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Instantes em sépia com capa de muitas cores (30)

por Maria Dulce Fernandes, em 11.08.19

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Sei lá eu

 
Quem somos, donde viemos, para onde vamos...
 
As célebres dúvidas existenciais para as quais ninguém tem resposta certa.
 
Ninguém? Ninguém não! Eu pelo menos durante dois meses por ano sei EXACTAMENTE de onde vim e para onde vou. Dois meses inteirinhos.
 
Vim do trabalho e vou para casa. Vim da casa e vou para o trabalho.
 
Pode parecer monocórdico, monótono, enfadonho até, mas desengane-se quem pensa que algo tão simples não possa promover fúrias, complicações, desatinos, peripécias mil e até gargalhadas sem fim.
 
E é aqui que chegamos à parte do quem somos.
Pois na realidade dias há que não sei, ou  só sei que nada sei, ou sei muito mais do que julgo e muito menos do que imagino, ou só sei o que já não me surpreende, ou sei o que sou e ignoro em que posso tornar-me, ou se não sei aprendo e se já sei ensino, ou como nada sei, não duvido de nada, ou lanço o saber e não terei tristeza, ou sei coisas inúteis que é muito melhor do que não saber nada, ou sei o que todos sabem, que é o mesmo que nada saber, ou muito sei porque bem conheço a minha ignorância, ou sou sábia porque sei que ignoro tudo (o que por vezes dá um jeitaço...), mas no fundo reconheço que a condição humana do saber é o silêncio...


Sei lá eu...
 
De uma coisa não sei, mas tenho a  certeza, é que todos os dias, durante estes dois meses, me sinto dentro de uma fita de pelicula gasta e sem cor definida, em que os mocinhos e os bandidos trocam constantemente entre si de personagem e de falas, mas o filme é mudo e eu felizmente não os oiço, talvez porque já não os posso ouvir e preze o silencio como se fosse volfrâmio. Não sou a garota histérica amarrada aos carris do comboio, sou o comboio que percorre todas as estações, espera não atropelar ninguém e no final da corrida, a soprar negro de fumo, anseia por caras alegres e sorrisos cansados mas genuínos, e o bálsamo do som sem ruído que consegui deixar fechado lá atrás, para além do portão azul.
 
Estão 30 graus  lá fora, a dona sol ofusca a primeira estrela e o chá fervente anima e reconforta. O ronronar também. Até o ressonar me arranca um sorriso de reconhecimento e paz. É tão bom não ter nada para dizer.


É apenas para viver.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (29)

por Maria Dulce Fernandes, em 04.08.19

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Upa, lá!
 
"- Vá, agora seguras assim e enrolas com linha à volta", dizia a minha Madrinha, sentada comigo no pial de pedra da entrada, ambas entretidas a dispor em arranjos coloridos, espécies enviesadas de flores de papel que enfeitavam arcos de arames ferrugentos forrados a corda de amarrar serapilheiras e papel de seda. Eu queria era brincar com os "harmónios" que a Madrinha chamava balões não sei porquê, pois até tinham lá dentro uma cruzeta de madeira com um prego, onde espetavam uma vela, mas não podia ser, porque não chegavam para pendurar nos arcos todos.
A ti' Antónia da Fava Rica andava com a Almerinda aos gavetos na quinta depois de saltado o muro, para os amontoarem bem no meio do Largo do Carvoeiro, onde mais tarde se acenderia a fogueira.
 
A fogueira.
 
O fogo  tem o fascínio do ouro e a beleza de uma besta indomável e irrequieta que brilha no escuro com fulgências e tonalidades mais rebuscadas do que a mais louca das fantasias.
Era absolutamente fantástico ficar virada para o muro da quinta, de costas para a fogueira. As sombras agigantavam-se e moviam-se loucas e sinuosas, eminências pardas de um reino negro e luzente que crescia e se agitava a cada crepitar da acha, criando miragens de fumo e calor ondulante que cheirava a resina e a verão.
 
O avô chegava-me à beira do fogaréu e upa! Já está! E eu ria feliz e corada, seguindo com o olhar as faúlhas que se libertavam e que eu acreditava seguirem directamente para o céu, para se juntarem aos outros pontinhos brilhantes.
 
Havia concertina e guitarra e vinho. Havia cantigas. Havia a marcha de braço dado, toques de pele e trocas de olhares. Havia pão e bolos e limonada... e pirolitos com bola!
 
Sardinhas, só mais tarde.
 
Havia amizade e bailarico até os pés não poderem mais sustentar tanta folia.
 
O Carvoeiro é agora uma oficina fechada. No largo, os moradores só se conhecem do bom dia, boa tarde.
Será que sabem o que é um trono de Santo António?
E uma fogueira comunitária?
 
Passei lá o mês passado. Ainda ecoavam os risos daquela noite em que a Vizinha Custódia calculou mal o salto e o fogo, matreiro que só ele, ferrou-se-lhe à combinação de renda estreada para a ocasião, e lambiscou-lhe metade, sem que ela desse por isso.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (28)

por Maria Dulce Fernandes, em 28.07.19
 
Encerrar, terminar sessão, reiniciar
 

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Quem sabe, um sofá ou uma cadeira de recosto, ironiza cheio de razão.
Um duche, uma muda de roupa, uma chávena de chá. 
 
Mal cheguei e faltam menos de duas horas para me preparar para voltar. Recosto-me, para dar descanso às pernas enquanto observo o chá fumegante condensar-se em cornucópias vaporosas que se desvanecem entrelaçadas no escuro. Olho o quarto minguante recortado em amarelo vivo no fundo escuro sobre as sombras rendilhadas das copas de Monsanto. Fecho os olhos e inspiro profundamente o sublime aroma do silêncio. É quanto basta. Alguns minutos de oblívio, no torpor breve de um sono que não chegou a acontecer completamente. Trinta e dois minutos. Volto a pestanejar, mas é escusado. Mataram a Cotovia provoca-me. Porque não? Revisitar Scout, Jem, Dill... Submerjo parcos minutos em Maycomb. Cabeceio. As palavras enrolam as letras que se me agigantam olhos dentro e emerjo atarantada.
 
