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Facto internacional de 2018

por Pedro Correia, em 04.01.19

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MOVIMENTO #METOO

 

A repercussão, praticamente à escala planetária, do movimento feminista #MeToo, iniciado no final de 2017 mas com particular visibilidade só no início do ano passado,  mereceu do DELITO DE OPINIÃO a escolha como Facto Internacional de 2018. Houve oito votos nesta opção, atendendo sobretudo ao profundo impacto deste movimento no circuito intelectual e artístico dos Estados Unidos - sem esquecermos os ecos que produziu também na Europa, onde (por exemplo) em 2018 não se atribuiu o Prémio Nobel da Literatura devido às alegações de que o marido de um dos membros da academia, o dramaturgo e fotógrafo francês Jean-Claude Arnault, terá assediado sexualmente algumas mulheres - o que foi desmentido pelo visado.

Em Portugal, ao contrário do que tem sucedido noutros países, o movimento parece tardar em implantar-se: ainda não foram conhecidas, por cá, denúncias de supostas agressões sexuais a figuras mediáticas, designadamente do espectáculo, do teatro, da televisão, dos meios empresariais ou da política.

 

Em segundo lugar, com cinco votos, ficou aquilo que denominámos de revolta dos pagantes, abrangendo nomeadamente o movimento dos chamados "coletes amarelos" que despontou em Novembro em França e parece ter perdido força nas semanas mais recentes.

Outro acontecimento em destaque, com quatro votos: a brutal crise na Venezuela, que já levou ao êxodo de cerca de três milhões de pessoas, enquanto o país se afunda na depressão económica, na mega-inflação e na repressão política, às ordens do ditador Nicolás Maduro, reeleito em Maio de 2018 entre acusações quase unânimes de fraude eleitoral num escrutínio de que foram afastados, logo à partida, os principais opositores.

 

Houve dois votos na formação de um Governo populista em Itália, onde a Liga xenófoba e o movimento pós-ideológico Cinco Estrelas formaram uma coligação com efeito práticos a partir de Junho, desafiando as regras impostas por Bruxelas num dos Estados fundadores da União Europeia e naquela que é hoje a terceira maior economia do espaço comunitário.

Outros dois votos recaíram na inédita cimeira EUA-Coreia do Norte, ocorrida em Abril em Singapura, reunindo o inquilino da Casa Branca, Donald Trump, e o ditador de Pyongyang, Kim Jong-un, com vista à desnuclearização da península coreana, que alberga a fronteira mais perigosa do planeta, vigorando ali o estado de guerra desde 1950.

 

Registaram-se ainda votos isolados na dissolução definitiva da ETA no País Basco espanhol, na invasão comercial da Europa pela China, que vem comprando à peça infra-estruturas basilares do Velho Continente (o porto do Pireu, em Atenas, é um exemplo entre muitos) e ainda na chamada consciência ambiental, com esta justificação que ficou lavrada em acta: «Desde o plástico, passando pelas alterações climáticas (que receberam finalmente uma necessária dose de realidade - outros chamaram-lhe alarmismo), seguindo pela água e acabando (nesta sequência) nas extinções. Nunca o ambiente recebeu tanta atenção da população.»

 

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

Facto internacional de 2014: o terror do "Estado Islâmico"

Facto internacional de 2015: a crise dos refugiados

Facto internacional de 2016: Brexit

Facto internacional de 2017: crise separatista na Catalunha

Frase internacional de 2017

por Pedro Correia, em 12.01.18

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«Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em copos e mulheres e depois ir ter consigo a pedir-lhe ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu.»

Jeroen Dijsselbloem, 20 de Março

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases:

 

«Porque é que Kim Jong-un me insulta chamando-me "velho", quando eu nunca lhe chamei "pequeno" e "gordo"?»
Donald Trump (Novembro)
 

«O que é que se passou com o pernil? Sabotaram-nos! Sabotaram-nos! E posso apontar um país: Portugal.»

Nicolás Maduro (Dezembro)

  

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Frase internacional de 2013: «Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.» 

(Malala Yousafzai)

Frase internacional de 2014: «Somos todos americanos.»

(Barack Obama)

Frase internacional de 2015: «Je suis Charlie.»

(Lema parisiense, e mundial, após os atentados de Janeiro em Paris)

Frase internacional de 2016: «Vim aqui enterrar os restos da Guerra Fria nas Américas.»

(Barack Obama)

Facto internacional de 2017

por Pedro Correia, em 09.01.18

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CRISE SEPARATISTA NA CATALUNHA

Catalunha dominou grande parte do ano informativo em termos internacionais, sobretudo a partir de Setembro, quando o Parlamento autonómico catalão aprovou a "lei da desconexão", com os votos favoráveis das forças separatistas regionais, num arco ideológico que ia da direita nacionalista à extrema-esquerda anticapitalista, apenas unidas na necessidade de acelerar o corte dos laços políticos com Madrid.

O processo desembocou na convocação de um referendo ilegal para validar o processo de independência unilateral, convocado pelos separatistas à margem da Constituição e contra o parecer expresso de todas as instituições do Estado espanhol - Rei, Governo, Senado, Câmara dos Deputados, Tribunal Constitucional e tribunal comuns. Realizada a 1 de Outubro, sem campanha eleitoral, sem cadernos eleitorais credíveis e sem mecanismos independentes de verificação dos resultados, a consulta não foi reconhecida pela comunidade internacional.

