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Fora a árbitra

por Pedro Correia, em 20.02.19

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Vejo contínuas referências no discurso informativo corrente à chamada "revolução iraniana", consumada em 1979. Raras vezes numa perspectiva crítica - começando pela terminologia adoptada, induzindo o leitor ou o telespectador a pensar que em Teerão, há 40 anos, se registou um salto qualitativo em vez de uma manifesta regressão social e cultural. O Irão contemporâneo é uma feroz teocracia que prende, tortura, exila, violenta e mata. Mas estes verbos só costumam ser associados, no tal discurso jornalístico corrente, ao regime anterior, o da monarquia derrubada pelos aiatolás e as suas turbas fanatizadas.

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Acabo de saber que a televisão pública do Irão proibiu, em cima da hora, a transmissão do jogo entre o Bayern de Munique e o Augsburgo, referente ao campeonato alemão, porque esta partida era arbitrada por uma mulher. De calções e cabelo solto, contrariando os decretos dos imãs, que continuam a mandar velar cabeças e corpos das iranianas a partir do momento em que deixam de ser crianças: só podem aparecer em público de rosto e mãos a descoberto. 

É a este regime que alguns, por cá, continuam a conceder o epíteto de "revolucionário", por ter derrubado a "tirania do Xá". Como se não tivesse instaurado uma tirania muito pior, com a sua polícia religiosa, o seu vergonhoso cortejo de presos de consciência e o seu veto sistemático à participação das mulheres na vida política, nomeadamente como candidatas às eleições presidenciais.

Afinal, porquê tanta benevolência noticiosa? Apenas porque o Irão é um dos maiores inimigos públicos dos EUA e alguns, possuídos da mais primária ideologia anti-americana, ainda medem o seu posicionamento em função deste critério, decorrente da Guerra Fria. Nada mais absurdo, nada mais anacrónico. E o mais caricato é que muitos destes companheiros de estrada da teocracia iraniana passam o tempo a bater a mão no peito em invocação dos direitos humanos e das liberdades, negando na prática aquilo que apregoam na teoria.

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Um dos F-16 israelitas da Esquadra 253, momentos antes de levantar voo na noite de 5 de Setembro de 2007, com destino ao complexo de Al Kibar em Deir Ezzor na Síria/ Foto:IDF

 

Em relação ao programa nuclear iraniano, tive sempre a convicção de que estaria muito longe de representar qualquer ameaça imediata para a região do Médio Oriente. Mesmo quando este tema estava no topo da agenda das preocupações de Washington, poucas dúvidas tinha de que os esforços de Teerão se limitavam a pouco mais do que a instalação de centrifugadoras em cascata. Esta quase certeza não tinha como base qualquer fonte privilegiada de “intelligence” junto do regime dos ayatollahs, mas apenas um facto muito simples, embora revelador: se houvesse o menor indício de ameaça a curto ou a médio prazo por parte do Irão, os caças-bombardeiros israelitas não perderiam tempo na destruição de qualquer alvo suspeito. Porque, a partir do momento em que os serviços de “intelligence” israelitas reunissem informação que colocasse o Irão na iminência de alcançar a bomba atómica, Israel atacaria cirurgicamente as várias instalações nucleares iranianas, sem qualquer aviso prévio, incluindo a Washington, que só deveria ter conhecimento da operação quando aquela já estivesse em curso.

 

Este princípio tanto se aplica ao Irão como a qualquer outro país da região, nomeadamente a Síria e o Iraque. A Mossad está sempre atenta a tudo o que se passa à sua volta, tal como sempre esteve em relação aos programas nucleares da Síria e do Iraque, tendo no passado agido preventiva e militarmente contra estes dois países a partir do momento em que se sentiu, efectivamente, ameaçada. Esta Quarta-feira, como forma de aviso ao Irão, o Governo israelita admitiu uma dessas operações secretas, ocorrida em 2007.