Já vais? Não respondo. Ainda é cedo, mas já fui. Bem vistas as coisas, creio que, pelo menos em consciência, nem cheguei a regressar, deixei-me ficar por lá.
 
Os grão de café gemem com um perfume guloso e não me faço esperar. Sabe a manhãs sem luz. Sabe a ânimo. Sabe bem.
Oiço a juventude animada sob a luz dos faróis, sem frio, sem sono, riem na noite que se faz manhã. A estrela da manhã brilha intensamente. É um avião, diz. Pois é, que tolice. Afloro-lhe a testa com um sussurro. Até logo.
 
O táxi desliza pela humidade do asfalto. Rádio Amália. Os acordes do Barco Negro, a voz, a imagem de David Mourão-Ferreira intercalada nas luzes fugidias da rua.
 
Expiro profundamente. Reinicio-me. Ligo todos os sentidos.
Chegou ao seu destino, diz o som mecânico.
É muito provavelmente a mais pura das verdades.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (27)

por Maria Dulce Fernandes, em 21.07.19
As Palavras
 

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Queria poder ensinar as palavras que aprendi.
Queria saber explicar a doçura das palavras, a sua música, a sua luz, a sua força.
Não encontro palavras que contem a história das minhas palavras de menina.
 
As letras estão lá, alinhadas em conjuntos que formam frases, mas as frases não têm delicadeza, nem carinho, nem alegria. São fracas e sem sentido, pintadas com sucessivas camadas de uma força fraca como um verniz que lasca e se desprende e parte em mil pedaços.
 
É o que faz insuflar palavras com raiva. Troam e retumbam, mas são feias, ocas e vazias. Não dizem nada, não ensinam nada, não têm amor.
Não há poesia sem amor, nem homens sem poesia. O mundo será um deserto de gente afásica porque não tem palavras para amar.
E lá longe, no horizonte indefinido das palavras justas, talvez um dia as letras formem a palavra luz.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (26)

por Maria Dulce Fernandes, em 19.07.19
O Borrão
 

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Divago no vácuo do olhar que preguiça, volto a olhar e não me chegam os detalhes, não os sinto, não me falam. Baixo a mão desanimada que segura o pincel e reparo que os braços disformes que marcam o tempo indicam que já passou muito.
 
Que perda de tempo estar a olhar tanto tempo para o vazio, para aquela terra de ninguém, onde nem as ideias se esboçam arquitectadas em pensamentos ou fantasias.
 
Também quem me manda aceitar pintar ideias dentro de um prazo?
 
Eu que nem sei a forma que um prazo tem e agora há prazos para tudo. Como garantir que não pintarei qualquer ideia já fora de prazo dentro do prazo que me deram?
 
Comecei bem, cheia de ideias. Chegavam-me aos molhos, em  catadupas, ouvia-as fervilhar-me ao ouvido, bem dentro do pensamento. Depois foi-se instalando a inevitável inquisição sobre a qualidade, a prioridade, a assertividade, a originalidade,  a validade... sobre toda e qualquer idade em que se cria e desenvolve uma ideia...
 
Pincelada aqui, dripping ali, frottage acolá, a ideia foi ganhando cor e dimensão. Durante breves momentos,  cheguei a senti-la corpórea e poderosa.
 
Deve ter sido uma noite desesperada aquela em que não consegui segurar a ideia e ela desapareceu.
 
Agora para aqui estou, a olhar o infinito na parede crua meia dúzia de palmos à minha frente, presa a um pincel de tinta escura,  a criar profundidades tristes como abismos vagos de ideias.
 
Ping!
 
Então? Então? 
 
Ainda entorpecida pela inacção, noto que um pingo negro se desprende displicente mas veloz do pincel que equilibro relaxadamente nos dedos.
 
Olho, procuro, vasculho... nada!
 
Atento na coluna da direita do blog, onde estão os versados nas letras e noto uma ténue sombra. Pode ser apenas ideia minha, mas o marafado do pingo fugiu por um link. Esperto que só ele, pensou que poderia esconder-se naquela floresta densa e colorida de ideias, ideais e opiniões, megalómano como ele só, cogitou no seu íntimo que uma mancha poderia ascender aos píncaros da cultura em toda a sua magnitude. Que mesquinhez querer elevar um borrão ao estrelato!
 
Encontrei-o anichado entre os autores, a tentar acinzentar-lhes a prosa, não fosse para tal necessário muito mais do que uma simples nódoa. Esmaguei-lhe a intenção com a manga da camisa. Não causara dano.
 
Foi então que a ideia entrou de rompante, como aquele pé de vento naquele domingo à tarde que virou tudo de pantanas e ninguém deu por ele:
Vou pintar esta ideia sobre a ascensão e queda de um borrão egocêntrico, insolente, prepotente e atrevido, sobre uma nódoa de alma de sombra negra em todas as suas nuances e tonalidades.
 
Grande ideia esta!
Até já lhe sinto as cores! 
Aposto que nunca na história da humanidade surgiu ideia mais original!

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (25)

por Maria Dulce Fernandes, em 17.07.19
Sangue oculto
 

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Diz-se que o sangue fala mais alto.
O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.
Diz-se que tudo é uma questão de sangue.
O meu é um banalíssimo ORh+, nem sequer o factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.
Diz-se que o sangue lava a honra.
Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida... E afinal o que é a honra? Não pode ser uma fénix, porque se esfumou e não renasceu das cinzas.
Diz-se que sonhar com sangue é desgosto
Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.
Diz-se "Sangue do meu sangue"
Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.
 
É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, sensaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte. 

Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que  exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da  imaginação que  irriga constantemente, incansável e diligente.
 