As semanas que se seguiram foram alucinantes: declaração unilateral da independência em Barcelona (10 de Outubro), logo seguida da suspensão dos efeitos do acto separatista, aprovação por ampla maioria no Senado espanhol do artigo 155.º da Constituição que revogou a autonomia, convocação de eleições antecipadas na Catalunha para 21 de Dezembro, fuga para Bruxelas do presidente cessante do Governo regional, Carlos Puigdemont, acusado - tal como outros ex-membros do executivo - de rebelião, sedição e peculato pela justiça espanhola.

As eleições de Dezembro deram pela primeira vez a vitória a uma força não-nacionalista, o Cidadãos. Os separatistas, sem maioria do voto popular, mantiveram no entanto a maioria dos lugares no Parlamento autonómico. Mas nenhum dos seus dirigentes máximos tem condições para formar Governo: Puigdemont, líder do Juntos Pela Catalunha, permanece refugiado na Bélgica e Oriol Junqueras, líder da Esquerda Republica, encontra-se detido às ordens da justiça espanhola.

 

A crise catalã, muito longe de estar resolvida, foi o acontecimento do ano para o DELITO DE OPINIÃO, merecendo 11 dos 21 votos referentes ao Facto Internacional de 2017.

Em segundo lugar, com seis votos, ficou o início da presidência Trump, outro dos factos mais relevantes do ano que passou em termos internacionais.

Registaram-se ainda votos isolados na fundação do movimento #metoo, no êxodo forçado do povo roínguia na Birmânia, no puritanismo macartista travestido de "progresso" e nos sinais de esperança na luta contra a corrupção, o nepotismo e o branqueamento de capitais.

Perspectivas plurais num mundo sempre turbulento.

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

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Facto internacional de 2015: a crise dos refugiados

Facto internacional de 2016: Brexit 

 

O discurso de Merkel

por Alexandre Guerra, em 29.05.17

O discurso de Angela Merkel proferido este Domingo num comício para 2500 pessoas em Munique é daqueles que poderá ficar para a História da construção europeia. Não se pode dizer que tenha passado despercebido à imprensa internacional, porque, que se recorde, é a primeira vez que se vê a chanceler alemã a pronunciar-se de uma forma tão assertiva para a necessidade dos europeus contarem com eles próprios e não estarem dependentes dos “aliados” tradicionais, em referências directas aos “afastamentos” dos EUA e do Reino Unido. Ao dizer que a União Europeia tem que “tomar o futuro pelas suas próprias mãos”, Merkel está na prática a assumir que está na hora dos líderes europeus começarem a pensar seriamente na criação de uma efectiva política europeia de defesa e segurança, algo que não existe neste momento. É certo que existem muitas proclamações políticas e alguns mecanismos, mas nada perto daquilo que poderá garantir a defesa física da Europa como um todo perante uma ameaça externa. E nesse ponto é importante não esquecer que a NATO continua a ser a única organização com essa capacidade de resposta, ou seja, com a agilidade de mobilizar forças de diferentes países sob um único “badge” (comando). Em termos de meios militares, a NATO propriamente dita tem uns aviões AWACS (que vão reforçar a sua acção na recolha e partilha de informação entre todos os Estados-membro da Aliança), alguns quartéis-generais e pouco mais, no entanto, tem uma experiência acumulada de décadas, que lhe permite reagir a diferentes ameaças e em diferentes cenários através da interoperacionalidade oleada das forças dos diferentes países colocadas ao serviço NATO. Na prática, a NATO tem sido a estrutura comum da defesa europeia e até há poucos anos o território europeu tinha o exclusivo da sua acção.

 

Não é mentira quando Trump enfatiza o desequilíbrio das contribuições financeiras de cada país aliado para aquela organização. É um facto histórico com origens conhecidas no surgimento da Guerra Fria e que durante muito tempo serviu os propósitos norte-americanos na lógica do sistema bipolar, onde parte da Europa era claramente uma área de influência sob o “guarda-chuva” de Washington. Desde o fim da ameaça do Exército Vermelho sobre a Europa que a discussão sobre a Defesa do Velho Continente tem sido recorrente, nomeadamente ao nível do investimento que é preciso ser feito por cada país. Concomitantemente, várias administrações em Washington têm, ao longo dos anos, lançado avisos à Europa para que começasse a investir mais na Defesa e no orçamento da NATO. Por várias vezes, e sobretudo em momentos de crise, política ou militar, líderes europeus vieram para a praça pública falar entusiasticamente na necessidade da Europa começar a gastar mais na sua Defesa. Chegaram a ser ensaiados alguns projectos comuns, mas que nunca se concretizaram. Por isso, aquilo que Merkel disse no Domingo não é propriamente novo no conteúdo nem na forma. A verdadeira novidade foi ter sido Merkel a dizê-lo, sobretudo no tom particularmente firme em que o disse. É certo que estava influenciada pelo ambiente pouco diplomático provocado por Donald Trump nas cimeiras da NATO e do G7, mas para a chanceler ter assumido uma posição daquele calibre é porque a mesma deverá vir acompanhada de uma política firme nos próximos tempos.