 

Na noite de 5 para 6 de Setembro de 2007, o primeiro-ministro, Ehud Olmert, pôs em prática a “doutrina Begin”, através de uma operação que Israel sempre negou, até hoje. Recordo que há uns anos, o New Yorker explicava como Israel tinha bombardeado secretamente o suposto reactor nuclear de Al Kibar sem que ninguém desse por isso e o assumisse posteriormente. “O ataque resultou de uma operação da Mossad em Viena, em Março de 2007, na qual recolheu 'intel' na casa de Ibrahim Otham, o director da Comissão Síria de Energia Atómica. As provas recolhidas, incluindo fotos do local do reactor, eram conclusivas. Washington foi informado, mas o Presidente George W. Bush não ficou muito convencido. Olmert, por seu lado, tinha poucas dúvidas e a 5 de Setembro, pouco antes da meia-noite, quatro F-15 e quatro F-16 levantaram voo de bases israelitas com destino à Síria.  Através de mecanismos electrónicos, os israelitas “cegaram” o sistema de defesa anti-aéreo sírio, entre as 00:40 e as 00:53, o suficiente para entrarem no espaço aéreo do inimigo sem serem vistos e lançaram várias toneladas de bombas sobre o alvo. Hoje, cinco anos depois, ninguém fala no assunto ou o reconhece, seja Israel ou a Síria”. Escrevi isto em Outubro de 2012, no entanto, este assunto nunca mais foi referido. Hoje, Israel assumiu este ataque, com as IDF a revelaram alguns detalhes, e avisou que nunca permitirá que qualquer país da região obtenha armas nucleares.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata.  

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Notas sobre as eleições no Irão

por Rui Rocha, em 16.06.13

A primeira nota muito relevante das eleições no Irão diz respeito ao nível de participação. Depois dos acontecimentos traumáticos de 2009, uma abstenção na ordem dos 25% (apenas) significa uma vontade profunda dos iranianos de não cederem a qualquer tipo de intimidação e de terem uma palavra na condução política dos destinos do país. A segunda nota sublinha a vontade de mudança. A escolha à primeira volta de Rohani é, antes de mais, um claro sinal para Khamenei e Amhadinejad que se conjuga com o pobre resultado obtido pelo candidato da linha radical Saed Jalili. A terceira nota é, todavia, de cautela. Khamanei continua a deter o poder efectivo no país. De tal forma que a pergunta que deve fazer-se é se o resultado destas eleições não acaba por ir ao encontro das suas intenções. A repressão de 2009 deixou profundas cicatrizes na sociedade iraniana. A eleição de um moderado, sem que todavia tenha margem de intervenção significativa, pode constituir-se como uma válvula de escape que permite transmitir uma ideia de mudança, mantendo-se o essencial na mesma, ao mesmo tempo que se renova a legitimidade do regime. Com a vantagem adicional de retirar da cena internacional e das relações com  os EUA a carga emocional protagonizada por Ahmadinejad da qual resultava, em última análise, uma justificação para os defensores de uma linha dura do lado americano.

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Assim sim:

Assim não:

 

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Havendo sido cego, agora vejo

por Pedro Correia, em 10.03.13

 

Esta fotografia da agência France-Presse é candidata desde já a uma das imagens do ano. Por nos mostrar um extremista islâmico, que sonha com a dura lei alcorânica vigorando no mundo inteiro, ao lado do caixão do presidente da Venezuela, tendo a poucos metros a imagem de Cristo na cruz, símbolo supremo de uma religião que Mahmud Ahmadinejad combate com tenaz proselitismo.

Ironia das ironias. Um assumido marxista, amigo e aliado de todos os comunistas que restam em postos dirigentes no planeta, conseguiu este quase-milagre durante as honras fúnebres que lhe foram prestadas como devoto da mensagem cristã: o fanático que negou o Holocausto, quis riscar Israel do mapa, considerou o 11 de Setembro uma "enorme mentira" e se gaba de não haver homossexuais no Irão prestou homenagem ao amigo Hugo Chávez na Academia Militar, em Caracas, numa cerimónia presidida pelo bispo de San Cristóbal, Mario Moronta, que leu trechos do Evangelho de São João. Segundo relata a imprensa, Ahmadinejad era o líder estrangeiro mais comovido, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara.