Há quem tenha sangue azul; o Pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.
Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.  
Não faz mal, fica meu e só meu e mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados neste corpo sem poder sair

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (24)

por Maria Dulce Fernandes, em 15.07.19

A Luada

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Sou de luas. Desde tenra idade que o Homem na Lua me mirava com olhar reprovador sempre que fazia alguma traquinice, dizia a minha avó. De dia não havia lua, por isso podia fazer todas as maldades que ninguém via, mas a avó dizia que sim, que havia lua, que ela estava lá sempre, só que se escondia para me testar.
 
Sou de luas. Sempre me guiou no escuro da noite, quando os candeeiros eram esparsos e os néons só nos filmes.

Sou de luas. Quando a luz reflectida no mar guiava os barquinhos até à praia onde se puxava a rede e o peixe cintilava sob o luar como irrequietos pedaços de prata.
 
Sou de luas. Certinhas, contadas ao dia, acompanharam cada nascimento, cada brotar de vida que dei de mim.
 
Sou de luas. Como me instruiu a Bisavó Júlia, que aprendera com a sua bisavó, o que a ela lhe ensinaram os que foram, ofereci os meus rebentos à bênção da lua entoando os dizeres pagãos cuja origem se perdeu na noite dos tempos:


 

  "Oh Lua, oh luar,
Aqui tens a minha menina,
Ajuda-me a criar.
Eu sou a mãe, tu és a ama,
Dá-lhe tu o colo,
Que eu lhe dou a mama."
 
 
 
Sou de luas. Sei que me agita, que me altera, que me alvoroça. Comparsa de perenes noites insones, é a ela que conto os meus segredos, aqueles que nem eu própria conheço, que são reclusos da minha aresta lunar, aquela que nunca limei, a mais selvagem, mais agreste, mais bravia.

Sou de luas. Tenho por ela o mesmo fascínio que encantou escritores e poetas, embalou doces paixões, belas e horrendas metamorfoses, e viu o homem crescer do nada e tornar-se humano à luz da Lua.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (23)

por Maria Dulce Fernandes, em 11.07.19
Sossego
 

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Irrompem com a fúria da madrugada que se torna manhã, vêm às catervas, aos bandos, dezenas, centenas, milhares, turbas alacres numa arrazoada constante, numa babel de sons e tons, dialectos, cores e formas.
São a música de fundo da minha vida, a trilha sonora do filme no qual sou a actriz principal e eles, os actores secundários que todos os dias me invadem o olhar e o ouvir, são como anti-corpos batalhadores, travando constante e feroz combate contra o antígeno da calmaria, até o conseguirem erradicar por completo.
É neste mar revolto em ondas de caos organizado que passo os meus dias, é aqui que o tal tempo que me acompanha tem lugar cativo e sorri para mim, desdenhoso da minha azáfama, do meu cansaço, da minha confusão.
Despida a couraça que me cinge e avara de paz, busco o meu soldo para correr à locanda mais próxima e me embriagar com solidão. Tomo-a avidamente, encharco-me nela, em goles fartos, sequiosa, apressada, temerosa que não me chegue... quero mais e mais, até deixar de sentir, até me invadir aquela dormência sonolenta da inconsciência que chega. As pessoas são vultos borrados e escuros, as luzes, pequenos pontos que se desvanecem e o som, lento e desfasado,  enrola-se  na ressonância do silêncio e desliza num mutismo de acordes surdos até calar por completo a voz.
É no entorpecimento que me encontro; oiço a minha voz e abraço-a com força, com aquela saudade de quem se sente distante e só no meio de um dilúvio de indivíduos ecléticos e cacofónicos, todos os minutos de um tempo que ainda é seu.
Como um náufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (22)

por Maria Dulce Fernandes, em 07.07.19
O Inverno e o descontentamento
 

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Mais um dia que amanhece chuvoso e triste. Este Inverno tem chorado todas as mágoas da sua vida e da vida de outros invernos que antes dele se limitaram a ser cortantemente frios e ventosos.
 
Pela janela embaciada, aceno à minha mulherzinha que caminha debaixo de chuva apertando o passo, como se fosse possível com a sua aceleração escapar ao aguaceiro. Obrigações de estudante que toma sempre muito a sério. Este será o último ano, queira Deus e estude ela.
Lembro-me dos meus tempos de lente aplicada. Nunca fui uma estudante portentosa como o Mano, que era raro estudar muito, aprendia por osmose, ria eu. Bons resultados comigo era diferente, obrigava a muitas horas de estudo, muitos apontamentos, muitos livros. Só os estrangeirismos me pareciam  naturalmente fáceis, sendo  óbvia  a escolha de área.
 
Confesso que fiquei desapontada quando vi a professora de Inglês. Baixa, magra e esquálida, com uma cabeça levemente desproporcionada onde pontuavam uns enormes e atentos olhos escuros, a Professora Rosário não correspondia minimamente à minha ideia duma professora de línguas. Pior foi ouvir-lhe o tom tão pouco britânico com que fazia questão de se pronunciar, sempre em inglês. Detestei-a no momento em que nos "anglofonou" os nomes própriops e nos chamava aquelas coisas sem sentido algum.
Detestei a sua maneira de ensinar, os testes que deu, as dezenas de livros que nos obrigou a ler na língua materna do autor, a sua rigidez e intransigência, os poemas que tínhamos que decorar diariamente... francamente acho que detestei aqueles cinco anos de Inglês que tive com ela, tediosos, sufocantes, cargosos, exigentes.
 
Passadas décadas desde a minha última aula com a Professora Rosário, olhando em retrospectiva tudo o que contrariada com ela aprendi, recordo a sua imagem com um sorriso e a imensa gratidão de alguém que ainda sabe de cor a Nurse's Song de William Blake e tantos outros poemas e citações de tantas dezenas de autores,  à força de os recitar vezes sem conta (algumas a título de reprimenda por alguma impertinência - como conversar na durante a aula ).
 