Merkel foi a primeira líder europeia a assumir uma divergência desta magnitude com a administração Trump. Em causa estão valores fundamentais para a Europa, como são as alterações climáticas, mas é preciso não esquecer que, à margem da cimeira da NATO, o Presidente americano tinha ameaçado restringir as importações de carros alemães para os EUA. Nestas coisas da política internacional, e ao contrário do que muita gente possa pensar, as relações pessoais entre líderes podem fazer toda a diferença no adensar ou no desanuviamento de uma potencial situação de escalada político-diplomática. Neste caso, admite-se que a convivência entre os dois, primeiro em Bruxelas e depois em Taormina, não tenha corrido pelo melhor. Acontece. Agora, é preciso que nos corredores da diplomacia sejam encetados esforços no sentido de se manterem os canais de comunicação abertos entre Berlim e Washington, porque, uma coisa é certa: a Europa não está em condições de caminhar sozinha em matéria de Defesa e vai continuar a depender do envolvimento dos EUA na NATO durante muitos e longos anos. Por outro lado, Trump não deve esquecer, nunca, que apesar de todas as diferenças, é com a Europa com quem os EUA partilham os valores basilares da democracia e do liberalismo que norteiam a sua democracia e sociedade. Além disso, Trump também não se deve esquecer de um conceito muito importante e desenvolvido há uns anos por Robert Keohane e Joseph Nye, o da interdependência complexa. E neste aspecto, EUA e Europa estão ligados um ao outro como dois siameses.

It’s not the economy

por Alexandre Guerra, em 16.03.17

Na campanha presidencial de 1992 contra Bush pai, o staff de Bill Clinton tinha como uma das mensagens-chave a famosa expressão “the economy, stupid”, forjada pelo estratego James Carville (ex-CNN e actual FOX News). Mais tarde, quando esse conceito transbordou para a esfera pública, a frase foi usada e abusada ao longo dos anos na sua versão mundialmente conhecida: “It’s the economy, stupid”. Ainda hoje aquela expressão é utilizada vezes sem conta por comentadores e opinion makers nas suas colunas de jornais e revistas. A questão é que além daquela frase ser completamente datada, o seu conteúdo (que na verdade nunca terá sido bem interiorizado por muitos que ainda hoje a utilizam), pouco ou nenhum sentido faz nos dias que correm se olharmos com atenção para as realidades políticas e eleitorais de alguns países, nomeadamente os Estados Unidos ou o Reino Unido.

 

Na altura, o ainda governador do Arkansas colocou a economia como tema central da campanha, talvez não tanto pela questão do estado real dessa mesma economia americana (que embora não sendo famosa, não era dramática), mas porque, no fundo, Carville sabia que era necessário encontrar um factor de contraste evidente com o mandato de George H. W. Bush que, pela força das circunstâncias, foi dominado pela política espectacular dos grandes acontecimentos mundiais e das grandes cimeiras. Para quem se recordará desses tempos ou tem algum conhecimento das relações internacionais, dificilmente encontrará um período da História recente tão “político”, interessante e entusiasmante como aquele que Bush pai viveu enquanto Presidente entre 1989 e 1993.

 

Foi aquilo a que os especialistas chamam de período de transição sistémica. Hoje é um assunto arrumado de que o século XX acabou ali. Para trás, ficaram décadas de Guerra Fria, onde a economia jamais tinha suplantado a política enquanto tema de campanha ou de topo de agenda mediática. Em quatro anos, e apesar dos problemas da economia dos EUA, o mundo assistia à morte do comunismo, à queda do Muro de Berlim, à implosão da União Soviética, às reformas na China, à primeira Guerra do Golfo, à intervenção americana no Panamá e na Somália, já para não falar na Guerra da Bósnia. Aliás, já antes, Ronald Reagan tinha ficado para a História como o homem que vencera a Guerra Fria.

 

Poder-se-á dizer que os acontecimentos de política externa pouco ou nada interessavam aos americanos perante as dificuldades que enfrentavam no seu dia-a-dia. Pois, mas a questão é que nem os problemas da economia americana eram assim tão dramáticos, como alguns desses acontecimentos internacionais entraram no quotidiano dos americanos de uma forma bastante intensa. Além disso, é preciso notar que a América já tinha vivido períodos bem mais difíceis em termos de economia em décadas anteriores, bastando referir, por exemplo, o processo de desindustrialização nos anos 70 e 80, nomeadamente no sector automóvel, com o surgimento da concorrência asiática.

 

A verdade é que olhando para os tempos de Guerra Fria não havia grande “espaço” para a prevalência da economia sobre a política na condução dos Estados e muito menos para os comentadores económicos e para as análises económicas híper-amplificadas nos media (os canais também eram diminutos, note-se). A política pura e dura dominava e os tempos que se viviam eram deveras muito interessantes. É certo que a partir do início dos anos 90, com o advento da globalização e com as teorias do Fim da História e outras, a política vai perdendo relevância para dar lugar à economia enquanto móbil da História. Os grandes líderes e estadistas foram desaparecendo e surgiram os tecnocratas ou os dirigentes orientados por critérios quantitativos. Começa-se a criar uma ideia (errada) de que a política acabou e as sociedades ocidentais entram num Fim de História, dominadas pelo capitalismo e democracias liberais.

