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Delito de Opinião

Uma enorme falta de Xá

Paulo Sousa, 09.01.26

Depois da captura de Maduro e do afastamento da Venezuela do eixo anti-Ocidente, as atenções poderiam virar-se para o que se passa no Irão. Os noticiários não lhe estão a dar muita cobertura, mas isso não é o que acontece nas mal-amadas redes sociais.

Os aiatolas estão mais fracos do que nunca. Depois das tremendas derrotas dos seus vários braços armados, que designavam por Eixo da Resistência, onde se incluía o regime sírio, o Hezbolah no sul do Líbano, o Hamas em Gaza, a já referida Venezuela, a que se pode juntar o isolamento logístico com a Rússia (depois do imprevisível acordo entre a Arménia e o Azerbaijão), tudo se encaminha para que a elite iraniana já esteja a tirar bilhetes de avião para Moscovo, outra capital que dia após dia vai ficando mais isolada.

As mulheres iranianas, amputadas há muito dos seus legítimos direitos, não merecem a simpatia das ditas feministas que, por cá, tentam erradicar a palavra MULHER do léxico comum, para a substituírem por "pessoas com útero" e outras irracionais irracionalidades.

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O herdeiro do Xá deposto pela Revolução Islâmica em 1979 é o rosto do poder que se segue na Pérsia. A bandeira do Leão e o Sol, Shir-o Khorshid, voltou a ser agitada nos céus iranianos e o seu regresso como símbolo oficial parece ser apenas uma questão de tempo. 

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O impulso pela liberdade continua a ser forte o suficiente para motivar o ser humano a arriscar a vida contra os tiranos. Apesar dos prognósticos pessimistas, o ano 2026 pode vir a ser um ano histórico para a liberdade no mundo.

 

PS: Para os bandidos de Cuba, o ano de 2026 também não está a correr nada bem. Esperemos que a ruptura também aí se concretize. Parece mesmo que estamos a viver um ano memorável.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 10.10.25

«A cumplicidade da Rússia com o Irão não é um assunto para o qual possamos olhar descontraidamente. São dois regimes que integram vários aspectos de barbarismo, não só no que envolve o respeito pelos direitos humanos, como nos próprios costumes, e envolvimento da religião. É curioso como tanta gente que passa a vida a lembrar-nos que somos um país laico pouco ou nada tenha a dizer sobre o Irão ou a Rússia, onde não só não existe laicidade como a própria religião se coloca ao serviço do Estado.»

Henrique Monteiro, no Expresso

As rémoras dos desgraçados

Paulo Sousa, 07.10.25

Como aqui disse há dias, existe uma enorme distância entre o que os apoiantes da causa palestiniana imaginam para esse país e o que este possa vir a ser na realidade. Mas, como acontece frequentemente, a projecção de um desejo turva a capacidade de análise e até ajuda a fingir que não se vê quem são ou o que fazem os demais parceiros de barricada.

Nesse postal referi o paralelo com o que se passou em 1979, durante a Revolução Islâmica no Irão. Antes de saber o que viria a ser o regime teocrático dos aiatolas, o intelectual de esquerda Michel Foucault afirmava que essa revolução era “a primeira grande insurreição contra os sistemas de poder globalizados”. Afirmou que o Islão político poderia expressar o desejo de uma forma diferente de modernidade, uma que não fosse simplesmente cópia do Ocidente e chamou a este movimento, que se formara, uma “espiritualidade política”, que revelava “a possibilidade de uma política diferente da que conhecemos no Ocidente”. O radar da esquerda está sempre sintonizado para algo que surja e que seja contrário ao mundo onde vive. Para alguns, como Foucault, o marxismo ortodoxo era demasiado autoritário e por isso o Irão Imaginário de então encaixava como uma luva no seu caderno de encargos. Logo depois, esse exotismo e aparente pureza moral do regime teocrático mostrou ao que vinha, os inimigos da revolução passaram a ser arbitrariamente enforcados em locais públicos, os direitos das mulheres regrediram vários séculos, a brutalidade e a violência vulgarizaram-se como ferramenta ao serviço do Estado. Perante isso, Foucault nunca se retractou. Não precisava porque na altura em que disse o que disse, estava cheio de boas intenções. E foram essas mesmas boas intenções, e virtude a rodos, que tripulou a dita flotilha. Se ouvirmos que os clérigos palestinianos pensam sobre as demais causas da colorida tripulação que desde Agosto anda a velejar pelo Mediterrâneo, é fácil encontrar mais paralelos com o caso do Irão Imaginário. 