Agradeço-lhe tudo o que me ensinou sem eu ter consciência de que queria aprender, porque, diferentemente de outras matérias, de outras aulas, de outros mestres, esta foi luz que nunca se apagou do meu conhecimento.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (21)

por Maria Dulce Fernandes, em 03.07.19

Maluquices

 

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Todos temos a nossa dose de loucura, com a qual passamos a vida toda a tentar rastrear, conhecer, manobrar, enfim encontrar habilidosamente o melhor modo de com ela conviver.
O que é que nos faz diferentes e ao mesmo tempo tão iguais não é o conhecimento, nem a aptidão, nem a agilidade, mas sim a capacidade de controlar o animal que somos, de domesticar a selvajaria que nos assola, de reprimir a raiva que nos sufoca. O ténue verniz da civilização que nos reveste estala ao mais pequeno toque e a bestialidade que vive sob o polimento solta-se e vocifera e mata e esfola e grita e espuma e arranha…

É a loucura total.

O que é que nos faz rir incontrolavelmente de coisa nenhuma, o que é que nos faz chorar convulsivamente por rigorosamente nada, o que é que nos faz gritar desvarios a plenos pulmões sem qualquer razão?
Na era da tecnologia, onde tudo está ao alcance dum clique, ainda não há como medir a loucura e o clique é por vezes o bastante para virar tudo de pernas para o ar.

Se eu hoje aventar uma opinião considerada polémica, sou rotulada de louca. Amanhã, noutra latitude, a mesma opinião, com toda a controvérsia inerente, pode ser considerada uma tirada genial.

O louco mais louco, debaixo da sua capa de sanidade, é provavelmente menos suspeito de ser louco do que os reconhecidamente loucos, que não tentam sequer esconder a sua loucura .

Costuma dizer-se que a genialidade e a loucura andam de mão dadas, numa roda talmente acelerada em que o olho incauto não capta a noção de quem é quem ou o quê.

O EAN/UPC de um cérebro em série ainda não traz um dígito de verificação funcional.

Pessoas há para quem escrever é catártico e um modo de expurgarem os delírios e se resolverem em paz com a  própria loucura.

 

"A ciência não averiguou ainda se a loucura é ou não a mais sublime das inteligências." – Edgar Allan Poe

 

(Imagem retirada da internet)

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (20)

por Maria Dulce Fernandes, em 30.06.19
 
Dreamcatcher
 

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Descer o Aconcágua  não é para meninos. Um desafio para onde se vai derrotado à partida, não é um desafio, é um suicídio de carácter, um apelo à depressão, o reconhecimento duma incapacidade de que se desconhece a deficiência. Partir com baixas expectativas e atingir o objectivo é superar-se, é deixar o ego elevar-se até ao cume, lá onde a altitude te prega partidas e te leva a sobrevoar Titicaca no dorso da Grande a Serpente Emplumada até Chichén Itzá aparecer imponente recortada  no  dourado e laranja do pôr do sol.
 
Três dias depois da ressaca da hipobaropatia, o gelo da Terra do Fogo quebrava-se sob os meus pés molhados e inchados, como cascas de amendoim numa tasca rançosa na Route 66, onde depois de duas cervejas e um shot de tequilla o norte e o sul rodopiam agulhas sem magnetismo, dentro daquela bússola tresloucada a que chamamos cérebro e que norteia os nossos passos, quantas e quantas vezes rumo ao meridião.
 
Encontro-me amorfa e mole a seguir um tipo com uma lanterna, embrulhado numa manta escura com a aura delimitada pelo vapor do próprio bafo na noite gelada. 
Deixou o sendeiro à entrada da casa baixa de pedra e lama de adobe, como o teria feito Paul Revere enquanto 39 homens, à luz de muitas velas acesas pela discussão, signavam a mudança num papel fibroso. 
Lá dentro o ar era quente e pesado, saturado de pisco e guano, mas o ceviche do grande peixe de Santiago que comi, sentada no chão junto ao lume crepitante enquanto Manolín contava histórias do mar, soube- me pela vida.
 
Cá fora os diamantes do cruzeiro do sul brilhavam contra o veludo azul de um céu de paraíso, onde uma lua redonda como um imenso queijo disparava raios de luz em todas as direcções, conferindo aos gelos glaciares uma cor opalina e um brilho irreal. Lembrou-me Opar, onde as mulheres são belas e os homens simiescos e alguns elos inferiores, onde o mistério espreita em cada pedra e em cada folha e a água do Nilo cai azul em terra de homens sem lei nem alma. Lembro-me do bar que o Dr. Livingstone tinha na margem do Lago Vitória onde serviam os melhores gins tónicos do mundo, perfumados com as neves do Kilimanjaro, que me deixavam de quatro na manhã da minha vida, como rezava o enigma. Mais um sonho que se tornou insolvente e faliu de tristeza e incompreensão.
 
Fui dormir, ou pelo menos tentei fechar os olhos, mas a ideia de Cibola bailava como um cisne de ouro não me dando paz. Estava tão perto ou longe demais, não fazia ideia. 
Sabia que o dourado sol nascente traria Esteban e o grande condor, e aí a aventura recomeçaria, exactamente no ponto onde a imaginação vibrante de alvoroço a tinha deixado.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (18)

por Maria Dulce Fernandes, em 27.06.19
Pingos de memória
 

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As gotas de água caiam esparsas mas pesadas, ploc ploc, no nariz, na cabeça, na boca aberta, escancarada num meio sorriso que me rejuvenesce meio século.

 

Algures nas entranhas da mala que me oscila no ombro, aquele alforge de bufarinheiro que me é tão característico, conservo trezentos e sessenta e cinco dias por ano,  um projecto de guarda-chuva, encolhido e amarfanhado. "Nunca se sabe", digo, quando me criticam ... é bem verdade que a mala pesa arrobas e que eu não sei precisar com exactidão o que por lá vai...

 

Penso um nanososegundo e continuo à chuva.  - A senhora quer "boleia" no meu chapéu? - Não, pequeno, obrigada, estou bem assim, faz-me remoçar. Ele riu... remoçar, pois sim.