 

A euforia durou até 11 de Setembro de 2001, que foi uma espécie de “wake up call”, mas foram precisos vários anos e muitos acontecimentos geopolíticos para se perceber que, afinal, o mundo está longe de ser “plano” e que a política impera naquilo que é a história dos Estados e as Relações Internacionais. Aliás, olhando para os fenómenos eleitorais mais recentes, com resultados que muitos consideraram de “protesto”, como foram os casos dos EUA, com a eleição de Trump, e do Reino Unido, com o referendo ao Brexit, constata-se que as motivações da maioria do eleitorado pouco ou nada tiveram a ver com economia, pelo menos numa lógica directa, já que ambos os países apresentam índices bastante satisfatórios nestas matérias, quer em crescimento do PIB, quer em taxa de desemprego.

Facto internacional de 2016

por Pedro Correia, em 07.01.17
 

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BREXIT

Os acontecimentos a nível internacional, tão voláteis e condicionados pelas mais recentes manchetes da imprensa, nem sempre tornam fácil seleccionar um facto que seja capaz de dominar o ano. Talvez isto explique que acontecimentos como a inédita visita de Barack Obama a Cuba ocorrida em Março - a primeira de um Chefe do Estado norte-americano ali desde 1928 - que demoliu a penúltima fronteira da Guerra Fria (a última é a do conflito coreano, ainda sem solução à vista) não tivesse sido mencionada na generalidade dos balanços de 2016.

Outra omissão espantosa é a do processo que conduziu à impugnação e destituição da primeira mulher que ascendeu à presidência do Brasil. Dilma Rousseff, acusada de abuso do poder no exercício das funções, foi alvo de votações na Câmara dos Deputados e no Senado que em Maio a forçaram a renunciar ao cargo, tendo o seu vice-presidente - Michel Temer, com quem estava de relações cortadas há bastante tempo - assumido a presidência. Foi já ele a inaugurar em Agosto os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que motivaram muitos protestos.

Nos três primeiros trimestres de 2016, o Brasil foi sacudido por manifestações, anti-Dilma e anti-Temer. Passados escassos meses, tudo isto parece ter sucedido há uma eternidade. O que reflecte a intensidade noticiosa a que somos sujeitos no nosso quotidiano.

 

Apesar disso, nem tudo se dissolve em espuma. É o caso do Brexit - o referendo ocorrido a 23 de Junho nas ilhas britânicas que determinou, embora por escassa margem (51,8% contra 48,2%), a saída do Reino Unido da União Europeia, 43 anos após ter ingressado no que então se chamava Comunidade Económica Europeia. Este foi o Facto Internacional de 2016, eleito pela maioria dos autores do DELITO DE OPINIÃO (27 participámos neste escrutínio, em que podíamos eleger mais de um acontecimento, os restantes quatro não se pronunciaram). Um facto tão importante que não deixará de ter sérias repercussões em 2017.

Aliás, o próprio substantivo Brexit (neologismo formado a partir de Britain, Grã-Bretanha no idioma original, e exit, que significa saída em inglês) figurou entre as palavras do ano em Portugal, após geringonça, vocábulo que permanecia envolto em poeira e foi desenterrado desde que o actual Executivo socialista iniciou funções.

 

O polémico referendo britânico mereceu 14 votos nossos, superando outros acontecimentos no plano internacional, como a guerra na Síria, que se arrasta desde 2011 e já foi Facto do Ano em 2013 no nosso blogue (seis votos), as eleições nos Estados Unidos da América (três votos), os acordos de paz na Colômbia de algum modo postos em causa pelo  referendo ocorrido em Outubro, a crise dos refugiados, que havíamos elegido em 2015, o putinismo em ascensão e a controversa atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan.

Para o ano há mais.

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

Facto internacional de 2014: o terror do "Estado Islâmico"

Facto internacional de 2015: a crise dos refugiados 

Figura internacional de 2016

por Pedro Correia, em 05.01.17

                  

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DONALD TRUMP 

O magnata novaiorquino surpreendeu tudo e todos. Contrariou sondagens e as sofisticadas análises dos comentadores políticos - não só nos Estados Unidos mas também em Portugal, onde chegou a haver gente a escrever e publicar peças jornalísticas considerando-o antecipadamente derrotado na corrida eleitoral para a sucessão de Barack Obama como inquilino da Casa Branca.

À partida, de facto, quase ninguém dava nada por ele: anteviam-no apenas como animador da campanha com a sua atitude nada diplomática, digna de elefante em loja de porcelanas. Mas Donald Trump foi derrubando sucessivas barreiras, desde logo nas primárias republicanas, em que enfrentou grande parte do establishment do seu partido, incluindo os ex-presidentes George Bush e George W. Bush e os antigos candidatos presidenciais John McCain e Mitt Romney: todos se demarcaram dele desde o primeiro instante.

Apesar disso - ou por causa disso - acabou por emergir vitorioso nas primárias, derrotando antagonistas que comprovaram ser tigres de papel, como Jeb Bush, Marco Rubio e Ted Cruz. Com uma mensagem linear e populista, e uma utilização maciça das redes sociais, centrou o seu discurso contra a oligarquia de Washington, a imigração ilegal e o terrorismo, apelando ao proteccionismo económico e ao apaziguamento com Moscovo.

Linhas discursivas que repetiu na contenda com Hillary Clinton, sua adversária do Partido Democrata, que viria a derrotar nas urnas em Novembro. Conquistando maioria no colégio eleitoral, graças às peculiares regras vigentes nos Estados Unidos, embora tivesse menos cerca de três milhões de votos do que Hillary no voto popular.