Se há fotos que são notícia, por falarem mais que mil discursos, esta é uma delas. "Havendo sido cego, agora vejo" - como se lê precisamente no Evangelho de João.

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Tapam Michelle e deixam o Óscar nu

por Pedro Correia, em 26.02.13

 

A fanática brigada antipecado que domina com mão de ferro o Irão - e tem bons amigos em Portugal - sentiu a pulsação muito acelerada ao vislumbrar o generoso decote de Michelle Obama na noite da distribuição dos Óscares. Como se já não lhes bastasse ver Argo - uma longa-metragem que denuncia sem pudores a ditadura islâmica - conquistar o Óscar de melhor filme.

Num país onde as mulheres continuam a ser severamente reprimidas a pretexto da manutenção da pureza islâmica, os censores de serviço não tardaram a obedecer aos ditames dos aiatolás, cobrindo a primeira dama norte-americana com tecido photoshopado, em prol dos bons costumes, como se pode perceber na imagem da direita - a que passou nos televisores de Teerão e arredores.

Mas podia ser pior: escapou ao rigor da teocracia iraniana o pecaminoso cabelo de Michelle, que noutros tempos só por lá surgiria abrigado sob um véu igualmente tecido pela censura.

Fica-me uma pequena dúvida: porque será que os censores se esqueceram também de cobrir com um pudico paninho o próprio Óscar, estatueta de um homem nu?

 

Também aqui

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Irão diz que lançou macaco para o espaço.

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Ameaças

por Helena Sacadura Cabral, em 20.02.12

 

O Irão ameaçou hoje, segunda-feira, deixar de fornecer petróleo a vários países europeus, incluindo Portugal, caso a Europa prossiga as "acções hostis" contra o país, iniciadas pelo embargo da União Europeia...

 

Confirma-se, assim, a inteligência e oportunidade da medida tomada pela União Europeia!

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Não se brinca com o fogo.

por Luís Menezes Leitão, em 29.01.12

Há dias escrevi aqui sobre o disparate que representa a União Europeia lançar um embargo petrolífero ao Irão quando os seus membros em situação mais complicada, como a Grécia, França e Itália, estão absolutamente dependentes do petróleo iraniano. Parece, no entanto, que a Baronesa Catherine Ashton que, por escolha não se sabe de quem, dirige brilhantemente a política externa europeia, achava que depois de anunciar o embargo o conseguia realizar a prazo ou às pinguinhas, sem que o Irão reagisse. Mas o Irão acaba de demonstrar que está disposto a subir a parada neste jogo de poker que lhe propõem e ameaça cortar o petróleo à Europa já na próxima semana. A União Europeia vai por isso confrontar-se de imediato com um choque petrolífero a somar aos inúmeros sarilhos em que está envolvida. Eu só me pergunto como é que é possível termos tanta

 incompetência e falta de sentido da realidade à frente dos destinos da União Europeia. Porque o que os líderes europeus andam presentemente a fazer chama-se brincar com o fogo.

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Uma ideia genial!

por Luís Menezes Leitão, em 23.01.12

 

De facto, o que a União Europeia neste momento realmente precisava era de um embargo petrolífero ao Irão. No mesmo dia em que Christine Lagarde avisa a União Europeia para ter cuidado, pois a crise do euro pode significar uma nova Grande Depressão, nada melhor para apimentar ainda mais a coisa que criar um novo choque petrolífero, fazendo o preço dos combustíveis disparar ainda mais. E como a Espanha e a Itália estão em risco de precisar de uma ajuda externa que ninguém lhes pode dar, não há melhor que retirar-lhes desde já o acesso ao seu tradicional fornecedor de petróleo, forçando-as a procurar alternativas seguramente mais caras. Não sei quem foi o autor da ideia, mas ela merece desde já o prémio do disparate do ano ou, se calhar, do século.