 

Preguiça ou vontade de me molhar? Nem eu sei ao certo, mas que sabe bem... uma poça à frente, pulo? Ora, se já estou molhada, porque não ? Fico encharcada até aos joelhos. O rapaz olha para mim atónito ... nunca, mas nunca... que coisa esta !? - Quer esperar aqui enquanto vou buscar o carro ? Ficou lá em cima no largo. - Não, vou contigo, não quero ficar aqui sozinha à chuva a esta hora da noite. - Mas é sempre a subir.  - Não faz mal, a caminhada faz-me bem.

 

Respirei fundo e arrepiei caminho, calçada a cima. Tentei acompanhar a passada. O rapaz é maratonista e eu apenas anafada... controlar a respiração... não sou atleta, cruzes... Inspira pelo nariz... expira pela boca... raio, será que o maldito carro ainda está longe ? Isto de não dar parte de fraca é complicado.

 

Trauteei mentalmente o " Joana come a Papa", provavelmente por ser um, dois três, uma colher de cada vez... Finalmente ! Deslizei o mais levemente que consegui para o banco. A música metálica jorrava rádio afora e os decibéis  disfarçaram o abalo de Richter provocado pelos meus batimentos cardíacos. 

 

O carro cheirava a novo e eu a saltar pocinhas... não admira que o rapaz olhasse de lado aquela mostra de infantilidades nimbosas.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (17 )

por Maria Dulce Fernandes, em 25.06.19

Anatomia de Gray

 

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Depois de mais uma noite com o jetlag resultante da falta de repouso a reaparecer assim do nada, como um post-it do subconsciente a relembrar que as intermitências do descanso e do cansaço andam de mãos dadas e são inseparáveis univitelinas, saltei do calor que já sentia quente demais para a amenidade do tapete afegão, provavelmente contrafeito em Taiwan e vendido aos incautos com um preço promocional fantástico, um autêntico negócio da China, como acreditei na altura.

 
Bem empantufada, dou de caras comigo a olhar para mim, com uma expressão de desdém trocista como que a chamar-me a atenção para a minha própria figura de matrona de cabelo grisalho desgrenhado, encafuada num robe polar, por cima de um pijama polar , pálpebras inchadas e boca seca,  numa  ruidosa tentativa de fazer entrar algum ar pelas fossas nasais intumescidas com a proverbial sinusite ... um figuraço.
 
 Confuso, o meu Dorian Gray olha-me do alto, fabuloso nos seus 18 anos de mulher esbelta de grandes olhos castanhos e farta cabeleira escura . Deve sofrer horrores todos os dias, sem conseguir perceber qual o passe de mágica ou o bruxedo que resultou naquela deformidade, sentindo que lhe trocaram as voltas, pois pemanece imutável na memória.
 
Acode-me a lembrança das vaporosas camisas de noite em cetim negro, delgadas como um traço fino num retrato a carvão.
Sorrio para mim, com aquele sorriso conformado de quem sabe que não pode alterar uma escultura que o tempo vem cinzelando devagar. Tentar mudar-lhe a forma, seria descaracterizá-la por completo e não representaria a mim própria nem a ninguém. O escultor de fim de ciclo  tem até o trabalho facilitado na representação do meio-esférico tubérculo que presentemente me retrata.
 
Se eu pudesse escolher ser alguém diferente, tenho a forte convicção que escolheria ser eu própria, com o meu mais de meio século nas ancas, com todas as partidas que a força da gravidade me pregou, com os mesmos olhos castanhos que não perderam o brilho e falam com quem os souber entender e com todo o saber que de tanto não é nada na realidade, mas que me faz sentir feliz de o saber comigo.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (16)

por Maria Dulce Fernandes, em 23.06.19

Fazer nada é a felicidade das crianças e a infelicidade dos velhos.
 
V. Hugo

voce-nao-tem-que-fazer-nada.jpg

 

Quem nunca deu de caras com o ponto G da ruptura emocional e psicológica, que atire a primeira pedra. 
 
Não me digam que se resolve com uma boa noite de sono. Desconheço o conceito há bastante tempo. Talvez nunca o tenha verdadeiramente conhecido. Muitos são aqueles cujo espírito sossega durante as horas de descanso, mesmo que poucas sejam, vá. 
Eu sou da raça que passa esse mesmo tempo em bolandas e correrias, em diversos e estranhos lugares, sempre com muita gente e em situações bizarras, algumas tão reais que me empurram para um acordar desnatural, extravagante até. Creio que foi sempre assim. 

É claro que é absurdamente fácil alcançar o estado de oblívio total, mas tornamo-nos tantas vezes tão convencidos, desleixados e auto-indulgentes quanto à habituação aos meios que nos conduzem aos fins, que criamos aquele ouroboros de continuidade: não descansamos enquanto não abraçarmos o descanso e nunca alcançaremos o almejado descanso se não pudermos descansar.
 
Não há dia que passe, que num qualquer momento, a uma qualquer hora, um qualquer acontecimento não me leve a vegetar pelo delírio das improbabilidades. Olho para as mãos, conto os dedos pela enésima vez e tento convencer-me que afinal já não falta muito, falta é chegar lá.
 
Uma vez estabelecida a meta, o pódium de toda uma vida de trabalho, o tempo, que sempre correu célere sulcando profundamente o rosto com a marca da sua passagem, esse mesmo, sempre tão apressado em nos carregar a experiência com anos em cima  de anos, dá-se ao desfrute do remanso para nossa exasperação. 
 
Enquanto aguardo remetida à desvantagem e ao desfavor, cogito sobre os prodigiosos anos dourados ainda no reino do porvir, mas que suscitam ânsias e impaciências sem fim. Irei finalmente poder colher os pomos das hispérides plantadas e cuidadas por minhas mãos durante anos de labuta, e cujo néctar me libertará enfim para realizar os prodígios globais que sempre me motivaram a prosseguir com o meu caminho e a carregar a cruz dos meus dias maus.