Posso estar enganado, o que não é invulgar, mas o sucesso do acordo de paz agora proposto por Trump, a verificar-se (o que olhando para o passado da região tem sempre uma forte possibilidade de não acontecer), não será bem visto por essa esquerda que agora interrompe comboios e grafita monumentos. Para começar porque a paz, a paz possível, seria sempre e inequivocamente um sucesso político de Trump, personagem que representa tudo o que eles abominam. Por todos os motivos e mais esse, digo eu, seria uma coisa bonita de se ver. Longe de simpatizar com o actual Presidente dos EUA, juntar-me-ia, e sem vacilar, aos que aplaudiriam tal êxito alcançado. Uma paz viável deixaria a essa esquerda aziada também por assim perderem outra das suas bandeiras. O wokismo já mostrou mais saúde e agora uma paz alcançada por Trump seria outro duro golpe. Lá teriam de se voltar a justificar com as suas permanentes boas intenções e lá teriam de ir desencantar outros oprimidos quaisquer para, quais rémoras, se colarem a eles.

Muito provavelmente estarei a pronunciar-me demasiado cedo, mas, a confirmar-se, será caso para dizer que quando os "bem intencionados", mesmo sem o admitirem, se arrepiam com uma possibilidade de paz, é nesse momento que o diabo morde a própria cauda e o círculo se fecha sobre si próprio. Aguardemos.

A sinistra tirania dos aiatolas

Pedro Correia, 26.06.25

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O regime totalitário do Irão condena à morte por enforcamento quase mil pessoas por ano. Transformando cada execução num obsceno espectáculo público para gáudio dos instintos mais primários. É o segundo país do mundo com maior número de execuções "legais", logo a seguir à China.

Estas condenações à pena capital ocorrem pelos mais diversos motivos: rebeldia política, activismo dos direitos humanos, ateísmo militante, hábitos sexuais vilipendiados no Alcorão, "cosmopolitismo ocidental". Enquanto as mulheres - todas as mulheres - padecem numa subcidadania com resquícios medievais. Ao ponto de serem torturadas ou até mortas por se atreverem a sair à rua com parte do cabelo descoberto.

Há hoje um divórcio total entre a tirania dos aiatolas, vigente há 46 anos, e as gerações mais jovens (15-40 anos), que representam 55% da população.

 

Não concebo que alguém no Ocidente defenda esse regime sinistro, que mais ninguém no próprio Médio Oriente suporta e parece ameaçado de extinção, a curto prazo, por motivos óbvios.

Recordo que o extermínio de Israel está previsto nas bases constitucionais da chamada "República Islâmica do Irão". É uma declaração de guerra permanente, totalmente inaceitável. Uma ameaça à paz a tempo inteiro que não pode ser ignorada.

 

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Ele não acerta uma

Pedro Correia, 24.06.25

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Agostinho Costa, o famigerado major-general pró-Moscovo, não acerta uma. Não apenas sobre a agressão de Putin à Ucrânia: anda ele, por exemplo, a proclamar desde o Verão de 2024 a iminente “conquista” de Pokrovsk pela tropa do Kremlin e os factos teimam em contrariar-lhe os desejos. O raio da cidade ucraniana nunca mais cai.

Muda o cenário do conflito, mas a sua capacidade de chutar para fora, sem acertar no alvo, continua igual. Desta vez foi a propósito da “operação militar especial” de Israel no Irão, com apoio dos EUA. Na CNN Portugal, lá estava ele a garantir que se tratava de mera fantasia noticiosa. «Jogos florais.»

