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Delito de Opinião

Neve na minha rua

Cristina Torrão, 09.02.21

Na Alemanha, estamos atolados em neve. Estava a nevar quando me levantei, às sete da manhã, e ainda não parou.

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É frio, mas só cá fora. Resolve-se com agasalhos.

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Em ruas pequenas como a nossa, não há limpa-neves.

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Tem de se andar devagar. Mas não só quando há neve. Moramos numa “rua de brincar” (Spielstraße), as crianças (e os adultos, se quiserem) podem e devem brincar na rua. Têm absoluta prioridade, os carros andam a passo, ou seja, não mais do que 10 km/h, esteja o tempo que estiver.

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Atenção à placa!

Presidenciais (16)

Pedro Correia, 24.01.21

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NO PIOR MOMENTO

Para que não restem dúvidas, a minha objecção a este insensato calendário eleitoral da corrida ao Palácio de Belém - com ou sem pandemia - já há dez anos me levava a escrever isto:

«É absurdo as eleições presidenciais continuarem a realizar-se em meados de Janeiro, o mês mais frio. Sei do que falo: andei na estrada em Janeiro de 2006, acompanhando como jornalista a caravana eleitoral de Manuel Alegre, que se viu impedida de se deslocar a certas regiões - a Bragança, por exemplo - devido a fortes nevões. Um deles deixou-nos bloqueados no Marão: lá tivemos de regressar imprevistamente ao Porto às tantas da noite, com a agenda por cumprir.

São absurdas estas corridas presidenciais com as festas de Natal e de Ano Novo de permeio. Que dispersam as atenções e distanciam os eleitores dos candidatos, fomentando a abstenção. O primeiro calendário eleitoral, em Junho de 1976, fazia bastante mais sentido. E até o segundo, no início de Dezembro, em 1980. Janeiro é que não faz sentido algum.»

 

Palavras publicadas no DELITO DE OPINIÃO a 13 de Janeiro de 2011

O que fizeram os decisores políticos perante este problema, que ultrapassa largamente uma simples questão formal? Nada.

Como de costume em Portugal, a inércia apodera-se do processo de decisão, neutralizando-o. Medidas que noutros quadrantes são resolvidas com rapidez, tendo em vista o combate à abstenção e a aproximação entre eleitos e eleitores, por cá são empurradas com a barriga. Durante anos. E o maior especialista em adiar soluções, como temos visto ao longo destes meses, chama-se António Costa.

 

Chegou mais um processo eleitoral, anunciado com cinco anos de antecedência. O País vive desde Março debaixo de sucessivos estados de emergência, agrilhoado pelo coronavírus que matou mais de mil pessoas só na semana passada. O Governo, como barata tonta, manda-nos ficar em casa em nome do cumprimento dum dever cívico e manda-nos sair de casa em nome do cumprimento doutro dever cívico. Tudo ao mesmo tempo.

Como nada quiseram alterar, mantendo a rigidez do calendário com o fervor de Moisés agarrado às Tábuas da Lei, vivem hoje horas angustiantes. Se a abstenção atingir níveis nunca vistos em Portugal, isto representa o maior descrédito das instituições políticas precisamente quando Costa exerce por inerência as funções de presidente do Conselho da União Europeia. E enfraquece ipso facto a legitimidade do próximo mandato do inquilino de Belém. No pior momento.

Já falta pouco para sabermos. Mas não auguro nada de bom.

Vivemos num mundo meio assim

Paulo Sousa, 11.01.21

Uma vez explicaram-me o ponto óptimo como sendo um valor matemático. Trata-se de um valor em que se conseguem equilibrar duas realidades com comportamentos distintos. Quantas horas demora um operário a abrir um buraco no chão? Se em vez de um, recorrermos a dois operários o buraco será feito mais rapidamente. É óbvio. Mas se aumentarmos repetidamente o número de operários chegará um momento em que nenhum se conseguirá movimentar. Então definir o ponto óptimo deste problema passa por saber até que ponto vale a pena enviar mais operários para que o buraco seja feito mais rapidamente.

Neste conceito existe uma racionalidade que podemos transportar para a nossa vida pessoal, e não só. Faz sentido procurar estes equilíbrios, embora que, em questões pessoais, cada um terá a sua própria equação de valores, estímulos e tolerâncias.

Mas não será esta procura de pontos de equilíbrio, também uma fuga aos factos e às consequências de cada escolha?

Queremos uvas sem grainha, batatas-fritas sem gordura, café sem cafeína, partos sem dor, coca-cola sem açúcar e de caminho acabamos por aceitar que os políticos digam meias-verdades e a acreditar que conseguem equilibrar as contas sem fazer cortes. Uma “leslatura” é um mandato de quatro anos, e em caso de abusos podemos recorrer à “Constuição”. Agora é assim.

No final do ano passado, juntamente com dois amigos, pude regressar à Serra da Estrela. Em meia dúzia de horas subimos pela vertente norte do vale glaciar de Alvoco da Serra até à Torre, e regressamos pela vertente sul. Chegamos ao carro ao anoitecer, o que confirmou que foi um bom plano.

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No primeiro quilómetro o gelo quase não existia, mas em poucas centenas de metros tudo mudou. Longe de se tratar de uma escalada, ganham-se mil metros de altitude em menos de três quilómetros de deslocação. Não podemos dizer que o declive seja uma meia inclinação, e o ponto de equilíbrio passa por ficar em casa. Ali a realidade é tão inteira como a manhã do dia 25 no poema de Sophia. Ali não há meias medidas, nem meias verdades, nem perguntas a que se responda: “Sei lá”!

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O frio, o vento, o ruído do vento, a luz que consegue trespassar a neblina, o gelo acumulado nos vincos da roupa, as mariolas de pedras, o peso do gelo que verga as giestas, tudo é efectivo e real.

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Vivemos num mundo onde se cortam as curvas, onde se limam as arestas e onde se sofre por antecipação da dor. Por isso é bom sair umas horas das rotinas desta vida, desta coisa em forma de assim.