapassou em longevidade física e política a sua trisavó Vitória, rainha entre 1837 e 1901. 

Ninguém viajou tanto como ela, não apenas às antigas parcelas do império britânico mas a todos os recantos do mundo.

Ninguém coexistiu com tantos líderes políticos e espirituais - 15 Presidentes norte-americanos, de Harry Truman a Joe Biden; sete Papas, de Pio XII a Francisco; 15 primeiros-ministros do Reino Unido, começando por Winston Churchill, quando era já lenda ainda em vida. Mais nove conservadores além dele e da recém-empossada (Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major, David Cameron, Theresa May e Boris Johnson) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).

Num tempo que presta culto ao provisório, ela simbolizava a permanência - desde logo pelos laços de sangue que a ligavam aos seus remotos antepassados normandos fundadores da monarquia há quase mil anos. Parecia imune a toda a erosão e nunca se deixou contaminar pelas paixões políticas. Robusteceu o trono ao colocá-lo acima de todos os jogos partidários: era uma das suas facetas mais relevantes de serviço público, do qual nunca abdicou - como deu mostras na vibrante mensagem dirigida aos britânicos, em Abril de 2020, no auge do pesadelo da pandemia.

 

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Isabel II, por Andy Warhol (1985)

 

Reforçara a sua legitimidade histórica na firme resistência da família real britânica às hordas nazis, mesmo com o palácio de Buckingham bombardeado pela Luftwaffe, nos dias de terror da II Guerra Mundial. Quando lhes foi sugerida a evacuação urgente para o Canadá, a mãe fez uma declaração que dissipou todas as dúvidas: «As crianças [Isabel e a irmã mais nova, Margarida] não vão sem mim. Eu não irei sem o Rei. E o Rei nunca partirá.»

Assim se forjou o carácter desta monarca que aos 18 anos, ainda durante a guerra, integrou as fileiras do serviço territorial como motorista e mecânica. Sempre em cumprimento do dever, como confirmaria ao honrar todas as responsabilidades constitucionais que assumiu ao ascender ao trono. Funcionando como traço de união entre povos e nações. Dando expressão concreta a conceitos abstractos como dignidade e majestade. Nunca as liberdades fundamentais, cada vez mais escassas noutras latitudes, correram o menor risco em dia algum do seu reinado. 

 

Não admira, por isso, que mesmo tendo já completado 96 anos mantivesse níveis estratosféricos de popularidade que nenhum presidente de nenhuma república granjeia hoje, seja onde for.

Não admira, por isso, que a triste notícia da sua morte - talvez pressentida mas ainda assim inesperada - tenha sido recebida com genuína dor e consternação um pouco por toda a parte, não apenas na chuvosa noite londrina mas muito para além das fronteiras dos 15 Estados ou territórios que a mantinham como suprema guardiã do império da lei e da magistratura do exemplo - o mais parco, precário e precioso de todos os poderes.

 

«Perdemos não apenas a nossa monarca, mas a matriarca da nação», afirmou um comovido Tony Blair numa mensagem de condolências. Enquanto David Cameron se declarava «afortunado» por ter recebido o conselho «da maior diplomata a nível mundial». Mick Jagger, voz dos Rolling Stones, falou por milhões ao escrever estas singelas linhas numa rede social: «Ao longo da minha vida, Sua Majestade, a Rainha Isabel II, esteve lá. (...) Lembro-me dela desde que era uma bela jovem até se tornar na muito querida avó desta nação.»

O filho mais velho, Carlos, sucede-lhe no trono. Mas ninguém preencherá o lugar que ela agora deixa em aberto nesta viagem para a eternidade.

 

Leitura complementar:

A Rainha (6 de Fevereiro de 2009)

«Ser imparcial não é humano» (24 de Fevereiro de 2018)

O fim do século

jpt, 08.09.22

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Terminou hoje o "longo século" XX. Nesta fotografia está aquela que se veio a tornar a rainha do Ocidente, na sua visita a Portugal em 1957, num coche real acompanhada pelo presidente Craveiro Lopes.

(Há coincidências tristes: há dois dias deixei aqui a reprodução da belíssima brochura das comemorações do aniversário da rainha em... 1956, a que a minha mãe assistiu. Para quem tiver interesse está em "A Rainha de Inglaterra".)

 

Dizer adeus?