Foi a 12 de Junho, já perto da meia-noite. Tendo a seu lado no estúdio Diana Soller, cuja sabedoria muito admiro e cujo estoicismo aplaudo. Não é fácil ouvir tanto dislate daquele parceiro de painel, semana após semana.

 

O que disse Costa nessa malfadada noite de Santo António?

«Tudo indica que isto [iminente ataque de Israel ao Irão] não passa de uma campanha mediática. Porque os ataques não se publicitam: fazem-se.»

(Pertinente alerta de Diana Soller: «A ideia de um ataque não deve ser inteiramente posta fora das hipóteses.»)

«(Indiferente ao alerta) Para se ter um ataque desta natureza é preciso capacidade para atacar infraestruturas que estão colocadas à profundidade de 700 metros em montanhas.»

(Outra pertinente advertência de Diana Soller: «Desde 7 de Outubro [de 2023] Netanyahu considera que o ambiente no Médio Oriente é insustentável e Israel, portanto, está disposto a ir mais longe.»)

«(Indiferente à advertência) Todo este burburinho, todo este alvoroço… surge porque a vida não está a correr mesmo nada bem a Netanyahu. Começou com o Catargate. E no Knesset o partido de [Avigdor] Lieberman devia ter apresentado uma proposta de dissolução do parlamento… vêm novas eleições, Netanyahu cai e vai direitinho sabemos para onde.»

«Nem Donald Trump pretende qualquer conflito no Médio Oriente nem Israel tem essa capacidade.»

«É a última coisa que Trump quer.»

«Se Israel tentar atacar o Irão, é capaz de se resolver o problema do Médio Oriente com a retaliação do Irão, que apresentou esta semana um míssil com ogiva de quatro toneladas e sabemos para onde está apontado.»

 

(Réplica final, sempre pertinente e já algo impaciente, de Diana Soller: «O senhor está sempre a inventar armas a aparecerem debaixo das pedras nos países dos quais gosta, mas isso não faz com que as armas apareçam nem que o Irão faça desaparecer Israel do mapa. Era o que o Irão gostava e o senhor também, mas isso não vai acontecer, é um cenário completamente irrealista.»)

 

Daí a cerca de duas horas, a realidade confirmava as palavras da especialista em relações internacionais e desmentia em toda a linha a delirante retórica do major-general.

Sem surpresa.

O ataque ao Irão.

Luís Menezes Leitão, 19.06.25

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Tenho idade suficiente para me lembrar da fuga precipitada do Xá do Irão em Janeiro de 1979 com uma revolução islâmica a explodir no país, que logo a seguir assistiu a uma tomada de reféns na Embaixada dos EUA, um verdadeiro acto de guerra e uma humilhação para a América, que levou à não reeleição de Carter.

Não me espanta por isso que, na sua imensa vaidade, Trump queira agora vingar a humilhação então sofrida e ajustar contas com o Irão, derrubando o seu regime.

Não acredito, porém, em qualquer regresso da monarquia ao Irão. Como disse a Rainha D. Amélia a D. Manuel II, quando a família real portuguesa partiu da Ericeira, do exílio não se regressa. Na verdade, mais valia a família real iraniana ter adoptado em 1979 a posição da Imperatriz Teodora, que disse ao Imperador Justiniano, que pretendia fugir perante uma revolta que então grassava no Império Bizantino: "a púrpura (o manto dos Imperadores) é uma linda mortalha".

Este já não oprime mais ninguém

Pedro Correia, 10.12.24

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Aquilo que se convencionou chamar Síria era desde 2011 uma ficção político-jurídica há muito fragmentada em vários territórios com diversas esferas de influência. Era também uma falsa república: funcionava como monarquia absoluta, corrupta e opressora. Com a família Assad no poder desde 1971 - primeiro Hafez (1971-2000), depois o filho mais novo, Bachar, após o falecimento do primogénito. Ambos elegeram a violência extrema contra a população e a implacável perseguição aos opositores como instrumento político.