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Ah bom, enforcada seria justo!

por José António Abreu, em 26.12.11

E pensar que ainda há quem acuse o sistema judicial iraniano de não ser justo nem compassivo ao tratar de casos de adultério feminino...

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De Tunes a Teerão

por Pedro Correia, em 21.02.11

A história do ano - deste ano extraordinário que está a ser fértil em acontecimentos à escala mundial - pode ocorrer no Irão. Aguardemos.

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Não acertam uma

por Pedro Correia, em 17.02.11

Andaram eles todos estes dias a gritar que o Irão acabaria por influenciar o Egipto e eis que afinal é a situação no Egipto a ter reflexos no Irão. Raio de azar. Como hão-de eles agora justificar o apoio aos manifestantes anti-Ahmadinejad em Teerão depois de terem escrito o que escreveram sobre os protestos pacíficos que conduziram ao derrube da ditadura no Cairo?

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Todas as ditaduras são más

por Pedro Correia, em 16.02.11

 

Todas as ditaduras são más. A de Cuba, a da Coreia do Norte, a do Zimbábue, a do Irão - e a que acaba de ser derrubada no Egipto. Se amanhã a ditadura iraniana caísse, seria um motivo de alegria e de congratulação para todos os democratas. Como o é hoje a queda da ditadura egípcia. Não podemos ser democratas até metade da bacia do Mediterrâneo e 'compreender' a ditadura na outra metade.

Certos povos e certas culturas não estão preparados para a democracia? Esse foi o argumento invocado durante quase meio século por Salazar para justificar a ditadura portuguesa. Simetricamente, invocou-se esse argumento para justificar a ditadura soviética. Afinal, mal ou bem, Portugal e a Rússia vivem hoje em democracia, que segundo Churchill é o pior dos sistemas excepto os outros todos.
E não me digam, por favor, que é impossível instituir um sistema de governo democrático nos países islâmicos, por estes dias varridos por ventos de liberdade. Que é a Indonésia senão um país islâmico - por sinal o maior país islâmico do mundo?

 

Imagem: protestos antigovernamentais em Teerão (Junho de 2009)

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Egipto: o que escreve Vargas Llosa

por Pedro Correia, em 14.02.11

 

 

Uma pequena multidão de comentadores domésticos continua a dirigir farpas aos movimentos pró-democracia nos países árabes, chorando a queda dos ditadores Ben Ali e Mubarak. Neste desfile, Alberto Gonçalves não podia faltar à chamada. Lá vem ele, no DN, juntar-se ao coro: "Após a queda de Mubarak, as odes dos jornalistas à alegria do povo e as invectivas aos 'cínicos' que não a partilham resultam de óptimas intenções, mas de péssima memória. A História recente ensina que a felicidade de certos transtornados religiosos tem um preço: a nossa."

Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos. Nessa convicção, Gonçalves vergasta os repórteres que têm relatado o que testemunham no Egipto: "Se calhar, os jornalistas confundem o seu ofício com a repetição de clichés, na convicção um bocadinho infantil de que qualquer protesto público contra uma ditadura acarinha valores opostos aos ditatoriais."

Não sei se entre esses jornalistas que tanto enojam o colunista do DN se inclui John Simpson, o prestigiado editor de assuntos internacionais da BBC, que escreve do Cairo sem a menor dúvida: "A deposição do presidente Hosni Mubarak é tão significativa como o colapso do bloco soviético na Europa de Leste em 1989." Um cliché, diria certamente Alberto Gonçalves, talvez saudoso daqueles tranquilos tempos em que o Muro de Berlim se erguia como fronteira natural à expansão da democracia. E o que dirá este sociólogo do mais recente artigo de Mario Vargas Llosa publicado no El País, precisamente sobre os ventos da liberdade que percorrem o Magrebe e o Médio Oriente? "O Ocidente liberal e democrático deveria celebrar este facto como uma extraordinária confirmação da vigência universal dos valores que representa a cultura da liberdade e dirigir todo o seu apoio aos povos árabes neste momento da sua luta contra os tiranos»,  sublinha o Nobel da Literatura-2010.