Vai tomar posse já no próximo dia 20, entre vaticínios generalizados de uma presidência desastrosa. Paradoxalmente, este é talvez o único ponto que à partida o favorece: as expectativas iniciais para o seu mandato serem tão baixas.

Na votação do DELITO, que mobilizou 27 dos 31 autores deste blogue, o novo Presidente eleito dos EUA ganhou por maioria absoluta: teve 21 votos no escrutínio para Figura Internacional do Ano.

Os restantes seis foram distribuídos pela chanceler alemã Angela Merkel (já aqui vencedora em 2010, 2011 e 2015), com três votos, o Presidente russo Vladimir Putin, o Presidente filipino Rodrigo Duterte e o cantautor Bob Dylan, controverso galardoado com o Nobel da Literatura.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

 

Frase internacional de 2015

por Pedro Correia, em 07.01.16

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«Je suis Charlie.»

Palavra de ordem em Paris após os atentados de 7 de Janeiro

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceu destaque esta frase:

«Se o Papa continua a falar assim, um dia destes vou recomeçar a rezar e regressarei à Igreja Católica.»

Raúl Castro, ao Papa Francisco

 

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Frase internacional de 2013: «Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.» 

Frase internacional de 2014: «Somos todos americanos.»

Facto internacional de 2015

por Pedro Correia, em 04.01.16

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A CRISE DOS REFUGIADOS

Mais de um milhão de desalojados de guerra ou emigrantes impulsionados pela crise económica - oriundos do continente africano, do Médio Oriente e até de paragens mais longínquas como o Bangladeche e o Afeganistão - acorreram em 2015 à Europa, procurando neste continente santuário e asilo. O país mais desejado, na rota da esmagadora maioria destas pessoas, todas contempladas com o duvidoso rótulo mediático de "migrantes", foi a Alemanha, o que tem suscitado ampla polémica no país. Com o aparecimento de movimentos como o Pégida e contestação aberta, nas próprias fileiras democratas-cristãs, à chanceler Angela Merkel, que proclamou Berlim e outras urbes germânicas como "cidades abertas" ao fluxo de refugiados.

A maioria destas pessoas foge da sangrenta guerra civil da Síria, que já provocou mais de 250 mil mortos em quatro anos e pelo menos quatro milhões de exilados, em grande parte concentrados em campos improvisados nos países limítrofes - Líbano, Jordânia e Turquia. A somar-se à guerra ocorreu em 2015 a ocupação de cerca de um terço de território sírio pelas hordas do Daesh, que ali impõem a lei do terror - que visa sobretudo a forte minoria cristã da Síria, avaliada em cerca de 10% da população.

A crise dos refugiados, presente em todos os debates políticos europeus, foi o facto internacional do ano, segundo o critério do DELITO DE OPINIÃO. Na eleição, em que participaram 23 autores deste blogue (que podiam votar em mais de um tema), este recebeu 17 votos, seguindo-se o fundamentalismo do chamado "Estado Islâmico" (já eleito facto internacional de 2014), com sete votos. 

Apenas dois outros acontecimentos de 2015 receberam votos solitários: o restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos e a possível cura contra o cancro realizada por investigadores da Universidade de Copenhaga. Boas notícias que infelizmente não bastaram para ofuscar as más.

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

Facto internacional de 2014: o terror do "Estado Islâmico"

 

Figuras internacionais de 2015

por Pedro Correia, em 02.01.16

   

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ANGELA MERKEL e AUNG SAN SUU KYI

 

Duas mulheres foram eleitas Figuras Internacionais do ano pelo DELITO DE OPINIÃO: a chanceler alemã Angela Merkel (que já tinha sido escolhida em 2010 e 2011) e a Nobel da Paz birmanesa Aung San Suu Kyi.

A primeira, entre outros motivos, por ter enfrentado sectores alargados da opinião pública germânica que se opõem à entrada de refugiados no país: a Alemanha recebeu já cerca de um milhão, liderando de longe os países europeus no acolhimento aos desalojados do Médio Oriente e do Magrebe que fogem a zonas de guerra e à pobreza económica.

A segunda por ter conduzido a sua Liga Nacional para a Democracia a uma indiscutível vitória nas urnas, com 77% dos votos nas legislativas de Novembro, pondo fim a mais de meio século de ditadura militar na Birmânia. Uma luta em que se envolveu sempre por métodos pacíficos e lhe valeu mais de vinte anos em regime de prisão domiciliária.

 

Como é costume nestas votações anuais, as opiniões dividiram-se bastante. Merkel e Aung receberam cinco votos cada dos 23 participantes neste escrutínio, que podiam votar em mais de um nome.

Com três votos ficaram o ex-ministro grego das Finanças, Yannis Varoufakis (de quem muitos já mal se recordam nestes tempos tão voláteis) e Aylan Kurdi, o menino curdo de três anos que morreu por afogamento quando acompanhava o pai, entre outros refugiados oriundos da Síria, em demanda de uma praia turca. A dramática fotografia da criança morta deu a volta ao mundo.

Com dois votos ficou o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, muito mencionado nas notícias do início de 2015 mas que foi perdendo destaque ao longo do ano.