Este bárbaro regime sobreviveu por um fio à vaga das chamadas "Primaveras árabes" de 2011. Caídos os déspotas da Tunísia, do Egipto, da Líbia e do Iémene, só Assad júnior se aguentou, mantido por conveniência da Rússia, que fez daquela proto-colónia um posto geoestratégico garantindo-lhe um dos cinco ou seis votos incondicionais que Moscovo sempre granjeou em sua defesa e louvor na Assembleia Geral da ONU. 

Assad funcionou como fantoche útil de Moscovo até a férrea resistência ucraniana forçar Vladimir Putin a concentrar ali o esforço de guerra, desviando tropa e logística militar para defender Kursk e atacar no Donbass. A sua queda não causa apenas danos políticos e reputacionais à Rússia: também a teocracia de Teerão acaba de sofrer dura derrota ao ver este fiel aliado derrubado pela insurreição popular. Caiu de podre, sem nenhum sírio a defendê-lo na hora da derrocada.

O torcionário deposto serviu o Kremlin enquanto lá estava, mas perdeu utilidade. Dar-lhe guarida por "motivos humanitários", como diz Putin, é retórica vazia de conteúdo. O ditador russo ignora o significado do termo humanitário e manda assassinar com a naturalidade de um capo mafioso. Se quer preservar a pele no exilio de Moscovo, Assad deve abster-se de tomar chá e manfter-se afastado de varandas ou janelas.

Inaceitável símbolo de submissão

Pedro Correia, 16.04.24

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No Irão, milhões de mulheres - sobretudo jovens - protestam contra a camarilha de clérigos que as forçam a sair à rua de cabeça tapada com o véu islâmico, o hijabe. É-lhes negado algo irrestrito entre nós: passear de cabelo descoberto.

Há sempre alguém que diz não. Mas aquelas que o fazem arriscam severas medidas punitivas, incluindo chibatadas e prisão até dois meses, segundo prevê o código penal decretado pela teocracia de Teerão. Várias têm sido assassinadas pelos esbirros da famigerada Polícia da Moralidade. Foi o que aconteceu em Setembro de 2022 à malograda curda iraniana Jina Amin, distinguida a título póstumo com o Prémio Sakharov, do Parlamento Europeu.

Por tudo isto, chocou-me ver ontem uma jornalista portuguesa, ao serviço de um canal televisivo, deslocar-se à legação diplomática do Irão em Lisboa de hijabe no cabelo para entrevistar o embaixador. Presumo que lhe tenha sido ditada essa condição para chegar à fala com o representante daquele regime totalitário. Se assim foi, devia ter recusado de imediato. Em solidariedade com as vítimas da brutal repressão imposta por uma clique de velhos fanáticos que odeiam as mulheres. Torturam-nas, violam-nas, matam-nas. Como se não fossem gente. Como se não fossem ninguém.

Anda tudo trocado. Elas, que são obrigadas a usar aquilo, rebelam-se dignamente contra tal dogma. As de cá, livres como o vento, aceitam envergar aquele inaceitável símbolo de submissão sem que nada as force a isso. Nas mesmas televisões que já nos falam até à exaustão do 25 de Abril mas se esquecem sempre de assinalar quais são os países onde nenhum 25 de Abril chegou ainda.

Quando um véu vale mais do que uma vida

Pedro Correia, 20.10.23

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O Hamas é financiado, treinado e armado pelo Irão, Estado teocrático e homicida.

Inimigo n.º 1 do Ocidente.

Inimigo n.º 1 do seu próprio povo.

Capaz de liquidar jovens indefesas, como a curda Jina Mahsa Amina, ontem justamente distinguida (a título póstumo) com o Prémio Sakharov pelo Parlamento Europeu. Morta após três dias de cruel detenção pela polícia religiosa por se ter alegadamente atrevido a sair à rua com o véu islâmico mal posto.