Maria Dulce Fernandes, 08.09.22

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As notícias são tristes. São chocantes. Estão na TV em directo, com muito repórter e comentador  a opinar. Ainda há dois dias era notícia por convidar Liz Truss a formar governo. É certo que foi divulgado que a soberana não se encontrava bem de saúde para viajar e que a tomada de posse aconteceu, pela primeira vez na história do seu reinado, em Balmoral e não em Buckingham. 

Estou triste. Estou chocada. Como todo o mundo aliás. Creio que o subentendido se entende, com toda a família a convergir para a Escócia. 

O Mundo está com os olhos postos na ilha do canal, a preparar-se para se despedir da Rainha Elisabeth II.

Os símbolos não morrem, apenas deixamos de os ver, mas eles estão lá. Mas ainda assim, o Mundo não ficará igual. London Bridge is Down.

https://sicnoticias.pt/especiais/isabel-ii/2022-09-08-Mundo-atento-ao-estado-de-saude-de-Isabel-II-a4651efe

Oiço em loop num longínquo e baixo trautear do meu pensamento, o fado da Helena Tavares... custa tanto.

Imagens SIC

A Rainha de Inglaterra

jpt, 07.09.22

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Ontem a rainha Elizabeth II deu posse a Liz Truss como primeira-ministra, o 15º chefe de governo do seu reinado. A relevância da rainha assentará no estatuto da Grã-Bretanha, à época do seu nascimento o maior império mundial, mas acima de tudo na sua extrema longevidade e na magnífica hombridade com que tem reinado - verdadeiramente credora do epíteto "Serena" - ao longo de tamanhas transformações, no seu país e no  mundo. Decerto que por tudo isso assistimos, há poucos meses, a uma generalizada, global mesmo, homenagem aquando da celebração do seu 70º ano como monarca. Neste mundo turbulento ela é, julgo, o liame que ainda nos liga ao século XX.

 

 

Happy Jubelee, Ma'am

Maria Dulce Fernandes, 05.06.22

Setenta anos à frente seja do que for é seguramente extenuante. Se estivermos a falar do segundo reinado mais longo da história da humanidade, então é superlativamente fadigoso. Mas creio que é isso mesmo que motiva Isabel II. Ter constantes desafios para superar e o carinho inquestionável do povo britânico.

Como o  Pedro escreveu aqui  https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-rainha-13663973  magistralmente.

Deixo o meu humilde apreço a uma grande senhora, uma jovem de espírito, uma grande Rainha. Feliz Jubileu. 

 

 

 

A Rainha

Pedro Correia, 06.02.22

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«A dissimulação é a ciência dos reis.»

Cardeal Richelieu

 

Quando ela ascendeu ao mais alto cargo do seu país, José Estaline era ainda o senhor absoluto da Rússia vermelha. Nos Estados Unidos, mandava Harry Truman, então sem saber o que fazer dos soldados atascados no inferno da Coreia. E na Grã-Bretanha o primeiro-ministro era Winston Churchill, herói da guerra.

 

Ela viu tudo, ouviu todos.

Quando se sentou no trono herdado de seu pai, Mao Tsé-Tung mandava na China continental, Chiang Kai-Shek pontificava na Formosa, Hirohito mantinha-se como imperador do Japão mesmo após a rendição do seu país aos pés do general Douglas MacArthur. Havia nessa altura outros imperadores no mundo: Hailé Selassié na Etiópia, o xá Reza Pahlevi no Irão. As monarquias eram em número bem superior ao actual: havia-as da Grécia (com o rei Paulo) ao Egipto (com o rei Faruk). E até na Líbia do rei Idris, que um tal coronel Kadhafi viria a derrubar 17 anos mais tarde, em 1969.

 

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Nesse mês de Fevereiro de 1952, quando a jovem Isabel se tornou Rainha da Grã-Bretanha, com apenas 25 anos, o planeta era governado por figuras que hoje têm lugar garantido nos livros de História: Sukarno na Indonésia, Perón na Argentina, Tito na Jugoslávia, Franco na Espanha, Nehru na Índia, Ben-Gurion em Israel, Getúlio Vargas no Brasil, Salazar em Portugal.

Conheceu muitos deles, numa sucessão de encontros ao longo de sete décadas – tempo suficiente para ter visto aparecer e desaparecer Elvis Presley, os Beatles, os Pink Floyd e os Nirvana.