Depois houve votos solitários dispersos por diversas figuras: o Papa Francisco (eleito pelo DELITO nos dois anos anteriores), Barack Obama, Donald Trump, Marine Le Pen, o lider nacionalista polaco Jaroslaw Kaczyński, o refugiado sírio Laith Majid (cuja imagem de lágrimas nos olhos, com o filho ao colo, também deu a volta ao mundo), Nicolas Catinat (assassinado no Bataclan, a 13 de Novembro, depois de ter servido de escudo humano numa atitude heróica) e o Quarteto para o Diálogo Nacional na Tunísia (galardoado com o Nobel da Paz 2015).

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

 

Frase internacional de 2014

por Pedro Correia, em 14.01.15

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«Somos todos americanos.»

Barack Obama

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceu destaque esta frase:

«Os corruptos são um perigo, já que são adoradores de si mesmos.»

Papa Francisco

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Frase nacional de 2013: «Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.» 

Facto internacional de 2014

por Pedro Correia, em 05.01.15

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O TERROR DO "ESTADO ISLÂMICO"

Foi um ano de muitas notícias marcantes a nível mundial. Mas, na opinião dos autores do DELITO (13 votos em 26), nenhuma mereceu tanto destaque como o aparecimento de uma nova organização terrorista, autodenominada "Estado Islâmico", que numa proclamação datada de 29 de Junho de 2014 se afirmou apostada em instaurar um califado mundial. Foi, para nós, o facto internacional do ano.

Sob a bandeira do islamismo radical sunita, esta organização não tardou a espalhar o terror em vastas áreas do Médio Oriente - com destaque para Iraque e Síria - e no leste da Líbia, causando milhares de vítimas entre as minorias étnicas e religiosas A ONU acusa-a de violações sistemáticas dos direitos fundamentais. A Amnistia Internacional aponta-a como responsável de "limpezas étnicas a uma escala inédita" na região.

Durante o segundo semestre do ano, transformou a decapitação de prisioneiros num macabro cartão de visita propiciando chocantes imagens que deram a volta ao mundo, nomeadamente o assassínio dos jornalistas norte-americanos James Foley e Steven Sotloff, do activista pelos direitos humanos britânico David Haines e do guia turístico francês Hervé Gourdel.

Cerca de 60 países estão envolvidos, directa ou indirectamente, no combate a este movimento terrorista que promete causar muito mais vítimas em 2015.

 

O segundo facto internacional de 2014 mais votado foi a guerra na Ucrânia, que se arrastou desde o primeiro trimestre, com Moscovo a estimular o separatismo nas províncias orientais do país. Igual relevo mereceu o descongelamento das relações Cuba-EUA, já muito perto do fim do ano, após mais de cinco décadas de bloqueio diplomático entre Washington e Havana.

anexação da Crimeia pela Rússia foi outro facto que justificou destaque. Havendo ainda votos isolados para a explosão de gás e petróleo de xisto, o bem-sucedido processo eleitoral na Tunísia e o fenómeno dos banhos de água popularizados nas redes sociais durante o Verão.

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

Figura internacional de 2014

por Pedro Correia, em 01.01.15

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PAPA FRANCISCO

Pelo segundo ano consecutivo, o líder espiritual do mundo católico foi escolhido pelo DELITO DE OPINIÃO como Figura Internacional de maior destaque.

Com índices de popularidade cada vez mais elevados um pouco por todos os continentes, mesmo junto de quem não comunga da fé cristã, o Papa Francisco manteve-se em foco a propósito de vários temas. Rezou pelas vítimas da violência em Jerusalém. Orou ao lado de clérigos muçulmanos na Mesquita Azul, em Istambul. E recebeu nos Jardins do Vaticano, também para uma oração pela paz, os presidentes de Israel e da Autoridade Palestiniana.

Já perto do fim do ano, dirigiu uma mensagem crítica à Cúria Romana que mereceu repercussão universal. Nessa mensagem, denunciou as "quinze doenças" de que padece o corpo eclesiástico do Vaticano, com destaque para aquilo a que Francisco chama "Alzheimer espiritual" - a perda da memória de Deus, sacrificado à idolatria mundana.

O Sumo Pontífice teve também uma intervenção decisiva no desbloqueamento das relações entre os Estados Unidos e Cuba, congeladas desde 1960. Um facto reconhecido, em simultâneo, pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro, que agradeceram o esforço mediador do Papa.

 

A segunda figura internacional do ano mais votada foi o presidente russo, Vladimir Putin, que em Março esteve em foco ao anexar a península da Crimeia, que era parte integrante do território da Ucrânia desde 1954, e fomentar ao longo do ano o separatismo pró-Moscovo na faixa oriental deste país. Criticado por quase toda a comunidade internacional e alvo de severas sanções económicas, o líder russo terminou 2014 a enfrentar uma gravíssima crise do rublo, que caiu para mínimos históricos registados este século, enquanto a inflação disparava e a fuga de capitais contribuía para uma escalada recessiva no país.

Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa ameaçada de morte pelos talibãs, ficou em terceiro lugar na nossa votação por ter sido distinguida com o Prémio Nobel da Paz 2014, partilhado com o activista indiano Kailash Satyarthi. Com apenas 17 anos, foi a mais jovem galardoada de sempre com o Nobel.