É indispensável que as jovens portuguesas de 22 anos (idade da infeliz Jina, assassinada em Setembro de 2022) saibam que ainda existem ideologias totalitárias prontas a pôr um pedaço de tecido acima da vida humana.

Raras vezes um prémio foi tão merecido e comovente como este, extensivo ao movimento de libertação das mulheres iranianas. O Parlamento Europeu - que nele honra a prestigiada memória de Andrei Sakharov, outra vítima do totalitarismo - volta a ser digno de elogio.

 

Leitura complementar:

- Os barbudos que odeiam as mulheres (25 de Setembro de 2022)

- Onde estão as feministas? (18 de Outubro de 2022)

Ainda o Dia Internacional da Mulher

Pedro Correia, 09.03.23

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No Afeganistão:

O brutal regime de Cabul discrimina as mulheres de todas as idades, começando pelas mais jovens, impedidas de frequentar o ensino secundário e universitário. Os casamentos forçados e as violações são frequentes no Afeganistão, onde a camarilha talibã tomou o poder em Agosto de 2021. Após 20 anos de inédita liberdade neste país, as mulheres voltaram a ser banidas da política: até esse Verão, preenchiam 27% dos assentos parlamentares. Hoje não são autorizadas a usar transportes públicos excepto na companhia de um homem da sua família. Em regra, só podem sair de casa devido a assuntos urgentes, mas terão de usar burca. Activistas dos direitos das mulheres são sistematicamente detidas e agredidas nas esquadras policiais. O Ministério dos Assuntos Femininos deu lugar ao Ministério da Propagação da Virtude e da Prevenção do Vício.

 

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No Irão:

O brutal regime de Teerão discrimina as mulheres, tratando-as como cidadãs de segunda classe. Permite a violência contra mulheres e tolera a exploração sexual de meninas. Prende, multa e açoita mulheres por aparecerem em público sem cobrir os cabelos com o véu islâmico. Reprime ferozmente as activistas pelos direitos das mulheres. Pune desproporcionalmente as mulheres no sistema judicial. Nega às mulheres todas as oportunidades políticas e económicas. Favorece os homens em detrimento das mulheres nas lei de família e sucessões. As mulheres que forem apanhadas de cabelo descoberto e roupas consideradas "imorais" podem ser presas durante dois meses pela Polícia da Moralidade criada após a implantação da ditadura teocrática, em 1979. Em alternativa, o código penal iraniano prevê que recebam «até chicotadas».

Rushdie Comes Again

jpt, 08.02.23

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(Fotografia de Richard Burbridge)

Na The New Yorker um grande artigo - "The Defiance of Salman Rushdie", escrito por David Remnick - sobre o regresso de Rushdie, debilitado mas recuperado do fanático atentado que sofreu há meses.... Encontro-o na página da revista no Twitter, na qual a este propósito abundam os comentários pejados da sanha assassina dos fascistas idólatras da superstição, uma coisa pavorosa.
 
(Uma viscosa aberração que é também "muito cá de casa". Pois não propôs há tão pouco tempo o PS de Costa um candidato ao Tribunal Constitucional, antigo governante de Guterres, íntimo correligionário de Sócrates, que como deputado dizia no parlamento serem os terroristas islamitas iguais aos artistas ditos iconoclastas - e isso diante do silêncio geringôncico, que para esse indivíduo não houve escrutínio"woke" nem "causas" libertárias?).

Irão e China em luta pela liberdade

Pedro Correia, 05.12.22

«A palavra "revolucionário" só pode aplicar-se a revoluções cujo objectivo é a liberdade.»

Hannah Arendt

 

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Foi preciso morrerem pelo menos 500 pessoas - incluindo muitas crianças - nos protestos iniciados em 16 de Setembro no Irão devido à fúria repressora da ditadura teocrática que ali vigora desde 1979, para os aiatolás recuarem, atemorizados pela imparável vaga de manifestações populares. O regime de Teerão acaba de anunciar a dissolução da sinistra "polícia da moralidade" que perseguia, torturava e matava mulheres só por não cobrirem todo o cabelo com o véu islâmico. É o princípio do fim da tirania, graças à imensa coragem cívica de largos milhares de jovens que correm o risco de ser condenados à morte pelo simples facto de reclamarem direitos, liberdades e garantias considerados banais em diversas outras parcelas do globo - incluindo, felizmente, em Portugal.