Felizmente Simpson e Vargas Llosa têm vistas menos curtas do que a agremiação de admiradores portugueses de Mubarak. Como nada acontece por acaso, é precisamente do Irão que nos chegam hoje notícias de corajosos levantamentos populares contra a ditadura, na linha das impressionantes manifestações de Junho de 2009. É óbvio o efeito de contágio dos acontecimentos da Tunísia e do Egipto. Perante tanta "agitação", os cínicos de serviço por cá, tal como os aiatolas por lá, devem estremecer de horror.

 

Imagem: manifestação contra a ditadura iraniana

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Teerão sem motivos para sorrir

por Pedro Correia, em 12.02.11

 

 

Por estes dias, algumas Cassandras de turno têm atrasado o calendário 32 anos para apontarem um dedo cheio de suspeições ao movimento popular egípcio. Lembrando que a chamada revolução islâmica que derrubou o xá do Irão em 1979 também prometia muito mas terminou da pior maneira, com a instalação de uma ditadura ainda mais feroz. Por que motivo nenhum outro exemplo de uma revolução falhada é invocado por estes dias? Talvez porque não haja mais nenhum para mostrar. Nos últimos 40 anos, dezenas de ditaduras deram lugar a sistemas democráticos nos mais diversos pontos do planeta – de Portugal às Filipinas, da Polónia a Moçambique, da Rússia ao Brasil – sem que nenhum vaticínio catastrofista se concretizasse. Caiu o Muro de Berlim, foi desmantelado o apartheid na África do Sul, as tiranias de caserna foram substituídas por estados de direito na América Latina, Timor-Leste alcançou enfim a liberdade. Sem convulsões, sem retrocessos históricos, sem o cumprimento das habituais promessas negras dos profetas da desgraça. No Irão, de resto, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.

 

Publicado no DN

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Uma chapada em Ahmadinejad (a sério!)

por Rui Rocha, em 30.12.10

O El País divulgou hoje mais um wikicoiso. Este é especialmente saboroso. Algum tempo depois do pico de agitação da chamada Revolução Verde no Irão, a questão da segurança interna do país foi discutida no Conselho Supremo da Segurança Nacional iraniano. Perante uma intenção de alguma abertura do regime manifestada por Ahmadinejad (uau!), o Chefe da Guarda Revolucionária terá dado uma bofetada ao pequeno líder. É claro que foi uma chapada pelas piores razões. O autor do acto manifestou assim a sua repulsa por qualquer fresta de alívio da mão-de-ferro do regime. É claro também que o Irão bloqueou já a página internet do El País. Mas, a imagem fica. E vale mil palavras. Eu cá, que não sou de violências, também lhe dava um calduço.

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Em Teerão: luzes, câmara... condenação

por Rui Rocha, em 23.12.10

Jafar Panhai (na foto) é um cineasta iraniano. Foi preso pelo regime de Teerão em Fevereiro deste ano. Sob a acusação de rodar um filme sem autorização (sic) e de incitar os protestos oposicionistas com a sua obra. Há um par de dias foi conhecida a decisão de condenação a 6 anos de prisão e de 20 anos de interdição de qualquer actividade cinematográfica. Na mesma altura, foi igualmente condenado Mohammad Rassoulof que com ele colaborava.

O cineasta, já premiado em Cannes e Veneza tem, para além de talento indiscutível, hábitos nada recomendáveis em certas paragens onde o iluminismo das sombras é de tal forma intenso que ofusca: o de pensar pela sua cabeça e o de exteriorizar o que pensa. Na verdade, Jafar Panhai apoiou o candidato da oposição ao regime nas últimas eleições presidenciais e manifestou publicamente a sua posição política. Estes são alguns dos argumentos da defesa que apresentou ao Tribunal:

 - "I do not comprehend the charge of obscenity directed at the classics of film history, nor do I understand the crime I am accused of,"

- "If these charges are true, you are putting not only us on trial but the socially conscious, humanistic and artistic Iranian cinema as well,"

- "My case is a perfect example of being punished before committing a crime. You are putting me on trial for making a film that, at the time of our arrest, was only 30 percent shot,".