Os restantes votos, isolados, foram distribuídos da seguinte forma: o novo Rei de Espanha, Filipe VI, entronizado em 19 de Junho; Pablo Iglesias, líder da formação política Podemos, que irrompeu com êxito na cena política espanhola, recolhendo um milhão de votos nas eleições europeias e ameaçando implodir o sistema bipartidário; o empresário e filantropo chinês Jack Ma; e a pobreza, não personalizada, à escala universal.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Uma decisão inteligente

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.12.14

obama_castro_handshake_AP.jpgQuando em 2009 o Presidente Obama prometeu conduzir a política externa norte-americana, relativamente a Cuba, numa nova direcção, o que se confirmaria desde logo com o reinício do diálogo sobre as questões da imigração que estavam suspensas desde 2003, muito poucos acreditariam que uma relação inamistosa e conflituosa que se prolongou durante quase cinco décadas, tendo múltiplos palcos espalhados pelo mundo e que perdurou para lá da Guerra Fria, terminasse da forma simples, civilizada e respeitosa que foi agora conhecida. O aperto de mão selado aquando das exéquias de Nelson Mandela, entre Raúl Castro e o seu homólogo norte-americano, obtém assim confirmação. Num raro sinal de sensatez, boa fé, inteligência e pragmatismo, os vizinhos desavindos resolveram conversar e encontrar soluções para os problemas que persistiam. Nos próximos anos a opinião pública dos dois países e das demais nações irá observar o desenvolvimento dessa relação com atenção aos mais ínfimos detalhes.

É natural que muita gente não fique satisfeita, a começar pela Rússia de Putin, a Coreia do Norte da família Kim ou a Venezuela madurista. E que outros não saibam como reagir. Mas essas são questões de somenos perante a importância do que agora se conseguiu. A simples leitura das reacções da maioria dos leitores do Gramma, jornal oficial do Partido Comunista de Cuba, ao discurso do Presidente Raúl Castro, diz bem da satisfação que a decisão transporta para a maioria dos cubanos. O risco maior, para já, estará do lado de Obama, na forma como conseguirá manter os sempre difíceis equilíbrios entre as decisões da política externa dos EUA e o acolhimento das mesmas na sua frente interna, problema que desde há muito está presente nas sempre atribuladas relações em matéria de política externa entre os inquilinos da Casa Branca, o Congresso e o Senado. Recorde-se apenas Versalhes, a Liga das Nações, a Declaração de Wilson e tudo o que se passou deste então.

Ao escolher o caminho do "socialismo próspero e sustentável", Cuba parece querer abdicar dos modelos mais radicais que conduziram muitos cubanos à pobreza e à miséria, e opta por uma via de desenvolvimento de pequenos passos do tipo chinês. 

Por outro lado, o fim do embargo a Cuba e a normalização das relações diplomáticas introduz um factor de desanuviamento e paz nas relações internacionais que constitui um excelente sinal de esperança e uma forma simpática de se chegar ao fim de um ano muito conturbado, entre outros, pelos problemas na Síria e na Ucrânia, desta vez com a perspectiva de que nem tudo foi em vão.

Oxalá que este importante sinal, que abre uma nova via no entendimento entre os EUA e Cuba, não seja destruído pelo fundamentalismo de alguns sectores mais conservadores norte-americanos, nem pelos extremismos latino-americanos, e possa constituir um modelo a seguir noutras situações - a começar pelo Médio Oriente - e um novo sopro de liberdade e progresso no golfo do México e no mar das Caraíbas.

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 04.09.14

«As potências ocidentais não podem deixar de fazer tudo o que devem para impedir que a Ucrânia se torne pela força membro da União Euroasiática de Putin. A próxima cimeira da NATO é uma boa altura para se avaliar a decisão ocidental, que também é uma decisão portuguesa. Em 1976, o ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo de Mário Soares, José Medeiros Ferreira, explicou que a fronteira de segurança da democracia portuguesa era em Berlim. Talvez seja necessário repetir que a fronteira da segurança portuguesa é em Talin, Riga ou Vílnius, para pôr no devido lugar a santa aliança entre os nostálgicos dos velhos impérios.»

Carlos Gaspar, no Público

Lá fora

por Pedro Correia, em 26.05.14

Alemanha: CDU de Merkel vence com pior resultado de sempre. Alternativa Pela Alemanha, eurocéptica, elege sete eurodeputados.

 

Espanha: PP e PSOE perdem 17 deputados. Novo partido, Podemos, assume-se como quarta força eleitoral e terceira em Madrid.

 

França: Vitória da Frente Nacional, com 26%. Partido Socialista, do Presidente Hollande, afunda-se - com o pior resultado da sua história.

 

Itália: Esquerda esmaga nas urnas, partido de Berlusconi em queda. Movimento de Grillo é segundo, com 21%.

 

Grécia: Syriza ultrapassa conservadores, vencendo escrutínio. Aurora Dourada, partido neonazi, ascende ao terceiro lugar.

 

Reino Unido: Grande triunfo da direita eurocéptica. Partido Independente quebra histórico rotativismo entre conservadores e trabalhistas.

Figura internacional de 2013

por Pedro Correia, em 08.01.14

PAPA FRANCISCO

O maior consenso, na votação das figuras e factos de 2013 realizada no DELITO DE OPINIÃO, ocorreu em torno da personalidade internacional do ano. Com a grande maioria dos votos a recair no Papa Francisco, eleito em 2013 no mais inesperado conclave católico dos últimos séculos, convocado de emergência devido à renúncia do Papa Bento XVI.