 

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Também em Pequim a ditadura está em recuo. Pressionada igualmente por gigantescos protestos em várias cidades e vilas do país. Da parte de gente que vai perdendo o medo e ousa desafiar os mecanismos de repressão do estado policial chinês, controlado desde 1949 em monopólio absoluto pelo Partido Comunista. Destituídos dos mais básicos direitos, incluindo o direito de sair de casa e de circular na rua a pretexto de um "controlo sanitário" que dura há quase dois anos, os chineses atrevem-se a dizer "basta". Muitos já exigem não apenas o fim das restrições impostas a pretexto do combate ao covid-19 mas a demissão do líder supremo, Xi Jinping. Acossado pelos protestos, o regime começou a suavizar as normas sanitárias. Enquanto a proscrita palavra "liberdade" vai ecoando cada vez com mais força em praças e avenidas por multidões de jovens

Catar 2 - Irão - Inglaterra

jpt, 21.11.22

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No final do jogo estava 2-6. Mas estes tipos ganharam, e por muitos. (Sim, sei que foucauldianos, decoloniais, caçadores de epistemicidas, neo-feministas, abissófilos, racialistas e racializados, no fundo "@s de todo mundo, uni-vos" não lhes ligam muito. Mas, já agora, os outros também não!).

Onde estão as feministas?

Pedro Correia, 18.10.22

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Fez anteontem um mês que Mahsa Amani, jovem curda 22 anos, foi morta num estabelecimento prisional iraniano. Havia sido detida pela imoral Polícia da Moralidade, acusada de um enorme pecado: não tinha o véu a cobrir-lhe parte do cabelo.

É assim que as mulheres são tratadas no Irão dos nossos dias. Como se ali vivessem mergulhadas nas trevas medievais. 

Mahsa não foi a primeira, nem a décima, nem a centésima vítima da repressão do totalitarismo islâmico que vigora em Teerão desde 1979, com a complacência de muitas bempensâncias do Ocidente. O simples facto de os trogloditas iranianos serem anti-americanos primários é quanto basta para lhes merecer simpatias junto de círculos académicos e jornalísticos na Europa Ocidental - incluindo Portugal

 

Acontece que aquele cobarde homicídio funcionou como um rastilho de revolta que se revela torrencial.

Qual a diferença desta vez? Vem resumida num excelente título da BBC: «As gerações mais jovens estão a iniciar uma revolução.»

Sem temor reverencial face aos aiatolás barbudos que odeiam as mulheres

 

Os esbirros do regime pensaram que tudo se resolveria como sempre: com repressão impiedosa contra quem se atreveu a reclamar nas ruas. Enganaram-se: os protestos alastraram a todas as províncias do Irão. O simples facto de uma mulher ousar tirar o véu que os clérigos lhe impõem a todo o momento no espaço público já é uma forma de dizer não.

Como escreveu o Guardian, algo nunca visto estava a concretizar-se: iranianos de várias idades e condições sociais começaram a arriscar tudo pelos protestos.

Os gritos de revolta inicial contra a brutal teocracia misógina transformaram-se num imparável coro contra a tirania. Em vaga espontânea e crescente, provocando amplos movimentos grevistas nas indústrias de extracção de petróleo e gás natural, fundamentais para o regime. Sem medo. Apesar da impiedosa reacção da camarilha que ocupa sem legitimidade o poder em Teerão há 43 anos. E que já provocou pelo menos duzentas vítimas mortais - incluindo 23 menores.

 

Enquanto isto acontece, e suscita manchetes em todo o mundo, surpreendo-me com o silêncio cúmplice de tantas vozes em Portugal.

Onde estão as nossas feministas?