Coexistiu com sete Papas (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco), dez presidentes franceses (Vincent Auriol, René Coty, De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Eistang, Mitterrand, Chirac, Sarkozy, Hollande e Macron), nove chanceleres alemães (Adenauer, Erhard, Kiesinger, Willy Brandt, Helmut Schmidt, Kohl, Schroeder, Angela Merkel e Olaf Scholz), 14 presidentes norte-americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho, Obama, Trump e Biden). E 20 chefes do Estado brasileiros – de Getúlio a Bolsonaro. E nove presidentes de Portugal (Craveiro Lopes, Américo Thomaz, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa) e 18 primeiros-ministros portugueses, da ditadura ao actual regime constitucional, passando pelo período revolucionário, onde em menos de dois anos houve seis Executivos.

 

Sábia, serena, sibilina, Isabel II foi reinando ao longo de todo este tempo de convulsões no mundo.

Assistiu a guerras no Congo, no Vietname, no Biafra, no Médio Oriente e nos Balcãs. Testemunhou a descolonização de África, a chegada do homem à Lua, o desmoronar do bloco soviético. Viu as monarquias chegarem ao fim em países tão diferentes como o Iraque, o Afeganistão e o Nepal. E serem restauradas noutros, como em Espanha e no Camboja.

Trabalhou com 14 primeiros-ministros – dez conservadores (Churchill, Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major, David Cameron, Theresa May e Boris Johnson) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).

 

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Churchill não escondeu a ternura paternal que sentia pela jovem monarca. Ela retribuía-lhe a simpatia, sem quebrar o rígido dever de imparcialidade que os costumes do reino lhe impõem, mas não falta quem garanta que o primeiro-ministro favorito dela foi Harold Wilson, com os seus ares de filósofo de cachimbo na swinging London dos anos 60. E que Thatcher terá sido a líder do governo que mais detestou. O que não a impediu de comparecer no seu funeral de Estado, em Abril de 2013.

A verdade sobre isto e tudo o resto não será apurada num livro de memórias com selo real. Isabel II, a monarca britânica há mais tempo no trono, nunca escreverá esse livro.

 

Num mundo em mutação, onde tudo passa, tudo se esgota e tudo se esquece, ela é uma referência de estabilidade. Lembramo-nos dela desde sempre, são já poucos os que conheceram outro chefe do Estado no Reino Unido. O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant.

Só ela nunca passou de moda.

 

O que sente, o que pensa, o que esconde?

Só ela sabe: por detrás do suave sorriso protocolar, subsiste a esfinge nesta monarca que ninguém tem a ilusão de conhecer.

«A dissimulação é a ciência dos reis», dizia o cardeal Richelieu. Uma legenda que bem se aplica a Isabel II, Rainha da Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e as Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e São Cristóvão e Névis.

 

Isabel II subiu ao trono a 6 de Fevereiro de 1952 por morte de seu pai, Jorge VI. Faz hoje 70 anos.

 

Texto reeditado e actualizado

We'll meet again

Pedro Correia, 05.04.20

 

«We will succeed - and that success will belong to every one of us.»

«Better days will return. We will be with our friends again. We will be with our families again. We will meet again.»

 

Da mensagem dirigida esta noite aos britânicos pela Rainha Isabel II, que em 1940 sofreu com a família os bombardeamentos nazis em Londres - e não fugiu.

E vão três

Pedro Correia, 24.07.19

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O Brexit já enterrou dois chefes do Governo do Reino Unido, ambos conservadores: David Cameron, que convocou o referendo de 2016 comportando-se como aprendiz de feiticeiro, saltou do comboio em andamento, no rescaldo imediato desta consulta eleitoral; hoje, sem pompa nem glória, foi a vez de Theresa May abandonar a residência oficial em Downing Street sem ter solucionado um só dos problemas que o referendo suscitou. 

Um terceiro conservador, Boris Johnson, acaba de tomar posse - sem passar pelo decisivo teste das urnas nacionais. Com o reino cada vez mais desunido e rodeado de incertezas. Será capaz de corrigir a rota dos correligionários que o antecederam? A seu favor tem apenas as baixas expectativas que o rodeiam neste início de funções como 14.º primeiro-ministro empossado pela Rainha Isabel II. É muito pouco como carta de recomendação.