Ao surgir na varanda principal da Basílica de São Pedro, ao fim da tarde de 13 de Março de 2013, Jorge Mario Bergoglio suscitou espontâneos aplausos. Desde logo ao saudar com esta frase a multidão que o aclamava: "Parece que os cardeais foram buscar-me ao fim do mundo". Uma referência ao facto de vir da Argentina, onde era cardeal de Buenos Aires.

Primeiro Papa oriundo do continente americano, primeiro em dois séculos oriundo do clero não secular, primeiro a escolher o nome Francisco em homenagem expressa a São Francisco de Assis, este jesuíta de 76 anos surpreendeu o mundo com o seu verbo fácil, o seu sorriso franco e os seus gestos inovadores que ultrapassam o plano simbólico. Recusou viver no palácio apostólico do Vaticano, iniciou uma profunda reforma da Cúria, lavou os pés a duas raparigas (uma das quais muçulmana) na semana da Páscoa, foi ao encontro de imigrantes africanos em Lampedusa e recusou limusinas na sua viagem triunfal ao Rio de Janeiro, para encerrar a Jornada Mundial da Juventude.

Em Outubro, divulgou a exortação apostólica Evangelii Gaudium, com críticas aos excessos do actual sistema financeiro dominante à escala planetária: "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa."

 

Em segundo lugar, na nossa votação, ficou Edward Snowden, o ex-consultor da CIA que tornou públicas as actividades de espionagem ilegal feitas no âmbito da Agência Nacional de Segurança norte-americana - uma denúncia que o levou a exilar-se na Rússia.

Em terceiro ficou Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa que escapou por um triz a um atentado talibã e agora percorre o mundo defendendo o direito à instrução das mulheres nas sociedades ditatoriais islâmicas, tendo recebido o Prémio Sakharov de Direitos Humanos que lhe foi conferido em Novembro pelo Parlamento Europeu.

Houve ainda um voto em Angela Merkel: a chanceler alemã, que saiu vencedora das legislativas de Setembro, já tinha sido eleita pelo DELITO figura internacional em 2010 (ex-aequeo com Julian Assange) e 2011.

Foto Associated Press

Maus cheiros de Bissau?

por João Carvalho, em 09.08.10

Não me cheira bem a visita do presidente da Guiné-Bissau ao Irão. Nem me cheira bem que a CPLP se arrisque a cair no descrédito internacional quando for tarde para ver uma estação de balística de longo alcance iraniana nos Bijagós para actuar no Atlântico, ou algo do género.

Devo ser eu a sonhar, claro, e espero estar enganado. Mas lá que não gosto do cheiro, não gosto. Nem sequer gosto da possibilidade de o Irão ajudar "desinteressadamente" a Guiné-Bissau. Não fica tudo muito malcheiroso?

Três casos exemplares

por Pedro Correia, em 05.06.10

REINO UNIDO - O primeiro-ministro trabalhista, Gordon Brown, perdeu as legislativas de 7 de Maio. Quatro dias depois, a Rainha indigitava o conservador David Cameron como chefe do Governo, à frente de um executivo de coligação com os liberais. Cameron iniciou de imediato as novas funções. Nem o facto de as coligações não serem habituais no Reino Unido impediu que todo o processo fosse rápido, eficaz e transparente.

 

REPÚBLICA CHECA - As legislativas checas realizaram-se nos dias 28 e 29 de Maio. Seguiram-se rápidas conversações entre três partidos do centro e da direita para a formação de uma coligação governamental. Ontem, 4 de Junho, o Presidente Václav Klaus encarregou o líder do partido mais votado, Petr Necas, de formar governo. Todo o processo durou cinco dias.

 

JAPÃO - Nove meses após a vitória eleitoral do seu Partido Democrático Japonês, confrontado com uma queda abrupta de popularidade por incumprimento de promessas eleitorais, o primeiro-ministro Yukio Hatoyama renunciou ao cargo. Dois dias depois, o partido escolheu um novo líder, Naoto Kan, que iniciou de imediato funções como chefe do Executivo.

Desgraça e ajuda

por João Carvalho, em 14.01.10

O Haiti, na sua desgraça, começa a receber as imprescindíveis ajudas internacionais em meios humanos, logísticos, medicamentosos, alimentares e financeiros. As notícias dão conta deles, que já são vários e estão a aumentar a cada momento.

Não se sabe bem porquê, mas parece que ainda não é em Port-au-Prince que entra em funções aquele excelente hospital de campanha que Portugal adquiriu há uns anos. No entanto, o nosso governo já anunciou que está disponível para prestar apoio, sem entrar em detalhes.

É admissível que o esforço do nosso país não possa ir além das limitações actuais para essa intervenção internacional. A Cruz Vermelha Portuguesa, por exemplo, iniciou uma campanha nacional e libertou 25 mil euros, importância modesta que corresponde, seguramente, ao que é possível.

Em matéria de verbas, fixei esse número porque é o primeiro dado que vejo por cá e porque é exemplo da escala em que Portugal actua. E também porque não consigo deixar de pensar, face a essa escala, que é muito menos do que Vara recebe por mês.


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