Atentando bem na realidade,  todos os meus objectivos são simples, por serem fruto de uma mente simples e pragmática. Coisa para três, quatro anos... 
Cuida-me que em tendo realizado os meus propósitos, ainda me ouvirão lamuriar de insatisfação por não saber o que fazer com o tempo que me sobra e que, qual saco sem fundo, nunca consigo preencher a meu contento...

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (11)

por Maria Dulce Fernandes, em 16.06.19

Ser belo

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A beleza não é essencial à vista, diz o escritor, mas também é certo que o povo é sábio quando afirma que os olhos também comem... aliás as primeiras impressões, nem sempre são as mais correctas , mas são as que se encontram em primeiro lugar no pódium das considerações que tecemos durante a fugaz lonjura dos dias da nossas vidas.
 
Os teóricos do caos falam do efeito borboleta como o princípio de um encandear de situações que poderá levar à aniquilação total e de como a  fragilidade de uma simples variável adaptada a sistemas dinâmicos e complexos pode influenciar as não-linearidades do conhecimento.
 
Falo do efeito borboleta como um instável mas constante procurar pela exaltação do sublime, numa transformação do grotesco no belo, na apoteose da leve magnificência de um ser efémero que só deixa a suave marca da sua infinita beleza,  num mimetismo polifórmico num mar flutuante de cor.
 
Qualquer um é a lagarta que tece o casulo e se resguarda , que espera pacientemente na crisálida que da pupa  aconteça o imago, que aguarda resignadamente a lenta metamorfose, para num apoteótico clímax de fascínio, mostrar ao mundo o  encanto e a majestade em todo o seu esplendor.
 
É com borboletas no estômago e alegria na alma que nos deslumbramos com a grandiosidade do frágil encanto. Prende-se-nos o olhar e a respiração, sentimo-nos sufocar e deixamo-nos ir,  desvanecendo com os sentidos, enquanto uma voz do fundo dos tempos nos ecoa e aturde, como um alfinete embebido em éter " Quid pro quo, Clarice, quid pro quo".
 
 ( Foto da internet)

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (8)

por Maria Dulce Fernandes, em 01.06.19

Redacção :

Gosto de viver nos livros. 

O livro é aquele companheiro silencioso que tem o poder de te abstrair do espaço e do tempo, de te transportar na crista de uma onda, cabelos ao ar e borrifos salgados de mar e sangue, alvoroço e aventura,  por entre troar de canhões,  gritos e mastros quebrados  que tombam  gementes, arrastando consigo as cruzes derrotadas, trapos rasgados e sujos que o orgulho oco não insuflará mais.  

Os meus livros falam comigo. Abrem-me portas para o espaço brilhante de nebulosas prenhes de mundos esdrúxulos tão atípicos e monumentais como as criaturas que neles habitam e que, como o livro que seguro, comunicam sem falar, sem som nem movimento,  límpida e cristalinamente como se eu fosse um náufrago sequioso de saber e o conhecimento a única panaceia.  

Aquele terceiro acolá na estante, acompanhou-me na caravana de mercadores que atravessou meio mundo até Cathay e Manji; dois tomos a seguir sorri-me o que me levou à ilha dos homens pequenos e de regresso pela terra dos gigantes. Na prateleira de cima sinto o cheiro das Ramblas à noite, de Macondo ao entardecer, e oiço o pregão das Bahianas coloridas com perfume de cravo na areia do Agreste. 

Baixo-me e retiro o último do transmontano dos países baixos, que me intriga pela objectividade da escrita, que me faz sempre pensar em biografia, sempre, sempre que o leio. 

Lá no alto, inacessíveis e ostensivos, estão os grandes. Os maiores em tamanho e preferência também. O que canta o peito ilustre lusitano ao lado duma série de lombadas iguais em cor e diferentes em tamanho, todos da família daquele  que nos mostra o interior austero do Ramalhete. Com um pequeno busto do cego a separá-los ressalta a sua própria obra épica, bem como o clássico do romano que lhe dá seguimento. Este último confidenciou-me que o amor é algo terrível, que destrói corações e leva à loucura e à morte. Os russos, na prateleira abaixo, confirmam que sim,  que a confidência do colega é exacta, basta lê-los também.  

São tantos, tão  interessantes e fartos no saber das coisas que  contam, que me encantam e fazem desejar mais e mais, cada ver mais, dezenas, centenas, muralhas de cultura e fantasia, camaradas de muitas horas,  amigos de sempre. 

Os meus livros falam comigo, são meus confidentes, contam-me coisas, fazem-me rir, chorar, ficar suspensa dum gesto, reter a respiração, acelerar a pulsação, vibrar o coração. 

Viver nos livros é poder viver muitas vidas, é enganar o tempo e renascer continuamente no mar, nos céus, nos desertos, com o sol ou com a lua, em descrições tão vivas como quadros renascentistas ou fotos de alta definição. 

Sem palavras com falas audíveis, sentimos apenas o feitiço e a emoção que te sussurra ao olhar enquanto a seguras e avidamente lhe mudas a página. 

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (6)

por Maria Dulce Fernandes, em 25.05.19

Carrossel 

 

A música não é sequer musical, não é melodiosa, não flui no ar como bolhas de sabão que reflectem rostos contentes e arco-íris de satisfação. É mais um som de ruidoso contentamento, misturado com tinir de vidros e porcelanas, risos e choros de crianças, gargalhadas e reclamações de indignação. 

A luz é doce e difusa, entrecortada permanentemente pelas sombras dos que sobem e dos que descem, sombras grandes, pequenas, largas, estreitas, amargas ou confortadas.  

É a magia do carrossel, no seu esplendor centenário, que atrai as idades como insectos para luz, em filas intermináveis e ordeiras, todos expectantes e entusiasmados, todos contando os minutos ao segundo, todos desejando chegar rápido a sua vez de subir no carrossel. 