A condenação de Panahi por Delito de Opinião confirma, se necessário fosse, a obscenidade de um regime incapaz de conviver com os princípios mínimos da decência. Para além disso, priva-nos do contacto com uma sociedade iraniana que, para lá da cortina de ferro do fundamentalismo teocrático, se apresentava em alguns filmes de Panahi com modos de vida simples que deixavam imagens de simpatia  e de gente comum. Isto porque os filmes de Panahi sempre foram retratos sociológicos e nunca questionaram de forma directa o poder político ou a religião. Trata-se, pois, de mais uma cena de barbárie rodada em Teerão. Perante factos como este, todas as tentativas de branquear o regime que os encena são filmes. Da pior qualidade.

* o texto integral da defesa de Panahi pode encontrar-se aqui (em inglês).

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É preciso ter calma

por Pedro Correia, em 01.09.10

Parece que andam aí umas almas muito alvoroçadas por haver quem registe presenças e ausências numa manifestação. Gostaria de tranquilizá-las: isso é comum fazer-se em qualquer manifestação - e acreditem que percebo alguma coisa desta matéria. Recordo-me, por exemplo, de o DN ter publicado na capa a fotografia da mulher de um destacado dirigente socialista numa manifestação de professores contra o Governo. É um facto tão relevante como a ausência, numa manifestação pelos direitos humanos, de pessoas conotadas com partidos que fazem profissão de fé "humanista".

Espero sinceramente que este meu testemunho sirva para que tais almas não se inquietem com tão pouco e possam enfim preocupar-se com coisas realmente importantes. O desprezo pelo direito à vida na República Islâmica do Irão, por exemplo. Ainda não lhes ouvi uma palavrinha sobre o assunto.

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Saber dizer "não" em vez de um vulgar "talvez"

por Pedro Correia, em 29.08.10

 

Num mundo dominado por incertezas, onde tantas vezes escutamos a palavra "talvez", há que saber também dizer não. Com toda a clareza. Há quem se preocupe em cultivar adversativas à la carte, acrescentando um “mas” justificativo das mais brutais agressões dos direitos humanos. Em nome do respeito pelas diferenças culturais, relativizam-se atropelos de toda a espécie. Em nome de afinidades políticas ou cartilhas ideológicas, absolve-se num quadrante o crime que se denuncia noutro.
As indignações selectivas retiram autoridade moral a quem se dedica a esta prática nada recomendável. Como criticar retrospectivamente a ditadura salazarista, que organizava eleições fraudulentas e perseguia opositores políticos, enquanto se aplaudem práticas do mesmo género no mundo contemporâneo em países como o Irão, onde as presidenciais de 2009 decorreram num inaceitável contexto de coacção, violência e medo? De que vale enaltecer uma figura como a do general Humberto Delgado, com a sua impetuosidade heróica, enquanto se reservam palavras de compreensão ou mesmo de elogio aos salazares de barba e turbante que transformaram o Irão num cenário de pesadelo? De que serve hoje denunciar os desmandos da ditadura do xá derrubado em 1979 enquanto se evita qualquer crítica ao actual regime teocrático de Teerão que destina a tantos dos seus cidadãos, como opções exclusivas, o exílio ou a "justiça islâmica", com o seu brutal cortejo de condenações à morte?
Há realidades inaceitáveis, que não podem ser justificadas por quadrantes geográficos, crenças religiosas ou matizes culturais. A prática da escravatura é inaceitável. A mutilação genital feminina é inaceitável. As lapidações são inaceitáveis. E os regimes que praticam ou toleram atrocidades deste tipo são igualmente condenáveis. Sem ambiguidades, sem adversativas. Sem a palavra "talvez".

 

Publicado hoje no DN

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