Por que motivo tantas mulheres com acesso às tribunas de opinião nos espaços mediáticos portugueses, designadamente nos jornais e nas televisões, ainda não esboçaram sequer um sussurro de protesto contra a vaga repressiva que se abate sobre as principais vítimas da violência governamental no Irão, que são mulheres também?

Algo vergonhoso - e que as desacredita para sempre. Até para as indignações selectivas devia haver limites, mas pelos vistos não há.

Com o Irão?

jpt, 28.09.22

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Há dias aqui deixei ligação à minha análise do Chéquia-Portugal (0-4): na qual me limitei a expressar a minha estupefacção pela ausência de uma acção simbólica dos jogadores em solidariedade para com Mahsa Amini, a iraniana assassinada pela polícia por não cobrir devidamente os cabelos, e para com os inúmeros iranianos entretanto assassinados nos protestos subsequentes. Tal como referi algum espanto pelo silêncio do jornal da SONAE, carregado de identitaristas activistas, bem como dos sempre tão solidários em causas anti-americanas BE e LIVRE, que não se aprestaram à mobilização de arruadas contra estes factos. Em parte é compreensível, consabida que é a soez hipocrisia destes esquerdistas de "campus" e avenças... Mas o mesmo não se esperaria dos nossos jogadores, lestos a ajoelhar-se por uma morte masculina americana, mas agora prontos a encolher os ombros diante de inúmeras mortes iranianas. Por isso titulei o postal com um "O Futebol Não É Para Mulheres!".
 
Fica agora a notícia que os jogadores da selecção do Irão têm a coragem de afrontar a sua vil ditadura, simbolicamente usando casacos negros sobre o equipamento. Está dado o mote - não a@s esquerdalh@s lus@s, que continuam algo silenciosos face a estas ocorrências, encerrados na sua vilania de prosápia identitarista. Mas sim aos jogadores da bola... 

Os barbudos que odeiam as mulheres

Pedro Correia, 25.09.22

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Teocracia islâmica oprime o Irão há 43 anos

 

O Irão está em pé de guerra. Não contra outro país, mas contra si próprio. Ou antes: o Estado teocrático dos aiatolás declarou guerra ao povo iraniano. Sobretudo às mulheres. Pelo simples facto de serem mulheres. 

Há estados totalitários onde impera o ódio de classe ou o ódio racial. No Irão sob a bota dos clérigos barbudos impera o ódio sexual. Os aiatolás - alvos de tanta tolerância e "compreensão" em círculos bem-pensantes do Ocidente - odeiam as mulheres. E agem em conformidade, exercendo sobre elas uma repressão permanente, que agora suscita um gigantesco levantamento popular neste país sujeito há 43 anos a uma das mais ferozes ditaduras do planeta.

 

Tudo começou no dia 16 com a morte de uma jovem iraniana curda, detida e agredida pela imoral "Polícia da Moralidade" por mostrar parte do cabelo na via pública, algo interdito neste Estado que em 1979 mergulhou nas trevas medievais.

Mahsa Amini, de apenas 22 anos, sucumbiu à violência policial. As suas imagens, já agonizante, indignaram milhões de jovens de ambos os sexos que agora arriscam a vida nas ruas. Revoltam-se contra a brutalidade do totalitarismo islâmico neste país onde nascer mulher é sofrer dupla indignidade.

 

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Mahsa Amini, assassinada aos 22 anos no Irão por «mostrar o cabelo»

 

Os clérigos, assustados com a revolta popular em todas as províncias do país, fizeram aquilo em que mais se especializaram: ordenaram aos esbirros do poder que atirassem a matar. Pelo menos 50 pessoas já tombaram sob as balas assassinas. A tropa está a ser mobilizada para esmagar a rebelião civil, entre apelos públicos da ala mais extremista do regime à execução sumária dos jovens que se atrevem a desafiar o Governo.

Mas a rebelião cívica continua: mulheres sem véu exibem com orgulho o cabelo na via pública, jovens registam imagens que divulgam nas redes sociais apesar de o Governo ter imposto sérias restrições à internet. Nas ruas, a palavra mais escutada é «liberdade».