 
 A velha que carrega no botão olha-os a todos já sem os ver. São tantos, tantos anos, tantas caras, tantas vozes, tantas e tão diferentes auras de emoção. Vão entrando e ocupando os lugares, a cavalo num alazão de madeira, numa girafa ou num leão, numa carruagem sem corcel, numa chávena de chá que rodopia incessante. A velha faz soar a buzina e começa mais uma volta. São minutos de deleite em que a realidade fica à porta e a fantasia se segura pelas rédeas daquela crina de palha. São momentos para saborear, para degustar com a sensibilidade e a pureza da infância, que se intromete por um instante e abafa a acrimónia da soberba e a alienação da existência. 

 
 A velha não precisa de ver para saber. O carrossel é antigo, mas é sólido. Como qualquer carrossel que se preze, ondula pelos altos e baixos do seu percurso fixo naquele mastro central, transportando os seus passageiros num arrebatamento de doçura e emoção, com pequenos objectos espelhados,  reflectindo trejeitos mélicos de bulício colorido e adocicado. 

A velha sabe que os tempos são outros e que todos querem a atenção dispensada a monarcas, sentar-se em tronos de reis, que as vénias não demorem e que se lhes afague o ego com aquele unto repelente que segregam e os torna semi-deuses no seu feudo particular. 

 
 A velha sabe que não há tronos no carrossel. É para todos, para todas as bolsas, para todas as cores, para todas as greis. Mas a velha também sabe que a ilusão da felicidade se obtém em dando a todos o que cada um pensa que o faz feliz. É por isso que a velha murmura, sorri e inventa tronos em montes de pedras. 

 
 Dias há em que os auto-reis se creem sentados no carrossel em cadeirões magistrais de veludo bordado a ouro. Então a velha sabe que esteve bem, apesar de não poder deixar de pensar no quão ocas e tristes de viver serão aquelas vidas arrogantes. 

 

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (5)

por Maria Dulce Fernandes, em 18.05.19

Três Ratinhos

 

Noite tranquila desconheço o que é há bastante tempo. Presumo que seja o que  acontece quando uma pessoa se deita, dorme mais do que 4 horas e acorda leve e saltitante. Pode parecer mais estranha do que ficção, mas a verdade é que há muito, muito tempo, fui senhora de dormir 10 horas seguidas e chorar por mais. 

 

O despertar da casa começa por volta das cinco e meia e leva-me com ele a reboque. Consigo quase sempre ganhar ao despertador. Ainda ele está no primeiro sono e já eu bailo o fandango dos minutos e das horas até soar a alvorada, suave e calma com toda a beleza com que Grieg a pintou.  O guinchar do moinho do café torna-se uma bela melodia, o aroma espalha-se languidamente pelo ar e o sabor quente, amargo e forte é uma secreta fonte de prazer. 

 

Com a chávena fumegante na mão olho a rua pela janela.  É noite ainda, mas eles já lá vêm, a mãe com os três pequenos que uma carrinha branca amolgada cheia de gente deixa ao fundo da praceta. O veículo segue e eles sobem a ladeira íngreme que dá acesso ao prédio. São três, os pequenos. Parecem uma escadinha. Vejo-os muitas vezes no hall do prédio quando saio para trabalhar cedo, mas não sei se os vejo realmente. Limito-me a um "Bom Dia" ao qual a mãe responde sempre com um alvo e escancarado sorriso, os mais pequenos com um resmungo ensonado .

 

Hoje olhei com olhos de pensar. O mais pequeno já anda pelo próprio pé, mas ainda há bem pouco tempo carregava-o a mãe e as irmãs ajudavam com os sacos. A mãe entra no prédio às seis e meia da manhã e sai muitas vezes já se pôs o sol; o pai está para França, a trabalhar na construção porque lá pagam pelo trabalho que faz. Cá, já por mais do que uma vez que o dono da empreitada abandona o país levando com ele o pão das famílias dos que deram ali o seu suor. Moram naqueles bairros projectados, espécie de ghetos de marginalidade, onde mesmo que sejas bom, tens que ser um artista da sobrevivência. 

 

Oito e quinze e lá vão os três para a creche de mão dada, o bebé no meio. A mais velha não tem mais que sete anos mas é ela quem manda. Hoje não chove e vai a cantar, alegre. Lê-se-lhe no olhar infantil a determinação de quem foi incumbido da tarefa mais ingrata que existe : proteger os mais novos dos males do mundo, das agruras que se escondem no caminho, em cada esquina, em cada sombra. Tão pequena e já tão grande. 

Acenam à mãe que da janela os vê seguir ladeira abaixo, pequeninos e nervosos como três pequenos ratinhos. 

 

Volto-me de novo para a máquina de café e carrego no botão. O som do moinho, tão musical há alguns minutos atrás parece agora um horrível grasnar dum disco riscado, mas o café continua a saber pela vida e arranca-me aquele sorriso de satisfação que eu reconheço um tanto deslocado. Mentalmente desejo-lhes bem e vou à minha vida. 

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Instantes em sépia, com capa de muitas cores (4)

por Maria Dulce Fernandes, em 14.05.19

Hoje a Lídia veio tomar café comigo. É uma espécie em extinção, esta das colegas da escola primária, especialmente quando somos pessoas algo antigas, não declaradamente clássicos artefactos de museu claro está, mas peças daquelas que ainda se conseguem encontrar se se procurar bem, em alguma loja de antiguidades na Rua de S. Bento. 

Falámos de coisas que tinham tanto pó e teias de aranha, que foi uma risota conseguir restaurar-lhes algum do antigo brilho.  

Falámos como crianças, de como crianças de 8 anos se divertiam com...nada! É uma verdade paradigmaticamente prodigiosa! 

 Veio logo à ideia a natação, as peripécias, os mergulhos, o espalhafato… A natação que, como diz a letra da música, era obrigatória na instrução primária nos externatos particulares. Uma piscina na altura era o expoente máximo da riqueza e do estatuto social de alguém.  

Os afortunados de Belém/Restelo que podiam pagar, tinham acesso a um lago, tina, qualquer coisa com água e peixes, que devido à sua densidade e cor, era carinhosamente apelidado de "Caldo Verde" e fazia parte dos lagos exóticos do antigo Jardim do Ultramar. 