Biógrafo de Winston Churchill, o sucessor de Theresa May não ignora certamente uma das frases mais argutas do estadista que conduziu o destino das ilhas britânicas durante a férrea resistência às hordas nazis. «A política é a única guerra em que se pode morrer duas vezes», ensinou Churchill. Todos os governantes deviam ter esta citação sempre presente, do primeiro ao último dia dos seus mandatos.

"Ser imparcial não é humano"

Pedro Correia, 24.02.18

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 Claire Foy como Isabel II em The Crown

 

Terminei ontem de ver a primeira temporada de The Crown [A Coroa] - razão bastante, suficiente e mais que justificada para ter aderido à plataforma Netflix, produtora e distribuidora em exclusivo desta série britânica, que me dizem ter sido a mais dispendiosa da história da televisão.

Valeu a pena o investimento. Sem a menor concessão ao figurino do entretenimento industrial, The Crown é um tratado sobre as emoções humanas submetidas à razão política no singular quadro constitucional do Reino Unido. A figura central - de estrutura piscológica muito mais densa do que as frívolas "revistas do coração" permitiriam alguma vez entrever - é Isabel II, já com o mais extenso reinado de que há registo histórico. Ascendeu ao trono por morte inesperada do pai, em Fevereiro de 1952: tinha só 25 anos e súbditos em todas as parcelas do planeta - resquício moderno do antigo império inglês, que no início do século XX era ainda o mais poderoso à escala mundial.

 

Nascida numa nação impregnada de moralidade vitoriana que permaneceu como baluarte de resistência simultânea às hordas nazis e ao dominó das "revoluções socialistas" que varreram o século, Isabel II tornou-se num paradoxo vivo, seduzindo artistas tão diversos como Andy Warhol ou Lucian Freud, fotógrafos como Cecil Beaton ou Annie Leibovitz, guionistas, realizadores, músicos e uma plêiade de ensaistas políticos.

Percebe-se o fascínio por esta figura distante mas familiar, sem reprodução possível noutros ordenamentos constitucionais, funcionando como um elo permanente entre as raízes da monarquia milenar que corporiza e a sociedade multiforme em que crescem os seus bisnetos, mantendo uma imbatível popularidade no país que se foi agitando ao ritmo dos Beatles, dos Smiths e dos Sex Pistols.

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The Crown (2016) mostra-nos esta Rainha ainda jovem e de passo incerto, nascida para desfrutar uma tranquila existência entre cães e cavalos na aristocracia rural inglesa, e que acabou conduzida pelos caprichos da História à solidão do "mais horroroso palácio britânico", o de Buckingham, transportando o peso simbólico da Coroa legada pelo seus ancestrais desde o normando Guilherme, o Conquistador, no século XI.

Permanecer nesta ambígua coexistência entre tradição e modernidade foi desde o início o seu lema. E também o seu maior dilema, que ela soube solucionar de forma irrepreensível no complexo convívio com treze chefes de Governo - nove conservadores e quatro trabalhistas, onze homens e duas mulheres, de Winston Churchill a Theresa May.

 

O quarto episódio traz-nos um extraordinário diálogo entre a jovem monarca e a sua avó paterna, que sobrevivera não apenas ao marido, Jorge V, mas ao filho segundo, que jamais sonhara ser Rei.

A tímida Isabel II (notável desempenho da belíssima actriz Claire Foy), num raro momento propício a confidências, sente-se compreeensivelmente abalada pelo recente falecimento do pai, Jorge VI, e ainda assombrada pela abdicação do tio, Eduardo VIII, que em 1936 provocara um abalo sísmico na monarquia ao optar por uma paixão mundana em desfavor do trono. E mostra-se perplexa pela sua insólita posição institucional: cabe-lhe simbolicamente decidir sobre tudo sem afinal se pronunciar sobre coisa alguma.

 

«Não me parece certo, um Chefe do Estado não decidir sobre nada.»

«É o mais certo», diz-lhe a Rainha Maria, sua avó.

«É? Mas não fazer nada é não trabalhar...»

«Não fazer nada é o trabalho mais difícil de todos. E consome toda a tua energia. Ser imparcial não é natural, não é humano.»

 

Este diálogo ajuda-nos a compreender como The Crown é muito mais do que uma simples série televisiva: é uma exemplar coreografia do realismo político, aqui elevado a um patamar artístico. Como senha de identidade não apenas de uma soberana ou de um regime, mas também de um povo que conseguiu enfrentar adversidades inomináveis e soube perdurar para além de todas as contingências históricas.