 

A nova vaga de protestos pode ser afogada em sangue, como aconteceu em 1999 e 2009, às ordens de um regime repugnante, que apenas subsiste pelo aparelho repressivo montado ao longo destas quatro décadas. Detenções ilegais de opositores e a prática de tortura nas prisões tornaram-se banais no Irão, como tem denunciado a Amnistia Internacional.

Estes barbudos que odeiam as mulheres são hoje fortes aliados de Vladimir Putin e da sua corte de oligarcas, algo que faz todo o sentido. Estão bem uns para os outros.

Aquilo do Irão

jpt, 08.01.20

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Não sei o que se passa no Irão/Iraque - e estou certo que não serei o único. Creio que dentro de alguns anos um Oliver Stone mais ou menos o demonstrará, num ritmo mais ou menos trepidante, e com uma visão mais ou menos crítica do sistema americano, e elegendo como herói protagonista e exemplo salvífico um funcionário mais ou menos desalinhado. Trata-se do molde western da (auto)crítica dominante no indústria cinematográfica, de facto seguidora do corberismo de Lampedusa, aquilo mais ou menos do tem que se mudar algo para não se mudar nada ...

Dito tudo isto, e face à iraniofilia que grassa na esquerda portuguesa, muito gostei deste cartoon. O autor é o renomado iraniano Mana Neyestani, há anos exilado em França. É evidente o que o eixo BE-PCP-Livre-PS (MES) dele diz ou diria (se o conhecesse): é um "dissidente", um "agente da Voz da América". 

Os mais novos não se lembrarão desta retórica. Os mais velhos lembram-se, decerto. Dominou durante décadas, de apoio às piores das ditaduras em nome do anti-americanismo e, de facto, da aversão à democracia. Serviu para tudo justificar, para a tantos insultar e perseguir. Continua viçosa, vê-se, pois ""não há nada de novo sob o sol" (Eclesiastes 1:9).

 

Fora a árbitra

Pedro Correia, 20.02.19

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Vejo contínuas referências no discurso informativo corrente à chamada "revolução iraniana", consumada em 1979. Raras vezes numa perspectiva crítica - começando pela terminologia adoptada, induzindo o leitor ou o telespectador a pensar que em Teerão, há 40 anos, se registou um salto qualitativo em vez de uma manifesta regressão social e cultural. O Irão contemporâneo é uma feroz teocracia que prende, tortura, exila, violenta e mata. Mas estes verbos só costumam ser associados, no tal discurso jornalístico corrente, ao regime anterior, o da monarquia derrubada pelos aiatolás e as suas turbas fanatizadas.

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Acabo de saber que a televisão pública do Irão proibiu, em cima da hora, a transmissão do jogo entre o Bayern de Munique e o Augsburgo, referente ao campeonato alemão, porque esta partida era arbitrada por uma mulher. De calções e cabelo solto, contrariando os decretos dos imãs, que continuam a mandar velar cabeças e corpos das iranianas a partir do momento em que deixam de ser crianças: só podem aparecer em público de rosto e mãos a descoberto. 

É a este regime que alguns, por cá, continuam a conceder o epíteto de "revolucionário", por ter derrubado a "tirania do Xá". Como se não tivesse instaurado uma tirania muito pior, com a sua polícia religiosa, o seu vergonhoso cortejo de presos de consciência e o seu veto sistemático à participação das mulheres na vida política, nomeadamente como candidatas às eleições presidenciais.

Afinal, porquê tanta benevolência noticiosa? Apenas porque o Irão é um dos maiores inimigos públicos dos EUA e alguns, possuídos da mais primária ideologia anti-americana, ainda medem o seu posicionamento em função deste critério, decorrente da Guerra Fria. Nada mais absurdo, nada mais anacrónico. E o mais caricato é que muitos destes companheiros de estrada da teocracia iraniana passam o tempo a bater a mão no peito em invocação dos direitos humanos e das liberdades, negando na prática aquilo que apregoam na teoria.