 Foi lá que aprendi a nadar; primeiro a bater pés agarrada a um varão, depois com uma tábua, com um cinto...  

O professor de natação era um rapagão bem constituído que fazia as delícias das sopeiras e das amas e que dava pela alcunha de "Cochicho". Tinha um ponteiro de bambu comprido com que nos batia nos braços, nas pernas e na cabeça, quando não conseguíamos sincronizar os movimentos com as respirações. 

 Pelos padrões de hoje o Cochicho seria um espectáculo de homem bem trabalhado. Pessoalmente, sempre o achei feínho, como qualquer menina até aos 10 anos, para quem os padrões de beleza masculina eram os ternurentos e bochechudos querubins de olhos azuis e cabelos louros que revestiam as pinturas religiosas espalhadas por todos os recantos de todas as igrejas modernas daquela altura. 

 Acontece que no antigamente a educação Moral e Religiosa fazia também parte do programa lectivo e todas as alunas da minha classe aos Domingos de manhã, em jejum e de cabeça coberta, frequentavam as aulas de catequese que culminavam com a confissão a um padre, que antecedia sempre a missa e a comunhão. 

 Num desses dias depois da aula de catequese, dirigi-me ao  genuflexório bafiento e gasto que tinha ficado livre, e depois do "Padre , perdoe-me porque pequei", lá comecei a contar a minha semana ao indivíduo na sombra para lá das ripas de madeira. Acabada a confissão, soa uma voz aterradora, profunda e trovejante que me diz, " E o Cochicho, menina, o que é que tem a dizer sobre o Cochicho ?" Morri. 

 O drama, o horror, a vergonha, o medo... não sei explicar. Só podia ser Deus, porque nunca vira um padre na natação !!! ... e eu que até nem achava grande piada ao Cochicho ! 

 Aterrorizada, desatei num pranto, e foi necessária a intervenção da catequista para me tirar dali, levar para casa e entregar-me aos meus pais, informando-os da penitência em Padres Nossos, Ave Marias e Salve Rainhas, e que falassem comigo sobre os pecados mortais.  

 Assim que terminei os catecismos e as comunhões obrigatórias para completar a escolaridade imposta pelo regime, excepto em ocasiões de casamentos e baptizados, não voltei à igreja. Terminei com o jugo do medo, mas as cicatrizes morais, essas acho que nunca desapareceram. 

 A colega foi embora em abraços de saudade e eu quedei-me em pensamentos, a cogitar no Cochicho de quem nunca soube o verdadeiro nome, e na voz que tanto me atemorizou e que agora quem sabe não a reconhecerei como o tal de subconsciente, que também nunca conheci pessoalmente, mas que sei que tem tido muito que se me diga. 

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Instantes em sépia, com capa de muitas cores (3)

por Maria Dulce Fernandes, em 10.05.19

Finalmente! Diazinho complicado, este! Mais duas ou três tarefas rotineiras, começar a preparar o fecho e pronto! Acaba por hoje. Amanhã é outro dia.
Outra vez a porta! Um dia destes esgano o raio das campainhas. - Sim? Diz lá. - Posso falar consigo? - Claro , entra ! Então o que se passa agora? - Não é nada de trabalho. – Tudo bem, não te preocupes.
- É o João Carlos. Ele não me respeita. Agarra-me em frente a toda a gente e diz coisas ordinárias de modo que todos oiçam, sejam conhecidos ou não. Já tentei falar com ele, mas nem me responde, vira a costas e vai embora. Assim não consigo trabalhar.
- Olha, pequena, eu posso falar com ele, tentar minimizar esses atritos no trabalho, mas não sei se vai resultar bem, ou pelo menos como gostarias que resultasse. Tu sabias que irias ter uma luta muito grande pela frente, pela aceitação, pela integração e pela igualdade, verdade? O João Carlos é teu amigo desde a primária, foi teu padrinho de casamento e é “tio" dos teus filhos. Se a tua decisão foi um choque para todos os teus amigos, imagina para o João Carlos. - Eu entendo isso tudo. O meu psicólogo já trouxe o assunto à baila diversas vezes . Eu sabia e sei que não vai ser um mar de rosas, mas principalmente vindo do João Carlos, porque temos uma grande cumplicidade desde miúdos, dói mais que tudo o resto. – Ora aí está! Tu sentes-te revoltada porque ele não te aceita nem te apoia e o João Carlos sente-se revoltado porque se sente traído. Afinal ainda há bem pouco tempo os dois eram unha com carne, nas noitadas, nos copos, com as mulheres, no futebol, nas patuscadas… - Mas isso não era eu! Era uma versão de mim que eu detestava! Agora sinto-me completa neste corpo que não percebia, que me incomodava como se de uma prótese se tratasse. – Longe de mim prensar que mereces menos do que a versão de ti que te faz feliz, mas tens que pensar que o Manuel foi a única versão da Emmanuelle que o João Carlos conheceu a vida inteira e de que não vai abrir mão com o estalar de dedos que foi a tua decisão. De qualquer modo, vou conversar com ele acerca do seu comportamento no trabalho, mas isto não quer dizer que lhe vou abrir a cabeça , trepanar e transplantar ideias. Tens que dar tempo ao tempo. E não chores, caramba ! – Vou tentar… obrigada por me ouvir. – Sempre que precisares, pequena, vai tranquila.
Parece que levei uma tareia, caramba. Gosto dela, como gostei dele. Não quero nem posso deixar transparecer a dificuldade que tive em compreender. Aceitar, aceito sempre tudo aquilo que contribua para o bem estar, a qualidade de vida e a felicidade das pessoas boas. Mas não posso fingir que a revelação brusca Manuel/Emmanuelle não foi um potente murro no estômago do qual não me recompus, eu e toda a gente que com ela priva. Talvez tenha sido melhor assim. Terapia de choque, PTSD, sei lá.

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